28.9.24

A Gaffe e as raparigas espertas


As extraordinárias raparigas Ziegfeld: Jean Ackerman, Jean Audree, Myrna Darby e Evelyn Groves, vestidas por John Herkrider.

John Herkrider era um artista, nascido no Texas, que começou sua carreira como actor, actuando ao lado de gigantescas figuras como Mary Pickford ou Theda Bara. Torna-se posteriormente figurinista, concebendo o guarda-roupa para praticamente todas as produções finais de Ziegfeld, incluindo Rio Rita, Ziegfeld Follies, Show Boat (1927), Rosalie, Os Três Mosqueteiros, Whoopee (1928 ), Show Girl (1929), Simple Simon, Smiles (1930), e a edição 1931 das Follies.

Há registos dos cavalheiros, evidentemente, mas é lamentável que se tenham esquecido os nomes e as memórias - e a memória - das mulheres que seduziram centenas de tontos que tombaram encadeados pelo cintilar das lantejoulas patrocinadas por Ziegfeld e modeladas por Herkrider.

27.9.24

A Gaffe alienígena


Quando era muito, muito pequenina, tinha medo do escuro.

Mal se apagavam as luzes, depois do beijinho da praxe dos meus pais, ouvia os monstros subterrâneos que eclodiam rasgando e arrasando o soalho.

Imaginava então que habitava uma nave espacial sobrecarregada de luz. Era uma menina alienígena que vinha envolta em claridade, não pousar numa oliveira  - já nessa altura achava deselegante -, mas aniquilar com feixes de luz os mostrengos ameaçadores.

Entretanto cresci.

Abrandou significativamente o medo que tinha das trevas ao mesmo tempo que evoluiu a minha importância dentro da nave. Aos dezoito anos, era já uma Imperatriz capaz de fazer corar de inveja qualquer produção de George Lucas, mas com um problema digno dele: era a soberana de um planeta em vias de extinção. O cromossoma Y tinha sido afectado de modo irreversível por uma epidemia qualquer, provocando um surto demográfico anómalo e uma carência de machos no Império que governava, obrigando-me a ordenar a procura de planetas onde o Y ainda se mantivesse em condições e fosse compatível com a espécie em risco. A Terra preenchia estas exigências e o maldito Freud tem, de certeza, uma explicação para este desvio planetário.

Hoje, vendo o que me é dado, mudava sem hesitar o destino da nave, mesmo correndo o risco de transformar o Império no paraíso de Safo.

O modo como fazia a selecção do macho terráqueo, assim como a forma de extracção e inoculação do cromossoma desejado, era do outro mundo - é fácil de prever. Abstenho-me de o referir, porque já causei desgostos suficientes à minha família.

A verdade é que, mesmo antes da ameaça de exterminação, sempre me preocupou o facto de nunca ter acertado na fatiota que deveria usar nestas andanças intergalácticas.

Até que a Vogue me fez ver a luz que se reflecte na carteira incómoda, mas resplandecente de glamour, e na gargantilha com um ligeiro sabor a Vaticano gay. Nada poderia servir tão bem a uma imperatriz com problemas de índole cientificamente sexual como o que é proposto pela imagem e se condenamos a extrema magreza do modelo, tenhamos também a honestidade de reconhecer que sem o Y toda a mulher passa fome.

26.9.24

A Gaffe das mariposas


Existe uma criatura que deixa a Gaffe muito irritada. É claro que não se restringe ao masculino, mas é mais comum ter de a enfrentar neste género.

O limpinho

É um rapazinho delicado e educadíssimo e embora seja difícil reconhecê-lo pela imagem, é habitual ter como suporte um ar minimalista, mesmo despojado e sem grandes ambições.
É correcto. Nada nele é vulcânico. Chega a ser a encarnação do Buda, mas em magro. Numa discussão é capaz de afirmar com a calma das superfícies desertas que se levantarmos a voz, perdemos a razão, desconhecendo que a razão não depende do volume do som com que a expressamos e que permanece nossa, se for nossa, quer expressa aos gritos, quer toldada por um Lexotan. Existem formas desagradáveis de a defender, é tudo.

Tem alma de pequenino censor e como a censura só se ergue como monstro quando atinge revoltantes proporções, o rapazinho vai cortando ali e acolá, deixando no frio dos seus dedos manipuladores pedaços decepados do que ouviu ou leu e que lhe servem para polir tiradas de pacificadora índole.
Tem algures um aparelho estranho com que mede a vida dos outros. Normalmente todas são pequeninas segundo as avaliações que faz e que acabam por empolar aquilo que vive. É uma forma subtil de se ser um ditador minúsculo e caseirnho.

É um conciliador primaveril. Procura tanto o ponto de vista dos outros, que acaba sem paisagem sua, saltitando de flor em flor, de cacto em cacto, recolhendo o orvalho para moldar a sua própria nuvem – de algodão doce, já se vê.
É tão corridinho, tão direitinho e tão perfeitinho que deixa de ser homem para ser apenas uma forma de apertar o que os outros escrevem com a vida.

A Gaffe encontrou um. Gostou da camisinha abotoada e perdoou-lhe o muco incolor do seu voar tremeluzente e lavadinho.

22.9.24

A Gaffe metamorfoseada


Com um bom gosto incontornável, a minha irmã tem a tenebrosa tendência para aproximar as gentes das imagens que delas recria e que tem a certeza são as certas. Por essa razão, é perigoso soltar a inocente frase que nos condena ao suplício:

- Ajudas-me a escolher?

O inocente é então domado por completo. Resiste armado até aos dentes com sucessivos NÃOOOOO! ou sofre metamorfoses impensáveis. Não há outra saída.

Depois é só esperar. Às vezes dá erro e diverte imenso.

Tenho o prazer raro de assistir a mudanças, reformas, mutações e reviravoltas diversas.
Atingem inocentes que, na mais perfeitas das canduras, permitem que a minha irmã opine e deixam que ela escolha o que, segundo diz, lhes pertence desde sempre e, caso haja hesitações, caso se atrevam a apontar timidamente uma ou outra banalidade de que gostam, ouvem silvar a seta disparada:

- Não! É engano teu. Eu SEI que tu não gostas.

O caso do meu irmão é paradigma.
O pobre homem é um gigante meigo e manso, dócil e maleável nas mãos certas ou naquelas que manobram com sucesso e desde sempre nas mais ínvias estradas desta vida.
A minha irmã de dedos longos de ave de rapina ou bisturi, vestido escarlate e olhos pardos, predadores, prende e segura, domina e avassala, as escolhas do colosso antes que o colosso escape sem a ouvir, para longe daqui
Então foi vê-lo, inadaptado e pasmado, com ar perdido e resignado.

- Trocar de botas. Longe, muito longe as já cansadas botifarras sujas.
- Calças? Oh!, mas nem sonhar com essas, castanhas sem pingo de charme, com um ar de cavalheiro antigo.
- Blusões de malha bem grossa? Eventualmente serão os permitidos. Se não houver tranças ou risco azul-escuro ou decote em V. Mas tens de usar mais lenços! Adereços! Cores!
- Nada de camisas lassas como velas.
- Nada de terra na cor ou na mancha. É urgente colorir-te.
- Cinto renovado que o velho está gasto e, pasme o planeta, tem nódoas no couro.
- Blazer novo? Pois sim. Mas não de espinha, não um beje claro, mesclado de cinza. Tens de usar mais cor!

Conformado e zonzo, perdido e espantado, mas já galhofeiro, o meu pobre irmão, colorido Gatsby, personagem solta e a tocar o tonto, dentro dos vinhedos, desgarrado e perto das raízes, no outro lado do paraíso, terno como a noite.

Já perto do fim, murmura-me ao ouvido:

- Não ligues. Deixa-a divertir-se. Eu no avião troco de roupa.

20.9.24

A Gaffe diagnostica

A Gaffe conclui que a Ciência tem muitas vezes encontros desagradáveis com o quotidiano.

Para ilustrar o dito é necessário reorrer a um exemplo digno de nota.

Todos nós já nos cruzamos algures com uma criatura cuja perturbação de personalidade nos causa algum espanto.

É fácil recorre à sabedoria popular e apensar à indiferença que depois sentimos o famoso dito os tolos também se abatem, ou aprendem, desde que encontrem a paciência do terapeuta adequado.

A verdade é que perante a Gaffe surgem criaturas estranhas que, se esta rapariga se preocupasse, lhe causariam algum desconforto.

São, para sua surpresa, normalmente mulheres cuja vida se exauriu dispersa por conceitos distorcidos e por preconceitos que foram mantidos como verdades intocáveis, perturbando-lhe os movimentos e encerrando portas e janelas até à imobilidade e à solidão total.  

Acreditam piamente que os fantasmas que vão criando são os responsáveis pelas sombras tenebrosas que lhe tolhem todos os cantos e todas as esquinas dos fracassos que acumulam. Defendem-se aos gritos condenatórios, amarrando a fúria que provém de uma frustração constante com as cordas de uma alegada frontalidade que não é mais do que cuspir nos outros quando os outros estão de frente.  
Apregoam desmesuradas a liberdade. Desconhecem que a Liberdade é também um exercício constante de autocensura e, sentadas no banquinho dos medíocres, vão jurando que são maiores do que aqueles que as contradizem, negando-lhes tamanho, enquanto retiram da pochete as moralidadezinhas que dentro enfiaram quando rondavam os WC de Centos Comerciais em decadência manhosa.   
Erguem exércitos de bestas e de monstros cujo único propósito é a destruição das suas preclaras vidas e constroem batalhas de farrapos onde nada existe a não ser o profundo deserto onde sobrevive o cacto das suas existências.

São Átila, a galinha.
São garnizés anabolizados.

Perante estas criaturas o dito popular torna-se hipótese viável.

É a ciência que o contradiz. O imprescindível DSM - Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – dedica algumas das suas preciosas notas a estas criaturas, classificando-as como Paranóides, incluídas no grupo B - o Dramático - dos antissocias, borderline, histriónicos e narcisistas.

E como toda a gente sabe, não se deve bater nos tolinhos.

Gaffe - 20/09/2020

A Gaffe do escritor


Cruzei-me na Zara Home, com um jovem - enfim, já os conta certos, diria a minha saudosa Jacinta -, escritor em voga.

Uma rapariga esperta habitua-se a ler determinado autor e, de forma um bocadinho irresponsável, cria dele uma imagem física muito nítida que sente que corresponde à sua escrita. Quando este lapso se alia ao facto de não se ter em conta que a figura que passa no televisor está alterada e filtrada por demasiados ornamentos, o resultado só pode ser uma desilusão, não literária, mas literal.

O autor é mais atarracado do que imaginava, tem uma barriga proeminente e uma cabecinha inesperadamente minúscula, ou então contrasta com o ventre. Baixinho e com ar usado, não tem propriamente um pescoço de cisne e faz lembrar uma tartariga ligeiramente presunçosa.

Uma decepção!

Este erro que se comete quando se vai criando uma imagem do Outro à medida das nossas ilusões, dos nossos destemperos, das nossas falhas ou faltas e até dos nossos azulejos, a partir de dados que são apenas processados pela capacidade de criarmos mitos, produz inevitáveis desapontamentos.
A realidade acaba por ser o sonho que montamos com peças que encaixam apenas no nosso desejo imenso de encontrar a complementaridade e a plenitude, a unificação e a harmonia. É um real falacioso, capaz de nos trair aquando do confronto, nu e cru, com a verdade que jamais se compadece com a fantasia.

Há, no entanto, o verso da moeda - existe sempre. A fantasia que não se compadece com a realidade e que a supera, transfigura, transforma e converte, tornando-a essencial e única escolha possível no processo quotidiano do viver.

A escrita do talento que encontrei na loja mais banal do que nunca, faz dele o homem espadaúdo, másculo, alto, ágil, elegante, atraente, viril, sensual e sedutor.

Talvez por isso sinta sem a mínima hesitação que na Zara Home me cruzei com uma tartaruga de sonho, absolutamente irresistível.

19.9.24

A Gaffe a acenar


Ter saudades é como ter nos olhos uma ferida, um pedaço enegrecido de um penedo ou a voo de uma ausência que se consome e apaga contra o vento em que se tornou a alma.


a Gaffe repreendida


Atrasada, como convém a uma rapariga mentalmente elegante, dou por mim a descobrir-me abordada pela ótoridade por estar a retocar o rímel numa parada fila de trânsito.

É sempre uma maçada ser-se repreendida, mas há no entanto que relativizar estas questões e não desatar a ganir nas redes sociais. Não é de bom-tom, não é BCBG e cheira a Nally, cinco euros o litro.

Impõe-se uma visão mais positiva destas coisas. A Gaffe sabe que é suspeita, porque admite que lhe é agradável ver um matulão digno de figurar no MET, a aproximar-se enfiado numas calças divinais, presas numas lustrosas botas de couro preto, de pala a esconder-lhe o mistério dos olhos, repleto de cintos, com uma camisa a rebentar de músculos e um queixo largo, másculo, sombreado por barba de três dias muito prometedores.

A Gaffe aguarda dentro do carro a chegada da autoridade e espera serenamente que lhe peçam os documentos. Entrega-lhos na expectativa de ver o rapagão erguer-se para vasculhar a legalidade daqueles papelinhos. Nessas alturas, esta rapariga fica invariavelmente na janela do veículo - como eles adoram dizer -, com uma paisagem que faz esquecer qualquer possível repreensão.

É ligeiramente constrangedor, sobretudo quando levamos a velha tia no lugar do morto - e sobretudo quando a senhora ainda está viva -, ter tão perto do nariz as armas proeminentes da autoridade, mas, se olharmos de soslaio, como quem não quer a coisa - há alturas em que somos exímias mentirosas -, conseguimos manter o incêndio circunscrito a um corar desmesurado e a um discreto salivar.

Há momentos em que uma rapariga esperta tem de sacar dos limões azedos que a vida lhe oferece, uma limonada refrescante. O açúcar, minhas caras, está quase sempre num borboletear esperto de um friso de pestanas com o rímel espalhado antes de se tocar no manípulo das mudanças.

18.9.24

A Gaffe num postal ilustrado


A Gaffe fica sempre tão nostálgica e entristecida durante o tempo que se aproxima!

Não sabe porquê.

Talvez porque a festa das vindimas no Douro a faça sentir como um ninho abandonado pela ave que aprendeu o voo. Esta rapariga ainda se lembra do calor do corpo e do dormir do pássaro que partiu, mas tem de inventar-lhe as asas.

Talvez porque as tardes se deponham em silêncio e se espalhem no chão como se houvesse tempo para tudo.

Talvez porque não baste um postal ilustrado. 

Talvez tenha saudades.

Saudade.

No entanto olhar estes socalcos é tão simples!

A Gaffe não sabe o que fará depois de olhar, mas sabe que em cada olhar o Douro existe o recomeço dos dias enfiados como pérolas nos fios do silêncio.

O tempo tropeça no corpo do Douro quando avança pela sala distraído, mas não magoa.
A simplicidade absoluta está em não fazer doer.

Talvez por isto tudo a Gaffe esteja apenas triste.

A Gaffe viajante


A minha avó marca a folha do livro com um postal ilustrado antes de o fechar e erguer os olhos.

Abre depois a cigarrilha em prata. O fumo do cigarro esparso, no aposento.

A minha avó sorri e segue com os olhos a estrada cinza ténue que se esfuma.

- Minha querida, se decidiste partir, tens de saber que nenhuma estrada te vai levar para lá de ti. Não viajamos nunca. Ausentamo-nos.

Há lágrimas nos olhos da minha avó.

O fumo. Ah!, o fumo.

Partir é apenas uma ilusão que fica. Acreditamos sempre na viagem, mas o que resta em nós é a ausência sentida nossa no lugar que fica. Não viajamos, minha querida, a não ser por dentro.

O fumo, avó! O fumo.

- Não saímos nunca dos lugares onde fomos amados.

Do livro fechado, um postal que tomba. A página perdida.

Paris, anos 40.

Na foto - Lee Miller - Paris, 1944

17.9.24

A Gaffe dos fofinhos


Dentro das polémicas, divertidas e muitas vezes pouco seguras classificações antropológicas, sociais ou culturais, que os estudiosos costumam referir e que descrevem tribos urbanas, subculturas ou subsociedades, que vão desde os punk, os headbanger, os neo-punk, os rockabilly, os nerd, os emo, os skatista, passando pelos ligeiramente insossos peper e pelos assustadores skinheads, perdendo-se numa panóplia de denominações que custa memorizar, mas que reúne grupos ou agregações com características comuns e identitárias que apresentam uma conformidade de pensamentos, hábitos e maneiras de se vestir, de agir e de pensar, não existe o que a Gaffe considera um dos mais queridos. Os  ...

... Fofinhos

São esmagadoramente muito jovens e com um allure feérico que perfuma de ingenuidade as nossas artimanhas maquiavélicas destinadas a catrapiscar-lhes a inocência. Gostam de cardigans com jacquards tradicionais, ou t-shirts vintage, e usam uma espécie de ceroulas de malha lassa e bamboleante que nunca deixa de estar sintonizada com a imagem simultaneamente estudada e descuidada que se complementa com adereços em pele ou pêlo. A rudeza e agressividade das botifarras que usam quando descalçam as all-star, são atenuadas pelos quebradiços atacadores soltos e sem nó, que nos fazem imaginar o tropeçar do fofinho e a queda subsequente nos nossos braços que o esperam.

Apesar de revelarem algumas preocupações ecológicas, estão vocacionados para a defesa dos animais mais amorosos, coalas, golfinhos e pandas, deixando os monstros de Chila e os demónios da Tasmânia para depois do jantar, quando chega a hora de deitar, que é o momento em que demónios e lagartixas venenosas são frequentes debaixo das camas dos meninos. Apesar de desportistas com um elevadíssimo fair-play, não gostam de competir com os pares e preferem as braçadas solitárias em piscinas de cristal. Um onanismo atlético de que não resulta perdedor.

Conseguem ler romances com menos de trezentas páginas, mas esquecem facilmente os autores com que se cruzam passando os dedos pelas lombadas das estantes das bibliotecas onde fazem esvoaçar os seus olhares tristonhos e distraídos.

Os fofinhos, óptimos companheiros de uma tarde de ócio ou de um entardecer de ópio, possuem uma das mais atraentes características de que há memória: uma aparente candura e desamparo que nos desperta o instinto protector e nos leva a cometer os maiores dislates, as maiores marotices e as mais inconfessáveis das asneiras.

São como os grandes diplomatas: tiram, parecendo que nos dão.

A Gaffe num sorriso


São tão bonitos os homens que sorriem com os olhos!

Ficam iluminados. De olhos grandes, fechados com gargalhadas dentro. Os sons ecoam neles como nas abóbadas de duas catedrais.

Quando os olhos dos homens se riem, as palavras ditas antes parecem balões largados no ar, a perder a forma.

16.9.24

A Gaffe exigente


Depois de lhe ter sido mostrado TODO o stock da loja, a minha irmã finalmente encontra!

 - É exactamente esta a cor que eu queria, só que em verde.


A Gaffe no Tibete


Sogyal Rinpoche descreve em livro a filosofia subjacente ao conceito de vida e morte de forma que considero clara e concisa.

Não vou sequer discorrer sobre o assunto, porque não tenho capacidade para espirrar o que quer que seja perante a magnificência do que ali é referido, mas há um pequeniníssimo pormenor que me deixou perplexa e que me atrevo a referir aqui.

Diz o volume, a certa altura, que entre o impacto do reconhecimento de um drama ou de uma tragédia, de uma alegria ou de uma felicidade extrema - entendamos drama e tragédia, alegria e felicidade de acordo com as nossas subjectividades -, e as reacções que provocam, existe um instante em que a nulidade surge aliada a uma impotência com características universais e transversais. Ficamos absolutamente vazios nesse brevíssimo instante que poderá não durar não mais do que décimos de segundo.

Esta absoluta nulidade, esta nudez, não é nada mais do que a Libertação. O facto de durar um tempo ínfimo, permite a imediata invasão do raciocínio e da emoção correspondente ao facto ocorrido.

Está na aprendizagem do prolongar deste vácuo o segredo dos mestres tibetanos. É neste espaço que procuram a existência e é neste intervalo oco que colocam a vida, isentando-a e expurgando-a.

Tudo isto pode não passar de um apontamento insultuoso perante a esmagadora sabedoria dos mestres tibetanos, mas talvez não seja disparatado pensar que seriamos considerados um bando de autistas, ou dignos de internamento compulsivo, ou com elevadíssimos défices cognitivos se, no Ocidente, desatássemos todos a aprender a flutuar nos intervalos da chuva.

No Ocidente, não nos molharmos é circense.

15.9.24

A Gaffe absorvente


É peculiar a frequência com que esquecemos que o desfecho da frase se não podes vencê-los pode não ser aquele a que por norma estamos habituados a unir. Há uma resposta à condição expressa no arranque da batalha que é muito mais frequente do que aquilo que pensamos.

Se não podes vencê-los, absorve-os.

A diluição de conceitos, princípios, ideais contrários às realidades instituídas - ou mesmo reacções a factos que nos são adversos, porque desumanos e mesmo fatais -, na atmosfera que os vai produzindo e alimentando, não é de desprezar. A manobra do instituído que produz a capacidade de absorver o que lhe é contrário, torna inócua, neutraliza e banaliza, a acção que visa combater precisamente aquilo que a vai normalizando, atenuando, ou eliminando os efeitos que eventualmente produziria.

A facilidade com que se produzem mitos e símbolos - que são em última instância a resposta a uma falha, a uma ausência, a um vácuo - tornou-se equivalente à capacidade que os responsáveis por essa mesma omissão têm de os absorver e neutralizar. 
O exemplo mais fácil e mais capaz de ilustrar o dito é Malala Yousafzai que depois de publicitada, elevada ao estatuto de heroína, incensada, medalhada e galardoada, perdeu força significativa, atenuando-se o impacto mediático da sua luta e impedindo-se desta forma que a multidão de espoliadas de que era bandeira, não se chegasse a unir e a seguir. A força que parecia invulgar do seu discurso e da sua atitude, restringe-se agora a palestras, a conferências e a elocuções mais ou menos esperadas. Malala passou a ser apenas mais um rosto simbólico - o símbolo que não povoa o vácuo - numa galeria de cabeças que o poder instituído consegue absorver e que reserva para, numa hipocrisia letal, aplaudir de quando em vez.

É o caso ainda de Greta Thunberh.
Foi clara e inequívoca a tentativa de aplacar o discurso, a atitude, o conceito, e a ameaça que a ambientalista conseguiu encarnar, por parte dos que são acusados pelo seu inesperado aparecimento. As manobras de dissuasão parecem idênticas às usadas no caso anterior. Estatuto de heroína, reconhecimento, aplauso internacional e nomeação para o Nobel da Paz. A absorção do que parece não se conseguir vencer, teve então o seu início. Tornar Greta Thunberh num sucedâneo mais jovem de Al Gore, arrastando-a e exibindo-a de palestra em palestra, de entrevista em entrevista, de conferência em conferência - pagando-lhe principescamente por cada uma -, é a diluição perfeita e almejada do grão de areia que, depois de parecer uma ameaça, vai sendo incorporado na máquina que adapta e recicla o elemento que absorve. A jovem amorteceu a sua identidade.

Deixamos de olhar estas vozes como quem olha a última fotografia da sonda Cassini, antes de ser absorvida pela atmosfera de Saturno que acabava de captar.

É a estranheza do singular que une as multidões e são as multidões que a neutralizam.

14.9.24

A Gaffe com pés de barro


A eternidade de um mito depende da sua capacidade de permanecer preso no casulo do seu apogeu.
O tempo enfraquece o símbolo, quando o símbolo depende da decadência do frágil.

O mito, tal como os deuses, tem os pés atados à volatilidade humana.

13.9.24

A Gaffe e o provérbio apache



O que não ouvir o coração do povo, terá a cabeça mirrada e a coroa vendar-lhe-á os olhos *

*Mentira. Inventei agora.

A Gaffe Kamikaze


A Gaffe, de quando em vez, e lê os jornais e e vê os bonecos.
A Gaffe, de vez em quando, está atenta ao latejar do seu país.

É uma atitude que a maça imenso, mas que considera essencial para seu crescimento intelectual - coisa que, como é sabido, eleva qualquer um, apesar de ser mais interessante ver a chuva a cair e gatinhos a miar na rede.

Num destes batimentos auscultados, a Gaffe ouviu Luís Montengro a exigir respeito aos deputados, pouco tempo depois de ter anunciado aumentos de reformas. Um reformado que tenha direito a tal pois será-lhe concedido o bónus governamental. Não se pode olvidar – a Gaffe estava ansiosa por usar um termo parlamentar! – que Marcelo já tinha comunicado com a presidenta, relatando-lhe o ocorrido, sempre atento ao género. Um gramático dramático disfarçado de estadista.

É evidente que o nosso sentido de Estado pode e deve tentar uma aproximação piedosa aos falados referidos e que podemos mesmo recordar para esquecer que Portugal ofereceu - ainda que não tenha sido a pedido das ucranianas vítimas -, seis helicópteros Kamov de combate a incêndios estacionados há anos algures por aí. As maquinetas são enviadas no estado em que se encontram depois de terem sido comprados em segunda mão há décadas. Portugal recicla o lixo, meus amores. Putin que se considere uma criatura calcinada. Com os Kamov do tipo kamikaze não há kremlin que resista. É de lamentar que não se tenham lembrado dos submarinos que Portas deixou à entrada - pois que davam belíssimos bunkers. Afinal é o exército - não a marinha - que prevê acolher cinco recrutas de Vale dos Judeus. Toda a gente sabe que reciclar estes senhores, com características que não assustam nada, é uma atitude fofa e que só arde se a recruta os irritar um bocadinho.

Tendo em consideração a cinza que nos caiu na dignidade e que dá vastíssimo trabalho a limpar, tudo se torna uma paisagem cinzenta sem uma única piscina de bom senso a funcionar no verde da espreguiçadeira do remanso. Será bom de ver que depressa deprimimos.

A Gaffe - para finalizar, que tudo isto é uma maçada -, sublinha que, contrabalançando estes extremos ocupados por ditos descompensados e erros a recompensar, podemos sempre olhar para o outro lado e encontrar no meio do espanto e da mais veemente indignação uma criatura qualquer imigrada só o senhor sabe de que sítio – e apenas porque o senhor é bom - que nos come os bichinhos lá de casa.

É lamentável a Gaffe não se ter referido às urgências fechadas , aos partos de autoestrada, à época de férias, à época do frio e à dos incêndios, mas haja quem enfie um microfone no rabo, gaseando todos os nossos alvoroços, sobretudo aqueles em que esta pobre rapariga se debruçou, estúpida, parva, imbecil e sem paciência para perceber que não será-lhe dado o estatuto de presidenta de coisa nenhuma.

1.9.24

A Gaffe de farda


É perturbadora a fascinação que sentimos por fardas!

Não excluo os homens deste imenso grupo deslumbrado. Uma rapariga esperta não esquece as Influentes armas que lhe chegam às mãos num uniforme de enfermeira, mais ou menos picante - farda e moçoila -, ou quando se mascara de ingénua colegial pronta a ilustrar Nabokov, ou quando a comissária de bordo agita os braços enfarpelados espargindo perfume pelas indicações de voo, ou ainda quando decide que tem todo o direito de desatar a miar, numa aproximação caseira a Michelle Pfeiffer na sua inesquecível Cat Woman.

Toda a segurança é abalada quando uma farda se atravessa no caminho.

Implorando o perdão dos mais sensíveis, não é descabido, sem sentido, absurdo e tonto, referir os mais belos uniformes de todos os tempos, os do III Reich, contribuíram de forma subliminar para a submissão completa de uma população a aniquilar. O poder que destas fardas emanava domínio, a negra beleza dos cortes perfeitos e a imposição tirânica e titânica da sua imensa fascinação sinistra, colaboraram no esmagamento da vontade de reagir ao Terror.

Os uniformes provocam - muitas vezes numa mistura impressionante com o medo e outras tantas com a agressividade, o desejo, o deslumbre -, a sedutora, embora submissa neste caso, atracção pelo domínio e pelo poder, seja ele de que espécie for.

Somos frágeis. A insegurança corre-nos nas veias, mesmo quando não sentimos o seu latejar. Creio que a necessidade de protecção, de abrigo, de asilo, de resguardo ou de refúgio, provoca a necessidade de obediência subtil, e tantas vezes fatal, aos que vestem o símbolo mais visível de poder e de força.

Estamos inconsciente e perenemente perdidos e é nos signos que encarnam a potência e o domínio que procuramos a indicação da rota a percorrer.
Trágico é quando, nesta atracção, encontramos o abismo. Neste caso, para o atravessar é precisa a nudez.

Tudo isto se desenrola, apenas porque temos de assumir, raparigas, que nos babamos.


Babamo-nos quando vislumbramos desprevenidas uma farda ou uniforme capaz de nos fazer crer que o rabinho do dono saiu de um expositor do MET; quando adivinhamos dois peitorais de aço a rebentar a camisa; quando deparamos com duas colunas musculadas enfiadas em botas de couro polido; quando sofremos por não poder fazer deslizar os dedos pelo cabelo rente de quem nos faz parar o carro ou de quem nos mostra a arma inacessível e quando imaginamos cenários de guerra e de guerrilha, internas e aconchegadas, protagonizados por um destes rabinhos fardados, que fazem ruborizar Belzebu, já que os outros e celestiais arcanjos tremem de pavor perante estas quedas iminentes.

Babamo-nos e só não esbugalhamos os olhos porque, não sendo o rímel YSL, receamos que as pestanas se nos colem à testa.

Dizem as más-línguas que o apelo erótico que nos abrasa quando vislumbramos um uniforme bem vestido, equivale ao que a visão de Irina Shaik em lingerie provoca no masculino olhar.

A Gaffe não subscreve.

Uma farda bem vestida inflaciona a reserva erótica do portador e, no caso dos soutiens, é geralmente o seu conteúdo que favorece o rendilhado.

Mas o facto de salivarmos perante estas visões enfarpeladas, não pode implicar descuidos no terreno.
O episódio estrelado pela Gaffe ilustra cabalmente o que foi dito.

Perante o deslumbrante polícia de trânsito, a Gaffe decide sair do carro para solicitar a informação, pormenorizada em papel couché, que traz na carteira ao lado do bâton - há estratégias de abordagem que se tornaram clássicas.

Vai babada e não segura.

O fabuloso animal fardado de quem se aproxima sorve-lhe toda a atenção e povoa-lhe os mais esconsos pensamentos, toldando-lhe o raciocínio com imagens pouco dignas de uma menina de boas famílias. A Gaffe usa todas as artimanhas que possui - e possui várias -, retiradas do arquivo Seduzir Fardamentos, lamentando, mais uma vez a porcaria do calor que a impede de ter uma brutal cabeleira esvoaçante e estonteante, repleta de caracóis possíveis de espargir pelo espaço e capazes de enredar a resistência. Está tudo mole!

Vai de sorriso armado e ondulante, pestana a saltitar e pezinho leve.

Tropeça.

Tropeça miseravelmente.

Esbraceja estropiada de tacão partido, esvoaça deformada, estrebucha já estragada e desaba aos pés da cobiçada figura bem fardada. Nem sequer fica de joelhos, posição mais aceitável e compreensível, dado o contexto de uniforme. Estatela-se com as pestanas cravadas na biqueira da bota do portento, absolutamente humilhada por não ter sido premeditado o tombo - com destino aos braços do rapaz -, mas apenas produto do encontro deplorável com a porcaria de uma pedra solta no meio caminho.

É evidente que depois de uma catástrofe destas, uma rapariga deseja somente e com a ardência dos joelhos esfolados, a cela de um convento.

Há, como fica demonstrado, a urgência de aliar a baba a uma atenção acrescida às agruras de um pedaço de mau caminho.

Nota - O homenzarrão consumiu imenso tempo a apanhar o conteúdo da minha carteira espalhado por todo o lado e perdeu toda a carga erótica quando comparou a dispersão dos meus parcos haveres a um desastre de avião.