19.12.25

A Gaffe infractora


Quando a minha irmã telefonou, com voz esganiçada, não entendi de imediato aquilo que se passava e, quando o fiz, espantou-me o seu pedido de socorro.
Não sou decididamente nada boa a socorrer quem quer que seja e no meio dos problemas alheios fico pasmada como um sapo no meio da estrada.

Com a ganância enfurecida, a minha irmã ao lutar por um lugar de estacionamento perto do idolatrado cabeleireiro, tinha raspado o carro no pequenino brinquedo conduzido por uma matulona que não se conformava com o risco digno da arquitecta, nem era seduzida pelo glamour da infractora que simulava arrependimento e desprotegida inocência.

Fui ver.

A minha irmã embaraçada, dava início à impaciência e à inevitável maçada que seria perder a tão marcada, tão apetecida, tão namorada, tão suspirada hora no seu cabeleireiro mais amado.
A senhora, de arreganhados dentes, tinha chamado a Óturidade e a Óturidade justificava todos os fetiches pelas fardas desgarradas e soltas neste vale de lágrimas.
De camisa azul que é quase céu, o boné com a pala rígida, pistola, cinturão, botas de cano, galões, divisas, cassetete duro e calças a alargar nas coxas e a arredondar o rabo, a afagá-lo, a desenhá-lo, a formatá-lo, a prometer prisões onde é bom morrer ou suspirar fechada.
Escanhoado a lâmina assassina, o maxilar quadrado e cinza de tão dura a barba. A boca desenhada com o lábio superior ligeiramente erguido e um sulco nasal onde é bom tombar e escorregar. Nariz direito, nervosas narinas e olhar castanho com pestanas negras e compridas.
Olhou para mim que a sorrir pateta não descolava os olhos do fardado. Sorriu também - os dentes tão perfeitos! - e com voz rouca anunciou:

- E eis que chega o sol poente disfarçado de mulher.

Olhei para os lados e olhei para trás. Não vi ninguém chegar e percebi, já lenta e apatetada pelo assombro, que se referia a mim o colossal exemplar de Óturidade.

De escaramuça resolvida, decido mártir assumir todas as culpas, desnudando a alma patética perante a Óturidade, pronta a rasgar as vestes, a obedecer, a perder a dignidade, a desmaiar deitada sobre nuvens.

Nenhuma rapariga resiste a um belo piropo bem fardado, sobretudo àqueles que são nitidamente proibidos.