Abro os olhos. Esfrego-os com raiva, estremunhada, e pequenos sóis passeiam à minha frente.
À medida que recupero as cores, de costas para a casa e para o destino, ele chora contra o vidro. Como um violino antigo pelas cidades exaltadas. De nariz espetado, embaciando o vidro com a transpiração tremida, desenhando curvas oblongas aos soluços. Intriga-me a sua nudez perante mim. É-lhe indiferente o exercício íntimo da sua dor. Talvez me julgue longínqua nesta minha cara despida de assombro. É difícil não reparar na sua beleza cruel, mesmo adulterada pelos músculos em esforço. Sinto-me embalada pela dificuldade em compreender o retrato. Amparo-me na constatação de que a beleza é uma forma de génio, espantada pela construção natural de um acaso harmonioso.
O sangue desacelera. Os nervos contraem-se como noivas despidas. Acende um cigarro. Enoja-me a forma como me desocupei de mim.
O fim permanece próximo quando se relampa de lágrimas.
- Não consigo entender-te. Perdoa-me.
Por não reconheceres a minha mão? a minha individualidade felina com a ternura a baloiçar nos olhos, pedindo beijinhos na testa antes de adormecer?
Um gesto desleixado no ar a vertebrar os meus espaços, de aves brancas a baterem contra o sol debicando as folhas da minha sede vegetal?
A cada passo dado para a porta, baloiçam envelhecidas noites de inconfessáveis segredos, ombros adormecidos sobre as giestas, a eternidade das manhãs corruptas soletradas pelos riscos do passado.
- Perdoo, mas agora tens de me dizer adeus.
