11.2.26

A Gaffe num encontro


Vou ao encontro da minha irmã.

Preparo-me para atravessar a rua no lugar onde ela é mais estreita e mais segura. Olho e vejo a mulher distraída, de olhos quietos, um pouco da Onassis, a tamborilar com os dedos na mesa do café antigo.

Dentro dos vidros, a minha irmã espera. Não se vê observada e por isso não ergue defesas. Tem um cotovelo pousado no tampo de vidro da mesa e o queixo apoiado nas costas da mão. O tronco inclinado de forma ligeira e o pescoço nu, magro e demasiado alto, sem nada que o esconda parece surgir da gola alta do vestido azul como esguia espada ou torre ou haste de uma flor estranha.

A mais rigorosa geometria implica quase sempre a lapidação do acessório, do supérfluo e do inútil. A imagem singular da mulher despojada que usa os traçados e os cortes essenciais, limpos, seguros, de leitura imediata e prova de bom gosto, embora passível de se considerar a antítese de uma vivência que impulsiona o caos como regra quotidiana, é rara e susceptível de não ser reconhecida.É, no entanto, a fórmula mais sóbria de inteligência. Aquela que usa a essência do mais límpido para delimitar o espaço incontornavelmente seu. Este rigor, esta quase rigidez geometrizada, pode ser, também, uma defesa, armadura e protecção, ou um dos disfarces da altivez que se torna um dos mais atraentes desafios que encontramos. 

Nunca sabemos quantos vidros teremos de partir para lhe chegar. Nunca sabemos quantos vidros somos, antes de chegarmos.

No reflexo, a minha irmã despe os olhos e repara em mim.