31.8.24

A Gaffe muito prática


Seria tão conveniente e tão cómoda a existência de rapazes possíveis de colher sem perdas de tempo e manobras cansativas que apenas atrasam paraísos!

Todas as fatigantes manigâncias que uma rapariga esperta usa para requisitar sem que ele o perceba os bons e amáveis préstimos de qualquer interessante matulão, tornar-se-iam inúteis e, para prazenteiro e consolador ganho de tempo, teríamos, em segundos apenas, conseguido poupar alguns esforços que tanta falta nos fazem para nos livrarmos dele depois.
A perspectiva de, ao passar por um rapagão capaz de nos despertar os mais básicos instintos animais, se poder, com sofisticação, fazê-lo encaixar de imediato no banco de trás - ou no lugar do morto, findas as tarefas - sem o ter de ouvir palrar, citar poetas, beberricar as horas e mordiscar biscoitos ou ver gesticular as frases que empobrece, deixa uma rapariga esperta muito animada.

Afinal, há rapagões tão interessantes à vista desarmada que dispensam sem qualquer hesitação os complementos que se exigem aos que são convidados para jantar.

Basta que não nos perguntem se gostamos de os ter colhido de repente.

30.8.24

A Gaffe testando


A Gaffe sempre teve alguma dificuldade em identificar os rapazes que não são fãs do sexo oposto, mas que transbordam de masculinidade. Nunca sabe se aquele magnífico exemplar de homem das cavernas requintadas, sentado na esplanada à beira-mar, absorto na leitura de um romance ou em devaneio diáfano pelas ondas do azul das avenidas, pode, ou não, ser convidado para ver a sua colecção de borboletas. Nunca adivinha se o convidado, mal chegado à sala, vai desatar a vasculhar todo o armário à procura de asas prometidas, deixando esvoaçar por todo o lado a ruiva mariposa da desilusão.

Descobriu para colmatar a tremenda falha um pequeno subterfúgio.

É essencial que a vítima esteja distraída. Solitária e imersa na lentidão que chega num longínquo repouso arrebatado. A tranquilidade, a paz, a beatitude, a placidez e a calma do homem a testar são condições para que resulte a manobra traiçoeira.


Pé ante pé, a Gaffe aproxima-se da enlevada vítima e prega-lhe um susto.

O BOOOOO! tradicional é suficiente.

Se apenas sobressalta o matulão que erguido agora do seu alheamento, com uma voz que chega das profundezas graves da garganta, lhe refere a imbecilidade de o ter feito perder uma palavra do texto que relia embevecido, a Gaffe reconhece o título do romance.


Se dá com o rapaz preso pelas garras ao toldo da esplanada, depois de ter estilhaçado um grito desalmado e de rasgar o horizonte que se avista, a pobre rapariga entende logo que o que é lido não contém, nem para amostra, o fogoso amante de Lady Chatterley.

Resulta - quase - sempre.


29.8.24

A Gaffe Comissária


A Gaffe não tem acompanhado o percurso de Maria Luís Albuquerque, porque tem imenso medo que ela descubra e lhe atice o fisco.

Lembra-se de - era a senhora a ministra das finanças -, admirar incondicionalmente os seus conselheiros de imagem. Não há nada como um trabalho bem feito e neste caso a coisa corria mesmo muito bem. Tão bem que agora Albuquerque é uma Comissária - europeia e não de bordo, mas mesmo assim já é qualquer coisita.
No lugar das melonis deste mundo e das melanias do outro, uma senhora de tailleur pastel e mala gigantesca debaixo do braço, para despertar seriedade; calada, para cultivar a expectativa; com ar sisudo para inspirar confiança; com um penteado vindo do túmulo, para evitar futilidades; sapatinhos semi-rasos para começar caminho e com um colar de pérolas muito discreto, para revelar contenção, é sempre um golpe de mestre.
Depois, trocar de quando em vez os acessórios discretos por outros ligeiramente mais ousados, faz com que o ar caseiro pareça um bocadinho mais cosmopolita. Fica sempre bem.

A senhora granjeará alguns adeptos europeus e embora nos pareça não fazer ideia nenhuma daquilo que quer para Europa - à semelhança de qualquer outro eurodeputado ou comissário europeu ou de bordo -, Albuquerque, ao contrário destes, não diz muita coisa cativando pela reserva com pinta de competência, do tipo eu sei-mas-não-digo, que já ajudou muitos em muitas arenas anteriores.
 
Maria Luís Albuquerque é uma escolha de Montenegro, o que prova às raparigas espertas que uma imagem retro-renovada com uma pintinha sisuda é sempre um passaporte europeu e que Moedas pode perfeitamente sair da sombra do bonsai onde se esconde para se orgulhar do seu recto e do seu retro tão maneirinhos

Parece no entanto que a equipa que trata do allure de Albuquerque, não é a mesma que acompanha o restante elenco governamental.

A Gaffe recorda que não basta a Rangel vestir lindamente – as gravatas são irrepreensíveis – para a convencer. Recorda ainda que Nuno Melo usa um penteado que imita um forte capachinho e tendo em conta que para Nuno Melo, companheiro de luta de Paulo Portas, o tema perucas é como o dos submarinos - quanto mais visíveis, mais se afundam - não é de todo aconselhável trazer na cabeça uma imitação rasca das ditas. Nuno Melo não deve ter muitos amigos. Portas não tinha.

Já Montenegro prova que há claras alternativas ao uso do capachinho. Uma tonalidade L’Oréal - porque merece - apaga algumas brancas - embora deixe grisalha a oposição - e com um heróico, lustroso e negro penteado com rigor de laca e voltado para trás, consegue-se fazer passar melhor a mensagem, desde que a luz não incida directamente na tinta.

A verdade é que o governo actual apresenta um grave défice de bons cabeleireiros e de putativas Comissárias.

No entanto, esta rapariga pode perfeitamente estar enganada. A Gaffe é muito propensa a erros de apreciação, costumando nadar contra a corrente, como prova a sua incapacidade - que deve envergonhar todos os comentadores que tem ouvido -, em ver quem é o candidato branco a presidente dos Estados Unidos.
A Gaffe continua a afirmar a pés juntos que o homem é laranja - alaranjado, vá - e que isso até faz uma diferença substancial.

Branco, branco, branco era o Michael Jackson.

28.8.24

A Gaffe intrigada


O que pensam os homens que fazemos quando estamos sós?

A pergunta é pertinente, mas a Gaffe não pode responder pelos rapazes. Assim, esta rapariga enumera os mais óbvios comportamentos, esperando em simultâneo que os cavalheiros acrescentem o que supõem ser usual uma rapariga fazer no aconchego do seu lar num dia de solidão miraculosa.

Basta, rapazes, que analisem as suspeitas inscritas no que acaba de fazer a sua fulgurante aparição nos vossos monitores. Se não encontrarem a que pensais, é porque precisais de mudar de browser.

Hipóteses colocadas:

1 - Não despe o pijama, não toma banho e passa o dia espapaçada no sofá a fazer zapping e a enfardar açúcar.

2 - Decide limpar o pó aos livros. Enche-se de força, de motivação, de ânimo e de espírito de sacrifício. Equipa-se. Pano do pó, lenço na cabeça, luvas de borracha, escadote debaixo do braço e avental por cima da lingerie. Desiste a meio da primeira estante.

3 - Decide fazer uma mistura exótica para o seu lanchinho e enfia num copo um iogurte com pedaços de fruta, algumas gotas de gin, xarope para a tosse, sumo de ananás, maça esmagada, cereais e uma quadrícula de chocolate. Tritura, prova e despeja tudo na sanita. Come um pão barrado com manteiga e bebe um chá preto.

4 - Espalha uma quantidade absurda de papéis na mesa de trabalho, abre o PC, rodeia-se de livros, canetas, clips e agrafadores e espera a chegada do rapaz para lhe dizer que está exausta de tanto trabalho e que tem de ser ele a tratar do jantar. Experimenta maquilhagem, penteados novos e excêntricos outfits e posa ao espelho a imitar a Monroe.

5 - Bisbilhota o facebook das inimigas que são amigas das suas amigas e decide bloquear as amigas das inimigas que afinal não são suas amigas. Arrasa e esfarrapa ambas.

6 - Pinta as unhas dos pés de escarlate e enquanto elas secam, lê a Caras com muito mais atenção do que seria de esperar. Vai imitando as boquinhas das actrizes até sentir que sofre de paralisia facial.

7 - Lê os e-mails do ex-namorado e percebe que só podia estar bêbada quando respondeu àquela porcaria mal escrita. Vai ao Photoshop furar calmamente os olhos às fotografias onde o homem aparece.

8 - Experimenta os soutiens para confirmar que todos lhe favorecem as maminhas e fica furibunda porque nenhum as faz parecidas com as daAker Ajak.

9 - Descobre que tem de marcar depilação e entretanto vai adiantando o serviço usando a gillette do actual namorado. Coloca-a no lugar, muto direitinha, depois de se ter cortado.

10 Alínea destinada às vossas conjecturas.

A Gaffe pincelada


É fácil meu querido americano! Os Estado Unidos têm apenas de escolher e seguir em frente com um presidente que saiba usar make-up.

Mana

27.8.24

A Gaffe e uma cabana


No imaginário feminino há sempre um cão e uma cabana.

Ao contrário dos cenários que se tocam e se intersectam nesta ânsia mais secreta das urbanas raparigas, a ausência do conforto electrónico não é premissa excluída. O desejo inconfessado de uma longínqua, solitária, perdida e bucólica choupana, inclui agora uma eficaz ligação à net. A falta do restante, partindo do princípio que coabitamos com um moçoilo que preenche todos os nossos sonhos - incluindo os mais chuvosos ou intempestivos -, não consubstancia problema grave. O homem, incluído na cabana que fantasiamos, oferece uma panóplia de iguarias, manjares, guloseimas e serviços que nos dispensa qualquer outra minúcia citadina e mesmo o cão é por ele levado a passear, no amanhecer sumptuoso que se repete incansavelmente só para nós.

A única cautela a ter relaciona-se com a facilidade com alguns homens se confundem com caniches.

Se devaneamos agora desta forma - ao contrário do sonho no passado - com esta peculiar servidão do Pai Thomas, é talvez porque nos tenham feito crer que o amor não interessa e o que realmente importa são os arredores.

Design - khaled sadeden

25.8.24

A Gaffe esclarecedora


A Gaffe pensa que quando um político vem esclarecer uma declaração anterior, isso geralmente significa que o público a entendeu bem demais.

A Gaffe vaidosa


Uma rapariga pode saber que é, nos olhos de quem a ama, a mais esplendorosa das deusas do Olimpo, mas quase sempre requer uma segunda opinião.

Este pequeno defeito, esta minúscula incerteza, esta dúvida constante, esta necessidade de afirmação e de segurança destas raparigas aflitas, confunde-se largas e amiúdes vezes com Vaidade exacerbada.

- Não passam de fenomenais vaidades! – Murmuram tristes, com olhos quase resignados.

Mas o que é a vaidade senão o tique das mulheres que temem a sua própria nudez?

24.8.24

A Gaffe embrulhada


Sem photoshop, sem estudos imparáveis de luz, sem cuidados acrescidos dispensados por batalhões de aderecistas, cabeleireiros, maquilhadores e outras manigâncias essenciais, o que seria do produto que as gigantescas máquinas de publicidade tentam fazer acreditar que é condição imprescindível para a construção da beleza e apanágio da sedução?

Se a atracção animalesca de David Gandy ou se o corpo musculado e definido de Ronaldo - escoado o eterno saloio que tem dentro - dessem lugar à banalidade prosaica do homem da rua, a patética ilusão de que, usando o que eles usam, qualquer rapaz fica a ganhar milhões por temporada ou temporadas de milhões de raparigas ou, caso se trate de moça desatenta, que basta oferecer Armani ao parceiro para partilhar o capital do craque ou enlouquecer com o charme do modelo tombado nu na cama que é só dela, deixaria de surtir o efeito motivador do desejo consumista.


O homem da rua, banal, quotidiano, de barriguinha a despontar e de ameaças de roliços corpos sem ginásio, não é a embalagem com que o marketing inventa a próxima paixão saciada apenas na despesa.

Fabricam-se urgências, ambições, falhas, frustrações, aspirações, cobiças, ilusões, sonhos e lacunas nas vidas dos que passariam bem sem eles, mas que perante o fabricado não resistem a acreditar no que lhes é mostrado e que a felicidade depende daquilo que possuem e que se oferece em troca da compra das cuecas.
O bom uso das embalagens - e neste caso os vocábulos adquirem desvios interessantes -, faz com que, quem as não tem, passe a acreditar que basta possuir o perfeito laço das caixinhas para que o mundo se deslumbre aos nossos pés e que, se não satisfizermos o despertado desejo que constroem, o resto que em nós fica é a humilhação de nos sentirmos iguais aos que connosco se cruzam pelos dias.

23.8.24

A Gaffe com os seus botões


Creio que todos temos na alma um pequeno botão - imagino-o vermelho - que se tocado faz iniciar a nossa muito particular autodestruição. Desconhecemos onde está situado e por isso tacteamos quase cegos tentando que os nossos dedos não encontrem a imperceptível pressão que nos levará ao fundo ou a implodir desfeitos em poeira.
Somos assustados resistentes sem a consciência da ameaça, mas atentos, instintivamente atentos, à procura da sobrevivência.

Se tocado, o botão desencadeia o abismo.

Esbracejamos como náufragos e como náufragos agarramos a fúria de pensar que fomos e estamos inocentes. Tentamos respirar através da culpabilização dos outros. É o nosso pedaço de madeira a flutuar.

Só os Grandes, os que não trazem medida, os que não usam conta-gotas na alma, se apercebem do início do precipício e assumem a consciência do próprio pecado. Sabem que são os únicos responsáveis pela derrocada e retiram os outros das falésias antes de morrer. Ilibam os outros.

Desfazem-se depois, mas sem poeira.
Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe anciã


Escondia-me no minúsculo compartimento, mandado construir por ordem da minha avó, no vão das escadas. Ouvia as mulheres de lá para cá, à minha procura sem muita vontade, cada vez mais lentas, até desistirem e se sentarem a um canto onde mastigavam o silêncio.
Era ali, apertada e abafada, que sentia poder viver naquele sítio para sempre. Subdividia o chão e destinava espaços para os meus brinquedos mais importantes. A luz que escorria das frinchas da madeira traçava no chão do cubículo compartimentos onde seria possível construir histórias independentes. Quase imóvel, movia-me. Os meus olhos corriam desenfreados procurando não perder nada do que se passava no chão. Durante horas brincava sem me mover, sentada no chão, de cabeça pousada nos joelhos.
Por vezes espreito o despovoado que ficou depois do abandono. As tardes da memória voltam outra vez. Aproximam-se voando como minúsculas folhas de papel desenhado que vou colando à toa, sem qualquer critério. Nunca fui uma boa coleccionadora. As estampas da minha infância foram todas amealhadas em parceria com outros que acabavam por ficar com as colecções completas e com a minha anuência. Não sei catalogar tudo o que encontro cá dentro, mas apuro todos os sentidos quando procuro aquela em que o meu avô me encontrou.

Era franzina. Magricela. Tinha olhos transparentes de espanto e timidez e labaredas corajosas no cabelo. Segurou-me no colo e prometeu que me daria um lugar melhor para eu ficar e que seria meu para todo o sempre.

Deu-me a biblioteca.

Sem que eu percebesse, o meu avô iniciava naquele instante a minha aprendizagem literária.

- Lê primeiro os velhos. Não conseguirás crescer se não souberes por onde começar. Ao contrário do que te dizem, os velhos são sempre o lugar de onde partimos. São sempre o início de qualquer coisa tua.

Depois, já mais crescida, envelhecíamos juntos nas alamedas do jardim.
Encostava a cabeça ao braço dele, depois - primeiro o pé esquerdo, depois o outro, depois os olhos, depois os dedos, depois cada palavra pisada no caminho -, íamos envelhecendo o coração.

Mostrou-me Fernão Lopes que mais não disse por ser a verdade, fez-me ouvir os sons das batalhas nos Lusíadas, ouvi o Padre e fui também um peixe, ri-me com Eça dentro do riso que me ia guiando, atravessei países, conheci Cervantes e corri ao lado das irmãs Brontë.

Os Gregos. Os russos.

Os outros velhos por onde me perco por não saber dizê-los.
Assim. Misturados. Como se surgissem à toa e sem critério nos lanhos de luz do esconderijo para que os ouvisse a contar histórias.

Era frágil e franzina. Tinha olhos transparentes de espanto e pequenez e labaredas tontas no cabelo. Ele segurou-me no colo e deu-me o melhor lugar para eu ficar.

Agora é meu e sei envelhecer.

22.8.24

A Gaffe abrangente


A Gaffe do Condottiero


Quando na Praça de S. João e S. Paulo, em Veneza, me deparei com a estátua equestre de Bartolomeu Colleoni de Verrochio, não obriguei a minha vida inteira a ajoelhar-se perante o poderio frio e seguro do condottiero de bronze.
Adivinhava-lhe a imponência clássica do homem que domina falcões luminosos, cães fenomenais e cavalos lendários, deixando a docilidade dos ambíguos arminhos, a alegria pilrritante dos coloridos pintassilgos ou a placidez dos impenetráveis coelhos, nas mãos da fragilidade das mulheres quinhentistas.

Sabia-lhe do quebrar do conceito de frontalidade que fascinava e viciava os clássicos e obedientes mestres da estatuária da época.

Por isso Bartolomeu Colleoni não se impôs, não me escravizou, não me obrigou a gravar no tempo que guardo para a memória, um lugar cativo com o seu nome em bronze trabalhado.

Eu esperava-o.

Só entendi completamente a derrota do Condottiero quando pasmei esmagada, na Igreja de Santa Maria del Popolo, com Caravaggio e a Conversão de São Paulo.

Quase ruinosamente erótico, liberto do traço e da iconografia clássica, o homem pintado tombado, aberto, de carne, arranca-nos a vida de repente e de repente lança com violência a nossa alma no espaço da divinal surpresa que é o Homem.
O humilhado desarçoado pelo cavalo é poderosamente mais tirano do que o gigantesco Senhor dono de Veneza.

Nenhum potentado é dominador inquestionável quando não tem a arma do inesperado absoluto disparada no centro da vida dos incautos.
Gaffe, 2022

20.8.24

A Gaffe numa frase-feita



A nossa vida é um lugar-comum, uma frase-feita numa praça em Veneza. A luz do entardecer humedece a cor do meu cabelo e o chão de pedra cinza entra-me nos olhos.

Construímos a vida com os estilhaços da vida dos outros. Sem eles, longe deles, resta uma praça em Veneza e um cliché.- Posso aiutarla?

Acendem-se os primeiros candeeiros. Se me levantar, caminharei para o centro da Praça e serei previsível. Há vento no azul da Praça e é previsto que o tempo não melhore.

- Posso aiutarla, signorina?

A nossa vida mora dentro das horas dos outros. Sem esse tempo, ficam as garras e a magnitude do perigo que provocamos com a indiferença dos bichos que matam por ser deles a sina de matar.

- Posso aiutarla? - insiste no vento do azul da Praça que o tempo não melhora. Gostava que se calasse ou ter a minha vida aqui, comigo feita, mas são pedaços que tenho e é dos outros o que comigo trago. Eu tenho dentro apenas o instinto de os unir.

- Posso aiutarla?

Não vale a pena olhar. Aceno com a cabeça e ele vai embora. A mesma Praça, o mesmo hotel e eu sem vida.

É previsto que o tempo não melhore.
Gaffe, 2022

19.8.24

A Gaffe apaixonada

The only way to care for Venice as she deserves it, is to give her a chance to touch you often – to linger and remain and return.

Henry James 

Em Veneza cresce a pele das folhas recém-nascidas e a candura da água por onde se filtra a luz que vem de fora.

A minha vida lateja porque trago o seu coração dentro do peito, intacto, por romper, sem dano ou prejuízo. O seu coração impune em vez do meu, a bater no meu corpo, sem temor.

Vou respirar por ti, prometo.
Meu Amor, minha cidade de pele de luz e folhas a nascer.
Gaffe, 2022

18.8.24

A Gaffe corroída


Veneza é uma cidade corroída.

A corrupção é muitas vezes obra de um deus cansado ou enfurecido e, quando assim o é, a corrupção seduz as pobres gentes.
La Serenissima invade o imaginário dos ausentes, mas incute também naqueles que a povoam a sanha do sonhado.
Veneza espera que pertençamos ao devaneio das pontes, dos canais, dos ângulos escuros das vielas por onde lâminas de luz são projectadas e das gôndolas negras como caixões de fado.
Veneza é triste como dois amantes que nunca se encontraram, mas que se deitam juntos e que não sabem que o amor é muito mais que o ocre da cidade.

Seduz-se Veneza pelo enigma. Não basta ser um homem nas escadas do Palazzo, é preciso que o homem traga histórias por contar, raras e densas, presas nos olhos ou percebidas no modo como alonga a alma pelas pedras. Veneza exige aos homens narrativas.

Veneza gosta apenas das mulheres.
Fotografia do meu querido Biskamp
Gaffe, 2022

17.8.24

A Gaffe numa canção


Não amo estes amantes de Veneza. Não sei de noivas brancas no rendilhado dos bicos que se arrastam ao som de melodias pagas de antemão. Mas sei dos gondoleiros maliciosos, de fácil compra e troca de favores ou sei de apenas um, que se curvou em vénia desenhada ao meu passar na ponte onde passava a gôndola.

- Bella principessa, non vi piace questo povero uomo?

Depois sorri à espera de não ser percebido. Um sorriso à venda já sem venda que sei trocar palavras.

Não amo os amantes de mãos dadas a Veneza.
Percorro as ruelas da cidade e vejo em que em cada vértice de luz as promessas de corpos encostados, mas há a densidade dos azuis das sombras e entra-me na alma a humidade do interior das pedras desoladas.

Que c´est triste Venise
Au temps des amours morts
Que c´est triste Venise
Quand on ne s´aime plus

On cherche encore des mots
Mais l´ennui les emporte
On voudrais bien pleurer
Mais on ne le peut plus

Que c´est triste Venise
Lorsque les barcarolles
Ne viennent souligner
Que des silences creux

Et que le cœur se serre
En voyant les gondoles
Abriter le bonheur
Des couples amoureux


Não gosto dos casais enamorados que vejo a flutuar nas praças nupciais. Parecem-me saídos de caixas coloridas de cartão. Não entendem a subtil presença da cidade e o esconso perigo das ruas moribundas. Amam-se e basta, como se esse amor afugentasse os sinistros murmúrios das esquinas, os lanhos de luz por entre as pedras ou as retalhadas e frias manhãs dos pátios sem abrigos. Amam-se como se a cidade os protegesse, quando Veneza é uma mulher apenas a trair ou um rapaz com olhos de vitral quebrado. Amam-se como se não houvesse nenhum tiro no escuro, nenhum velho a passar seguido pela morte, nenhuma ponte podre, nenhuma janela aberta como ferida, nenhum tempo passado a corroer as vigas de um Palazzo.

Veneza é arma branca, corroída, e não o idílio de um lençol estendido.
Gaffe, 2022

16.8.24

A Gaffe de Gôndola


Pela 1ª Via, saio do Rialto, labirinto espinhoso, de finas e estreitas ruas quase em penumbra corrompido, esgadanhado em ocre e em laranja enferrujado. Casario encaixado em sombras súbitas onde os riscos de luz parecem prostitutas nos vértices das esquinas.

Saio do Rialto pela 1ª Via e entro no equilíbrio dramático da Piazza di San Marco, diante da boca do Grande Canal.

A luz é doirada e há poalha húmida a pousar nas pedras. A Praça é de murmúrios. A harmonia de fio-de-prumo impede o vozear das gentes.

A minha irmã fala-me da deslumbrante cadência da mescla arquitectónica da Praça. Discute o Simbolismo, o Magmatismo e o Genius Loci e aponta-me as colunas de Nicolo Barattiero, na Piazzetta, erguidas por ordem de Sebastiano Ziani, o Doge de que não sei contar a história e que ela sabe.

Não a ouço.

Vejo-a pela primeira vez a sorrir sem hesitar, dócil numa cidade que a conquista passo a passo. Parece um pássaro na Praça de outra parte e isso agrada-me.
Sentamo-nos numa das pequenas esplanadas da Piazzetta, abrigadas da manhã e do miúdo vento ainda sem corpo, mas que lhe toldaria o cabelo, se não preso. Os olhos pardos engolem a cor das pedras e da água, como se Veneza compulsiva não conseguisse deixar que o seu reflexo ficasse impune no olhar de quem a vê.
Na Piazza di San Marco, numa manhã de cor doirada, a minha irmã sorri, desfaz o lenço que traz ao pescoço e da carteira Kelly, cinzenta quase negra, retira o vermelho sangue do perfume e crava no punho quase o nome dela, Rush. Agora tem Veneza no seu pulso, que a cidade já lhe tomou o resto.
É através desta mulher que eu obedeço à vontade de La Serenissima. Visto Dior em preto, cintado e justo fato de colecção recente e trago gola subida de Cerruti.

Não sofro. É-me indiferente esta vassalagem mansa ao incontornável allure desta cidade. Veneza e a minha irmã, suseranas senhoras da minha vontade.

- Ficas muito bonita quando me deixas escolher o que vestes.
- Estou só mascarada. Mas se te agrado, aqui me tens na gôndola do inútil.

Sorri mais uma vez. Mistura os dedos nas pérolas antigas do colar e sussurra demorada:

- As gôndolas inúteis são as que nunca nos atravessam o corpo, minha querida.

Depois afasta-se de mim e aponta com os olhos já de lâmina o homem que deseja e que nos segue desde o início desta manhã na Praça.

Fotografia - Ernst Haas, 1955
Gaffe 2022

15.8.24

A Gaffe na livraria



Ouvimos a água, folheamos livros, debicamos palavras e percebemos que podemos ser felizes com algumas lágrimas e outros sorrisos, desde que os façamos correr nos carreiros da inteligência.

Alta Acqua é a minha mais recente descoberta.


Gosto tanto de lugares que fazem com que as palavras sejam como contas de colares de lágrimas ou caminhos de água!
Gaffe, 2022

14.8.24

A Gaffe e a cidade


A mulher de cabelo preto e mamas fartas abre a janela e vomita a colcha vermelha com flores bordadas a laranja. Tem lábios escarlate e o peitilho do avental cor de açafrão. Sorri. Vejo-lhe os dentes brancos e a luz dos olhos derrubada no parapeito de pedra.

Esta é a cidade que traz mulheres fartas, roliças, avultadas, de cabelos negros e lábios ferozes, à solta nas ruas. Exibe-as, como se exibem rosas ou rezas vendidas ou como se delas dependesse o pão que passa quente nas mãos dos rapazes de branco em frente do Palazzo.

Esta é a cidade em que abro os braços. Em que um rapaz me persegue pela tarde e que sorri quando eu o olho e que me foge sempre que sorrio e que me surge depois numa outra rua, de mãos nos bolsos a exibir o impudico olhar esverdeado.

Esta é a cidade onde palmilho ruas e onde em cada rua sou perdida e onde em cada esquina o meu corpo é lavado com a água do olhar garrido das mulheres e a alfazema que é o cheiro dos rapazes, presos por pestanas ao meu dardejar.

Esta é a cidade onde desço a noite pela luz soturna que se beija à toa no vão duma porta.

Esta é a cidade onde uma mulher de cabelo preto, de lábios carmim bordado a laranja e um rapaz que morre abandonado no vão duma porta, vermelho por dentro, nos atiram as colchas das frases dos olhos e nos falam do deslumbramento e da ferida que é saberem-se belos.

Ilustração - Daniel Merriam
Gafffe - 2022

11.8.24

A Gaffe dos guerreiros


Salvaguardando o meu direito de escrever tolices, suponho que o latim se preservou mais facilmente e sem grandes solavancos nas regiões limítrofes do Império. Roma, a capital do gigante, promoveu, aceitou e modelou as alterações à língua de modo natural, dinâmico e acelerado, enquanto os seus longínquos destacamentos se mantinham fiéis à velha guarda.

A distância possibilitou a preservação.

O facto de Edimburgo, ou outro qualquer centro urbano, ficar muito distante dos recônditos lugares das Terras Altas, permitiu, por exemplo, que as tradições, os costumes, os conceitos, as lendas e os rituais, permanecessem sem alterações significativas e que se reproduzam hoje bastante próximos da origem.  

Admito que de lendas, rituais, costumes e tradições tinha eu estantes preenchidas antes de partir. Admito que, pecaminosa e fútil, desdenhei um conhecimento mais profundo dos meus anfitriões. Reconheço que me estava a borrifar - ou nas tintas, como vos aprouver -, para a carga simbólica de uma determinada narrativa mais rochosa ou de um enunciado mais esotérico eivado de pepitas de paisagens místicas e míticas.

Dediquei todo o meu inútil tempo à mais profunda superficialidade, à mais descarada das preguiças - a que nos faz apenas mexer os olhos - e à mais vergonhosa - mas maravilhosa -, das actividades lúdicas: fazer de conta que não se existe enquanto se espreita a existência dos outros.    

Em consequência, sentava-me num banquinho deselegante e assistia a um torneio.

É realmente impossível de descrever.

As cores - mesmo as que não existem e que se inventam ali, porque hoje é festa -, os gritos fabulosos de incentivos galhofeiros, as malditas gaitas, os tambores a rufar até ficarmos todas com as maminhas a vibrar, a extraordinária felicidade a estourar por todo o lado, a radiante vontade de viver, um entusiasmo contagiante, as bebedeiras monumentais, o rodopio das gargalhadas, as bandeiras, os estandartes, os porta-estandartes, os postes dos porta-estandartes, os abraços a torto e a direito e até canhoto, as cantigas soltas em sotaques velhos e tudo mais que não se diz, que não sabemos, faz-nos sentir arremessadas por um tufão de alegria que empurra para ombros vencedores os que caíram depois de lutar com todo o corpo.

Maravilhoso!


 Voam estafetas; saltam medas de feno; agarram em medas de feno; agarram em barris de madeira, um em cada mão; agarram em lenhos brutos que serram; agarram em bolas de ferro que arremessam depois, em paus, em picaretas, em pás, em tudo o que servir por ser pesado; penduram-se em ferros; baloiçam em cordas; puxam cordas com blocos de pedra amarrados; atiram pedregulhos; lutam uns com outros; correm, correm desalmadamente, correm como se disso dependesse o extinguir do Brexit e fazem tudo isto e mais que se me escapa por ser tão muito, revelando a cada passo e cada salto, a cada pincho, a cada sopro, a cada arremesso, a cada queda e a cada descanso do guerreiro espalhado na relva, os segredos dos Kilts:

Os kilts são usados sem cuecas!

Do meu banquinho inocente nunca vi tanta pila aos saltos.

 Eis que se destrói a dúvida que parece nunca ter pertencido às robustas escocesas que ao meu lado aplaudiam muitíssimo entusiasmadas sempre que uma piloca se esbandalhava à frente dos seus incentivos. Fizeram-me compreender que, ao contrário do que seria de esperar, não interessava um pirolito quem ganhava ou quem perdia - nem sempre o vendedor era o aclamado -, mas o modo como a pila do guerreiro esvoaçava, o ângulo em que a dita se pespegava nas nossas vidas tão competitivas, na quantidade de rabo mostrado, nas proporções e equilíbrio - ou ausência dele - das que me fizeram divertir ainda mais do que as mocetonas escocesas já causticadas e no tempo que levavam a ser cobertas pelo tartan traiçoeiro.

De todos os jogos, o mais popular, o meu favorito, e o que mais alarido provocou, era o que obrigava os homens de um clã a puxar uma corda grossíssima onde na outra extremidade o clã rival dava tudo o que podia para os derrubar. Não era de todo o mais espectacular, mas era ali, com as botas fincados na terra, rabo assente no chão, pernas abertas e braços estendidos de músculos retesados, que os rivais deixavam que o público visse todo o poder, toda a valentia, toda a força e todo o material de que eram feitos.

Até eu, que sou tão avessa a este tipo de competição, escolhi, bem no meio de todos, o meu maravilhoso perdedor.

Gaffe, 2023

10.8.24

A Gaffe convertida


Vi, passaram já alguns anos, no auge dos U2, uma imagem de Bono Vox que me surpreendeu.

Bono, ajustado ao pescoço, ostentava um colar de pérolas pequenas.

É provável que tenha sido a mãe do rapagão que não tendo tempo para as usar e sabendo que as pérolas têm de estar em contacto assíduo com a pele para evitar a deterioração, lhe tenha suplicado aquela fineza, mas a imagem, por inusual, causou alguma estranheza até perceber que aquele adereço quase exclusivamente feminino, acentuava significativamente a masculinidade do portador que indiferente mostrava o que valia, suado e rouco. A fragilidade das pérolas, a brandura subtil, a fiada de discrição, a elegância e a insinuação feminina contida no branco, marcava e destacava a virilidade onde tinha pousado.

Bono nunca foi tão macho.

Se um discreto colar de pérolas, que se destina na origem a pescoços femininos, pode e é capaz, quando usado por um homem, da proeza de lhe acentuar as características de género, é bom de ver que um Kilt, mantendo eventuais e muito discutíveis pontos de contacto com um universo feminino - mas desde sempre pensado e talhado para uso de um macho -, pode operar milagres na única área que nos interessa - que se danem os castelos em ruínas e as inscrições gaélicas nos pedregulhos escorregadios.

É curioso verificar que esta peça - tantas vezes arremessada por dichotes e piadolas de petizes, imberbes, homens de outros lados, homens que se se disfarçassem de Batman iriam parecer freiras carmelitas e meninas com uma nail com bolinhas e outras de cores diferentes, que insinuam uma oscilação de cariz sexual ou ridicularizam as pregas que nunca vincarão com a unha do polegar, pois que não o têm oponente -, coadjuva de tal modo o homem como a tão celebrada gravata regimental, os botões de punho reservados, ou as peúgas pretas dentro dos monk strap.

O brevíssimo e enganoso vislumbre de um imaginário feminino povoado por saias de colegiais inglesas que um kilt provoca nos mais débeis que se riem imenso, é esmagado pela imposição de uma virilidade indiscutível, de uma masculinidade entranhada e de um vigor másculo de tal forma evidente, de tal modo acentuado que nos faz perceber que os papalvos críticos e engraçadinhos que se orgulham das calças que usam sem saber porquê, desconhecem até os outros processos de tapar a pila.

O hábito pode não fazer o monge, mas um Kilt - valham-nos os deuses! - converte uma infiel e convence a rapariga a ir às missas.  

Gaffe, 2023

8.8.24

A Gaffe de Kilt


Para uma rapariga esperta as saias, usadas pelos rapagões que verdadeiramente interessam, são todas do mesmo comprimento. São aquelas que só depois de despidas lhe revelam o carácter do tecido, a qualidade da textura, os atributos do desenho e o cair de quem as veste.
Gaffe, 2023

5.8.24

A Gaffe faz um interregno


E é chegada a hora de declarar oficialmente o início das minhas férias.

Amanhã - porque segundo a minha irmã estou anémica, depauperada, esfarrapada e outros tantos piropos que não convém referir, pois que me reduzem bastante -, aterro, repetindo-me, num dos locais mais repousantes do planeta, longe do trepidar cosmopolita, das urbes demasiado povoadas, da poluição das multidões e perto do gado e das ervinhas e dos declives bucólicos e românticos e dos desfiladeiros sinistros e das paisagens ligeiramente soturnos e sinistras.

Ou talvez não, pois que é a mana que desenha o plano.
 O certo é que se tornou imperioso o meu descanso.

Estou proibida de tocar num teclado, de me asfixiar em luminosidades artificiais e de me aproximar de qualquer coisinha que suscite o mais leve apetite de estremecer ou de me entusiasmar.

A ameaça de pasmaceira paira sobre a minha cabeça onde até o cabelo - diz a minha irmã -, parece ter sido disparado na I Grande Guerra, porque a outra é mais moderna.

Em Agosto sinto-me sempre um caco.

A verdade é que vou ter mais de duas semanas para espairecer, refrescar, recarregar o meu tédio - tão útil quando me aflijo! -, e recuperar o meu cabelo e a minha cor.

É evidente que darei notícia da viagem, embora suspeite que não haverá grande coisa digna de registo, já que passarei despercebida tendo em conta que o lugar por onde me vou espreguiçar é dono de uma infinda e indecifrável tristeza, que não parece latina, embora o seja.

Uma maçada sem distracção ou entretenimento a não ser aqueles a que me dedicarei - pois com certeza -, quando o vento soprar com força nos meus desejos nunca recomendáveis.
 
Volto já.

4.8.24

A Gaffe de Ginger Rogers


Para o espectáculo de Joaquín Cortés - há imenso tempo, pois que o homem já não foi para novo -, a Gaffe exigiu ficar na fila da frente, a um palmo do bailarino de forma a mais facilmente lhe observar os arabescos flamencos e o rabo.

O homem de tronco nu arrebatava e todas as vezes que batia com os tacões no chão era o coração desta rapariga que esmagava.
Numa das suas piruetas suadas de latino insuperável, soltou-se o cabelo preso de Cortés batendo-lhe na cara. Neste movimento de chicote dramático a Gaffe sentiu que tinha sido atingida por salpicos de suor. Pode não ter sido nada, mas esta doidivanas é perversa. O seu rosto pálido de hipnotizada tinha sido tocado pelo portento!
Embora este milagre tenha ficado ligeiramente diminuído pelo facto das supostas gotículas do deus lhe terem atingido um olho, a Gaffe pensou que iria levitar a qualquer instante. Segundos depois a cruel realidade assassinou-lhe o êxtase e a Gaffe decidiu lavar a cara, toda enojada.

Este episódio, misto de esoterismo e de WC, levou-a a encarar a dança como um meio revelador e implacável da personalidade masculina.

Ao dançar, os homens descobrem-se.

O leque é vastíssimo e a Gaffe só frequenta comemorações BCBJ, mas há denominadores comuns em todo o ritmo.

A Gaffe não se refere àqueles que acreditam ser o cruzamento - respeitável e legal - entre Gene Kelly e Fred Astaire. Normalmente fazem com que nos apeteça imitar a Duncan, partindo no descapotável a uma velocidade estonteante, preferindo a fatalidade esvoaçante do lenço Hermès a ter de assistir à performance do anjo do Apocalipse.

O primeiro foco de atenção é o homem que dança como se estivesse a ser vítima de uma experiência religiosa ou que anda a fumar o que sobrou de Woodstock. Fecha os olhos, ergue a cabeça, fica os pés no chão e oscila. Se abanar os braços que pendem desossados, significa que o ritmo lhe agrada particularmente. São homens que de uma palavra nossa, por mais banal e inofensiva que seja, conseguem dissertar durante longas horas, citando ao mesmo tempo Sartre, Nietzsche, Kierkegaard e toda a colecção RTP de bolso, acreditando que não nos apercebermos da saliva com que cola as citações. Crêem seriamente que o amor é uma catarse e que deve ser vivida no interior de cada um de nós para extravasar no palco do nosso desespero. Nunca acertam nas deixas e deixam que todos os lances em que contracenam pareçam escritos pela barata de Kafka. Geralmente ficam sozinhos no fim da noitada a ruminar o sentido da vida e a acreditar que somos parvas por termos desatado a fugir ao ritmo do samba.

Há depois os homens que ouvem coisas.

Se a pista se move ao som de Viena, agarram a parceira ao ritmo de Presley. Se o swing permite pensar duas vezes, agarram o chão num bater de blues. Se o compasso é ternário, arranjam maneira de o fazer depois. Nunca acertam e por nunca acertarem os mais ladinos arranjam modo de simplificar compassos, dançando sempre o mesmo. Normalmente usam-nos como balança. Controlam o peso, calcando-nos. Pela intensidade dos nossos gritos percebem se engordaram.
São homens que nos chegam a conquistar pela incapacidade total de intuírem os nossos desejos, mas raramente chegam a horas aos nossos corações, porque supõem que é o fígado que nos comanda os humores. São quase todos doces por ingenuidade e encantadores por distracção. É fácil vê-los rodeados por mulheres que se sentem seguras com a ausência de perigo eminente.

Há também os pequeninos. São óptimos bailarinos ou então comentadores de um canal de televisão.

A Gaffe tem de admitir que está cansada de fazer bailar os dedos pelas teclas. Abandona o baile por findar e promete voltar à dança quando lhe aprouver e a música for do seu agrado ou quando conseguir decifrar o homem mais estranho e mais complexo da pista das suas noites debutantes.

Aquele que não dança.

3.8.24

A Gaffe na jogatina

A Gaffe, perita nestas andanças de carácter eminentemente científico, decidiu investigar as taras masculinas.
Tendo em conta que acabamos sempre reduzidas a três ou quatro estereótipos, recorrentes e muito populares, a tarefa não se afigura complicada, requerendo apenas meia hora de dedicação.
Após reunir os dados e se ver circunscrita àquilo que parece ser comum ao imaginário erótico masculino, a Gaffe está pronta a enumerar os jogos eróticos preferidos dos rapazes.

O jogo da Colegial

Muito simples e o favorito dos homens mais maduros que vestem calças cor de morangos com açúcar e balzer assertoado com botões dourados. É também muito popular entre os Nabokov de pacotilha que sentem que se vestirmos uma saia de pregas pelo joelho, blusa com gravata regimental e calçarmos meias altas e sapatos masculinos, somos Dolores e os transformamos em Jeremy Irons. De fácil controlo, este jogo funciona mal com casais que já comemoraram as bodas de oiro ou quando a Lolita saiu de um bairro problemático e decide usa a o material de geometria no rabo do seu mentor.

O jogo da Enfermeira

Muito profilático. Exige algum cuidado no manuseio dos adereços.
É o favorito dos homens que tiveram uma relação conflituosa com a mãe, que carecem de protecção especializada e que sentem que podemos substituir na perfeição a megera que não lhes cuidou do dói-dói. Funciona lindamente se o rapaz não suplicar que lhe meçamos a temperatura como a medimos aos bebés. Nestes casos, convém anestesiá-los.


 O jogo da Serviçal

O favorito dos sindicalistas e dos rapazes com um nível de testosterona muito higiénico. Não é aconselhável a quem trata os criados com um humanismo retrógrado e piedoso e não como trabalhadores no exercício da sua actividade profissional, com diz, e bem, uma qualquer criatura desfraldada.
Funciona lindamente quando urge retirar as teias de aranha em locais relativamente afastados do cérebro e o pó que se acumula em coisas abandonadas. Causa algum transtorno quando a serviçal decide usar o cabo da vassourinha nas esquinas mais esconsas do patrão.

O jogo da Professora

Que pode desembocar no jogo da Bibliotecária

Convém que a mulher tenha um livrinho à mão enquanto o rapazinho faz os trabalhos de casa. Sempre vai rentabilizando o tempo. É o jogo preferido dos homens sem qualquer tipo de autoridade, mas que acreditam quotidianamente que trazem o rei na barriga. Por norma sofrem de pseudociese ou então a gravidez é ectópica.
É o jogo que permite com mais facilidade atribuir um castigo o que é visto com agrado sobretudo pelas docentes.

A Gaffe confessa que não é apreciadora destas brincadeiras. A única em que participou, já lá vão anos, mal se aproximava das enumeradas. Foi o jogo das escondidas. O rapaz propôs esconder-se todo nu num recanto qualquer e só aparecer quando a Gaffe o chamasse. A Gaffe aceitou.

O rapaz ainda lá está.

2.8.24

A Gaffe selada


Não creio haver nada de especial em todas as cartas que escrevemos.

As de amor são ridículas, pelo que dizem. Estranham-se umas, depois vão-se entranhando. Outras entranham-se mesmo sem estranheza. Esquecem-se outras mesmo antes de se rasgar o envelope. Existem as que não sendo abertas, estão já lidas e há ainda aquelas que, embora a nósremetidas, parecem ter sido escritas para que a posteridade as conserve e leia.

Acredito que estas últimas sejam as piores. Trazem o mofo do tempo que querem ver passado.

Há, no entanto, as cartas que não jogam com palavras. Não são cartas de jogar. São cartas de verdade. Ridículas, portanto, porque a verdade é quase tão ridícula como o amor.

Jane Austen escreveu várias a Cassandra num século e num lugar em que era bem difícil ser-se ridículo e a cumplicidade, a simbiose e a estranha compreensão mútua, surgem no modo com que Jane mancha o papel, escrevendo nas margens, escrevendo entre as linhas, escrevendo sobre o escrito, escrevendo voltando e revoltando o papel. Preenchendo tudo, como se nada mais houvesse para dizer depois ou como se tudo tivesse de ficar unificado.
O documento resulta quase uma espécie de palimpsesto e, no entanto, Cassandra, do outro lado, reconhece, no instante em que Jane a dobra para a enviar, o lugar exacto da assinatura da irmã.

Estas cartas, Senhor, são como pão.

Na imagem - carta de Jane Austen a sua irmã Cassandra, 8-9 Fevereiro de 1807 - Southampton

A Gaffe de facto


Enquanto que o calor que se faz sentir favorece as raparigas espertas que sabem tirar partido dos tecidos que esvoaçam e se transformam em pequenas ninfas suadas a saltitar de perfume em perfume, é altamente lesivo para os homens que estão obrigados pelas convenções a usar um fato.
Um fato, mesmo um de linho charmoso e ligeiramente amarrotado, no meio do calor é um teste implacável à capacidade criativa de quem o usa, porque implica sempre uma adaptação, uma reformulação, do conceito de clássico e até mesmo do discreto, que nem todos os homens são capazes de operar.

Uma rapariga esperta jamais colocará no rol dos elegíveis um homem que se empacota e se asfixia num fato que o faz resfolegar e se aproxima da apoplexia com uma gravata que, por muito Armani que seja, não o faz parecer o cartaz da colecção de Verão do criador.

Há que desmanchar, desestruturar e reformular.

São sempre excitantes os homens que usam fatos e T-shirts de cores indefinidas de tão caras, e que nos mimam com um convite para jantar num restaurante que nos comeria numa noite, se fossemos nós a pagar a conta, a verba destinada a dias difíceis - a esses também, porque uma rapariga atravessa essas ocasiões deprimentes com visitas programadas a todas as lojas do centro de Paris -, com sandálias de couro fino - assinadas ou não, que isto de ultrapassar as marcas sempre foi difícil para os rapazes.

São sempre irresistíveis aqueles que permanecem fiéis ao clássico sabor do fato de outras eras, mas que lhe oferecem a transgressão cuidada do inesperado, porque são homens que sabem desmanchar a rigidez de uma convenção e se transformam em charme puro e duro, capaz de amolecer uma pobre e indefesa rapariga que de pura tem apenas o que se lembrar ter na ocasião.

1.8.24

A Gaffe quase LEGO


É uma maçada uma rapariga ser obrigada a pensar, depois de ter lido artigos inteligentíssimos relativos aos trabalhos dos novos deputados do Paramento Europeu. Noblesse oblige e o jornal dedica-lhe prazenteiro artigo ilustrado proficuamente com fotografias dos ditos.

A verdade é que seria muito mais fácil deixar que o vento deslizasse por entre as faldas e as fraldas da montanha que um ratito conheceu biblicamente, mas o certo é que uma menina cuidadosa não pode permitir que a estação passe sem que a sua brisa se faça sentir ainda que leve, levemente como quem chama por si.

É um aborrecimento fazer de conta que ignorámos que um político, ou um voluntário a tal em nome da plebe, insinua com uma imagem - física, fotografada, visualmente palpável - as suas ambições eleitorais. A representação tem um poder de conversão significativo e cria e recria um elo de ligação, uma espécie de relação pessoal, entre o eleitor e o candidato.

A imagem adquire uma natureza representativa - paternalista? -, que sendo ao mesmo tempo uma supressão da linguagem, se torna consequentemente apta a enformar uma arma capaz de se escapar a um corpo de problemas e de soluções, para dar relevo a um modo de ser, a um estatuto social e mesmo moral.
A imagem do candidato é em consequência um provável assalto do irracional ao espaço que em princípio deverá ser o da racionalidade.

Desta forma, a juventudo de Bugalho ou o dentito de Temido - enfim, a imagem de marca de qualquer político -, não consubstancia, de todo, o seu projecto, declara apenas o seu móbil, as suas circunstâncias físicas, mentais e até mesmo eróticas, o ser que ele é, o produto, o exemplo, o isco.

É mais do que evidente que a esmagadora maioria dos políticos nos dão a ler na sua imagem apenas as normas - sociais, mentais, morais -, a que obedecem, mas convém acrescentar que essa mesma imagem impõe uma cumplicidade, porque nos permite ler o que nos é familiar, o que nos é conhecido, propondo-nos, em espelho, a nossa própria imagem, enaltecida, sobrevalorizada, transformada em convite para que nos elejamos a nós, através dos que a revelam. Entregamos um mandato a quem nos concebe uma verdadeira transferência física.

É evidente que a juventude de Bugalho – ou a circunspecção de Assis -, permitiu uma visualização, uma majoração, de valores que tantos consideram essenciais. É evidente que estabeleceu uma cumplicidade visual com determinado grupo, mas não é suficiente, mas não autoriza a certeza de uma posterior e intransigente defesa desses mesmos valores. Não é um ideal político explanado, não é uma ideologia, não é um projecto, não é um plano, não é um programa. É um homem que vestiu uma determinada idade, contra o aparente bom senso, que, nestes exactos e precisos casos, funciona como defensor acérrimo de um mundo homogéneo, ao abrigo de perturbações e de fugas. Um mundo replicável.

Seria interessante que, ao contrário do usual, os futuros eleitos nos surgissem como coisinhas por montar - muito Ikea, quase LEGO. Os eleitores escolheriam as que queriam ver montadas.