Creio que se perdeu a leveza da sinceridade amável, inofensiva e espontânea, aquela que surge solta sem querermos, involuntária. Acabou por se tornar apenas a garra com que se raspa o chão que ainda dá uvas. Chega premeditada. Seleccionamos o que de simpático devemos dizer com a lupa e a pinça do interesse e de uma eventual contrapartida. Somos amavelmente interesseiros. Elogiamos a capacidade de trabalho do colega, a assertividade da secretária, a iniciativa inteligente do amigo ou a predisposição para o sucesso do parceiro, sobretudo quando nos dão, ainda que vaga, a possibilidade de nos deitarmos à sombra, sabendo que o sol do meio-dia de um Verão tórrido é para os que elevamos aos píncaros.
Perdemos aos poucos a fragilidade do encanto mais banal. Vamos ignorando o que vemos pequenino. Deixamos de ser deuses das pequenas coisas. Esquecemos as pestanas longas, pretas e densas do homem que passa. Ignoramos as mãos esguias que se movem como pombas da rapariga da confeitaria. Não vemos a timidez de diamante do rapaz que nos entrega a revista que pedimos. Perdemos a oportunidade de tocar nas asas da mulher que passa com elas fechadas. Nunca dizemos a alguém que tem as clavículas como baloiços de estrelas. Somos senhores apenas dos grandes elogios.
Talvez seja por isto que é ignorado que há sorrisos banais que unem galáxias.
