Deixar esquecer.
Ninguém devia recordar. O esquecimento devia ser a porta da verdade.
Tive ontem o dia todo inteiro só para mim. Fiz dele o que quis, depois de o estrangular com uma fita de veludo, vermelha, amarfanhada.
Gosto de dias mortos, que não esperam por ninguém, deitados no chão, nus, ao abandono, com uma tira vermelha no pescoço como se tivessem as gargantas lancetadas.
* Pardon my french

Felizmente.
Das várias espécies de orgulho, apenas uma é salutar. As outras transformam-se a curto prazo em soberba. O orgulho é impiedoso. Não estanca deslumbrado perante o que fizemos, dissemos ou pensamos. Responde a uma exigência e nada mais é do que a confirmação do que somos, realizados naquilo que produzimos. Não nos considera grande coisa. Cumprimos o que esperávamos de nós. Torna-se implacável e quase assassino, disfarçado muitas vezes de abatimento e de opróbrio, quando falhamos. Faz com que o cirurgião, por exemplo, chore desalmado escondido numa retrete nauseabunda por não ter conseguido salvar o paciente e castiga-o de modo subtil fazendo com que se torne obrigatório ser o choramingas a comunicar a notícia àqueles que esperavam um milagre ou manipula a palavra profissionalismo enfiando-a na boca do polícia que nada mais faz do que cumprir um dever com a qualidade que se espera óbvia, protegendo a criança da sanha violenta do colega, mas que apesar de tudo é evidentemente maior do que a dos companheiros de infortúnio, espectadores inertes. O orgulho, o que vale a pena, é um factor de prevenção. Permite que evitemos cometer erros. Protege-nos. Ergue-nos, endireita-nos a coluna. Com a coluna erguida é muito mais difícil entrar nas caixinhas da traição, da mentira, da intriga, da mesquinhez e das tantas outras coisas que rastejam. O orgulho, o que vale a pena, não se ergue daquilo que fazemos, dizemos ou pensamos (talvez, nestes casos, dê lugar a uma vaidade que é sempre um fogo fátuo). É outro virar de cabeça para trás. Olha o que somos em retrospectiva, porque sabe que somos sempre uma fusão do passado. Geração atrás de geração, atrás de geração, atrás de geração, mas indiferente ao facto de chegarmos até Napoleão ou pararmos no avô que nos pariu, o orgulho adquire neste recuo uma das suas componentes imprescindíveis. A vergonha.
É este orgulho facetado que impede a desonra de aviltarmos o que se reflecte no espelho quando nele tombamos. Não somos Alice num país de maravilhas, somos os que nos precederam todos juntos e o orgulho sabe que só o passado é eterno.
No entanto, de mim parte a
nostalgia de me ver quieta.
Sou, movendo-me, e no ser que
existe sendo, há o mimetismo dos insectos que de quietos são, parecendo outros.
E no entanto, as primeiras criaturas que reconheceram
a sua mortalidade foram as primeiras a sorrir.
A Gaffe decidiu adoptar a atitude da Rainha Vitória - quando se negou a assinar a legislação que penalizaria as lésbicas -, em relação a todas as criaturas que confunde sempre com abjectos resquícios do abominável.
Tal como Sua Majestade, a Gaffe é muito clara, simples, definitiva e peremptória:
- Tais coisas não existem.
Causa-lhe imensa perplexidade o famigerado Like do
Facebook.
A Gaffe fica confusa quando verifica a quantidade de gente a
gostar da morte de Michael Fox. Compreende que o actor ao longo de décadas
tenha muito devagarinho criado anticorpos, mas não acredita que
exista alguém que aprecie o seu falecimento.
A Gaffe fica espantada quando verifica que há mais gente a
gostar da tragédia de Gaza do que a quantidade de entulho que por lá ficou e
que ama várias vezes o arrasar dos templos lindíssimos da mesma forma que
atribui um like quando vê Trump a arrasar tudo o que vê ou que mexe.
A Gaffe não entende que a porção de gente que gosta do
atropelamento dos peregrinos de Fátima seja maior do que o número dos que ainda
vão a caminho.
A Gaffe também não compreende a multidão
de like debaixo das orações que logo de manhã uma senhora vai
santamente espalhando, a abençoar o dia e a exaltar o Santo Nome do Senhor, mas
confessa que, não vá o diabo tecê-las, já apôs o seu favoritismo numa reza onde
se suplicava a Santa Teresa de Ávila um anjo encorpado como aquele que a
trespassou.
A gota de água que fez vazar o copo desta incompreensão foi
a manada de like apensos à fotografia de William de Inglaterra e de
Kate Middleton aquando da expulsão do rebento de Isabel a segunda, que de tanta
volta no túmulo, escapou para se vingar.
Gostam de quê?!
Dos incisivos de William que crescem à medida que a testa
aumenta?
Do ar de sopeira arranjadinha da Princesa?
A Gaffe recorda que, pelo andar do coche real, daqui a
duzentos anos o casal fotografado será, por ancestral direito, soberano de
Inglaterra e sublinha que até a plebeia Charlene de Mónaco, que teve
gémeos, os pendurou na varanda com muito mais glamour, mesmo com
aquele sorriso de quem está com diarreia e não quer que o povo saiba, e sem
lhes dar colo, como quem foi às compras e agarrou numa tronchuda.
A Gaffe reconhece que o único suspiro glamoroso da Casa Real
Inglesa se esbardalhou contra um poste parisiense, mas usar um vestidinho
caidinho, muito limpinho e um cabelo saído da cabeça de um part-time na
Sephora, para manter a distância e o silêncio, não é de todo adequado a uma
rapariga que devia ter ao lado e de prevenção uma ama com umas mamocas
descomunais para provar que ninguém toca nas suas a não ser o futuro rei e
surgir de New Look Dior a ordenar que filhos se espapacem no Rolls,
porque é de pequenino que se torcem os brasões, não é depois de se crescer,
casar com uma abóbora, e engordar debaixo de Epstein.
Deus dá nozes a quem não tem dentes e a Gaffe suspeita que é
porque se diverte imenso a vê-los desdentados a trincar aquilo.
Sobre a cama foi deixada a colcha tricotada a cores.
As lâmpadas quebram lentamente os filamentos sem que ninguém as venha substituir.A senhora sorri e segue com os olhos a estrada cinza ténue que se esfuma.
- Minha querida, quando decidimos partir temos de saber que nenhuma estrada nos vai levar para lá de nós. Não viajamos nunca. Ausentamo-nos.
Há lágrimas nos olhos da senhora.
O fumo. Ah!, o fumo.
- Partir é apenas uma ilusão que fica. Acreditamos sempre na viagem, mas o que resta em nós é a ausência sentida nossa no lugar que fica. Não viajamos a não ser por dentro.
O fumo.
- Não saímos nunca dos lugares onde fomos amados.
Do livro da minha avó um postal que tomba. A página perdida.
Bate com o maço de tabaco, acabado de comprar, na palma da mão. Vira-o e volta a desancar. Repete a actividade até perceber que me irrita, porque não consigo deixar de olhar para aquele movimento seco que me parece inútil. Oferece-me um cigarro depois de cuidadoso ter rasgado um lado e ter puxado um deles que aparece erguido sobre os outros, como se tivesse havido uma eleição.
Não fumo.
- Mas havemos de beber um copo juntos - promete enquanto procura no bolso o isqueiro de plástico.
Não bebo.
Torna-se sinistro. Olha de soslaio e sibila, manhoso:
- Aposto que aquela, com um corpinho daqueles, faz o que falta dizer.
Sorrio e deixo escapar uma centelha de suspeição propositada que lhe aflora e queima a superfície da atenção. Desconfia. Semicerra os olhos. A primeira baforada do cigarro, preso nos anéis, tolda-lhe os contornos da cara e fá-lo tossir de forma seca.
- Oh! Com aquela figura não acredito que sinta muita a falta de aquecimento central - escalda o homem e arrepia. - Toda alta, toda fria, toda elegante e de nariz empinado, já aqueceu muitas noitinhas… - escancara num sorriso nicotina.
A ilusão do Poder, quando alimentada por estranhos, transforma-se em areia movediça, por isso não o paro. Começo a acalentar a esperança de sentir a atarracada criatura esfumar-me no que se vislumbra por entre a névoa do engano.
Espero. Digo-lhe que será recebido por ela. Sou apenas um percalço. Um erro de casting. Uma gaffe na recepção.
- Que venha a mulher! - arreganha os dentes já babados - mesmo com aquele tamanho, posso bem com ela. É magrita. Domesticam-se bem, as magritas - desta vez a alarvidade traz o riso.
E ela entra.
- Tenho a certeza que não se conhecem. - Sou tão amável! - A minha irmã. - Apresento e tenho um orgasmo mui discreto. Continuo: - Este senhor acaba de me confessar que te acha muito elegante. Creio que entre os dois se vão estabelecer óptimas relações. O homem baba enquanto aperta a mão esguia, prolongamento do sorriso claro e do olhar atento que detecta o proibido prazer do que mantenho oculto.
- Sou muito empática - rosna a minha irmã.
- Mas magrita. És um potro, um puro-sangue, mas fácil de domar - esquiço e espero os olhinhos do homem que se abrem em franqueado embaraço.
A minha irmã estanca. Detectou o jogo e a mesa onde é lançado o dado.
- Hipismo é no teu departamento. - Faíscas e setas no meu peito, Sebastião no feminino, nem Santa e já sem reino. - Esqueceram-se de o informar que é apenas a minha irmã que se diverte com as cavalgaduras - acrescenta e entala-se o homem com fumo e aperto.
- Mas, maninha, este senhor é um jockey.
- Tenho a certeza que sim. Não se quer sentar?! - Pergunta tenebrosa, porque o achatado já está sentado.
- Vamos então tratar do seu estábulo - ordena a minha irmã já com a segurança de um projecto ganho.
Os erros cometidos pelos outros, contra nós, dos mais banais aos mais sofisticados, devem ser usados para reverter situações adversas, transmutando o desacerto em arma a usar contra aquele que falhou. A falta cometida pelo incauto, transforma-se nas mãos da minha irmã em forja que subverte o que lhe desagrada e que convence o imprudente a acatar, sem discussão possível, o que este puro-sangue decidir.
Eu?! Oh!, eu só me divirto, pacífica, a olhar o punhal cravado na testa do anão.
Encolhia-me perto dele.
Uma noite falou-me de Poesia.
Rodopiou pelas palavras e fê-las entrar no tango que eu ouvia. Fez-me sentir a
surpresa dos requebros do piano, os dolorosos desvios do violino, a magoada
toada do bandoleón, o murmúrio triste e a fúria desbravada da guitarra, a
revolta encarnada do violoncelo.
Entendi tudo.
Buenos Aires a dançar. Dançar perdidamente. Dançar só por chorar. Aqui e além.
Encostei a cabeça nos joelhos do meu pai. Ele inclinou-se sobre mim,
penteou-me o cabelo com os dedos e deixou escapar muito baixinho e a sorrir:
- Gosto muito de dançar assim contigo.
Nunca houve nada melhor do que aquele olhar pousado nos meus
tangos mais dolentes.
Preparo-me para atravessar a rua no lugar onde ela é mais estreita e mais
segura. Olho e vejo a mulher distraída, de olhos quietos, um pouco
da Onassis, a tamborilar com os dedos na mesa do café antigo.
Dentro dos vidros, a minha irmã espera. Não se vê observada
e por isso não ergue defesas. Tem um cotovelo pousado no tampo de vidro da mesa
e o queixo apoiado nas costas da mão. O tronco inclinado de forma ligeira e o
pescoço nu, magro e demasiado alto, sem nada que o esconda parece surgir da
gola alta do vestido azul como esguia espada ou torre ou haste de uma flor
estranha.
A mais rigorosa geometria implica quase sempre a lapidação do acessório, do supérfluo e do inútil. A imagem singular da mulher despojada que usa os traçados e os cortes essenciais, limpos, seguros, de leitura imediata e prova de bom gosto, embora passível de se considerar a antítese de uma vivência que impulsiona o caos como regra quotidiana, é rara e susceptível de não ser reconhecida.É, no entanto, a fórmula mais sóbria de inteligência. Aquela que usa a essência do mais límpido para delimitar o espaço incontornavelmente seu. Este rigor, esta quase rigidez geometrizada, pode ser, também, uma defesa, armadura e protecção, ou um dos disfarces da altivez que se torna um dos mais atraentes desafios que encontramos.
Nunca sabemos quantos vidros teremos de partir para lhe chegar. Nunca sabemos quantos
vidros somos, antes de chegarmos.
No reflexo, a minha irmã despe os olhos e repara em mim.
É o homem que terá
ao lado, sempre que o quiser, a mulher que se esquece sempre do colar de pérolas debaixo da camisola de gola alta.
Por muito que esbracejemos e que nos sintamos empurradas
para os Harrods depois de termos passado a vidinha enfiadinhas na Zara, temos
pelo menos que concordar que o blogs do SAPO pretendia apresentar-se mais cuidado, mais
pessoal, mais interactivo e mais português, encharcando dessa forma as outras
plataformas sem bonequinhos amorosos que os petizes podiam levar para o
infantário.
Meus queridos e minhas donzelas, o que será que não entendem
na palavra marca?
A construção do rectângulo de ouro da população dos blogs do
Sapo era, como toda a gente sabia, a forma mais marota, mais flower power, que se tinha encontrado para
nos cativar.
O uso do figuras caseirinho e simples ajuda o
reconhecimento imediato, torna visível o sítio, mesmo em escala minúscula.
A plataforma SAPO, muito amorosa, deixou que se
pensasse que era a nossa casinha, coadjuvada pela equipa mais doce, eficaz,
atenta, disponível e paciente que existia à superfície da net, que reunia
rapazes que se iam transformando no ideal informático - e giro - de qualquer
rapariga esperta. Mas nunca deixou de ser uma pragmática ferramenta capaz de
inquirir o seu utilizador de modo a entender e se possível satisfazer os seus
desejos expandindo em consequência o seu raio de acção e a capacidade de se
afirmar como parceiro incontornável nos tabuleiros dos negócios.
É lógico que se perde, com alguma pena, algumas manigâncias que se usavam para serigaitar por ali, mas ganham-se outras e francamente não
penso que seja difícil movermo-nos nos alternativos cantos do mundo digital.
É lógico que não é agradável perceber à queima-roupa que
nunca fomos mais que estatísticas e dados negociáveis, enquanto altos, números que rendiam ou gente dentro dos ficheiros empresariais. Acreditávamos
que o lucro não iria surgir com esta dimensão no trabalho de uma equipa de
profissionais tão amorosos, acabando a arrasar o recanto dos sapinhos.
É lógico que por muito que as meninas rabujem e os meninos
estrebuchem, o blogs do SAPO vai saponificar. O origami que o construiu era
dinâmico e facilitava a possibilidade de cada um o ler à sua maneira, mas, como
se sublinha, há coisas mais importantes que o dinheiro, mas são demasiado caras para durar.
Não há rapazes maus. – Dizia a avó que o ouviu de outro santo e a Gaffe, humildemente, subscreve.
Há, no entanto, aqueles que transformam o nosso tempo em
tempestade. Aqueles que, por muito pouco encorpados que sejam, nos deixam KO
quando aproximam o escanzelado negro das nossas mais coloridas divagações.
Arrasam-nos com um allure quase negligente, desatento,
descuidado e aparentemente isento de qualquer réstia de obediência a tendências
estabelecidas como oficiais pelos mais soberanos criadores dos mais variados
apetites de consumo.
O jogo inteligente e discreto entre uma banalidade
quotidiana, que passa despercebida a olhares desarmados, e a subtil manipulação
do ton-sur-ton das almas repletas de diversas texturas ou de peças
policromáticas, produz um travo que, embora passível de ser engolida pelas
ruas, nos deixa sempre um sabor simultaneamente amargo e doce no palato de quem
já turva o olhar de tanto imaginar uma luta de cetim no ringue dos
lençóis.
O homem tem barba grisalha e nos olhos a lonjura que vem de vela panda encher de névoa a Praça nua.Vou de encontro ao homem que se levanta e, já de pé, ocupa o espaço inteiro.
Nada é mais do que um homem numa Praça, erguido a prumo, com névoa no olhar.
Abraça-me e no abraço as ruas apagam-se.
Deslumbrante é a capacidade que a alma tem de escapar pelos olhos e abruptamente ocupar uma Avenida que de súbito se transforma num monograma de um alfinete minúsculo na lapela.
Mas, como todas as raparigas espertas, a Monroe sabia que o corpo nu de uma mulher consegue fazer explodir qualquer perfume.
No meu corpo nu a morrer de frio consigo ler o nome dos outros a pena escritos na pele ou desenhados ténues, indeléveis, corrompendo a macia superfície. Como se a cada nome fosse entregue um espaço meu, do meu corpo nu que treme precipitado pelo frio. Como se a minha memória fosse este lugar despido e nada mais houvesse a não ser o risco que em cada nome no meu corpo nu se misturou na pele.
O do meu irmão, perto do lugar de onde respiro. O da minha irmã, junto dos olhos com que vejo sem ver, cega de tudo. Os nomes dos meus avós, nas minhas mãos que fazem e desfazem. Os dos meus pais, no centro dos meus braços.
De todos os nomes no meu corpo aquele que eu consumo, gasto, esbato, adoço e esvaeço, tem a cor do afago no lado esquerdo de todos os sentidos.
Deixo que pouse devagar no coração.