6.5.22

A Gaffe "até tem um Amigo"



Zurab Martiashvili 
Ter como melhor amigo um gay é como arranja lenha para atirar à fogueira.

Não se pense que é uma alegria uma rapariga ter um estafermo destes com o estatuto de melhor amigo. Pensamos que vai ser uma loucura pegada, que vamos às compras muito agarradinhos e que podemos confiar no bom gosto do rapaz e na sua maravilhosa e vasta informação acerca do que se usa e não se usa, do que se passa e do que não se passa.
Não é de todo verdade. É um estereótipo.
Ter um amigo muito próximo que é por acaso um gay da espécie do meu, é uma canseira. Às vezes penso se não seria bem melhor trocar este mafarrico por um hetero bem foleiro, de bigode farfalhudo, descapotável vermelho e que em relação às nossas confidências se comporta de igual modo, ou seja, espanta-se por as termos, e que na moda e na coscuvilhice faz como os Sócrates - os dois -, só sabem que de nada sabem.

Não se pense também que, por andarmos juntos quase todo o dia, temos a possibilidade de comer em comum, nem que seja com os olhos, a fauna masculina que nos enche as cidades de libidinosos pensamentos, partilhando experiências, conselhos e, se possível, os candidatos a frango.
Não. Nem pensar.
Um amigo gay é um rival em potência. Mesmo aqueles que só à lei da bala se detectam, como é o caso do meu, são um perigo para o nosso ego. Vai uma rapariga a cruzar-se com um deus que passa como uma brisa na tarde, pensa que aquele olhar fulminante é uma promessa de maiores folguedos, feita a nós, miúdas entusiasmadas, e afinal acaba-se por concluir que o fulminante é disparado pela culatra e que o alvo é o marmanjo ao nosso lado.

Também é lenda a capacidade de audição deste nosso amigo gay. Não há que iludir. Ouve-nos tanto como a funcionária da sex-shop quando nos vamos queixar que as pilhas não estão incluídas no massajador facial, porque simplesmente as usou até à morte, no aconchego do lar. No entanto, e segundo as minhas amigas, mais mulheres mas muito menos sofisticadas do que eu, é cosmopolita ter um gay ao nosso lado para o que der e vier. Não que seja aconselhável dar trela a este tipo de sofisticação, mas ajuda quando queremos classificar as nossas tolices mais importantes - não me custa ser leviana - como um breve e leve sopor na cidade.

Apesar de tudo, vale a pena ter um.
Um Amigo - digo eu -, ao nosso lado para o que der e vier.