27.3.26

A Gaffe dos pequenos sóis


Abro os olhos. Esfrego-os com raiva, estremunhada, e pequenos sóis passeiam à minha frente.

À medida que recupero as cores, de costas para a casa e para o destino, ele chora contra o vidro. Como um violino antigo pelas cidades exaltadas. De nariz espetado, embaciando o vidro com a transpiração tremida, desenhando curvas oblongas aos soluços. Intriga-me a sua nudez perante mim. É-lhe indiferente o exercício íntimo da sua dor. Talvez me julgue longínqua nesta minha cara despida de assombro. É difícil não reparar na sua beleza cruel, mesmo adulterada pelos músculos em esforço. Sinto-me embalada pela dificuldade em compreender o retrato. Amparo-me na constatação de que a beleza é uma forma de génio, espantada pela construção natural de um acaso harmonioso.

O sangue desacelera. Os nervos contraem-se como noivas despidas. Acende um cigarro. Enoja-me a forma como me desocupei de mim.

O fim permanece próximo quando se relampa de lágrimas.

- Não consigo entender-te. Perdoa-me.

Por não reconheceres a minha mão? a minha individualidade felina com a ternura a baloiçar nos olhos, pedindo beijinhos na testa antes de adormecer?
Um gesto desleixado no ar a vertebrar os meus espaços, de aves brancas a baterem contra o sol debicando as folhas da minha sede vegetal?

A cada passo dado para a porta, baloiçam envelhecidas noites de inconfessáveis segredos, ombros adormecidos sobre as giestas, a eternidade das manhãs corruptas soletradas pelos riscos do passado.

- Perdoo, mas agora tens de me dizer adeus.

25.3.26

A Gaffe quando é difícil


É difícil dizer-te o horário da chuva recolhida quando desesperas por bicicletas entre as flores.

É difícil dizer-te o parto das aves no coração da guerra.

É difícil dizer-te a insónia aérea dos peixes, do mar adentro disponível para o lamento, do verso cristalizado como um martelo na boca.

Rio-me como uma agulha feliz na palha, porque o amor diz-se a si mesmo e porque não há estrutura, nem ortografia, nem punhos fechados no amor, porque não sei o que digo e porque tudo em mim te faz sentido.

17.3.26

A Gaffe nas limpezas


A Gaffe veste uma coisita dos seus ilusórios tempos de Jean-Paul Gaultier e decide levar a bom porto a pesadíssima tarefa que iniciou algures Antes de Cristo. Limpar os detalhes dos seus artifícios que, abandonados ao patine das horas que passam, se tornaram lixo.

Não tendo facebook para excluir amigos, não possuindo X para passarinhar com o pano, opta por ir debicando, aqui e ali, os grãos de pó que se depositaram nos interstícios da sua barroca – rococó, quiçá? - fraseologia.

É evidente que fica exausta ao fim de alguns segundos.

Os detalhes empoeirados são em demasia e para tão curto amor, tão longa a vida. Abandonemos, pois, o árduo trabalho e esperemos em sossego imóvel que o algodão se engane.

Pese embora a súbita inércia que a avassala, a Gaffe reconhece que uma mulher é capaz encontrar erros e falhas minúsculos, perdidos nas pequenas fissuras conspurcadas e nas sombras esconsas das esculturas talhadas por homens que de tão sólidos rivalizam com a obra.
Somos absolutamente perfeccionistas quando se trata de descobrir poeiras adversas pousadas nas construções masculinas. Somos obsessivas-compulsivas quando nos relacionamos com a magnitude que se diz perfeita dos que nos povoam a vida e nos saltam para a cama. Somos heroínas de Agatha Christie se as provas do delito de imperfeição se encontram cobertas por camadas intermináveis de alibis.

Os homens conseguem, durante um breve período de tempo muito inteligente, enganar-nos nas grandes coisas, mas jamais nos conseguirão ludibriar nas pequeníssimas.

Meus queridos rapagões, convém que não se iludam.
Somos capazes, na limpeza dos detalhes, de trepar a todos os cantos e esquinas dos lugares, precipícios e falésias, onde acreditais que as vertigens nos convencem a deixar desapurado um grão de pó. Nem que para tal se tenha de mobilizar todas as vizinhas. 

16.3.26

A Gaffe vagamente entrelaçada


O amor é um verbo com acento. É a invenção da loucura acima da síntese instável dos sistemas, onde comungamos no rosto que o fogo preside, químico, com suas arestas de beijos inumeráveis.
 
No fundo, somos essa eternidade vagamente entrelaçada, anunciando espadas e números indizíveis e desfalecimentos inúteis de homens que não amam. 
No fundo, é a falta que nos move.
No fundo, eu sou um manifesto de algas sem oceano, uma geometria de céus sem aves nem degraus, porque me faltas e porque as rosas que canto apenas me declaram a tua sombra convertida.

Ama-me, como não fosse possível existir de outra forma.

14.3.26

A Gaffe a anoitecer


Eu já não tenho ideias. Tenho paredes.

Eu, a náufraga da deambulação fundeada na praça entre torres e cavidades lunares, afogando entardeceres envelhecidos, melancolias demasiado pesadas quando nos afundamos na vida pelos álbuns de família. Ao regressar a casa, no início da noite, apetece-me sempre descobrir se existirá solidão sem gente à volta.

As noites são os meus olhos, porque lá fora continua o dia.

13.3.26

A Gaffe engravatada


Creio que amizade é como aquela gravata indispensável aos domingos quando se fundam as náuseas da existência. O simples facto de vestirmos a gravata, naqueles gestos de rei ao espelho, oferece-nos um sentido, uma esperança a olear a máquina lógica da vida.

É evidente que com uma gravata nos podemos matar, mas, nesse caso, possivelmente falamos de amor.

12.3.26

A Gaffe bailando


Como gostava agora de dançar! Dançar em todas as palavras, como quem já morreu com as palavras todas.

Juro que perdia a vergonha. Juro que nem olhava para o lado, para a multidão a acumular-se nos passeios, de beiços gordos estendidos, na sua altivez amargurada de aventais de chita, decotes para o padre, gravata a endireitar a coluna, fragrâncias de mentol deliberando em suposta inocência fingida.

Cesurando-me.

E eu a dançar para dentro em rodopio visceral.

11.3.26

A Gaffe em movimento


Corro à procura do sossego, como se a imobilidade me ferisse ou desbravasse os gestos, esgadanhando o meu estar parada a ser.

No entanto, de mim parte a nostalgia de me ver quieta.

Sou, movendo-me, e no ser que existe sendo, há o mimetismo dos insectos que de quietos são, parecendo outros.

6.3.26

A Gaffe sem armas


O Douro é o exílio que no milagre me oferece a revelação de uma beleza atroz, capaz de magoar as próprias lágrimas.
Terras que de tão assombrosas e invencíveis se confundem com antigos sonhos, criando este estado de pasmo e distância de quem deseja engolir com toda a forma insubstantiva a conjugação dos elementos naturais.

É aqui que me espanto, é aqui o lugar da parede branca, do Fechado, da existência sem princípios e contudo, mundano nos meus hábitos, exausto de claridade, o meu atordoamento naufraga. Ancorada na razão, sigo as palavras submersas, na tarefa de cumprir humanidade.

Tivesse eu um punhal para ferir paisagens.

5.3.26

A Gaffe com Lobo Antunes

 Desabotoava-me o coração.

Suturava a minha Casa com palavras.