27.3.26

A Gaffe dos pequenos sóis


Abro os olhos. Esfrego-os com raiva, estremunhada, e pequenos sóis passeiam à minha frente.

À medida que recupero as cores, de costas para a casa e para o destino, ele chora contra o vidro. Como um violino antigo pelas cidades exaltadas. De nariz espetado, embaciando o vidro com a transpiração tremida, desenhando curvas oblongas aos soluços. Intriga-me a sua nudez perante mim. É-lhe indiferente o exercício íntimo da sua dor. Talvez me julgue longínqua nesta minha cara despida de assombro. É difícil não reparar na sua beleza cruel, mesmo adulterada pelos músculos em esforço. Sinto-me embalada pela dificuldade em compreender o retrato. Amparo-me na constatação de que a beleza é uma forma de génio, espantada pela construção natural de um acaso harmonioso.

O sangue desacelera. Os nervos contraem-se como noivas despidas. Acende um cigarro. Enoja-me a forma como me desocupei de mim.

O fim permanece próximo quando se relampa de lágrimas.

- Não consigo entender-te. Perdoa-me.

Por não reconheceres a minha mão? a minha individualidade felina com a ternura a baloiçar nos olhos, pedindo beijinhos na testa antes de adormecer?
Um gesto desleixado no ar a vertebrar os meus espaços, de aves brancas a baterem contra o sol debicando as folhas da minha sede vegetal?

A cada passo dado para a porta, baloiçam envelhecidas noites de inconfessáveis segredos, ombros adormecidos sobre as giestas, a eternidade das manhãs corruptas soletradas pelos riscos do passado.

- Perdoo, mas agora tens de me dizer adeus.

25.3.26

A Gaffe quando é difícil


É difícil dizer-te o horário da chuva recolhida quando desesperas por bicicletas entre as flores.

É difícil dizer-te o parto das aves no coração da guerra.

É difícil dizer-te a insónia aérea dos peixes, do mar adentro disponível para o lamento, do verso cristalizado como um martelo na boca.

Rio-me como uma agulha feliz na palha, porque o amor diz-se a si mesmo e porque não há estrutura, nem ortografia, nem punhos fechados no amor, porque não sei o que digo e porque tudo em mim te faz sentido.

17.3.26

A Gaffe nas limpezas


A Gaffe veste uma coisita dos seus ilusórios tempos de Jean-Paul Gaultier e decide levar a bom porto a pesadíssima tarefa que iniciou algures Antes de Cristo. Limpar os detalhes dos seus artifícios que, abandonados ao patine das horas que passam, se tornaram lixo.

Não tendo facebook para excluir amigos, não possuindo X para passarinhar com o pano, opta por ir debicando, aqui e ali, os grãos de pó que se depositaram nos interstícios da sua barroca – rococó, quiçá? - fraseologia.

É evidente que fica exausta ao fim de alguns segundos.

Os detalhes empoeirados são em demasia e para tão curto amor, tão longa a vida. Abandonemos, pois, o árduo trabalho e esperemos em sossego imóvel que o algodão se engane.

Pese embora a súbita inércia que a avassala, a Gaffe reconhece que uma mulher é capaz encontrar erros e falhas minúsculos, perdidos nas pequenas fissuras conspurcadas e nas sombras esconsas das esculturas talhadas por homens que de tão sólidos rivalizam com a obra.
Somos absolutamente perfeccionistas quando se trata de descobrir poeiras adversas pousadas nas construções masculinas. Somos obsessivas-compulsivas quando nos relacionamos com a magnitude que se diz perfeita dos que nos povoam a vida e nos saltam para a cama. Somos heroínas de Agatha Christie se as provas do delito de imperfeição se encontram cobertas por camadas intermináveis de alibis.

Os homens conseguem, durante um breve período de tempo muito inteligente, enganar-nos nas grandes coisas, mas jamais nos conseguirão ludibriar nas pequeníssimas.

Meus queridos rapagões, convém que não se iludam.
Somos capazes, na limpeza dos detalhes, de trepar a todos os cantos e esquinas dos lugares, precipícios e falésias, onde acreditais que as vertigens nos convencem a deixar desapurado um grão de pó. Nem que para tal se tenha de mobilizar todas as vizinhas. 

16.3.26

A Gaffe vagamente entrelaçada


O amor é um verbo com acento. É a invenção da loucura acima da síntese instável dos sistemas, onde comungamos no rosto que o fogo preside, químico, com suas arestas de beijos inumeráveis.
 
No fundo, somos essa eternidade vagamente entrelaçada, anunciando espadas e números indizíveis e desfalecimentos inúteis de homens que não amam. 
No fundo, é a falta que nos move.
No fundo, eu sou um manifesto de algas sem oceano, uma geometria de céus sem aves nem degraus, porque me faltas e porque as rosas que canto apenas me declaram a tua sombra convertida.

Ama-me, como não fosse possível existir de outra forma.

14.3.26

A Gaffe a anoitecer


Eu já não tenho ideias. Tenho paredes.

Eu, a náufraga da deambulação fundeada na praça entre torres e cavidades lunares, afogando entardeceres envelhecidos, melancolias demasiado pesadas quando nos afundamos na vida pelos álbuns de família. Ao regressar a casa, no início da noite, apetece-me sempre descobrir se existirá solidão sem gente à volta.

As noites são os meus olhos, porque lá fora continua o dia.

13.3.26

A Gaffe engravatada


Creio que amizade é como aquela gravata indispensável aos domingos quando se fundam as náuseas da existência. O simples facto de vestirmos a gravata, naqueles gestos de rei ao espelho, oferece-nos um sentido, uma esperança a olear a máquina lógica da vida.

É evidente que com uma gravata nos podemos matar, mas, nesse caso, possivelmente falamos de amor.

12.3.26

A Gaffe bailando


Como gostava agora de dançar! Dançar em todas as palavras, como quem já morreu com as palavras todas.

Juro que perdia a vergonha. Juro que nem olhava para o lado, para a multidão a acumular-se nos passeios, de beiços gordos estendidos, na sua altivez amargurada de aventais de chita, decotes para o padre, gravata a endireitar a coluna, fragrâncias de mentol deliberando em suposta inocência fingida.

Cesurando-me.

E eu a dançar para dentro em rodopio visceral.

11.3.26

A Gaffe em movimento


Corro à procura do sossego, como se a imobilidade me ferisse ou desbravasse os gestos, esgadanhando o meu estar parada a ser.

No entanto, de mim parte a nostalgia de me ver quieta.

Sou, movendo-me, e no ser que existe sendo, há o mimetismo dos insectos que de quietos são, parecendo outros.

6.3.26

A Gaffe sem armas


O Douro é o exílio que no milagre me oferece a revelação de uma beleza atroz, capaz de magoar as próprias lágrimas.
Terras que de tão assombrosas e invencíveis se confundem com antigos sonhos, criando este estado de pasmo e distância de quem deseja engolir com toda a forma insubstantiva a conjugação dos elementos naturais.

É aqui que me espanto, é aqui o lugar da parede branca, do Fechado, da existência sem princípios e contudo, mundano nos meus hábitos, exausto de claridade, o meu atordoamento naufraga. Ancorada na razão, sigo as palavras submersas, na tarefa de cumprir humanidade.

Tivesse eu um punhal para ferir paisagens.

5.3.26

A Gaffe com Lobo Antunes

 Desabotoava-me o coração.

Suturava a minha Casa com palavras.

A Gaffe zoológica



"La désolation qu'expriment les yeux du gorille. Un mammifère funèbre. Je descends de son regard."
Emil Cioran, Le mauvais démiurge - Œuvres

"Au zoo, tous les animaux se tiennent convenablement, à l'exception du singe. On sent que l'homme n'est pas loin."
Emil Cioran, Aveux et Anathèmes - Œuvres

E no entanto, as primeiras criaturas que reconheceram a sua mortalidade foram as primeiras a sorrir.

3.3.26

A Gaffe vitoriana


A Gaffe lê imenso e sabe que o mundo está repleto de paspalhos imbecis e o problema é que descobriu que eles estão estrategicamente colocados de modo a que dois ou três se cruzem com ela todos os dias.

A Gaffe decidiu adoptar a atitude da Rainha Vitória - quando se negou a assinar a legislação que penalizaria as lésbicas -, em relação a todas as criaturas que confunde sempre com abjectos resquícios do abominável.    

Tal como Sua Majestade, a Gaffe é muito clara, simples, definitiva e peremptória:

- Tais coisas não existem.

2.3.26

A Gaffe carismática


Não é que eu seja mal-encarada, mas não consigo esboçar a esperança de um sorriso quando me olham com ar de quem manda no planeta, do alto de 1,60 m, de lacinho pintalgado ao pescoço e sapatinho com um pequerrucho tacão a ver se passa.

Podem dizer o que disseram, podem chamar-me preconceituosa, podem afirmar que carisma não tem nada a ver com isto, podem gravar em pedra que os homens não se medem aos palmos, até podem invocar o Bonaparte, mas continuo a pensar que um homem tem obrigatoriamente de ser um bocadinho mais alto, não andar com pechisbeques a imitar os filhos adolescentes e não tentar disfarçar a careca deixando crescer as patilhas e as sobrancelhas para as pentear depois para cima da cabeça, para nos poder mostrar que sabe, pode e manda e fazer com que a gente acredite e o reconheça.

27.2.26

A Gaffe principesca


A Gaffe admite que não entende a rede social mais badalada que existe.

Causa-lhe imensa perplexidade o famigerado Like do Facebook.

A Gaffe fica confusa quando verifica a quantidade de gente a gostar da morte de Michael Fox. Compreende que o actor ao longo de décadas tenha muito devagarinho criado anticorpos, mas não acredita que exista alguém que aprecie o seu falecimento.

A Gaffe fica espantada quando verifica que há mais gente a gostar da tragédia de Gaza do que a quantidade de entulho que por lá ficou e que ama várias vezes o arrasar dos templos lindíssimos da mesma forma que atribui um like quando vê Trump a arrasar tudo o que vê ou que mexe.

A Gaffe não entende que a porção de gente que gosta do atropelamento dos peregrinos de Fátima seja maior do que o número dos que ainda vão a caminho.  

A Gaffe também não compreende a multidão de like debaixo das orações que logo de manhã uma senhora vai santamente espalhando, a abençoar o dia e a exaltar o Santo Nome do Senhor, mas confessa que, não vá o diabo tecê-las, já apôs o seu favoritismo numa reza onde se suplicava a Santa Teresa de Ávila um anjo encorpado como aquele que a trespassou.

A gota de água que fez vazar o copo desta incompreensão foi a manada de like apensos à fotografia de William de Inglaterra e de Kate Middleton aquando da expulsão do rebento de Isabel a segunda, que de tanta volta no túmulo, escapou para se vingar.

Gostam de quê?!

Dos incisivos de William que crescem à medida que a testa aumenta?

Do ar de sopeira arranjadinha da Princesa?  

A Gaffe recorda que, pelo andar do coche real, daqui a duzentos anos o casal fotografado será, por ancestral direito, soberano de Inglaterra e sublinha que até a plebeia Charlene de Mónaco, que teve gémeos, os pendurou na varanda com muito mais glamour, mesmo com aquele sorriso de quem está com diarreia e não quer que o povo saiba, e sem lhes dar colo, como quem foi às compras e agarrou numa tronchuda.

A Gaffe reconhece que o único suspiro glamoroso da Casa Real Inglesa se esbardalhou contra um poste parisiense, mas usar um vestidinho caidinho, muito limpinho e um cabelo saído da cabeça de um part-time na Sephora, para manter a distância e o silêncio, não é de todo adequado a uma rapariga que devia ter ao lado e de prevenção uma ama com umas mamocas descomunais para provar que ninguém toca nas suas a não ser o futuro rei e surgir de New Look Dior a ordenar que filhos se espapacem no Rolls, porque é de pequenino que se torcem os brasões, não é depois de se crescer, casar com uma abóbora, e engordar debaixo de Epstein.

Deus dá nozes a quem não tem dentes e a Gaffe suspeita que é porque se diverte imenso a vê-los desdentados a trincar aquilo.

26.2.26

A Gaffe já escrita


O quarto ao lado do meu ficou deserto.

Sobre a cama foi deixada a colcha tricotada a cores.

As lâmpadas quebram lentamente os filamentos sem que ninguém as venha substituir.
Através da porta de ligação chega um frio e um escuro inusuais. O silêncio torna os dias mais desprotegidos.
O pó avança lento do quarto vazio quando a casa se fecha e adormece.
 
Tantas vezes ali estive. Tantas vezes fiquei parada perante o brilho, de olhos a arder por não o ter, que acabava por olhar mais atentamente para as rotas de outras vidas que são como derivas nos mapas das estradas que se perdem. Era nesses desvios que me fixava, nesses pontos de luz que me deitava.
Entrava nestes trilhos devagar e às vezes saía de mansinho quando a vontade de chorar se começava a fazer ríspida na garganta.
Às vezes sorria.

As raízes do riso e do choro pertencem agora ao silêncio. Emaranhadas, acabarão por se tornar impossíveis de destrinçar. Ficarão de tal modo unidas que uma simbiose secreta impedirá o esquecimento mútuo.
É certo que de raízes pouco ou nada há no meu jardim deserto. Talvez um caule mais tortuoso, um ramo mais retorcido e agora pouco mais.

A minha casa inteira entardece devagar.

25.2.26

A Gaffe do postal ilustrado


A minha avó marca a folha do livro com um postal ilustrado antes de o fechar e erguer os olhos. Depois a cigarrilha em prata. O fumo do cigarro, esparso, no aposento.

A senhora sorri e segue com os olhos a estrada cinza ténue que se esfuma.

- Minha querida, quando decidimos partir temos de saber que nenhuma estrada nos vai levar para lá de nós. Não viajamos nunca. Ausentamo-nos.

Há lágrimas nos olhos da senhora.

O fumo. Ah!, o fumo.

- Partir é apenas uma ilusão que fica. Acreditamos sempre na viagem, mas o que resta em nós é a ausência sentida nossa no lugar que fica. Não viajamos a não ser por dentro.

O fumo.

- Não saímos nunca dos lugares onde fomos amados.

Do livro da minha avó um postal que tomba. A página perdida.

18.2.26

A Gaffe recepcionista


Está na minha frente, sentado de perna cruzada e tronco balofo e atarracado.

Bate com o maço de tabaco, acabado de comprar, na palma da mão. Vira-o e volta a desancar. Repete a actividade até perceber que me irrita, porque não consigo deixar de olhar para aquele movimento seco que me parece inútil. Oferece-me um cigarro depois de cuidadoso ter rasgado um lado e ter puxado um deles que aparece erguido sobre os outros, como se tivesse havido uma eleição.

Não fumo.

- Mas havemos de beber um copo juntos - promete enquanto procura no bolso o isqueiro de plástico.

Não bebo.

Torna-se sinistro. Olha de soslaio e sibila, manhoso:

- Aposto que aquela, com um corpinho daqueles, faz o que falta dizer.

Sorrio e deixo escapar uma centelha de suspeição propositada que lhe aflora e queima a superfície da atenção. Desconfia. Semicerra os olhos. A primeira baforada do cigarro, preso nos anéis, tolda-lhe os contornos da cara e fá-lo tossir de forma seca.

- Oh! Com aquela figura não acredito que sinta muita a falta de aquecimento central - escalda o homem e arrepia. - Toda alta, toda fria, toda elegante e de nariz empinado, já aqueceu muitas noitinhas…  - escancara num sorriso nicotina. 

A ilusão do Poder, quando alimentada por estranhos, transforma-se em areia movediça, por isso não o paro. Começo a acalentar a esperança de sentir a atarracada criatura esfumar-me no que se vislumbra por entre a névoa do engano.

Espero. Digo-lhe que será recebido por ela. Sou apenas um percalço. Um erro de casting. Uma gaffe na recepção.

- Que venha a mulher! - arreganha os dentes já babados - mesmo com aquele tamanho, posso bem com ela. É magrita. Domesticam-se bem, as magritas - desta vez a alarvidade traz o riso.

E ela entra.

- Tenho a certeza que não se conhecem. - Sou tão amável! - A minha irmã. - Apresento e tenho um orgasmo mui discreto. Continuo: - Este senhor acaba de me confessar que te acha muito elegante. Creio que entre os dois se vão estabelecer óptimas relações. O homem baba enquanto aperta a mão esguia, prolongamento do sorriso claro e do olhar atento que detecta o proibido prazer do que mantenho oculto.

- Sou muito empática - rosna a minha irmã.

- Mas magrita. És um potro, um puro-sangue, mas fácil de domar - esquiço e espero os olhinhos do homem que se abrem em franqueado embaraço.

A minha irmã estanca. Detectou o jogo e a mesa onde é lançado o dado.

- Hipismo é no teu departamento. - Faíscas e setas no meu peito, Sebastião no feminino, nem Santa e já sem reino. - Esqueceram-se de o informar que é apenas a minha irmã que se diverte com as cavalgaduras - acrescenta e entala-se o homem com fumo e aperto.

- Mas, maninha, este senhor é um jockey.

- Tenho a certeza que sim. Não se quer sentar?! - Pergunta tenebrosa, porque o achatado já está sentado.

- Vamos então tratar do seu estábulo - ordena a minha irmã já com a segurança de um projecto ganho.

Os erros cometidos pelos outros, contra nós, dos mais banais aos mais sofisticados, devem ser usados para reverter situações adversas, transmutando o desacerto em arma a usar contra aquele que falhou. A falta cometida pelo incauto, transforma-se nas mãos da minha irmã em forja que subverte o que lhe desagrada e que convence o imprudente a acatar, sem discussão possível, o que este puro-sangue decidir.

Eu?! Oh!, eu só me divirto, pacífica, a olhar o punhal cravado na testa do anão.

12.2.26

A Gaffe num tango


O meu pai saía sempre antes de eu acordar no quarto ao lado e quando chegava à noite procurava o cadeirão, sentava-se e fazia com que Piazzolla escorresse por todo o lado.

Encolhia-me perto dele.  

Uma noite falou-me  de Poesia.  
Rodopiou pelas palavras e fê-las entrar no tango que eu ouvia. Fez-me sentir a surpresa dos requebros do piano, os dolorosos desvios do violino, a magoada toada do bandoleón, o murmúrio triste e a fúria desbravada da guitarra, a revolta encarnada do violoncelo.

Entendi tudo.

Buenos Aires a dançar. Dançar perdidamente. Dançar só por chorar. Aqui e além.
Encostei a cabeça nos joelhos do meu pai.  Ele inclinou-se sobre mim, penteou-me o cabelo com os dedos e deixou escapar muito baixinho e a sorrir:
Gosto muito de dançar assim contigo.

Nunca houve nada melhor do que aquele olhar pousado nos meus tangos mais dolentes.  

11.2.26

A Gaffe num encontro


Vou ao encontro da minha irmã.

Preparo-me para atravessar a rua no lugar onde ela é mais estreita e mais segura. Olho e vejo a mulher distraída, de olhos quietos, um pouco da Onassis, a tamborilar com os dedos na mesa do café antigo.

Dentro dos vidros, a minha irmã espera. Não se vê observada e por isso não ergue defesas. Tem um cotovelo pousado no tampo de vidro da mesa e o queixo apoiado nas costas da mão. O tronco inclinado de forma ligeira e o pescoço nu, magro e demasiado alto, sem nada que o esconda parece surgir da gola alta do vestido azul como esguia espada ou torre ou haste de uma flor estranha.

A mais rigorosa geometria implica quase sempre a lapidação do acessório, do supérfluo e do inútil. A imagem singular da mulher despojada que usa os traçados e os cortes essenciais, limpos, seguros, de leitura imediata e prova de bom gosto, embora passível de se considerar a antítese de uma vivência que impulsiona o caos como regra quotidiana, é rara e susceptível de não ser reconhecida.É, no entanto, a fórmula mais sóbria de inteligência. Aquela que usa a essência do mais límpido para delimitar o espaço incontornavelmente seu. Este rigor, esta quase rigidez geometrizada, pode ser, também, uma defesa, armadura e protecção, ou um dos disfarces da altivez que se torna um dos mais atraentes desafios que encontramos. 

Nunca sabemos quantos vidros teremos de partir para lhe chegar. Nunca sabemos quantos vidros somos, antes de chegarmos.

No reflexo, a minha irmã despe os olhos e repara em mim.  

9.2.26

A Gaffe do ramalhete


A Gaffe sempre considerou as atitudes dos homens que são considerados românticos a maior perda de tempo do planeta.

Não interessam os ramos de flores que lhe oferecem se o portador não provar que as fitas que apertam o ramalhete trazem nas pontas e nas horas um Bentley agarrado - e pode ser à cocaína, pois que dessa forma uma rapariga esperta sabe que jamais ocupará o lugar do morto.

O mais recente assalto ao Louvre, o mais caro museu do planeta, deixa-nos estupefactas, roídas de inveja e com uma quase certeza calada a moer-nos o corpinho. Os assaltantes podem ter sido uns valentões, mas estariam, pela certa, perdidamente apaixonados por uma ilustre representante do sexo oposto, deslumbrante e convincente.
As joias surripiadas valem alguns milhões de euros. Nenhuma rapariga esperta deixa que se espalhe uma colecção destas sem usar, numa noite quente, sobre o corpo nu, um colarzinho de brilhantes ou uma pulseirinha de milhares.
Uma menina que se preza só é hipnotizada pelo brilho genuíno dos diamantes e pelo borbulhar de uma garrafa de Champagne de valor aproximado.
Os homens que não se iludam. Nenhuma mulher, se descobrir que há hipóteses de complementar as flores que lhe oferecem com diamantes dentro de Champagne, lhes aceita alegremente os ramalhetes, mesmo os compostos por orquídeas raras ou tulipas negras.

Lembremos as sábias palavras do velhíssimo Borges que, quando questionado acerca da ligação com uma jovem loira e torneada, responde simplesmente que estava apaixonado por aquela maravilha, tal como ela se encontrava apaixonada pelo seu dinheiro. Tão claro, tão minimalista!

Há homens cujo único encanto reside na possibilidade de nos enfeitar com brilhos verdadeiros e cujas únicas bolinhas realmente importantes são as do Champagne que nos oferecem e, mesmo com nomes suspeitos ou assustadores, estes homens acabam por fazer com que encontremos charme até nos fundilhos das ceroulas.

5.2.26

A Gaffe conservadoramente tatuada


A Gaffe não é uma rapariga particularmente fã de corpos cobertos por tatuagens. A opinião é firme, mas sublinha-se que o mesmo não acontece quando se fala de contrastes e colisões, por ventura antagónicas, que despertam no menos fundo da nossa intimidade os calafrios propensos à mais escandalosa das garotices.

Há no encontro de antíteses, no embate de imagens discrepantes, no choque de pormenores discordantes, um apelo, quase de índole sexual, que faz disparar todos os nossos alarmes.


O delicioso aroma dos bons patifes encontra-se, subliminar, nesta colisão.


Acreditamos, ou fingimos crer, que a conservadora imagem que nos é visível, camufla, embora sem convicção, um universo, mais ou menos esconso, que hesitantemente desejamos conhecer, porque somos todas, não há como negar, atraídas pelo marginal mais boémio, vadio e extravagante e a boémia malfeitoria, vestida por Prada ou Valentino, desculpa toda a tatuagem que não queremos abraçar e faz também de nós agulhas destinadas a riscar o corpo disfarçado.

É bom saber que já o Levítico (19:28) proibia a tatuagem e a perfuração dos corpos, mas é também curioso verificar, por exemplo, que em 2000 A.C. os sacerdotes núbios apareciam preenchidos por escarificações, ou que os acólitos do culto de Cibele, na Roma Antiga, se tatuavam lindamente e que mesmo hoje os Mokos, Maoris, não se esquecem de rasurar na perfeição e furar com eficácia as suas carrancas e domínios ligeiramente assustadores.

O Levítico, como se constata, não foi levado muito a sério.

Alterar o corpo, perfurando-o ou tatuando-o, não é caso para fazer tombar as armas e os brasões que desta forma se assinalam.

Lembro-me que senti uma paixão arrasadora, nova e noviça numa Faculdade que pesava de tão conservadora, por um rapaz que me conquistou a vida e mais alguns trocados de somenos importância, porque o vi, como um deus a passear pela brisa da tarde, de argola gigantesca presa na orelha. Brilhava o aro de ouro e brilhavam os meus olhos de menina e moça, levada tão cedo de casa de meus pais.O fascinante objecto deixou de exercer o seu poder de enfeitiçar, quando vi o portador aos lúbricos beijos com o meu primo - afastado, demos graças -, que não usava brinco e era míope. Continuei a adorar o priminho, mas deixei pelo caminho a dor que mal se sente.

Portanto, meus queridos, saibam que não somos, de forma nenhuma, contra piercings e afins - os aros nas orelhas deste deslumbre devem ter nome específico -, mas neste preciso caso sugerimos moderação.

Uma rapariga, ao contrário do que parece ser dito corrente, não aprecia grandemente um homem demasiado tatuado. Perde-se sempre a decifrar o olho do dragão ou a analisar a cauda do tigre. Torna-se confuso, e até embaraçoso, vermo-nos abraçadas e beijadas por uma multidão de desenhos, muitos deles a olhar, ameaçadores e fixos, para nós. Depois, meus caros, já não vão para novos. É confrangedor ver uma sereia de tinta encarquilhada (a tinta também).

Aplica-se a mesma recomendação em relação aos piercings. Se não forem, ainda que vagamente parecidos - não peço milagres - com o rapazinho perfurado que vos mostro, evitem as argolinhas nos lábios que nos sugerem, maldosamente, que podemos ficar com o bâton preso - desagradável se o estivermos a usar -, ou que estamos na presença de um fã de uma série de vampiros de qualidade logicamente suspeita.

No meu caso, perdoo o uso das argolas. Fiquei sempre a pensar, depois da visão catastrófica do meu primeiro amor pendurado na boca do meu primo, se não seria má ideia prender-lhe, ao aro, as correntes de ferro de Alcatraz.

Só para o consolar.

4.2.26

A Gaffe e o "gentleman farmer"


O homem que mais inspira uma rapariga que sonha com a segurança máscula de braços que sabem conduzir e ordenar a dispersão e a miríade de pequenas extravagâncias fúteis que rondam o desejo, é o homem que nele se envolve.  Com um minimalismo quase conservador, actualizado por um detalhe qualquer apelativo e inteligente.

É o homem que terá ao lado, sempre que o quiser, a mulher que se esquece sempre do colar de pérolas debaixo da camisola de gola alta.   

2.2.26

A Gaffe saponificada


A Gaffe aposta que a maioria reconhece que nem sempre um sapo traz um príncipe dentro. Às vezes vem com o Robin Hood, outras com o Xerife de Nottingham ou mesmo com Frei Tuck e, não raro, traz apenas o que naturalmente um sapo tem nas entranhas.

Por muito que esbracejemos e que nos sintamos empurradas para os Harrods depois de termos passado a vidinha enfiadinhas na Zara, temos pelo menos que concordar que o blogs do SAPO pretendia apresentar-se mais cuidado, mais pessoal, mais interactivo e mais português, encharcando dessa forma as outras plataformas sem bonequinhos amorosos que os petizes podiam levar para o infantário.

Meus queridos e minhas donzelas, o que será que não entendem na palavra marca?

A construção do rectângulo de ouro da população dos blogs do Sapo era, como toda a gente sabia, a forma mais marota, mais flower power, que se tinha encontrado para nos cativar.

O uso do figuras caseirinho e simples ajuda o reconhecimento imediato, torna visível o sítio, mesmo em escala minúscula.

A plataforma SAPO, muito amorosa, deixou que se pensasse que era a nossa casinha, coadjuvada pela equipa mais doce, eficaz, atenta, disponível e paciente que existia à superfície da net, que reunia rapazes que se iam transformando no ideal informático - e giro - de qualquer rapariga esperta. Mas nunca deixou de ser uma pragmática ferramenta capaz de inquirir o seu utilizador de modo a entender e se possível satisfazer os seus desejos expandindo em consequência o seu raio de acção e a capacidade de se afirmar como parceiro incontornável nos tabuleiros dos negócios.  

É lógico que se perde, com alguma pena, algumas manigâncias que se usavam para serigaitar por ali, mas ganham-se outras e francamente não penso que seja difícil movermo-nos nos alternativos cantos do mundo digital.

É lógico que não é agradável perceber à queima-roupa que nunca fomos mais que estatísticas e dados negociáveis, enquanto altos, números que rendiam ou gente dentro dos ficheiros empresariais. Acreditávamos que o lucro não iria surgir com esta dimensão no trabalho de uma equipa de profissionais tão amorosos, acabando a arrasar o recanto dos sapinhos.

É lógico que por muito que as meninas rabujem e os meninos estrebuchem, o blogs do SAPO vai saponificar. O origami que o construiu era dinâmico e facilitava a possibilidade de cada um o ler à sua maneira, mas, como se sublinha, há coisas mais importantes que o dinheiro, mas são demasiado caras para durar.

28.1.26

A Gaffe KO


Não há rapazes maus. – Dizia a avó que o ouviu de outro santo e a Gaffe, humildemente, subscreve.

Há, no entanto, aqueles que transformam o nosso tempo em tempestade. Aqueles que, por muito pouco encorpados que sejam, nos deixam KO quando aproximam o escanzelado negro das nossas mais coloridas divagações.

Arrasam-nos com um allure quase negligente, desatento, descuidado e aparentemente isento de qualquer réstia de obediência a tendências estabelecidas como oficiais pelos mais soberanos criadores dos mais variados apetites de consumo.

O jogo inteligente e discreto entre uma banalidade quotidiana, que passa despercebida a olhares desarmados, e a subtil manipulação do ton-sur-ton das almas repletas de diversas texturas ou de peças policromáticas, produz um travo que, embora passível de ser engolida pelas ruas, nos deixa sempre um sabor simultaneamente amargo e doce no palato de quem já turva o olhar de tanto imaginar uma luta de cetim no ringue dos lençóis.    

27.1.26

A Gaffe com o pai


Há um banco de madeira pintado de vermelho na Praça no centro da Avenida e um homem desprovido de ruas sentado a ver o mar. As gotas de ausência nos rebuços do casaco e um alfinete redondo de madrepérola preso na lapela.

O homem tem barba grisalha e nos olhos a lonjura que vem de vela panda encher de névoa a Praça nua.Vou de encontro ao homem que se levanta e, já de pé, ocupa o espaço inteiro.

Nada é mais do que um homem numa Praça, erguido a prumo, com névoa no olhar.

Abraça-me e no abraço as ruas apagam-se.

Deslumbrante é a capacidade que a alma tem de escapar pelos olhos e abruptamente ocupar uma Avenida que de súbito se transforma num monograma de um alfinete minúsculo na lapela.

26.1.26

A Gaffe fantasiada


Todos os homens marotos fantasiam. Escolhem, com mais frequência, cenários onde as mulheres estão vestidas de assistentes de bordo, de colegiais adolescentes, de mimosas serviçais de mansões decadentes, pias freiras ou de enfermeiras de tacão agulha.

Não é danoso para o nosso latente ou mais exacerbado feminismo. É tudo uma questão de saber como os fazer embarcar naquele jogo quase Lolita onde servimos os deleitosos aperitivos que os deixam prostrados e prontos a aceitar as picadas das agulhas dos nossos desejos mais imaginativos.

Em todas estas fantasias masculinas, por muito que o neguem, são pequenas heroínas que eles desejam ver fingir que somos e é nesse fingir que dominamos a história.

A Gaffe dos ilhéus


Em todos os homens há dispersas e pequenas ilhas de profunda elegância, de sofisticado conservadorismo e de máscula discrição. De vez em quando, uma é avistada.
Já uma mulher navega quase sempre na segurança do segredo de dia friorento na linha mais íntima e serena, escondida, das ilhas mais difusas.

Raros são os homens e as mulheres que se mostram sempre abertos arquipélagos.

24.1.26

A Gaffe n.º 5


Marilyn dormia vestida apenas com uma gota de Chanel nº 5.

Mas, como todas as raparigas espertas, a Monroe sabia que o corpo nu de uma mulher consegue fazer explodir qualquer perfume. 

23.1.26

A Gaffe nevada


É uma das amigas da minha irmã. Alguns meses mais velha do que ela, casou aos vinte e sete anos permanecendo grávida durante os cinco primeiros de felicidade partilhada. Sucessivamente grávida. Ano após ano.
Colegas de curso, as duas percorreram estradas diferentes. A minha irmã ignorando por completo a prazenteira perspectiva de constituir família, trocando esta bagatela por uma carreira de diamante, a amiga desistindo da profissão a favor de cinco crianças e de um marido escandalosamente rico.
Comprou um velho e abandonado palacete no Norte. Veio de Lisboa, da Estrela, entregar o projecto de recuperação à única arquitecta em que confia. Não o agarra, porque já nem sabe ler a planta de um cubículo - confessa, com a curta farpa de um orgulho estranho espetada no sorriso.
É uma mulher bonita, sem ser deslumbrante, ou então o fascínio e o brilho que poderá reter, são asfixiados pela figura da minha irmã que não esconde o desprezo que sente por uma criatura capaz de abdicar de um projecto de vida próprio em nome dos projectos de vida seja de quem for. É quase embaraçosa – e muito cruel - a forma como a minha irmã a olha, com uma ameaça latente no azul metálico e cínico do olhar, e exibe uma pretensa superioridade intelectual invadindo a amiga com questões que a pobre devia dominar, mas que a tornam imbecil, serigaitando num nervosismo tolo ao admitir que já se esqueceu das respostas, fazendo saltitar risadinhas que esbarram com a indiferença que sorri eivada de maldade da interlocutora.

O óptimo seria que se desse como finda a recuperação depois do Inverno.

- Vô pá nêv - informa, ligeiramente saloia, acrescentando que poderia ser agradável depois do frio passar uma primavera mais bucólica.

Olho as duas mulheres, sentada no sofá da minha atenção mais picuinhas.
Podiam ser, de modo brutal e sanguinário como apenas as grandes amizades o sabem ser, inimigas mortais, porque pertencem ao nicho onde só habitam predadores.
São ambas detentoras de um capital simbólico elevadíssimo. As duas pertencem ao que, muitas vezes como insulto, se chama elite dominadora. São igualmente sofisticadas, igualmente loiras, igualmente elegantes, igualmente ricas. Não há grande matéria que as separe.

São portanto amigas.

o único estilhaço que as separa, encontro-o eu num destino de Inverno:
 Uma vai pá nêv.

A outra não.

7.1.26

A Gaffe assassina

 


Tive ontem o dia todo inteiro só para mim. Fiz dele o que quis, depois de o estrangular com uma fita de veludo, vermelha, amarfanhada. Gosto de dias mortos, que não esperam por ninguém, deitados no chão, nus, ao abandono, com uma tira vermelha no pescoço como se tivessem as gargantas lancetadas.

6.1.26

A Gaffe em silêncio


J’entends ta voix dans tous les bruits du monde.

Paul Éluard

2.1.26

A Gaffe tatuada


O nome dos outros em mim como tatuadas gentilezas.

No meu corpo nu a morrer de frio consigo ler o nome dos outros a pena escritos na pele ou desenhados ténues, indeléveis, corrompendo a macia superfície. Como se a cada nome fosse entregue um espaço meu, do meu corpo nu que treme precipitado pelo frio. Como se a minha memória fosse este lugar despido e nada mais houvesse a não ser o risco que em cada nome no meu corpo nu se misturou na pele.

O do meu irmão, perto do lugar de onde respiro. O da minha irmã, junto dos olhos com que vejo sem ver, cega de tudo. Os nomes dos meus avós, nas minhas mãos que fazem e desfazem. Os dos meus pais, no centro dos meus braços.

De todos os nomes no meu corpo aquele que eu consumo, gasto, esbato, adoço e esvaeço, tem a cor do afago no lado esquerdo de todos os sentidos. 

Deixo que pouse devagar no coração.

1.1.26

A Gaffe em 2026