31.3.22

A Gaffe sem Pessoa



Admito que uma das razões que me afasta irremediavelmente de um blog - já não menciono uma página do facebook, porque neste caso fico com rinite aguda e urticária - é a proficuidade com que sou bombardeada por saudações ao mês que se inicia, pela quantidade de santinhos que nos abençoam, pelas máximas atribuídas a gente morta - há imensas que são creditadas erradamente -, por passarinhos e gatinhos que pretendem motivar-nos e pelo sol poente encimado por uma qualquer patacoada relacionada com o mindfulness.

Desisto de imediato e viro a página.

Há no entanto uma pequena beliscadura que me deixa a sangrar de irritação nestas paisagens.

Como quem arranca um dente sem anestesia, há gente que estrafega uma frase alheia, isolando-a, torcendo-a e distorcendo-a de modo a que sirva os seus intentos. Normalmente bondosos. Se por estas bandas largas nos é fácil amortecer a dor, ou mesmo evitá-la, usando um clique milagroso, na vida, na
real, não nos é permitido tal façanha. Somos de boas famílias e nadas em berço de oiro, portanto noblesse oblige.

É particularmente penoso ter de arriscar a minha saúde em nome da polidez e da civilidade com que é ouvido um amontoado de lugares comuns, de tolices hipócritas, de lantejoulas literárias coladas com saliva a pretensas boas intenções.
Nunca tive coragem para pulverizar conversetas deste teor e passo horrores a tentar entrar em piloto automático.

Esta deficiência arrasta consigo outras anomalias. A inveja, por exemplo.

Tenho imensa inveja da capacidade detida pela minha irmã de fazer explodir no meio de uma colecção de violinos, uma daquelas bombas que só deixam vivas as ervinhas - e os sapatos dos interlocutores para memória futura.
Morro de inveja quando no encadear de um discurso pio, doce, amoroso, terno, de bandeira branca desfraldada e empunhada pela senhora pia, doce, amorosa e terna, se ouve, fechando-o com chave doirada, a desgraçada e arrancada a ferros:

- O melhor do mundo são as crianças.

Com uma seriedade assustadora, com um sinistro brilhozinho nos olhos, com uma quietude muito pouco cristã e com lâminas nos dentes, a minha irmã fustiga:

- E o melhor das crianças são aqueles pespontos perfeitos nas carteiras Hermès.

Pode não ser bonito ouvir, mas aniquila instantaneamente o cor-de-rosa bebé.