Não é que eu seja mal-encarada, mas não consigo esboçar a esperança de um sorriso quando me olham com ar de quem manda no planeta, do alto de 1,60 m, de lacinho pintalgado ao pescoço e sapatinho com um pequerrucho tacão a ver se passa.
2.3.26
A Gaffe carismática
Não é que eu seja mal-encarada, mas não consigo esboçar a esperança de um sorriso quando me olham com ar de quem manda no planeta, do alto de 1,60 m, de lacinho pintalgado ao pescoço e sapatinho com um pequerrucho tacão a ver se passa.
27.2.26
A Gaffe principesca
A Gaffe admite que não entende a rede social mais badalada que existe.
Causa-lhe imensa perplexidade o famigerado Like do
Facebook.
A Gaffe fica confusa quando verifica a quantidade de gente a
gostar da morte de Michael Fox. Compreende que o actor ao longo de décadas
tenha muito devagarinho criado anticorpos, mas não acredita que
exista alguém que aprecie o seu falecimento.
A Gaffe fica espantada quando verifica que há mais gente a
gostar da tragédia de Gaza do que a quantidade de entulho que por lá ficou e
que ama várias vezes o arrasar dos templos lindíssimos da mesma forma que
atribui um like quando vê Trump a arrasar tudo o que vê ou que mexe.
A Gaffe não entende que a porção de gente que gosta do
atropelamento dos peregrinos de Fátima seja maior do que o número dos que ainda
vão a caminho.
A Gaffe também não compreende a multidão
de like debaixo das orações que logo de manhã uma senhora vai
santamente espalhando, a abençoar o dia e a exaltar o Santo Nome do Senhor, mas
confessa que, não vá o diabo tecê-las, já apôs o seu favoritismo numa reza onde
se suplicava a Santa Teresa de Ávila um anjo encorpado como aquele que a
trespassou.
A gota de água que fez vazar o copo desta incompreensão foi
a manada de like apensos à fotografia de William de Inglaterra e de
Kate Middleton aquando da expulsão do rebento de Isabel a segunda, que de tanta
volta no túmulo, escapou para se vingar.
Gostam de quê?!
Dos incisivos de William que crescem à medida que a testa
aumenta?
Do ar de sopeira arranjadinha da Princesa?
A Gaffe recorda que, pelo andar do coche real, daqui a
duzentos anos o casal fotografado será, por ancestral direito, soberano de
Inglaterra e sublinha que até a plebeia Charlene de Mónaco, que teve
gémeos, os pendurou na varanda com muito mais glamour, mesmo com
aquele sorriso de quem está com diarreia e não quer que o povo saiba, e sem
lhes dar colo, como quem foi às compras e agarrou numa tronchuda.
A Gaffe reconhece que o único suspiro glamoroso da Casa Real
Inglesa se esbardalhou contra um poste parisiense, mas usar um vestidinho
caidinho, muito limpinho e um cabelo saído da cabeça de um part-time na
Sephora, para manter a distância e o silêncio, não é de todo adequado a uma
rapariga que devia ter ao lado e de prevenção uma ama com umas mamocas
descomunais para provar que ninguém toca nas suas a não ser o futuro rei e
surgir de New Look Dior a ordenar que filhos se espapacem no Rolls,
porque é de pequenino que se torcem os brasões, não é depois de se crescer,
casar com uma abóbora, e engordar debaixo de Epstein.
Deus dá nozes a quem não tem dentes e a Gaffe suspeita que é
porque se diverte imenso a vê-los desdentados a trincar aquilo.
26.2.26
A Gaffe já escrita
O quarto ao lado do meu ficou deserto.
Sobre a cama foi deixada a colcha tricotada a cores.
As lâmpadas quebram lentamente os filamentos sem que ninguém as venha substituir.Através da porta de ligação chega um frio e um escuro inusuais. O silêncio torna os dias mais desprotegidos.
O pó avança lento do quarto vazio quando a casa se fecha e adormece.
Tantas vezes ali estive. Tantas vezes fiquei parada perante o brilho, de olhos a arder por não o ter, que acabava por olhar mais atentamente para as rotas de outras vidas que são como derivas nos mapas das estradas que se perdem. Era nesses desvios que me fixava, nesses pontos de luz que me deitava.
Entrava nestes trilhos devagar e às vezes saía de mansinho quando a vontade de chorar se começava a fazer ríspida na garganta.
É certo que de raízes pouco ou nada há no meu jardim deserto. Talvez um caule mais tortuoso, um ramo mais retorcido e agora pouco mais.
25.2.26
A Gaffe do postal ilustrado
A minha avó marca a folha do livro com um postal ilustrado antes de o fechar e erguer os olhos. Depois a cigarrilha em prata. O fumo do cigarro, esparso, no aposento.
A senhora sorri e segue com os olhos a estrada cinza ténue que se esfuma.
- Minha querida, quando decidimos partir temos de saber que nenhuma estrada nos vai levar para lá de nós. Não viajamos nunca. Ausentamo-nos.
Há lágrimas nos olhos da senhora.
O fumo. Ah!, o fumo.
- Partir é apenas uma ilusão que fica. Acreditamos sempre na viagem, mas o que resta em nós é a ausência sentida nossa no lugar que fica. Não viajamos a não ser por dentro.
O fumo.
- Não saímos nunca dos lugares onde fomos amados.
Do livro da minha avó um postal que tomba. A página perdida.
18.2.26
A Gaffe recepcionista
Está na minha frente, sentado de perna cruzada e tronco balofo e atarracado.
Bate com o maço de tabaco, acabado de comprar, na palma da mão. Vira-o e volta a desancar. Repete a actividade até perceber que me irrita, porque não consigo deixar de olhar para aquele movimento seco que me parece inútil. Oferece-me um cigarro depois de cuidadoso ter rasgado um lado e ter puxado um deles que aparece erguido sobre os outros, como se tivesse havido uma eleição.
Não fumo.
- Mas havemos de beber um copo juntos - promete enquanto procura no bolso o isqueiro de plástico.
Não bebo.
Torna-se sinistro. Olha de soslaio e sibila, manhoso:
- Aposto que aquela, com um corpinho daqueles, faz o que falta dizer.
Sorrio e deixo escapar uma centelha de suspeição propositada que lhe aflora e queima a superfície da atenção. Desconfia. Semicerra os olhos. A primeira baforada do cigarro, preso nos anéis, tolda-lhe os contornos da cara e fá-lo tossir de forma seca.
- Oh! Com aquela figura não acredito que sinta muita a falta de aquecimento central - escalda o homem e arrepia. - Toda alta, toda fria, toda elegante e de nariz empinado, já aqueceu muitas noitinhas… - escancara num sorriso nicotina.
A ilusão do Poder, quando alimentada por estranhos, transforma-se em areia movediça, por isso não o paro. Começo a acalentar a esperança de sentir a atarracada criatura esfumar-me no que se vislumbra por entre a névoa do engano.
Espero. Digo-lhe que será recebido por ela. Sou apenas um percalço. Um erro de casting. Uma gaffe na recepção.
- Que venha a mulher! - arreganha os dentes já babados - mesmo com aquele tamanho, posso bem com ela. É magrita. Domesticam-se bem, as magritas - desta vez a alarvidade traz o riso.
E ela entra.
- Tenho a certeza que não se conhecem. - Sou tão amável! - A minha irmã. - Apresento e tenho um orgasmo mui discreto. Continuo: - Este senhor acaba de me confessar que te acha muito elegante. Creio que entre os dois se vão estabelecer óptimas relações. O homem baba enquanto aperta a mão esguia, prolongamento do sorriso claro e do olhar atento que detecta o proibido prazer do que mantenho oculto.
- Sou muito empática - rosna a minha irmã.
- Mas magrita. És um potro, um puro-sangue, mas fácil de domar - esquiço e espero os olhinhos do homem que se abrem em franqueado embaraço.
A minha irmã estanca. Detectou o jogo e a mesa onde é lançado o dado.
- Hipismo é no teu departamento. - Faíscas e setas no meu peito, Sebastião no feminino, nem Santa e já sem reino. - Esqueceram-se de o informar que é apenas a minha irmã que se diverte com as cavalgaduras - acrescenta e entala-se o homem com fumo e aperto.
- Mas, maninha, este senhor é um jockey.
- Tenho a certeza que sim. Não se quer sentar?! - Pergunta tenebrosa, porque o achatado já está sentado.
- Vamos então tratar do seu estábulo - ordena a minha irmã já com a segurança de um projecto ganho.
Os erros cometidos pelos outros, contra nós, dos mais banais aos mais sofisticados, devem ser usados para reverter situações adversas, transmutando o desacerto em arma a usar contra aquele que falhou. A falta cometida pelo incauto, transforma-se nas mãos da minha irmã em forja que subverte o que lhe desagrada e que convence o imprudente a acatar, sem discussão possível, o que este puro-sangue decidir.
Eu?! Oh!, eu só me divirto, pacífica, a olhar o punhal cravado na testa do anão.
12.2.26
A Gaffe num tango
O meu pai saía sempre antes de eu acordar no quarto ao lado e quando chegava à noite procurava o cadeirão, sentava-se e fazia com que Piazzolla escorresse por todo o lado.
Encolhia-me perto dele.
Uma noite falou-me de Poesia.
Rodopiou pelas palavras e fê-las entrar no tango que eu ouvia. Fez-me sentir a
surpresa dos requebros do piano, os dolorosos desvios do violino, a magoada
toada do bandoleón, o murmúrio triste e a fúria desbravada da guitarra, a
revolta encarnada do violoncelo.
Entendi tudo.
Buenos Aires a dançar. Dançar perdidamente. Dançar só por chorar. Aqui e além.
Encostei a cabeça nos joelhos do meu pai. Ele inclinou-se sobre mim,
penteou-me o cabelo com os dedos e deixou escapar muito baixinho e a sorrir:
- Gosto muito de dançar assim contigo.
Nunca houve nada melhor do que aquele olhar pousado nos meus
tangos mais dolentes.
11.2.26
A Gaffe num encontro
Vou ao encontro da minha irmã.
Preparo-me para atravessar a rua no lugar onde ela é mais estreita e mais
segura. Olho e vejo a mulher distraída, de olhos quietos, um pouco
da Onassis, a tamborilar com os dedos na mesa do café antigo.
Dentro dos vidros, a minha irmã espera. Não se vê observada
e por isso não ergue defesas. Tem um cotovelo pousado no tampo de vidro da mesa
e o queixo apoiado nas costas da mão. O tronco inclinado de forma ligeira e o
pescoço nu, magro e demasiado alto, sem nada que o esconda parece surgir da
gola alta do vestido azul como esguia espada ou torre ou haste de uma flor
estranha.
A mais rigorosa geometria implica quase sempre a lapidação do acessório, do supérfluo e do inútil. A imagem singular da mulher despojada que usa os traçados e os cortes essenciais, limpos, seguros, de leitura imediata e prova de bom gosto, embora passível de se considerar a antítese de uma vivência que impulsiona o caos como regra quotidiana, é rara e susceptível de não ser reconhecida.É, no entanto, a fórmula mais sóbria de inteligência. Aquela que usa a essência do mais límpido para delimitar o espaço incontornavelmente seu. Este rigor, esta quase rigidez geometrizada, pode ser, também, uma defesa, armadura e protecção, ou um dos disfarces da altivez que se torna um dos mais atraentes desafios que encontramos.
Nunca sabemos quantos vidros teremos de partir para lhe chegar. Nunca sabemos quantos
vidros somos, antes de chegarmos.
No reflexo, a minha irmã despe os olhos e repara em mim.
9.2.26
A Gaffe do ramalhete
A Gaffe sempre considerou as atitudes dos homens que são considerados românticos a maior perda de tempo do planeta.Não interessam os ramos de flores que lhe oferecem se o portador não provar que as fitas que apertam o ramalhete trazem nas pontas e nas horas um Bentley agarrado - e pode ser à cocaína, pois que dessa forma uma rapariga esperta sabe que jamais ocupará o lugar do morto.
O mais recente assalto ao Louvre, o mais caro museu do planeta, deixa-nos estupefactas, roídas de inveja e com uma quase certeza calada a moer-nos o corpinho. Os assaltantes podem ter sido uns valentões, mas estariam, pela certa, perdidamente apaixonados por uma ilustre representante do sexo oposto, deslumbrante e convincente.
As joias surripiadas valem alguns milhões de euros. Nenhuma rapariga esperta deixa que se espalhe uma colecção destas sem usar, numa noite quente, sobre o corpo nu, um colarzinho de brilhantes ou uma pulseirinha de milhares.
Uma menina que se preza só é hipnotizada pelo brilho genuíno dos diamantes e pelo borbulhar de uma garrafa de Champagne de valor aproximado.
Os homens que não se iludam. Nenhuma mulher, se descobrir que há hipóteses de complementar as flores que lhe oferecem com diamantes dentro de Champagne, lhes aceita alegremente os ramalhetes, mesmo os compostos por orquídeas raras ou tulipas negras.
Lembremos as sábias palavras do velhíssimo Borges que, quando questionado acerca da ligação com uma jovem loira e torneada, responde simplesmente que estava apaixonado por aquela maravilha, tal como ela se encontrava apaixonada pelo seu dinheiro. Tão claro, tão minimalista!
Há homens cujo único encanto reside na possibilidade de nos enfeitar com brilhos verdadeiros e cujas únicas bolinhas realmente importantes são as do Champagne que nos oferecem e, mesmo com nomes suspeitos ou assustadores, estes homens acabam por fazer com que encontremos charme até nos fundilhos das ceroulas.
5.2.26
A Gaffe conservadoramente tatuada
O delicioso aroma dos bons patifes encontra-se, subliminar, nesta colisão.
Acreditamos, ou fingimos crer, que a conservadora imagem que nos é visível, camufla, embora sem convicção, um universo, mais ou menos esconso, que hesitantemente desejamos conhecer, porque somos todas, não há como negar, atraídas pelo marginal mais boémio, vadio e extravagante e a boémia malfeitoria, vestida por Prada ou Valentino, desculpa toda a tatuagem que não queremos abraçar e faz também de nós agulhas destinadas a riscar o corpo disfarçado.
É bom saber que já o Levítico (19:28) proibia a tatuagem e a perfuração dos corpos, mas é também curioso verificar, por exemplo, que em 2000 A.C. os sacerdotes núbios apareciam preenchidos por escarificações, ou que os acólitos do culto de Cibele, na Roma Antiga, se tatuavam lindamente e que mesmo hoje os Mokos, Maoris, não se esquecem de rasurar na perfeição e furar com eficácia as suas carrancas e domínios ligeiramente assustadores.
O Levítico, como se constata, não foi levado muito a sério.
Alterar o corpo, perfurando-o ou tatuando-o, não é caso para fazer tombar as armas e os brasões que desta forma se assinalam.
Lembro-me que senti uma paixão arrasadora, nova e noviça numa Faculdade que pesava de tão conservadora, por um rapaz que me conquistou a vida e mais alguns trocados de somenos importância, porque o vi, como um deus a passear pela brisa da tarde, de argola gigantesca presa na orelha. Brilhava o aro de ouro e brilhavam os meus olhos de menina e moça, levada tão cedo de casa de meus pais.O fascinante objecto deixou de exercer o seu poder de enfeitiçar, quando vi o portador aos lúbricos beijos com o meu primo - afastado, demos graças -, que não usava brinco e era míope. Continuei a adorar o priminho, mas deixei pelo caminho a dor que mal se sente.
Portanto, meus queridos, saibam que não somos, de forma nenhuma, contra piercings e afins - os aros nas orelhas deste deslumbre devem ter nome específico -, mas neste preciso caso sugerimos moderação.
Uma rapariga, ao contrário do que parece ser dito corrente, não aprecia grandemente um homem demasiado tatuado. Perde-se sempre a decifrar o olho do dragão ou a analisar a cauda do tigre. Torna-se confuso, e até embaraçoso, vermo-nos abraçadas e beijadas por uma multidão de desenhos, muitos deles a olhar, ameaçadores e fixos, para nós. Depois, meus caros, já não vão para novos. É confrangedor ver uma sereia de tinta encarquilhada (a tinta também).
Aplica-se a mesma recomendação em relação aos piercings. Se não forem, ainda que vagamente parecidos - não peço milagres - com o rapazinho perfurado que vos mostro, evitem as argolinhas nos lábios que nos sugerem, maldosamente, que podemos ficar com o bâton preso - desagradável se o estivermos a usar -, ou que estamos na presença de um fã de uma série de vampiros de qualidade logicamente suspeita.
No meu caso, perdoo o uso das argolas. Fiquei sempre a pensar, depois da visão catastrófica do meu primeiro amor pendurado na boca do meu primo, se não seria má ideia prender-lhe, ao aro, as correntes de ferro de Alcatraz.
Só para o consolar.
4.2.26
A Gaffe e o "gentleman farmer"
O homem que mais inspira uma rapariga que sonha com a segurança máscula de braços que sabem conduzir e ordenar a dispersão e a miríade de pequenas extravagâncias fúteis que rondam o desejo, é o homem que nele se envolve. Com um minimalismo quase conservador, actualizado por um detalhe qualquer apelativo e inteligente.
É o homem que terá
ao lado, sempre que o quiser, a mulher que se esquece sempre do colar de pérolas debaixo da camisola de gola alta.
.jpg)
.jpg)
.jpg)

_cleanup.png)

.jpg)


