A história é breve.O meu amigo gigante foi processado por ter agredido um amigo que no meio da discussão se descontrolou e o mimou com o que se segue:
- Tu, para além de gostares de homens, és um alienado. Uma coisa deve ser consequência da outra.
Os 1.97m de músculos olímpicos desabaram sobre o pobre que ficou com a cana do nariz partido e sem um dente incisivo.
Apresso-me a telefonar ao agressor, toda solidária e muito indignada, prontificando-me a estar presente na defesa do alvo de tamanha desfaçatez e preconceito. O apoio de uma rapariga francamente civilizada é sempre uma mais-valia, sobretudo para o seu ego que se vê dessa forma todo desempoeirado.
Esbardalho-me contra o muro da minha imbecilidade.
O gigante declara assumir todas as culpas, lamentando o seu mau feitio que tantas vezes o faz pisar os limites do bom senso e atropelar as mais básicas noções de interacção social e os mais intuitivos comportamentos ditos civilizados.
O nariz partido e o dente perdido resultaram apenas de uma bravíssima e gravíssima discordância. O meu gigante - mau humor eterno! -, defendia a marca indelével da escultura na obra pictórica de Miguel Ângelo, acreditando na influência de Platão na produção artística do Mestre, enquanto que o adversário defendia Rafael que ao renegar os mil metros quadrados do tecto da Capela abjura ao mesmo tempo a parafernália de conceitos caducos dos Clássico que encharcaram a obra do pintor de tectos.
Todo um horror inenarrável.
- Então não foi pelo comentário homofóbico? - consigo ser idiota muito mais do que uma vez no espaço de meia hora.
- Qual comentário homofóbico?! - aposto que, do outro lado da linha, franziu as sobrancelhas até ficar apenas com dois lanhos no lugar dos olhos. – O tipo já foi duas ou três vezes "alienado" por mim . Só o esmurrei porque não admito que alguém inteligente se recuse a dar o braço a torcer e finalize uma discussão de uma forma desconexa.
Descubro muito lentamente que a homofobia - se existiu - acabou por ser a minha estúpida disponibilidade solidária.
- Talvez não haja verdadeiramente o comentário homofóbico. Existem, em vez disso, paspalhos obcecados que acreditam na existência dos seus umbigos e eu não esmurro ilusões.
Desligo e vou enfiar papel higiénico na boca.
