11.12.25

A Gafe e a mutação das algemas

Na minha família, as mulheres gostam de pérolas. Usam-nas com frequência. Transformaram-se, as pérolas, numa marca de pertença de grupo. Oferecem-lhas quando nascem ou quando se torna inevitável a aprovação de um elemento feminino exterior à tribo claramente matriarcal. Usam-nas como elemento identificativo que lhes permite vaguear de forma mais liberta pelos corredores apertados e sempre vigiados, construídos pelos mais elevados e cerrados interesses do conjunto. Há sempre pérolas nas mulheres da minha família. Herdadas ou seleccionadas meticulosamente pelas minhas avós que se tornaram hábeis e doutas nesta escolha, porque aprenderam com gerações antigas. São fáceis de encontrar por todo o lado, presas aos corpos das mulheres, como inevitável marca a ferro e fogo.

Aos rapazes, aos mais jovens, que os velhos homens da família não precisam, decidiram também oferecer pérolas. São botões de punho.

Há que algemar também os transgressores.

10.12.25

A Gaffe ajuíza


Os tímidos são a mais encantadora forma de uma mulher sentir que domina. Pode não ser real este controlo, mas a nudez de um tímido fá-lo sentir um réu e nada há de mais assustador do que ver julgada a nudez tendo como juízes os olhos de uma mulher.

A Gaffe de noite

A noite é uma árvore.

É chegado o tempo em que as raízes petrificam de cansadas. A seiva em escultura.

A noite é outra coisa que não eu? Não há razão para não o ser, mas as razões são o acaso que invade o território sem qualquer pudor. Chegam como se tivessem uma história onde não entramos. Uma história que pode ser contada sem nós. Uma história exclusivamente delas, onde a nossa mudez está na garganta, definitivamente na garganta, e não no lugar onde nós somos. Eu e noite temos secretos recantos onde a minha voz se ouve claramente. Os olhos da noite rastejam dentro da minha voz. Um pacto em que a noite deixa mortas as palavras corrompidas e eu aceito esse abandono como uma oferta inevitável.

9.12.25

A Gaffe e uma moeda


As raparigas estão sentadas lado a lado.
A diferença de idades é irrisória.
Possuem o mesmo tipo físico. Os genes aproximaram-nas, fornecendo a ambas a estatura alta e corpulenta, cabelos longos e aloirados, mãos de gigante, maciças, quase brutas e a amplitude dos rostos, claros e serenos.
Comportam-se da mesma forma, indiferentes a tudo o que não passa pelos aparelhos que ligaram aos ouvidos e barraram as hipóteses de comunicar, a não ser quando sentem o vibrar curto dos telemóveis caros. Nessas alturas, retiram os fios que as ligam ao som dos aparelhos e substituem-nos pelo objecto preto por onde vagamente se faz notar a voz que as quer ouvir.

Uma delas não tem história.

Usa, ao contrário da outra, que a prendeu com um gancho banal no cimo da cabeça, uma repa que lhe esconde os olhos. Os lábios carnudos, apagados, e a lentidão do gesto que torna nítido o peso de cada movimento. Baça, passa despercebida.

A outra, de madeixa presa por um gancho no cimo da cabeça, mostra as insolentes sobrancelhas em arco definidas e nos olhos percebem-se desafios ainda desbravados, incipientes ou por aceitar. Tem a boca ligeiramente maior e mais desenhada. É fácil mostrar desdém com bocas assim recortadas. Basta uma inclinação ou um breve empurrar dos lábios que de súbito se fecham com mais força e dispara o desprezo.

As duas, lado a lado, são idênticas e, no entanto, se a vida as ferir ao mesmo tempo, sei que apenas uma delas se tornará maior do que a chaga. A dor acabrunhará apenas uma. Cuidará da ferida aberta com desvelo e haverá lamentos e choro interminável. A outra, a de insolentes sobrancelhas, agarrará os cornos do que vem e a cicatriz que depois ficar do embate será adicionada a uma história imperceptível que produz o indizível fascínio das mulheres que subitamente domaram o que na dor restou.

Talvez seja este um dos mais intrigantes mistérios da Beleza. Se quando em nós a Dor sentida se traduz em história que desbrava histórias nos que subitamente a olham, então no bicho pardo, lamacento e nulo em que se abriu a ferida, cresce a estranheza de o reconhecermos Belo.

7.12.25

A Gaffe amadurecida



O charme brutal de um homem maduro passa sem hesitação pela capacidade de tornar evidente a inteligência que possui. Nestes casos, torna-se uma ocorrência séria uma rapariga esperta encontrar a imensa capacidade de sedução que reside no extravasar nítido do que é eminentemente claro: o charme é a inteligência que transborda como se fosse um dos melhores unguentos para manter a pele em forma.

A capacidade inconsciente de tornar perceptível toda a sua experiência de saber feita, alquebra todas as nossas resistências e faz-nos perceber que conhecer um homem, não é apenas saber-lhe o nome quando acordamos com ele ao lado. 

6.12.25

A Gaffe troiana


Quando o invasor - mesmo troiano e de disfarce equino - é alheio a nós, basta que haja, ali ao nosso alcance, a tecla da matança, que o vencemos. Mas quando é de nós que chega o invasor e é por nós - e em nós - que é disposto o cerco, não nos basta conhecer o exército que somos, é necessário saber montar cavalos de madeira e ter ao mesmo tempo nas nossas mãos que os erguem, o fogo para os queimar.

5.12.25

A Gaffe das coisas pequenas


Creio que se perdeu a leveza da sinceridade amável, inofensiva e espontânea, aquela que surge solta sem querermos, involuntária. Acabou por se tornar apenas a garra com que se raspa o chão que ainda dá uvas. Chega premeditada. Seleccionamos o que de simpático devemos dizer com a lupa e a pinça do interesse e de uma eventual contrapartida. Somos amavelmente interesseiros. Elogiamos a capacidade de trabalho do colega, a assertividade da secretária, a iniciativa inteligente do amigo ou a predisposição para o sucesso do parceiro, sobretudo quando nos dão, ainda que vaga, a possibilidade de nos deitarmos à sombra, sabendo que o sol do meio-dia de um Verão tórrido é para os que elevamos aos píncaros.
Perdemos aos poucos a fragilidade do encanto mais banal. Vamos ignorando o que vemos pequenino. Deixamos de ser deuses das pequenas coisas. Esquecemos as pestanas longas, pretas e densas do homem que passa. Ignoramos as mãos esguias que se movem como pombas da rapariga da confeitaria. Não vemos a timidez de diamante do rapaz que nos entrega a revista que pedimos. Perdemos a oportunidade de tocar nas asas da mulher que passa com elas fechadas. Nunca dizemos a alguém que tem as clavículas como baloiços de estrelas. Somos senhores apenas dos grandes elogios.

Talvez seja por isto que é ignorado que há sorrisos banais que unem galáxias.

4.12.25

A Gaffe cumplíce



Talvez se nos deitarmos na terra e no chão cavarmos uma cova com os lábios
como quem beija amantes ou estios.
Talvez se tombarmos lá dentro a nossa casa.
Talvez se lavarmos com terra as nossas mãos até a saudade se abrir na lama.
Talvez se mergulharmos no tempo de dentro dos olhos, como um lanho na água.
Talvez então acorde o minúsculo coração que respira o vento Norte.
Só depois.

Espalhar metáforas de gosto e qualidade duvidosos por estas avenidas fora, é de uma confrangedora inutilidade. Ninguém decifra o que dentro vive - se viver - e arriscamos-nos a coleccionar subjectividades ilegíveis.
Um blogue é uma das mais interessantes formas de se dizer a verdade. Raros são os que acreditam e a catarse assim despenalizada inscrita na escrita é compensação.
O lê-me o que escreves dir-te-ei como és não é de todo descabido na sucessão de publicações e, mesmo não querendo, a criatura que os vai mostrando acaba não só por revelar alguns dos lugares que lhe povoam os dias, como também imprimir em quem a lê uma imagem que se aproxima com relativa segurança da dona das palavras se a clareza incluída na objectividade for ponto assente.

A metáfora é portanto um entrave a essa compreensão. Na vida acontece o mesmo.

As ligações que se estabelecem entre quem escreve e quem lê incluem muitas vezes uma cumplicidade oriunda da empatia que se vai criando ao longo do tempo das duas acções. Escrever e ler é dessa forma uma troca profícua de cumplicidades, sobretudo tendo em conta que a leitura é já uma reescrita.
Esta afinidade torna-se no entanto demasiado exigente.
Se a amizade pode ter mais direitos do que o amor, visto não ter as mesmas compensações, a que se estabelece na forma citada impõe condições e regras de difícil manutenção. Não sendo detentores de toda a informação, somos levados a perceber o outro que lê ou que é lido como entidades impolutas e desprovidas de mácula.
É a imprevisibilidade do erro, do pequeno lapso, do minúsculo deslize, da mais ínfima e desculpável aleivosia cometidos por um dos interlocutores que adquirem proporções de catástrofe. O absolutamente inócuo acto falhado torna-se bisturi e separa a unha da carne.
Após a tragédia é inútil abrir covas com os lábios. Não resulta, deve ser doloroso e desfaz-nos o batom.
Acreditávamos ter encontrado a água mais fresca da terra e descobrimos que afinal não é aquela que nos mata a sede.

O vento Norte talvez nos traga um outro coração.

3.12.25

A Gaffe nas árvores


Às vezes no caminho cai uma árvore. Impede-nos a passagem. Ficamos deste lado. O corpo morto não deixa que avancemos e caminhar ao longo do gigante derrubado é a ilusão que temos de avançar.
A árvore caída continua a crescer. De raízes soltas e libertas da terra, cravadas no ar, e copa escurecida de folhas perenes, sem ninhos que os ninhos requerem as alturas do sossego. Por isso, nunca chegamos a descrever a recta da passagem. Não conseguimos sequer olhar para o outro lado, o lado que devia ser o prolongar do avanço, porque o tronco se agiganta, como se fosse vivo e latejasse. Então andamos ao longo desse corpo impeditivo e acreditamos que é assim que a nossa vida vai fazer caminho.
Quando cai a árvore e se atravessa morta no caminho, creio que deixamos de crescer. Deixamos de crescer e a suavidade, a calma, o amadurecer que se torna visível e palpável, não são mais do que o som das folhas secas dos nossos passos na linha paralela à árvore morta.

Não amadurecemos quando no meio do caminho as árvores tombam decepando o trilho por onde seria de esperar que avançássemos. Mudamos a direcção do caminhar. Agora o em frente é paralelo aos mortos.
Aprendemos depois a redefinir o caminhar. Alteramos o sentir, o sentido, da palavra como alteramos a bússola redesenhando o Norte, mas deixamos de crer que é ponto certo. Sabemos, lá nos confins da alma, que mentimos e que o nosso caminho foi cortado, que os passos que damos podem ser os de outro. Acreditamos às vezes que apesar de tudo prosseguimos e que o novo traçado no solo que pisamos nos vai levar à vida que afinal é uma, mas a cada passo mais ténue, a cada passo mais frágil, tropeçamos com a sombra do que está tombado.
Não amadurecemos ao lado das árvores que um dia quisemos ainda mais que à vida e que desataram a morrer no chão, matando o que em nos seria em frente.
Andamos ao lado.

A Gaffe da nobreza


A aristocracia é de uma estupidez e incultura total. Mas tem bons perfumes, as suas mulheres são muito bonitas e sabem rir no tom adequado. E isso é muito importante.

 António Lobo Antunes