31.8.21
A Gaffe e uma lição de economia
30.8.21
A Gaffe tropical
Neste fim de Verão usem e abusem do allure aventureiro. Tramas artesanais. Linhos e algodão do puro.
Falem-nos de aventuras bravas e de perigos de selvas tropicais, de jiboias-constritoras e de jacarés gigantes, de florestas-virgens e de feridas e de sangue e de lianas e humidade, de serpentes e de tigres, de flores carnívoras e de setas com curare e das tropicais tempestades brutas que vos encharcaram.
Não interessa nada que saibamos que o vosso estado se deve apenas a um balde de água fria.
27.8.21
A Gaffe das escritas
A quantidade de mulheres que por aqui escrevem de modo tão agradável!
Os blogs estão cheios delas e escolher é uma tarefa difícil e sem fim à vista.
É interessante como me aborrecem, salvo extraordinárias e fascinantes excepções, os escritos dos homens, principalmente os que me falam de política ou fazem complicadíssimas análises do que se vai passando. Entediam-me sobretudo aqueles que dissertam - ainda! - sobre os recentes atentados de esquerda à democracia e os que fazem rebuscadas análises literárias. Estes últimos dão sempre a sensação que não retiraram prazer nenhum do que leram, preocupados que estavam em encontrar os recursos linguísticos que foram usados pelo autor. Na grande maioria são homens. As mulheres que leio são mais intimistas. Mais reservadas. O quotidiano é sempre filtrado por uma visão bastante límpida, com um pudor harmonioso nas palavras. São discretas e, na maior parte das vezes, muito claras.
Não acredito na escrita no feminino ou escrita feminina, como lhe queiram chamar, como também não acredito em bruxas, mas que há à flor da net um timbre de mulher, isso é inegável. Orgulho-me disso. Leio com muitíssimo maior prazer o que é escrito por uma mulher.
Esta minha atracção, muito mais que feminista - se é que alguma vez o foi -, é quase lésbica. Sou uma lésbica literária. Os homens escreventes, donos de blogs elaboradíssimos, a abarrotar de pensamento e ideia, provocam-me uma espécie de morrinha que, como toda a gente sabe, é uma antítese da excitação. Tenho a impressão que na cama, na hora da verdade, sacam do bloquinho, do bloguinho, e começam a dissecar o que nunca aconteceu nem, pelo andar da caneta, vai acontecer.
Ao ler as mulheres que escolhi para ler, aqui ao lado, apetece-me sempre meter-me na cama com elas, ficarmos ali muito quentinhas, porque descubro que temos sempre muito para dizer e que aquilo vai durar pela noite fora. Se isto não é lésbico no seu melhor, é porque sou a Rainha Vitória e nego tudo.
26.8.21
A Gaffe contabilista

25.8.21
A Gaffe adocicada
Na minha memória há aromas adocicados.
O cheiro das beladonas da minha infância que escorre para a boca, transformado em viscoso lago de sabor que tentamos expulsar roçando a língua contra o palato e cuspindo os grãos pequenos de cheiro já com corpo. No entanto, é uma memória morna que protejo, que mimo e me que faz parar os olhos de repente.
As beladonas a crescer, cor de carne pálida, rosada. Perigosamente a crescer nos canteiros das janelas do andar de cima. Perigosamente afastadas dos parapeitos.
As pedras, o começo dos estames, a parede branca.
As minhas mãos miúdas não apanhavam nunca beladonas e o desejo de as ter, de lhes esmagar o caule lancetado, perto da ferida que lhes fez o corte, vinha drogar-me sempre que as via. Subia ao último andar, abria uma janela e deixava que o cheiro quente e enjoativo me lambesse a cara. Mastigava-o depois, como se fosse carne. E debruçava-me. Sentia os pés separados do chão e os músculos da barriga a doer esmagados contra o parapeito. O corpo oscilava e com pequenos solavancos, imperceptíveis impulsos, forçava-o a aproximar-se das flores.
Nunca arranquei nenhuma. Surgia sempre alguém, pálido, de dentes cerrados e olhos desmesuradamente abertos, que as cortava por mim, depois de me segurar pela cinta e me colher.
O acesso àquele quarto foi-me proibido. Havia ficado sete vezes setenta vezes com a cabeça virada para o abismo, quase a pairar, acima da terra, e não tinha asas. Setenta vezes sete foram os perigos que largaram desfraldados para me assustar. Sete vezes setenta foram os perdões com que me agraciaram, chorando às vezes, agarrados ao meu corpo salvo, gritando outras, abanando os meus ombros pecadores. As beladonas continuavam a rogar por mim. Mal elas floriam e abriam a carne do seu cheiro, o meu corpo oscilava no parapeito das janelas. A proibição inevitável de entrar no quarto do pecado arrastou uma consequência imprevista: a consciência da intransponibilidade dos meus abismos, que, lá dentro, vagamente longe, vagamente nada, transparentes, se iam tornando cada vez mais um acenar breve de vento manso que nos corredores escapa quando se abrem duas portas paralelas.
As beladonas passaram a ser lancetadas sem mim. No jarro da entrada inchavam de perfume e apodreciam.
A Gaffe a meio do Verão
No meio da estação, apropriadamente, a Gaffe evoca com simpatia os garbosos veraneantes que traçam pudicamente a toalha rígida de sal, de sol e com sabor a ondas para, reservados e postos em resguardo, trocarem os calções que se encharcaram.
24.8.21
A Gaffe afegã
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| Boushra Almutawakel |
É no mínimo curioso, digno de cuidada e atenta observação,
assistir ao proliferar de mulherzinhas que abrem feridas nos céus, rasgam o chão
e esfacelam as águas, despidas de reservas, nuas, destroçadas, atiçadas e muito
mais que se quiser que tudo serve, perante a visão catastrófica do alastrar do
crime, do desalmamento, da desumanidade, da inumanidade, que no Afeganistão destrói
mulheres.
Perguntam, chocadas e em ruidosa revolta, aos vinte anos de assalto
e saque americanos e aos mesmos de hipocrisia medricas e oportunista da Europa,
a razão deste monumental horror e descobrem que não se aperceberam da ordem de
destruição de campos de ópio cultivados pela miséria afegã, inibindo-se desta
forma a fonte de rendimento do inimigo que, por sua vez, pagava a essa mesma
miséria para que as papoilas renascessem,
num círculo por quebrar sem fim à vista, sem alternativas nem a cana de pesca
do aforismo chinês.
Em simultâneo ignoram que raptos e escravidão sexual a que milhares de mulheres estão sujeitas, resulta também do esmagamento secular do feminino no Oriente Médio que, por bizarro e paradoxal que pareça, fomenta a promiscuidade sexual entre os homens - não é gay, qu'ele está de costas - num abalroamento sinistro, deturpado e melífluo à velha Grécia.
Em simultâneo ignoram que a tragédia, a negação sumária da decência
e a aniquilação do feminino, que no Afeganistão atingem a visibilidade e as parangonas
de um apogeu de catástrofe anunciado por José Rodrigues dos Santos, tem o seu infinitesimal,
esconso, microscópico e tenebroso início nos arremessos de disfarçados crimes
escondidos quando as indignadas mulherzinhas que se avistam por tudo quanto é
rede social, anunciam entre dentes que a vizinha é uma mulher que não sabe estar, que a outra sabia para onde ia ou que uma
mulher deve portar-se como deve ser.
É no mínimo curioso perceber que os talibãs - ou seja, os estudantes - e as mulherzinhas das redes sociais acabam por ter em comum a velhíssima e perdida Grécia! Os primeiros nas suas espartanas relações homossexuais, as segundas portando-se como ridículas estriges de coros trágicos.






