23.4.21

A Gaffe nas manhãs farruscas


- Não vá lá para fora, menina, que o tempo está farrusco. Frisa-lhe o cabelo todo. Então se for, leve a mantinha pelas costas que a manhã está friota.

Assusta-me perguntar se a mulher de conselhos acolchoados é realmente a primeira sobrinha da minha Jacinta perdida, ou apenas uma fagulha que a minha boa amiga deixou para que as noites de lareiras frias tenham pirilampos.
Anafada e pequena, com quase sessenta anos, de andar pesado, bamboleante, ancas roliças e mamas opulentas, a Josefa detém uma agilidade soberba, encoberta pelos aventais largos e jardinados. É a herdeira soberana da minha guardiã desaparecida. Tem de cuidar de mim, segundo diz compenetrada, e refazer o jardim de ervas aromáticas. Eis as duas últimas e titânicas missões da sua vida.

- Onde já se viu o manjericão à sombra?!

Plantou sálvia, orégãos, tomilho, tomilho-limão, cebolinho, alecrim rasteiro, cidreira, caril, hortelã, hortelã-pimenta, hortelã-mourisca, rosmaninho e tantas outras que lhes perco os nomes. A que prefiro é o incenso, de folhas verdes pálidas com rebordos pérola que exala um estrondoso aroma a procissão.

- Algumas vão secar, menina. Guardamos em frasquinhos para depois. As outras são tempero fresco.
Vou fazer-lhe logo à noite uma infusão de erva-cidreira que a vai ajudar a descansar. Vou fazê-la como aprendi era cachopa. Vai ver como é diferente.

Como é diferente o amor em Portugal.

O jardim de ervas aromáticas cresce perto das sardinheiras espanholas, mudas de cheiros, e vai invadindo o espaço solar onde a gata se alonga e ronrona numa maquiavelice que desafia a bonomia da dona que vê espalmado o seu cuidar.

- Como se chama a gata?
- Gata. Chama-se Gata.

A Gata de silêncios mansos alisa a pata com a língua serrilhada e arranha e arrasta o aroma das ervas no oscilar da cauda lenta e no recolher das garras.

- Em breve o sol descobre.

Em breve, Josefa, o sol descobre. Por enquanto todas as manhãs são as luas no miar da gata.