23.7.26
A Gaffe etiquetada
Sou fútil e superficial, talvez possa roçar o ofensivo, sou fascinada por brilhos de diamante e gosto, maliciosamente, do passear do discreto perfume da mais discreta e poderosa burguesia.
Assumo!
No entanto, tenho álibi, tenho redenção, tenho justificativa.
Nunca reclamei para mim o esplendor subtil que algumas conseguem dispersar num bater de asas com travo de indiferença.
Gosto apenas de as ver surgir envoltas no mais perfeito allure, no mais insuperável aroma do luxo e da opulência.
Gosto de as ver usar as sedas límpidas de Armani, os discretos cortes de Cerruti, as extravagantemente simples pulseiras de Chanel, os precipícios Prada, os levemente tontos lenços de Hermès, o charme dos padrões de Valentino, as tolices de Moschino, a sensatez de Saint-Laurent, o poder avassalador de Balenciaga e o charme infantil de Dior.
Todas mulheres deviam ter o melhor de tudo e não há sombra de pecado quando descubro que o melhor de tudo, o mais perfeito, o mais cuidado, o mais sedutor, o timbre e o selo da perfeição absoluta, está invariavelmente cravado com insuperável esmero na etiqueta, junto do nome daqueles que a criaram.
Estou absolutamente livre e limpa. Sem réstia de servil e canina escravidão a conceitos e publicitários truques, sem nenhuma ligação a imagens estereotipadas de gentes que são gente apenas porque são glamour e luxo misturado e embrulhado em capa de revista.
Se creio que uma mulher merece estar vestida por Cerruti e perfumada por Cartier, é só porque estou certa de que nada, mas absolutamente nada, mas rigorosamente nada menos do que isso, lhe poderá tocar a pele.
Para as mulheres nasceram costureiros e foram inventados os perfumes.
17.7.26
A Gaffe deslumbrada
Se formos capazes de atravessar a destruidora publicidade, é um pecado colossal ficarmos desatentos à colecção de D&G 2026.
O deslumbre é imediato. Nada é descurado na perfeição que invade um cenário com memórias de tragédia siciliana.
A cor negra trespassa o palco e os sons dos chicotes das joias espalham-se pelos corpos quase num desafio de crime que envelhece como homens de suadas flores de carne.
É impossível ficar indiferente, porque a opulência aqui é um fatal como uma ruela de sombras que se vão apossando do mistério do resplendor destas faíscas. Belíssimas!
16.7.26
A Gaffe sem calor
Minhas caras, a elegância jamais se deve alquebrar perante as intempéries. Deve ser sempre a meteorologia a conformar-se com o allure que espargimos pelas ruas.
15.7.26
A Gaffe inútil
A Gaffe leu há dias o texto de um senhor muito indignado que se amotinava contra o culto da futilidade e da desumanidade mais fria em detrimento da solidariedade global e da revolta contra os dramas tenebrosos que assolam o planeta.
Escrevia o senhor que nos movemos todos com o combustível do irrisório, do banal, do superficial, do fútil e do mais leviano, preocupando-nos apenas com o passageiro, com a ementa que nos torna fit e se temos reserva feita nas instâncias de luxo onde vamos passar férias. Os espoliados, os pobres, os restolhos do planeta, a miséria, a fome, o descalabro e a desolação, estão afastados dos nossos olhos e expulsos do nosso coração.
Abençoados os posts deste senhor que deixam a Gaffe esmagada com a vergonha do que vai escrever em seguida, pois que será inevitavelmente fútil.
14.7.26
A Gaffe à descoberta
A Gaffe descobriu que a uma mulher importa muitíssimo pouco, ou nada, se um homem pensa nela - e o que pensa, quando nela pensa - quando está sozinho, à noite, fechado no escuro de um quarto.
O que é importante é se nela pensa - e o que pensa, quando nela pensa - quando em pleno dia está rodeado de gente.
9.7.26
A Gaffe de proximidade
Há homens - raros - que nunca entenderemos de forma límpida. Perdemos sempre a claridade que existe no que dizem e no que sonham. A proximidade faz-nos falta. Temos a certeza que os compreenderíamos se os olhássemos nos olhos com mais frequência.
Creio que para vivermos o que quer que seja temos de passar por quatro
etapas.
1. - Saber que existe aquilo ou aqueles que desejamos viver;
2 - Conhecer - ou até vislumbrar apenas - os desejados;
3. - Tocar-lhes, falar-lhes, senti-los, ouvi-los;
4. - Ser e de uma maneira ou de outra transformarmo-nos
naquilo ou naqueles que queremos nossos.
Sem uma destas fases, o outro é imperfeito.
Mas há homens que basta saber que existem e há um Universo inteiro que se
abre.
Sabe-los é sentir que vale a pena tudo, mesmo o mais sonhado, o mais idiota, o
impossível. Ninguém é indiferente a uma montanha pousada subitamente no espaço
e, no entanto, aproximarmo-nos do cume de dentro do seus peitos é tão
difícil!
Há gigantes parecidos com a lua. Apagam-se as estrelas perto
deles.
A proximidade faz-nos falta. Somos melhor do que nós quando
os temos perto.
6.7.26
A Gaffe a desfilar
Paris raramente aceita alguém de corpo inteiro. Raros são os que fazem parte dela.
Em Paris as flores trazem café e há néon nas almas, brilhantina e riso e o allure de mulheres que passam sem perceber que passam sobre vidro.
Paris das esplanadas depois de finda a festa. Nas ruas que são rios e savanas, pradarias, tundras, gelo, vulcânicas passagens para outros lados, cheira a luz e a carne de perfumes raros.
Manadas de indefesos animais, restos da humana desventura de viver em grupo em que o deslumbre mata, porque cega.
Rapazes que ficaram pelo caminho na Semana em que Paris quis usar outros. Givenchy 2026 e uma manada que atravessa o rio na lentidão que desconhece a fera.
Incautos e imaturos príncipes grifados.
Grandiosa idiotice. Esplendorosa idiotice. Magnífica idiotice que nos traz à boca, sem o mover de um músculo, sem emboscar a vida, a presa que se quer.
O menino de olhos de gazela e boca a prometer um fruto. Tem um pequeno alfinete preso na braguilha. Brilha a braguilha com o alfinete preso na prega do tecido que lhe molda o sexo. Cintilam os olhos do menino de braguilha alfinetada e borboleteia, até pousar na mesa à nossa frente.
Purpurina na íris, asa de pólen, menino tonto agora preso no final da festa.
Podia ser este. Podia ser aquele ali, aqui, além. Mais este e aquele, o outro e toda a gente, porque toda a noite é uma alvorada e eles sabem perder para os encontrarmos.

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