12.12.25

A Gaffe anoitecendo


Ao anoitecer, todos os ruídos abrandam e sente-se uma ligeiríssima vontade de chorar, embora não se saiba se é mesmo nossa ou se pertence a outro.

Sento-me no cadeirão de couro castanho, novo e com laço apenso, dedicatória doce do meu pai, cruzo as mãos no regaço, com os pés nus inclinados para dentro e as séries televisivas que deslizam, iguais umas às outras, que trespassam o silêncio com os estampidos dos tiros.

Espero pela hora de me levantar e sair devagar como uma visita e vou percebendo que os espaços que habitamos são aglomerados de memórias; que sem a fusão da nossa mão com aquilo que tocamos; que sem a cumplicidade construída pelo tempo que une - como fio de teia de pequena aranha -, a nossa vida ao pó que fica nas memórias dos móveis e dos objectos, ficamos suspensos e frágeis, sentados nos cadeirões que não sentimos nossos, perto da solidão que nos faz crer que é uma velha amiga.