31.8.24

A Gaffe muito prática


Seria tão conveniente e tão cómoda a existência de rapazes possíveis de colher sem perdas de tempo e manobras cansativas que apenas atrasam paraísos!

Todas as fatigantes manigâncias que uma rapariga esperta usa para requisitar sem que ele o perceba os bons e amáveis préstimos de qualquer interessante matulão, tornar-se-iam inúteis e, para prazenteiro e consolador ganho de tempo, teríamos, em segundos apenas, conseguido poupar alguns esforços que tanta falta nos fazem para nos livrarmos dele depois.
A perspectiva de, ao passar por um rapagão capaz de nos despertar os mais básicos instintos animais, se poder, com sofisticação, fazê-lo encaixar de imediato no banco de trás - ou no lugar do morto, findas as tarefas - sem o ter de ouvir palrar, citar poetas, beberricar as horas e mordiscar biscoitos ou ver gesticular as frases que empobrece, deixa uma rapariga esperta muito animada.

Afinal, há rapagões tão interessantes à vista desarmada que dispensam sem qualquer hesitação os complementos que se exigem aos que são convidados para jantar.

Basta que não nos perguntem se gostamos de os ter colhido de repente.

30.8.24

A Gaffe testando


A Gaffe sempre teve alguma dificuldade em identificar os rapazes que não são fãs do sexo oposto, mas que transbordam de masculinidade. Nunca sabe se aquele magnífico exemplar de homem das cavernas requintadas, sentado na esplanada à beira-mar, absorto na leitura de um romance ou em devaneio diáfano pelas ondas do azul das avenidas, pode, ou não, ser convidado para ver a sua colecção de borboletas. Nunca adivinha se o convidado, mal chegado à sala, vai desatar a vasculhar todo o armário à procura de asas prometidas, deixando esvoaçar por todo o lado a ruiva mariposa da desilusão.

Descobriu para colmatar a tremenda falha um pequeno subterfúgio.

É essencial que a vítima esteja distraída. Solitária e imersa na lentidão que chega num longínquo repouso arrebatado. A tranquilidade, a paz, a beatitude, a placidez e a calma do homem a testar são condições para que resulte a manobra traiçoeira.


Pé ante pé, a Gaffe aproxima-se da enlevada vítima e prega-lhe um susto.

O BOOOOO! tradicional é suficiente.

Se apenas sobressalta o matulão que erguido agora do seu alheamento, com uma voz que chega das profundezas graves da garganta, lhe refere a imbecilidade de o ter feito perder uma palavra do texto que relia embevecido, a Gaffe reconhece o título do romance.


Se dá com o rapaz preso pelas garras ao toldo da esplanada, depois de ter estilhaçado um grito desalmado e de rasgar o horizonte que se avista, a pobre rapariga entende logo que o que é lido não contém, nem para amostra, o fogoso amante de Lady Chatterley.

Resulta - quase - sempre.


29.8.24

A Gaffe Comissária


A Gaffe não tem acompanhado o percurso de Maria Luís Albuquerque, porque tem imenso medo que ela descubra e lhe atice o fisco.

Lembra-se de - era a senhora a ministra das finanças -, admirar incondicionalmente os seus conselheiros de imagem. Não há nada como um trabalho bem feito e neste caso a coisa corria mesmo muito bem. Tão bem que agora Albuquerque é uma Comissária - europeia e não de bordo, mas mesmo assim já é qualquer coisita.
No lugar das melonis deste mundo e das melanias do outro, uma senhora de tailleur pastel e mala gigantesca debaixo do braço, para despertar seriedade; calada, para cultivar a expectativa; com ar sisudo para inspirar confiança; com um penteado vindo do túmulo, para evitar futilidades; sapatinhos semi-rasos para começar caminho e com um colar de pérolas muito discreto, para revelar contenção, é sempre um golpe de mestre.
Depois, trocar de quando em vez os acessórios discretos por outros ligeiramente mais ousados, faz com que o ar caseiro pareça um bocadinho mais cosmopolita. Fica sempre bem.

A senhora granjeará alguns adeptos europeus e embora nos pareça não fazer ideia nenhuma daquilo que quer para Europa - à semelhança de qualquer outro eurodeputado ou comissário europeu ou de bordo -, Albuquerque, ao contrário destes, não diz muita coisa cativando pela reserva com pinta de competência, do tipo eu sei-mas-não-digo, que já ajudou muitos em muitas arenas anteriores.
 
Maria Luís Albuquerque é uma escolha de Montenegro, o que prova às raparigas espertas que uma imagem retro-renovada com uma pintinha sisuda é sempre um passaporte europeu e que Moedas pode perfeitamente sair da sombra do bonsai onde se esconde para se orgulhar do seu recto e do seu retro tão maneirinhos

Parece no entanto que a equipa que trata do allure de Albuquerque, não é a mesma que acompanha o restante elenco governamental.

A Gaffe recorda que não basta a Rangel vestir lindamente – as gravatas são irrepreensíveis – para a convencer. Recorda ainda que Nuno Melo usa um penteado que imita um forte capachinho e tendo em conta que para Nuno Melo, companheiro de luta de Paulo Portas, o tema perucas é como o dos submarinos - quanto mais visíveis, mais se afundam - não é de todo aconselhável trazer na cabeça uma imitação rasca das ditas. Nuno Melo não deve ter muitos amigos. Portas não tinha.

Já Montenegro prova que há claras alternativas ao uso do capachinho. Uma tonalidade L’Oréal - porque merece - apaga algumas brancas - embora deixe grisalha a oposição - e com um heróico, lustroso e negro penteado com rigor de laca e voltado para trás, consegue-se fazer passar melhor a mensagem, desde que a luz não incida directamente na tinta.

A verdade é que o governo actual apresenta um grave défice de bons cabeleireiros e de putativas Comissárias.

No entanto, esta rapariga pode perfeitamente estar enganada. A Gaffe é muito propensa a erros de apreciação, costumando nadar contra a corrente, como prova a sua incapacidade - que deve envergonhar todos os comentadores que tem ouvido -, em ver quem é o candidato branco a presidente dos Estados Unidos.
A Gaffe continua a afirmar a pés juntos que o homem é laranja - alaranjado, vá - e que isso até faz uma diferença substancial.

Branco, branco, branco era o Michael Jackson.

28.8.24

A Gaffe intrigada


O que pensam os homens que fazemos quando estamos sós?

A pergunta é pertinente, mas a Gaffe não pode responder pelos rapazes. Assim, esta rapariga enumera os mais óbvios comportamentos, esperando em simultâneo que os cavalheiros acrescentem o que supõem ser usual uma rapariga fazer no aconchego do seu lar num dia de solidão miraculosa.

Basta, rapazes, que analisem as suspeitas inscritas no que acaba de fazer a sua fulgurante aparição nos vossos monitores. Se não encontrarem a que pensais, é porque precisais de mudar de browser.

Hipóteses colocadas:

1 - Não despe o pijama, não toma banho e passa o dia espapaçada no sofá a fazer zapping e a enfardar açúcar.

2 - Decide limpar o pó aos livros. Enche-se de força, de motivação, de ânimo e de espírito de sacrifício. Equipa-se. Pano do pó, lenço na cabeça, luvas de borracha, escadote debaixo do braço e avental por cima da lingerie. Desiste a meio da primeira estante.

3 - Decide fazer uma mistura exótica para o seu lanchinho e enfia num copo um iogurte com pedaços de fruta, algumas gotas de gin, xarope para a tosse, sumo de ananás, maça esmagada, cereais e uma quadrícula de chocolate. Tritura, prova e despeja tudo na sanita. Come um pão barrado com manteiga e bebe um chá preto.

4 - Espalha uma quantidade absurda de papéis na mesa de trabalho, abre o PC, rodeia-se de livros, canetas, clips e agrafadores e espera a chegada do rapaz para lhe dizer que está exausta de tanto trabalho e que tem de ser ele a tratar do jantar. Experimenta maquilhagem, penteados novos e excêntricos outfits e posa ao espelho a imitar a Monroe.

5 - Bisbilhota o facebook das inimigas que são amigas das suas amigas e decide bloquear as amigas das inimigas que afinal não são suas amigas. Arrasa e esfarrapa ambas.

6 - Pinta as unhas dos pés de escarlate e enquanto elas secam, lê a Caras com muito mais atenção do que seria de esperar. Vai imitando as boquinhas das actrizes até sentir que sofre de paralisia facial.

7 - Lê os e-mails do ex-namorado e percebe que só podia estar bêbada quando respondeu àquela porcaria mal escrita. Vai ao Photoshop furar calmamente os olhos às fotografias onde o homem aparece.

8 - Experimenta os soutiens para confirmar que todos lhe favorecem as maminhas e fica furibunda porque nenhum as faz parecidas com as daAker Ajak.

9 - Descobre que tem de marcar depilação e entretanto vai adiantando o serviço usando a gillette do actual namorado. Coloca-a no lugar, muto direitinha, depois de se ter cortado.

10 Alínea destinada às vossas conjecturas.

A Gaffe pincelada


É fácil meu querido americano! Os Estado Unidos têm apenas de escolher e seguir em frente com um presidente que saiba usar make-up.

Mana

27.8.24

A Gaffe e uma cabana


No imaginário feminino há sempre um cão e uma cabana.

Ao contrário dos cenários que se tocam e se intersectam nesta ânsia mais secreta das urbanas raparigas, a ausência do conforto electrónico não é premissa excluída. O desejo inconfessado de uma longínqua, solitária, perdida e bucólica choupana, inclui agora uma eficaz ligação à net. A falta do restante, partindo do princípio que coabitamos com um moçoilo que preenche todos os nossos sonhos - incluindo os mais chuvosos ou intempestivos -, não consubstancia problema grave. O homem, incluído na cabana que fantasiamos, oferece uma panóplia de iguarias, manjares, guloseimas e serviços que nos dispensa qualquer outra minúcia citadina e mesmo o cão é por ele levado a passear, no amanhecer sumptuoso que se repete incansavelmente só para nós.

A única cautela a ter relaciona-se com a facilidade com alguns homens se confundem com caniches.

Se devaneamos agora desta forma - ao contrário do sonho no passado - com esta peculiar servidão do Pai Thomas, é talvez porque nos tenham feito crer que o amor não interessa e o que realmente importa são os arredores.

Design - khaled sadeden

25.8.24

A Gaffe esclarecedora


A Gaffe pensa que quando um político vem esclarecer uma declaração anterior, isso geralmente significa que o público a entendeu bem demais.

A Gaffe vaidosa


Uma rapariga pode saber que é, nos olhos de quem a ama, a mais esplendorosa das deusas do Olimpo, mas quase sempre requer uma segunda opinião.

Este pequeno defeito, esta minúscula incerteza, esta dúvida constante, esta necessidade de afirmação e de segurança destas raparigas aflitas, confunde-se largas e amiúdes vezes com Vaidade exacerbada.

- Não passam de fenomenais vaidades! – Murmuram tristes, com olhos quase resignados.

Mas o que é a vaidade senão o tique das mulheres que temem a sua própria nudez?

24.8.24

A Gaffe embrulhada


Sem photoshop, sem estudos imparáveis de luz, sem cuidados acrescidos dispensados por batalhões de aderecistas, cabeleireiros, maquilhadores e outras manigâncias essenciais, o que seria do produto que as gigantescas máquinas de publicidade tentam fazer acreditar que é condição imprescindível para a construção da beleza e apanágio da sedução?

Se a atracção animalesca de David Gandy ou se o corpo musculado e definido de Ronaldo - escoado o eterno saloio que tem dentro - dessem lugar à banalidade prosaica do homem da rua, a patética ilusão de que, usando o que eles usam, qualquer rapaz fica a ganhar milhões por temporada ou temporadas de milhões de raparigas ou, caso se trate de moça desatenta, que basta oferecer Armani ao parceiro para partilhar o capital do craque ou enlouquecer com o charme do modelo tombado nu na cama que é só dela, deixaria de surtir o efeito motivador do desejo consumista.


O homem da rua, banal, quotidiano, de barriguinha a despontar e de ameaças de roliços corpos sem ginásio, não é a embalagem com que o marketing inventa a próxima paixão saciada apenas na despesa.

Fabricam-se urgências, ambições, falhas, frustrações, aspirações, cobiças, ilusões, sonhos e lacunas nas vidas dos que passariam bem sem eles, mas que perante o fabricado não resistem a acreditar no que lhes é mostrado e que a felicidade depende daquilo que possuem e que se oferece em troca da compra das cuecas.
O bom uso das embalagens - e neste caso os vocábulos adquirem desvios interessantes -, faz com que, quem as não tem, passe a acreditar que basta possuir o perfeito laço das caixinhas para que o mundo se deslumbre aos nossos pés e que, se não satisfizermos o despertado desejo que constroem, o resto que em nós fica é a humilhação de nos sentirmos iguais aos que connosco se cruzam pelos dias.

23.8.24

A Gaffe com os seus botões


Creio que todos temos na alma um pequeno botão - imagino-o vermelho - que se tocado faz iniciar a nossa muito particular autodestruição. Desconhecemos onde está situado e por isso tacteamos quase cegos tentando que os nossos dedos não encontrem a imperceptível pressão que nos levará ao fundo ou a implodir desfeitos em poeira.
Somos assustados resistentes sem a consciência da ameaça, mas atentos, instintivamente atentos, à procura da sobrevivência.

Se tocado, o botão desencadeia o abismo.

Esbracejamos como náufragos e como náufragos agarramos a fúria de pensar que fomos e estamos inocentes. Tentamos respirar através da culpabilização dos outros. É o nosso pedaço de madeira a flutuar.

Só os Grandes, os que não trazem medida, os que não usam conta-gotas na alma, se apercebem do início do precipício e assumem a consciência do próprio pecado. Sabem que são os únicos responsáveis pela derrocada e retiram os outros das falésias antes de morrer. Ilibam os outros.

Desfazem-se depois, mas sem poeira.
Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe anciã


Escondia-me no minúsculo compartimento, mandado construir por ordem da minha avó, no vão das escadas. Ouvia as mulheres de lá para cá, à minha procura sem muita vontade, cada vez mais lentas, até desistirem e se sentarem a um canto onde mastigavam o silêncio.
Era ali, apertada e abafada, que sentia poder viver naquele sítio para sempre. Subdividia o chão e destinava espaços para os meus brinquedos mais importantes. A luz que escorria das frinchas da madeira traçava no chão do cubículo compartimentos onde seria possível construir histórias independentes. Quase imóvel, movia-me. Os meus olhos corriam desenfreados procurando não perder nada do que se passava no chão. Durante horas brincava sem me mover, sentada no chão, de cabeça pousada nos joelhos.
Por vezes espreito o despovoado que ficou depois do abandono. As tardes da memória voltam outra vez. Aproximam-se voando como minúsculas folhas de papel desenhado que vou colando à toa, sem qualquer critério. Nunca fui uma boa coleccionadora. As estampas da minha infância foram todas amealhadas em parceria com outros que acabavam por ficar com as colecções completas e com a minha anuência. Não sei catalogar tudo o que encontro cá dentro, mas apuro todos os sentidos quando procuro aquela em que o meu avô me encontrou.

Era franzina. Magricela. Tinha olhos transparentes de espanto e timidez e labaredas corajosas no cabelo. Segurou-me no colo e prometeu que me daria um lugar melhor para eu ficar e que seria meu para todo o sempre.

Deu-me a biblioteca.

Sem que eu percebesse, o meu avô iniciava naquele instante a minha aprendizagem literária.

- Lê primeiro os velhos. Não conseguirás crescer se não souberes por onde começar. Ao contrário do que te dizem, os velhos são sempre o lugar de onde partimos. São sempre o início de qualquer coisa tua.

Depois, já mais crescida, envelhecíamos juntos nas alamedas do jardim.
Encostava a cabeça ao braço dele, depois - primeiro o pé esquerdo, depois o outro, depois os olhos, depois os dedos, depois cada palavra pisada no caminho -, íamos envelhecendo o coração.

Mostrou-me Fernão Lopes que mais não disse por ser a verdade, fez-me ouvir os sons das batalhas nos Lusíadas, ouvi o Padre e fui também um peixe, ri-me com Eça dentro do riso que me ia guiando, atravessei países, conheci Cervantes e corri ao lado das irmãs Brontë.

Os Gregos. Os russos.

Os outros velhos por onde me perco por não saber dizê-los.
Assim. Misturados. Como se surgissem à toa e sem critério nos lanhos de luz do esconderijo para que os ouvisse a contar histórias.

Era frágil e franzina. Tinha olhos transparentes de espanto e pequenez e labaredas tontas no cabelo. Ele segurou-me no colo e deu-me o melhor lugar para eu ficar.

Agora é meu e sei envelhecer.

22.8.24

A Gaffe abrangente


A Gaffe do Condottiero


Quando na Praça de S. João e S. Paulo, em Veneza, me deparei com a estátua equestre de Bartolomeu Colleoni de Verrochio, não obriguei a minha vida inteira a ajoelhar-se perante o poderio frio e seguro do condottiero de bronze.
Adivinhava-lhe a imponência clássica do homem que domina falcões luminosos, cães fenomenais e cavalos lendários, deixando a docilidade dos ambíguos arminhos, a alegria pilrritante dos coloridos pintassilgos ou a placidez dos impenetráveis coelhos, nas mãos da fragilidade das mulheres quinhentistas.

Sabia-lhe do quebrar do conceito de frontalidade que fascinava e viciava os clássicos e obedientes mestres da estatuária da época.

Por isso Bartolomeu Colleoni não se impôs, não me escravizou, não me obrigou a gravar no tempo que guardo para a memória, um lugar cativo com o seu nome em bronze trabalhado.

Eu esperava-o.

Só entendi completamente a derrota do Condottiero quando pasmei esmagada, na Igreja de Santa Maria del Popolo, com Caravaggio e a Conversão de São Paulo.

Quase ruinosamente erótico, liberto do traço e da iconografia clássica, o homem pintado tombado, aberto, de carne, arranca-nos a vida de repente e de repente lança com violência a nossa alma no espaço da divinal surpresa que é o Homem.
O humilhado desarçoado pelo cavalo é poderosamente mais tirano do que o gigantesco Senhor dono de Veneza.

Nenhum potentado é dominador inquestionável quando não tem a arma do inesperado absoluto disparada no centro da vida dos incautos.
Gaffe, 2022