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Giorgio Lucchesi |
Lembro-me das tardes penduradas nos ramos como arrecadas nas orelhas das mulheres.
Chegava no quase no Verão e ficávamos sentados nas pedras que nos entardeciam.
Cansávamo-nos e queríamos despir-nos e deixarmos de ser gente. Queríamos ser vento e vinho e sono nos olhos. Queríamos ser velhos como o rosto do anjo de pedra no centro do lago.
Trazias na cara o o cheiro do trigo seco ou da semente inútil na ausência do ninho. Na boca o olhar que vem nas pupilas dos pombos e nos olhos das maçãs que escaldam de cansadas.
Trazias na cara o o cheiro do trigo seco ou da semente inútil na ausência do ninho. Na boca o olhar que vem nas pupilas dos pombos e nos olhos das maçãs que escaldam de cansadas.
As minhas mãos sem as tuas eram trapos quebrados, poeira e terra seca.
Às vezes uma libélula azul como os profetas pousava-te no braço. Deixavas de respirar para que não fugisse.
Sentava-me longe de ti que escrevias e procurava não te perturbar.
Ficavas vergado sobre os papéis em desordem e conseguia seguir-te o perfil definido e quase agudo.
A luz era quase flamenga. Quase Caravaggio ou talvez Vermeer, que a luz nunca permite ser entregue a alguém.
Via a planura da tua testa larga e ampla, o nariz que de tão recto é já perfeito, os dedos que por vezes tamborilavam no tampo em mogno da mesa onde se espalhava o branco dos papéis que ias riscando.
A barba agora invade tudo, como trepadeira ou de grade ou pedaços de setas mortas nas batalhas dos desertos. Já não tens olhos. Tens barba e dentro da barba duas luzes vivas, rasas, que estremecem quando as aves escaldam o silêncio com o bico aberto e grito estilhaçado.
Sorrias ao ver-me a ver-te.
Depois retornavas à ausência, quase um corpo.
Parecias um gigante. Ainda mais gigante que na véspera.
Erguias o olhar. Desviavas e inclinavas a cabeça. Esquivavas-te na penumbra.
Então eu via na fuga lenta desse olhar que me espantava, a forma das pestanas. A alargada tristeza presa nelas. Compactas e negras, demoradas, longas, adensavam as sombras e quase escureciam tudo o que em redor tinha uma luz.
Quase um abismo. Quase corvos. Quase infâmia. Afrontavam a luz, a quase luz, e nos papéis dispersos deixavam as sombras que eram já palavras.
Às vezes quase lia. Quase entendia.
Pousava a minha cabeça no teu colo e deixava-me a chorar sem ter motivo, que o teu coração tinha-o no peito trocado pelo meu, na tua mão, e não havia perigo. A tua mão sossegava o meu cabelo. A tua mão aquietava a luz que vinha nervosa por entre as rendas das cortinas. A tua mão sossegava a minha vida inteira.
Inclinavas-te para mim. Dizias-me em murmúrio que na vida apenas valem os instantes e que Morte e Amor são coisas bem pequenas.
Crescemos sem o tempo passar no trilho das formigas e na fuga das rolas.
A tua proximidade faz-me falta. Sou melhor do que eu quando estás por perto.
Procuro na memória o som daquelas tardes e de repente sei que não há nada, porque dizer um fado é como não ter braços.
Os homens incontornáveis são os que lembram paisagens. Ouvimos o indizível.