16.3.26

A Gaffe vagamente entrelaçada


O amor é um verbo com acento. É a invenção da loucura acima da síntese instável dos sistemas, onde comungamos no rosto que o fogo preside, químico, com suas arestas de beijos inumeráveis.
 
No fundo, somos essa eternidade vagamente entrelaçada, anunciando espadas e números indizíveis e desfalecimentos inúteis de homens que não amam. 
No fundo, é a falta que nos move.
No fundo, eu sou um manifesto de algas sem oceano, uma geometria de céus sem aves nem degraus, porque me faltas e porque as rosas que canto apenas me declaram a tua sombra convertida.

Ama-me, como não fosse possível existir de outra forma.

14.3.26

A Gaffe a anoitecer


Eu já não tenho ideias. Tenho paredes.

Eu, a náufraga da deambulação fundeada na praça entre torres e cavidades lunares, afogando entardeceres envelhecidos, melancolias demasiado pesadas quando nos afundamos na vida pelos álbuns de família. Ao regressar a casa, no início da noite, apetece-me sempre descobrir se existirá solidão sem gente à volta.

As noites são os meus olhos, porque lá fora continua o dia.

13.3.26

A Gaffe engravatada


Creio que amizade é como aquela gravata indispensável aos domingos quando se fundam as náuseas da existência. O simples facto de vestirmos a gravata, naqueles gestos de rei ao espelho, oferece-nos um sentido, uma esperança a olear a máquina lógica da vida.

É evidente que com uma gravata nos podemos matar, mas, nesse caso, possivelmente falamos de amor.

12.3.26

A Gaffe bailando


Como gostava agora de dançar! Dançar em todas as palavras, como quem já morreu com as palavras todas.

Juro que perdia a vergonha. Juro que nem olhava para o lado, para a multidão a acumular-se nos passeios, de beiços gordos estendidos, na sua altivez amargurada de aventais de chita, decotes para o padre, gravata a endireitar a coluna, fragrâncias de mentol deliberando em suposta inocência fingida.

Cesurando-me.

E eu a dançar para dentro em rodopio visceral.

11.3.26

A Gaffe em movimento


Corro à procura do sossego, como se a imobilidade me ferisse ou desbravasse os gestos, esgadanhando o meu estar parada a ser.

No entanto, de mim parte a nostalgia de me ver quieta.

Sou, movendo-me, e no ser que existe sendo, há o mimetismo dos insectos que de quietos são, parecendo outros.

6.3.26

A Gaffe sem armas


O Douro é o exílio que no milagre me oferece a revelação de uma beleza atroz, capaz de magoar as próprias lágrimas.
Terras que de tão assombrosas e invencíveis se confundem com antigos sonhos, criando este estado de pasmo e distância de quem deseja engolir com toda a forma insubstantiva a conjugação dos elementos naturais.

É aqui que me espanto, é aqui o lugar da parede branca, do Fechado, da existência sem princípios e contudo, mundano nos meus hábitos, exausto de claridade, o meu atordoamento naufraga. Ancorada na razão, sigo as palavras submersas, na tarefa de cumprir humanidade.

Tivesse eu um punhal para ferir paisagens.

5.3.26

A Gaffe com Lobo Antunes

 Desabotoava-me o coração.

Suturava a minha Casa com palavras.

A Gaffe zoológica


"La désolation qu'expriment les yeux du gorille. Un mammifère funèbre. Je descends de son regard."
Emil Cioran, Le mauvais démiurge - Œuvres

"Au zoo, tous les animaux se tiennent convenablement, à l'exception du singe. On sent que l'homme n'est pas loin."
Emil Cioran, Aveux et Anathèmes - Œuvres

E no entanto, as primeiras criaturas que reconheceram a sua mortalidade foram as primeiras a sorrir.

3.3.26

A Gaffe vitoriana


A Gaffe lê imenso e sabe que o mundo está repleto de paspalhos imbecis e o problema é que descobriu que eles estão estrategicamente colocados de modo a que dois ou três se cruzem com ela todos os dias.

A Gaffe decidiu adoptar a atitude da Rainha Vitória - quando se negou a assinar a legislação que penalizaria as lésbicas -, em relação a todas as criaturas que confunde sempre com abjectos resquícios do abominável.    

Tal como Sua Majestade, a Gaffe é muito clara, simples, definitiva e peremptória:

- Tais coisas não existem.

2.3.26

A Gaffe carismática


Não é que eu seja mal-encarada, mas não consigo esboçar a esperança de um sorriso quando me olham com ar de quem manda no planeta, do alto de 1,60 m, de lacinho pintalgado ao pescoço e sapatinho com um pequerrucho tacão a ver se passa.

Podem dizer o que disseram, podem chamar-me preconceituosa, podem afirmar que carisma não tem nada a ver com isto, podem gravar em pedra que os homens não se medem aos palmos, até podem invocar o Bonaparte, mas continuo a pensar que um homem tem obrigatoriamente de ser um bocadinho mais alto, não andar com pechisbeques a imitar os filhos adolescentes e não tentar disfarçar a careca deixando crescer as patilhas e as sobrancelhas para as pentear depois para cima da cabeça, para nos poder mostrar que sabe, pode e manda e fazer com que a gente acredite e o reconheça.