28.5.26

A Gaffe demolidora



-Não te cheira mal?!
- É do lugar - responde a minha prima ao volante do carro que, por muito descurado que esteja, não transporta a Tina Turner morta e a apodrecer debaixo do meu assento.

Saímos cedo de casa da avó. A minha condutora, depois de luta renhida com o guarda-fatos, fez vencer a batalha da imagem através da escolha da saia de envelope, de seda, claramente Armani, que se ata por fita em laço perigoso porque inseguro e de fácil desfazer. Os sapatos rasos - postos de parte os Himalaias da chegada - condizem com a blusa bem justa comprada sem griffe que se molda e se cola às curvas já por demais vertigem, por demais pecado.

- Deuses! Que tu por vezes fazes parecer que levaste com um pau na testa. É do lugar, do sítio, do degredo, do campo. Aqui cheira mal em todo o lado. Passamos por uma vaca há dois segundos e está ali à frente um burro a olhar para nós. Respira fundo! Este ar só te faz bem.

Procurei nas minhas memórias os paus que me bateram na testa. Nada. O cheiro que sentia não era consequência de passado traumatismo.
Tinhamos parado nas bombas de gasolina, mesmo no centro do degredo. A minha prima tinha-me obrigado a ir pagar ao velho antipático o combustível, já que tinha sido ela a enfiar o tubo e a carregar no manípulo. Lembrei-me do cão, estatelado e miserável como um rato morto, junto do velho mostrengo que no fim do balcão nem sequer ergueu os olhos quando lhe estendi a mão com o dinheiro. Lembrei-me que, na volta, ocupada em amaldiçoar a cena, tinha sentido na sola do sapato uma escorregadia e viscosa substância que ignorei por completo.

- Acho que calquei merda!*

O carro guinou, travou e grunhiu. Fui expulsa de imediato pelo olhar sanguinário da condutora enojada. Em pleno degredo, a minha prima repugnada observa uma pobre ruiva a roçar a sola do conspurcado sapato na base do muro.

Em frente, do outro lado da estreita ruela, um casal de simpáticos velhos espera pela carreira e atentíssimo espreita os lanços de nojo e da minha angústia.

A megera agarrada ao volante decide verificar em pormenor os danos que vou causando ao muro.
A porta de carro abre-se em glamour. A minha companheira de viagem sai e no instante de alguns passos o desastre acontece. Tinha-se esquecido de forma completa que havia desapertado o laço da saia para que no tecido solto e sem aperto não ficassem rugas.

A saia caiu.

De sapatos rasos e blusa justa a condizer, a minha prima não consegue apanhar os caídos. Em pleno degredo, frente a dois velhotes que pasmam de susto e de nunca visto, há duas dementes estrangeiras soltas e perigosas. Uma a destruir os muros com um sapato de merda e outra de cuecas rendadas a desfazer-se em riso.

Quem um dia proclamou em Roma, sê romano, não teve em consideração duas esgrouviadas e urbanas donzelas de passagem por degredos campesinos.

* Pardon my french

27.5.26

A Gaffe ao espelho


Basta-me enlouquecer. Todo a loucura começa numa oração voluntária. Afasto a penumbra da insónia mal remendada. Levo água à boca e à cara. Olho para o espelho. É fundo o espelho! A memória com a encarnação pessoana começa a vislumbrar-me outra.

E se eu me desconhecesse? como me olharia? de quem é este cabelo ruivo desalinhado como fitas quebradas? Quem beijaste? És temperamental? Como murmuras ao ouvido?
Tomada pela encarnação da desconhecida dentro, cresce-me a vergonha gelada e afasto-me a cobrir a nudez. Escondo-me com as mãos como as gazelas ao farejarem ao longe o cinismo das leoas.

Depois rio-me, sossegada pelo eco frondoso da minha voz fragmentada. Toco o vidro, toco o reflexo, toco-me com a mão. Enterneço-me com as semelhanças animais entre as duas criaturas. Eu sou isto. Resigna-te.

Os cães também amam.

Alimento o fascínio do desprezo, da inteligência que consegue desarrumar a sensibilidade da boa educação. Ergo paredes à volta da solidão, tão íntima.

Encho o peito contra o rio. Recupero os sentidos. Levanto-me. Os pés nus contra o chão, sobre as metrópoles enterradas do passado e a turbulência do magma.

Sei que preparo a minha distância de uma forma rigorosa, mantendo-a, comendo como um cancro, para não desistir do que se move: a esperança do eterno.

20.5.26

A Gaffe surda


Enquanto o dia passa com as suas vestimentas de insónia e carpintaria, falo-te de outro universo baldio, com paisagem por ferir e sem catedrais para a penitência dos anjos, mas não reconheço o murmúrio da minha voz coroada de espinhos.

Oxalá a felicidade exterminasse de uma vez esta comédia.

12.5.26

A Gaffe sem primaveras

As árvores não florescem como dantes. Já não existe o paladar da Primavera a vertebrar-se no desflorar do corpo das palavras.

23.4.26

A Gaffe nominal


Preciso do teu nome para morar, para assim te poder chamar da casa em labaredas, da Primavera autónoma sobre as copas e dos sepulcros das prostitutas e da ciência assombrada de céu, quando no inelutável íntimo rosto da terra todos os nomes se despem durante a noite.
 
Por isso inscrevo o teu nome na pele, como um signo fechado por um grito, ou uma renascida onda cheia de cornos, para que as margens não transbordem de coração carnívoro.

Sempre que tu és, o tempo desiste e eu aprendo a rodar o medo nas palavras.

14.4.26

A Gaffe orgulhosa


De acordo com o especialista, tenho de depurar aquilo que faço passear por estas avenidas. Decepar os adjectivos, decapitar os advérbios e anular as metáforas, tentando ao mesmo tempo desviar-me dos clichés e das frases feitas. Só dessa forma poderei almejar um dia fazer de conta. A verdade é que passo de rajada pelo calcetado destas avenidas. Não há motivo de orgulho no desenho que vou fazendo com as pedrinhas das palavras.

Felizmente.

Das várias espécies de orgulho, apenas uma é salutar. As outras transformam-se a curto prazo em soberba. O orgulho é impiedoso. Não estanca deslumbrado perante o que fizemos, dissemos ou pensamos. Responde a uma exigência e nada mais é do que a confirmação do que somos, realizados naquilo que produzimos. Não nos considera grande coisa. Cumprimos o que esperávamos de nós. Torna-se implacável e quase assassino, disfarçado muitas vezes de abatimento e de opróbrio, quando falhamos. Faz com que o cirurgião, por exemplo, chore desalmado escondido numa retrete nauseabunda por não ter conseguido salvar o paciente e castiga-o de modo subtil fazendo com que se torne obrigatório ser o choramingas a comunicar a notícia àqueles que esperavam um milagre ou manipula a palavra profissionalismo enfiando-a na boca do polícia que nada mais faz do que cumprir um dever com a qualidade que se espera óbvia, protegendo a criança da sanha violenta do colega, mas que apesar de tudo é evidentemente maior do que a dos companheiros de infortúnio, espectadores inertes. O orgulho, o que vale a pena, é um factor de prevenção. Permite que evitemos cometer erros. Protege-nos. Ergue-nos, endireita-nos a coluna. Com a coluna erguida é muito mais difícil entrar nas caixinhas da traição, da mentira, da intriga, da mesquinhez e das tantas outras coisas que rastejam. O orgulho, o que vale a pena, não se ergue daquilo que fazemos, dizemos ou pensamos (talvez, nestes casos, dê lugar a uma vaidade que é sempre um fogo fátuo). É outro virar de cabeça para trás. Olha o que somos em retrospectiva, porque sabe que somos sempre uma fusão do passado. Geração atrás de geração, atrás de geração, atrás de geração, mas indiferente ao facto de chegarmos até Napoleão ou pararmos no avô que nos pariu, o orgulho adquire neste recuo uma das suas componentes imprescindíveis. A vergonha.

É este orgulho facetado que impede a desonra de aviltarmos o que se reflecte no espelho quando nele tombamos. Não somos Alice num país de maravilhas, somos os que nos precederam todos juntos e o orgulho sabe que só o passado é eterno.

13.4.26

A Gaffe moribunda


Tu numa última braçada, uma última âncora lançada à areia.

- Já não gostas de mim.
- Que parvoíce. Gosto sim.

Apago a voz com a mesma solenidade de quem ata a morte errática, de quem capitula a golpes de martelo sobre as pálpebras.

- Não. Não gostas.

A reacção do teu corpo a dactilografar o meu silêncio biográfico, ensurdecedor de coração indesejado. A tua inútil imagem nua com um lençol sobre as ancas viradas para mim.

- Para que quero eu isto?

Isto. Como se fosses passível de ser removido, como se fosses a posologia demasiado confusa.
A culpa. A culpa a espalhar-se dentro de mim. A plantar a sua árvore de frutos, para se deleitar à sombra, saciando-se de verbos.

- Não. Já não gosto de ti e não consigo fazer nada.

À volta da tua boca a mais profunda e densa escuridão.

9.4.26

A Gaffe marítima


As múltiplas claridades das sombras. O desejo de colidir com os demónios. As sílabas prolongadas. Os jardins onde me deito sobre ti. A duração dos lírios em prece nos teus lábios. A precipitação da chuva nos ombros da morte.

- Já me pediste para te esquecer?

A besta retorna à jaula, as marés acalmam novamente, as aves em voo cicatrizam a minha solidão lunar com algumas cavidades onde uma criança acena, despedindo-se.

(O coração deveria ter uma boca para engolir.)

Não. Não te pedi para me esqueceres, mas há um mar em mim onde jamais aprenderás a mergulhar.

27.3.26

A Gaffe dos pequenos sóis


Abro os olhos. Esfrego-os com raiva, estremunhada, e pequenos sóis passeiam à minha frente.

À medida que recupero as cores, de costas para a casa e para o destino, ele chora contra o vidro. Como um violino antigo pelas cidades exaltadas. De nariz espetado, embaciando o vidro com a transpiração tremida, desenhando curvas oblongas aos soluços. Intriga-me a sua nudez perante mim. É-lhe indiferente o exercício íntimo da sua dor. Talvez me julgue longínqua nesta minha cara despida de assombro. É difícil não reparar na sua beleza cruel, mesmo adulterada pelos músculos em esforço. Sinto-me embalada pela dificuldade em compreender o retrato. Amparo-me na constatação de que a beleza é uma forma de génio, espantada pela construção natural de um acaso harmonioso.

O sangue desacelera. Os nervos contraem-se como noivas despidas. Acende um cigarro. Enoja-me a forma como me desocupei de mim.

O fim permanece próximo quando se relampa de lágrimas.

- Não consigo entender-te. Perdoa-me.

Por não reconheceres a minha mão? a minha individualidade felina com a ternura a baloiçar nos olhos, pedindo beijinhos na testa antes de adormecer?
Um gesto desleixado no ar a vertebrar os meus espaços, de aves brancas a baterem contra o sol debicando as folhas da minha sede vegetal?

A cada passo dado para a porta, baloiçam envelhecidas noites de inconfessáveis segredos, ombros adormecidos sobre as giestas, a eternidade das manhãs corruptas soletradas pelos riscos do passado.

- Perdoo, mas agora tens de me dizer adeus.

25.3.26

A Gaffe quando é difícil


É difícil dizer-te o horário da chuva recolhida quando desesperas por bicicletas entre as flores.

É difícil dizer-te o parto das aves no coração da guerra.

É difícil dizer-te a insónia aérea dos peixes, do mar adentro disponível para o lamento, do verso cristalizado como um martelo na boca.

Rio-me como uma agulha feliz na palha, porque o amor diz-se a si mesmo e porque não há estrutura, nem ortografia, nem punhos fechados no amor, porque não sei o que digo e porque tudo em mim te faz sentido.