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| Douro |
Tem o maxilar quadrado, viril. Olhos de amêndoa oblíquos e negros. Nariz estreito, fino, longo. Duas covas na face quando sorri e o cabelo liso e pesado, nocturno.
Aprendo a reconhecer os traços japoneses e a espantar-me perante a negação do estereótipo que eu guardava para definir as orientais figuras.
Mais novo do que eu dois anos, de musculatura seca e definida e delicados gestos, repensados modos e discretos timbres, o japonês descobre o que lhe mostro e é deslumbrado pelas relíquias do Vale Abraão erguido em pedra, terra em socalcos, luz e rio.
As noites são reservadas aos mais prosaicos serões culinários, construídos como obras-de-arte pela extraordinária da Josefa - herdeira da minha querida Jacinta -, mulher corpulenta nos temperos que ainda não domina de forma consensual.
Foi contido quando provou o ervilhoto guisado, mas quando chegou a vez da carne de caça do Douro Superior - perdiz estufada com presunto, embebida em picantes especiarias e suspeitos molhos -, quase chorou incendiado. A extrema delicadeza impediu-o de gritar ou de correr em busca de extintor. O embaraço torna-se risível e burlesco quando é sufocado por razões externas às que conhecemos. No instante em que desatei a rir a minha mão destravada e viperina foi pousar na coxa - da oriental figura e não da perdiz quase diluída de tão suculenta - perto da virilha.
Silêncio.
A perna hesitou, fechou e retraiu, mas foi no instante em que eu recuava que senti o lasso, o descontrair do músculo retesado no segundo antes, e o calar dos olhos fixos na minha boca aberta pelo riso.
Se me aproximasse e se nesse encontro não houvesse o prolongamento da estrada que encetava, teria o Oriente imediato, a descoberto e nu, pronto a tocar outras culturas.
A minha mão ergueu-se despudorada.
O que me torna feliz é este magnífico estado de fascinação quase física, este pairar num espaço fictício de paixão rasante, esta sumptuosa e cintilante condição que me torna refém, que me absorve, consome, esgota e avassala.
Tenho-o subjugado e o pensar aborrece quando não penso naquele oriente indescritivelmente macio, incalculável no veludo, intraduzível na doçura e no gemido.
Gosto de saber que todas as horas são gastas, corrompidas, absorvidas numa espera inútil da minha nudez impossível.
Gosto de ficar, de pairar algemando a espera, apesar de saber que não vai durar por muito tempo esta prisão oblíqua.
Apanham-me a sorrir no meio das tormentas e é embaraçoso pensar apenas nas cordas e nos pavios, nas âncoras e nas traves, nas velas e nos mastros mais erguidos, mas enquanto for tempo de orientais navios, de brisas de veludo e de cetim e seda, não vou remar sequer.
Depois eu sei nadar. Nestas piscinas sou olímpica.
