5.2.26

A Gaffe conservadoramente tatuada


A Gaffe não é uma rapariga particularmente fã de corpos cobertos por tatuagens. A opinião é firme, mas sublinha-se que o mesmo não acontece quando se fala de contrastes e colisões, por ventura antagónicas, que despertam no menos fundo da nossa intimidade os calafrios propensos à mais escandalosa das garotices.

Há no encontro de antíteses, no embate de imagens discrepantes, no choque de pormenores discordantes, um apelo, quase de índole sexual, que faz disparar todos os nossos alarmes.

O delicioso aroma dos bons patifes encontra-se, subliminar, nesta colisão.

Acreditamos, ou fingimos crer, que a conservadora imagem que nos é visível, camufla, embora sem convicção, um universo, mais ou menos esconso, que hesitantemente desejamos conhecer, porque somos todas, não há como negar, atraídas pelo marginal mais boémio, vadio e extravagante e a boémia malfeitoria, vestida por Prada ou Valentino, desculpa toda a tatuagem que não queremos abraçar e faz também de nós agulhas destinadas a riscar o corpo disfarçado.

É bom saber que já o Levítico (19:28) proibia a tatuagem e a perfuração dos corpos, mas é também curioso verificar, por exemplo, que em 2000 A.C. os sacerdotes núbios apareciam preenchidos por escarificações, ou que os acólitos do culto de Cibele, na Roma Antiga, se tatuavam lindamente e que mesmo hoje os Mokos, Maoris, não se esquecem de rasurar na perfeição e furar com eficácia as suas carrancas e domínios ligeiramente assustadores.

O Levítico, como se constata, não foi levado muito a sério.

Alterar o corpo, perfurando-o ou tatuando-o, não é caso para fazer tombar as armas e os brasões que desta forma se assinalam.

Lembro-me que senti uma paixão arrasadora, nova e noviça numa Faculdade que pesava de tão conservadora, por um rapaz que me conquistou a vida e mais alguns trocados de somenos importância, porque o vi, como um deus a passear pela brisa da tarde, de argola gigantesca presa na orelha. Brilhava o aro de ouro e brilhavam os meus olhos de menina e moça, levada tão cedo de casa de meus pais.O fascinante objecto deixou de exercer o seu poder de enfeitiçar, quando vi o portador aos lúbricos beijos com o meu primo - afastado, demos graças -, que não usava brinco e era míope. Continuei a adorar o priminho, mas deixei pelo caminho a dor que mal se sente.

 Portanto, meus queridos, saibam que não somos, de forma nenhuma, contra piercings e afins - os aros nas orelhas deste deslumbre devem ter nome específico -, mas neste preciso caso sugerimos moderação.

Uma rapariga, ao contrário do que parece ser dito corrente, não aprecia grandemente um homem demasiado tatuado. Perde-se sempre a decifrar o olho do dragão ou a analisar a cauda do tigre. Torna-se confuso, e até embaraçoso, vermo-nos abraçadas e beijadas por uma multidão de desenhos, muitos deles a olhar, ameaçadores e fixos, para nós. Depois, meus caros, já não vão para novos. É confrangedor ver uma sereia de tinta encarquilhada (a tinta também).

Aplica-se a mesma recomendação em relação aos piercings. Se não forem, ainda que vagamente parecidos - não peço milagres - com o rapazinho perfurado que vos mostro, evitem as argolinhas nos lábios que nos sugerem, maldosamente, que podemos ficar com o bâton preso - desagradável se o estivermos a usar -, ou que estamos na presença de um fã de uma série de vampiros de qualidade logicamente suspeita.

 No meu caso, perdoo o uso das argolas. Fiquei sempre a pensar, depois da visão catastrófica do meu primeiro amor pendurado na boca do meu primo, se não seria má ideia prender-lhe, ao aro, as correntes de ferro de Alcatraz.

Só para o consolar.