6.8.26

A Gaffe despida


Quando o Verão se debruça no teu corpo azul de lua e o mistério da consciência é saciado, alfabetizado em lábios de vinho sobre os lençóis rebentados pela tua anca despida, a razão não tem linguagem.

A nossa insónia salivada. A mão na têmpora, a interromper as interrogações do amor. A traição da nossa entrega. A minha respiração aberta, afiada como um cardo, vocal como o mar revolto, prevendo o esgotamento, o vazio a morder as entranhas, arrumando-me para a pontinha da cama, evitando o teu joelho na minha coxa, o teu cabelo na minha cara. Estou nua. Sem armadura. No meu copo despido de pó sustenido há borboletas sonolentas de cordas e pautas de um adágio animal inquieto, quase a morder.

É aqui que a Distância tem início. É aqui que os objectos se desatam de olhos despenhados revelando a realidade que resiste em nós.

Quem me dera não pensar.

4.8.26

A Gaffe sem penitência


Enquanto o dia passa com as suas vestimentas de insónia e carpintaria, falo-te de outro universo baldio com paisagem por ferir e sem catedrais para a penitência dos anjos, mas não reconheço o murmúrio da minha voz, coroada de espinhos.

28.7.26

A Gaffe pendurada


A minha infância - não longínqua, convenhamos - foi povoada pelo sonho de ter uma casa na árvore.

Árvore havia, mas a minha avó jamais permitiria que uma menina desatasse a trepar a coisas grandes ou se acomodasse onde não se conseguisse instalar o ar condicionado.
A minha irmã considera desvairado cravar no tronco os calços dos Louboutin.
Ficou-me a nostalgia. A tristeza de hoje já não me ser possível o receio de desatar aos gritos com vertigens.
Mas, a criança que me arranha o coração de vez em quando, ainda sonha com a proibida casa da árvore e sabe que a que existe não se ajusta.

A Gaffe plana


Tédio despropositado.

Os lençóis agarram o meu perfume e a minha nudez espalhada é indiferente ao espelho.A minha cama sempre pareceu um ninho de um bicho espalhafatoso e exuberante. Nunca consegui dormir de forma calma. Envolvo-me e rebolo no sono e no sonho e destruo a primorosa obra das manhãs tardias em que os lençóis se dobram, se alisam, se amaciam, se distendem, se prendem e engomados dispersam o perfume lavado dos amanheceres mais claros.

Mas hoje acordei e tudo era perfeito. Como se ninguém tivesse dormido na véspera. Como se fosse dia de amante noutro lugar. Nenhum vestígio de ruga, nenhum cataclismo surdo e mudo e inconsciente. Nenhum tumulto, nenhuma multidão amorfa de panos misturados e confusos. Em mim o tédio invade até as noites e faz aquietar as ondas do meu sono.

Durmo na planura da indiferença e na suspensão apática daqueles que desprezo.

24.7.26

A Gaffe insectívora


O insecto abriu a tolha das asas. Na mesa das corolas, as rendas do seu voo. Um festim pousado numa flor carnívora.

23.7.26

A Gaffe etiquetada


Sou fútil e superficial, talvez possa roçar o ofensivo, sou fascinada por brilhos de diamante e gosto, maliciosamente, do passear do discreto perfume da mais discreta e poderosa burguesia.

Assumo!

No entanto, tenho álibi, tenho redenção, tenho justificativa.
Nunca reclamei para mim o esplendor subtil que algumas conseguem dispersar num bater de asas com travo de indiferença.
Gosto apenas de as ver surgir envoltas no mais perfeito allure, no mais insuperável aroma do luxo e da opulência.
Gosto de as ver usar as sedas límpidas de Armani, os discretos cortes de Cerruti, as extravagantemente simples pulseiras de Chanel, os precipícios Prada, os levemente tontos lenços de Hermès, o charme dos padrões de Valentino, as tolices de Moschino, a sensatez de Saint-Laurent, o poder avassalador de Balenciaga e o charme infantil de Dior.
Todas mulheres deviam ter o melhor de tudo e não há sombra de pecado quando descubro que o melhor de tudo, o mais perfeito, o mais cuidado, o mais sedutor, o timbre e o selo da perfeição absoluta, está invariavelmente cravado com insuperável esmero na etiqueta, junto do nome daqueles que a criaram.
Estou absolutamente livre e limpa. Sem réstia de servil e canina escravidão a conceitos e publicitários truques, sem nenhuma ligação a imagens estereotipadas de gentes que são gente apenas porque são glamour e luxo misturado e embrulhado em capa de revista.
Se creio que uma mulher merece estar vestida por Cerruti e perfumada por Cartier, é só porque estou certa de que nada, mas absolutamente nada, mas rigorosamente nada menos do que isso, lhe poderá tocar a pele.
Para as mulheres nasceram costureiros e foram inventados os perfumes.

22.7.26

A Gaffe inexistente


Se eu não existisse, bastava apontares para o coração.

Apenas, meu amor, apenas tanto.

A Gaffe interrompida

 

Please, don´t interrupt me while i’m ignoring you.

17.7.26

A Gaffe deslumbrada


Se formos capazes de atravessar a destruidora publicidade, é um pecado colossal ficarmos desatentos à colecção de D&G 2026.
O deslumbre é imediato. Nada é descurado na perfeição que invade um cenário com memórias de tragédia siciliana.
A cor negra trespassa o palco e os sons dos chicotes das joias espalham-se pelos corpos quase num desafio de crime que envelhece como homens de suadas flores de carne.
É impossível ficar indiferente, porque a opulência aqui é um fatal como uma ruela de sombras que se vão apossando do mistério do resplendor destas faíscas. Belíssimas!

Para voar de joelhos.

16.7.26

A Gaffe sem calor


Minhas caras, a elegância jamais se deve alquebrar perante as intempéries. Deve ser sempre a meteorologia a conformar-se com o allure que espargimos pelas ruas.