Está na minha frente, sentado de perna cruzada e tronco
balofo e atarracado.
Bate com o maço de tabaco, acabado de comprar, na palma da
mão. Vira-o e volta a desancar. Repete a actividade até perceber que me irrita,
porque não consigo deixar de olhar para aquele movimento seco que me parece
inútil. Oferece-me um cigarro depois de cuidadoso ter rasgado um
lado e ter puxado um deles que aparece erguido sobre os outros, como se tivesse
havido uma eleição.
Não fumo.
- Mas havemos de beber um copo juntos - promete enquanto
procura no bolso o isqueiro de plástico.
Não bebo.
Torna-se sinistro. Olha de soslaio e sibila, manhoso:
- Aposto que aquela, com um corpinho daqueles, faz o
que falta dizer.
Sorrio e deixo escapar uma centelha de suspeição
propositada que lhe aflora e queima a superfície da atenção. Desconfia. Semicerra os olhos. A primeira baforada do
cigarro, preso nos anéis, tolda-lhe os contornos da cara e fá-lo tossir de
forma seca.
- Oh! Com aquela figura não acredito que sinta muita a falta
de aquecimento central - escalda o homem e arrepia. - Toda alta, toda fria, toda elegante e de nariz empinado,
já aqueceu muitas noitinhas… - escancara num sorriso nicotina.
A ilusão do Poder, quando alimentada por estranhos,
transforma-se em areia movediça, por isso não o paro. Começo a acalentar a
esperança de sentir a atarracada criatura esfumar-me no que se vislumbra por
entre a névoa do engano.
Espero. Digo-lhe que será recebido por ela. Sou apenas um percalço.
Um erro de casting. Uma gaffe na recepção.
- Que venha a mulher! - arreganha os dentes já
babados - mesmo com aquele tamanho, posso bem com ela. É magrita.
Domesticam-se bem, as magritas - desta vez a alarvidade traz o riso.
E ela entra.
- Tenho a certeza que não se conhecem. - Sou tão amável!
- A minha irmã. - Apresento e tenho um orgasmo mui discreto. Continuo: - Este senhor acaba de me confessar que te acha muito
elegante. Creio que entre os dois se vão estabelecer óptimas relações. O homem baba enquanto aperta a mão esguia, prolongamento do sorriso claro e do
olhar atento que detecta o proibido prazer do que mantenho oculto.
- Sou muito empática - rosna a minha irmã.
- Mas magrita. És um potro, um puro-sangue, mas fácil
de domar - esquiço e espero os olhinhos do homem que se abrem em
franqueado embaraço.
A minha irmã estanca. Detectou o jogo e a mesa onde é
lançado o dado.
- Hipismo é no teu departamento. - Faíscas e setas no
meu peito, Sebastião no feminino, nem Santa e já sem reino. - Esqueceram-se de o informar que é apenas a minha irmã
que se diverte com as cavalgaduras - acrescenta e entala-se o homem com fumo e aperto.
- Mas, maninha, este senhor é um jockey.
- Tenho a certeza que sim. Não se quer sentar?! - Pergunta
tenebrosa, porque o achatado já está sentado.
- Vamos então tratar do seu estábulo - ordena a
minha irmã já com a segurança de um projecto ganho.
Os erros cometidos pelos outros, contra nós, dos mais banais
aos mais sofisticados, devem ser usados para reverter situações adversas,
transmutando o desacerto em arma a usar contra aquele que falhou. A falta cometida pelo incauto, transforma-se nas mãos da
minha irmã em forja que subverte o que lhe desagrada e que convence o
imprudente a acatar, sem discussão possível, o que este puro-sangue decidir.
Eu?! Oh!, eu só me divirto, pacífica, a olhar o punhal
cravado na testa do anão.