12.5.23

A Gaffe e o perfume do poder


Nunca me tinha deitado no chão a olhar as nuvens, até a minha prima me ter puxado pelo braço e me obrigado a deitar ao lado dela.

- Quero que me leves à loja do Nuno Gama.

Não quero. A minha prima encarna o mais tenebroso dos pesadelos das meninas que atendem, num misto de fascínio e pavor, as mais caóticas exigências da minha prima. Por onde ela passa, tsunamis e vários terramotos assolam a terra.

- Bem sei que o Nuno Gama é já vintage e bem sei que transforma as mulheres em carretas de cangalheiro, mas gosto do modo como ele veste os homens.

Proponho a companhia da minha irmã, mais contida e ordenada.

- Não! A tua irmã cheira a homem.

Não entendo.

- Há duas formas de usar o poder. Os homens só o agarram porque lhes é entregue. As mulheres seduzem o poder a cada passo. Não o possuem sem o seduzir primeiro e sabem que o perdem se esquecerem a capacidade essencial de o enfeitiçar. A tua irmã apenas o usa porque lho deram. Como um um amuleto posto ao pescoço para a proteger.

A erva tinge os olhos da mulher deitada e a camisa branca de punhos altos e colarinho entretelado. Brinca com o laço do cinto das calças e mira atenta o verniz recente, vermelho sanguinário, nos quadrados pequenos das unhas dos pés e as minúsculas bolas de algodão que lhe separam os dedos. O cabelo espalhado sobre a terra, com ondas largas e caracóis soltos e amplos, insolentes. O sol que vagamente lhe magoa a pele, faz florir na face as sardas liliputianas. Os lábios brilham carnudos, petulantes, e abre-se na relva o fulgor de Maio, maduro Maio.

- És assustadora.

Inclina-se. O cotovelo manchado, fincado no verde. Giza os meus olhos com um sorriso.

- Não! Eu também cheiro a homem, mas pelas razões certas.

Não há nuvens no céu.