23.11.22

A Gafe andrógina


De acordo com a mitologia grega, os andróginos eram criaturas que possuiam os dois sexos, quatro mãos e duas faces opostas e, em consequência, o dobro das possibilidades de se divertirem acompanhados nas Sextas-feiras à noite.
Fortes, audazes e destemidos, tentaram invadir o Olimpo para tomar o poder - qual multidão no Capitólio. Zeus, frente às ameaças, divide-os e condena-os, assim decepados, a viver eternamente em busca da metade perdida.

É justamente esta beleza enigmática que subjaz à demanda do que nos une à nossa outra metade e que nos instiga a dúvida e a incerteza do encontro, impulsionando ou, tantas vezes, delapidando o que de completo existe em nós.
A andorginia é, no entanto, abusada pelas actuais imagens estereotipadas que, na esmagadora maioria dos casos, a aliam a uma decadência erotizada, mas soturna e insinuantemente dúbia e riscada por subtis ameaças.
Une-se ao decadente enevoado, a cortinas de vícios esfumados ou a provocadoras poses de divas assexuadas.

O eterno dilema com o qual sempre convivemos, é tornado quase disfuncional pela imagética de um século que entrega ao mito, que tem origem na perda ou na falha, a inconveniência e o engano de um reencontro ilusório.