12.8.26

A Gaffe calada


Que o mar acabe na minha cabeça, que o silêncio de uma casa interrompa e cresça lento, que os mosquitos adormeçam esfomeados nesse tecto, que esta luta, este grito esquartejado em que as palavras batem nas mãos enlouquecidas, se tornem apenas a tontura de envelhecer sem perda, sem gravidade a corromper as mãos da memória dos afectos, sem me deixar enjaulada como uma víscera.

Não digas nada. Nem mesmo a verdade. Há tanta suavidade em nada se dizer.
Não digas nada. Deixa esquecer.

10.8.26

A Gaffe a mais


As rosas a verterem um silêncio piedoso; um passinho de dança; Um queixume largo a baloiçar no sono; a vénia tímida dos plátanos no baptismo dos dedos; o leite aquecido na cómoda; as velas em laços de púrpura; os espelhos partidos com a força da boca; o correio perfumado na caixa dos sapatos; a fruta sanguinária entre a formiga e o açúcar; pinheiros vorazes na alameda; temporais súbitos em época balnear; estalidos nos corredores e tocattas inconstantes de tulipas de tensão baixa a espreitarem de mansinho.


Sou eu que estou a mais.

6.8.26

A Gaffe despida


Quando o Verão se debruça no teu corpo azul de lua e o mistério da consciência é saciado, alfabetizado em lábios de vinho sobre os lençóis rebentados pela tua anca despida, a razão não tem linguagem.

A nossa insónia salivada. A mão na têmpora, a interromper as interrogações do amor. A traição da nossa entrega. A minha respiração aberta, afiada como um cardo, vocal como o mar revolto, prevendo o esgotamento, o vazio a morder as entranhas, arrumando-me para a pontinha da cama, evitando o teu joelho na minha coxa, o teu cabelo na minha cara. Estou nua. Sem armadura. No meu copo despido de pó sustenido há borboletas sonolentas de cordas e pautas de um adágio animal inquieto, quase a morder.

É aqui que a Distância tem início. É aqui que os objectos se desatam de olhos despenhados revelando a realidade que resiste em nós.

Quem me dera não pensar.

4.8.26

A Gaffe sem penitência


Enquanto o dia passa com as suas vestimentas de insónia e carpintaria, falo-te de outro universo baldio com paisagem por ferir e sem catedrais para a penitência dos anjos, mas não reconheço o murmúrio da minha voz, coroada de espinhos.