22.7.26

A Gaffe inexistente


Se eu não existisse, bastava apontares para o coração.

Apenas, meu amor, apenas tanto.

A Gaffe interrompida

 

Please, don´t interrupt me while i’m ignoring you.

17.7.26

A Gaffe deslumbrada


Se formos capazes de atravessar a destruidora publicidade, é um pecado colossal ficarmos desatentos à colecção de D&G 2026.
O deslumbre é imediato. Nada é descurado na perfeição que invade um cenário com memórias de tragédia siciliana.
A cor negra trespassa o palco e os sons dos chicotes das joias espalham-se pelos corpos quase num desafio de crime que envelhece como homens de suadas flores de carne.
É impossível ficar indiferente, porque a opulência aqui é um fatal como uma ruela de sombras que se vão apossando do mistério do resplendor destas faíscas. Belíssimas!

Para voar de joelhos.

16.7.26

A Gaffe sem calor


Minhas caras, a elegância jamais se deve alquebrar perante as intempéries. Deve ser sempre a meteorologia a conformar-se com o allure que espargimos pelas ruas.

15.7.26

A Gaffe inútil


A Gaffe leu há dias o texto de um senhor muito indignado que se amotinava contra o culto da futilidade e da desumanidade mais fria em detrimento da solidariedade global e da revolta contra os dramas tenebrosos que assolam o planeta.

Escrevia o senhor que nos movemos todos com o combustível do irrisório, do banal, do superficial, do fútil e do mais leviano, preocupando-nos apenas com o passageiro, com a ementa que nos torna fit e se temos reserva feita nas instâncias de luxo onde vamos passar férias. Os espoliados, os pobres, os restolhos do planeta, a miséria, a fome, o descalabro e a desolação, estão afastados dos nossos olhos e expulsos do nosso coração.

O descrédito na humanidade era tamanho que chegaram duas breves lágrimas aos olhos da Gaffe, apenas recuperadas porque esta rapariga percebeu que quando o senhor alapa o rabo no banquinho e tecla esta denúncia, se salvam os povos da Nigéria, o carrapiço da Nova Zelândia em vias de extinção e a fome no planeta recua atemorizada.

Abençoados os posts deste senhor que deixam a Gaffe esmagada com a vergonha do que vai escrever em seguida, pois que será inevitavelmente fútil. 

14.7.26

A Gaffe à descoberta


A Gaffe descobriu que a uma mulher importa muitíssimo pouco, ou nada, se um homem pensa nela - e o que pensa, quando nela pensa - quando está sozinho, à noite, fechado no escuro de um quarto.

O que é importante é se nela pensa - e o que pensa, quando nela pensa - quando em pleno dia está rodeado de gente.

9.7.26

A Gaffe de proximidade

Há homens - raros - que nunca entenderemos de forma límpida. Perdemos sempre a claridade que existe no que dizem e no que sonham. A proximidade faz-nos falta. Temos a certeza que os compreenderíamos se os olhássemos nos olhos com mais frequência.  

Creio que para vivermos o que quer que seja temos de passar por quatro etapas. 

1. - Saber que existe aquilo ou aqueles que desejamos viver;

2 - Conhecer - ou até vislumbrar apenas - os desejados;

3. - Tocar-lhes, falar-lhes, senti-los, ouvi-los;

4. - Ser e de uma maneira ou de outra transformarmo-nos naquilo ou naqueles que queremos nossos.

Sem uma destas fases, o outro é imperfeito.  


Mas há homens que basta saber que existem e há um Universo inteiro que se abre.  
Sabe-los é sentir que vale a pena tudo, mesmo o mais sonhado, o mais idiota, o impossível. Ninguém é indiferente a uma montanha pousada subitamente no espaço e, no entanto, aproximarmo-nos do cume de dentro do seus peitos é tão difícil! 

Há gigantes parecidos com a lua. Apagam-se as estrelas perto deles.

A proximidade faz-nos falta. Somos melhor do que nós quando os temos perto.  

6.7.26

A Gaffe a desfilar


Paris raramente aceita alguém de corpo inteiro. Raros são os que fazem parte dela.

Há homens que mordem o chão daqueles que desfilam.
Em Paris as flores trazem café e há néon nas almas, brilhantina e riso e o allure de mulheres que passam sem perceber que passam sobre vidro.
Paris das esplanadas depois de finda a festa. Nas ruas que são rios e savanas, pradarias, tundras, gelo, vulcânicas passagens para outros lados, cheira a luz e a carne de perfumes raros.
Manadas de indefesos animais, restos da humana desventura de viver em grupo em que o deslumbre mata, porque cega.
Rapazes que ficaram pelo caminho na Semana em que Paris quis usar outros. Givenchy 2026 e uma manada que atravessa o rio na lentidão que desconhece a fera.
Incautos e imaturos príncipes grifados.
Grandiosa idiotice. Esplendorosa idiotice. Magnífica idiotice que nos traz à boca, sem o mover de um músculo, sem emboscar a vida, a presa que se quer.
O menino de olhos de gazela e boca a prometer um fruto. Tem um pequeno alfinete preso na braguilha. Brilha a braguilha com o alfinete preso na prega do tecido que lhe molda o sexo. Cintilam os olhos do menino de braguilha alfinetada e borboleteia, até pousar na mesa à nossa frente.
Purpurina na íris, asa de pólen, menino tonto agora preso no final da festa.

Podia ser este. Podia ser aquele ali, aqui, além. Mais este e aquele, o outro e toda a gente, porque toda a noite é uma alvorada e eles sabem perder para os encontrarmos.

3.7.26

A Gaffe de "alma gémea"


“A tua alma gémea” soa a qualquer coisa que Satanás deitou no café.

26.6.26

A Gaffe muda


Se me estender na relva e adormecer sob este tempo incestuoso de claridade parda nas pestanas, sem destino projectado, sem reflexões definidas pelo desejo vibrando, acenderei o umbigo da treva e alcançarei o inextinguível, a concordância de todas as Ilhas devastadas.

Se não disser nada. Nem mesmo a verdade. Há tanta suavidade em nada se dizer. Não dizer nada.

Deixar esquecer.

Ninguém devia recordar. O esquecimento devia ser a porta da verdade.