Toda a rapariga esperta sabe que por vezes um touro fechado na cozinha faz menos estragos do que um toureiro na cama.
30.12.24
A Gaffe e as touradas
Toda a rapariga esperta sabe que por vezes um touro fechado na cozinha faz menos estragos do que um toureiro na cama.
24.12.24
23.12.24
A Gaffe cumpre a tradição
Salvo raríssimas excepções, a Gaffe, por muito desgrenhada de lonjura e de trabalho, jamais se esquece de regressar aqui nesta ocasião.
Não vem de fugida para encaixar com inigualável perícia uma lâmpada nos objectos que necessitam de fios coloridos para funcionar – a Gaffe depreende que os rapazes que gostam de bricolage conseguem fazer piscar uma avenida inteira transformando-a no orgulho da família mais chegada -, mas para vos dar uma péssima notícia, raparigas.
De acordo com fonte seguríssima, todas as raparigas que se portaram terrivelmente mal durante o ano, não vão ter a visita do Pai-Natal.
O Pai-Natal nestes casos terríveis, como castigo vai enviar o sobrinho.
7.12.24
A Gaffe de "Notre Drame"
O objecto Notre-Dame é uma construção e reconstrução dos homens.
2/3 do telhado desapareceram. Pertenciam ao século XIX.
O arco de pedra sob o telhado não sofreu grandes danos.
As torres e a fachada da Catedral estão a salvo, embora a estrutura necessite de avaliação cuidada.
A esmagadora maioria dos vitrais resistiu. Estão ilesos. Apenas uma das rosáceas se estilhaçou.
A flecha da Catedral datava do século XIX. Não provinha do
século XIII. As suas dezasseis estátuas tinham sido retiradas dias antes.
As relíquias foram salvas.
O orgão da Catedral não sofreu danos.
O signo Notre-Dame há séculos que se havia tornado arquétipo e a raiz da Árvore é de pedra, em cruz como as catedrais, e mantém nas garras a memória colectiva, tornando-a única, mas transmissível, pertença absoluta de cada um que passa, subjectiva, como é de seu paradoxal destino.
Talvez por isso os sinos das mais icásticas Igrejas de Paris tenham tocado juntos a rebate, carpindo o incêndio, avisando os homens como não o faziam há já mais de cem anos. Pranteando a tragédia do signo ameaçado, prevenindo os homens da irremediável fugacidade da existência que acolhe o esquecimento e a indiferença como motor civilizacional, como objecto do progresso, como exclusiva ferramenta do real.
Nada é tão vazio, tão terrivelmente oco, tão desoladoramente triste, como ilustrar a ardência de Notre-Dame com o quasimodinho da Disney agarrado as lágrimas com que banha as torres. Nada é tão revelador da distância que separa o homem do signo, da desvinculação do homem ao símbolo.
O nosso drama é que choramos demasiadas vezes através da Disney.
16/04/2019
A primeira vez que entrei em Notre-Dame foi pela mão da minha mãe.
Fiquei uma tarde, já tarde - tão tarde! - segura pela chuva. Fechei o casaco e calcei as luvas, amarrotei o abraço para não sentir frio e fiquei a ver o sossego pasmado. Veio então de novo aquela morrinha que é ser feliz ou pensar que o somos. Procurei as luvas sem me aperceber que já as tinha calçado e não tinha nada a não ser Notre-Dame à chuva e senti a chuva a cair dentro de mim.
Quando eu voltar a Paris, não tenho a Catedral e sei que a chuva vai cair lá fora.
15.11.24
A Gaffe de fugida
Em Paris, volto a ser o que sempre fui. Uma revolta ruiva.
Desejam-me mais velha e mais madura. Dizem-me alguns com os olhos doces, estendendo-me os braços, e seguros de que seria bom que eu os ouvisse quando mo dizem.
Procuram, tenazes, o meu lugar correcto, fixo, imutável. Esquecem que desconheço o Norte, que nunca fui capaz de o apontar certeira, que dentro já sou nómada e que perdi os rumos, as rotas e as sedas, que nunca fui capaz de erguer sozinha as telhas nos desertos.
Eu cruzo os braços, lassos e cheios de ironias e cansaços e talvez vá por ali.
A indiferença poderá toldar-me os passos. Serei velha burguesa, parisiense e snob, embutida em spleen queirosiano, com tigres aos pés, mas só os de Blake e o de Borges, e com a alma escurecida de uma Woolf.
14.11.24
A Gaffe vaporosa
Embora actualmente de forma pouco segura e muito mais flexível, as rendas, os bordados e os padrões florais ou floridos, foram durante demasiado tempo apanágio do feminino.
Este facto deu uma enorme vantagem às mulheres que se apoderaram com convicção das potencialidades deste universo vaporoso e frágil, armadilhando-o e fornecendo-lhe uma conotação erótica que é, em última análise, proveniente da ausência que passa a obrigatória destes elementos no círculo de uma masculinidade empedernida que se vê deslumbrada e desperta pelo sussurrar destes tecidos.
O astuto, cuidadoso, engenhoso, e muitas vezes inquietante, uso feminino das rendas e dos padrões florais, opera maravilhas no subconsciente dos incautos rapazes que presos nas redes, teias e flora dos tecidos, acabam por sucumbir ao fascínio do que lhes é interdito.
A proibição, aqui como na esmagadora maioria dos casos, incute e impele o desejo de transgressão e é agradabilíssimo sentirmos que no esvoaçar do pano se liberta a sombra do pecado e o subtil fascínio da irresistível feminilidade.
Mas - convém não esquecer -, a lua tem uma face mais obscura e trágico é quando este miraculoso encantamento de rendas e bordados a preceito, se traduz na visão catastrófica do nosso rapagão a desfilar pela brisa da nossa intimidade usando, balanceado, as nossas artimanhas.
A Gaffe gregária
Às vezes lamento a solidão.
Na essência de qualquer vida subjaz o desejo de partilha, de contraponto ou de contraditório.
Raros são os que vivem indiferentes à possibilidade de repartir com outros até o que é escrito depois de pensado.
Somos bichinhos gregários e, mesmo através de um teclado, ousamos querer dividir, somar, multiplicar, deixando a subtracção como manobra escusada.
Às vezes sinto que o pó das asas que não tenho se pode expandir e voltear, criando o amontoado de palavras frágeis e tontas que - iguais a todas as que já foram ditas e apesar disso -, atapetam de insignificantes, minúsculas e efémeras cores os segundos que de vez em quando olhamos distraídos.
Às vezes esqueço-me de que duro um dia.
13.11.24
A Gaffe, arsénico e rendas velhas
Nem sempre as joias são o costumado brilho encastoado em metais de fino trato.
A Gaffe no vosso mail
Alguns portugueses - sobretudo os do meu querido Porto - trazem nas redes algumas pérolas que fazem rolar a língua por mares que pareciam ter sido abandonados, mas que continuam a encher as marés do nosso espanto linguístico.
12.11.24
A Gaffe "homossexualista"
A Gaffe está mais uma vez ao lado, mas mesmo juntinho, da maravilhosa ministra da saúde, Ana Paula Martins, que a cada passo nos deslumbra, superando aquela coisa feia que a estátua da Liberdade tem na mão erguida.
Depois do descalabro dos concursos promovidos pelas ULS para jovens médicos especialistas; depois de nos ter mentido e tentado enfiar o INEM no lugar que lhe pertence desde tempos imemoriais, ou seja, a andar de carroça e a chicote das horas extraordinárias, chega-nos agora revoltada, chocada, escandalizada, com a cor dos boletins de saúde infantil e juvenil que, sob os auspícios da Direcção Geral de Saúde, passariam de azul para os meninos e rosa para as meninas, para um amarelo para todos.
Este abuso colorido da DGS condena as crianças ao jugo que da moderna tendência homossexualista – diria Maria José Vilaça ou Helena Costa - que grassa no Ocidente e que, mais cedo do que se pensa, vai desertificar o planeta.
Se já existem colecções de roupa infantil que tanto dá para um lado, como para outro – o que já é de bradar aos céus -, tentar abolir a distinção dos sexos através da cor, cerceia a nossa capacidade de discernimento e contribui para esta espécie de daltonismo sexual que os homossexualistas defendem e promovem, ultrapassando mesmo as fronteiras e os limites traçados por Deus.
A Gaffe considera um HORROR.
Acredita piamente - como Deus manda - que esta contínua aniquilação de códigos ancestrais, levada a cabo por gente LGBT, ou LGBTI, ou LGBTI+ - ou coisa que o valha -, é um perigo para a civilização, tal como a conhecemos e respeitamos, e não vai ser interrompida antes de destruir por completo a vantagem que detínhamos sobre o homossexualismo - que nos foi dada por Nosso Senhor -, e que nos permitia imediatamente identificar - e saber lidar com isso - qualquer personagem que nos surgisse na frente.
Tentar anular os códigos sociais expressos nas cores ou trocar o logótipo da identidade digital do país confundida com um símbolo da nação, é trágico, mas é tarefa destes monstros que consideram primordial levar a civilização ao homossexualismo total.
A Gaffe teme que se intensifique a possibilidade de uma mulher usar um vestido vermelho intenso e justo, sem se perceber que anda a pedi-las. Não é de todo de espantar, pois que já é com alguma dificuldade que conseguimos discernir um toxicodependente de um gótico, ou de um emo, ou de uma pessoa de luto, através do preto que usa em look total e - a propósito - já é absolutamente incriminatório intuir - porque somos lógicos e racionais - que uma pessoa de cor mais escurinha é uma ameaça potencial à nossa segurança e que tem a pila grande, ou que uma pessoa mais amarelinha tem a porcaria dos genes dos olhos em bico entranhada no corpo e abre lojas com plásticos a cheirar a petróleo, mesmo ao lado da Prada.
Uma mãe que sabe o que é ser mãe, que sabe estar, que se comporta como uma verdadeira mulher, sabe por instinto que se colocar nos ombros do filho um polo azul discreto, o menino não mudará de sexo na idade maior e com certeza conhecerá por essa altura, no golf, meninos que usaram, pousados nas costas, polos azuis discretos. Juntos podem perfeitamente fundar uma empresa e encomendar uma colecção que aproveita a onda homossexualista àquela gentalha que em criança ousou cores berrantes e que por isso agora é estilista.
Pelo menos, dá lucro.
Já nos tentam roubar a possibilidade de reconhecer as boas pessoas pela cor da pele, não nos retirem agora a capacidade de distinguir através da cor dos boletins de saúde para meninas e para meninos, o que é de aproveitar do que não passa de manobra destruidora do lobby do homossexualismo.
Se Deus, na Sua infinita sabedoria, nos fez e nos vestiu de cores diferentes por alguma coisa foi.
Bravo, senhora ministra! Não parece nada que a menina saiu agora mesmo debaixo de uma pedra.
A menina continue que não maça nada.
Em relação ao INEM, a mobilização maciça da sociedade civil, por exemplo, seria uma defesa viável, bastando para tal que os profissionais em causa se dispusessem a motivar, a solicitar o apoio, a solidariedade e a compreensão dos que sabem, porque sentem na pele e no resto do corpo – seu ou do muito próximo – que, numa urgência, bastam alguns segundos a mais para se perder uma vida. Parece evidente que esta mobilização solidária embate com oenraizado quem quer que se cuide e não colhe frutos quando está em causa a causa dita alheia, mesmo quando nos toca por motivos trágicos, mas de través. Era mimoso ver na rua de cartaz ao peito, palavras de ordem na estrada, a lutar pelo INEM e por todos os profissionais de Saúde, toda a gente que é agora saudável. Com a certeza de que os seus sofredores continuavam a ser cuidados com a qualidade extraordinária que é característica da esmagadora maioria dos profissionais pelos quais se manifestam.
Era bonito. Cheirava a um movimento por Timor, mais pequenino.
A Gaffe paciente
Cheira a sabonete.
A Gaffe pelo espaço
Há outras que nos deixam como símios a partir os restos que sobraram de um cadáver.
Zaratustra provavelmente diria que tudo depende da forma como ouvimos Richard Strauss.
11.11.24
A Gaffe lendária
Mete medo. Profundo, gigantesco e circular, guardado por árvores que agora sei serem teixos, muito velhos, muito altos e muito altivos. Não encontramos facilmente esse lugar. Está literalmente escondido, encerrado como se guardasse mil segredos. Chegamos até ele por um caminho estreito e só sabemos que nos encontramos perto pela imensa frescura e pelo silêncio que faz lá dentro.
O reservatório é alimentado por um fio de água que vai tombando devagar sem fazer o mais ínfimo ruído.
É quase mágico e quase assustador de tão pacífico.
Inventemos uma.
Agora façamos chover. É sempre bom existir chuva numa lenda.
Falta o mais difícil. Personagens.
Façamos assim: desenhemos uma apenas. Um homem sozinho. Jovem? Não. Vamos envelhecê-lo, dar-lhe os contornos da tristeza e do desterro.
Ninguém suspeita que ele passa pelas ruas friorentas. É invisível entre a chuva. Usa sobretudo e botas esgotadas e traz luvas de couro demasiado grandes que lhe escondem os dedos.
Vem pela chuva, indiferente e frio.
Vamos colocá-lo agora num Café qualquer, de manhã cedo.
Veio de longe e espera. Uma vez por ano, vem e espera. Sentado numa cadeira qualquer, num Café, numa Sexta-feira de Novembro.
Olha para o relógio. Espera e não gosta de esperar. Tem medo que não venham.
Ninguém vem. Nunca ninguém veio.
O homem desiste e lentamente deixa que a chuva o apague.
Numa Sexta-feira de Novembro.
Há fios de água em todos os tempos que se enredam nos homens que morrem de amor.
A Gaffe sócio-demográfica
A Gaffe ficou siderada quando deu conta da existência de um papelucho que pedia que aquelas pessoas pequenas e maçadoras respondessem se gostavam de homens, de mulheres ou de ambos.
A Gaffe desconhecia a existência do ambos e fica aborrecidíssima por não ter tido a oportunidade, em criança, de o experimentar.
Em relação ao resto, a Gaffe só consegue responder que, aos nove anos, dependia imenso do que tinha fumado primeiro.
9.11.24
A Gaffe inútil
Procuro na transparência oculta das palavras captar as imagens da vida dos outros, como quem apanha no ar, com afinco e quase desespero, as partículas mais visíveis do pólen que se espalha, que acabo por sentir que não faço sentido.
Falo de quem amo e recolho com a angústia que advém da incapacidade de o fazer de modo mais perfeito, os pedaços, os farrapos, os lanhos e as fendas, os rasgos e os segundos que da vida dos meus mais amados se abrem nas memórias que deles quero ter.
Mas acabo por me ver sentada ao longe, no camarote forrado e confortável, a observar o palco onde, sem sentido e com ruído, a vida dos loucos faz parte da minha, mas aquela que vivo é quase sempre alheia, passando nas margens do mundo dos outros sem tocar na água que corre nas almas.
Que sentido tem não me ver sentir nas malhas do enredo alheio? Que argumento estranho a mim vale a minha vida?
Olho para mim e desconheço, de repente, se a minha vida é parte integrante da vida dos outros ou se apenas passo pela brisa da tarde sabendo que me roubaram fogo e asas e que os procuro no céu rasgado à força de tanto o olhar, mas que é céu dos outros.
Olho para mim de vez em quando e quando o faço apenas me vejo pronta a reter os mais irrisórios e os mais inúteis lampejos de luz da vida dos outros. Uma sequiosa atenta a todo o fabuloso e desmesurado génio que de súbito aflora a superfície da alma daqueles que mais quero.
Hesito.
Não interessa nada aquilo que aqui faço, especada frente ao monitor a carregar nas palavras e a narrar episódios patetas - patéticos também - que tropeçam e escorregam na minha vida, acabando espalhados nos meus braços.
Depois chega, no labiríntico tempo das nuvens e do vento, com a simplicidade doce do início de tudo, a natural conclusão oferecida pela tonta e inocente futilidade que saltita:
Não tenho a veleidade de acreditar que trago as chaves das catacumbas das catedrais da mente e nem sequer ouso falar das catedrais dos céus, porque há alguém a ouvir, interessado, a pedir para me ler, a piamente orar por mais uma palavra, a beber desesperado os despojos das sílabas que repenso, cruzo, entranço, misturo, embebo e torço.
Mas, como diz a Guiduxa Rebelo Pinto, Não há coincidências.
Folheio, neste instante, o labirinto da minha guerra e da minha paz e na vida de nada que é a minha, recomeço a ouvir o velho russo:
Narra a tua aldeia e narrarás o mundo.
E bem ou mal, atarantada e trôpega, olho-me e vejo-me beijada.8.11.24
A Gaffe mínima
Sofro daquilo a que poderemos chamar Síndrome da Irmã Mais Nova.
Vivo rodeado de gente com talento em várias áreas. Acabo por apagar qualquer centelha, qualquer brilho minúsculo, qualquer vislumbre de potencial criativo que possa eventualmente possuir.
Apagam-se os meus luzeiros perante as fogueiras e os incêndios que se me deparam.
Não desenho, não fotografo, não pinto, não escrevo, não danço, não cozinho, não me visto de modo irrepreensível, não tenho um discuros político coerente e inteligente, não canto, não construo miniaturas de barcos do século XV, não planto coisas, não componho música, não aprecio ópera, não projecto edifícios, não gosto de casas minimalistas, não toco nenhum instrumento, não me perco com paisagens, não arranjo as unhas e não vou ao cabeleireiro.
E vejo mal ao longe.
A Gaffe guerreira
Cada um destes - carcereiro ou prisioneiro - se transforma em potencial inimigo e por norma nenhum deles recusa guerrear. Ambos sabem que em relação aos inimigos, se não os podem vencer, podem confundi-los. Abertos ou surdos, sangrentos ou subtis, erguem-se os estandartes da morte, mesmo em nome de de causas insignificantes ou minúsculos motivos - tidos como dignos de bandeira, porque os homens são capazes de inventar as grandes coisas do nada.
No entanto, creio que este é o segredo de todas as vitórias: perceber que a única batalha que realmente vale a pena travar até à exaustão é aquela que acontece quando estamos nus.
7.11.24
A Gaffe visceral
É usual considerar que nos apaixonamos quando se revelam, não necessariamente juntas, as três reacções sacramentais que nos indicam que estamos muito perto da idiotice que é tantas vezes o gatilho da paixão.
A aproximação daquele que nos faz pensar que a vida pode ser um produto Disney origina quase sempre lugares-comuns plasmados em atitudes físicas incontroláveis que nos deixam em situações normalmente inconvenientes.
A respiração altera-se. Descontrola-se. Tornamo-nos sôfregas. Aproximamo-nos da asfixia que nos sabe bem sentir e a aceleração com que sorvemos e expulsamos o ar que de repente se tornou perfumado, faz com que pareçamos uma daquelas máquinas de perfuração petrolífera, descompensada, que encontrou um banco de suor. Não é bonito de se ver e causa sempre desconforto.
O coração acelera. De súbito parece que existem dois êmbolos manuseados por um psicopata que nos aperta o peito sem dó nem piedade, fazendo do coração uma maquineta descontrolada pronta a explodir a qualquer momento. Não é agradável e normalmente impede que o cérebro seja irrigado.
Sentimos o que dizem ser borboletas no estômago. A verdade é que podemos sentir qualquer outro insecto a debater-se empapado em sucos gástricos, mas é mais poético escolher um alado, colorido e primaveril. Como é fácil entender, não é de todo saudável ter bichos a torcerem-nos as entranhas. Bastou-nos observar o que se passou com Sigourney Weaver para perceber que o voo da poesia se pode transformar num murro de Muhammad Ali.
Estas três badaladas reacções físicas, apesar de consagradas, estão longe de nos provar que Cupido nos fez xixi na cabeça, embotando-nos o cérebro. O amor não é uma regra de três simples.
A Gaffe pensa que raramente sabemos se o que sentimos pelos outros é amor ou se simplesmente colhemos rosas que crescem em lugares alheios.
- Quando sentires que eu te amo, avisas-me?
6.11.24
A Gaffe desiludida
A Gaffe receia que a mais destrutiva doença da Europa seja a de ser capaz de aceitar como banal um país ser governado por criminosos, insalubres e psicopatas narcisistas.
5.11.24
A Gaffe com visitas
A fórmula usada pela minha avó para descartar demorados visitantes que, como por encanto, não se apercebiam do aborrecimento descomunal que provocavam, era infalível.
Depois de pousar no tabuleiro a chávena do chá que beberricava num silêncio por decifrar, a minha melodiosa avó erguia-se, voltava-se para os entediados companheiros de infortúnio e com um sorriso de alerta, repreendia:
- Meus queridos, vamo-nos deitar que as visitas querem-se ir embora.
A Casa Branca, se receber Trump como o novo presidente, devia aprender com as grandes Senhoras. Preparar um chá a Donald Trump, sorrir e fazer os possíveis e os impossíveis por se ir deitar cedo.
4.11.24
A Gaffe activista
É tão engraçado, muito para além de se tentar entender a insanidade com que o Black Friday é brindado, descobrir que a origem deste esgrouviado comportamento consumista que se inicia mais uma vez, teve lugar exactamente no seu oposto - Buy Nothing Day, ou Occupy Xmas.
Nada se pode comprar.
O dinheiro é anulado e substituído pela liberdade de não se ser impelido a gastar.
A reacção não se fez esperar.
É evidente que os críticos ridicularizam a comemoração deste apelo ao não consumo, classificando-o como uma espécie de gesto vazio, um modo enviesado de se fazer com que os consumidores mais pobrezinhos não se sintam mal, não tendo qualquer impacto discernível na economia global ou no sentimento do consumidor tido como um todo, provocando mesmo um acentuar das clivagens de classes, tendo em conta que o consumidor mais poderoso não irá, no dia seguinte, deixar de comprar o que deseja com ainda mais vigor e motivação, arrastando e denunciando a notória distância que o separa dos que com menos poder de compra tornam o Buy Nothing Day uma constante.
Admito que não simpatizo com qualquer uma das iniciativas, embora esteja mais inclinada para desandar pela rua de balão na mão, sem olhar a montras, mascarada de activista do não consumo.
Uma rapariga esperta sabe que o melhor dia para se comprar nos saldos, é a véspera.
3.11.24
A Gaffe acolchetada
É esta minha amiga que me previne: Não se pode confiar num homem que nos desaperta o soutien logo na primeira tentativa.
A verdade é uma e ela tem razão. Um soutien que se preze tem de ter uma fechadura à prova de dedos alheios. Tem de ser um enigma, um desafio e tem de provar que o rapazola que nos chega às costas, aos colchetes e às molas é de uma pureza virginal digna de nos ver as mamocas. Quando um homem nos cumprimenta estendendo a mão ou cavalheirescamente nos vem beijar os dedos e nós percebemos que subitamente nos saltou do peito, não o coração, mas o soutien, não merece crédito, embora mereça que nos salte o resto.
Temos que escolher. Não é propriamente a escolha de Sofia, mas é sempre um dilema que nos constrange um pouco. Ficamos com um bronco inocente que nos trilha as costas ou com um manhoso experiente que nos trilha a vida.
Podemos, é claro, optar pela terceira via, a mais atractiva: ficarmos com os dois e deixar que processo de ensino/aprendizagem se faça sob a nossa supervisão.
2.11.24
A Gaffe e as declarações
Os locais habituais para fazer declarações de amor deviam ser todos arrasados. O mais romântico dos jantares devia por obrigação atear incêndios aos cortinados quando as velas estivessem a pingar estearina nas mãos entrelaçadas dos amantes. A mais idílica das paisagens devia ser invadida por tsunamis quando os pares se enternecem com o azul das águas. Todos os cenários usados por Cupido deviam ser demolidos e as setas desse inconsciente quebradas contra as rochas assassinas.
Nós, mulheres, exigimos originalidade nas declarações de amor que nos fazem. Nada de ramos de rosas. Se os anéis de brilhantes são aceitáveis, o mesmo não acontece, de todo, ao joelho no chão numa avenida movimentada ou ao avião pequenino que escreve o nosso nome no ar com fumo cor de malva. As serenatas são permitidas desde que seja usada uma orquestra sinfónica com o coro dirigido por Zhang Jiemin.
Recusamos a banalidade nestes momentos. Repudiamos as cenas que nos fazem lembrar Casablanca que de tão esgotadas nos fazem desejar que o avião da Bergman se despenhe ao sair da pista. Sorrimos e chegamos a comover-nos, mas, no fundo do coração, a desilusão arranja um lugarzinho e ocupa um canto do nosso tão desejado entusiasmo.
Os homens deviam ter percebido isto desde o dia em que tudo o vento levou, mas continuam a insistir na pobreza dos gestos amorosos. Não inovam, não são criativos e acabam por ser secretamente lamentados por nós que consideramos que as nossas declarações de amor são exactamente aquelas que provocam as deles.
Devemos exigir, por exemplo, os nossos nomes escritos nas paredes dos WC das mulheres, no Louvre, com gigantescos corações a toda a volta, provando que, por nós, o macho correu o risco de ser desancado pela senhora de bigode que limpa de hora em hora todas as sanitas femininas. Devemos obrigar os homens a limpar todos os outros de modo a que cintile nos azulejos imaculados apenas o nosso. Não é tarefa fácil e dá pena de prisão até dois anos. Devemos decretar depois que nos dos homens, e sem ser no Louvre, sejam intimados a substituir os cansativos slogans que informam que a Carolle é puta por todos os poemas de Éluard.
Só assim, e talvez então, valha a pena ler numa estação de metro - Em Paris ou Cabecerias -, escrito a tinta branca aquilo que se espera:
On s’aime!
1.11.24
A Gaffe fantasiosa
- Qual a tua maior fantasia sexual?
- Qual a tua maior fantasia sexual?
Eu olho-os com olhos lassos - há nos meus olhos ironias e cansaços - e cruzo os braços, e respondo sem haver espaços:
- Ter inventado o sexo e estar a receber os direitos de autor.
31.10.24
A Gaffe coulrofóbica
Para além do escuro das esquinas nocturnas do meu quarto, tenho um medo indizível de palhaços.
Arrasto este medo, quase meninice, e sou capaz de rodar avenidas só para não cruzar com homens pintados, vestidos de cor e de trapos largos, que oferecem balões à gente que passa. Não ouso sequer olhar mesmo ao longe.
No entanto, a todo o instante brigo, sem ter sombra, com outros palhaços do Circo idiota que chegou à vida e que nela ergueu a tenda maior. Dizem que essa luta se vence também a brincar com valentia. Talvez seja assim, mas eu sou uma menina de bibe mimado e a minha coragem não usa o trapézio.
30.10.24
A Gaffe de borracha
O rapazinho brinca com uma bola de borracha presa por um fio a uma tábua de madeira.Manobra o brinquedo improvisado com perícia e a pequena bola é impulsionada nas direcções mais díspares, para voltar a bater, sistematicamente, na pequena tábua de madeira e de novo projectada e de novo de regresso e de novo batida para voltar atrás.A consciência da bola é a minha.
A Gaffe gestual
1º
gesto
O perfume das gardénias nas varandas perfura-lhe os dedos.
Tem gardénias nos dedos das varandas, enjoativas, a provocar a náusea, a arrastar o vómito. Pesam-lhe os dedos como o calor que se abre nos botões das flores.Os seus dedos são gardénias quentes de perfume e de besouros. Ouve os zumbidos dos bichos debaixo das unhas. O calor estala os botões de mansidão sinistra. Abrem-se como dedos de criança tenros e opalinos.
Nas suas mãos há dedos de gardénias opalinas e debaixo das unhas os besouros zumbem, zoando de perfume. Zunem os seus dedos de besouros bêbados e de gardénias abertas como feridas.
2º
gesto
Outrora as mãos peregrinavam e no encontro das mãos ouvia-se rezar nas catedrais.
Nas mãos há peregrinos.As suas mãos são como um pequeno mosteiro de portas abertas numa estrada por onde não passam peregrinos. A terra do caminho que vai a essas súplicas não é abrandada pelos passos de ninguém.
3º
gesto
São ágeis os seus dedos e brancos e angulosos. Se os mover devagar vemos as ondulações meigas dos ramos das árvores de tronco quieto quando chega o vento sem qualquer barulho. Se os mover com fúria parecem insectos presos na angústia das teias de aranha.
4º
gesto
As mãos são éguas brancas.
Perto dos juncos, a água dos olhos queda-se a ver ou a rezar lá dentro, a pedir coisas.
5º
gesto
Na foto - Paul Éluard
29.10.24
A Gaffe silenciosa
Foi o silêncio absoluto da sala que me fez ouvir o imperceptível movimento.
A flor partiu com um timbre no formato de uma faca, desceu e depois de um rodopio curto estancou de cálice invertido sobre a mesa.
Foi um movimento de tal forma claro, de nitidez tão fria, que me senti a ouvir o instante em que a flor quebrou, o estalido breve que me fez lembrar a forma de um bisturi, o ruído impossível da queda e o da chegada ao tampo da mesa em que rolou devagar como quem toca em algodão e ouve o rosnar da fricção por entre os dedos.
O som deste movimento incluído no silêncio, desarranjou-o, alterando-lhe o breve sabor a morte que todos os silêncios trazem dentro.
A Gaffe despropositada
Tédio despropositado.
Os meus lençóis agarram o meu cheiro e a minha nudez espalhada é indiferente ao espelho.
A minha cama sempre pareceu um ninho de um bicho espalhafatoso e exuberante. Nunca consegui dormir de forma calma. Envolvo-me e rebolo no sono e no sonho e destruo a primorosa obra das manhãs tardias em que os lençóis se dobram, se alisam, se amaciam, se distendem, se prendem e engomados dispersam o perfume lavado dos amanheceres mais claros.
Em mim o tédio invade até as noites e faz morrer as ondas do meu sono. Durmo na planura da indiferença e na quietude apática dos tristes.
27.10.24
A Gaffe do Armindo
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A minha irmã de Manolo Blahnik, agulhas mais altas dois centímetros do que o habitual, abusa da sorte. As pedras gigantes do chão da entrada da casa, apesar de polidas pelo tempo, não estão niveladas e é fácil tropeçarmos quando nos pés usamos os Himalaias transformados em sapatos. No entanto, a minha irmã está convencida de que quem se deve vergar, obedecer e moldar os caprichos, é obrigatoriamente o outro. Não admite a mínima adaptação ao que a rodeia, mesmo que o contrário signifique o seu equilíbrio.
Chegamos ao Douro no fim da tarde de ontem.
A maninha pousou a urbanidade na pedra, pronta a tentar manter o piso seguro debaixo dos tacões. É tarefa que lhe exige concentração e lhe entope todos os sensores. Foi por causa dos sensores apontados para os desníveis do solo que a rapariga desprevenida sofreu o ataque.
26.10.24
A Gaffe viciada
Há homens que nos consomem.
Ocupam-nos à revelia da nossa vontade e mesmo reconhecendo a toxicidade dos patifes somos incapazes de os substituir por uma qualquer panaceia transformada em jóia.
Esquecemos com demasiada frequência que deles dependemos apenas porque recusamos assumir que se nos matam com o fumo dos seus encantos sacanas, somos nós que a cada momento lhes avivamos a chama.
Evelyn Tripp - Foto de Lillian Bassman (1954)
25.10.24
A Gaffe sem encanto
A Gaffe dos irmãos
O meu irmão aninhou-se em mim. Pousou a cabeça no meu colo e, baixinho, desfiou a mais fantástica das teorias:
- Ela nasceu sem alma. Não é grave. Podia ser pior. Podia ter nascido com lábio leporino ou com problemas de visão. Pertence a uma “elite de monstros” que não se consegue projectar nos outros. Não reconhece a vítima e, em consequência, não assume nunca esse papel. Não se consegue rever na dor que provoca. Não sente nunca as vítimas que faz. É um papel que não decora. Esta incapacidade produz assassinos em série, violadores, carrascos, torturadores e, no melhor dos casos, mulheres como ela. Predadoras que esperam. É das que ficam sempre e inevitavelmente com o que os outros querem. Pertence à "elite" dos que nasceram sem alma e dentro dessa "elite" ela ronda e espera, mesmo sem o saber, o momento exacto em que a presa vem desprotegida. Tem o poder todo, porque simplesmente está mais perto dele. Só por isso.
As elites são sempre canalhas. - Termina e beija-me a boca, incestuosamente.

















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