Recordemos então o que a Gaffe, rapariga sábia, pensa sobre um tema que atinge tantaz vezes tamanhos desproporcionais.
Deparamo-nos por vezes com imagens que nos surpreendem, porque acabam por ilustrar uma das partículas de que somos feitas.
Esta é sem dúvida uma delas.
O homem do carro estacionado provavelmente procura desbravar os mistérios femininos com cuidados quase florais e tenta, inútil e sem qualquer sucesso, domar os bichos que somos, enquanto que - sem esforço desmesurado -, o garanhão bruto e tatuado, sem pouso certo e sem nada que se possa rentabilizar, fica fora de nós, aguado e a desejar o objecto que acredita ser o que nos convence.
A Gaffe ouve dizer as más-línguas que o carro que um homem escolhe é o reflexo invertido da sua piloca, que um bólide gigantesco significará, portanto, uma pilita frouxa, quase impotente e humilhantemente pequena.
A não existir um completo erro nesta afirmação. Os homens que se deslocam em carros inimagináveis e quase absurdos de tão poderosos, com preços descomunais, são todos ineptos sexualmente. O carro compensará, desta forma, os exíguos apêndices que trazem entre as pernas.
A Gaffe pensa, no entanto, que esta espécie de compensação não se prende com tamanhos ou desempenhos de índole sexual.
A questão é mais oblíqua, mais insidiosa.
Suspeita esta rapariga que a potência do carro se liga normalmente à insegurança do dono, na cama em que é deitado. Quanto maior for a cilindrada e o aparato do popó, mais frágil, inseguro, hesitante, manobrável e irresoluto é quem o compra.
Não gosta de carros, a Gaffe motorizada, mas reconhece que é proveitoso uma rapariga não seleccionar os rapagões sem primeiro conhecer os volantes que controlam. Alguns dos melhores, andam a pé.
É tudo uma questão de deslocações financeiras e de mecânica do prazer.
A Gaffe podia ser simpática e citar o dito que nos informa que interessa a magia, não o tamanho da varinha de condão, ou que os homens não se medem aos palmos.
Seria consolador e tranquilizante para os nossos queridos que se medem apenas com palmas.
No entanto, a Gaffe lamenta dizer que quanto maior é a prometida magia que um homem supostamente consegue criar, maior a expectativa que se acrescenta a tanto esperado malabarismo. Uma rapariga anseia sempre que salte um valentão bravio, potente e imponente da cartola - que se remexeu com uma perícia de fazer corar Madame Bovary -, e não o branco e delicado coelhinho das delícias do Natal de propaganda infantilóide.
Segundo estudos recentíssimos - e com o rigor costumeiro -, existem uns limites confortáveis e espaçosos que registam a elasticidade da dita, não humilhando - quase - ninguém. Concluiu-se que a varinha de condão dobra sensivelmente o seu tamanho quando quer fazer magia - embora também possua flexibilidade suficiente para dobrar outras características.
Ficamos esclarecidas.
Se o mágico possui uma varinha dentro dos valores indicados quando outros mais altos se levantam, pode - não se dirá ficar descansado, porque seria um desperdício de talento bruto -, procurar a cartolinha que lhe sirva.
Se fica aquém, o menino tem sempre a hipótese de comprar um Maserati.
Para desconforto da Gaffe - que gosta de se deslocar em grande estilo -, o seu rapagão, em consequência do dito, só tem direito a um Smart fortwo.
Sabendo nós que há demasiadas vezes mais fumo do que fogo, podermos esperar diamantes dos rapazes que necessitam de boxers do tamanho S, mas com contas bancárias inversamente proporcionais aos seus atributos, e percorrer as capitais europeias - as que valem a pena ser percorridas ,- de cabelo solto e Hermès a esvoaçar - sempre com o cuidado extremo para não imitarmos desagradavelmente Isadora Ducan -, num bólide de outro mundo.
Meus queridos, nós, melhor do que ninguém, sabemos que o tamanho conta e, por muito que se diga, a magia não depende só do modo como é, muito embora agilmente, praticada. Por isso, meus caros, encontrem forma de parar à nossa porta com luvas de sonho agarradas ao volante de uma nuvem de metal.
Prometemos não reclamar e telefonar às amigas, passando de mão em mão as pequenas mudanças com que nos brindais.

