Tédio despropositado.
Os lençóis agarram o meu perfume e a minha nudez
espalhada é indiferente ao espelho.A minha cama sempre pareceu um ninho de um
bicho espalhafatoso e exuberante. Nunca consegui dormir de forma calma.
Envolvo-me e rebolo no sono e no sonho e destruo a primorosa obra das manhãs
tardias em que os lençóis se dobram, se alisam, se amaciam, se distendem, se
prendem e engomados dispersam o perfume lavado dos amanheceres mais claros.
Mas hoje acordei e tudo era perfeito. Como se ninguém
tivesse dormido na véspera. Como se fosse dia de amante noutro lugar. Nenhum
vestígio de ruga, nenhum cataclismo surdo e mudo e inconsciente. Nenhum
tumulto, nenhuma multidão amorfa de panos misturados e confusos. Em mim o tédio
invade até as noites e faz aquietar as ondas do meu sono.
Durmo na planura da indiferença e na suspensão apática
daqueles que desprezo.
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