24.11.22

A Gaffe axadrezada

Annie Leibovitz
As redes sociais - e universos afins - estão incendiadas com o encontro de xadrez de dois jogadores que entendem mais de damas.

Ao contrário de Portugal que tem bem definida e calendarizada a sua época de incêndios - Primavera, Verão, Época de Incêndios, Outono e Inverno -, as redes sociais e universos afins, permanecem em constante labareda.

Tudo é cavaco – e silvas? - para a eterna fogueira.
As imbecilidades de um Presidente tonto e histriónico; os erros do senhor da FIFA com o trogloditómetro a tocar extremos; as birras de plástico e de plásticas do menino de oiro no fim da carreira; a vereadora que desliza pela caridadezita; os cardeais sem norte; Carlos Costa a ligar ventoinhas quando já está frio; a ministra com o assessor de cueiros e as senhoras por licenciar, peritas e ministeriais especialistas em matéria de facto; o verde que quer respirar enquanto se levantam aviões para o Qatar, em rima solta e despreocupada; os acidentes da TAP na rota francesa dos BMW encomendados, e mais que não se diz por cheirar a esturro, deixam um lastro de lava por todo o scroll mais desprevenido.

A Gaffe fica siderada, bestificada, estarrecida, russa - oxigenada, vá! -, com a ardência das redes sociais perante estas normalidades.

A Gaffe já viu de tudo.


A Gaffe já viu Messi enfiado numas cuecas Dolce & Gabanna e pensou ser muitíssimo mais discreto se Messi as tivesse presas nos dentes.
A Gaffe compreende que o riso alarve possa ser acordado pela mais rasca das piadas mais primárias e com conotações sexuais evidentes, mas confessa que fica pasmada quando percebe que há gente que considera uma alegria alguém ter um namorado com bolas de metal, apesar de ler em todos os cantos e esquinas onde estaciona uma imprensa, mais ou menos suspeita e a rasar o grosseiro, que é uma alegria para as namoradas que estes potentados tenham as bolas de ouro

A Gaffe já viu Ronaldo de cuecas panorâmicas.

A Gaffe já viu Roanldo nu - embora com a pilinha tapada pela outrora, mas sempre oportuna, Shayk -, e já o viu de speedo tão apertado como o soutien de Catarina Furtado.

A Gaffe já viu Marchisio com as ditas quase transparentes - abençoado rapaz e abençoadas cuecas que o trazem dentro.

Ver cuecas perfeitas, ver a grande área, o meio campo, o canto, o travessão ou linha de fundo de um jogador internacional sem em simultâneo contribuir para a desflorestação do planeta Zuckerberg, é portanto uma questão de iluminação e de qualidade do grão e do ruído da fotografia e da grife na pose da Georgina.

A Gaffe confessa que de futebol as únicas coisinhas que entende e admira são as pernas e os abdominais dos jogadores. É-lhe portanto indiferente que seja o Ronaldo ou o Messi a ganhar o que quer que seja, ou que se tenham enfrentado - ou não - em cordial e risonha meditação no tabuleiro de Annie Leibovitz.

Há no entanto uma nuance nesta disputa de bolas que a Gaffe não gosta de deixar de fora.

A rivalidade, ou pacífica e supostamente civilizada inimizade, entre os dois jogadores em causa é essencial e é um erro da Louis Vuitton pensar que Leibovitz é concórdia certa. Em última análise, os inimigos são aqueles que buscam a harmonia. Podem matar para a obter, mas a demanda circunscreve-se a um estabelecer de tréguas, custe o que custar. Findam todas as quezílias quando um dos rivais sucumbe dominado. Há batalhas onde nunca existe empate. Um vence e decreta a ausência de conflito.
Há que ter de permanecer em estado de alerta ou de discordar de modo pleno, incessante e irreversível. Exige-se mesmo que haja discórdia em tempo útil, pois que tal é sempre capaz de despertar o ímpeto de crescer. A Ucrânia que o diga, se não estiver muito ocupada em se defender.

É provável que os inimigos, de acordo com a inteligentíssima teoria supra, são aqueles que, sem o percebermos, se tornam a água do poço do deserto que nos apaga a sede de viagem ou de dunas por cumprir temos de admitir que nos grandes desertos qualquer camelo é bonito. Messi, na frente de Ronaldo, não sendo um oásis parece uma água que refresca bastante.

A verdade, por muito que nos continue a surpreender, é que a cabeça do eterno rapazinho da Madeira parece ser uma imensa ilha desolada inundada sem cessar por uma chuva cerrada de notas e não altera o facto de parecer ser conveniente dizer o contrário, erguendo-se estátuas madeirenses que pretendem homenagear o seu génio futebolístico ao mesmo tempo que salientam os seus talentos de alcova.

O jogador é visto com magnificência. É o eterno menino pobre que conseguiu a auréola dos deuses à custa de trabalho árduo, repleto, abnegado, afincado, persistente, hercúleo. O rapazinho será sempre um rapazinho. Será para todo o sempre o humilde madeirense, bondoso, contido, benemérito, digno e consciente. A vítima estoica do ciúme dos rivais, o exemplo vivo de desportivismo olímpico. O moço que saiu da ilha para cumprir Portugal.
Qualquer grão de areia que se introduza nestes pressupostos origina reacções infectadas, acompanhadas de insultos e de acusações de falta de patriotismo. Há, no entanto, a necessidade de se referir que algumas destes grãos são uma delícia - a Gaffe não quer deixar passar em branco o que aconselha o crítico a esfregar os cotovelos numa parede de granito. É tão visual! É maravilhoso!
Esta inflexível postura dos prosélitos não tem em conta o facto de que, ao contrário do que se afirma, o dinheiro não transforma os homens. O dinheiro revela-os e Cristiano Ronaldo deixou há muito tempo de ser menino pobre.
Os povos adulam as criaturas que simbolizam o triunfo e, por muito efémero e diverso que este seja, acreditam piamente que - ao lado das razões que levam à glória -, existe a convicção intocável da eterna perfeição do idolatrado. Declaram a sua devoção a determinada criatura, não admitindo qualquer reparo ou crítica menos agradável, opinião discordante ou desavença que atinja o alvo dos seus extremosos cuidados e inabalável dedicação. São extremistas. O profeta está para o Islão terrorista como a deificada criatura está para os seus adoradores

Se quisermos mudar o campo onde se joga este equívoco, podemos sempre relembrar um ex-primeiro-ministro que foi preso e observar como ainda existe quem o clame inocente, vítima de cabalas tenebrosas, com amigos que são amigos do seu amigo, e não perceba que muito mais inquietante do que ter um ex-primeiro-ministro preso é ter o actual à rédea solta.

Cristiano Ronaldo surge como um imaculado milagre revelado aos povos e ignora-se que os pés dos deuses são de barro - para o bem e para o mal -, e que isso não se altera mesmo quando calçam Prada ou chuteiras CR7.

Não está em causa o talento do jogador unido a um trabalho infinito, mas a Gaffe teme que todo o treino a que Ronaldo se sujeita seja sempre da cabeça para baixo. No que diz respeito à parte que sobra, basta que decore uma ou outra frase inócua que lhe ensinam e a enfie seja onde for.

- O que está neste momento a ler, Cristiano Ronaldo?

- Eu costumo ler tudo o que contribui para eu ser o melhor do mundo. Posso não ser o melhor do mundo, mas acredito que sou o melhor do mundo. Se não sou eu a acreditar que sou o melhor do mundo, não sou o melhor do mundo. Posso não ser o melhor do mundo, mas acredito que sou. Vou continuar a trabalhar para ser o melhor do mundo.

- Qual a sua opinião acerca da Barbie, Cristiano Ronaldo?

- Eu não falo da minha vida pessoal. O que interessa é que acredito que sou o melhor do mundo. Se não sou eu a acreditar que sou o melhor do mundo, não sou o melhor do mundo. Posso não ser o melhor do mundo, mas acredito que sou. Vou continuar a trabalhar para ser o melhor do mundo.


A revelação dos gastos escandalosos de Ronaldo, a facilidade com que se lhe escorrega a cordialidade perante os admiradores, os seus pontapés no fair play durante um jogo que não lhe corre bem, o seu vagaroso derribamento, ou a sua aparente candura e réstia ressentida e ressequida de ingenuidade, não inflamam a Gaffe que se mostra completamente indiferente e não a atiram ao chão com a surpresa.

Ronaldo é um homem desmesuradamente rico e sem qualquer ambição à canonização - também por não saber o que significa -, e para além das suas outrora ditas geniais performances em campo, pouco mais se pode esperar do que comportamentos idênticos aos dos moçoilos mais rufias e mais fanfarrões de bairro suspeito.

Posto tudo isto, convém sublinhar que a Gaffe não sofre nenhuma reacção vagal nem lhe passa pela frente a ideia de, com estas faúlas, lançar fogo às redes sociais e universos afins, pois que está preocupada em apagá-lo noutros sítios e ansiosa por ver Marcelo Rebelo de Sousa, todo ele zangado, a despenhar-se pelos estádios catari, de tronco nu, envolto em chamas, de bandeira ucraniana em riste, aos gritos furibundos em nome e em defesa dos Direitos Humanos.

Diante destas desproporções, é fácil concluir que a Gaffe decididamente não é pirómana.

23.11.22

A Gafe andrógina


De acordo com a mitologia grega, os andróginos eram criaturas que possuiam os dois sexos, quatro mãos e duas faces opostas e, em consequência, o dobro das possibilidades de se divertirem acompanhados nas Sextas-feiras à noite.
Fortes, audazes e destemidos, tentaram invadir o Olimpo para tomar o poder - qual multidão no Capitólio. Zeus, frente às ameaças, divide-os e condena-os, assim decepados, a viver eternamente em busca da metade perdida.

É justamente esta beleza enigmática que subjaz à demanda do que nos une à nossa outra metade e que nos instiga a dúvida e a incerteza do encontro, impulsionando ou, tantas vezes, delapidando o que de completo existe em nós.
A andorginia é, no entanto, abusada pelas actuais imagens estereotipadas que, na esmagadora maioria dos casos, a aliam a uma decadência erotizada, mas soturna e insinuantemente dúbia e riscada por subtis ameaças.
Une-se ao decadente enevoado, a cortinas de vícios esfumados ou a provocadoras poses de divas assexuadas.

O eterno dilema com o qual sempre convivemos, é tornado quase disfuncional pela imagética de um século que entrega ao mito, que tem origem na perda ou na falha, a inconveniência e o engano de um reencontro ilusório.

22.11.22

A Gaffe bovariana


Ao contrário do que se possa pensar, uma rapariga esperta, cosmopolita, urbana até à medula, capaz de arriscar a vida no meio de selvas de betão onde os lobos usam Trussardi de colarinho rígido e pasta de crocodilo, não resiste, esporadicamente é certo, à tentação de catrapiscar um rude rapagão isento de qualquer sofisticação ou diplomáticos maneirismos de circunstância, capaz de se tornar inconsciente ameaça ao politicamente correcto e bem composto, ao bon chic, bon genre habitual e exigido pelas criaturas de santas e boas famílias.

Há, pois, nas caves esconsas, dentro de cada mundana rebuscada, uma rapariga estonteada aos gritos de deleite desenfreado, a esbracejar de prazer rude e primário, pronta a esquartejar o mundo em cima de um fardo de palha, trucidando sem dó, nem piedade, um mocetão boçal e campestre, sem os aromas da Cartier, de musculatura convincente, que acredita que um Canto d' Os Lusíadas faz parte do léxico futebolístico.

O único pormenor a ter em conta, nesta calamitosa e recôndita tendência das mulheres de topo, é o que se refere à quantidade de matulões exigidos. Nestes casos bucólicos, mais vale dois na mão do que um a cavar.

21.11.22

A Gaffe ecuménica


Por serem cada vez mais raras as ocasiões em que nos encontramos em simultâneo num sítio e numa mesma hora, a minha irmã decidiu que os três manos deviam jantar juntos. Eram eliminados três bichos com uma paulada só, tendo em consideração que se acrescentava à reunião a vantagem de conhecermos a nova namorada do meu irmão e que era possível descartar, partilhando, a maçada de ter de aturar um colega japonês que colabora no actual projecto da anfitriã.

O restaurante foi marcado com a antecedência da praxe e, como seria previsível, fui a primeira a chegar.

O senhor da recepção, atrás do seu púlpito, sorriu com todos os botões do seu casaco preto abotoado e foi informado que havia sido feita uma reserva. Empalideceu, o sorriso ficou roxo e os olhos tombaram em queda livre no livrinho das reservas, soltos das órbitas, quando anunciei o nome que devia figurar na sua lista.
Tranquilizei-o:

- Sou apenas a irmã mais nova.

As cores regressaram e os olhos também.
Fui conduzida à mesa assinalada e sonhei por instantes fugir para devorar um cachorro quente - do tipo Grand Danois - que tinha visto fabricar na barraquinha da esquina, antes de fazer de conta que me deliciava com os beliscões culinários do Grand Chef de revista.

O sonho durou pouco porque o meu irmão entrou logo a seguir.
É incompreensível a atracção - que se tem revelado fatal - que o maninho sente por nórdicas! Ao lado, um felino loiro e alto, uma espécie de Twiggy misturada com Kim Novak, arrastava, no trocar de pés de manequim, um gelo de fiordes que condizia com o azul frígido dos olhos de iceberg. Uma mulher lindíssima, logo estúpida - em relação a estes assuntos, gosto muito de respeitar os preconceitos e a sabedoria ancestral -, que se sentou depois de me mostrar uns dentes tão perfeitos que fazem com que nos apeteça bater-lhes com o cabo da faca,  e de sacudir o cabelo liso, brilhante e tão sedoso que por instantes me vi nele reflectida.

Lykke Svenssonolofssonbengtsson - ou coisa que o valha. Não vale a pena fixar, pelas razões que se adivinham.

Antes de trabalhar a amabilidade, amaldiçoei a hora que penei à procura de um vestidinho em condições, porque deparo com os velhos jeans do meu irmão tão apertados que quando os tentar despir arranca a pele e - livre-nos Deus - também a pila que, salta à vista, não tem ar nenhum ali fechada.

Desatam a falar alemão - a lambisgóia vive em Berlim desde os dois meses, informa o mano que corre o risco de perfurar os olhos cravados nos mamilos que enfeitam as bolas rígidas de cidade onde a dona vive sem soutien.
Que sim, que já tinha identificado a língua e que sim, que não entendo, mas que não me importo.

A minha irmã, mais uma vez sebastianista, com um atraso gigantesco que se justifica apenas com a possibilidade de ter estado a sacudir das cuecas a areia do deserto onde se perdeu com o Desejado, faz finalmente a sua entrada fulgurante.

Atrás de uma grande mulher está sempre um homem, diz o povo que o povo diz coisas -e nfim, mais pu menos.
Não vejo o mocetão, porque é japonês e portanto - é mais que certo - pequenino e porque quero provocar uma brisa de indiferença soberba e sofisticada, abrindo a clutch, a pochette, a carteirinha, a porcaria da maleta anã, fazendo de conta que estou distraída à procura do Camões. A porcaria da anã é da minha mãe e encontro dentro duas aspirinas, um Ben-u-ron e a subliminar prova que sou filha dela escrita num papelinho muito dobradinho:

Não perguntar B(…) pelo marido. Morreu - três anos.
A L(…) cunhada M(…). Não referir P(…) - amante duas.
Comprar Ben-u-ron.


O casal chega por fim à mesa e com o meu melhor Greta Garbo enfastiada ...


... ergo a cabeça esperando cruzar os olhos com os do japonês que segundo os meus cálculos devem estar ao mesmo nível que os meus, que estou sentada - o homem supostamente é pequenito - e apanho com a braguinha do sujeito a rir-se para mim.

O homem é altíssimo!

Deve ser o único japonês à superfície do planeta que a minha irmã cumprimentou sem se ter de baixar primeiro.
Fico com os olhos cravados na pila nipónica até a minha irmã a fazer sentar à minha frente e depois de os ter, para disfarçar, espetado nos mamilos da sueca sem antes ter arrancado dali os do meu irmão.

E La Nave Va, fellinianamente.

A girafa loira fala alemão para o namorado que lhe responde para as maminhas em inglês, para percebemos. A minha irmã fala francês para o gigante asiático que lhe responde numa língua estranha que não consigo identificar. Traduzem tudo para português, só para criar ambiente – manos amorosos!

Acabei por tomar as aspirinas e - pelo sim, pelo não -, engoli também o Ben-u-ron.

Isto de se ser ecuménico só lá vai com o Papa.

18.11.22

A Gaffe sem luar

Para a minha Amiga


A minha pequena menina tem dois tesouros.

O primeiro é uma caixa bonita de botas de montar, forrada e encadernada pelas mãos do bisavô, com papel colorido, onde guarda todas as histórias que lhe contava e desenhava, ao cair da noite e ao levantar do sono, o querido senhor que lhe oferecera a preciosidade.

A Caixa dos bonecos.

O outro tesouro é Ludovica, a cadela Teckel, esperta e fanfarrona, que evita conflitos dois centímetros mais altos do que ela - o que significa fugir a ladrar à esmagadora maioria dos problemas que surgem. As duas, cadela e menina, são cúmplices há muito e a Ludovica não escapa, de olhos pesados de preguiça e orelhas tombadas pelo tédio, aos longos debates sobre a vida toda, em que a sua pequena amiga é moderadoa e principal vedeta.

No início das noites cansadas demais, havia jogo pela certa.

Uma das propostas a que assisti era simplicíssima. Pintar em papel perdido pequenos segredos.

- Hoje, minha menina, vais desenhar a pessoa que sentes que mais te protege e guarda. Uma fada ou um anjo, por exemplo. Para eu guardar também na minha Caixa de Bonecos.

E o meu avó esperou esgotado pelo dia, ver o dia inteiro salvo no papel riscado.

A menina, de responsável lápis, traça concentrada quem mais a protege:

Ludovica!

Vi o senhor inclinar-se, preocupado. Vi-o levantar de olhos inquietos.

a bisneta diz-lhe então porquê:

- Porque quando nos vemos muito aflitas, a Ludovica corre mais do que eu para te ir chamar.

O meu avó guardou até ao fim este tesouro na carteira.

Ludovica Riba d’Ave Vilarinho e S. Romão - Lua para os amigos - é uma Teckel de muito boas famílias que nos suporta com sobranceria, caninamente apaixonada pelo dono que persegue de forma compulsiva, de cauda em arco a abanar pausadamente.

Meiga, inteligente, fleumática, óptima caçadora e muito pouco dada a mimos, é o oposto da Bórgia, assassina nata, bipolar, maníaco-depressiva, histérica e esquizofrénica.

Lua adoeceu.

A cadelinha vinha há já algum tempo a ameaçar fragilidade. Foi-lhe diagnosticado um problema cardíaco com aguda gravidade e artroses nas minúsculas patinhas rechonchudas.

Depois de medicada, a Lua resistiu e, rapariga forte, corria pela casa atrás do dono, desenfreada e tonta, reguila e distraída, desajeitada e senhora do seu um nariz seguro e empinado.

Agora piorou.

No mapa da minha alma tenho a Lua no instante do salto, de alegria disparada, de correria desatada a desfazer a relva, atrás do dono, os dois a gargalhar, os dois a explodir de espaços repletos de vento.

Os dois já cansados deitados no chão.

O que retenho desenhado é a absurda cumplicidade da cadela com um garnizé psicipata. Os dois dispostos sempre a atacar o estranho. Os dois a perseguir o Chanel da visita e já escondidos a rilhar a troça de ver por terra, tombada e amarfanhada, a pose das senhoras.O momento que guardo é o que me fala do adormecer da Lua no colo do meu irmão depois de o olhar com a mais completa entrega, a mais fenomenal das fidelidades, o mais perene Amor do Universo inteiro.

A vida distorce, altera, transforma o mapa que retenho.

Lua piorou e já não corre.
Quando o meu avô morreu, a Lua chorou um choro baixo. Um fio fino e transparente de lágrimas que durou dois dias e duas noites só findo quando a minha avó lhe entregou a manta de lã que o meu avô usava para cobrir as pernas nas tardes do jardim mais frio.

Bórgia foi arrastada para a jaula.

Não mais dormiu aos pés da cama. Deixou de entrar em casa, a não ser para farejar a cozinha à espera que alguém se comovesse com o olhar de súplica do monstro e lhe oferecesse a provar, à revelia de todos os conselhos, ordens e recomendações, um naco de carne que a Jacinta tempera com alho, vinho, cidra e ervas aromáticas.
Facilitou durante bastante tempo a entrada das visitas. Se antes se tornava um perigo tê-la solta quando na casa havia gente alheia aos seus domínios, era fácil depois fechar-lhe a porta e gradear o bicho.

Quando a Lua adoeceu, a Bórgia acordou prostrada. Chamaram-na e ela não veio.
Fomos esbaforidas e aflitas de encontro às velhas amigas.

- Deus nos valha, menina, que a cadela piorou tanto.


Bórgia.

Deixem que vos mostre a Bórgia.

A Bórgia é uma assassina nata.

Venham comigo à janela do meu quarto em casa da minha avó.

São sete da manhã e a minha prima acaba de fazer parar o carro à entrada do portão que se abrirá sem barulho, comandado por uma peça pequena com muitos botões minúsculos que não servem para nada a não ser para questionarmos a complexidade da vida e depois carregarmos num deles à toa.

Vá lá! Corram! Espreitem comigo.

A minha prima desce o vidro do carro e pesquisa o terreno. Não ouve o ladrar psicopata da cadela ensandecida e suspeita que a Bórgia ainda não foi presa.

Tem uma péssima relação com o neurótico animal. Tem o vício de a irritar, sabendo que as grades que a separam dela fazem com que a fúria aterrorizadora da cadela morda apenas o ferro. Sabendo-a presa, procura irritar a furiosa fera, chamando-lhe bébéfofinhabéu-béu e babando treta cacofónica até à exaustão e ao esgotar completo das variantes mais roucas do ladrar da assassina.

Se olharmos agora para a nossa esquerda e procurarmos entre a ramagem vemos a Bórgia à espreita, quieta e muda, posta no sossego da emboscada, com os dentes atentos ao que se vai passar, completamente SOLTA!

A rapariga abre uma frinchinha na porta, devagar. Investiga. Decide telefonar cá para dentro. São sete da manhã! Espera o quê?! A minha avó declarou há muito que nunca se incomodam as pessoas antes das 09 e depois das 20 com campainhas histéricas ou notícias de óbito.
Um pé. Um contratempo. A minha prima não usa tacões altos. Para compensar, a saia é a travada.
Vai arriscar.

Hesita.

Fecha a porta.

Volta a tentar com um tacãozinho.

Ela aí vem! A disfarçar o medo com uma saltitante corridinha.

Um míssil de fúria disparado, a Bórgia em picado voo, desenfreada corre em direcção às pernas longas e ao pânico comprido da minha prima condenada à morte.

Depois subitamente finca as patas no chão. Quieta, a rosnar de lado. Absolutamente terrível, desmesuradamente pesadelo.

A minha prima não avança. Não pode avançar. Se mover um músculo, ficará sem ele.
Bórgia vinga-se da forma mais perfeita.
A ganir, a minha prima ouve-se ao longe:

- SOCORRO!!!

Vai ter de esperar, qual estátua branca de jardim romântico, que a venham ajudar.

Entretanto, desço. Tenho tantas coisas para fazer que suspeito ocuparei toda a manhã longe do jardim e perto da mais curiosa e súbita falta de audição do resto da casa.


A assassina doida que esfacelava móveis e esfarelava as carnes dos incautos, subitamente velha agora nos meus olhos, que velha é há tanto tempo aos olhos dos que a temem, perto da Lua entristecia. Ninguém a conseguiu retirar do lado da amiga.
Trouxemos o veterinário.

- Que tossiu sangue, Senhor Doutor. Piorou tanto!

O homem entrou para observar a Lua adoecida. Saiu depois inútil, desolado. Acompanhava-o a minha avó que em silêncio ouviu o veredicto. A minha querida Jacinta atrás, a tropeçar nas pedras e a amarfanhar com as mãos o avental e a dor.

Lua treme, inquieta. Tosse e cospe sangue.
Abre cavernas na minha garganta e faz o fel golfar enchendo tudo.
Eu ali de pé, ali cravada, muda, seca, hirta, ressequida?
Abro a porta e entro e de joelhos abraço a cadelinha, a beijo a soluçar.

Bórgia a ganir muito de mansinho.  

Deixo de saber se é sangue ou se é o meu cabelo que se espalha na manta que foi do meu avô.

Lua morreu de manhãzinha.

17.11.22

A Gaffe por enlutar


O luto devido a uma relação que finda não deve durar mais do que uma ou duas semanas, embora possamos disfarçar-nos de dolorosas durante um bocadinho mais, para não desiludirmos os puristas.

a Gaffe sempre se considerou uma perita nestas coisas de quebra de relações e sabe que não vale a pena olhamos para os homens das nossas vidas como uma das pastorinhas de Fátima para o extraterrestre - à Gaffe ninguém lhe tira que aquilo foi obra do ET.
As mulheres, as poucas que a Gaffe conhece mais de perto, quando deparam com uma relação moribunda começam de imediato a encetar esforços para distrair a vítima, tentando fazê-la esquecer o mau bocado. Chegam em bicos de pés e convidam-na para sair para aqui e para acolá. É evidente que a Gaffe sabe, porque as conhece bem, que estão com a mesquinhez de saltos altos e o que realmente querem é rilhar o osso. Não sabem que, infelizmente para elas, nunca há grande coisa para roer. Não há luto para mastigar em conjunto e o que quer que tenha acontecido nunca merece grande choro. Afinal é um homem uma das premissas.
O curioso é que se acabe por descobrir que, no meio disto tudo, a vítima muitas vezes é a menos interessada no sucedido. É verdade que pode eventualmente lamentar o par de apêndices monumentais colados à testa - por exemplo -, mas também não acha necessário fazer desta alegoria um dramalhão romântico.

O que se passa é que, geralmente - sublinha-se o geralmente -, quando uma ligação que parece estável vai parar ao esgoto, se pensa logo que a mulher que ficou a ver passar o avião precisa do apoio solidário das amiguinhas e ajuda para fazer as malas.

Ora a Gaffe tem uma sugestão:

Não deixe nadinha seu pelos sítios por onde passa. Mesmo no seu gabinetezinho, se tiver de se pôr a andar, desande de mãos livres. Nem uma fotografia tenha exposta. NADA. Faça exactamente o mesmo com as suas relações de grandes avançados. Não pouse nada, antes de saber se o soalho é seguro. Como nunca se sabe se a coisa aguenta, acaba por sair mais ou menos bem e de sorriso airoso.

O resto é cantiga.

Quando sentir que o chão está a fugir e com ele vai o grande amor da sua vida, seja uma rapariga esperta e comece sempre por salvar o cão.
É que há sempre a hipótese de lhe tirar o açaimo.

16.11.22

A Gaffe de S. Martinho

Piotr Kowalik
Depois de quase uma década de esquecimento, os festejos da noite de S. Martinho, neste recanto do Douro, saltaram do escuro orvalhado das sombras há uns - poucos - anos, autorizados e patrocinados pela minha avó.

A minha irmã, sem ainda ter reunido a coragem para os anular, deixa que mais uma vez se espalhem na eira secundária e desactivada que foi coberta por telas, longe da casa e perto dos fogos de risos coloridos e de alma em fogareiro fumegante.

O cheiro a castanhas assadas, jamais suportado pela minha irmã - o estômago da gentil senhora, de extremos histéricos, entra em convulsões frente a castanhas e a chouriço assado -, não se coaduna com o seu Dior creme, crème de la crème. Desce, sustendo a respiração e abanando a mão em frente do nariz. Encaixa as pernas, o charme e o glamour no carro que a levará aos grandes chefs de pequenas doses de mundos diferentes, com hábitos menos aromáticos, mas que a minha irmã prefere, tentando depois recuperar as forças nas receitas durienses e o ar nas varandas solitárias do Douro anoitecido.

Eu fico.

Não há nada como um oportuno pedido de ajuda no planear da festa para que uma tímida ruiva tenha o prazer de enfrentar uma inevitável carga de abraços e de sorrisos contaminados por olhares marotos.
Juntos, eu e o Douro, sentimos que o peso da coroa é menor e que há sempre a hipótese de um abdicar sem que ninguém sinta a falta de um ceptro.

A minha presença não é completamente aceite.
O Douro comigo hesita, oscila e bamboleia. Não sabe se me quer, se não me quer. Quer beijar-me a alma, já rendido, mas esperar que de joelhos eu rasteje.
Sorrio e sei que sou demasiado tonta e insignificante, exageradamente colorida.
Facilita o facto de eu sugerir inocência, achada num qualquer socalco de abandono citadino, enfiada num blusão de malha amarrotada, de manta a cobrir-me os ombros que faz frio, e com uns jeans que já viram melhores dias.

Há o notório despertar de uma muito vaga ternura solidária ou de uma solidariedade ternurenta assente no facto de parecer tão desprovida e despojada como este povo para quem a hospitalidade é decisão absolutamente pessoal e pautada por critérios pouco compreensíveis, porque pouco objectivos e muito pouco claros.

A aparência, aqui, é tida como nota capital - como pena capital? - e é um dos elementos responsáveis pelo ostracismo a que é votado o que é estranho ou pela sua aceitação eufórica e entusiasta. No Douro, a primeira impressão tem grande valia e deixa marcas indeléveis nos costados do incauto. Somos amados ou olhados com uma desencorajadora falta de confiança logo no primeiro lance do avistar. Errada ou não, é desta sensação primária que parte o julgamento inteiro que nos condena ou iliba.

Comigo o Douro hesita. Não sabe se há-de amar, se ser amado. Não pode adivinhar, o Douro, que a estrangeira não lhe vislumbra no desfiar da paisagem o mais pequeno fio, o mais pequeno elo da corrente que faz do desamor prisão perpétua.

Não sabe, não pode adivinhar. Por isso hesita.

É nessa hesitação que vou ficando. É nesse balançar que vou permanecendo ilesa e impune, evitando a agressão das pedras cor de cinza e da terra escura torcida pelas vinhas nos olhos do Douro e nos da sua gente.

Alguém escreveu, talvez numa noite de S. Martinho mais ousado e mais bebido, que a qualidade de vida de uma população, mesmo até o seu nível cultural e civilizacional - agora é tão moderno que se diga -, se reflectia no estado dos seus dentes.
Se assim visto, o nível referente à qualidade de vida, se assim pensados os estados, ou estádios, culturais e civilizacionais, depressa concluímos que esta gente é a negação de qualquer dentista.
Não há dentes e mesmo quando enegrecidos vestígios se vislumbram, estão cravados em gengivas magoadas que por pouco tempo mais suportarão os tocos e mesmo quando na boca de alguns mais novos, adquirem colorações estranhas, como se os donos mascassem folhas de tabaco a toda a hora.

Mas os velhos cantam mesmo assim e há raparigas que riem risos brancos enquanto soltam canções tilintantes e rapazes que estalam a língua e abrem a boca de espanto luminoso enquanto penduram luminárias por entre os ramos das árvores mais baixas que abrigaram da chuva.
As raparigas, de rechonchudas curvaturas tigresse, sobretudo loiras oxigenadas, de nails arco-íris, cruzam os braços encaixando-os entre a barriga e as mamas. Cochicham, tilintam, retinem, coradas e ansiosas, com as pernas vagamente abertas, roliças, mornas, nervosas, suadas. Sorriem, descaradamente tímidas, e esperam os olhos dos rapazes que, sempre aos pares, dividem a coragem da aproximação. Não há subtis manobras. Os jovens machos, de narinas trémulas, de parietais rapados e occipitais escanhoados, com melenas lustrosas no topo da cabeça, de Adidas brancas a cintilar nos pés, de calças justas que acabam nos tornozelos e Kispos enfolados, sorvem os cheiros distinguindo o das fêmeas e seguem a pista. Alguns não vão saber nunca o poder que trazem nos corpos morenos e duros. Mostram o capado, mas de forma explícita, que de tão nua e crua, perde toda a força e reduz-se ao exibir dos músculos moldados pela força do trabalhar a terra. Não há inteligência na forma de usar os corpos forçados e tesos e fortes.

As condições estão mantidas:

- Nada mais soará para além da música com sabor a terra.
- O rancho bailará só até às duas da manhã.
- Nada de foguetes.
- Não se darão asas gigantes à multidão que se adivinha a voar picado.
- Haverá rígido controlo sobre os desmandos do vinho que escorrer e um domínio claro sobre a euforia tonta que toca aflitiva as raias do histérico quando a noite avança e dança demais.

Que se baile então, obedecendo. O frio é da terra e a terra é de noite cantando fogueiras. Que baile esta gente, bailando no meio das quadras brejeiras. Quadrados, quadrículas marcadas no chão - não vá ser pisado pudor ou decência - com os aguçados lápis azuis dos olhos das velhas que sentadas vão roendo a carne que sabe a castanhas e sorvendo o vinho como a terra água.

Que se baile então debaixo de lâmpadas fracas de cores bem vistosas suspensas por fios cruzados, confusos, comigo perdida nos traços que fazem na palma da noite.

Que baile este povo sisudo e fechado em frente a uma ruiva de olhos pasmados que morre de inveja por não saber ser a festa na aldeia quando o pulsar é terra que dança; uma ruiva que se esgota numa dança de manta nos ombros a tiritar de frio, sem luz e sem brilho de rua em Paris.

Que baile este povo por saber que o Inverno é o baile que gela uma terra escura, mas que é também a dança que se quer largada, porque é uma espera do tempo do colorir das uvas.

A Gaffe e um rio

Erguia as mãos unidas e pousava o queixo nos dedos estendidos. Depois falava e as palavras escorriam pelos ombros, pelos braços, pelo peito, invadiam a mesa como se fossem água em toalhas de linho, tombavam e desciam agora enxames densos, lentos, de bichos e trepavam-me as pernas, comiam-me tecidos, desarranjavam-me o silêncio e desfaziam-se dentro do peito ou inscritas nas bainhas dos meus dias.

Não ouvi Saramago nessa altura. Olhava-lhe as palavras.

Depois cresci. Aprendi a domar os olhos.

Procurei-o anos depois. Lembrava-me das mãos unidas e do derramar de sons, do fato cinzento, dos compassos da voz, do ar de tartaruga sábia e secular, da secura do verbo, das ogivas das frases catedrais.
Entrou prolongado por Pilar. Apaixonei-me por Pilar por ter aquele nome. Por ter um mar ao lado e não saber senão correr para ele.
Ergueu as mãos unidas e pousou o queixo nos dedos estendidos. Esguios, como flores aquáticas com raiz no rio de Pilar. Depois falou e as palavras aguaram todas noutro lado. No lado de lá da sombra que mesmo assim é sombra, porque a luz pertence aos olhos da mulher e é na mulher que a obscuridade é uterina, que tem raiz por dentro.
Ouvi Saramago nesse dia, como se não o olhasse, que olhar e ouvir parecem ser antíteses quando é de água a terra que tocamos ou quando o rio e a terra ficaram sem fronteira.

E ouvi-lhe as palavras quando as vi.

15.11.22

A Gaffe de mãos partidas

Weichuan Liu
Já não levanta os olhos como outrora.
Agora as pálpebras pesam como se arrastassem os que perdeu pelo caminho. O silêncio aguçou-o, ou a luz que recusa.
Agora é como uma coisa que usa, um órgão, um sinal, uma máscara ou uma luva preta. A resignação cresceu como um bicho cego, mas já não raspa o chão com os pés, como se tivesse garras.
Agora está nos olhos mal abertos.

Acompanhei-o à porta. Olhou-me de frente, recuou e abraçou-me como nunca o tinha feito, nunca assim de ferro.
O abraço tinha lágrimas nos dedos.

Vai morrer em breve.

Tinha decidido procurar-lhe a esperança, mas breve descobri que ela não constava do registo.

Fico esmagada perante as poderosas asas que perdemos quando ao longe, mesmo quando o longe é bem mais longe do que aquilo que pensamos, vemos tropeçar no fim os que desistem.
Deixamos de encontrar os nossos braços prontos para agarrar a queda daqueles que nos entram pelo coração adentro, mesmo ao longe que é bem mais longe do que aquilo que quisemos.

Temos as mãos partidas.

9.11.22

A Gaffe de elevador

Yrrah (Harry Lammertink)

Encostado ao fundo, o rapagão procura demarcar espaço na caixa espelhada do elevador.

Ao lado a senhora gorda de cabelo azul-contabilidade olha de soslaio.
Não gosta de mim e é notória a cisma.
Procuro um caminho entre o exíguo espaço deixado por ela. Empurra. Quer ficar na frente como se o lugar que vai reservando lhe facilitasse o chegar primeiro.
Enfio-me no canto, perto do homem que se encolhe e mirra.

Sorrio.
Sorri.

Estamos tão formais, cordiais figuras levemente frias.
Suspira a senhora, apertada em cinta.
Suspira o rapaz de cinto apertado.
A minha mão, bichana arisca, toca sem tocar nas calças bem justas do meu rapagão.
Subtil sobressalto.
Continua a mão no terceiro andar. Enquanto descemos, a vadia sobe, sabendo que o tempo marcha enfurecido contra o que ela quer.
Toca devagar o roliço rabo do homem que guina de encontro à senhora. A senhora rosna. A mão não descola e aperto forte a nádega esquerda que conheço, porque fui eleita confessionário de outras subidas e de outras descidas, sem elevadores e sem velocidades, nem sempre discretas, mas todas felizes, quer na descolagem, quer no aterrar.
A mão não despega e sente a tensão da vítima quando, mais ladina, tacteia e encontra a linha das cuecas do rapaz imóvel, desgraçado e verde. Prende o algodão que adivinha - ou quer - branco imaculado e puxa e estica e distende e arrasta.

Depois larga.

O som do rosnido e o salto do rapaz são absolutamente imperceptíveis, mas confirmam o estalo.
Sustenho a gargalhada e escapa-me um descontrolado esguicho, um borrifo, um chuvisco, um salpico que atinge o azul-contabilístico cabelo da senhora.

- Valha-nos Deus, nosso Pai do Céu! Já não chega ter de vir convosco nesta merda fechada, tenho de levar também com as vossas indecências. Virgem Santa! Há gente que se controla, porra! Deus nosso Senhor! Há gente que disfarça a nojeira que faz e não anda por aí a incomodar ninguém!

Benzo-me?!

A senhora de cabelo azul-contabilístico é afinal um anjo patego de aldeia.

8.11.22

A Gaffe encharcada

Andrzej Mazur - Borderline - 2020
A chuva encharca o perfume das terras. Transforma-o em baloiços largos, soltos, como uma dança de mulheres entristecidas.
Ontem choveu. Ainda existem pequenos charcos nas fendas largas das pedras.
O anjo do lago assustou as carpas que se esconderam da sua eternidade a escorregar para o dorso da água picada pelas bátegas.
Nada mais existiu a não ser a mobilidade de nuvens desfeitas que se enrolaram no vento.

Hoje a chuva volta a bater nos vidros das janelas. Parecem dedos, a chuva e os cinzentos a azular quando se torna longe.
A alameda tomba de pena ou de ternura. O silêncio tem a voz da chuva a desabar.
Se nos sentarmos direitos - a chuva exige a verticalidade dos corpos, mesmo daqueles que se sentam -, de mãos fechadas, uma sobre a outra, na cadeira que colocamos perto da janela e olharmos com muita atenção o caminho por onde se define o azul longínquo, logo atrás da chuva, vemos florir as gotas de água a esbater os contornos da tristeza.

Isto, claro, se não chover também nos nossos olhos.

Os sons da chuva entram pelo impossível laqueado das janelas.
Atravessam os vidros, as minhas pálpebras e entram no interior dos meus olhos. Sons visíveis.
Lembram flores. Flores que se abrem num espaço que dura apenas o tempo de assomo do meu espanto à janela.

Daqui vejo as árvores. Parecem mimos. Mudas. A gesticular em modos de afogado.

Descubro que por entre as minhas janelas intransponíveis há intercepções de águas de línguas diferentes e é neste maravilhar que me emudece que pouso as minhas mãos e lavo os olhos.

Sílaba a sílaba, pálpebra a pálpebra. Chove no minúsculo coração das gotas de asa.
Sílaba a sílaba, pálpebra a pálpebra, chove na terra sem cavalos e sem juncos.
Chove e durmo no minúsculo coração das uvas.
Nos meus lábios há o voo raso do pássaro das águas. Nos meus dedos a nuvem que começa presa no coração de gota de asa.
A luz de linho antigo desfaz o nó das sombras sob as árvores e no coração estrídulo de um pássaro.

Chove e adormeço.

7.11.22

A Gaffe pede desculpa


Pedir desculpa é, há muitíssimo tempo, considerado um acto nobre.

A ponte cai matando uma quantidade de gente absurda, o ministro demite-se pedindo desculpa. Um acto de grande nobreza. O país incendeia-se e queima gente, o ministro não se demite e o governo não pede desculpa. Uma falta de nobreza. O Presidente da República apresenta condolências e pede desculpa. Tão nobre. Uma bactéria mata nos hospitais, o ministro pede desculpa. Nobremente. A igreja gosta de meninos mais do que devia, os papas pedem desculpa. Aristocrático! 

O acto de se pedir desculpa chega com gola de arminho e manto de veludo escarlate. Traz o ceptro da grandeza de carácter numa das mãos e os brasões da elevação de alma na outra. Exige-se o desfilar compassado e grandiloquente do corpo da desculpa pelos corredores das nossas vidinhas. Deslumbrados pela nobreza exibida, aclamamos e reverenciamos o brasonado como capaz deste acto que parece exclusivo do gentil-homem e que lhe revela o cume de um carácter de Evereste e uma alma fidalga.

Pedir desculpa é sempre a revelação de uma falha. O reconhecimento de um erro e a assunção da vergonha de ter sido cometido e de sermos responsáveis pelo facto. Nada há de aristocrata - nem de plebeu -, numa atitude que deve ser comum a todas as gentes - a todas as classes, mesmo as definidas pela Idade Média e que, digam o que disserem, perduram ainda.

A atribuição de um carácter nobre a um pedido de desculpa é tão imbecil como o apaziguar da indignação popular quando os grandes infractores assomam à varanda do palácio e confrangidos acenam com os lenços choramingas das desculpas. Se os grandes vigaristas deste mundo abanarem na frente dos olhos dos lesados a alegada nobreza de um pedido de perdão, serão por norma julgados com uma condescendência bem maior do que aquela que é concedida aos inocentes apanhados pelo ladrilhar da trafulhice.

Pedir desculpa não engrandece, nem diminui. É um acto inseparável da condição humana. Existe, porque existimos e porque existimos, pensamos - e porque pensamos logo somos, diria o velho sábio se pudesse.

Após a admissão do erro, logo se verá.

Posto isto, a Gaffe apresenta-vos três maravilhosos remadores olímpicos do tempo em que pedir desculpa era obrigação tida como ordinária por quem cometia um deslize desagradável, ou por quem borrava a pintura - pardon my french -, e avisa-vos, meninas, que apesar de não ter grande talento para as línguas, a primeira desavergonhada que se meter à sua frente desculpando-se por ter de referir a qualidade dos remos dos atletas, apanha com um dicionário na nuca.

A Gaffe pede depois desculpa.

É uma aristocrata.

A Gaffe de todos os nomes


 - Olha-os nos olhos e diz sempre a verdade com o mais absoluto rigor. Desse modo não terás nada inútil para recordar. Ficarás livre para memorizar apenas o que vale a pena, como os nomes das estrelas.

Avô


O nome dos outros em mim como tatuadas gentilezas.
Na minha alma nua a morrer de frio consigo ler o nome dos outros a pena escritos ou desenhados ténues ou indeléveis brotando da macia superfície. Como se a cada nome fosse entregue um espaço meu, da minha alma nua que treme precipitada pelo frio. Como se a minha memória fosse este lugar despido e nada mais houvesse a não ser o risco que cada nome na minha alma nua faz, florindo a pele.

De todos os nomes na minha alma fria aquele que eu consumo, gasto, esbato, diminuo, adoço e esmaeço, tem a cor do afago e no lado esquerdo de todos os sentidos, o teu nome vai devagar pousar no coração.

3.11.22

A Gaffe castanha


As mãos do velho Domingos que agora seguram o abanador de palha com que espevita as brasas que assam castanhas, são as mesmas que me guiaram no caminho das nogueiras, dos álamos, dos plátanos e dos áceres, com os pés molhados de folhas mortas e céu coberto por estilhaços de bronze, escarlate, doirado e castanho, para ver o carvalho plantado pela primeira mulher desta casa.

Lembro-me da textura de tronco de videira das mãos do Domingos, de sentir que era o Outono que me segurava os dedos, de ter a certeza que cheirava a pão e a frio, a mantas e a cães. Lembro-me dos sons do quebrar do chão como uma porta que range e temos medo. Lembro-me do trigo da luz nos braços de uma poeira extenuada. Lembro-me da lonjura do caminho e de ter sentido que a terra tinha recolhido o choro das árvores e de o enferrujar com o suor caído dos homens. Lembro-me de ter adivinhado no meio dos gritos queimados da luz por entre ramos, a negrura animalesca do carvalho na sombra pousada no caminho que estalava. Lembro-me de ter tido medo do retorcido casco, dos braços de cotovelos pousados na terra, do latejar do monstro que enfurecido emudecia o latir das folhas e da ardência que dos meus olhos tocava as margens das palavras. Lembro-me das labaredas cegas e negras que de lume a lume, de gume a lança, golpeavam o espaço com adagas de troncos que desciam pela entristecida solidão da árvore. Lembro-me das agulhas do sol amortecidas a picar os pássaros parados, da luz cansada de ferro que se espetava nos ninhos.

Um golpe no pulso da terra. Uma cicatriz de espera. A árvore a pesar como uma chaga.
Havia ferrugem nos cabelos. Roxos de frio.

As mãos do velho Domingos seguram agora o abanador de palha com que atiça o lume a assar castanhas, e eu queimo as feridas da memória com os dedos do silêncio até tudo parecer polido como os lagos impolutos da inocência.

O Outono é esta árvore e tem a alma em sépia.

2.11.22

A Gaffe num fado


A Gaffe admite que nada sabe do fado.
Nunca esteve perto quando era do bom o que se ouvia. Descobriu-o já crescidinha, na voz amadurecida de Amália e, como seria de esperar, ficou deslumbrada com Grito, Lágrima, Gaivota, Primavera, Foi Deus, e tantos outros do género que se convencionou, se não se engana, chamar fado menor.

Não sente qualquer atracção pelas vozes masculinas do fado e só um pequeníssimo número de mulheres a emocionam. Aprendeu devagarinho a gostar de, Mafalda Arnauth, Ana Moura, Carminho, Maria da Fé e não vai muito mais longe.

A Gaffe não gosta de tascas ou de casas onde se canta o fado.
Foi uma vez a uma e apanhou com uma espécie de bêbados encapotados que fechavam os olhos enquanto se ouvia a fadista trinar; davam urros de vez em quando, como forma de incentivo ao canto; tinham catarro e tossiam para cima de umas senhoras oxigenadas, de bâton incendiado, vestidas de brilhos foscos e tinham uma unhaca de meter medo no dedo mindinho. Talvez não tenha ido à tasca certa, mas o certo é que nunca mais sentiu vontade de voltar a entrar numa.
Talvez por não ser de Lisboa. Talvez por ser só meia portuguesa.

A Gaffe, portanto, é uma perfeita nódoa fadista e uma desconhecedora profunda do mistério desta canção.

Tem no entanto uma aversão pouco saudável aos putos que cantam fado.

A Gaffe ouviu um deles, todo lampeiro, com um ar latente de vedeta, arranjar força para estragar os últimos versos do Foi Deus. Vê-lo ser aclamado por fadistas veteranos custou-lhe tanto como ouvir a diva dos Gift a abrir todas as vogais de Gaivota transformando uma extraordinária melodia e um poema magnífico, cantado pela saudade encarnada e pela tristeza soturna e quase desesperantemente reprimida, que existia na voz de Amália, numa cançoneta de concerto adolescente-chic. Vendeu, rendeu como milho de pipocas, e isso é o que se quer.

A Gaffe acredita que o fado tem de ser cantado pela maturidade, porque só o saber de experiência feito provoca a essencial emoção, comoção, que permite incluir no fado a dolência do entristecimento, o doloroso timbre, o lamento pungente da saudade, o quase abandono de identidade em nome de outrem que sufoca ou por nós respira e a transfiguração do mito, sentido como resposta a uma falta, a uma ausência que impossibilitada o preenchimento e que mesmo assim é produtora de resposta, mesmo que o mito tenha a ver, neste caso, com a anulação limite do protagonista, com a morte física ou com a inutilização altruísta do ser rejeitado.

Por isso, ninguém convence a Gaffe que um puto de 13 anos é capaz de encarnar na voz toda a densidade deste fenómeno. Por isso detestou o rapazinho a desarranjar Foi Deus, com a sua vozinha branca, deslavada e nua.

A Gaffe pode não saber nada acerca do fado, mas suspeita que as cordas vocais desta canção estão só no coração de gente grande. 


31.10.22

A Gaffe sem pedigree

Gerhard Haderer

Os homens que já passaram dos 40, mas que teimam em vestir-se de hippies adolescentes são patéticos. Não adianta passarinharem de jeans afunilados e t-shirt justa ou de túnicas de linho e bermudas amarrotadas para mostrar que aquela treta da juventude está no espírito com eles funciona. Não funciona, mesmos com aqueles que fazem yoga, levitação, inalam coisas suspeitas e nos dizem que meditam muito.
Ao contrário do que se espera, se tivermos em consideração o visual muito cool, muito casual, muito descontraído e moderninho, estas criaturas são feitas da mesma massa dos inquisidores e suspeito que têm a mesma idade do último se o último ainda andasse por aqui a esturricar as bruxas. Se os deixassem, e se conseguissem, chegariam ao topo desta carreira e desatavam a mandar os desgraçados que consideram envelhecidos para o churrasco, com justificação apensa.

Dão festinhas descontraídas e cultíssimas nas varandas ou nas marquises do andar de cima, com vista para a cidade e para as colegiais, cintilando no centro do círculo de amiguinhos e de amiguinhas que não sentem os canivetes - suíços, claro -, que os patifes lhes espetam nas costas.
Reagem mal quando se lhes bate no vidro do frasco onde se enfiaram, porque não conseguem suportar que no mundo haja mais gente para além deles e cospem quase logo um veneno difícil de detectar porque vem misturado com saliva e treta.
Fazem lembrar a prostituta-cliché que enquanto o cliente apanhado à toa na esquina toma duche, lhe espiolha os bolsos e lhe fura os olhos à mulher, se lhe encontra a fotografia. Só porque sim.

Porque dou importância a esta coisa?

Porque me apareceu na frente um destes homens que me fez sentir como aqui há uns bons dois anos quando entrei em casa, no Porto, e percebi que tinha sido assaltada. Não levaram nada - no apartamento não havia, como ainda não há, nada que um ladrão considere interessante levar-, mas remexeram todas as gavetas e desarrumaram as tralhas todas. Porque senti o mesmo que senti quando há seis meses entrei na garagem e vi que tinha o vidro do carro partido. Também nessa altura não roubaram nada. Deixaram no banco o pé-de-cabra com que escacaram a janela. Mandei reforçar a segurança da porta e substituir o vidro, mas nunca perdi a sensação de nojo por saber que alguém tinha estado ali mexericar em tudo. Durante um bom período de tempo não senti a casa e o carro como coisas minhas.

O que este quase cinquentão me disse referindo um dos meus maiores amigos - não é mau rapaz. Só espero que tenha deixado de comer salada de pepino e tomate - termina de modo ambíguo, que é quase sempre uma forma sobranceira de desprezar o parceiro que talvez nem saiba que foi agulhado. Uma quase private jock que faz pensar que o tipo dá alcunhas às pessoas.

É um exercício interessante encontrar alcunhas para desgraçados que nem sonham que são etiquetados dessa forma. Tentei fazer-lhe o mesmo e procurei arranjar uma que se lhe aplicasse. Encontrei:

O pincher

A Gaffe destemida

Adam Seder & Martin Gerlach -Viena, 1887
Nunca tive medo de bruxas. O que receio são os espectros, os fantasmas e os esqueletos que toda a gente esconde nos armários.

28.10.22

A Gaffe à sombra da memória


Na gaveta da secretária do meu avô, um berlinde de cristal pesado, repleto de fios coloridos, ao lado da carteira em couro sem conteúdo e de papéis dispersos e sem utilidade.
Devo seleccionar o que se guardará.
Apenas manuscritos, apenas rastos de memória, apenas as réstias duradoiras da memória.

Escolho o berlinde de cristal pesado.

Descubro-o nas mãos do meu avô que o erguia contra o sol de Verão. Rolava-o, atravessado pela luz. Reflexos espalhados pelo chão e uma história dentro, de fadas, de bruxas e duendes, na minha infância ainda aqui ao lado.
Descubro-o agora meu, na minha mão sem histórias. Rolo-o erguido contra a luz do sol do meu avô, mas é apenas a sombra o que eu alcanço.

27.10.22

A Gaffe bem vestida

The better you dress, the worse you can behave.

Fred Castleberry