14.11.24

A Gaffe vaporosa


Embora actualmente de forma pouco segura e muito mais flexível, as rendas, os bordados e os padrões florais ou floridos, foram durante demasiado tempo apanágio do feminino.
Este facto deu uma enorme vantagem às mulheres que se apoderaram com convicção das potencialidades deste universo vaporoso e frágil, armadilhando-o e fornecendo-lhe uma conotação erótica que é, em última análise, proveniente da ausência que passa a obrigatória destes elementos no círculo de uma masculinidade empedernida que se vê deslumbrada e desperta pelo sussurrar destes tecidos.

O astuto, cuidadoso, engenhoso, e muitas vezes inquietante, uso feminino das rendas e dos padrões florais, opera maravilhas no subconsciente dos incautos rapazes que presos nas redes, teias e flora dos tecidos, acabam por sucumbir ao fascínio do que lhes é interdito.
A proibição, aqui como na esmagadora maioria dos casos, incute e impele o desejo de transgressão e é agradabilíssimo sentirmos que no esvoaçar do pano se liberta a sombra do pecado e o subtil fascínio da irresistível feminilidade.

Mas - convém não esquecer -, a lua tem uma face mais obscura e trágico é quando este miraculoso encantamento de rendas e bordados a preceito, se traduz na visão catastrófica do nosso rapagão a desfilar pela brisa da nossa intimidade usando, balanceado, as nossas artimanhas.

13.11.24

A Gaffe, arsénico e rendas velhas


Nem sempre as joias são o costumado brilho encastoado em metais de fino trato.

Há joias escondidas, presas em papel transparente, dobradas com o rigor e com o cuidado extremo das avós e perdidas nas gavetas maneiristas do móvel esquecido há tanto tempo.

Procurem-nas!

São preciosidades inigualáveis e com o temor que nos faz suster a respiração, com a vertigem de quem comete um crime, com o arfar de excitação de quem se vê a viver uma paixão que não lhe pertence, voltemos a usar o tempo perdido e que Proust nos perdoe e nos proteja.

A Gaffe no vosso mail


Alguns portugueses - sobretudo os do meu querido Porto - trazem nas redes algumas pérolas que fazem rolar a língua por mares que pareciam ter sido abandonados, mas que continuam a encher as marés do nosso espanto linguístico.

Soltemos algumas do fio do colar das frases ouvidas por aí:



Alevantar - O acto de levantar com convicção, com o ar de a mim ninguém me come por parvo. Alevantei-me e fui-me embora.

Aspergic - Medicamento português que mistura Aspegic com Aspirina.

Assentar - O acto de sentar, só que com muita força, como se fossemos praticamente um tijolo no cimento.

Capom - Porta de motor de carros que quando se fecha faz POM!

Destrocar - Trocar várias vezes a mesma nota até ficarmos com a mesma.

Disvorciada - Mulher que se diz por aí que se vai divorciar.

Destrocer - Torcer várias vezes.

Deslargar - Largar várias vezes o que quer que seja.

É assim - Talvez a maior evolução da língua portuguesa. Termo que não quer dizer nada e não serve para nada. Deve ser colocado no inicio de qualquer frase.

Entropeçar - Tropeçar duas vezes seguidas.

Eros - Moeda alternativa ao Euro adoptada por alguns portugueses.

Exensar - Termo que para ser bem utilizado tem que ser dito rápido para que algumas pessoas percebem que se quer dizer deves pensar.

Falastes, dissestes e afins - Articulação na 4ª pessoa do singular.

Ex: eu falei; tu falaste; ele falou, tu falastes.

Fracturação - O resultado da soma do consumo de clientes em qualquer casa comercial. Casa que não fractura, não predura.

Enmigos - O que vou ganhar depois de alguns lerem isto.

Mô - A forma mais prática de articular a palavra meu e dá um ar afro à língua portuguesa, como Bué ou Maning (muito em Moçambique). Ex: mô tio.

Nha - assim como Mô, é a forma mais pratica de articular a palavra Minha. Para quê perder tempo não é? Fica sempre bem dizer mô tio e nha mãe, por exemplo. Poupa-se imenso.

Númaro - Já está na Assembleia da República uma proposta de lei para deixarmos de utilizar a palavra número que está em claro desuso. Númaro já é usado por muitos deputados.

Parteleira - Local ideal para guardar os livros de português do tempo da escola.

Perssunal - O contrário de amador. Muito utilizado por jogadores de futebol.

Ex: Sou perssunal de futebol. Deve ser articulado de uma forma rápida.

Pitaxio - Aperitivo da classe do Mendoim.

Prontus - Usar o mais possível. É só dar vontade e podemos sempre soltar um prontus! Fica sempre bem nos lugares mais bem frequentados da sociedade.

Prutugal - País ao lado da Espanha. Não é a Francia.

Rondana - Uma roldana que ronda à volta de si mesma.

Shampum - Líquido para lavar o cabelo que quando cai na banheira faz PUM.

Stander de vendas - Local de venda. A forma mais famosa é sem duvida o Stander de tomóveis.

Tçou - Inicialmente usado por músicos da zona de Cascais, rapidamente se estendeu a outros tipos de utilizadores. Atender o telefone e dizer tçou é uma experiência aconselhável a qualquer um com ligações ainda que vagas à cantora Ágata.

Tipo - Juntamente com o é assim, faz parte das grandes evoluções do português. Também sem querer dizer nada e não servir para nada, pode ser usado quando se quiser, porque nunca está errado nem certo. É assim... Tipo ‘tás a ver?

Treuze – opiniões de Miguel Sousa Tavares.

Vosso mail - Se não me atenderem o telemóvel obviamente que vou para vosso mail.

12.11.24

A Gaffe "homossexualista"


A Gaffe está mais uma vez ao lado, mas mesmo juntinho, da maravilhosa ministra da saúde, Ana Paula Martins, que a cada passo nos deslumbra, superando aquela coisa feia que a estátua da Liberdade tem na mão erguida.

Depois do descalabro dos concursos promovidos pelas ULS para jovens médicos especialistas; depois de nos ter mentido e tentado enfiar o INEM no lugar que lhe pertence desde tempos imemoriais, ou seja, a andar de carroça e a chicote das horas extraordinárias, chega-nos agora revoltada, chocada, escandalizada, com a cor dos boletins de saúde infantil e juvenil que, sob os auspícios da Direcção Geral de Saúde, passariam de azul para os meninos e rosa para as meninas, para um amarelo para todos.

Garvíssimo.

Este abuso colorido da DGS condena as crianças ao jugo que da moderna tendência homossexualista – diria Maria José Vilaça ou Helena Costa - que grassa no Ocidente e que, mais cedo do que se pensa, vai desertificar o planeta.

Se já existem colecções de roupa infantil que tanto dá para um lado, como para outro – o que já é de bradar aos céus -, tentar abolir a distinção dos sexos através da cor, cerceia a nossa capacidade de discernimento e contribui para esta espécie de daltonismo sexual que os homossexualistas defendem e promovem, ultrapassando mesmo as fronteiras e os limites traçados por Deus.

A Gaffe considera um HORROR.

Deixem as crianças em paz!


Acredita piamente - como Deus manda - que esta contínua aniquilação de códigos ancestrais, levada a cabo por gente LGBT, ou LGBTI, ou LGBTI+ - ou coisa que o valha -, é um perigo para a civilização, tal como a conhecemos e respeitamos, e não vai ser interrompida antes de destruir por completo a vantagem que detínhamos sobre o homossexualismo - que nos foi dada por Nosso Senhor -, e que nos permitia imediatamente identificar - e saber lidar com isso - qualquer personagem que nos surgisse na frente.

Tentar anular os códigos sociais expressos nas cores ou trocar o logótipo da identidade digital do país confundida com um símbolo da nação, é trágico, mas é tarefa destes monstros que consideram primordial levar a civilização ao homossexualismo total.

A Gaffe teme que se intensifique a possibilidade de uma mulher usar um vestido vermelho intenso e justo, sem se perceber que anda a pedi-las. Não é de todo de espantar, pois que já é com alguma dificuldade que conseguimos discernir um toxicodependente de um gótico, ou de um emo, ou de uma pessoa de luto, através do preto que usa em look total e - a propósito - já é absolutamente incriminatório intuir - porque somos lógicos e racionais - que uma pessoa de cor mais escurinha é uma ameaça potencial à nossa segurança e que tem a pila grande, ou que uma pessoa mais amarelinha tem a porcaria dos genes dos olhos em bico entranhada no corpo e abre lojas com plásticos a cheirar a petróleo, mesmo ao lado da Prada.

Uma mãe que sabe o que é ser mãe, que sabe estar, que se comporta como uma verdadeira mulher, sabe por instinto que se colocar nos ombros do filho um polo azul discreto, o menino não mudará de sexo na idade maior e com certeza conhecerá por essa altura, no golf, meninos que usaram, pousados nas costas, polos azuis discretos. Juntos podem perfeitamente fundar uma empresa e encomendar uma colecção que aproveita a onda homossexualista àquela gentalha que em criança ousou cores berrantes e que por isso agora é estilista.

Pelo menos, dá lucro.


Uma mãe que sabe o que é ser mãe, que sabe estar, que conhece o seu lugar, que se comporta como uma verdadeira mulher, sabe que se vestir a filha de princesa cor-de-rosa, a futura jovem tem mais hipóteses de casar com o menino do polo e - se usar branco - ser amante dos amigos de polo do marido e que será sempre mais que Ministra da Saúde.

É evidente que se uma mãe não merecer este santo estatuto, e vestir a sua criança de vermelho, ou preto, ou quiçá de branquinho, terá no futuro um comunista ao jantar, ou um drogado suicida, ou um homossexualista na Companhia Nacional de Bailado.

O pai está a trabalhar. Não aborreçam.

Já nos tentam roubar a possibilidade de reconhecer as boas pessoas pela cor da pele, não nos retirem agora a capacidade de distinguir através da cor dos boletins de saúde para meninas e para meninos, o que é de aproveitar do que não passa de manobra destruidora do lobby do homossexualismo.

Se Deus, na Sua infinita sabedoria, nos fez e nos vestiu de cores diferentes por alguma coisa foi.

Bravo, senhora ministra! Não parece nada que a menina saiu agora mesmo debaixo de uma pedra.

A menina continue que não maça nada.


Em relação ao INEM, a mobilização maciça da sociedade civil, por exemplo, seria uma defesa viável, bastando para tal que os profissionais em causa se dispusessem a motivar, a solicitar o apoio, a solidariedade e a compreensão dos que sabem, porque sentem na pele e no resto do corpo – seu ou do muito próximo – que, numa urgência, bastam alguns segundos a mais para se perder uma vida. Parece evidente que esta mobilização solidária embate com oenraizado quem quer que se cuide e não colhe frutos quando está em causa a causa dita alheia, mesmo quando nos toca por motivos trágicos, mas de través.  Era mimoso ver na rua de cartaz ao peito, palavras de ordem na estrada, a lutar pelo INEM e por todos os profissionais de Saúde, toda a gente que é agora saudável. Com a certeza de que os seus sofredores continuavam a ser cuidados com a qualidade extraordinária que é característica da esmagadora maioria dos profissionais pelos quais se manifestam. 

Era bonito. Cheirava a um movimento por Timor, mais pequenino.

 

11.11.24

A Gaffe sócio-demográfica


A Gaffe ficou siderada quando deu conta da existência de um papelucho que pedia que aquelas pessoas pequenas e maçadoras respondessem se gostavam de homens, de mulheres ou de ambos.

A Gaffe desconhecia a existência do ambos e fica aborrecidíssima por não ter tido a oportunidade, em criança, de o experimentar.

Em relação ao resto, a Gaffe só consegue responder que, aos nove anos, dependia imenso do que tinha fumado primeiro.

 

9.11.24

A Gaffe inútil


Procuro na transparência oculta das palavras captar as imagens da vida dos outros, como quem apanha no ar, com afinco e quase desespero, as partículas mais visíveis do pólen que se espalha, que acabo por sentir que não faço sentido.

Falo de quem amo e recolho com a angústia que advém da incapacidade de o fazer de modo mais perfeito, os pedaços, os farrapos, os lanhos e as fendas, os rasgos e os segundos que da vida dos meus mais amados se abrem nas memórias que deles quero ter.
Mas acabo por me ver sentada ao longe, no camarote forrado e confortável, a observar o palco onde, sem sentido e com ruído, a vida dos loucos faz parte da minha, mas aquela que vivo é quase sempre alheia, passando nas margens do mundo dos outros sem tocar na água que corre nas almas.

Que sentido tem não me ver sentir nas malhas do enredo alheio? Que argumento estranho a mim vale a minha vida?

Olho para mim e desconheço, de repente, se a minha vida é parte integrante da vida dos outros ou se apenas passo pela brisa da tarde sabendo que me roubaram fogo e asas e que os procuro no céu rasgado à força de tanto o olhar, mas que é céu dos outros.
Olho para mim de vez em quando e quando o faço apenas me vejo pronta a reter os mais irrisórios e os mais inúteis lampejos de luz da vida dos outros. Uma sequiosa atenta a todo o fabuloso e desmesurado génio que de súbito aflora a superfície da alma daqueles que mais quero.

Hesito.

Se pensar mais alto acabo por descobrir a mais evidente das verdades:
Não interessa nada aquilo que aqui faço, especada frente ao monitor a carregar nas palavras e a narrar episódios patetas - patéticos também - que tropeçam e escorregam na minha vida, acabando espalhados nos meus braços.
Depois chega, no labiríntico tempo das nuvens e do vento, com a simplicidade doce do início de tudo, a natural conclusão oferecida pela tonta e inocente futilidade que saltita:
Não tenho a veleidade de acreditar que trago as chaves das catacumbas das catedrais da mente e nem sequer ouso falar das catedrais dos céus, porque há alguém a ouvir, interessado, a pedir para me ler, a piamente orar por mais uma palavra, a beber desesperado os despojos das sílabas que repenso, cruzo, entranço, misturo, embebo e torço.

Mas, como diz a Guiduxa Rebelo Pinto, Não há coincidências.

Folheio, neste instante, o labirinto da minha guerra e da minha paz e na vida de nada que é a minha, recomeço a ouvir o velho russo:
 

Narra a tua aldeia e narrarás o mundo.

E bem ou mal, atarantada e trôpega, olho-me e vejo-me beijada.

Imagem - Madonna of the Wasps — Robyn Hitchcock

8.11.24

A Gaffe mínima


Sofro daquilo a que poderemos chamar Síndrome da Irmã Mais Nova.

Passemos a explicar:
Vivo rodeado de gente com talento em várias áreas. Acabo por apagar qualquer centelha, qualquer brilho minúsculo, qualquer vislumbre de potencial criativo que possa eventualmente possuir.
Apagam-se os meus luzeiros perante as fogueiras e os incêndios que se me deparam.
Não desenho, não fotografo, não pinto, não escrevo, não danço, não cozinho, não me visto de modo irrepreensível, não tenho um discuros político coerente e inteligente, não canto, não construo miniaturas de barcos do século XV, não planto coisas, não componho música, não aprecio ópera, não projecto edifícios, não gosto de casas minimalistas, não toco nenhum instrumento, não me perco com paisagens, não arranjo as unhas e não vou ao cabeleireiro.

E vejo mal ao longe.

A Gaffe guerreira


Facilmente nos tornamos carcereiros daqueles que são donos do que desejamos ou daqueles que possuem o que evitamos.

Cada um destes - carcereiro ou prisioneiro - se transforma em potencial inimigo e por norma nenhum deles recusa guerrear. Ambos sabem que em relação aos inimigos, se não os podem vencer, podem confundi-los. Abertos ou surdos, sangrentos ou subtis, erguem-se os estandartes da morte, mesmo em nome de de causas insignificantes ou minúsculos motivos - tidos como dignos de bandeira, porque os homens são capazes de inventar as grandes coisas do nada.

No entanto, creio que este é o segredo de todas as vitórias: perceber que a única batalha que realmente vale a pena travar até à exaustão é aquela que acontece quando estamos nus.


7.11.24

A Gaffe visceral


É usual considerar que nos apaixonamos quando se revelam, não necessariamente juntas, as três reacções sacramentais que nos indicam que estamos muito perto da idiotice que é tantas vezes o gatilho da paixão.
A aproximação daquele que nos faz pensar que a vida pode ser um produto Disney origina quase sempre lugares-comuns plasmados em atitudes físicas incontroláveis que nos deixam em situações normalmente inconvenientes.

A respiração altera-se. Descontrola-se. Tornamo-nos sôfregas. Aproximamo-nos da asfixia que nos sabe bem sentir e a aceleração com que sorvemos e expulsamos o ar que de repente se tornou perfumado, faz com que pareçamos uma daquelas máquinas de perfuração petrolífera, descompensada, que encontrou um banco de suor. Não é bonito de se ver e causa sempre desconforto.

O coração acelera. De súbito parece que existem dois êmbolos manuseados por um psicopata que nos aperta o peito sem dó nem piedade, fazendo do coração uma maquineta descontrolada pronta a explodir a qualquer momento. Não é agradável e normalmente impede que o cérebro seja irrigado.

Sentimos o que dizem ser borboletas no estômago. A verdade é que podemos sentir qualquer outro insecto a debater-se empapado em sucos gástricos, mas é mais poético escolher um alado, colorido e primaveril. Como é fácil entender, não é de todo saudável ter bichos a torcerem-nos as entranhas. Bastou-nos observar o que se passou com Sigourney Weaver para perceber que o voo da poesia se pode transformar num murro de Muhammad Ali.

Estas três badaladas reacções físicas, apesar de consagradas, estão longe de nos provar que Cupido nos fez xixi na cabeça, embotando-nos o cérebro. O amor não é uma regra de três simples.

A Gaffe pensa que raramente sabemos se o que sentimos pelos outros é amor ou se simplesmente colhemos rosas que crescem em lugares alheios.

Talvez por isso a Gaffe tenha adoptado a pergunta do amigo:

- Quando sentires que eu te amo, avisas-me?


6.11.24

A Gaffe desiludida


A Gaffe receia que a mais destrutiva doença da Europa seja a de ser capaz de aceitar como banal um país ser governado por criminosos, insalubres e psicopatas narcisistas.

5.11.24

A Gaffe com visitas


A fórmula usada pela minha avó para descartar demorados visitantes que, como por encanto, não se apercebiam do aborrecimento descomunal que provocavam, era infalível.

Depois de pousar no tabuleiro a chávena do chá que beberricava num silêncio por decifrar, a minha melodiosa avó erguia-se, voltava-se para os entediados companheiros de infortúnio e com um sorriso de alerta, repreendia:

- Meus queridos, vamo-nos deitar que as visitas querem-se ir embora.

A Casa Branca, se receber Trump como o novo presidente, devia aprender com as grandes Senhoras. Preparar um chá a Donald Trump, sorrir e fazer os possíveis e os impossíveis por se ir deitar cedo.

4.11.24

A Gaffe activista


É tão engraçado, muito para além de se tentar entender a insanidade com que o Black Friday é brindado, descobrir que a origem deste esgrouviado comportamento consumista que se inicia mais uma vez, teve lugar exactamente no seu oposto - Buy Nothing Day, ou Occupy Xmas.
Neste contra-ataque, o participante tem apenas de passear pelas montras, empurrar carrinhos de compras vazios - os passeios zombies -, destruir cartões de crédito em público e em festa, ou mesmo caminhar pelas avenidas do dinheiro gasto outrora com crianças e balões e fitas coloridas. Tudo muito mimoso.

Nada se pode comprar.
O dinheiro é anulado e substituído pela liberdade de não se ser impelido a gastar.

A iniciativa partiu de Ted Dave, do Canadá, em 1992 e torna-se viral a partir do momento em que a revista Adbusters Magazine a promove.

A reacção não se fez esperar.

É evidente que os críticos ridicularizam a comemoração deste apelo ao não consumo, classificando-o como uma espécie de gesto vazio, um modo enviesado de se fazer com que os consumidores mais pobrezinhos não se sintam mal, não tendo qualquer impacto discernível na economia global ou no sentimento do consumidor tido como um todo, provocando mesmo um acentuar das clivagens de classes, tendo em conta que o consumidor mais poderoso não irá, no dia seguinte, deixar de comprar o que deseja com ainda mais vigor e motivação, arrastando e denunciando a notória distância que o separa dos que com menos poder de compra tornam o Buy Nothing Day uma constante.

Admito que não simpatizo com qualquer uma das iniciativas, embora esteja mais inclinada para desandar pela rua de balão na mão, sem olhar a montras, mascarada de activista do não consumo.

Uma rapariga esperta sabe que o melhor dia para se comprar nos saldos, é a véspera.

3.11.24

A Gaffe acolchetada


Sabemos que nunca devemos confiar num homem que nos desaperta o soutien logo à primeira tentativa.
A primeira vez, de tudo, é sempre um risco e nem sempre é de boa qualidade o que nos fica na memória.

Tenho uma amiga - tomemo-la como exemplo - cuja primeira vez foi tão traumática que decidiu nunca mais perder a virgindade. O assunto foi arrumado na prateleira e vive feliz desde então, embora as relações que enceta sejam de curta duração, porque quando ela faz amor, o namorado exige estar presente. É curioso constatar que esta rapariga, que se afasta consideravelmente do viver rotineiro das multidões, confessa que sente sempre algum pudor em assumir posições ousadas - estou a folhear o Kama-Sutra - com o homem que partilha na altura a sua vida e a sua cama. Segundo o que confessa, é por essa razão que o deixa sair para o trabalho e chama pelo vizinho. O pecado mora sempre ao lado.
É esta minha amiga que me previne: Não se pode confiar num homem que nos desaperta o soutien logo na primeira tentativa.
 
A verdade é uma e ela tem razão. Um soutien que se preze tem de ter uma fechadura à prova de dedos alheios. Tem de ser um enigma, um desafio e tem de provar que o rapazola que nos chega às costas, aos colchetes e às molas é de uma pureza virginal digna de nos ver as mamocas. Quando um homem nos cumprimenta estendendo a mão ou cavalheirescamente nos vem beijar os dedos e nós percebemos que subitamente nos saltou do peito, não o coração, mas o soutien, não merece crédito, embora mereça que nos salte o resto.
Temos que escolher. Não é propriamente a escolha de Sofia, mas é sempre um dilema que nos constrange um pouco. Ficamos com um bronco inocente que nos trilha as costas ou com um manhoso experiente que nos trilha a vida.
Podemos, é claro, optar pela terceira via, a mais atractiva: ficarmos com os dois e deixar que processo de ensino/aprendizagem se faça sob a nossa supervisão.

2.11.24

A Gaffe e as declarações


Os locais habituais para fazer declarações de amor deviam ser todos arrasados. O mais romântico dos jantares devia por obrigação atear incêndios aos cortinados quando as velas estivessem a pingar estearina nas mãos entrelaçadas dos amantes. A mais idílica das paisagens devia ser invadida por tsunamis quando os pares se enternecem com o azul das águas. Todos os cenários usados por Cupido deviam ser demolidos e as setas desse inconsciente quebradas contra as rochas assassinas.

Nós, mulheres, exigimos originalidade nas declarações de amor que nos fazem. Nada de ramos de rosas. Se os anéis de brilhantes são aceitáveis, o mesmo não acontece, de todo, ao joelho no chão numa avenida movimentada ou ao avião pequenino que escreve o nosso nome no ar com fumo cor de malva. As serenatas são permitidas desde que seja usada uma orquestra sinfónica com o coro dirigido por Zhang Jiemin.
Recusamos a banalidade nestes momentos. Repudiamos as cenas que nos fazem lembrar Casablanca que de tão esgotadas nos fazem desejar que o avião da Bergman se despenhe ao sair da pista. Sorrimos e chegamos a comover-nos, mas, no fundo do coração, a desilusão arranja um lugarzinho e ocupa um canto do nosso tão desejado entusiasmo.

Os homens deviam ter percebido isto desde o dia em que tudo o vento levou, mas continuam a insistir na pobreza dos gestos amorosos. Não inovam, não são criativos e acabam por ser secretamente lamentados por nós que consideramos que as nossas declarações de amor são exactamente aquelas que provocam as deles.
Devemos exigir, por exemplo, os nossos nomes escritos nas paredes dos WC das mulheres, no Louvre, com gigantescos corações a toda a volta, provando que, por nós, o macho correu o risco de ser desancado pela senhora de bigode que limpa de hora em hora todas as sanitas femininas. Devemos obrigar os homens a limpar todos os outros de modo a que cintile nos azulejos imaculados apenas o nosso. Não é tarefa fácil e dá pena de prisão até dois anos. Devemos decretar depois que nos dos homens, e sem ser no Louvre, sejam intimados a substituir os cansativos slogans que informam que a Carolle é puta por todos os poemas de Éluard.

Só assim, e talvez então, valha a pena ler numa estação de metro - Em Paris ou Cabecerias -, escrito a tinta branca aquilo que se espera:

On s’aime!


1.11.24

A Gaffe fantasiosa


- Qual a tua maior fantasia sexual?

Perguntam-me alguns com os olhos doces, estendendo-me os braços, e seguros de que seria bom que eu os ouvisse quando me perguntam:

- Qual a tua maior fantasia sexual?

Eu olho-os com olhos lassos - há nos meus olhos ironias e cansaços - e cruzo os braços, e respondo sem haver espaços:

- Ter inventado o sexo e estar a receber os direitos de autor.