27.11.25
A Gaffe das papoilas
Gosto dos instantes em que há papoilas desgrenhadas pelo vento do voo dos insectos e das pequenas gotas de chuva, brevíssimas, que se desprendem dos caules e vão pousar na terra, lentamente, como se houvesse tempo para tudo.
26.11.25
A Gaffe no centro de outro lado
A urgência que sinto de lonjura, de distanciamento mesclado com a mais diferente paisagem que agora existe em mim, obriga-me quase de modo inconsciente a anuir e a afundar-me nas ruas estreitas e nos canais de sombra de Veneza.
25.11.25
A Gaffe no tempo à espera
Não há esperas inúteis até ao momento em que as transformamos, mesmo sem saber, num vazio incómodo.
A espera continua a vida, mistura-se com ela até ser viva.
Integra a nossa alma até ser pedaço dela, indivisível, inalienável. Não adia o
tempo de viver, porque é já ele.
Gostava de me atravessar na porta por onde o tempo passa. Impedir que se escoe, que desapareça. Talvez então eu conseguisse fazer a morte parar, ficar à espera. Talvez então encontrasse um modo de entregar a alguém o tempo que é meu e de que mais me orgulho. As horas empapadas em que eu esperei. Esse tempo exacto. Esse intervalo nítido que finda no instante em que me levanto porque sento a minha espera desistir, abandonar-me a vida.
Nada como o fio ténue de uma espera para nos segurar ao lugar de onde partimos.
24.11.25
A Gaffe artesanal
Na mão dela ficava o mapa do corpo que era o dele, reencontrado, e o lento arrasto da euforia dos trajectos.
Na mão dele havia um
peregrino. Outrora as mãos peregrinavam e no encontro com as mãos dela
ouviam-se rezas pagãs nas catedrais.
As mãos dele, divinas.
As mãos dela comédias,
saltimbancos súbitos que assustavam prendendo pássaros aos dedos.
A mão dele agora no
flanco dela, como o esboço morto de um poeta, deixou de ser tudo.
São mortas as baladas que
ecoavam por entre os dedos brandos da mão dele.
Talvez a noite aquática das praças tenha desfeito o que ele entrançava na varanda dos seus dedos, ou talvez seja ela a ir-se embora.
Porque o fim do amor é artesanal.
21.11.25
20.11.25
A Gaffe imóvel
Fico parada no átrio gigantesco. É já manhã, mas esta luz ainda não tem sombra. Vem azular as coisas, recortar no espaço as silhuetas das árvores, dos anjos do lago, dos corrimões de pedra. Apontar os caminhos abrindo os labirintos de sebes e de arbustos. Introduzir os dedos nas frestas dos ramos escuros dos pinheiros mansos e deixar lâminas de prata nos degraus cinzentos que tenho de descer.
O frio chega em gotículas minúsculas. Pousa na pele e rebenta como bola de sabão. Espero quieta dentro da quietude e descubro o peso assombroso da paz que cheia de silêncio, oprime. A imobilidade de tudo o que é visto impregna a mais opressiva das serenidades, absorve a imensidão da casa e faz aluir a coragem que existe em enfrentar a luz que surge sem remorsos.
Espero sozinha no centro do maior sossego. No centro da mais aguda e dolorosa imutabilidade do tempo e a ausência de sons, a mais absurda inexistência de sons, aperta a minha espera, torna-a gotícula de frio na pele de bola sabão do meu sentir que preso fica nos fios do temor que cresce na manhã que chega lenta, a azular o dia.
19.11.25
A Gaffe no último tango
Quando se abrirem os currais do tango, espera pelo ganir da concertina. Não deixes de prender os olhos no brilho desta sombra. Se o fizeres e se fechares o olhar, apunhalo-te e mancharás de sangue o teu peitilho branco.
Fica-te bem o smoking deste tango.
Homem agora preso a mim, a começar.
Crava-me os dedos nos rins e aperta a palma da minha mão estendida. A tua boca a roçar a minha. O teu arfar enclausurado nos meus lábios. Escaldam os meus lábios. A minha perna abrasa por entre as tuas, abertas, a suportar doridas o inclinar do tronco que o teu curva. Podes lamber a gota de suor que desce no meu queixo e esperar a agonia do sussurro que perto de ti, no pavilhão da orelha, no pavilhão da casa, vou espetando no corpo dos violinos.
Este tango tem a história de um homem e de uma espera. Amou a amante morta num tempo que é já morto, marcado nas paredes com navalhas e no espaço que durava o amor, não respirou. Dançou sozinho um tango desgraçado.
Afasta a tua perna. Empurra os flancos contra a minha carne de modo a que eu te sinta. Rodopia seguro pelas garras que cravo nos teus ombros até sentires a dor que vem de mim, como o gemer do tango, a doer, por entre as tábuas.
Queria ser amado, o homem desse tango. Amado como amou num tempo morto em que sem respirar amou amando a amante que morreu e que não vinha dançar nas concertinas das paredes.
Faz-me gemer erguendo-me nos braços. Faz-me rodar presa na boca. Escolhe uma palavra que traga o escarlate do obsceno e prende-ma nos olhos e sorri de dor quando esmagar o peito contra o teu nas voltas que tu sabes controlar.
Quando beijou outra mulher tinha passado o tempo do homem desse tango que não danço.
Não morras já. Há mais suor em mim para te encharcar os braços e tenho mais saliva a arder e dentes para cerrar. Abre a boca, respira compassado. Há mais para dançar dentro de mim.
Quando beijou outra mulher, o homem que não dança, quis que ela fosse o amor que tinha à espera. Marcou-lhe o mesmo tempo. O tempo em que ela tinha de gravar um tempo nas paredes com navalhas impolutas como as dele. O mesmo tempo em que ele amou a morta até beijar aquele novo tango.
Se ela dançasse da mesma forma o mesmo tango mudo!
Se ela na espera erguesse esse silêncio entre o latir dos tacões nas tábuas do soalho e o chiar das cordas do violino!
Aperta-me. Faz-me doer. Esmaga-me no espaço em que o contrabaixo morde a minha saia e a minha perna que serpenteia a tua. Não morras já. Espera só que eu vire a minha cabeça para dentro do teu corpo. Há mais na tua mão colada à minha palma e nos meus rins vergados pelo teu braço.
A outra não o amou como ele queria e no tempo que ele tinha para lhe dar de espera, tangos diferentes cortaram-lhe o espaço e dentro desses tangos ela dançou com outros.
O tempo acaba. Podes morrer agora nos meus braços.
18.11.25
A Gaffe sem forças
Sento-me na cadeira de plástico. Ao meu lado uma velha branca platinada protege a carteira. Um miúdo esfrega-se no chão agarrado ao carro azul e verde, fazendo-o voltear com os ruídos de um avião ambicionado. Um homem examina-me com olhos esfaimados, de cachimbo na boca e trejeitos nas ancas. A rapariga passa de saia travada, verde. Verde como maçãs. Maças redondas a saltar da blusa. Verde ela também, a blusa e a menina verde bandeira. O telemóvel do homem aos gritinhos.
17.11.25
A Gaffe num retorno
O Tempo inclina-se. Descubro que o Tempo retorna à terra retomando os nossos gestos a uma luz que no amanhecer se espalha sobre as pedras e nesta cor de um sossego em lume. Tudo parece calmo e previsível, porque é contínuo. Os passos que pararam recomeçam e tudo existe a retomar o rumo, como se a vida numa sombra, na planura dos sentidos, recomeçasse no ponto em que tudo se quedou.
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