20.7.21

A Gaffe dos guerreiros


Há homens devastados pelo vento, pelo travo gelado das horas destemidas e pela ousadia do querer o que é sonhado, porque não vale a pena querer menos do que isso.

Trazem o sabor a sal, a marés e a maresias ou a batalhas onde as armas são apenas um bater de asas de milhafre.

São homens que nos trazem na erosão do tempo as Cantigas de Amigo, como rosas que foram decepadas para renderem os nossos corações.

Olhamos e queremos que tragam no peito as nossas cores atadas, protegidas.


19.7.21

A Gaffe num rebelo

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É pelos caminhos estreitos e pasmados como frestas que doem como cortes de papel, que eles chegam a acarretar os seus corpos de videiras. Cheiram a suor e a velho, a cestos e a pão de trigo e trazem bagos de uvas nos olhares e mostram nus outros corpos que não vejo nos corpos sujos de terra e sumo de uva. Outros corpos nus enlameados que arrancados dos braços do chão e dos vinhedos, chegam com eles de camisas rasgadas porque suam.

É da torção da terra, do retorcer da vinha, do leito que o vinho cava como o rio, que os homens que chegam das frestas pasmadas dos caminhos me estendem os acenos desses corpos sujos, coloridos pela noite dos lagares, esfarrapados como rosas lapidadas, e deixam do fundo da ternura que o meu Douro bêbado de mosto marque devagar a rota dos rebelos nos meus seios.

16.7.21

A Gaffe inquisitoral

George Frederick Watts

Por motivos vários, que não considero pertinente referir, fiz esvoaçar os olhos por um daqueles inquéritos patetas que surgem como norma nas publicações mais tontas que atiram jornalistas às feras da inteligência de algumas das vítimas.

Por entre a colecção inevitável de banalidades trabalhadas pelo humor ou desfeitas pelo tédio, encontrei uma que obriguei o rapagão a preencher. O conjunto das respostas é um pequeno zircão - estamos comedidas - no meio dos estilhaços de vidro fosco.

- Uma pessoa especial:
- A que sou, dentro dos teus olhos.
- Um objecto:
- O meu anel nos teus dedos.
- Uma ou mais marcas:
- As que deixas no meu ombro.
- Uma viagem:
- Em redor do teu corpo, com archotes.
- Um animal:
- Eu, depois de ti.
- Um livro:
- O que escrevo nos teus olhos.
- Um local especial:
- O teu silêncio.
- Um herói de infância:
- Aquele em que me torno quando tu sorris.

Em casos destes, uma rapariga esperta não hesita um segundo em passar por cor-de-rosa.


15.7.21

A Gaffe em círculos



A temperatura facilmente se aproximava dos 38º.

Empurra-nos para o interior dos muros, para o interior das sombras das árvores, dos buchos e das pedras das escadas de granito guardado do sol pelas trepadeiras. No interior protegido das sombras escapa-se à asfixiante atmosfera que faz estourar os cachos de buganvílias e levanta a poeira dos caminhos que levam à casa.

É o calor a desenhar círculos concêntricos, apertados e distintos. Claramente sentidos, evidentemente adivinhados. É o calor que nos sorve e arrasta como títeres, impotentes marionetas movidas pelos fios de fogo.

Ao fim do dia mesmo a penumbra escalda e são as salas interiores, onde a temperatura desce abruptamente, as procuradas.
Neste fechar quente e claustrofóbico, o interior da sala maior, daquela em que as janelas se abrem para Norte, é escolhido invariavelmente. É aqui que a noite é aguardada e pela noite fora nos falamos.

Estes anéis circulares que se vão estreitando, são concêntricos e se analisados sem réstia de emoção, parecem indicar a única direcção daqueles que, como agora nós, enredados neles acabam por seguir. Fatais, empurram-nos para dentro, para o mais ínfimo ponto onde se iniciam ou, nesta perspectiva, onde se acabam.

Se observar com a mais profunda atenção e afastamento a sala onde a noite se inicia com toda a gente pousada, vejo-me longe de tudo, com uma ausência completa de vontade e sem mácula ou culpa pelo facto. Afasto-me, não por impulso desgarrado, teatral, furioso e momentâneo, mas porque não sinto falta das palavras. Talvez seja feliz e como diz o outro A felicidade não saiba contar histórias, mas, no entanto, esta minha espécie de se ser feliz é como o bicho-monstro que as crianças suspeitam que existe debaixo da cama nas noites sem sono. É uma felicidade de antes de dormir. Uma estranha suspeita de que depois do beijo da mãe que nos sossega, há mais coisas que ninguém nos diz. É uma felicidade minada pelo receio de escuro. É um sentir que há alguém, central, que nos invade e nos sorve e nos deixa exaustos e escandalosamente vazios e alarves; que faz o ar que respiramos permanecer mudo, tombado a um canto, tocado pelas mãos de um rapazinho estranho, demasiado crescido para a idade, que não tem força para lhe arrancar um choro, mas que fascinado aflora a frescura imaginada das horas em silêncio; que faz o não desejar romper mais desafios, para que o tempo se transforme numa gata manhosa a dormir na sombra.

Há objectivamente neste calor um maléfico sorver da alma dos outros.

Tornamo-nos ninguém porque deparamos de forma abrupta com a poderosa e avassaladora e incongruente vontade de sentir o silêncio da água que não corre.

No cerne, no mais profundo interior dos interiores, há o primeiro círculo que absorve tudo, mesmo a seiva nos olhos da vontade dos outros. Deixamos de sentir para sentir para ele, por ele, através dele.
É isto o calor aqui no Douro.

Diriam os entendidos que é o círculo d’oiro.

E eu gosto de ferrugem.

14.7.21

A Gaffe doadora

Song-Kang


À entrada da adolescência, a minha suavíssima sobrinha cresce florindo o loiro pálido do seu coração nórdico. O silêncio com que faz dançar os dedos pelos móveis, como que a arrastando os minutos de sossego, placidez, de quase melancolia de início de Primavera, ou de tristeza dos finais das luzes diurnas, torna-a solene, talvez sozinha, talvez insulada.
Cresceu esguia, quebradiça como haste de lírio. Branca e loira, branca e fria e que saudades, Deus meu!

Em breve, muito em breve, conhecerá o chão onde tem as suas mais profundas, as suas mais ancestrais raízes.

Na Occitânia, a terra tem memória deste sangue e é nesse chão que se cresce nesta casa.

Há quase trinta anos que não sei dos meus caminhos, mas a minha viagem iniciática pela mão da minha mãe aos lugares de todas as origens, tem lugar certo, passo a passo certo, em todos os traçados que encetei.

Creio que é a hora de voltar. A hora de entregar a outra menina o frio e o calor da Abadia onde se oficia o passado e o futuro.

Suponho que apenas eu sei do lugar das orações.   

 

13.7.21

A Gaffe de Bugatti


É tocante a amabilidade dos rapagões que atravessam estas avenidas!

Mal esta rapariga se viu em apuros, com a maquinaria vulnerável aos ataques e tropeços, foi por eles - gentis e professorais -, socorrida e ensinada a consertar o que nos motores ficou cheio de vícios.

A Gaffe acatou as instruções, mergulhou nas entranhas do motor e de lá saiu a saber pescar.

Já não há anónimos legíveis!

É tão refrescante saber que o cavalheirismo começa sempre nos arranjos de um Bugatti.


A Gaffe desacelerada

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Suponho que a mais eficente forma de fazer desaparecer o importante, é incutir-lhe velocidade. Nada é mais eficaz, nos tempos que correm - e correm depressa -, do que fazer com que a aceleração com que se comunica um facto, uma verdade, ou um acontecimento, seja de tal forma alta que tudo o que deles – verdade, facto ou acontecimento -, é relevante, necessário ou principal, seja desmemoriado ou amortecido num brevíssimo instante – dos cem aos zero -, tornando o esquecimento a normalidade, a banal vivência quotidiana.

A sucessão em catarata de narrativas diversas, aliada à brutal velocidade com que a diversidade do real nos é revelada, esvazia o acontecimento de importância e encurta drasticamente o tempo de atenção que é indispensável ao mostrado. Deixamos de ter tempo para parar perante a notícia - ela própria sem tempo de vida que permita o nosso -, perante a catastrófica sucessão de minúsculas e insuficientes durações de análise.

O importante, quando acelerado, deixa de o ser. A velocidade degrada o principal. Todos os sacanas o sabem.

É nesta aceleração contínua da vida, da forma como se vive, que o tempo permite que a medida que é usada para intervalar gerações se degrade e se torne obsoleta, inútil, falseada. Uma geração é separada da seguinte não por duas ou três décadas, como habitual, mas pelos escassos anos em que a velocidade da vida foi de tal ordem que esmagou a possibilidade de assumirmos a morosidade exigida ao crescimento e mesmo ao envelhecer. Os abismos geracionais são montrengos cada vez mais densos e abrem-se com intervalos de tempo cada vez menores. 

Talvez por isso a lentidão, indolência, a demora, com que deste velho Douro avança pelas varandas dos socalcos, faça com que o compasso destas gentes permaneça importante, essencial, quase divino e com que o peso e o alento das horas seja paulatino e dê tempo ao tempo que se vive.


12.7.21

A Gaffe sem postais

David Uzochukwu

Arranca da beleza o idílico, a pele bucólica, lírica, arcadiana, que cobre a tua visão do estranho - do que fora de ti, existe em ti na distância -, enformando o talho com que olhas o que te chega das vidas de quem não sabes nada.

Retira o slogan, o lugar-comum, o cartaz emotivo e emocional, a indiferença apaixonada de quem não vive aquilo, a ordinária fantasia do postal do turista amante da paisagem e da ternura rude do lavrar das horas olhadas com olhos de floração do seu próprio sonho.

Extrai a tua visão de postal ilustrado, alvacenta de mentir, viscosa e pegadiça, da paisagem que pensas que sentes ver e das gentes que erguem a outra que mascaras.

Corrompe as palavras adocicadas com que descreves o ancestral habitat dos pobres, da terra e do seu cheiro molhado, da infância dos penedos, dos risos dos pássaros, dos rios que correm na tua aldeia, as dulcificadas palavras da condescendência e das distâncias etnográficas com que vestes a intrínseca brutalidade do que olhas, não vendo.

O que te restará então será apenas um lancinante pedaço de Dor que nem sequer é tua.

O que te restará será a tua ignorância colorida a bicar o teu ingresso na inútil memória do inventado. 


9.7.21

A Gaffe da Marianinha

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Mariana Vieira da Silva é um doce credível, fofinho e muitíssimo simpático que os meninos espertos ofereceram ao povo para ser triturado, dada a inexistência de Graça Freitas e ao súbito apagão de Marta Temido e do seu respeitoso secretário de estado.

A menina, talvez por ter iniciado a sua carreira política ainda de cueiros académicos, consegue ser muito assertiva, convincente, moderada e bastante segura, mesmo quando é obrigada a esbardalhar-se perante a turba transmitindo-lhe a norma que obriga os donos dos restaurantes a enfiar zaragatoas nas narinas dos clientes aos fins-de-semana - suponho que também aos feriados e dias santos -, sem qualquer competência clínica, sem qualquer formação específica, sem se saber o que fazer perante um caso positivo de CoviD-19, sem nenhuma credencial emitida oficialmente que os habilite a testar os senhores e as senhoras que depois serão provavelmente servidos por estes improvisados vigilantes de saúde pública que minutos antes lhes escarafuncharam as fossas nasais sem sequer saber se foram infectados durante o lavrar das narinas do alheio. Nos dias úteis tal façanha é dispensada, pois que o vírus trabalha no estrangeiro.

Por sua vez, a obrigatória apresentação de um auto-teste para conseguir tocar num menu é a admissão e a banalização do acto de violação de dados pessoais, fornecendo informação clínica a estranhos que não são profissionais de saúde.

É mais que certo que estes rabiscos são um chorrilho de tolices, mas quem se importa, pois que se parecem com as do governamental desgoverno pandémico?! 

A Gaffe não quer de todo continuar a esbarrar com a total e absoluta falta de suporte constitucional,  de senso e de tino que torna as desordenadas, tontas, dispersas, incoerentes e contraditórias medidas de contenção ao alastrar do vírus, um desfile de carnaval imbecil com samba desnudo e a pingar de frio e de idiotice.   

A Gaffe prefere que digam simplesmente que se formos por percalço ao Burger King, devemos usar protecção adicional.


7.7.21

A Gaffe sem porta-moedas

 

Monica Bellucci and Deva Cassel - Vogue Italy July

A Gaffe não esconde o seu deslumbramento pela quase desumana beleza de Monica Bellucci e não hesita em incluí-la no ínfimo grupo dos animais mais sumptuosos do planeta.

A fotografia -  Affaire de famille - da capa da Vogue italiana, 2021, da autoria de Vicent Cassel, ex-companheiro da actriz e papá da criança, coloca a diva ao lado da filha, Deva Cassel, divulgando desta forma a ainda adolescente herdeira da formosura estrondosa de Bellucci que se coloca em lugar secundário perante a escolha de Dior, Dolce & Gabanna ou Harper's Bazaar.

É curioso perceber que, provavelmente consequência do amadurecimento da actriz, a Bellucci arrebata o cenário, magnetiza a fotografia, e a assume a inconsciente dignidade da fenomenal beleza que atravessa o tempo. Não amotina, amortece ou desarma a poderosa formosura da filha, mas usa-a para vincar, gravar e fixar, a sua própria.

Monica Bellucci é inexplicável. Quase inaceitavelmente bela.

É mais do que provável que Bellucci não tenha posado para a Vogue para provar ao fofíssimo Carlos Moedas, que a considerou fora de prazo e longe do desejo masculino, que ainda faz pendant com uma adolescente. Nada seria tão banal.

A Gaffe, pelo contrário, não se importa nada de entregar a Carlos Moedas a prova da inutilidade da preconceituosa e encanecida opinião que o ocupa e a possibilidade confrangedora de se comparar com Nicolas Lefèbvre, o actual companheiro da luxuosa diva:

A Gaffe fica tão feliz com esse pequeno prazer!  


A Gaffe premonitória

 

Henry Beard and illustrated by John E. Barrett.jpg

Há já dois anos bem contados que esta rapariga esperta tem por certo o que escreveu ao agora anunciado presidente da comissão de honra de Susana Garcia, encorpada personalidade candidata à Câmara de Amadora só porque para Amadora bacalhau basta - dir-nos-á Manuel Silvano.  

A Gaffe relaciona esta mimosa e gratificante alusão ao fiel amigo com o passado culinário do colorido apresentador e com a justificação de Rio a este apoio.

É provável que tudo acabe em águas do trocadilho, mas a Gaffe está siderada por reconhecer que nunca esteve tão certa com há dois anos quando rabiscou um amoroso bilhetinho ao Manel Luís.

A Gaffe sente-se uma velha sábia e experiente, capaz de ler as cartas e prever futuros, a uns passos curtos da fogueira.

Imagem, cuja semelhança com a realidade é absurda!John E. Barrett

6.7.21

A Gaffe retorna à base


É altamente improvável que um sapo traga um príncipe dentro, mas pelo menos não permite que uma rapariga esperta seja obrigada a beijar o bobo da corte. 

2.7.21

A Gaffe entre moradias

F. Vicente


É estranho ficar perante a nossa própria surpresa quando nos sentimos imprevisivelmente incomodados com a brutalidade, a boçalidade e a capacidade de se mergulhar na mais desgraçada das imbecilidades, contidas num comentário anónimo que cobiça ser ofensivo.

A atitude evidente será a de o soterrar, de o proscrever sem lhe tocar, de o aniquilar sem sequer rasar a primeira sílaba da primeira palavra.

Esta repugnante forma de alguém se revelar demente, de alguém acusar uma psicopatia contaminada por Tourette com pingentes de uma crescida e entranhada coprolalia, não é barrada na plataforma Blogger, a não ser quando se impede uma interacção ligeiramente mais alargada, restringindo drasticamente o círculo minúsculo de opiniões autorizadas.

A minha mais que evidente ausência destas lides é consequência da recusa que foi crescendo em ter de tocar no link que abre a cloaca mais abjecta que nos é dado imaginar, para a destruir em seguida.

Para surpresa minha, os comentários por assinar que tinha de desarmar depois de necessariamente os abrir, incomodavam-me, envergonhavam-me e faziam com que me sentisse a necessitar de um banho colossal que durasse horas a fio. Chegava a ficar arrepiada com a dimensão do meu asco.

A plataforma Sapo impede o anonimato, se assim o desejarmos. Os insultos, quando existem são obrigados a reter uma assinatura e conduzem-nos aos burgessos que os pariram. Uma enorme vantagem.

Tenho três opções desenhadas no monitor destas palavras. Saltito com significativo temor e náusea e longos intervalos por entre os campos destes rabiscos, retorno à casa que me protege dos bandidos e vou tentando que os pulinhos sejam mais frequentes, ou deixo de saltar.

Sou, neste momento, toda eu uma indecisão ruiva.

Pelo sim, pelo não, vou levar as malas.


1.7.21

A Gaffe e os "Lolitas"


Eu sei, meus muito jovens queridos, que vos é penoso parecer que o intelecto vos ocupa parte substancial do dia e que é muito mais risonho fazer passar uma imagem contagiante, boémia e trauliteira de festejos no Bairro Alto.

O instinto e selecção natural, tão badalados por Darwin, connosco são muito mais retorcidos do que aquilo que se fez acreditar. Não procuramos necessariamente o parceiro mais musculado, aquele que traz apenso a garantia genética do sucesso e do saudável, com esperma capaz de produzir rebentos seguros e fortalecidos e de nos fazer acreditar que teremos carne de caçadas trogloditas para o resto das nossas vidas.

Já encontramos essas coisas nos laboratórios.

Uma rapariga muito, muito, muito esperta, acaba irremediavelmente por partilhar lençóis com o menos suspeito, o mais tímido, o mais inibido, o mais Ralph Lauren, o mais inteligente e o mais vintage que encontrar, desde que não faça lembrar, nem à sombra de uma esquina, Stephen Hawking - que Deus a perdoe.

28.6.21

A Gaffe "cagona"

Roshcov

A gente do Douro tem um epíteto muito interessante que reduz a parafernália de características de determinada pessoa a apenas uma designação ilustrativa, gráfica e muito sintética:

Cagona.

A Gaffe admite que não alcança dissecar o universo contido nesta minúscula partícula, mas consegue imediatamente encontrar uma alma que o exemplifica e ilumina sobremaneira:

Graça Fonseca, ministra da cultura.

A Gaffe sabe que não é bonito atribuir esta versão feminina deste espacinho semântico a uma senhora tão longínqua, tao reservada, tão guardada, tão inútil e tão arrefecida, mas a verdade é que cagona assiste-lhe - como diria um rapaz qualquer, que não se atreve a insinuar que ser cagona é destino das Graças. O desgraçado drink ao entardecer driblou o bom-senso e fez de uma gracinha inocente uma piadola de péssimo gosto que continua a vigorar na Cultura.

No entanto, esta admirável e proverbial expressão tem tendência a contaminar gente tão diversa que a Gaffe é imbuída de uma hesitação quase existencial quando procura escolher os mais cagões e as mais cagonas da actualidade portuguesa, mais ou menos ressequida.

Não percebe se quer escolher o sempre surpreendido e sempre injustiçado ministro dos negócios estrangeiros, pasmado por ter entrevisto que o reino elisabetiano não é de todo responsável por cama e mesa e roupa lavada do turismo português e que o imbecil esgrouviado que o governa, como é evidente, jamais se sentirá na obrigação de cuidar do Algarve - All Garve, como se ousou um dia promover -, ou mesmo de voltar a ler o mais antigo tratado de subserviência que este país alguma vez assinou.

A Gaffe não sabe se deseja, em alternativa, selecionar o ministro cartoon que faz colecção despenteada - pese embora o belo corte de cabelo que o rapaz tem -, de tolices que incluem as esquecidas golas inflamáveis para incêndios, passam por um assassínio nos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras, chegando de rompante a alas de prisões políticas adaptadas - ainda em estudo, mas com obras feitas - e destinadas a albergar os de fora, que são sempre passíveis de escravizar, agropecuariamente ou não.

A Gaffe pensa em escolher o crime de violação de dados da Câmara Municipal de Lisboa que fez tábua rasa dos Direitos Humanos - e em matéria de Direitos Humanos, a neutralidade é um atentado, que se diga de passagem -, acabando por provar que uma máquina embrutecida, paquidérmica, estúpida e anquilosada, é capaz de não se aperceber, tout court - e no mínimo -, que cometeu repetidamente um crime punível pela Lei, desatando a dançar, a bailaricar, em redor dos coretos das desculpas cagonas.

A Gaffe não consegue escolher entre o velho, desrespeitoso, aparente negacionista e apodrecido presidente do Parlamento que incita à invasão portuguesa de Sevilha pandémica em nome da selecção portuguesa de futebol, e os saltaricos de Marcelo que vai amornando os dislates sucessivos da cagonice política vigente, sem se dar conta que esse amornecer é em simultâneo o seu tombo em lume brando que começa no tropeçar da elevação do futebol a assunto primeiro do país já em desgraça.

A Gaffe não se tem divertido por não saber se é o país que está infestado de cagões, ou se é esta rapariga esperta que, provavelmente por contágio ou desistência, acabará também ela uma cagona.        

27.5.21

A Gaffe mortal


A insistência com que nos atiram o ácido da efemeridade de se ser feliz, da fugacidade da beleza e da maleficamente recheada conta bancária, à nossa pele bem tratada - elevando-se aos píncaros do sublime o desprendimento e a desapropriação dos anacoretas, a consciência da morte desgraçada e podre, a beleza interior dos feios e dos pobrezinhos -, é uma desgraçada e repelente ode à infelicidade.

Uma mentira pindérica que vai ganhando contornos castradores à força de nos tentar convencer que somos abjectas apenas porque não somos feias, que não somos pobrezinhas e que desses factos temos consciência. O horror ocorre porque encarnamos os mais condenáveis dos pecados ao não sofremos atrocidades dedicando-nos a tempo inteiro à tragédia humana.

Não podemos ser felizes, mesmo sabendo que a felicidade dura o tempo da faísca.
É criminosa a beleza que se vê.

Ai de nós, miseráveis bichinhos temporários, se ousamos ter dinheiro para comprar uma cadeira biliões de vezes mais cara do que o couro cabeludo das mártires conscientes da finitude do universo e somos altas e magras e elegantes e desejadas e amadas e felizes e nos esquecemos de quando em vez da Faixa de Gaza e da morte da cotovia.

Chicoteiem a Gaffe! Usem a chibata das santas e das poetisas de algibeira!

Esta rapariga ousa ser feliz sem pensar nos abismos das desgraças, atreve-se a ser bonita, jovem e cuidada, sem ser perseguida pelo espectro da morte inevitável e quando lhe falam de beleza interior pensa sempre num decorador maricas.

É evidente que vai morrer! Mas pelo menos foi ferozmente feliz, usou imensas pérolas, vestiu imensos costureiros, calçou outros tantos, usou perfumes inesquecíveis, foi para a cama com os homens estupendos que quis ter, teve amigos divinais, comprou inutilidades medonhas e absurdas e fez imensas viagens - viagens sérias, não daquelas deprimentes dentro de um quarto pindérico e sem ventilação, mas com grande beleza interior.

Não sejam invejosas. Ficam com coisas estranhas enfiadas nos olhos. Dói imenso. 
  

26.5.21

A Gaffe por empoar

Bill Mayer

A Gaffe tem uma declarada admiração por Isabel I, a prepotente ruiva estéril, capaz de atrair todas as amarras e armadas.

Há, no entanto, un tout petit point que requer algum distanciamento, embora - et malgré tout -, comprove em simultâneo uma funesta e rumorosa aproximação.

A Rainha, como toda a gente sabe, dissipou corpo e alma ao usar ao longo do seu soberano tempo Venetian Ceruse, um pó branco tóxico, assassino, um composto de chumbo e vinagre, com que escondia os estigmas da varíola, ao mesmo tempo que a envenenava, lhe deixava a pele acinzentada e enrugada e a fazia perder cabelo e dentes.
O batom que era autorizado a pousar nos seus lábios curtos e afiados como facas, continha metais pesados, e o sabonete líquido com que lavava o rosto possuía ingredientes como água de rosas, mel, cascas de ovo e mercúrio - que deixava a pele de Sua Majestade mais macia apenas porque lhe estava a corroer a carne.

A Rainha morre, pois, ressequida, coberta de pó branco-homicida.

A Gaffe usa Shiseido, Sensai e Dior - entre outros mais que tais - e não pensa perder dentes e acinzentar, secar, enrugar, mirrar, descarnar, e ficar careca - pelo menos tão cedo.

Em contramão, esta tão ruiva como Sua Alteza tem por certa a algazarra tresloucada dos seus caracóis quando se aproximam de territórios de humidades e de nevoeiros shakespearianos.


Após esta preciosíssima pérola de erudição - que torna a Gaffe um dos expoentes da intelectualidade e do bem-pensar que por aqui grassa -, esta rapariga reconhece que, tal como Sua Majestade esgrouviada, é capaz de se enojar com as perucas das pequenas mulheres pequenas que as enfiam para disfarçar a nulidade perversa que lhes rasa a cabeça.

As caracoletas lustrosas, os caracóis emotivos e sensíveis, a laca solidária, a lisura escorregadia das melenas e a doçura poética deslizante das madeixas, são tão só momices oleosas e cor-de-rosa que encapotam o charco de nulidade perversa com que assombram em silêncio a vidas dos outros.

São bandeiras desfraldadas em nome de umas quantas causas.

São odes e hinos abertos ao vento da honra, da claridade, da humanidade, da diversidade e da mais alta noção de amor e liberdade, enquanto nos mais recônditos cotovelos trazem toda a maledicência universal, todo o mercúrio e chumbo dos murmúrios e todos os rumores do preconceito. Tudo pela calada dos vermes e pela hora em que todos os nojos são pardos.

A Rainha decapitá-las-ia.

19.5.21

A Gaffe palestiniana


Quando a História se torna fotogénica, torna-se em simultâneo indiferente ao que se retrata e o sentido do que se quer dizer é apenas um pálido recanto inútil na película da imagem.  


12.5.21

A Gaffe com a baronesa


Pearls are like poets’ tales: a disease transformed into beauty, and at the same time transparent and opaque.
Karen Blixen

As mulheres também.  

11.5.21

A Gaffe da bela Inês

Maurizio Di Iorio

A Gaffe tem de transcrever a escuta que fez à fofíssima Inês Pedrosa, só para se congratular pelo que lê, vazado do que soa, a propósito daquela espécie de estrangeirismo, com uma gradezinha no início, chegado a Portugal - não sabemos se em barcaça de juncos, se em insuflável, como tudo o que é péssimo usa agora para chegar a um país civilizado.

A Gaffe está ao lado de Inês Pedrosa, porque admite que também ela perde imensas oportunidades de aguentar a tansa da boca fechada, pese embora, no seu caso, não ser paga por isso.

- (...) Imaginemos que o fim da escravatura era os negros passarem a escravizar os brancos. É nisto que estamos agora, vamos usar um esquema de terror (…), o que se pretende é arrasar reputações. Devia haver a sororidade prévia de garantir que há 10 acusações para [a acusação] ser sólida.

A Gaffe está solidária com a Inês que posta em desassossego pelo #metoo, rasga as vestes pelo amigo de há imenso tempo - uma pessoa de bem, por quem entrega as coisas ao fogo, um intelectual de renome, um servidor da bela arte de editar, um cavalheiro a toda a prova e trote -, agora denunciado, acusado de assédio, por uma megera doida que entretanto já conseguiu apaniguadas, uma quantidade substancial de sequazes neste péssimo vício de destruir reputações masculinas por dá cá aquela palha. Mentirosas!

Se desancarmos imenso nestas ratas vingativas, se nos amotinarmos desgrenhadas contra o irrisório, o caricato, o ínfimo número de falsas acusações, temos, no bolo todo, garantida a segurança da cereja dos amigos, pois que os amigos não são para acusar! Não é que Inês pretenda liderar uma honesta e justa caça às bruxas - não é, de todo -, pois que se trata mais de um apanha bicho. Um terror. Uma falta de chá.

Falta por falta, escasseiam as outras nove acusações para ser possível aceitar que é provável que o rapaz se tenha descaído e tentado roubar um beijo - muito fin de siècle - à fedelha que estava a pedir muito mais do que isso, dados os preparos - sendo que derivado aos preparos também se tornou um atentado ao pudor e meio caminho andado - Deus e a mulher sabem muito bem para onde, que aqui ninguém é ingénuo, que olé, picolé - diz o povo, embora parvamente, é certo.

Seguindo a sugestão de Inês Pedrosa, os Tribunais receberiam os assédios, gota a gota, pingo a pingo, faziam pacotinhos, carimbavam os cartões e, ao fim de dez, ofereciam um desconto. Seria a situação mais prática e evitaria que até mesmo Rodrigo Moita de Deus, que não prima pela defesa de causas, ficasse perplexo, vacilante e aturdido, perante o protesto da senhora contra as megeras oportunistas que arrasam reputações - e a Gaffe acrescenta que vai bem e a eito -, lares e casamentos.

Como Inês Pedrosa, também Raquel Varela parece - podendo não ser, pois que o parecer deve vir a dez para solidificar a enunciação -, ciciar o que nos rememora o lamento em relação às mulheres, os homens agora já não podem fazer nada. A Gaffe vai esquecer, em nome da sororidade, que não sabe quando foi que as mulheres autorizaram que os homens lhes fizessem tudo.

Esta rapariga assume que está com elas, como as iscas, e também acredita que é suspeito o tempo que as outras levam a abrir o bico - embora neste contexto se torne conveniente reformular a frase. Uma suposta assediada deve denunciar o eventual caso de assédio dentro do prazo que as pessoas de bem estipularam pra tal. Não é quando lhe dá para aquilo - pois que se corre então o risco de importunar e injustiçar senadores que são muito cá de casa, amicíssimos, de boas famílias e tantos tão bem colocados.

A Gaffe reconhece que a menina é, irremediavelmente, uma escritora de segunda linha e talvez seja por isso que coloca as mulheres assediadas nesse mesmo patamar de qualidade, mas mesmo assim, Inês, minha querida, seria interessante que se apercebesse que a mulher trancada nos limites que nos aponta, pode ser, também por si, emudecida definitivamente.

Pelo menos, minha querida Inês Pedrosa, ficamos a saber que a menina é abolicionista. A Gaffe supõe apenas se os escravos não forem os de lá de casa.