12.3.26

A Gaffe bailando


Como gostava agora de dançar! Dançar em todas as palavras, como quem já morreu com as palavras todas.

Juro que perdia a vergonha. Juro que nem olhava para o lado, para a multidão a acumular-se nos passeios, de beiços gordos estendidos, na sua altivez amargurada de aventais de chita, decotes para o padre, gravata a endireitar a coluna, fragrâncias de mentol deliberando em suposta inocência fingida.

Cesurando-me.

E eu a dançar para dentro em rodopio visceral.

11.3.26

A Gaffe em movimento


Corro à procura do sossego, como se a imobilidade me ferisse ou desbravasse os gestos, esgadanhando o meu estar parada a ser.

No entanto, de mim parte a nostalgia de me ver quieta.

Sou, movendo-me, e no ser que existe sendo, há o mimetismo dos insectos que de quietos são, parecendo outros.

6.3.26

A Gaffe sem armas


O Douro é o exílio que no milagre me oferece a revelação de uma beleza atroz, capaz de magoar as próprias lágrimas.
Terras que de tão assombrosas e invencíveis se confundem com antigos sonhos, criando este estado de pasmo e distância de quem deseja engolir com toda a forma insubstantiva a conjugação dos elementos naturais.

É aqui que me espanto, é aqui o lugar da parede branca, do Fechado, da existência sem princípios e contudo, mundano nos meus hábitos, exausto de claridade, o meu atordoamento naufraga. Ancorada na razão, sigo as palavras submersas, na tarefa de cumprir humanidade.

Tivesse eu um punhal para ferir paisagens.

5.3.26

A Gaffe com Lobo Antunes

 Desabotoava-me o coração.

Suturava a minha Casa com palavras.

A Gaffe zoológica


"La désolation qu'expriment les yeux du gorille. Un mammifère funèbre. Je descends de son regard."
Emil Cioran, Le mauvais démiurge - Œuvres

"Au zoo, tous les animaux se tiennent convenablement, à l'exception du singe. On sent que l'homme n'est pas loin."
Emil Cioran, Aveux et Anathèmes - Œuvres

E no entanto, as primeiras criaturas que reconheceram a sua mortalidade foram as primeiras a sorrir.

3.3.26

A Gaffe vitoriana


A Gaffe lê imenso e sabe que o mundo está repleto de paspalhos imbecis e o problema é que descobriu que eles estão estrategicamente colocados de modo a que dois ou três se cruzem com ela todos os dias.

A Gaffe decidiu adoptar a atitude da Rainha Vitória - quando se negou a assinar a legislação que penalizaria as lésbicas -, em relação a todas as criaturas que confunde sempre com abjectos resquícios do abominável.    

Tal como Sua Majestade, a Gaffe é muito clara, simples, definitiva e peremptória:

- Tais coisas não existem.

2.3.26

A Gaffe carismática


Não é que eu seja mal-encarada, mas não consigo esboçar a esperança de um sorriso quando me olham com ar de quem manda no planeta, do alto de 1,60 m, de lacinho pintalgado ao pescoço e sapatinho com um pequerrucho tacão a ver se passa.

Podem dizer o que disseram, podem chamar-me preconceituosa, podem afirmar que carisma não tem nada a ver com isto, podem gravar em pedra que os homens não se medem aos palmos, até podem invocar o Bonaparte, mas continuo a pensar que um homem tem obrigatoriamente de ser um bocadinho mais alto, não andar com pechisbeques a imitar os filhos adolescentes e não tentar disfarçar a careca deixando crescer as patilhas e as sobrancelhas para as pentear depois para cima da cabeça, para nos poder mostrar que sabe, pode e manda e fazer com que a gente acredite e o reconheça.

27.2.26

A Gaffe principesca


A Gaffe admite que não entende a rede social mais badalada que existe.

Causa-lhe imensa perplexidade o famigerado Like do Facebook.

A Gaffe fica confusa quando verifica a quantidade de gente a gostar da morte de Michael Fox. Compreende que o actor ao longo de décadas tenha muito devagarinho criado anticorpos, mas não acredita que exista alguém que aprecie o seu falecimento.

A Gaffe fica espantada quando verifica que há mais gente a gostar da tragédia de Gaza do que a quantidade de entulho que por lá ficou e que ama várias vezes o arrasar dos templos lindíssimos da mesma forma que atribui um like quando vê Trump a arrasar tudo o que vê ou que mexe.

A Gaffe não entende que a porção de gente que gosta do atropelamento dos peregrinos de Fátima seja maior do que o número dos que ainda vão a caminho.  

A Gaffe também não compreende a multidão de like debaixo das orações que logo de manhã uma senhora vai santamente espalhando, a abençoar o dia e a exaltar o Santo Nome do Senhor, mas confessa que, não vá o diabo tecê-las, já apôs o seu favoritismo numa reza onde se suplicava a Santa Teresa de Ávila um anjo encorpado como aquele que a trespassou.

A gota de água que fez vazar o copo desta incompreensão foi a manada de like apensos à fotografia de William de Inglaterra e de Kate Middleton aquando da expulsão do rebento de Isabel a segunda, que de tanta volta no túmulo, escapou para se vingar.

Gostam de quê?!

Dos incisivos de William que crescem à medida que a testa aumenta?

Do ar de sopeira arranjadinha da Princesa?  

A Gaffe recorda que, pelo andar do coche real, daqui a duzentos anos o casal fotografado será, por ancestral direito, soberano de Inglaterra e sublinha que até a plebeia Charlene de Mónaco, que teve gémeos, os pendurou na varanda com muito mais glamour, mesmo com aquele sorriso de quem está com diarreia e não quer que o povo saiba, e sem lhes dar colo, como quem foi às compras e agarrou numa tronchuda.

A Gaffe reconhece que o único suspiro glamoroso da Casa Real Inglesa se esbardalhou contra um poste parisiense, mas usar um vestidinho caidinho, muito limpinho e um cabelo saído da cabeça de um part-time na Sephora, para manter a distância e o silêncio, não é de todo adequado a uma rapariga que devia ter ao lado e de prevenção uma ama com umas mamocas descomunais para provar que ninguém toca nas suas a não ser o futuro rei e surgir de New Look Dior a ordenar que filhos se espapacem no Rolls, porque é de pequenino que se torcem os brasões, não é depois de se crescer, casar com uma abóbora, e engordar debaixo de Epstein.

Deus dá nozes a quem não tem dentes e a Gaffe suspeita que é porque se diverte imenso a vê-los desdentados a trincar aquilo.

26.2.26

A Gaffe já escrita


O quarto ao lado do meu ficou deserto.

Sobre a cama foi deixada a colcha tricotada a cores.

As lâmpadas quebram lentamente os filamentos sem que ninguém as venha substituir.
Através da porta de ligação chega um frio e um escuro inusuais. O silêncio torna os dias mais desprotegidos.
O pó avança lento do quarto vazio quando a casa se fecha e adormece.
 
Tantas vezes ali estive. Tantas vezes fiquei parada perante o brilho, de olhos a arder por não o ter, que acabava por olhar mais atentamente para as rotas de outras vidas que são como derivas nos mapas das estradas que se perdem. Era nesses desvios que me fixava, nesses pontos de luz que me deitava.
Entrava nestes trilhos devagar e às vezes saía de mansinho quando a vontade de chorar se começava a fazer ríspida na garganta.
Às vezes sorria.

As raízes do riso e do choro pertencem agora ao silêncio. Emaranhadas, acabarão por se tornar impossíveis de destrinçar. Ficarão de tal modo unidas que uma simbiose secreta impedirá o esquecimento mútuo.
É certo que de raízes pouco ou nada há no meu jardim deserto. Talvez um caule mais tortuoso, um ramo mais retorcido e agora pouco mais.

A minha casa inteira entardece devagar.

25.2.26

A Gaffe do postal ilustrado


A minha avó marca a folha do livro com um postal ilustrado antes de o fechar e erguer os olhos. Depois a cigarrilha em prata. O fumo do cigarro, esparso, no aposento.

A senhora sorri e segue com os olhos a estrada cinza ténue que se esfuma.

- Minha querida, quando decidimos partir temos de saber que nenhuma estrada nos vai levar para lá de nós. Não viajamos nunca. Ausentamo-nos.

Há lágrimas nos olhos da senhora.

O fumo. Ah!, o fumo.

- Partir é apenas uma ilusão que fica. Acreditamos sempre na viagem, mas o que resta em nós é a ausência sentida nossa no lugar que fica. Não viajamos a não ser por dentro.

O fumo.

- Não saímos nunca dos lugares onde fomos amados.

Do livro da minha avó um postal que tomba. A página perdida.