Basta-me enlouquecer. Todo a loucura começa numa oração voluntária. Afasto a penumbra da insónia mal remendada. Levo água à boca e à cara. Olho para o espelho. É fundo o espelho! A memória com a encarnação pessoana começa a vislumbrar-me outra.
E se eu me desconhecesse? como me olharia? de quem é este cabelo ruivo desalinhado como fitas quebradas? Quem beijaste? És temperamental? Como murmuras ao ouvido?
Tomada pela encarnação da desconhecida dentro, cresce-me a vergonha gelada e afasto-me a cobrir a nudez. Escondo-me com as mãos como as gazelas ao farejarem ao longe o cinismo das leoas.
Depois rio-me, sossegada pelo eco frondoso da minha voz fragmentada. Toco o vidro, toco o reflexo, toco-me com a mão. Enterneço-me com as semelhanças animais entre as duas criaturas. Eu sou isto. Resigna-te.
Os cães também amam.
Alimento o fascínio do desprezo, da inteligência que consegue desarrumar a sensibilidade da boa educação. Ergo paredes à volta da solidão, tão íntima.
Encho o peito contra o rio. Recupero os sentidos. Levanto-me. Os pés nus contra o chão, sobre as metrópoles enterradas do passado e a turbulência do magma.
Sei que preparo a minha distância de uma forma rigorosa, mantendo-a, comendo como um cancro, para não desistir do que se move: a esperança do eterno.
.jpg)