22.11.22

A Gaffe bovariana


Ao contrário do que se possa pensar, uma rapariga esperta, cosmopolita, urbana até à medula, capaz de arriscar a vida no meio de selvas de betão onde os lobos usam Trussardi de colarinho rígido e pasta de crocodilo, não resiste, esporadicamente é certo, à tentação de catrapiscar um rude rapagão isento de qualquer sofisticação ou diplomáticos maneirismos de circunstância, capaz de se tornar inconsciente ameaça ao politicamente correcto e bem composto, ao bon chic, bon genre habitual e exigido pelas criaturas de santas e boas famílias.

Há, pois, nas caves esconsas, dentro de cada mundana rebuscada, uma rapariga estonteada aos gritos de deleite desenfreado, a esbracejar de prazer rude e primário, pronta a esquartejar o mundo em cima de um fardo de palha, trucidando sem dó, nem piedade, um mocetão boçal e campestre, sem os aromas da Cartier, de musculatura convincente, que acredita que um Canto d' Os Lusíadas faz parte do léxico futebolístico.

O único pormenor a ter em conta, nesta calamitosa e recôndita tendência das mulheres de topo, é o que se refere à quantidade de matulões exigidos. Nestes casos bucólicos, mais vale dois na mão do que um a cavar.