31.1.23

A Gaffe de tachos com cunhas

Giovanni Gasparro

Cada vez me indigna mais verificar a quantidade de manobras corruptas que levam imberbes idiotas a lugares decisórios.
É habitual em qualquer regime que começa a apodrecer e, por muito que apeteça distribuir chapadas, mantenho uma calma oriental, porque acredito que o sistema tombará sem qualquer acção por parte dos lesados. É impossível manter de pé seja que edifício for, durante muito tempo, quando os alicerces são de plástico colado com saliva. A renovação e a limpeza ocorrerão mais cedo ou mais tarde. Haverá um breve período em que a competência e eficácia serão valorizadas e voltaremos a iniciar o ciclo.

O que me repugna é o conjunto de viciados na cunha.

Há uma espécie de gentalha que usa todo o processo de corrupção, viciando qualquer jogo, mesmo quando não necessita de o fazer.

Passam a usar a cunha como quem inala cocaína. Não conseguem dar um passo sem ter assegurado que alguém colocou no caminho um estrado capaz de aguentar o peso da passada e, mesmo que o caminho esteja limpo e seja sólido, são incapazes de o palmilhar sem primeiro meter uma cunha.

Outros há que se tornaram profissionais. A cunha, nestes casos, é institucional, quase uma Fundação, usada para favorecer indiscriminadamente conhecidos e alheios. Não interessa se o cargo, o lugar, a comenda, ou seja o que for, não se lhes dirija directamente. Se há espaço para a cunha, enfiam-na. Enviesados e oblíquos, chegam de língua de fora, com uma mórbida ladainha cheia de lamentos, e cravam a cunha. Podem dela não usufruir, sendo a intervenção corrupta favorável a outro que nem sequer necessita de ser íntimo, mas o capital aumenta e alarga o campo de manobra do viciado.

- Hoje, fiz o que tinha a fazer por ti...

São os mais nojentos, repulsivos, asquerosos e sujos medíocres de todas as histórias, porque não admitem e não concebem a vida sem cunhas e se espantam, indignados e revoltados, quando alguém lhes foi indiferente ou negou os seus serviços.

Posto isto, e porque não me apetece criar um post do tamanho de algumas das cunhas que refiro, devo dizer que assisto à proliferação destas manobras com uma espécie de atitude alcoólica ou comatosa. Só com uma bebedeira monumental seguida de coma alcoólico é que se consegue não desatar aos gritos.

A Gaffe nas Convenções

As promessas dos políticos são como as dos apaixonados imbecis: ficam sempre a defumar nas antecâmaras.

A Gaffe de corpo inteiro

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A minha irmã vive num apartamento amplo e luminoso que os mais ilustres podem, num vislumbre, considerar minimalista. No entanto, a ausência quase total de objectos não se relaciona com qualquer opção estética. A minha irmã compra, porque o escolhido se lhe afigura de importância capital para o seu conceito de conforto que inclui o inquieto, o que impede o desarmar da vontade ou o impulso criativo.

As paredes derrubadas deram primazia à luz branca, asséptica, metálica, que gela os corpos e entrega aos móveis, cuja existência se deve ao facto de nenhum poder ser movido, a geometria da perenidade. Há tarefas definidas para cada um dos objectos e porque a única preocupação na compra é a função que cada um tem de exercer, todos são limpos e puros como as obras-de-arte.

Parece frio, incomplacente e demasiado branco. Um espaço de racional inflexibilidade. Mais pragmático do que minimal. A minha irmã suporta mal a cor à sua volta. Admite breves tons de cinza, muitas vezes chumbo, muitas vezes quase nada, o preto, o metal, mas recusa frequentemente outras paletas.

Sempre me pareceu um apartamento vazio - provavelmente pelas ausências longas e frequentes da dona -, como se estivesse eternamente à espera do habitante, até ter encontrado ontem, numa moldura lisa e perfeita, uma fotografia minha, a chispar de cores e riso aberto, grande e de corpo inteiro.

23.1.23

A Gaffe minimal

O minimalismo é sempre a consagração do espaço.
Mana

Casa Yokohama – Airhouse
Aobadai, Yokohama, Kanagawa - Japão