30.12.24

A Gaffe e as touradas


Toda a rapariga esperta sabe que por vezes um touro fechado na cozinha faz menos estragos do que um toureiro na cama.

A Gaffe e um pesadelo de Natal

24.12.24

A Gaffe do Pai-Natal


Que o Pai Natal esteja sempre vosso dispor.

23.12.24

A Gaffe cumpre a tradição


Salvo raríssimas excepções, a Gaffe, por muito desgrenhada de lonjura e de trabalho, jamais se esquece de regressar aqui nesta ocasião.

Não vem de fugida para encaixar com inigualável perícia uma lâmpada nos objectos que necessitam de fios coloridos para funcionar – a Gaffe depreende que os rapazes que gostam de bricolage conseguem fazer piscar uma avenida inteira transformando-a no orgulho da família mais chegada -, mas para vos dar uma péssima notícia, raparigas.

De acordo com fonte seguríssima, todas as raparigas que se portaram terrivelmente mal durante o ano, não vão ter a visita do Pai-Natal.

O Pai-Natal nestes casos terríveis, como castigo vai enviar o sobrinho.

O horror.

7.12.24

A Gaffe de "Notre Drame"

sobrepõe-se ao grito la flèche est tombée que arrepia e torna a imagem da queda do archote numa das mais significativas da tragédia. Uma imagem icónica. Uma tocha cai com a dignidade devastadora esperada na queda dos signos.

O objecto Notre-Dame é uma construção e reconstrução dos homens.

 2/3 do telhado desapareceram. Pertenciam ao século XIX.

O arco de pedra sob o telhado não sofreu grandes danos.

As torres e a fachada da Catedral estão a salvo, embora a estrutura necessite de avaliação cuidada.

A esmagadora maioria dos vitrais resistiu. Estão ilesos. Apenas uma das rosáceas se estilhaçou.

A flecha da Catedral datava do século XIX. Não provinha do século XIII. As suas dezasseis estátuas tinham sido retiradas dias antes.

As relíquias foram salvas.

O orgão da Catedral não sofreu danos. 

O signo Notre-Dame há séculos que se havia tornado arquétipo e a raiz da Árvore é de pedra, em cruz como as catedrais, e mantém nas garras a memória colectiva, tornando-a única, mas transmissível, pertença absoluta de cada um que passa, subjectiva, como é de seu paradoxal destino.

Talvez por isso os sinos das mais icásticas Igrejas de Paris tenham tocado juntos a rebate, carpindo o incêndio, avisando os homens como não o faziam há já mais de cem anos. Pranteando a tragédia do signo ameaçado, prevenindo os homens da irremediável fugacidade da existência que acolhe o esquecimento e a indiferença como motor civilizacional, como objecto do progresso, como exclusiva ferramenta do real.

Nada é tão vazio, tão terrivelmente oco, tão desoladoramente triste, como ilustrar a ardência de Notre-Dame com o quasimodinho da Disney agarrado as lágrimas com que banha as torres. Nada é tão revelador da distância que separa o homem do signo, da desvinculação do homem ao símbolo.

O nosso drama é que choramos demasiadas vezes através da Disney.

16/04/2019

A primeira vez que entrei em Notre-Dame foi pela mão da minha mãe.

A hora era parda e chuvosa. A Catedral respirava lenta através das sombras das pedras e dos ruídos quase impercetíveis das madeiras. Não me lembro se havia mais alguém. Notre Dame sempre me deixou sem gente à volta. Sempre me deixou entregue a mim, sozinha, perante a consciência aguda da minha própria alma.

Falou-me devagarinho de Maurice de Sully, de Raymond du Temple, de Jean-Baptiste-Antoine Lassus e de Eugène Viollet-le-Duc, o princípio e o fim. Falou-me de Alexandre III e de Manifestis Probatum que ergueu Portugal. Falou-me do rei santo, Luís IX, e da sua Saint-Chapelle que resguarda a coroa divina.
Falou-me de Henri de Beaufort que impõe aos franceses um rei de dez anos, seu sobrinho-neto e sexto Henrique em Inglaterra.
Falou-me dos veludos negros de Maria Stuart arrastados pela Catedral em nome de Francisco II, de Marguerite de Valois, de Eugenie de Montijo, de Isabel de França que se ajoelharam perante Deus e perante os reis e imperadores seus maridos.
Falou-me de Napoleão e fez-me ver depois, mais tarde, Le Sacre de Napoléon de Jacques-Louis David e a humilhação de Pio VII.
Falou-me de Victor Hugo, mas não me falou de Quasimodo. Deixou que o lesse.
Falou-me de Leclerc e de De Gaulle. Falou-me de Hitler.

Falou de Liberdade.

Todas as vezes que voltávamos, a minha mãe lia-me Notre-Dame e fez-me perceber de forma lenta que a Catedral continha mais do que a majestade dos labirintos de luz e de pedra - de luz na pedra -, que guardava mais do que o balançar do tempo nas cordas da eternidade breve entregue ao homem, que urdia mais do que a transcendência humana.
Notre Dame, a Nossa Mãe, em paradoxo, aproximava-se em simultâneo da indizível fragilidade da minha mãe e da sua incomensurável capacidade de nos dar guarida, de nos fazer sentir parte do tempo que passa e do tempo que vem, de nos fazer sentir, como se olhássemos o espelho, sendo ao mesmo tempo o próprio espelho.
Freud e Jung falaram dos arquétipos. Elementos quase divinos que latejam nos escombros de todos os homens. Contaram-nos da Mãe, da Árvore, do Lenho, da Cruz que é a Árvore despida, crua, só, onde é cravado o Homem que serve como base a toda a Catedral. Cristã ou não cristã. Mater. Materna. 


Suponho que Notre-Dame é representação de um arquétipo.
A palpável Imagem, a percetível Ideia, a tangível identidade humana.
Não sei.
Talvez seja esta minha humilhante ignorância a origem da náusea que me assola quando vejo Notre-Dame abraçada por um quasimodo de brincar que chora a queda de um desenho da Disney.

Talvez seja esta minha aviltante insciência que me indigna quando me deparo a cada passo com a raiva das gentes que salivam contra os mecenas – e é de mecenato que se trata, sobretudo quando se prescinde dos benefícios fiscais que origina -, que decidiram entregar o que é só deles - só deles, sem que ninguém pergunte como -, à tentativa de reerguer a prova da existência de uma identidade humana, depois de, por exemplo, terem sido responsáveis pela vida de dois Centros de Investigação, de projecção internacional, em Neurologia e Neurociência, ou pela rede de esgotos de várias cidades do Nordeste de um Brasil miseravelmente esquecido.
Talvez seja a minha doida leviandade que me descontrola quando me convidam para galas solidárias com outros mundos, em que serão sorteados um tablet, um telemóvel e um prémio surpresa, ou um qualquer outro nobelzinho capaz de ilibar consciências dinamitadas.
Talvez seja a minha imbecil arrogância a responsável pela minha surpresa perante a amoralidade, perante a imoralidade, com que as tragédias que os inscritos nas galas declaram dignas de apoio milionário - numa espécie de inovador mecenato cabaz-de-Natal -, se transformam em recursos nepotistas de escroques que são eleitos presidentes de Câmaras e nelas se mantêm ilesos e intocáveis.

Talvez seja também por isto, ou talvez não.

17/04/2019

Foi a minha mãe que me ensinou que a Identidade Humana tem a fragilidade com que se cumpre o eterno.

Já adulta, quando chovia em Paris, abrigava-me nos umbrais dos edifícios e esperava. Mantinha-me quieta e inventava histórias nas nódoas de chuva que alastravam nos passeios. Às vezes fazia muito frio. Nessas alturas, os momentos de chuva a cair apeteciam-me tanto que me esquecia das horas e era capaz de passar, pasmada, todo o tempo do meu mundo a olhar para o chão que se encharcava. Os sons de Paris acinzentavam-se e as luzes chapinhavam nas poças que alastravam. Creio que era feliz naqueles pedaços de chuva estrelados. Abraçava-me, apertava o casaco, amarfanhava a camisola junto ao pescoço e tentava manter os pés quentes batendo com eles nas pedras abrigadas. Lembro-me que tinha umas luvas grossas de pele, forradas, que me aqueciam demasiado as mãos. Nunca gostei muito de luvas, mas aquelas tinham sido dadas pela minha avó e usava-as como quem usa um talismã ou um golpe de saudade. Mantinha as mãos enluvadas próximas do nariz, porque gostava do cheiro do couro misturado com o cheiro da chuva e da memória da minha avó. Perdi uma no metro. A outra ainda a tenho na gaveta. Vou, de vez em quando, quando não há chuva, procurar o levíssimo rasto de felicidade que nos umbrais de Notre-Dame ficava quieta enquanto me abraçava. Havia sossego, como se não precisasse de nada, como se me bastasse, como se estivesse isolada, à parte, e então sentia a Catedral como coisa minha. Só eu e Notre-Dame, nos umbrais molhados.

Fiquei uma tarde, já tarde - tão tarde! - segura pela chuva. Fechei o casaco e calcei as luvas, amarrotei o abraço para não sentir frio e fiquei a ver o sossego pasmado. Veio então de novo aquela morrinha que é ser feliz ou pensar que o somos. Procurei as luvas sem me aperceber que já as tinha calçado e não tinha nada a não ser Notre-Dame à chuva e senti a chuva a cair dentro de mim.

Quando eu voltar a Paris, não tenho a Catedral e sei que a chuva vai cair lá fora.

14.11.24

A Gaffe vaporosa


Embora actualmente de forma pouco segura e muito mais flexível, as rendas, os bordados e os padrões florais ou floridos, foram durante demasiado tempo apanágio do feminino.
Este facto deu uma enorme vantagem às mulheres que se apoderaram com convicção das potencialidades deste universo vaporoso e frágil, armadilhando-o e fornecendo-lhe uma conotação erótica que é, em última análise, proveniente da ausência que passa a obrigatória destes elementos no círculo de uma masculinidade empedernida que se vê deslumbrada e desperta pelo sussurrar destes tecidos.

O astuto, cuidadoso, engenhoso, e muitas vezes inquietante, uso feminino das rendas e dos padrões florais, opera maravilhas no subconsciente dos incautos rapazes que presos nas redes, teias e flora dos tecidos, acabam por sucumbir ao fascínio do que lhes é interdito.
A proibição, aqui como na esmagadora maioria dos casos, incute e impele o desejo de transgressão e é agradabilíssimo sentirmos que no esvoaçar do pano se liberta a sombra do pecado e o subtil fascínio da irresistível feminilidade.

Mas - convém não esquecer -, a lua tem uma face mais obscura e trágico é quando este miraculoso encantamento de rendas e bordados a preceito, se traduz na visão catastrófica do nosso rapagão a desfilar pela brisa da nossa intimidade usando, balanceado, as nossas artimanhas.

13.11.24

A Gaffe, arsénico e rendas velhas


Nem sempre as joias são o costumado brilho encastoado em metais de fino trato.

Há joias escondidas, presas em papel transparente, dobradas com o rigor e com o cuidado extremo das avós e perdidas nas gavetas maneiristas do móvel esquecido há tanto tempo.

Procurem-nas!

São preciosidades inigualáveis e com o temor que nos faz suster a respiração, com a vertigem de quem comete um crime, com o arfar de excitação de quem se vê a viver uma paixão que não lhe pertence, voltemos a usar o tempo perdido e que Proust nos perdoe e nos proteja.

A Gaffe no vosso mail


Alguns portugueses - sobretudo os do meu querido Porto - trazem nas redes algumas pérolas que fazem rolar a língua por mares que pareciam ter sido abandonados, mas que continuam a encher as marés do nosso espanto linguístico.

Soltemos algumas do fio do colar das frases ouvidas por aí:



Alevantar - O acto de levantar com convicção, com o ar de a mim ninguém me come por parvo. Alevantei-me e fui-me embora.

Aspergic - Medicamento português que mistura Aspegic com Aspirina.

Assentar - O acto de sentar, só que com muita força, como se fossemos praticamente um tijolo no cimento.

Capom - Porta de motor de carros que quando se fecha faz POM!

Destrocar - Trocar várias vezes a mesma nota até ficarmos com a mesma.

Disvorciada - Mulher que se diz por aí que se vai divorciar.

Destrocer - Torcer várias vezes.

Deslargar - Largar várias vezes o que quer que seja.

É assim - Talvez a maior evolução da língua portuguesa. Termo que não quer dizer nada e não serve para nada. Deve ser colocado no inicio de qualquer frase.

Entropeçar - Tropeçar duas vezes seguidas.

Eros - Moeda alternativa ao Euro adoptada por alguns portugueses.

Exensar - Termo que para ser bem utilizado tem que ser dito rápido para que algumas pessoas percebem que se quer dizer deves pensar.

Falastes, dissestes e afins - Articulação na 4ª pessoa do singular.

Ex: eu falei; tu falaste; ele falou, tu falastes.

Fracturação - O resultado da soma do consumo de clientes em qualquer casa comercial. Casa que não fractura, não predura.

Enmigos - O que vou ganhar depois de alguns lerem isto.

Mô - A forma mais prática de articular a palavra meu e dá um ar afro à língua portuguesa, como Bué ou Maning (muito em Moçambique). Ex: mô tio.

Nha - assim como Mô, é a forma mais pratica de articular a palavra Minha. Para quê perder tempo não é? Fica sempre bem dizer mô tio e nha mãe, por exemplo. Poupa-se imenso.

Númaro - Já está na Assembleia da República uma proposta de lei para deixarmos de utilizar a palavra número que está em claro desuso. Númaro já é usado por muitos deputados.

Parteleira - Local ideal para guardar os livros de português do tempo da escola.

Perssunal - O contrário de amador. Muito utilizado por jogadores de futebol.

Ex: Sou perssunal de futebol. Deve ser articulado de uma forma rápida.

Pitaxio - Aperitivo da classe do Mendoim.

Prontus - Usar o mais possível. É só dar vontade e podemos sempre soltar um prontus! Fica sempre bem nos lugares mais bem frequentados da sociedade.

Prutugal - País ao lado da Espanha. Não é a Francia.

Rondana - Uma roldana que ronda à volta de si mesma.

Shampum - Líquido para lavar o cabelo que quando cai na banheira faz PUM.

Stander de vendas - Local de venda. A forma mais famosa é sem duvida o Stander de tomóveis.

Tçou - Inicialmente usado por músicos da zona de Cascais, rapidamente se estendeu a outros tipos de utilizadores. Atender o telefone e dizer tçou é uma experiência aconselhável a qualquer um com ligações ainda que vagas à cantora Ágata.

Tipo - Juntamente com o é assim, faz parte das grandes evoluções do português. Também sem querer dizer nada e não servir para nada, pode ser usado quando se quiser, porque nunca está errado nem certo. É assim... Tipo ‘tás a ver?

Treuze – opiniões de Miguel Sousa Tavares.

Vosso mail - Se não me atenderem o telemóvel obviamente que vou para vosso mail.

12.11.24

A Gaffe "homossexualista"


A Gaffe está mais uma vez ao lado, mas mesmo juntinho, da maravilhosa ministra da saúde, Ana Paula Martins, que a cada passo nos deslumbra, superando aquela coisa feia que a estátua da Liberdade tem na mão erguida.

Depois do descalabro dos concursos promovidos pelas ULS para jovens médicos especialistas; depois de nos ter mentido e tentado enfiar o INEM no lugar que lhe pertence desde tempos imemoriais, ou seja, a andar de carroça e a chicote das horas extraordinárias, chega-nos agora revoltada, chocada, escandalizada, com a cor dos boletins de saúde infantil e juvenil que, sob os auspícios da Direcção Geral de Saúde, passariam de azul para os meninos e rosa para as meninas, para um amarelo para todos.

Garvíssimo.

Este abuso colorido da DGS condena as crianças ao jugo que da moderna tendência homossexualista – diria Maria José Vilaça ou Helena Costa - que grassa no Ocidente e que, mais cedo do que se pensa, vai desertificar o planeta.

Se já existem colecções de roupa infantil que tanto dá para um lado, como para outro – o que já é de bradar aos céus -, tentar abolir a distinção dos sexos através da cor, cerceia a nossa capacidade de discernimento e contribui para esta espécie de daltonismo sexual que os homossexualistas defendem e promovem, ultrapassando mesmo as fronteiras e os limites traçados por Deus.

A Gaffe considera um HORROR.

Deixem as crianças em paz!


Acredita piamente - como Deus manda - que esta contínua aniquilação de códigos ancestrais, levada a cabo por gente LGBT, ou LGBTI, ou LGBTI+ - ou coisa que o valha -, é um perigo para a civilização, tal como a conhecemos e respeitamos, e não vai ser interrompida antes de destruir por completo a vantagem que detínhamos sobre o homossexualismo - que nos foi dada por Nosso Senhor -, e que nos permitia imediatamente identificar - e saber lidar com isso - qualquer personagem que nos surgisse na frente.

Tentar anular os códigos sociais expressos nas cores ou trocar o logótipo da identidade digital do país confundida com um símbolo da nação, é trágico, mas é tarefa destes monstros que consideram primordial levar a civilização ao homossexualismo total.

A Gaffe teme que se intensifique a possibilidade de uma mulher usar um vestido vermelho intenso e justo, sem se perceber que anda a pedi-las. Não é de todo de espantar, pois que já é com alguma dificuldade que conseguimos discernir um toxicodependente de um gótico, ou de um emo, ou de uma pessoa de luto, através do preto que usa em look total e - a propósito - já é absolutamente incriminatório intuir - porque somos lógicos e racionais - que uma pessoa de cor mais escurinha é uma ameaça potencial à nossa segurança e que tem a pila grande, ou que uma pessoa mais amarelinha tem a porcaria dos genes dos olhos em bico entranhada no corpo e abre lojas com plásticos a cheirar a petróleo, mesmo ao lado da Prada.

Uma mãe que sabe o que é ser mãe, que sabe estar, que se comporta como uma verdadeira mulher, sabe por instinto que se colocar nos ombros do filho um polo azul discreto, o menino não mudará de sexo na idade maior e com certeza conhecerá por essa altura, no golf, meninos que usaram, pousados nas costas, polos azuis discretos. Juntos podem perfeitamente fundar uma empresa e encomendar uma colecção que aproveita a onda homossexualista àquela gentalha que em criança ousou cores berrantes e que por isso agora é estilista.

Pelo menos, dá lucro.


Uma mãe que sabe o que é ser mãe, que sabe estar, que conhece o seu lugar, que se comporta como uma verdadeira mulher, sabe que se vestir a filha de princesa cor-de-rosa, a futura jovem tem mais hipóteses de casar com o menino do polo e - se usar branco - ser amante dos amigos de polo do marido e que será sempre mais que Ministra da Saúde.

É evidente que se uma mãe não merecer este santo estatuto, e vestir a sua criança de vermelho, ou preto, ou quiçá de branquinho, terá no futuro um comunista ao jantar, ou um drogado suicida, ou um homossexualista na Companhia Nacional de Bailado.

O pai está a trabalhar. Não aborreçam.

Já nos tentam roubar a possibilidade de reconhecer as boas pessoas pela cor da pele, não nos retirem agora a capacidade de distinguir através da cor dos boletins de saúde para meninas e para meninos, o que é de aproveitar do que não passa de manobra destruidora do lobby do homossexualismo.

Se Deus, na Sua infinita sabedoria, nos fez e nos vestiu de cores diferentes por alguma coisa foi.

Bravo, senhora ministra! Não parece nada que a menina saiu agora mesmo debaixo de uma pedra.

A menina continue que não maça nada.


Em relação ao INEM, a mobilização maciça da sociedade civil, por exemplo, seria uma defesa viável, bastando para tal que os profissionais em causa se dispusessem a motivar, a solicitar o apoio, a solidariedade e a compreensão dos que sabem, porque sentem na pele e no resto do corpo – seu ou do muito próximo – que, numa urgência, bastam alguns segundos a mais para se perder uma vida. Parece evidente que esta mobilização solidária embate com oenraizado quem quer que se cuide e não colhe frutos quando está em causa a causa dita alheia, mesmo quando nos toca por motivos trágicos, mas de través.  Era mimoso ver na rua de cartaz ao peito, palavras de ordem na estrada, a lutar pelo INEM e por todos os profissionais de Saúde, toda a gente que é agora saudável. Com a certeza de que os seus sofredores continuavam a ser cuidados com a qualidade extraordinária que é característica da esmagadora maioria dos profissionais pelos quais se manifestam. 

Era bonito. Cheirava a um movimento por Timor, mais pequenino.

 

11.11.24

A Gaffe sócio-demográfica


A Gaffe ficou siderada quando deu conta da existência de um papelucho que pedia que aquelas pessoas pequenas e maçadoras respondessem se gostavam de homens, de mulheres ou de ambos.

A Gaffe desconhecia a existência do ambos e fica aborrecidíssima por não ter tido a oportunidade, em criança, de o experimentar.

Em relação ao resto, a Gaffe só consegue responder que, aos nove anos, dependia imenso do que tinha fumado primeiro.

 

9.11.24

A Gaffe inútil


Procuro na transparência oculta das palavras captar as imagens da vida dos outros, como quem apanha no ar, com afinco e quase desespero, as partículas mais visíveis do pólen que se espalha, que acabo por sentir que não faço sentido.

Falo de quem amo e recolho com a angústia que advém da incapacidade de o fazer de modo mais perfeito, os pedaços, os farrapos, os lanhos e as fendas, os rasgos e os segundos que da vida dos meus mais amados se abrem nas memórias que deles quero ter.
Mas acabo por me ver sentada ao longe, no camarote forrado e confortável, a observar o palco onde, sem sentido e com ruído, a vida dos loucos faz parte da minha, mas aquela que vivo é quase sempre alheia, passando nas margens do mundo dos outros sem tocar na água que corre nas almas.

Que sentido tem não me ver sentir nas malhas do enredo alheio? Que argumento estranho a mim vale a minha vida?

Olho para mim e desconheço, de repente, se a minha vida é parte integrante da vida dos outros ou se apenas passo pela brisa da tarde sabendo que me roubaram fogo e asas e que os procuro no céu rasgado à força de tanto o olhar, mas que é céu dos outros.
Olho para mim de vez em quando e quando o faço apenas me vejo pronta a reter os mais irrisórios e os mais inúteis lampejos de luz da vida dos outros. Uma sequiosa atenta a todo o fabuloso e desmesurado génio que de súbito aflora a superfície da alma daqueles que mais quero.

Hesito.

Se pensar mais alto acabo por descobrir a mais evidente das verdades:
Não interessa nada aquilo que aqui faço, especada frente ao monitor a carregar nas palavras e a narrar episódios patetas - patéticos também - que tropeçam e escorregam na minha vida, acabando espalhados nos meus braços.
Depois chega, no labiríntico tempo das nuvens e do vento, com a simplicidade doce do início de tudo, a natural conclusão oferecida pela tonta e inocente futilidade que saltita:
Não tenho a veleidade de acreditar que trago as chaves das catacumbas das catedrais da mente e nem sequer ouso falar das catedrais dos céus, porque há alguém a ouvir, interessado, a pedir para me ler, a piamente orar por mais uma palavra, a beber desesperado os despojos das sílabas que repenso, cruzo, entranço, misturo, embebo e torço.

Mas, como diz a Guiduxa Rebelo Pinto, Não há coincidências.

Folheio, neste instante, o labirinto da minha guerra e da minha paz e na vida de nada que é a minha, recomeço a ouvir o velho russo:
 

Narra a tua aldeia e narrarás o mundo.

E bem ou mal, atarantada e trôpega, olho-me e vejo-me beijada.

Imagem - Madonna of the Wasps — Robyn Hitchcock

8.11.24

A Gaffe mínima


Sofro daquilo a que poderemos chamar Síndrome da Irmã Mais Nova.

Passemos a explicar:
Vivo rodeado de gente com talento em várias áreas. Acabo por apagar qualquer centelha, qualquer brilho minúsculo, qualquer vislumbre de potencial criativo que possa eventualmente possuir.
Apagam-se os meus luzeiros perante as fogueiras e os incêndios que se me deparam.
Não desenho, não fotografo, não pinto, não escrevo, não danço, não cozinho, não me visto de modo irrepreensível, não tenho um discuros político coerente e inteligente, não canto, não construo miniaturas de barcos do século XV, não planto coisas, não componho música, não aprecio ópera, não projecto edifícios, não gosto de casas minimalistas, não toco nenhum instrumento, não me perco com paisagens, não arranjo as unhas e não vou ao cabeleireiro.

E vejo mal ao longe.

A Gaffe guerreira


Facilmente nos tornamos carcereiros daqueles que são donos do que desejamos ou daqueles que possuem o que evitamos.

Cada um destes - carcereiro ou prisioneiro - se transforma em potencial inimigo e por norma nenhum deles recusa guerrear. Ambos sabem que em relação aos inimigos, se não os podem vencer, podem confundi-los. Abertos ou surdos, sangrentos ou subtis, erguem-se os estandartes da morte, mesmo em nome de de causas insignificantes ou minúsculos motivos - tidos como dignos de bandeira, porque os homens são capazes de inventar as grandes coisas do nada.

No entanto, creio que este é o segredo de todas as vitórias: perceber que a única batalha que realmente vale a pena travar até à exaustão é aquela que acontece quando estamos nus.


7.11.24

A Gaffe visceral


É usual considerar que nos apaixonamos quando se revelam, não necessariamente juntas, as três reacções sacramentais que nos indicam que estamos muito perto da idiotice que é tantas vezes o gatilho da paixão.
A aproximação daquele que nos faz pensar que a vida pode ser um produto Disney origina quase sempre lugares-comuns plasmados em atitudes físicas incontroláveis que nos deixam em situações normalmente inconvenientes.

A respiração altera-se. Descontrola-se. Tornamo-nos sôfregas. Aproximamo-nos da asfixia que nos sabe bem sentir e a aceleração com que sorvemos e expulsamos o ar que de repente se tornou perfumado, faz com que pareçamos uma daquelas máquinas de perfuração petrolífera, descompensada, que encontrou um banco de suor. Não é bonito de se ver e causa sempre desconforto.

O coração acelera. De súbito parece que existem dois êmbolos manuseados por um psicopata que nos aperta o peito sem dó nem piedade, fazendo do coração uma maquineta descontrolada pronta a explodir a qualquer momento. Não é agradável e normalmente impede que o cérebro seja irrigado.

Sentimos o que dizem ser borboletas no estômago. A verdade é que podemos sentir qualquer outro insecto a debater-se empapado em sucos gástricos, mas é mais poético escolher um alado, colorido e primaveril. Como é fácil entender, não é de todo saudável ter bichos a torcerem-nos as entranhas. Bastou-nos observar o que se passou com Sigourney Weaver para perceber que o voo da poesia se pode transformar num murro de Muhammad Ali.

Estas três badaladas reacções físicas, apesar de consagradas, estão longe de nos provar que Cupido nos fez xixi na cabeça, embotando-nos o cérebro. O amor não é uma regra de três simples.

A Gaffe pensa que raramente sabemos se o que sentimos pelos outros é amor ou se simplesmente colhemos rosas que crescem em lugares alheios.

Talvez por isso a Gaffe tenha adoptado a pergunta do amigo:

- Quando sentires que eu te amo, avisas-me?


6.11.24

A Gaffe desiludida


A Gaffe receia que a mais destrutiva doença da Europa seja a de ser capaz de aceitar como banal um país ser governado por criminosos, insalubres e psicopatas narcisistas.

5.11.24

A Gaffe com visitas


A fórmula usada pela minha avó para descartar demorados visitantes que, como por encanto, não se apercebiam do aborrecimento descomunal que provocavam, era infalível.

Depois de pousar no tabuleiro a chávena do chá que beberricava num silêncio por decifrar, a minha melodiosa avó erguia-se, voltava-se para os entediados companheiros de infortúnio e com um sorriso de alerta, repreendia:

- Meus queridos, vamo-nos deitar que as visitas querem-se ir embora.

A Casa Branca, se receber Trump como o novo presidente, devia aprender com as grandes Senhoras. Preparar um chá a Donald Trump, sorrir e fazer os possíveis e os impossíveis por se ir deitar cedo.

4.11.24

A Gaffe activista


É tão engraçado, muito para além de se tentar entender a insanidade com que o Black Friday é brindado, descobrir que a origem deste esgrouviado comportamento consumista que se inicia mais uma vez, teve lugar exactamente no seu oposto - Buy Nothing Day, ou Occupy Xmas.
Neste contra-ataque, o participante tem apenas de passear pelas montras, empurrar carrinhos de compras vazios - os passeios zombies -, destruir cartões de crédito em público e em festa, ou mesmo caminhar pelas avenidas do dinheiro gasto outrora com crianças e balões e fitas coloridas. Tudo muito mimoso.

Nada se pode comprar.
O dinheiro é anulado e substituído pela liberdade de não se ser impelido a gastar.

A iniciativa partiu de Ted Dave, do Canadá, em 1992 e torna-se viral a partir do momento em que a revista Adbusters Magazine a promove.

A reacção não se fez esperar.

É evidente que os críticos ridicularizam a comemoração deste apelo ao não consumo, classificando-o como uma espécie de gesto vazio, um modo enviesado de se fazer com que os consumidores mais pobrezinhos não se sintam mal, não tendo qualquer impacto discernível na economia global ou no sentimento do consumidor tido como um todo, provocando mesmo um acentuar das clivagens de classes, tendo em conta que o consumidor mais poderoso não irá, no dia seguinte, deixar de comprar o que deseja com ainda mais vigor e motivação, arrastando e denunciando a notória distância que o separa dos que com menos poder de compra tornam o Buy Nothing Day uma constante.

Admito que não simpatizo com qualquer uma das iniciativas, embora esteja mais inclinada para desandar pela rua de balão na mão, sem olhar a montras, mascarada de activista do não consumo.

Uma rapariga esperta sabe que o melhor dia para se comprar nos saldos, é a véspera.

3.11.24

A Gaffe acolchetada


Sabemos que nunca devemos confiar num homem que nos desaperta o soutien logo à primeira tentativa.
A primeira vez, de tudo, é sempre um risco e nem sempre é de boa qualidade o que nos fica na memória.

Tenho uma amiga - tomemo-la como exemplo - cuja primeira vez foi tão traumática que decidiu nunca mais perder a virgindade. O assunto foi arrumado na prateleira e vive feliz desde então, embora as relações que enceta sejam de curta duração, porque quando ela faz amor, o namorado exige estar presente. É curioso constatar que esta rapariga, que se afasta consideravelmente do viver rotineiro das multidões, confessa que sente sempre algum pudor em assumir posições ousadas - estou a folhear o Kama-Sutra - com o homem que partilha na altura a sua vida e a sua cama. Segundo o que confessa, é por essa razão que o deixa sair para o trabalho e chama pelo vizinho. O pecado mora sempre ao lado.
É esta minha amiga que me previne: Não se pode confiar num homem que nos desaperta o soutien logo na primeira tentativa.
 
A verdade é uma e ela tem razão. Um soutien que se preze tem de ter uma fechadura à prova de dedos alheios. Tem de ser um enigma, um desafio e tem de provar que o rapazola que nos chega às costas, aos colchetes e às molas é de uma pureza virginal digna de nos ver as mamocas. Quando um homem nos cumprimenta estendendo a mão ou cavalheirescamente nos vem beijar os dedos e nós percebemos que subitamente nos saltou do peito, não o coração, mas o soutien, não merece crédito, embora mereça que nos salte o resto.
Temos que escolher. Não é propriamente a escolha de Sofia, mas é sempre um dilema que nos constrange um pouco. Ficamos com um bronco inocente que nos trilha as costas ou com um manhoso experiente que nos trilha a vida.
Podemos, é claro, optar pela terceira via, a mais atractiva: ficarmos com os dois e deixar que processo de ensino/aprendizagem se faça sob a nossa supervisão.

2.11.24

A Gaffe e as declarações


Os locais habituais para fazer declarações de amor deviam ser todos arrasados. O mais romântico dos jantares devia por obrigação atear incêndios aos cortinados quando as velas estivessem a pingar estearina nas mãos entrelaçadas dos amantes. A mais idílica das paisagens devia ser invadida por tsunamis quando os pares se enternecem com o azul das águas. Todos os cenários usados por Cupido deviam ser demolidos e as setas desse inconsciente quebradas contra as rochas assassinas.

Nós, mulheres, exigimos originalidade nas declarações de amor que nos fazem. Nada de ramos de rosas. Se os anéis de brilhantes são aceitáveis, o mesmo não acontece, de todo, ao joelho no chão numa avenida movimentada ou ao avião pequenino que escreve o nosso nome no ar com fumo cor de malva. As serenatas são permitidas desde que seja usada uma orquestra sinfónica com o coro dirigido por Zhang Jiemin.
Recusamos a banalidade nestes momentos. Repudiamos as cenas que nos fazem lembrar Casablanca que de tão esgotadas nos fazem desejar que o avião da Bergman se despenhe ao sair da pista. Sorrimos e chegamos a comover-nos, mas, no fundo do coração, a desilusão arranja um lugarzinho e ocupa um canto do nosso tão desejado entusiasmo.

Os homens deviam ter percebido isto desde o dia em que tudo o vento levou, mas continuam a insistir na pobreza dos gestos amorosos. Não inovam, não são criativos e acabam por ser secretamente lamentados por nós que consideramos que as nossas declarações de amor são exactamente aquelas que provocam as deles.
Devemos exigir, por exemplo, os nossos nomes escritos nas paredes dos WC das mulheres, no Louvre, com gigantescos corações a toda a volta, provando que, por nós, o macho correu o risco de ser desancado pela senhora de bigode que limpa de hora em hora todas as sanitas femininas. Devemos obrigar os homens a limpar todos os outros de modo a que cintile nos azulejos imaculados apenas o nosso. Não é tarefa fácil e dá pena de prisão até dois anos. Devemos decretar depois que nos dos homens, e sem ser no Louvre, sejam intimados a substituir os cansativos slogans que informam que a Carolle é puta por todos os poemas de Éluard.

Só assim, e talvez então, valha a pena ler numa estação de metro - Em Paris ou Cabecerias -, escrito a tinta branca aquilo que se espera:

On s’aime!


1.11.24

A Gaffe fantasiosa


- Qual a tua maior fantasia sexual?

Perguntam-me alguns com os olhos doces, estendendo-me os braços, e seguros de que seria bom que eu os ouvisse quando me perguntam:

- Qual a tua maior fantasia sexual?

Eu olho-os com olhos lassos - há nos meus olhos ironias e cansaços - e cruzo os braços, e respondo sem haver espaços:

- Ter inventado o sexo e estar a receber os direitos de autor.


31.10.24

A Gaffe coulrofóbica


Para além do escuro das esquinas nocturnas do meu quarto, tenho um medo indizível de palhaços.

Afirmam os que sabem que este bichinho sedento tem origem nos meandros mais obscuros das nossas infâncias em que, nas tardes ensolaradas, nos levavam ao Circo, onde um palhaço nos arrastava para a arena, mimando o cómico dos nossos bibes e humilhando as nossas dignas poses de infantas sem reinos, mas nunca a minha infância me levou ao Circo. Adivinhava ela o medo atroz que sentiria ao ser destronada.
Arrasto este medo, quase meninice, e sou capaz de rodar avenidas só para não cruzar com homens pintados, vestidos de cor e de trapos largos, que oferecem balões à gente que passa. Não ouso sequer olhar mesmo ao longe.

No entanto, a todo o instante brigo, sem ter sombra, com outros palhaços do Circo idiota que chegou à vida e que nela ergueu a tenda maior. Dizem que essa luta se vence também a brincar com valentia. Talvez seja assim, mas eu sou uma menina de bibe mimado e a minha coragem não usa o trapézio.

30.10.24

A Gaffe de borracha


O rapazinho brinca com uma bola de borracha presa por um fio a uma tábua de madeira.Manobra o brinquedo improvisado com perícia e a pequena bola é impulsionada nas direcções mais díspares, para voltar a bater, sistematicamente, na pequena tábua de madeira e de novo projectada e de novo de regresso e de novo batida para voltar atrás.

A consciência da bola é a minha.

29.10.24

A Gaffe silenciosa


Foi o silêncio absoluto da sala que me fez ouvir o imperceptível movimento.

Tinham-no descrito algures, num livro que falava de uma rosa branca que, partida, tomava sobre a mesa, mas o episódio lido passou impune, misturado com outros a que atribuí maior importância. Pensava que uma rosa branca que se solta do caule e cai sobre uma toalha, tem esperada beleza e que por isso é de inevitável comoção. Mas o silêncio da sala reproduziu, de modo fiel se ousarmos substituir a rosa por uma flor qualquer de que não sei o nome, mas que é marfinada, o momento descrito em que também o silêncio foi cúmplice.
A flor partiu com um timbre no formato de uma faca, desceu e depois de um rodopio curto estancou de cálice invertido sobre a mesa.
Foi um movimento de tal forma claro, de nitidez tão fria, que me senti a ouvir o instante em que a flor quebrou, o estalido breve que me fez lembrar a forma de um bisturi, o ruído impossível da queda e o da chegada ao tampo da mesa em que rolou devagar como quem toca em algodão e ouve o rosnar da fricção por entre os dedos.
O som deste movimento incluído no silêncio, desarranjou-o, alterando-lhe o breve sabor a morte que todos os silêncios trazem dentro.

Dentro do silêncio que voltou depois, percebi então que talvez todas as vidas não sejam mais do que a procura do som do movimento em direcção à morte.

A Gaffe despropositada


Tédio despropositado.

Os meus lençóis agarram o meu cheiro e a minha nudez espalhada é indiferente ao espelho.
A minha cama sempre pareceu um ninho de um bicho espalhafatoso e exuberante. Nunca consegui dormir de forma calma. Envolvo-me e rebolo no sono e no sonho e destruo a primorosa obra das manhãs tardias em que os lençóis se dobram, se alisam, se amaciam, se distendem, se prendem e engomados dispersam o perfume lavado dos amanheceres mais claros.

Mas hoje acordei e tudo era perfeito. Como se ninguém tivesse dormido na véspera. Como se fosse dia de amante noutro lugar amado. Nenhum vestígio de inferno, nenhum cataclismo surdo e mudo e inconsciente. Nenhum tumulto, nenhuma multidão amorfa de panos misturados e confusos.

Em mim o tédio invade até as noites e faz morrer as ondas do meu sono. Durmo na planura da indiferença e na quietude apática dos tristes.

27.10.24

A Gaffe do Armindo


A colisão entre o urbano, cosmopolita e sofisticado e o Douro mais íntimo e desbravado, tem os seus momentos divertidos.

A minha irmã de Manolo Blahnik, agulhas mais altas dois centímetros do que o habitual, abusa da sorte. As pedras gigantes do chão da entrada da casa, apesar de polidas pelo tempo, não estão niveladas e é fácil tropeçarmos quando nos pés usamos os Himalaias transformados em sapatos. No entanto, a minha irmã está convencida de que quem se deve vergar, obedecer e moldar os caprichos, é obrigatoriamente o outro. Não admite a mínima adaptação ao que a rodeia, mesmo que o contrário signifique o seu equilíbrio.

Chegamos ao Douro no fim da tarde de ontem.

A maninha pousou a urbanidade na pedra, pronta a tentar manter o piso seguro debaixo dos tacões. É tarefa que lhe exige concentração e lhe entope todos os sensores. Foi por causa dos sensores apontados para os desníveis do solo que a rapariga desprevenida sofreu o ataque.

Há, aqui, livre e feroz, uma espécie de galo bonsai - o Armindo -,um frango com peneiras, uma coisa chamada garnizé três vezes mais pequeno do que um galo normal, mas seguramente mais agressivo do que toda a capoeira. Odeia tudo e todos e, sobranceiro e orgulhoso, desata a correr atrás de tudo o que se move pronto a bicar e a esfrangalhar os calcanhares ao maior dos invasores.
A Kelly bag da minha irmã, transformada em arma assassina, serviu de arremesso, mas há que reconhecer que foi um prazer desmedido ver uma das mais poderosas mulheres que conheço desgrenhada e esgaivotada, esbugalhada e esgrouviada, a tentar afugentar o psicopata.
Já protegidas de ataques furibundos, depois do copo com água da praxe, vimos o meu irmão chegar empapado em suor.

O homem alagado abraçou-nos.
A minha irmã empalideceu quando o abraço se desfez e a blusa de seda acusou a mancha da empatia a desenhar um mapa acinzentado e húmido. O rasto de Gucci que a segue foi literalmente abafado pelo cheiro a terra molhada e a erva fresca que o rapaz parece usar agora.
Pálida, com a tensão arterial em queda abrupta, rígida e já sem qualquer tipo de fleuma, incluindo a britânica, a minha irmã enerva-se:

- Vamos embora amanhã! Tu vens connosco. Não penses que te deixo sozinho com uma galinha psicótica e a suar para cima das pessoas.

E em crescendo, até ao esganiçar e estoirar cristais:

 - Não contradigas uma mulher paciente, calma, elegante, magra, alta, inteligente e culta. A fúria de mulheres assim é devastadora.

O Porto é já ali, mas com a minha irmã naquele estado à frente das tropas, ainda acabamos, os três, no sul do Líbano a perguntar onde raio se meteu a torre dos Clérigos.

Que os deuses nos protejam.

24.10.24

A Gaffe dos invisíveis



É patética a existência de uma espécie de indigentes cujo único objectivo na vida é alcançar um pedaço, mesmo irrisório, de atenção. Esmolam sem qualquer tipo de pudor e sem dignidade, desavergonhadamente, deploravelmente, arranjam formas ínvias de acreditar que são capazes de desviar um olhar alheio para os trapos encharcados que batem uns nos outros acossados pelo vento e que produzem o som das palavras que tentam juntar.

Insistem e são cansativos, aborrecidos, entediantes, previsíveis e de uma inutilidade confrangedora.

Dir-se-ia que possuem um dispositivo no cérebro que é accionado demasiadas vezes sugando toda e qualquer capacidade de raciocínio. Absorve a massa encefálica como se de um buraco negro se tratasse. Fica o vácuo, o inexistente, o espaço oco onde a miserável súplica, o deplorável rogo, a coitada crença na possibilidade de se tornarem visíveis, bate contra as paredes ósseas do lugar onde se escapou a vida, como uma bolita de um ping-pong jogado por ninguém.

Quando se acredita que o Além é logo ali ao lado, acaba-se por indução a evocar fantasmas.

23.10.24

A Gaffe fantasmagórica


O amor é o único lugar onde é permitido roubar ou mesmo violar quase todos os outros Mandamentos. Daí haver sempre a possibilidade de vencer o rival ou a rival - para simplificar vamos chamar-lhes o Outro - desde que saibamos que, em última instância, é permitido arrancar olhos e pontapear miudezas.
É lamentável e deprimente que uma mulher, chorando baba e ranho, possa perder sem dar luta renhida o que pensa ser o Amor da sua vida, mesmo quando o rapaz em causa se inclina para lugares nunca dantes navegados, mesmo quando o Outro é um matulão de bigode e barba rija ou uma loira luxuriante saída de um panfleto das Marés Vivas.

Há, contudo uma excepção: o que perdemos, está morto.

A morte transforma a vida em destino e lava todas as máculas, todas as nódoas, todas as ofensas, todas as manipulações malditas que por amor e em vida foram existindo. Contra isso todas as armas tombam num Alcácer-Quibir mais que previsto.
Fica apenas a memória do que foi divino, perfeito e demasiado grandioso para ser tocado ou alterado e, mesmo essa memória, lapidada pela morte, ampliada na luz que irradia, faz do nosso amor perdido a Eternidade.
Não há saída. Perdemos mesmo antes de pegar em armas, somos vencidos mesmo antes de começar a luta. Iniciamos o que não pode ter início. A morte tem sequestrado o coração que desejamos nosso.

Tenho uma fotografia de um destes mortos.
Um manipulador de almas, perigoso e implacável que desaparece substituído por um anjo branco, esguio, descalço, de olhar esverdeado, frágil e belíssimo que, dizem as vozes em surdina, surge, alma penada, na humidade da cisterna à procura do amor que destruiu.

Sabemo-lo da morte, mas sentimos também que nos assombra a vida.

A Gaffe esforçada


Um homem devia ter de empurrar um barco através de uma montanha, pelo menos uma vez na vida.

Uma mulher também, embora nestes casos metafóricos nos seja mais conveniente ir de avião.


Imagem - Zulkarnain Ismail 

22.10.24

A Gaffe e os insubmissos


A tentativa de um homem se demarcar e imprimir na multidão uma representação memorável, não está, na maior parte das vezes, no uso indiscriminado de exuberantes, coloridas, invulgares ou excêntricas imagens que procuram, com algum desespero patético, suprir uma espécie de carência de atenção necessária, embora enganadora, à solidificação da segurança e da autoestima.

A garantia de solidez e de estabelecida personalidade, obtidas pelo uso de fanfarronices, mesmo as que trazem apensas as griffes mais sonoras, é franzina, quebradiça ou mesmo nula, perto do homem, como o da imagem, que parece escolher o que sempre obedeceu ao seu inabalável modo de se mostrar à vida, acomodando o que escolhe ao que o define.

Todas as constantes, e sobretudo cegas, adaptações, ajustamentos e submissões aos ditames dos folhetos de revista assinados pelos mais conceituados impulsionadores do consumo, reproduzem apenas a debilidade e a instabilidade dos que caninamente seguem um dono.

21.10.24

A Gaffe com Néstum e mel


Inês - Os passarinhos foram feitas pelo Pai Natal para mostrar como seriam as flores se voassem.

Branca - Mas se as flores voassem ia ser uma confusão para as borboletas!

Inês e Branca (6 e 5 anos)

A Gaffe de soslaio


Uma das situações mais constrangedoras vividas pela Gaffe é aquela que a enfia no elevador com um rapagão desconhecido, mas de fazer pecar a Madre enclausurada das Serviçais Ceguetas do Imaculado. A Gaffe fica com os nervos arrepanhados quando o homenzarrão olha de soslaio e a apanha a fazer o mesmo. Este catrapiscar quando se repete de forma suspeita faz com que a Gaffe se eleve até ao décimo andar, mesmo tendo de sair no terceiro.
É uma situação tenebrosa, mas mais frequente do que se imagina e pode acontecer em qualquer lugar onde somos obrigados a ficar paradas. Normalmente acaba num sorriso amarelo e simpático, mas há ocasiões em que nos apetece atacar e estraçalhar a roupa, como se fossemos cães raivosos, daqueles que se babam enquanto arreganham os dentes ou que têm blogs que se resumem a comentar o que se diz por aí, por ali e por aqui.
Estes olhares de soslaio são intrigantes e fazem a Gaffe desesperar de hesitação. Nunca sabe se o rapagão ao seu lado está tão inibido como ela ou se, pelo contrário, o que ele quer, já ela sabe, porque quer o mesmo que ele, só que nenhum sabe se coincidem na oportunidade do desejo.

Às vezes a Gaffe pensa que se não seria melhor termos uma sirene encastrada – UUUUIIIIIIIIIIIIIII ... ... - que disparasse quando nos cheirasse a flirt. A Gaffe suspeita que andaria a apitar por tudo quanto era canto, mas, pelo menos, evitavam-se estas trocas de olhares embaraçosos que dão com a Gaffe em doida toda corada e constrangida, à espera que se rasguem as vestes no primeiro solavanco do elevador.

18.10.24

A Gaffe no sobe e desce


Não temos tempo. Corremos desatadas para os elevadores de forma a chegar mais depressa onde nem sempre queremos.

Odeio elevadores.

Há-os de variadíssimos feitios, mas aqueles que me irritam e destemperam os nervos são os mais antigos que trazem geralmente apenso um velho antipático e mal fardado, de unhaca afiada presa no mindinho, de cigarro nauseabundo seguro nas gengivas e que nos pergunta enojado para que andar queremos ir, como se dessa informação dependesse a segurança do edifício ou nos achasse demasiado burras para carregar no botão certo. Uma rapariga entra nestas coisas de ânimo leve e é apanhada por grades suspeitas que se fecham claustrofobicamente encerrando-a numa espécie de cela que abana por todo o lado, fazendo-a recear o encontro desagradável com poços de ar ou o desabar da geringonça com cabos partidos e ferros empenados.

O horror.

Os que se seguem na escala do meu ódio são os demasiado modernos, de aço e velocidade supersónica. Entramos, encostamos levemente o dedinho ao botão e somos impulsionadas em milésimos de segundo e de uma forma absolutamente esmagadora para o local que quase sempre nunca é o desejado, porque nos enganamos ao aflorar o tão sensível indicador do piso.

Enquanto que os primeiros nos rejuvenescem, porque são de época e ser-se de época é meio caminho andado para o encarquilhamento, os segundos envelhecem.
A velocidade com que se movem, quando subimos, permite que a lei da gravidade opere maldades atrozes numa rapariga. A força com que somos projectadas para cima coloca-nos o umbigo no meio das maminhas, deixa-nos o cabelo oleoso e arranca-nos as cuecas - no caso de as usarmos. É uma canseira a recuperação e nem sempre os resultados são eficazes, porque nunca ficamos com tempo para retocar a maquilhagem.
Quando descemos, a velocidade é tamanha que acabamos por concluir que o século XVIII foi penalizado por não ter elevadores desta espécie que esculpiriam as cabeleiras das senhoras em menos de um segundo. É também uma inconveniência o facto de ficarmos cegas por causa do pano da saia que se levanta e não apanharmos, quando o foguetão se abre, as caras de surpresa dos que o esperam ao depararem com uma rapariga esperta com um penteado de época - meio caminho andado para o encarquilhamento, - de saia levantada a todo o vapor e com as cuequinhas - caso as usarmos - transformadas num imenso fio dental.
Apesar de tudo, estes foguetões, na descida, oferecem uma vantagem sobre os primeiros: entregam-nos a esperança vã, mas deliciosa, de ficarmos altas e de pernas longas com um cabelo vasto e volumoso, leoas sem cuecas prontas para matar.
O meu problema é igual ao de todas as raparigas que - de saia travada e sem mais nada que lhe asfixie a força da sua natureza feminina - não se querem maçar subindo escadas sem que nenhum rapaz de fazer erguer um morto de tão giro, as siga logo atrás.

Nós, raparigas espertas, devemos usar apenas estas máquinas quando nos transportam ao céu ou nos fazem chamuscar as asinhas num inferno. O resto é mais andar, menos andar.

16.10.24

A Gaffe dos velhos amantes


Vivem como quem pisa uma alameda de vinhas trucidadas, sem esperar o mosto, sem esperar beber, porque o vinho está nas suas bocas. Cresceu como um corpo, ocupando tudo.
As suas terras estão marcadas. Jamais suportarão outros vestígios a não ser os deles.
Só ele sabe dela e só ela sabe que nele as montanhas olham os abismos e espreitam as vertigens sem fazer vibrar o ar que as rodeia.
Têm secretos recantos onde as suas vozes ecoam claramente e os seus olhos volteiam dentro delas.
Sabem ao sabor do pólen espalhado nos lençóis.

São velhos como só os amantes sabem ser.

15.10.24

A Gaffe dos amantes


A rapariga procura aconchegar-se no ombro dele, sentados na esplanada friorenta, enquanto ele folheia sem interesse um livro.
O rapaz sente-lhe o perfume do cabelo e a textura suave do casaco que a protege das breves rajadas de vento.

Amam-se quando o silêncio é suportado a dois sem sobressaltos.

São duas criaturas estranhas aos olhos de quem passa. Estão, como se procurassem encontrar ali o que lhes fugiu da alma sem lhes ter deixado a consciência de existir de tão fugaz e fugidio. Andam pelas ruas como os pássaros que pousam indiferentes nas abas dos canais, nos troncos corroídos das marés ou nos lanhos de luz abertos nas vielas. Passam como perfume nas linhas desenhadas pelo que fica. Depois de passarem, fica a moribunda esperança de colheremos aquilo que não chega a ser matéria de alma por ser mais indizível, ainda mais raro, intoleravelmente mais difuso.

Na esplanada, ele folheia um livro enquanto ela repousa no seu ombro.

14.10.24

A Gaffe ajardinada


Apareçam floridos, rapazes!

A Primavera surge a cada passo que é dado e mesmo sabendo que o Outono foi queimando o verde, não se esqueçam do Poeta e acreditem que há que colher todas as flores em cada jardim que se atravessa, para chegar junto de nós de mãos vazias.

11.10.24

A Gaffe amanhecida


I
O dia amanhece frio e azul, devagar, no pássaro pousado no parapeito da janela.

Do quarto virado para Norte vejo ainda floridas as sardinheiras espanholas, vermelhas a morrer como um tango já dançado.

A mistura dos perfumes do Douro e da luz calada do dia que começa enlaça os cortinados, como amiga sentada a ler com os sons de um piano ao lado.

Tenho a obrigação de ser feliz.
II
O vento impede o voo das gaivotas. Planam paradas no ar que cheira a maresia ainda mais salgada do que a que chega à varanda do meu quarto.

Da linha em que o mar encontra o céu há uma barra cor de salmão, pálida, e depois o azul claro, tão claro que é quase transparente sobre a folha de platina da água mansa.

A mesa que escolhi é da cor das laranjas sem sabor. A luz agarra os gomos das cadeiras.

Há uma mulher feia de castanho a rabiscar papéis com tinta verde. Duas adolescentes amarelas a pipocar segredos e o rapaz de avental branco e dentes aramados que me serviu o café negro e espesso, encostado ao balcão a olhar as rochas cheias de luz cinza.
Estendo as pernas, cruzo os braços e a cabeça tomba para trás.

Fecho os olhos e deixo que a rapariga de sorriso cor-de-rosa me foque finalmente e faça clique no telemóvel vermelho e ansioso.

Estou vertiginosamente só. Não tenho medo.

A manhã pousada e fria, cor de opala e luz, vem pentear-me.