14.3.26

A Gaffe a anoitecer


Eu já não tenho ideias. Tenho paredes.

Eu, a náufraga da deambulação fundeada na praça entre torres e cavidades lunares, afogando entardeceres envelhecidos, melancolias demasiado pesadas quando nos afundamos na vida pelos álbuns de família. Ao regressar a casa, no início da noite, apetece-me sempre descobrir se existirá solidão sem gente à volta.

As noites são os meus olhos, porque lá fora continua o dia.

13.3.26

A Gaffe engravatada


Creio que amizade é como aquela gravata indispensável aos domingos quando se fundam as náuseas da existência. O simples facto de vestirmos a gravata, naqueles gestos de rei ao espelho, oferece-nos um sentido, uma esperança a olear a máquina lógica da vida.

É evidente que com uma gravata nos podemos matar, mas, nesse caso, possivelmente falamos de amor.

12.3.26

A Gaffe bailando


Como gostava agora de dançar! Dançar em todas as palavras, como quem já morreu com as palavras todas.

Juro que perdia a vergonha. Juro que nem olhava para o lado, para a multidão a acumular-se nos passeios, de beiços gordos estendidos, na sua altivez amargurada de aventais de chita, decotes para o padre, gravata a endireitar a coluna, fragrâncias de mentol deliberando em suposta inocência fingida.

Cesurando-me.

E eu a dançar para dentro em rodopio visceral.

11.3.26

A Gaffe em movimento


Corro à procura do sossego, como se a imobilidade me ferisse ou desbravasse os gestos, esgadanhando o meu estar parada a ser.

No entanto, de mim parte a nostalgia de me ver quieta.

Sou, movendo-me, e no ser que existe sendo, há o mimetismo dos insectos que de quietos são, parecendo outros.

6.3.26

A Gaffe sem armas


O Douro é o exílio que no milagre me oferece a revelação de uma beleza atroz, capaz de magoar as próprias lágrimas.
Terras que de tão assombrosas e invencíveis se confundem com antigos sonhos, criando este estado de pasmo e distância de quem deseja engolir com toda a forma insubstantiva a conjugação dos elementos naturais.

É aqui que me espanto, é aqui o lugar da parede branca, do Fechado, da existência sem princípios e contudo, mundano nos meus hábitos, exausto de claridade, o meu atordoamento naufraga. Ancorada na razão, sigo as palavras submersas, na tarefa de cumprir humanidade.

Tivesse eu um punhal para ferir paisagens.

5.3.26

A Gaffe com Lobo Antunes

 Desabotoava-me o coração.

Suturava a minha Casa com palavras.

A Gaffe zoológica


"La désolation qu'expriment les yeux du gorille. Un mammifère funèbre. Je descends de son regard."
Emil Cioran, Le mauvais démiurge - Œuvres

"Au zoo, tous les animaux se tiennent convenablement, à l'exception du singe. On sent que l'homme n'est pas loin."
Emil Cioran, Aveux et Anathèmes - Œuvres

E no entanto, as primeiras criaturas que reconheceram a sua mortalidade foram as primeiras a sorrir.

3.3.26

A Gaffe vitoriana


A Gaffe lê imenso e sabe que o mundo está repleto de paspalhos imbecis e o problema é que descobriu que eles estão estrategicamente colocados de modo a que dois ou três se cruzem com ela todos os dias.

A Gaffe decidiu adoptar a atitude da Rainha Vitória - quando se negou a assinar a legislação que penalizaria as lésbicas -, em relação a todas as criaturas que confunde sempre com abjectos resquícios do abominável.    

Tal como Sua Majestade, a Gaffe é muito clara, simples, definitiva e peremptória:

- Tais coisas não existem.

2.3.26

A Gaffe carismática


Não é que eu seja mal-encarada, mas não consigo esboçar a esperança de um sorriso quando me olham com ar de quem manda no planeta, do alto de 1,60 m, de lacinho pintalgado ao pescoço e sapatinho com um pequerrucho tacão a ver se passa.

Podem dizer o que disseram, podem chamar-me preconceituosa, podem afirmar que carisma não tem nada a ver com isto, podem gravar em pedra que os homens não se medem aos palmos, até podem invocar o Bonaparte, mas continuo a pensar que um homem tem obrigatoriamente de ser um bocadinho mais alto, não andar com pechisbeques a imitar os filhos adolescentes e não tentar disfarçar a careca deixando crescer as patilhas e as sobrancelhas para as pentear depois para cima da cabeça, para nos poder mostrar que sabe, pode e manda e fazer com que a gente acredite e o reconheça.

27.2.26

A Gaffe principesca


A Gaffe admite que não entende a rede social mais badalada que existe.

Causa-lhe imensa perplexidade o famigerado Like do Facebook.

A Gaffe fica confusa quando verifica a quantidade de gente a gostar da morte de Michael Fox. Compreende que o actor ao longo de décadas tenha muito devagarinho criado anticorpos, mas não acredita que exista alguém que aprecie o seu falecimento.

A Gaffe fica espantada quando verifica que há mais gente a gostar da tragédia de Gaza do que a quantidade de entulho que por lá ficou e que ama várias vezes o arrasar dos templos lindíssimos da mesma forma que atribui um like quando vê Trump a arrasar tudo o que vê ou que mexe.

A Gaffe não entende que a porção de gente que gosta do atropelamento dos peregrinos de Fátima seja maior do que o número dos que ainda vão a caminho.  

A Gaffe também não compreende a multidão de like debaixo das orações que logo de manhã uma senhora vai santamente espalhando, a abençoar o dia e a exaltar o Santo Nome do Senhor, mas confessa que, não vá o diabo tecê-las, já apôs o seu favoritismo numa reza onde se suplicava a Santa Teresa de Ávila um anjo encorpado como aquele que a trespassou.

A gota de água que fez vazar o copo desta incompreensão foi a manada de like apensos à fotografia de William de Inglaterra e de Kate Middleton aquando da expulsão do rebento de Isabel a segunda, que de tanta volta no túmulo, escapou para se vingar.

Gostam de quê?!

Dos incisivos de William que crescem à medida que a testa aumenta?

Do ar de sopeira arranjadinha da Princesa?  

A Gaffe recorda que, pelo andar do coche real, daqui a duzentos anos o casal fotografado será, por ancestral direito, soberano de Inglaterra e sublinha que até a plebeia Charlene de Mónaco, que teve gémeos, os pendurou na varanda com muito mais glamour, mesmo com aquele sorriso de quem está com diarreia e não quer que o povo saiba, e sem lhes dar colo, como quem foi às compras e agarrou numa tronchuda.

A Gaffe reconhece que o único suspiro glamoroso da Casa Real Inglesa se esbardalhou contra um poste parisiense, mas usar um vestidinho caidinho, muito limpinho e um cabelo saído da cabeça de um part-time na Sephora, para manter a distância e o silêncio, não é de todo adequado a uma rapariga que devia ter ao lado e de prevenção uma ama com umas mamocas descomunais para provar que ninguém toca nas suas a não ser o futuro rei e surgir de New Look Dior a ordenar que filhos se espapacem no Rolls, porque é de pequenino que se torcem os brasões, não é depois de se crescer, casar com uma abóbora, e engordar debaixo de Epstein.

Deus dá nozes a quem não tem dentes e a Gaffe suspeita que é porque se diverte imenso a vê-los desdentados a trincar aquilo.