4.12.25

A Gaffe cumplíce



Talvez se nos deitarmos na terra e no chão cavarmos uma cova com os lábios
como quem beija amantes ou estios.
Talvez se tombarmos lá dentro a nossa casa.
Talvez se lavarmos com terra as nossas mãos até a saudade se abrir na lama.
Talvez se mergulharmos no tempo de dentro dos olhos, como um lanho na água.
Talvez então acorde o minúsculo coração que respira o vento Norte.
Só depois.

Espalhar metáforas de gosto e qualidade duvidosos por estas avenidas fora, é de uma confrangedora inutilidade. Ninguém decifra o que dentro vive - se viver - e arriscamos-nos a coleccionar subjectividades ilegíveis.
Um blogue é uma das mais interessantes formas de se dizer a verdade. Raros são os que acreditam e a catarse assim despenalizada inscrita na escrita é compensação.
O lê-me o que escreves dir-te-ei como és não é de todo descabido na sucessão de publicações e, mesmo não querendo, a criatura que os vai mostrando acaba não só por revelar alguns dos lugares que lhe povoam os dias, como também imprimir em quem a lê uma imagem que se aproxima com relativa segurança da dona das palavras se a clareza incluída na objectividade for ponto assente.

A metáfora é portanto um entrave a essa compreensão. Na vida acontece o mesmo.

As ligações que se estabelecem entre quem escreve e quem lê incluem muitas vezes uma cumplicidade oriunda da empatia que se vai criando ao longo do tempo das duas acções. Escrever e ler é dessa forma uma troca profícua de cumplicidades, sobretudo tendo em conta que a leitura é já uma reescrita.
Esta afinidade torna-se no entanto demasiado exigente.
Se a amizade pode ter mais direitos do que o amor, visto não ter as mesmas compensações, a que se estabelece na forma citada impõe condições e regras de difícil manutenção. Não sendo detentores de toda a informação, somos levados a perceber o outro que lê ou que é lido como entidades impolutas e desprovidas de mácula.
É a imprevisibilidade do erro, do pequeno lapso, do minúsculo deslize, da mais ínfima e desculpável aleivosia cometidos por um dos interlocutores que adquirem proporções de catástrofe. O absolutamente inócuo acto falhado torna-se bisturi e separa a unha da carne.
Após a tragédia é inútil abrir covas com os lábios. Não resulta, deve ser doloroso e desfaz-nos o batom.
Acreditávamos ter encontrado a água mais fresca da terra e descobrimos que afinal não é aquela que nos mata a sede.

O vento Norte talvez nos traga um outro coração.