8.5.22

A Gaffe exposta

Celia Calle
É curiosa a forma como sem contarmos um blogue generalista, fútil e vagamente tonto, se vai tornando um modo de expormos sem pudor pequenos episódios que se deveriam manter fora das avenidas.

À medida que vamos andando e rindo por um blogue adentro, o cantarolar que tínhamos controlado e que não ultrapassava os limites do bom senso que deve reger a nossa privacidade, pode tornar-se uma cantilena esganiçada onde as notas que se querem atingir deixam de ser privadas, passando em consequência a ser inscritas nas pautas alheias às nossas melodias.
Acontece que, por muito que se recuse, acabamos inevitavelmente por nos aproximarmos daqueles que com mais assiduidade nos acarinham, visitando-nos ou participando nos nossos desabafos. Sabemos que na realidade não os conhecemos, mas temos a noção que é do domínio da raridade e muitas vezes do milagre conhecer seja quem for. A impunidade com que ilustres desconhecidos vão apanhando as nossas bagatelas com o mesmo cuidado com que nós apanhamos as migalhas deles, acaba por nos dar a sensação de santuário, de inocuidade, de distanciamento que não encontramos quando somos rodeados por aqueles que acompanham a nossa vida não virtual. Tornamo-nos mais confiantes, talvez mais seguros, ou então reconhecemos que o local ideal para dizermos a verdade é a internet, porque aqui ninguém nos acredita verdadeiramente. Podemos ser tão reais como inventados. Para o público que nos lê, é indiferente. O conceito de verdade é relativizado ou exige reformulação.

A Gaffe tem vindo a expor-se em demasia. O objectivo primordial que estaria apenso a estas Avenidas foi adulterado. Choraminga por aqui instantes privados com a certeza da ignorância de quem os vive com ela. Partilha-os sem pudor e sem noção do risco que é perceber que desnuda momentos que pertencem também a outros que talvez os queiram secretos.

É uma maldade que deve ser corrigida.

Este deveria ser, portanto, um reflexo do recato, timidez e reserva, da intimidade, desta rapariga esperta. Uma exposição bastante subtil, como é bom de ver. A partir daqui, deviamos contar apenas com barbaridades mundanas, fúteis e superficiais, tal qual se promete no resumo dos dias e nos dias que se resumem apenas a um sopro.

Mas este espaço não é, de todo, um manual de instruções de consumo. Não procura o estudo de tendências, não espalha as actualizações, as inovações, as novíssimas aquisições, o último gritedo histérico de todas as griffes, os mais recentes looks, aconselhados com tanto entusiasmo pelos nossos queridos manipuladores do gasto e da despesa. Para tal, há uma quantidade exorbitante de material de consulta.

É, muito mais, um cantinho onde uma rapariga esperta, espreita, recorta, recolhe e surripia o que lhe agrada e tem o desagradável hábito de mostrar toda a cangalhada às suas visitas.

Portanto, minhas queridas e meus queridos, não esperem Sibilas, Cassandras ou, na pior das hipóteses, consultores de moda passeando por aqui como deuses pela brisa da tarde.

Vão continuar a ser pequenas confissões, alguns desabafos, conselhos do coração e do sexo, muita macacada e um ligeiro sabor a piroso. Nada mais. Não sou de grandes falas - embora cada vez mais de de grandes escritas -, mas se todos arranjam tempo para manter um bicho destes, tenho a certeza que também os vou acompanhar. Foi prometida assiduidade e quantidade - não se garantindo qualidade -, mas cá me hei-de lavrar e encher este espacinho de bonecada.

Sou uma rapariga que dá valor a isto.