A aristocracia é de uma estupidez e incultura total. Mas tem bons perfumes, as suas mulheres são muito bonitas e sabem rir no tom adequado. E isso é muito importante.
António Lobo Antunes
António Lobo Antunes
A espera continua a vida, mistura-se com ela até ser viva.
Integra a nossa alma até ser pedaço dela, indivisível, inalienável. Não adia o
tempo de viver, porque é já ele.
Gostava de me atravessar na porta por onde o tempo passa. Impedir que se escoe, que desapareça. Talvez então eu conseguisse fazer a morte parar, ficar à espera. Talvez então encontrasse um modo de entregar a alguém o tempo que é meu e de que mais me orgulho. As horas empapadas em que eu esperei. Esse tempo exacto. Esse intervalo nítido que finda no instante em que me levanto porque sento a minha espera desistir, abandonar-me a vida.
Nada como o fio ténue de uma espera para nos segurar ao lugar de onde partimos.
Na mão dela ficava o mapa do corpo que era o dele, reencontrado, e o lento arrasto da euforia dos trajectos.
Na mão dele havia um
peregrino. Outrora as mãos peregrinavam e no encontro com as mãos dela
ouviam-se rezas pagãs nas catedrais.
As mãos dele, divinas.
As mãos dela comédias,
saltimbancos súbitos que assustavam prendendo pássaros aos dedos.
A mão dele agora no
flanco dela, como o esboço morto de um poeta, deixou de ser tudo.
São mortas as baladas que
ecoavam por entre os dedos brandos da mão dele.
Talvez a noite aquática das praças tenha desfeito o que ele entrançava na varanda dos seus dedos, ou talvez seja ela a ir-se embora.
Porque o fim do amor é artesanal.
O frio chega em gotículas minúsculas. Pousa na pele e rebenta como bola de sabão. Espero quieta dentro da quietude e descubro o peso assombroso da paz que cheia de silêncio, oprime. A imobilidade de tudo o que é visto impregna a mais opressiva das serenidades, absorve a imensidão da casa e faz aluir a coragem que existe em enfrentar a luz que surge sem remorsos.
Espero sozinha no centro do maior sossego. No centro da mais aguda e dolorosa imutabilidade do tempo e a ausência de sons, a mais absurda inexistência de sons, aperta a minha espera, torna-a gotícula de frio na pele de bola sabão do meu sentir que preso fica nos fios do temor que cresce na manhã que chega lenta, a azular o dia.
Fica-te bem o smoking deste tango.
Homem agora preso a mim, a começar.
Crava-me os dedos nos rins e aperta a palma da minha mão estendida. A tua boca a roçar a minha. O teu arfar enclausurado nos meus lábios. Escaldam os meus lábios. A minha perna abrasa por entre as tuas, abertas, a suportar doridas o inclinar do tronco que o teu curva. Podes lamber a gota de suor que desce no meu queixo e esperar a agonia do sussurro que perto de ti, no pavilhão da orelha, no pavilhão da casa, vou espetando no corpo dos violinos.
Este tango tem a história de um homem e de uma espera. Amou a amante morta num tempo que é já morto, marcado nas paredes com navalhas e no espaço que durava o amor, não respirou. Dançou sozinho um tango desgraçado.
Afasta a tua perna. Empurra os flancos contra a minha carne de modo a que eu te sinta. Rodopia seguro pelas garras que cravo nos teus ombros até sentires a dor que vem de mim, como o gemer do tango, a doer, por entre as tábuas.
Queria ser amado, o homem desse tango. Amado como amou num tempo morto em que sem respirar amou amando a amante que morreu e que não vinha dançar nas concertinas das paredes.
Faz-me gemer erguendo-me nos braços. Faz-me rodar presa na boca. Escolhe uma palavra que traga o escarlate do obsceno e prende-ma nos olhos e sorri de dor quando esmagar o peito contra o teu nas voltas que tu sabes controlar.
Quando beijou outra mulher tinha passado o tempo do homem desse tango que não danço.
Não morras já. Há mais suor em mim para te encharcar os braços e tenho mais saliva a arder e dentes para cerrar. Abre a boca, respira compassado. Há mais para dançar dentro de mim.
Quando beijou outra mulher, o homem que não dança, quis que ela fosse o amor que tinha à espera. Marcou-lhe o mesmo tempo. O tempo em que ela tinha de gravar um tempo nas paredes com navalhas impolutas como as dele. O mesmo tempo em que ele amou a morta até beijar aquele novo tango.
Se ela dançasse da mesma forma o mesmo tango mudo!
Se ela na espera erguesse esse silêncio entre o latir dos tacões nas tábuas do soalho e o chiar das cordas do violino!
Aperta-me. Faz-me doer. Esmaga-me no espaço em que o contrabaixo morde a minha saia e a minha perna que serpenteia a tua. Não morras já. Espera só que eu vire a minha cabeça para dentro do teu corpo. Há mais na tua mão colada à minha palma e nos meus rins vergados pelo teu braço.
A outra não o amou como ele queria e no tempo que ele tinha para lhe dar de espera, tangos diferentes cortaram-lhe o espaço e dentro desses tangos ela dançou com outros.
O tempo acaba. Podes morrer agora nos meus braços.