23.7.24

A Gaffe receita


Segundo uma especialista as mezinhas coleccionadas pela avó e que descobrimos encadernadas em sépia no sótão da nossa infância revisitada, às vezes oferecem os resultados que prometem.

Beber um copo com água tépida onde diluímos uma colher de chá de mel e uma colher de chá de canela em pó, meia hora antes do pequeno-almoço e meia hora antes de deitar, faz com que a nossa pele, a médio prazo, irradie luz e adquira a textura do veludo.

A Gaffe experimentou uma primeira vez e aconselha, em alternativa, o vapor de água de uma banheira com testosterona a flutuar.
Sem horário.

22.7.24

A Gaffe amorosa


Dos verbos mais gastos que usamos, aquele que parece ser o corroído é o gostar.

Colhemo-lo por todos os cantos e esquinas da vida. Surge espontâneo e bravo como pequenas violetas selvagens, perfumadas e aguerridas. Fornece-nos o minúsculo conforto que nos protege quando à volta se multiplicam os cardos. Entrega-nos a sensação de pertença e de pequenas cumplicidades essenciais à solidão que tanto nos arrasa. Ensina-nos a sorrir devagarinho. Solta-nos o coração, deixando-o sem fronteiras férreas que o limitam e sussurra-nos promessas de voos simples, mas felizes.

É um verbo tranquilo e seguro, sobretudo quando conjugado no presente. É quase um verbo infantil. Um verbo de brincar. Um verbo que deveria ser conjugado apenas por crianças, porque apenas elas o deixam cristalino, perene e sentido do modo exacto e acreditado eterno.

Gostar é o carrossel colorido de uma infância, o doce de avelã da nossa avó, a pulseira de cordel atada à esperança, o sol a bater brando numa manhã de janelas acordadas, o aroma da terra molhada depois da canícula, as histórias de fadas e de monstros no colo da ama ou a carteirinha que não dá com tudo e que abriga apenas um sonho minúsculo.

Gostar é a almofada onde se pode encostar o nosso mais pequeno coração - e temos tantos!

É um verbo deslumbrante, mas exíguo. Rola na nossa mão como um berlinde.

O globo inteiro e sem medida está no verbo amar.

A Gaffe e as "Fashion Trends"

 



A Gaffe é informada que aquilo a que os especialistas chamam Fashion Trends - para os mais pindéricos, tendências de moda -, não passa basicamente de uma operação relativamente complicada que reúne instruções de algumas fontes, nomeadamente sociológicas, antropológicas, societais, sociais e sobretudo industrias, que orientam e manipulam de forma inteligente a população que querem tornar alvo.

Esta rapariga não se cansa a desenvolver o assunto, apesar de lhe parecer bastante interessante tentar compreender, para que lado vira o vento e qual a tralha em stock que se é obrigado a impingir, custe o que custar, usem-se as armas que forem necessárias.

Seria reconfortante compreender, por exemplo, como é que uma paleta apresentada reúne as cores imprescindíveis a quem se quer usável e visível. Reconfortante, mas não imprescindível, que nestas coisas muitas vezes a inteligência está adormecida nos domínios aveludados e fofinhos das mentes criativas.
Acontece que, para lá das colorações, há, acompanhando-as, agrupamentos de linhas, formas, inspirações, geometrias, volumes e mais uma parafernália de conceitos que são traçados para conjugar o que parece evidente ao especialista e que transforma em boi aquele que olham para este palácio.
Determinada cor, em determinada estação, servirá determinada tendência a que atribuem um nome, simples ou rebuscado, mas sempre coadjuvante. O verde-macieira - o nome da cor é de importância capital e quanto mais indecifrável, melhor - estará portanto apenso à orchard-trend, por exemplo.

O interessante é que estas malabaristas operações trazem incómodos constantes no seio de tanta inventividade.

Cada um destes grupos serve tipos bem definidos de consumidores. Assim, uma mulher cuja profissão a obriga a permanecer na direcção executiva de um país, tem um nicho, uma tendência, um quadro, um universo, especialmente pensado para a servir e a fazer consumir e que é naturalmente diferente daquele que o vizinho tresloucado com alguma propensão para fumar o que tolda o papagaio e faz tombar o gato.

Há sempre, e mais uma vez como exemplo, uma vertente digamos que étnica, ou estadual, como se queira, nesta aparente variedade. Padrões inspirados nos usados pelas texanas, formas desenhadas pelas californianas, acessórios baseados nos habitualmente pendentes nas raparigas em NY ou volumes antárcticos que nos lembram o gelo de Amundsen.

Sejamos práticas. Exageremos.

Ficaremos definitivamente fashion, estaremos sem sombra de dúvida a seguir uma das propostas, seja em qualquer ano ou eleição, se surripiarmos um dos slogans que nos mostram. Pode ser um de uma tribo qualquer - nestas coisas com glamour deixa de interessar o nome da origem - desde que suficientemente grande e majestoso para que nenhum fashion adviser coloque hesitação ou torça no que quer que seja. Escolher, por exemplo:

 
É evidente que, para o usar com alguma elegância, salvaguardando-nos da americana fonética - neste caso específico muito propensa a trumpalhada -, temos de ter o cérebro em condições de desfilar e sermos comedidas para evitar interpretações e internamentos compulsivos.

21.7.24

A Gaffe laureola

Brota do chão o sol como das ânforas. Erguido a pique trepa sequioso à fronteira da água, ao bordo dos espelhos, para sulcar no curvar do corpo, a mais pequena folha do loureiro.

Fotografia - Gerardo Vizmanos

A Gaffe num pulso com pulseiras


A mulher tem o cabelo amarelo-torrado, preso na nuca por um gancho de plástico.É aos caracóis forçados por um ferro quente. Ondula no vestido justo, preto, com lantejoulas no decote vasto e tenta o equilíbrio nos sapatos com uma rampa de cortiça na sola e tiras que lhe apertam o peito do pé. Chocalha de pulseiras reluzentes.

Não tenho histórias para esta mulher. Procuro-as no que ouço e que vem do chocalhar das bugigangas, mas não há enredos nos pulsos. Há um chocalhar de círculos parecidos com os da vida.

A mulher de cabelo amarelo-torrado não respeita os acordos das ruas, não sabe escrever como dizem que é devido, tem a história toda contada nas rodas ao monte nos pulsos. Chocalham nos pulsos os elos sobrepostos da mulher de cabelo amarelo-torrado por um ferro quente.

Da vida ou das pulseiras, tanto faz.
Imagem - karen Turner   

20.7.24

A Gaffe de Bordalo

empre me causou algum desconforto a imagem que Bordalo criou para representar o povo. Ao contrário de toda a restante obra do artista, que me encanta ao ponto de a procurar como uma desalmada, o Zé Povinho - tantas vezes grosseiro, finório, saloiamente esperto, crítico mordaz, bebedolas, bobo ácido e disforme, injustiçado e consciente da lama que sabe escondida nos que seguram o poder -, sempre me causou alguma repulsa. Estou longe de simpatizar com a personagem, embora reconheça que acabou, não apenas uma criação de Bordalo, mas propriedade e símbolo de toda uma colectividade.

Ensina-me um amigo que Bordalo foi buscar Mayeux, o francês corcunda, lúbrico, disforme, de aspecto amacacado, criado em 1829 - outros dirão 1832, por Traviés -, que, também ele, encarnou como criação e encarnação de um povo.

Mayeux é um bobo acidental, melancólico, bêbado e chorão que gesticula, grita e perora. É um anão atrevido que Musset descreve na perfeição. Um enfant du siècle cuja fisionomia não pode ser alterada, porque defraudaria o público. Serve de exutório colectivo e assume um papel de projecção a todo o imaginário da Monarquia de Julho. É a caricatura do sublime louco, do palhaço grave, do bobo sério que joga com um aspecto simiesco, relacionando o homem com o animal. É próximo de Quasimodo ou da marioneta de Polichinelo. É a caricatura e é o caricaturista. É ridículo e tem o privilégio de dizer a verdade. É a primeira tomada de palavra colectiva que comenta a actualidade tornando-se polissémico, encarnando a figura do rei ou do povo de Paris. É o herói da palavra popular, o único que exprime a inquietação e a perturbação. É aquele que faz troça e de quem se troça, inaugurando a utilização do clown inglês na cultura francesa.
Robert Macaire apaga-o do imaginário francês criando Pera, o seu sucessor. Outros provocarão o seu desaparecimento definitivo, até o vermos transformado em Zé Povinho, já adaptado à paisagem portuguesa.

É curioso! Quando no pó remexemos, encontramos desilusões que nos reduzem ao pouco que somos ou que compramos numa barraquita de praia que traz areia colada e que mesmo alguma da simbologia que acreditamos que nos identifica é apenas um produto do que já foi dos outros.

Imagem - Norman Rockwell, 1926

19.7.24

A Gaffe laçada

No corpete de Maria Antonieta, Rainha dos franceses, existiam laços que, pecaminosos, tinham nomes consequentes das posições que ocupavam no tecido e nas varetas que sufocavam Sua Majestade.

As fitas que no lugar dos mamilos da Rainha se laçavam, eram os pequenos contentamentos e aquelas que desciam ao encontro do início do púbis, sem o tocar, apenas aflorando o caminho doce que a ele chega, a chave da felicidade.


Os laços e os nós são, na lingerie, a essência da feminilidade, imprescindíveis no jogo de sedução e do prazer e contribui de forma decisiva para que sejamos donas do universo em que o erotismo deixa marca.
São o modo como tecemos a teia e o primeiro vibrar anunciador da queda da presa.

Maria Antonieta, Rainha decapitada por uma França já perdida, reconhecia o poderoso apelo das laçadas mais íntimas. Sejamos pois absolutas soberanas no reino onde sabemos dominar.

Fotografias - Tina Patni 

A Gaffe dúbia


A Gaffe ouve condenar as mulheres que têm duas caras.

Um disparate!

Não há nada errado em termos duas caras, desde que uma delas seja desumanamente bela.

 

Na foto - Leni Riefenstahl, 1998

18.7.24

A Gaffe da lamúria


A Gaffe diverte-se imenso quando ouve um rapazinho bramindo ofendido que agora não se pode fazer nada a uma mulher.

Meus queridos, quando é que vos foi permitido fazer tudo?
ilustração - Celia Calle

A Gaffe por condecorar


Tive o mais embaraçoso dos pesadelos de que há memória.
Descontraída e etérea, no aconchego das minhas mais íntimas e prosaicas tarefas, leio a revistinha onde é fotografada a aventura de Leonor de Espanha por terras onde falta o salero e abunda a condecoração e descubro de súbito que estou sentada a fazer xixi numa sanita daquelas casinhas IKEA.

Duas princesas, sendo que a de Borbón y Ortiz foi condecorada pelo presidente com a grã-cruz da Ordem Militar de Cristo que distingue destacados serviços prestados ao país no exercício de funções de soberania, mas que nesta altura é apenas um beijo e um abraço à nossa amizade para sempre.

Estes afectos movem presidentes.

A Gaffe admite que abraços e beijos conduziram a uma dúvida daninha que roeu a imagem que esta rapariga esperta guardava, ainda que esbatida, do senhor presidente.

O povo que o senhor presidente beija e abraça e diz defender, responde positivamente à carência de popularidade do senhor presidente, mas não é um povo carente. É um povo desesperado, espoliado, só, isolado, queimado, na miséria, sem apoio e com uma estrutura administrativa cravejada de burocracia, mas que encontra dentro da desgraça o velhíssimo espírito português - ou alma lusa, como vos aprouver e seja lá o que isso for -, com força para plantar todos os pinhais de caravelas de coragem.

O afecto dado, arregaçado e babado, à princesa menina que o senhor presidente dos afectos condecora, transforma-se numa macacada pacóvia que atinge demasiados espaços do apelidado universo português reduzindo-o a uma sanita daquelas casinhas IKEA, a uma amorfa cambada de cretinos parolos, sem critérios que não sejam os dominados pelo livrinho de autógrafos e pelo poster moncoso, foleiro e palerma, colado a força de saliva na parede da mediocridade.

Na fotografia -Barbara Dobbins por Edward Clark, 1951

17.7.24

A Gaffe do petiz


Tenho um amigo muito querido que me diz que Cupido é um débil mental pronto a disparar o que não controla, sem nenhum sentido de orientação, sem a mais pequena réstia de bom senso e sempre disposto a alçar a patinha nas nossas pobres almas atingidas.

Suponho que tem razão.

Às vezes o Amor é como um miúdo tonto que fica preso nas teias e telas do Império. Basta a rispidez da vida para que desate a chorar e se desfaça.

Acredito, no entanto, que esperamos sem interrupção que este doidivanas nos surja de repente e que nos faça sentir o que no mais perdido de nós desejamos sempre: as coisas mais simples, mais claras, mais límpidas, essenciais e únicas, como terra, água, ar, noite, dia, casa, árvore, pássaro, livro, um cão e, apertado num jeans, um rabo lindo de nos fazer cair para o lado comovidas.

Cupido torna-se admirável sempre que nos agarra a mão e nos entrega a sensação de eternidade em troca de nada e nos faz sentir que somos, desde o princípio, naturalmente capazes da indiferença, mas que amar exige uma árdua aprendizagem.

A Gaffe "não sabe nadar yo"


A Gaffe já passou férias num país africano encantador e embora não tivesse visitado os bairros mais pobrezinhos - pois que o Hotel distava horrores desses lugares e não se encontraram guias com bom aspecto -, está em condições de confirmar que os africanos são uma gentinha amorosa e absolutamente nada dada a dar prova de nojentos.

A Gaffe fica sempre estarrecida quando vê aqueles africanos acusar a bosta da bófia de violência gratuita com laivos de racismo. Não sabendo muito bem o que é a bófia - embora reconheça a primeira componente da expressão como matéria-prima das televisões -, supõe tratar-se daqueles homenzarrões lindíssimos, musculados e fardados e armados, que a Mortágua condena veementemente, com só ela consegue veementemente condenar.

Meninos, não se bate naquela gente.

A Gaffe está decidida.

Vai imediatamente convidar uma das manas Mortágua - uma qualquer, porque tanto faz que são iguais e ninguém nota a diferença -, e Ventura para equilibrar e assim ladeada por estes extremos extremosos, para além de evitar levar uma bordoada lateral, vai parecer harmoniosa.

Os três, unidos como Abril mandou, provaremos que Portugal não é racista e que aqueles pobres africanos pretos também não. A Mortágua é só par contrariar. 

É um sacrifício que nos fica bem.

É evidente que esta rapariga não é o Marcelo. Não vai desatar a beijocar as nódoas negras daquela gente, nem vai tirar selfies, porque o cenário não tem uma luz em condições de figurar no Instagram - não havendo filtros, fica tudo imenso escuro -, mas vai valer a pena ser escoltada por aqueles mauzões gigantescos e repletos de escudos de acrílico que intervêm para apoiar as pessoas de boas famílias na caminhada a favor da diferença.

A Gaffe tem de provar que este país não é racista.

Já o declarou no facebook e já escolheu também por isso uma fotografia de um mocito com quem não se importava nada de estabelecer diálogo esclarecedor, mas reconhece que ao vivo, bem vestida, com o cabelo bem tratado, acompanhada por fotógrafos e com algum carinho no rosto, a natureza desta mensagem renovadora, apaziguante e cristã, se torna poderosa e faz mesmo com que se distingam de vez em quando os africanos uns dos outros.

A Gaffe admite a existência de um pormenor que exalta as pessoas pouco instruídas e que as leva a desatar aos gritos desagradáveis, acusando um país inteiro de conter raízes racistas.

A igualdade.

São todos iguais e esse é o detalhe que confunde as criaturas!

É assim que as pessoas brancas não conseguem distinguir um chinês de outro chinês, mesmo que estes dois piquenos estejam lado a lado.
As pessoas brancas não conseguem pronunciar os nomes dos pretos que - diga-se em abono da verdade -, também não se diferenciam uns dos outros. É impossível chamar pelo Matambukalé Tanrambureré sem termos de nos socorrer depois de um terapeuta da fala. Como pronunciar Pi-Chin ou Pi-Cho-Ti, ou mesmo Pi-La, sem pensar que vamos ser violadas? Como encontrar modo de articular Lakshmi Mahara Surya sem pensar que nos vão despejar açafrão no cabelo, nos vão tatuar uma porcaria em hena nas mãos - desidrata imenso -, ou nos vão tentar impingir uma rosa de plástico quando formos ao Saldanha?

A Gaffe tem conversado imenso com a senhora Årud Haakonssonhagebak, uma senhora norueguesa lá de casa - sem ser, c’est évident, a colaboradora doméstica, uma romena que nos maça horrores ao tentar fazer com que a percebamos -, que sempre diz que o racismo português é fake new, pois que não é viável acusar um povo tecido de heróis camonianos, que nunca levantou um dedo contra a senhora D. Isabel dos Santos e que no passado ofereceu novos mundos a um mundo de gentalha que nem sequer soube agradecer e que agora está convencida que temos obrigação de a acolher nos nossos lares e privacidades, de ser um povo pouco dado à diversidade.

Somos um povo que marca a diferença.

É tudo.

Então vá.

16.7.24

A Gaffe pin-up



Toda a rapariga esperta traz as garras recolhidas. É um tigrezinho sonolento à espera que o vento descontente lhe pouse sob a almofada das patas o requinte de um acepipe da cor das folhas secas onde preguiçoso se alonga a ronronar. Mas, embora sabendo que nada se abra mais por engano do que a boca, nós, raparigas, somos realmente tagarelas - e mesmo assim, não conseguimos dizer tudo o que sabemos.

Talvez por isso fosse interessante esquecer, a demência que grassa no que a Gaffe rabiscou ontem e que parece saído da converseta de um grupinho de esgrouviadas liderado pela mais reguila, mas a Gaffe admite que se deixou levar pela pretensão de augurar um futuro de desilusão. Podia ter sido uma avalanche de palabrotas bem interessante se reportasse à contaminação sublimada do poder do estereótipo pelo tabloide e se abordasse o significado do encontro entre vedetismo e mito. Mas a Gaffe não anda com paciência, por isso acabou por não dizer absolutamente nada que valha a pena ser dito - o que é frequente.

Adaptando a máxima do filósofo, cuidado com a fúria de um homem paciente, ao estado de irritabilidade que assolou a Gaffe, poder-se-á afirmar que urge acautelar as portas de uma rapariga mimada, snob e abespinhada. Geralmente, embora esperta, escolhe bater com elas, até escacar as maçanetas, ou estalar em fúrias contra Trump, a ter de enfrentar as dunas dos diálogos mais solares.

No entanto, a Gaffe sempre considerou que que numa discussão acalorada, sendo portadora da razão, se irrita e desanca o oponente com a força dos argumentos certos gritada alto e bom som, há sempre quem diga muito de mansinho e com uma benevolência paternalista própria de idiotas:

- Perdeste a razão quando gritaste.

Nada mais incorrecto.

A razão, se a temos, resiste a tudo quanto é berro, gesto, beijo ou birra e fica, se já lá estiver, do nosso lado mesmo que pelo ar chovam os chinelos.
É bom que este facto fique bem assente ou teremos de lançar fogo ao primeiro traste que vier dizer que se a Gaffe desatar aos berros, perde a razão toda, mesmo quando a tem bem segura.

A razão é como a sardinha numa lota. Tanto se apregoa aos gritos, como se mostra fresca e muda na canastra. Em ambos os casos não se transforma em chispe.

Pese embora o alvoroço de ontem, a Gaffe é naturalmente fútil.


A Gaffe não é miúda de grandes e eruditos ensaios e por não preencher os parâmetros exigidos para ser introduzida nos círculos mais famosos, fica aberta a possibilidade de se transformar em pin-up idiota, recortada em papel e em poses divertidas e marotas. Uma pin-up de cartaz e somente isso.
Às vezes a vacuidade é abençoada. Nós, que apenas somos raparigas espertas, acabamos por parecer loiras de anedota tonta e patética, mas é a futilidade consciente que nos permite falar ao mesmo tempo do baile de Cortez e do corte de uma saia Valentino.

É tão bom ser fútil e palrar acerca de tralha inútil!
Dizer, por exemplo, à boca cheia, que as cores do Verão 2025 são definitivamente e de todo o amarelo mostarda e o lilás dramático.
Com o amarelo mostarda a Gaffe passa bem. É fácil identificar a cor comparando-a com as nódoas que os petizes trazem do McDonald's. Agora o lilás dramático é já qualquer coisa que faz alguma confusão. Não se sabe exactamente ao que nos conduz o dramático que vem colado ao lilás.
Não é a primeira vez que a Gaffe lê nas revistas da especialidade referências a cores que seriam identificáveis de imediato se não viessem com apêndices que as limitam a determinadas emoções ou estados ou qualquer outra coisa parecida.
A Gaffe já se encantou com a saia vermelho ópera, com o casaco azul emotivo e já tropeçou com a carteira um preto nostalgia.
Temos de admitir que desta forma uma rapariga fica alterada e acaba por fazer figura de imbecil - sofisticada, mas imbecil - quando entra numa loja do melhor, na Baixa, e declara a meio do atendimento que adora aquele fabuloso soutien de renda, mas que o prefere em branco entusiasmado ou, em alternativa, em azul melancólico.
Estas pequenas armadilhas podem fazer todo o sentido no linguarejar dos grandes costureiros, mas não são, de todo, práticas e arruínam a reputação de qualquer rapariga esperta que acaba por ser vista como uma totó oxigenada, ou loiro açucareiro, com a mania que é íntima do Dior.

Basta!

O mundo seria tão mais simples e feliz se não existisse aquele laranja vomitado.

15.7.24

A Gaffe "trumpolineira"


É uma tontice lançar perdigotos contra o atendado a Donald Trump declarando que este estilhaço acaba de lhe entregar a vitória. O senhor tem ao seu lado fanáticos suficientes para vencer - mesmo com a orelha completa.

Afro-americanos, gays, emigrantes nacionalizados - eu entrei, mas tu já não entras, carago! - latino-americanos, donas-de-casa desesperadas, mulheres saídas dos formigueiro de gente de todos os lados e cores e muito mais que não se diz por ser chocante - decidiram há muito dar mais crédito a um criminoso com ditos alarves iguais ao penteado, do que a um senhor com séculos de corrimãos, esquinas, vãos, escadarias, alçapões, caves e corredores políticos, com um cabeleireiro que também não é exactamente o mais apropriado.

É evidente que é negada indulgência a Biden. A implacabilidade com que são abanados e achincalhados os seus assustadores erros crassos no desastre de um debate, contrasta com uma espécie de benevolência, um tudo ou nada cúmplice, com que se ouvem mais uma vez os petardos misóginos, racistas, machistas e xenófobos do rival, mas existem neste saco mais uma vez os picotados que ajudam a adivinhar o resultado desta eleição - democrática, sublinha-se.
Trump, já com experiência política, continua a cuspir uma verborreia populista, fanfarrona, mentirosa e temerária que encontra eco num país que - diz o humorista - não existe, o que existe é publicidade, enquanto Biden arrasta consigo os pés, as pernas e um mandato de inoperante imobilidade, tempo e cargos mais do que suficientes, para alterar os slogans das oligarquias.

É claro, dizem os entendidos, que a economia americana, ao contrário do apregoado pelo republicano, cresce de modo saudável, que a taxa de desemprego diminuiu significativamente e que Biden não conseguiu cumprir parte significativa do que havia prometido porque esbarrou contra mecanismos institucionais e constitucionais - democráticos - que muitas vezes travam o bom senso e a possibilidade de se ver instalada a noção clássica de democracia. São estes mesmos mecanismos, institucionais, constitucionais - democráticos, mas agora corrompidos - que provavelmente deixarão de poder travar os surtos psicóticos do futuro ocupante da Sala Oval.

A vitória de Trump é um facto incontornável e é irritante ver passar a torrente de indignação digital generalizada e inútil, erguendo as trevas de um holocausto nuclear, temendo as fogueiras da Inquisição, da xenofobia, da homofobia, do machismo ou do obscurantismo sexual, escurecendo com muros de vergonhas pagas pelos mexicanos ou transformando Putin num Maquiavel de pacotilha, capaz de erguer a Rússia como uma potência planetária, manipuladora dos destinos dos povos e dso países.

Chocarmo-nos com esta eleição de um psicopata é o mesmo que criticar o plástico de Melania Trump, a decoração do apartamento do eleito pelo povo americano ou discursar como os comentadores dos Jornais das Nove que já conhecem o resultado desta eleição, mas que continuam a debater as evidências porque que são fáceis de enfiar no rabo dos que as ouvem.

É tragicómico.

Trump é já o novo Presidente dos Estados Unidos da América.


 fotografia de David Fenton - Marcha contra Hubert Humphrey, NY - 09 de Outubro 1968


Nota de rodapé - Entretanto a nova primeira-dama reage condoída, referindo-se ao perturbado responsável pelo atentado:

Um monstro que considera o meu marido uma máquina política desumana tentou extinguir a paixão de Donald, o riso, a criatividade, o amor pela música e a inspiração.

Stormy Daniels

(perdão, Melania Trump)



A primeira-dama prova outra vez que não vale a pena casar por alguns tostões. Embora sejam o aborrecimento e o dinheiro que mais casamentos fazem depois do amor, não é de todo aconselhada a via das finanças. Pedi-los emprestados sai sempre mais barato. É injusto chibatar a senhora apenas porque percebeu que se tinha a possibilidade de viajar em primeira não podia permitir que outra o fizesse.
Melania possui uma espécie menor de elegância - a forçada. É uma mulher elegante à força. Desde que se mantenha calada, sem se mover muito, de perninhas juntas e mãos cruzadas, disfarça a total ausência de carisma e de charme - características essenciais à elegância genuína - e é palerma rasgar-lhe os maravilhosos D&G que usa para pedir ao marido que lhe benza o terço.

Melania não causa dano. Não sabe. É bonita e basta.
Mais uma vez, meu Gentilíssimo Cavalheiro, encontro em si um lugar onde me posso sentar e ficar pelo tempo contado dentro, a ouvir falar das coisas que me falham, porque me faz acreditar que há sempre um lugar perto de lareiras, de clareiras, aninhado num sofá florido, embrulhado numa manta da Serra, de carapins tricotados pela avó, enquanto chove e troveja nas varandas deslumbrantes do sossego. Obrigada.

 

A Gaffe na Disney

Porque hoje é o dia do aniversário dele


Tenho uma calamandrina variegada e os meus vizinhos uma visita.

Em princípio os dois factos não estão relacionados, mas um Domingo pingoso pode alterar muito estas coisas.

A calamandrina foi-me oferecida e é pequenina, tem frutinhos lindos, rondondinhos e cor-de-laranja. Está na varanda a apanhar chuva num vasinho fofinho que decidi ser demasiado acanhado.

A manhã promete umas abertas, tenho um saquinho de terra, uma pazinha verde alface que sobrou do conjuntinho de praia da sobrinha, um vasinho maior e muito pouquinho para fazer.

Enfio umas meias de lã, às riscas amarelas, roxas e verdes; encaixo dentro as calças de pijama cor-de-rosa com bolinhas azuis; visto o roupão amarelo limão, cardado, com um capuz que tem na ponta num pompom roxo; traço o chacecol Burberry porque tenho sempre frio no pescoço; calço as pantufas com o Mickey num lado e a Minnie no outro, com sola de borracha para não escorregar; calço as luvas de cozinha verdes para rivalizar com a Lady Gaga e de pá em punho arrisco a jardinagem. Estou toda compenetrada, de joelhos no Expresso, a tentar soltar do vaso a plantinha depois de ter feito o ninho novo no que tenho ao lado, quando ouço vinda dos confins da varanda do lado uma voz tonitruante:

- Só a deve mudar quando ela tiver o dobro do tamanho do vaso.

Depois de quase me desfazer com o susto, tento recompor-me o melhor que permite o meu estado de catástrofe visual.
Levanto-me num instante e bato com os olhos na visita dos vizinhos. Na varanda do lado tenho um trintão alto e espadaúdo, de Levi’s de um azul perfeito e, para mal dos meus pecados, muito apertado, de blusa de malha grossa castanha de gola alta, botas consistentes de couro envelhecido e um ar australiano - daqueles que cuidam do gado nos locais onde ele existe na Austrália, muitos bois e muitos cavalos e muitos toiros bravos. Olhos pretos, pestanudos, cor morena, negra madeixa ao vento, boina madura ao lado, sorriso de se morrer por mais, queixo quadrado por escanhoar, peitorais ao nível dos meus olhos e mãos grandes com aspecto calejado.
Para minha grande humilhação, estou da cabeça aos pés uma miséria. Nem o meu cabelo se porta em condições. Pareço, embora sem bigode, o Einstein ruivo, com caracóis a tapar os olhos. Nem o cachecol Burberry que podia vir em meu auxílio está de feição, porque lhe dei um nó e atirei as pontas para as costas para que não interferissem com os meus afazeres. Jurei naquele instante que mal me refizesse do ataque cardíaco que sentia estar a acontecer, atearia fogo àquelas pantufas imbecis que dos meus pés olhavam para o homem com quatro olhos esbugalhados.

- Acredite. Eu entendo disso. Sou veterinário, mas a agronomia interessa-me muito - saracuteou. 

Veterinário. O homem é veterinário, mas a hortaliça interessa-o. Cultiva plantas, seca-as e faz chá depois. Tem pomares e exporta vegetais para toda a Europa. Tem imensas cabeças de gado e, espero eu, o resto também, porque só as cabeças é assustador. Levanta-se todos os dias às 6 da manhã para ajudar a pensar os animais. Vive longe dos distúrbios urbanos e é feliz no meio das vacas - enfim, ninguém é perfeito - e eu ali, mascarada de tarada, a tentar envasar uma calamandrina que não tem o dobro do vaso de origem.

Uma vergonha!

Foi então que desejei ter uma rolha enfiada na boca. Abro aquilo a que se convencionou chamar matraca e esplendorosamente desabo:

- Desculpe! Pensei que estava sozinha. Se soubesse que aí estava tinha vestido uma lingerie em condições.

Estou pronta a morrer depois disto.
Feita um trambolho esguedelhado, de pá verde, alface agarrada às luvas de borracha, com a Minnie e o Mickey enfiado nos pés, fico à espera que o homem me cuspa.

- É a mulher mais encantadora vi em toda a minha vida.

Caíram-me os brasões no vaso da calamandrina.

Valha-me Deus! O homem convidou-me para jantar e não sei se as pantufas fazem pandant com as pérolas.

Gaffe - Porto,  2017

14.7.24

A Gaffe esplendorosa

Não é fácil erguermo-nos a brilhar nas preguiçosas manhãs do nosso descontentamento, sobretudo quando nos sentimos desgrenhadas, ensonadas e com todos os sentidos anestesiados.

Embora com uma nuance significativa, a última vez que o conselho que se viu estampado na t-shirt Rise and Shine surtiu efeito, foi com Lázaro e só porque chegou directamente de Jesus. Mesmo assim, Lázaro nunca mais se livrou convenientemente do cheiro que lhe carcomia a sedução.

Não nos acordem com a promessa de uma manhã de sol aberto. Nós não fazemos fotossíntese. 

Erguermo-nos radiosas nas vossas manhãs, rapazes, é uma impossibilidade mais do que comprovada.Tornamo-nos patéticas quando teimamos em levantar as pálpebras com a sombra YSL inabalável que usamos na véspera ou com o bâton sangue-de-boi Dior  - a cor do bâton não engrandece o costureiro - a preencher na perfeição os nossos lábios frescos de brisa matinal.

É inevitável esbandalharmos a tela magnífica da véspera. É impossível imprimirmos sem sequelas o rosto maquilhado na almofada alva - qual sudário -, que nos suportou o peso da inércia, da exaustão e da impaciência que nos fez adormecer com pestanas postiças que acordam coladas nas axilas, pregando-nos um susto horripilante. Acordamos espapaçadas na cama, penosas vezes de boca aberta e em poses pouco dignificantes, muitas de nós a babar-se e a roncar - não pensem que vão ouvir os rouxinóis -, sem cabeleireiros, aderecistas, iluminação, maquilhadores, banda sonora e tropas da elite oscarizada enfiadas no armário.

Nenhuma rapariga, por muito que se esforce, vai amanhecer erguendo-se com a subtileza da gazela, o gesto alado da mariposa ou a esguia elegância do cisne, qual Catherine Deneuve ou Grace Kelly - citadas para apoiar a alusão a Lázaro.

Por muito que esperneiem, nem as fadas, ninfas e sílfides, princesas de outras eras e da nossa, rainhas de beleza e sedutoras divas, jaguares no feminino, panteras negras, íbis do Nilo e de outros rios que não passam pela minha aldeia, trapezistas do encanto e do fascínio, Mata-Hari que segreda apenas mel e todas as ritas pereiras com que sonham, acordam com um hálito a mentol.

Rapazes, deixem de nos massacrar com ilusões de folhas de revista ou de frames de uma fita com glamour e ouçam a voz do ancião do pico da montanha do real:

Wake Up and Smell the Coffee!

Anote-se, no entanto, que uma rapariga também não precisa, todas as manhãs, de perceber que a vossa vida, rapazes, não saiu directa das páginas do KamaSutra e é apenas um folheto de Carnaval ou um pindérico romance de cordel.

As vossas olheiras, os vossos papos, as vossas manchas e maleitas faciais, as vossas borbulhas, os vossos lanhos labiais e outras pequenas mazelas, não nos deixam entusiasmadas. Mesmo aquele aspecto desregrado, normalmente acompanhado de um sorriso patético, de quem não dormiu por ter estado ocupado em manter acordada a companhia, não é, de todo, atraente para uma rapariga que começa a debicar o seu croissant.

Os portugueses são demasiado tímidos e inibidos - a Gaffe hoje está tão benévola! - e ainda consideram embaraçoso perguntar à menina do Shopping pela secção onde se podem encontrar com o creme hidratante ou com o pincel que lhe atenuará os pântanos negros que trazem debaixo dos olhos.
Meus caros, existe no mercado uma quantidade inimaginável de produtos dispostos a tentar transformar-vos em quotidianos, diários, modelos da Vogue em todo o esplendor de uma página central.
Se fosse patrocinada, a Gaffe aconselharia, como seria evidente, Dior ou, mais económica, toda a gama Jean Paul Gaultier - Gaultier também sabe ser eficaz com discrição, reserva e tino, mas esqueçam-lhe os perfumes, sim? -, que abrange, atenua e remedeia, com uma eficácia transbordante, toda a parafernália de maleitas que nos maça e arrepia - as borbulhas lunares são horripilantes e espremem todas as vossas hipóteses de dormir acompanhados.
Mas cuidado! Não é de todo necessário que os homens masquem uma pastilha de mentol antes de nos beijar. Pode não parecer, mas não é assim tão refrescante sentirmos a brisa fresca das montanhas da Suiça contra os dentes, não é convidativo ouvirmos a Julie Andrews a cantar umas tolices pela nossa garganta abaixo e é constrangedor sentirmos a Heidi debaixo da língua.
Escovar os dentes resulta.
Depois, apesar de todas nós sabermos que só os vegetarianos conseguem ter na boca a frescura de uma horta orvalhada ou no mínimo de uma salada minimal, nunca uma rapariga permanecerá por muito tempo no palato de um homem que lhe lembra a dieta.

Sejam corajosos e arrisquem!

A Gaffe não simpatiza com um homem que traz na boca o sabor do seu bâton e que usa e abusa do seu nécessaire, mas o esforço que leva um rapaz a levantar-se uma hora antes do acordar da princesa, para a extasiar com um belíssimo aroma a sabonete e um hálito de prados paradisíacos, tem por certa a recompensa.

Não acordem como são. Acordem-nos sempre melhor.

13.7.24

A Gaffe muito básica


 Sejamos práticas, às vezes ter uma pila ajuda imenso.

A Gaffe indiferente


A indiferença constrói-se demasiadas vezes com a ausência de palavras.

É um animalzinho açucarado preso no lugar mais negro da mais comezinha das simulações de felicidade. Limita-se calado a roer as sílabas da vida do hospedeiro, esgotando as razões do que havia para dizer.

Indiferentes, deixamos vagos os lugares do sentir. Deixamos de ter labirintos. Somos um fio, uma recta inútil traçada por uma barra de carvão que suja os dedos e nos deixa fixos na impossibilidade do encontro.

Na indiferença tudo é desencontro.

12.7.24

A Gaffe a envelhecer


A Gaffe, num tempo que já lá vai, estabeleceu que o seu envelhecimento seria de cinco em cinco anos, ou seja, fez 20, 25, 30, 35 fará 40 e por aí fora, se chegar a idade tão provecta.
As idades intermédias não contam. São períodos de aprendizagem que apenas se solidifica se entre eles deixarmos intervalos de tempo razoáveis.

Posto isto, fica claro que a Gaffe não tem a idade certa para se tornar uma eremita - coisa em que se transformará aos 95 -, mas também já não consegue andar por aí a abanar pevides por entre a multidão.
Está naquilo a que se poderá chamar limbo, que, segundo a Igreja Católica Apostólica Romana, é um lugar fora dos limites do Céu onde se vive a plena felicidade natural, mas privado da visão beatífica de Deus. O Céu estará, de acordo com esta linha de pensamento e com a de Judy Garland, algures entre o início e o fim do arco-íris. O entremeado é o limbo e não dá direito a ida ao cinema nem à visão de faces beatíficas.

Isto de envelhecer aos soluços tem que se lhe diga. O tempo custa a passar e sobe-nos à garganta a sensação do vácuo existencial - critica um amigo - sempre que nos perguntam a idade. No entanto, aprendemos, nos intervalos da chuva, a perceber que o que é aborrecido não é passar a vida a soluçar, é arranjarmos uma embalagem de lenços de papel em condições, para limpar o muco e as lágrimas - de choro e de riso - que nos encharcam o chão que vamos pisando.

A nossa vidinha nunca é tão boa, nem tão má como pensamos. Vivemos nos intervalos.

A Gaffe sem milagres


Quando caminhamos sobre as águas, há sempre alguém que diz que é porque não sabemos nadar.