23.4.26

A Gaffe nominal


Preciso do teu nome para morar, para assim te poder chamar da casa em labaredas, da Primavera autónoma sobre as copas e dos sepulcros das prostitutas e da ciência assombrada de céu, quando no inelutável íntimo rosto da terra todos os nomes se despem durante a noite.
 
Por isso inscrevo o teu nome na pele, como um signo fechado por um grito, ou uma renascida onda cheia de cornos, para que as margens não transbordem de coração carnívoro.

Sempre que tu és, o tempo desiste e eu aprendo a rodar o medo nas palavras.

14.4.26

A Gaffe orgulhosa


De acordo com o especialista, tenho de depurar aquilo que faço passear por estas avenidas. Decepar os adjectivos, decapitar os advérbios e anular as metáforas, tentando ao mesmo tempo desviar-me dos clichés e das frases feitas. Só dessa forma poderei almejar um dia fazer de conta. A verdade é que passo de rajada pelo calcetado destas avenidas. Não há motivo de orgulho no desenho que vou fazendo com as pedrinhas das palavras.

Felizmente.

Das várias espécies de orgulho, apenas uma é salutar. As outras transformam-se a curto prazo em soberba. O orgulho é impiedoso. Não estanca deslumbrado perante o que fizemos, dissemos ou pensamos. Responde a uma exigência e nada mais é do que a confirmação do que somos, realizados naquilo que produzimos. Não nos considera grande coisa. Cumprimos o que esperávamos de nós. Torna-se implacável e quase assassino, disfarçado muitas vezes de abatimento e de opróbrio, quando falhamos. Faz com que o cirurgião, por exemplo, chore desalmado escondido numa retrete nauseabunda por não ter conseguido salvar o paciente e castiga-o de modo subtil fazendo com que se torne obrigatório ser o choramingas a comunicar a notícia àqueles que esperavam um milagre ou manipula a palavra profissionalismo enfiando-a na boca do polícia que nada mais faz do que cumprir um dever com a qualidade que se espera óbvia, protegendo a criança da sanha violenta do colega, mas que apesar de tudo é evidentemente maior do que a dos companheiros de infortúnio, espectadores inertes. O orgulho, o que vale a pena, é um factor de prevenção. Permite que evitemos cometer erros. Protege-nos. Ergue-nos, endireita-nos a coluna. Com a coluna erguida é muito mais difícil entrar nas caixinhas da traição, da mentira, da intriga, da mesquinhez e das tantas outras coisas que rastejam. O orgulho, o que vale a pena, não se ergue daquilo que fazemos, dizemos ou pensamos (talvez, nestes casos, dê lugar a uma vaidade que é sempre um fogo fátuo). É outro virar de cabeça para trás. Olha o que somos em retrospectiva, porque sabe que somos sempre uma fusão do passado. Geração atrás de geração, atrás de geração, atrás de geração, mas indiferente ao facto de chegarmos até Napoleão ou pararmos no avô que nos pariu, o orgulho adquire neste recuo uma das suas componentes imprescindíveis. A vergonha.

É este orgulho facetado que impede a desonra de aviltarmos o que se reflecte no espelho quando nele tombamos. Não somos Alice num país de maravilhas, somos os que nos precederam todos juntos e o orgulho sabe que só o passado é eterno.

13.4.26

A Gaffe moribunda


Tu numa última braçada, uma última âncora lançada à areia.

- Já não gostas de mim.
- Que parvoíce. Gosto sim.

Apago a voz com a mesma solenidade de quem ata a morte errática, de quem capitula a golpes de martelo sobre as pálpebras.

- Não. Não gostas.

A reacção do teu corpo a dactilografar o meu silêncio biográfico, ensurdecedor de coração indesejado. A tua inútil imagem nua com um lençol sobre as ancas viradas para mim.

- Para que quero eu isto?

Isto. Como se fosses passível de ser removido, como se fosses a posologia demasiado confusa.
A culpa. A culpa a espalhar-se dentro de mim. A plantar a sua árvore de frutos, para se deleitar à sombra, saciando-se de verbos.

- Não. Já não gosto de ti e não consigo fazer nada.

À volta da tua boca a mais profunda e densa escuridão.

9.4.26

A Gaffe marítima


As múltiplas claridades das sombras. O desejo de colidir com os demónios. As sílabas prolongadas. Os jardins onde me deito sobre ti. A duração dos lírios em prece nos teus lábios. A precipitação da chuva nos ombros da morte.

- Já me pediste para te esquecer?

A besta retorna à jaula, as marés acalmam novamente, as aves em voo cicatrizam a minha solidão lunar com algumas cavidades onde uma criança acena, despedindo-se.

(O coração deveria ter uma boca para engolir.)

Não. Não te pedi para me esqueceres, mas há um mar em mim onde jamais aprenderás a mergulhar.