Saímos cedo de casa da avó. A minha condutora, depois de luta renhida com o guarda-fatos, fez vencer a batalha da imagem através da escolha da saia de envelope, de seda, claramente Armani, que se ata por fita em laço perigoso porque inseguro e de fácil desfazer. Os sapatos rasos - postos de parte os Himalaias da chegada - condizem com a blusa bem justa comprada sem griffe que se molda e se cola às curvas já por demais vertigem, por demais pecado.
- Deuses! Que tu por vezes fazes parecer que levaste com um pau na testa. É do lugar, do sítio, do degredo, do campo. Aqui cheira mal em todo o lado. Passamos por uma vaca há dois segundos e está ali à frente um burro a olhar para nós. Respira fundo! Este ar só te faz bem.
Tinhamos parado nas bombas de gasolina, mesmo no centro do degredo. A minha prima tinha-me obrigado a ir pagar ao velho antipático o combustível, já que tinha sido ela a enfiar o tubo e a carregar no manípulo. Lembrei-me do cão, estatelado e miserável como um rato morto, junto do velho mostrengo que no fim do balcão nem sequer ergueu os olhos quando lhe estendi a mão com o dinheiro. Lembrei-me que, na volta, ocupada em amaldiçoar a cena, tinha sentido na sola do sapato uma escorregadia e viscosa substância que ignorei por completo.
O carro guinou, travou e grunhiu. Fui expulsa de imediato pelo olhar sanguinário da condutora enojada. Em pleno degredo, a minha prima repugnada observa uma pobre ruiva a roçar a sola do conspurcado sapato na base do muro.
A porta de carro abre-se em glamour. A minha companheira de viagem sai e no instante de alguns passos o desastre acontece. Tinha-se esquecido de forma completa que havia desapertado o laço da saia para que no tecido solto e sem aperto não ficassem rugas.
A saia caiu.
* Pardon my french

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