A minha avó marca a folha do livro com um postal ilustrado antes de o fechar e erguer os olhos. Depois a cigarrilha em prata. O fumo do cigarro, esparso, no aposento.
A senhora sorri e segue com os olhos a estrada cinza ténue que se esfuma.
- Minha querida, quando decidimos partir temos de saber que nenhuma estrada nos vai levar para lá de nós. Não viajamos nunca. Ausentamo-nos.
Há lágrimas nos olhos da senhora.
O fumo. Ah!, o fumo.
- Partir é apenas uma ilusão que fica. Acreditamos sempre na viagem, mas o que resta em nós é a ausência sentida nossa no lugar que fica. Não viajamos a não ser por dentro.
O fumo.
- Não saímos nunca dos lugares onde fomos amados.
Do livro da minha avó um postal que tomba. A página perdida.
