9.10.24

A Gaffe chuvosa


Dentro da chuva há gente. Um cão que ladra e uma folha de papel sem mais nem menos.

Ninguém se vê. Ninguém confunde ou olha ou pasma, deslumbra ou desfalece. Passo por gente que rompe pela chuva já sem tempo de olhar e de sorrir, de se voltar para trás para tornar a ver.

Nos dias de tempos idos, mesmo rasando a luz do entardecer, sentava-me no banco do jardim da avenida e havia apenas névoa e cães e folhas de papel presas ao chão e sempre me sentia alguém que eu não sabia, diferente e igual a mim, mas nunca eu.

Agora há chuva e sinto-me cansada de me sentir sentida. Sinto-me e penso que o sentido chega daquela que é pensada por mim, que não sou eu. Sinto-me a pensar e estou cansada.

Há chuva e sinto-a como um cão que ladra dentro do que penso.

8.10.24

A Gaffe chalada


Raparigas!
Saibam que mesmo ocupadas até aos dentes; mesmo perdidas no meio do mato correndo o risco de ser comidas pelo lobo mau - Deus nos ouça!; mesmo sem o tailleur Chanel rosa pálido que destrói as pindéricas que ousam passar por nós desocupadíssimas a bambolear a Zara; mesmo com os Prada com as solas barradas com a pista que o cão polícia deixou enquanto farejava o nosso perfume à nossa procura; mesmo sem o cadeirão Luís XV forrado a seda floral para acomodar o nosso glamour; mesmo sem o cenário em talha dourada conveniente e apropriado a todas as raparigas que se prezam, jamais se esqueçam que a hora do chá - tea time para as amigas, - é sagrada, mesmo que a infusão não venha acoplada a um berço.

Descurar este momento é sacrilégio e se o cometermos, devíamos ser repreendidas por um senhor vestido de Zorro, musculado e com um bigode à Errol Flynn - apesar do erro, uma rapariga deve ser sempre admoestada por gente gira.

A Gaffe medricas


Confesso que tenho um medo pueril do escuro.

É uma confissão penosa, visto ser uma rapariga com força suficiente para espancar fantasmas e papões e ter lido um dia que não havia coisas do outro mundo a infestar as deste.
Mas o certo é que tenho medo do escuro.
Sempre que me levanto a meio da noite, porque esqueci a água ou porque comigo se levantam outras incómodas tarefas, encosto-me às paredes e arrepio-me a pensar que, a qualquer momento, posso ter a agarrar-me a garganta e a esfacelar-me a jugular um monstro decrépito e apodrecido, de olhos sangrentos e sanguinários dentes.

Não ligo as luzes. Deslizo, eriçada de pavor, com gelo na espinha e olhos de soslaio, pronta a debater-me contra os bichos, mas não faço luz por onde passo. Não posso humilhar-me mais do que suporto e lá arranco forças para enfrentar o monstro que se esconde para saltar à minha tenra carne desprotegida e nua.
Regresso à cama com uma vexatória velocidade e só me sei segura quando cubro as minhas pernas com tudo quanto é fronha, almofada ou lençol.

- Foste depressa!
- Pois fui. Não quero que nenhum monstro te apanhe aqui sozinho.
- A única monstrinha aqui és tu.

... ...
... ...
... ...
O problema é que estes pequenos medos fazem parecer que a inteligência sofreu um AVC.

7.10.24

A Gaffe manual


A Gaffe vai à manicure.

Sempre que tem de entregar a alguém pedaços de si, a Gaffe bisbilhota dias antes alguns exemplares do retalho disponíveis no mercado. Se, por exemplo, quer comprar um rímel, esta rapariga esperta debruça-se nas pestanas alheias até ficar cansada de tanto olhar e se decidir a escolher o próprio destino.
Com a manicure o mesmo se passa.

A Gaffe acredita que dar a mão a alguém é não a ter de volta nunca mais, é jamais aquele membro gestuar do mesmo modo, com o mesmo rumor subtil da identidade aprisionada.

Reconhecemo-nos ao dar a mão, ao dar verdadeiramente a mão, como quem vai, indiferente à multidão, desabotoando o coração.
Dar a mão a alguém é como ver com os seus olhos. É raro mostrarmos a alguém como vemos com os nossos olhos. Dar a mão a alguém é portanto um risco eterno.

- Ainda quer a minha mão? – pergunta a Gaffe à rapariga dos frascos e unguentos e percebe numa espécie de culpa que a pergunta deveria ser outra.

- Como se vê com os seus olhos?

Esperemos sempre que a mão que é dada ou acolhida faça com que as borboletas cresçam como espuma nos dias e acreditamos. Acreditamos até a dolorosa morte de sabermos que afinal as mãos já não se mexam, nunca mexeram, porque foram apenas cisnes imóveis com pescoços de espada e nós, decepados.

Talvez então o silêncio que nos resta nas palmas seja Deus a chorar.

4.10.24

A Gaffe criticada


Acabo de viver uma experiência que jamais sonhei poder vivenciar!

Os meus primeiros quinze minutos da manhã são passados num pequeno e agradável café, com imensa gente sossegada espalhada pelas mesas ainda sonolentas. Leio as notícias e consulto a minha agenda, atrasando o acordar.
Normalmente as mesas estão todas ocupadas e há pouco espaço, mas é um lugarzinho acolhedor e muito pouco ruidoso apesar disso.
A única mesa disponível era a que se encontra quase colada à minha. Um par de belíssimas velhotas simpáticas e matinais tinha-a desocupado depois de ter beberricado um chá e mordiscado uma torrada.

O jovem casal entrou e sentou-se. Ficaram de costas para mim. Ele, um yuppie vagamente ultrapassado, de fato apertado, azul nocturno, gravata regimental e sapatos bicudos. Ela, loiríssima, a arrastar a asa para o platinado, bonita, barulhenta. A proximidade fez com que visse o monitor do rectângulo digital preso nas unhas nacaradas da rapariga. Tocava no ecrã com a perícia de um indicador treinado e de mindinho erguido.

Foi inevitável ver o que o que ela via.

A Gaffe e as Avenidas ocupava o ecrã e o dedo atentíssimo da menina.

Os brincos, dois mochos de pechisbeque, baloiçavam escandalizados perante a desfaçatez que era lida e a irritação provocada pelos posts ruivos disparou no momento da cotovelada nos rins do rapazinho.

- Não entendo como gostas desta tipa!

O homem encolheu os ombros, olhou de soslaio as Avenidas que a companheira de infortúnio percorria e sem qualquer entusiasmo espalhou na mesa:

 - Não gosto. Acho piada.

- O que ela precisa sei eu. – Roncou a candidata a platinada.

- Se calhar é do que tu tens a mais – insinua o yuppie mal disposto, afagando a testa com os dedos.

Atrás deles, à distância de um voltar de cabeça, está a tipa que merece o desdém irritado daquela mulher e que desperta um vago interesse no homem que não morre de amor pelo que lê. Perdi-me por completo a saborear a delícia extraordinária de me sentir olhada sem que o observador desse disso conta. Experimentei, naquele instante, o sabor que a Gaffe tem e dei conta da possibilidade que, embora irrelevante e muito ténue, um blogue tonto tem de irritar projectos de platinadas que sabem, com a certeza que é construída pela experiência, que aquilo que preciso é o que esbanjam à toa e em todo o lado e de provocar um qualquer sorriso pouco empático num homem de sapatos bicudos, vítima dos dispersos exageros que a companheira pensa que me faltam.

Foi uma delícia sentir a Gaffe manuseada por estranhos.

Nota - Aproveito a oportunidade, pois decerto me lerá, para lhe sugerir, minha cara, que troque de brincos. Os mochos de pechisbeque abanavam demasiado e ameaçavam soltar-se do poleiro e a si, querido leitor que me acha piada, devo aconselhar o abandono definitivo das peúgas camufladas em tons de verde tropa.

Gaffe - 04/10/2022

3.10.24

A Gaffe no evento


Realizou-se, por aqui perto, uma espécie de dinamização cultural toda moderna.

Não a podemos confundir com uma acção de produção cultural. É louvável e acredito que evoluirá de forma considerável, expandindo o seu alcance, libertando-se, se caso for esse o seu objectivo, da habitual feirinha de artesanato urbano, banal em qualquer estação e apeadeiro de inícios do Outono.

Há, no entanto, uma condição comum a um dinamizador cultural e a um produtor de cultura. Ambas as situações terão de obedecer a um parâmetro implícito na própria definição, noção ou em qualquer conceito de Cultura que seleccionemos. Se o que se realizou reivindica um destes estatutos e se pretende afirmar como elemento activo na projecção e enriquecimento de uma determinada comunidade, por muito restrita que seja, terá sempre de orientar as suas acções sob a alçada de um denominador comum: o respeito pelo outro.

A capacidade daquilo que foi dinamizado por um grupo de jovens de alterar, tornando mais dinâmica e evolutiva a pacatez possivelmente exagerada de determinada rua, provocando ou apenas possibilitando uma faceta lúdica até aqui inactiva, obrigando-a, dentro das limitações compreensíveis, a ouvir, ver e sentir o que até ao momento ignorava ou esquecia, quebra-se e torna-se medíocre e estreita, quando este objectivo se confunde com uma demonstração de irresponsabilidade cultural, consequência dos actos de desrespeito pelo outro, consubstanciados no abandono desleixado e porco de final de festa adolescente que ignora por completo que um indivíduo pode ser até completamente indiferente ao que se passa no local onde habita - isto sou eu, dizem eles, - não perdendo por isso o direito a ser respeitado, a emitir opinião ou a reivindicar sossego, civismo, silêncio e a não ser insultado com uma data imensa de lixo que não foi recolhido pelos catraios que o produziram.

A dinamização cultural, esta e qualquer outra, tem obrigação de se preocupar com a porcaria que larga no fim da sua actividade, incorrendo, se não o fizer, naquela espécie de iniciativas que visam apenas fazer sorrir a sobranceria muito pouco cultural dos miúdos que se divertem numa ilusão de cultura e que acreditam, de forma enganadoramente ousada e bastante adolescente, que trazem ao povo o Santo Graal, entregando as consequências menos dignas ou nocivas desta iluminação a outras entidades.

Não há, em nenhuma circunstância, qualquer justificação para o desrespeito. Dinamizar determinado espaço não iliba o actor da acção de cuidar da pegada que fica posteriormente ao acto.

O lixo abandonado no final desta treta com sabor a hippie é, sem sombra de dúvida, o menosprezo por aqueles que, em princípio, são os destinatários deste mesmo evento e torna uma atitude cultural numa medíocre demonstração de uma espécie de estreita consciência cívica, de eufórico caos adolescente que, em nome de uma pretensa dinamização cultural, escondem um deleite egoísta e exibicionista que incorre no erro de se considerar ilibado das responsabilidades geradas pelas suas manifestações.

O lixo, desconsideração, desatenção, desdém e desprezo que ficam depois do palco encerrar, apodrece mesmo em cima deste tipo de iniciativa.

Resumindo:

Todo este lixo me faz apetecer desatar à estalada a qualquer coisa que dinamize desta forma seja o que for.

2.10.24

A Gaffe e o esquecimento


Uma mulher elegante, disseram, é aquela que se esquece do colar de pérolas debaixo da camisola de gola alta e do anel de diamantes sob a luva.

Os adereços são fulcrais neste julgamento e classificação. Há uma nítida supremacia do indivíduo sobre o objecto e uma desqualificação da coisa usada, em prol de quem a usa. Supera-se a importância atribuída à matéria - consumível - e o olhar é desviado para outros círculos onde é mais sólida a permanência da individualidade.

Uma rapariga esperta jamais esquece que por muito glamour que exista nos adereços que usa, será sempre o modo de os esquecer que lhe fornece a elegância.

A Gaffe e Lavoisier


Estranha-se, sabendo que depois se entranha, o sabor antigo de uma silhueta feminina repleta de um glamour reservado oriundo de paragens onde os mitos se seguiam ao tempo das sombras ou do aniquilamento.A imagem decalcada de um espaço temporal abandonado, não é obra original ou jamais vista. A hábil recuperação do que é já perdido é uma constante transversal a toda a imagética existente.

Nada é perdido e tudo se transforma – diz o velho Senhor do século XVIII.

Acreditemos pois no que há-de vir, se aquilo que vier nos devolver o que não soubemos nunca amar a tempo.

1.10.24

A Gaffe na caravela


Como adormecem os sonhos quando não há histórias de embalar para lhes domar a vigília?

Será que pousam a cabeça no meu colo e se deixam tocar pelos meus dedos, ou, com o meu sono nos braços, mordiscam o cansaço de se ser eterno e cabeceiam a eternidade que é apenas a avenida lançada sobre mim, que acabo sempre no começo da espera?

Adormecer com sonhos é como ter o mar dentro da cama. Não basta ter navios. É preciso que saibamos onde estão os portos e os exactos lugares onde chorar é forma de prender amarras.
Depois, é só unir a bússola às estrelas e transformar as lágrimas em velas.

A Gaffe na guerra


É fraqueza ser lobo entre as ovelhas.

Camões - Os Lusíadas