30.9.21

A Gaffe, os OI e os OA


Por motivos mais que maçadores e muito mais que óbvios a Gaffe não presta muita atenção a olhares libidinosos. Uma rapariga esperta sabe que é por vezes o alvo do desejo pouco certeiro do sexo contrário, porque sente escaldar os dardos que são disparados na sua direcção, mas raramente lhes dá a importância que merecem. 

Excepto em duas ocasiões específicas: 


1. - Quando os olhares se tornam de tal maneira insistentes que acabam por despertar a sua atenção, corroendo a sua altiva indiferença.

São os chamados Olhares Imbecis – OI.

Não são particularmente atraentes;


2. - Quando ao lado desses olhares existem outros que quer ver, esses sim, dirigidos a si. Olhares de Assalto – OA.
Há necessariamente que saber lidar com estas duas situações.

 
No caso dos OI torna-se fácil reagir. Há várias opções ao seu alcance.

Destaquemos estas: 
a) Um sorriso ameno, como quem diz: Também gostava imenso, mas tenho uma reunião no Dubai agorinha mesmo!; 
b) Um mimar de um beijo pequenino parecido com aqueles que atiramos nas festas quando vislumbramos a tia; 
c) Um inclinar de cabeça - sempre para o lado direito - acompanhado de um encolher de ombros subtil e de um fechar de olhos repleto de ternura, do tipo: Oh! Que pena eu estar tão acompanhada!


Se todas as hipóteses forem levemente tocadas por Narciso Rodriguez, resulta sempre.

No caso dos OA as coisas podem tornam-se mais complexas.
Os OA apenas são maçadores quando o rapaz está acompanhada por um colosso saído dos sonhos mais intensamente hollywoodescos. O rapaz é geralmente o namorado dessa estrela e, também na generalidade, não suspeita que está a um passo de enfrentar uma toureira, nem a incauta e inconsciente mulher faz ideia que anda à solta uma rival. Há que rentabilizar estes percalços. 
Convém nestes casos corresponder de forma intensa. É o império do olho por olho. Devemos insistir até que o rapaz se aperceba que há mais cinema para além do americano. O nosso encantador cinema europeu e as promessas contidas nos olhares trocados nestas fitas, fazem milagres. 
Uma das estratégias - rasca, mas sempre eficaz -, usada para concluir a aventura dos OA é, por exemplo, esquecer no tampo da mesa o livro barato que se acabou de comprar. Convém não ser uma obra-prima  - porque corremos o risco, embora residual, de ficar sem ele -, e se não quisermos parecer psicopatas com esgotamento cerebral, ou a versão feminina de um marchand casado com uma joalheira excêntrica que saponificou, jamais o último da Margarida Rebelo Pinto. 
esquecimento vai permitir à inocente menina dos nossos olhos pedir ao rapagão que a acompanhe e que lhe devolva o esquecido.

Convém que a entrega da obra seja feita com dois flutes, porque uma rapariga esperta gosta de beberricar Moët & Chandon antes de começar a ler o índice.


29.9.21

A Gaffe de 007

007 será uma mulher!

A notícia, se verdadeira, deixa-nos, a nós raparigas espertas, prostradas, doridas, frustradas e  empapadas em desilusão.

Uma das maiores tolices da história do cinema que já conta com 20 anos de masculino espião.

Uma mulher jamais poderá encarnar 007!

A classe e o charme desta espionagem ao serviço de Sua Majestade serão sempre masculinos.

007 foi criado para ser um homem, apenas um homem, só um homem e nada mais do que um homem. Ian Fleming foi peremptório e Daniel Craig cumpriu de forma extraordinária esse destino, recriando um fleumático, musculado, sofredor, carnal, brutamontes e sovado James Bond. O melhor de sempre, o mais atraente, o mais másculo, o mais ensanguentado, o mais sujo, o mais suado, o mais chorão, o mais sensual, o mais bonito, o mais esmurrado, o mais animal e, sem sombra de dúvida, o que faz com que nos faleça o tino mal o avistamos de tronco nu, ou de speedo a surgir no oceano do nosso contentamento.

É preciso acompanhar os tempos – dizem alguns com olhos doces, estendendo-me os braços, e seguros de que seria bom que eu os ouvisse, enquanto se afirmam dispostos a calcorrear os mesmos trilhos do tempo que passa.

É evidente que as duas décadas de Bond não foram grandemente simpáticas com as mulheres, embora, diga-se em abono da verdade, nunca tenha ficado claro se era o espião que as usava e descartava, ou se era o contrário que se verificava. Não há registo de nenhuma rapariga tombada deprimida depois do alegado abandono do rapagão maroto e não está determinado com exactidão se é 007 a levar as girls para a cama – ou para qualquer outro sítio, que o rapaz sempre foi muito despachado e inventivo -, ou se são elas que aproveitavam a onda dos lençóis para matar o tempo disponível entre o tiroteio.

Certo que, sendo 007 uma mulher, a tortura a que a espionagem fica sujeita se torna mais limitada, o que não deixa de ser confortável. Ninguém dá pancadaria nos testículos de Lashana Lynch - hipotética herdeira da licença para matar, à semelhança do acontecido aos de Daniel Craig – um despedaçar dos nossos corações, sobressaltados com tal cena e desfeitos em cada paulada -, mas acreditar que transformar uma mulher em 007 equivale a terraplanar as eventuais ofensas ao feminino, ou a vingar décadas de alegados machismos patentes na saga, tornará homogéneo, justo e muito #metoo, o tratamento dado aos dois sexos nas fitas do espião, é uma tolice desmesurada digna de ser sujeita a ordem para matar.

São as mulheres que devem ensinar, educar, James Bond, sem que nessa árdua tarefa careçam de assumir o papel de protagonistas. São divinais, sedutoras, inteligentes, poderosas, belíssimas, potentes e mais que não se diz por ser verdade e cansativo repeti-la.

Bond deve ser confrontado por mulheres da sua craveira, tratado, manipulado, ofuscado, usado, esfolado, despido, suado, largado, protegido e todo o resto que habitualmente é da responsabilidade do espião e de seu uso frequente quando se depara com um maravilhoso par de mamocas. As mulheres sabem que Craig tem um par de outras coisas, que podem inclusivamente ser sovadas, igualmente atraentes.  

É uma tolice.

Não é de todo necessário entrar em cena Lashana Lynch. Só entope as nossas maravilhosas noites de icónicos machos espiões que tantos arrepios nos causam quando emergem do oceano molhados e feridos, mas prontos a atirar uma rapariga para a areia e a provar insistentemente que os têm de aço. Os braços.

Vá, não sejam ingenuamente condescendentes e paternais. Evitem ser possidónios e sobretudo tentem escapar à pinderiquice feminista.

As mulheres, acreditem, sabem educar o James Bond.      

A Gaffe banqueira

Peter Lippmann

É evidente que quando pertencemos a óptimas famílias nunca sofremos a inconveniência de nos vermos falidos ou na prisão.

Seria uma maçada.

Se o Filho de Deus ressuscitou Lázaro, depois de afirmar por todo o lado que somos todos irmãos, nós, os filhos de Deus que todos somos - e por afinidade, todos família do Espírito Santo -, talvez tenhamos uma vaga hipótese de ressuscitar a justiça portuguesa, embora a Gaffe suspeite que, tal como Lázaro a podre, a pobre já não se livra do cheiro a Rendeiro.

28.9.21

A Gaffe no fim das vindimas

 Ao almoço, no Douro do fim das vindimas, a mesa de toalha branca, luminosa, enche-se de vozes.


As janelas são rasgadas, abertas, veludos afastados, presos por argolas de ferro e ferrugem. Despojada da sombra, a luz vem tímida tocar o barroco do centro de flores e de frutos.

As mulheres fazem tilintar talheres que desconhecem, pratos e sopeiras, molheiras, galheteiros, jarros e garrafas velhas de cristal. Há tremuras no ar e rodopios do vento dos aventais bordados. Há correria e nervoso, resmungos das velhas e murmúrios das outras. Um homem sorri, gengivas sem dentes, ao ver passar a pingadeira, onde o arroz fumega depois de servir de base ao cabrito. Escaldou os dedos à mulher blasfema.

Os estilhaços de copos de tacão alto fazem tremer a mais novinha, criança ainda, desengonçada e loira. Que saia daqui que só atrapalha! Que saia dali, com cabelos loiros e olhos de amêndoa, a menina tonta que largou o copo de cristal antigo e pé de cegonha nas tábuas do chão.

Corre, corre, corre que chegam os homens!

Corre, correr, corre que entram na sala e a senhora não está para os receber!

Corre, corre, corre que tens de a chamar!

Corre, corre, corre, menina que parte os copos antigos. Não vás a chorar.

Os homens almoçam na mesa coberta por toalha rara. Os homens já falam. Perderam o medo dos talhares confusos e dos copos altos raiados pelo vinho. Perderam o medo da menina rica vestida de azul ao lado do irmão com olhos da cor do vestido dela. Aquela a que chamam, num sussurro ínfimo, menina de fogo e que lhes pisca o olho sempre que se enganam e que troca os garfos como eles os trocam ou que principia antes de os trocarem para não haver mais trocas na mesa.

Corre, corre, corre, corre e rodopia, menina de fogo! Vê muito depressa como tudo é claro.

Roda, roda, roda e vai ver num instante como tudo é simples nos olhos dos homens que trazem toalhas de linho e bondade pousadas nas almas de linho lavrado, estendidas frescas num tempo passado.

Corre, corre, corre, não vás a chorar.

26.9.21

A Gaffe encarpada


Foram decepadas as hortênsias. Em bisel, um golpe curto, quase rente ao chão.

A mágoa de as ver tolhidas pela ameaça do Inverno; a saudade dos globos de cor anil, azul-cobalto, enferrujados pelo frio e a tristeza do destino igual ao das sardinheiras de Espanha que eclodiram gigantes como astros de flores ensanguentadas, são amornecidas pelas promessas geométricas das Black Lace que pesam nas japoneiras, em segunda linha, de troncos retorcidos de tão velhos.

Em breve - o mais tardar, Fevereiro - serão o caminho da cisterna.

Agora não.

O caminho da cisterna é uma nudez entretecida de névoa e de gestos negros de raízes que rasgam a superfície da terra. É o parir do Inverno. Os dedos ríspidos de criaturas cegas pela geada das manhãs dos frios da terra que os gerou. Este estarrecido espanto de sentirmos o silêncio a abrir os interstícios deixados pela morte das pétalas.

O caminho da cisterna é labiríntico. Não pelo traçado que dele se fez, mas por estes dedos que se distendem e que se cravam depois nos lanços mais distantes.

Às vezes, há minúsculas passos de fantasmas nas águas que tombam nas ausências das sombras dos teixos. Às vezes, passa um pássaro enlouquecido pelos gritos dos pavões encharcados de frio. Às vezes, a casa é tão distante que nela não entramos sem ter os pés lanhados. Às vezes, a cisterna aberta em círculo cor de chumbo, estanca-nos a vida. Sentimos e há raízes, há dedos das raízes a crescer-nos nas veias, a trespassar-nos as veias, a seguir-nos nas veias.

Às vezes, acabamos por ser frio.

As carpas imóveis do lago longe, longe, tão longe daqui, abrem as guelras perto das asas do anjo de pedra.

Às vezes, abrem-se as pedras do lago do meu peito e dentro das raízes da cisterna voam carpas.

Vai chegar o Inverno.

25.9.21

A Gaffe adjectivada


É certo e sabido que os rabiscos da Gaffe estão pejados de adjectivos e de advérbios. Uma coisa tremenda que foi desde sempre apontada como desgraça para o bom fluir de um texto. Também é evidente que a Gaffe sempre teve perfeita noção da ocorrência e nunca levantou o dedo da tecla para evitar a desfaçatez. Esta rapariga não gosta de se desgastar com o gosto dos seus críticos, nem tem a intenção de elevar rascunhos tontos ao nível dos escritos dos contidos consagrados. É o que se poderá chamar um vê se te avias de adjectivação.   

A Gaffe aproxima-se desta forma das figuras curiosíssimas que de quando em vez trespassam os nossos areais, vendendo bugigangas. Capazes de enfrentar a maior canícula e os mais agressivos raios meridionais, estes senhores pisam brasas carregados de varapaus onde pesam centenas de inutilidades que incluem lenços de coloridos gigantescos, óculos de sol, fios, pulseiras, estatuetas africanas, elixires capilares, berloques, quinquilharia marítima, destroços de automóveis, saídas de praia para matizar gorduras, vestidinhos de alças e de bordado inglês feito na China, mantas da Covilhã, bronzeadores e uma ou outra fotografia de Mapplethorpe apanhada no caixote do lixo de Serralves.

A Gaffe não tem qualquer prurido em ser literal e literariamente comparada a estes corajosos vendedores de banhas de praia.

O que a aflige - de forma ligeira e muito precavida, pois que a Gaffe é muito dada a  brunouts repentinos -, é ver-se próxima daqueles senhores que aparentemente não vendem frandulagem, mas que a usam por todo o lado. O importante é que se consiga avistar a olho nu – para contrastar.

É evidente que os excessos femininos são condenáveis, mas nós, raparigas, podemos sempre dizer que carregamos a herança cultural de legiões de druidas. Fica bem e ninguém se atreve a passar por inculto. O dente encastrado em ouro que trazemos ao pescoço, que arrancamos à chapada a um passado recente, turbulento e barbudo, é visto como um chamariz da aura ancestral emanada pelos barbeiros, alquimistas ainda imberbes, chegado da escura, densa e esconsa Idade Média.


Com os homens estas preformativas justificações não resultam.

Um rapagão que se disfarça de mostruário de farraparia é, por norma, excluído da selecção de rapazes que podem ser despidos por raparigas muitíssimo empáticas, ou demasiado sociáveis nas noites das iguanas.

Os berloques, as medalhas, os anéis nos dedos e os penianos, os botões de punho, os alfinetes, os pins nas lapelas, as pulseiras, as correntes, as fitas nos punhos, as fitas ao espelho, os cintos complexos de fivelas torpedeiro, os picos das botas, os piercings nos mamilos e príncipes nas pilas, as coisas pendentes e as tretas sem dentes, os brincos, os aros, argolas nasais e as depiladas pernas que reluzem de noite, são provas cabais dos crimes que os donos cometem quando desatam a acreditar que é atraente a Feira da Ladra.

A Gaffe propõe que toda a fancaria usada por estes rapazes-mostruário, seja neles tatuada. Poupa imenso tempo, não oxida, não sai, nem vai, não foge, não escorrega, não se perde, não se ganha e contribui para que se cumpra o desiderato de toda esta gente à beira mar exposta. Em 2022, os portugueses terão todos uma tatuagem algures e uma selfie com Marcelo e ao lado da bazuca do António Costa.  

A Gaffe dá o exemplo e tatua adjectvos e advérbios.     

                  

24.9.21

A Gaffe em manutenção

Bradshaw Crandell - 1952

Depois de ter decidido pagar apenas o que consumia, a Gaffe optou por um tarifário livre, com carregamentos soltos e de valores opcionais, para poder sentir que não estava a ser descaradamente roubada pela Altice, operadora que tinha escolhido por razão nenhuma e porque a enche de tédio ter de ouvir as assistentes da concorrência a impingir-lhe os mesmos serviços pelo mesmo preço, mais cêntimo, menos cêntimo.

Ufana, desandou por ali fora, com a certeza do dever cumprido e a murmurar o consagrado a mim ninguém me engana, com um ar de Manuel Alegre na tourada.

Dias depois, recebeu uma mensagem reportando que lhe tinha sido retirado um euro do saldo, para manutenção do cartão.

Dias depois destes, recebe nova mensagem a informar que se tinha eclipsado mais um euro e mais pico, para manutenção do cartão.

A Gaffe ficou pasmada. Não imaginava que um retângulo tão pequenino acumulasse tanto pó e fosse de tão rápida degradação.

Dias depois destes dias, foi amavelmente brindada com uma frase lapidar que lhe comunicava que o cartão ficaria activo até um dia determinado e que, passada a fatídica data, esta rapariga deixaria de poder efectuar chamadas, mesmo que não tivesse esgotado o saldo que, descobriu de repente, não era cumulativo. Havia carregamentos a fazer, acudam-lhe os deuses! 

Não percebeu o que se passava, mas decidiu deixar que a implacabilidade do tempo realizasse o dano que a ameaçava.

A Gaffe ficou com um cartão de telemóvel amputado e a felicidade raiou como naquelas fotografias lindíssimas que aparecem no facebook a abençoar frases desgarradas, mas sempre de utilidade extrema.

Segundo informação não fidedigna, o cartão será desactivado definitivamente ao fim de três meses de inactividade. A Gaffe tem de agendar a ida ao funeral, que isto de se ser de boas famílias exige sacrifícios.

É curioso verificar, por exemplo, que este procedimento é muito similar ao aumento das reformas anunciado em forma de slogan. As pobres olham os foguetes que se lançam e estrelejam e pasmam seduzidas, dispostas a aclamar a benevolência e o altruísmo de quem olha as folhas de Excel com um desprezo humanista e se curva perante a miséria alheia, retirando-a do lodo onde a enfiou. Passados dias - provavelmente o mesmo tempo que leva a chegar a mensagem da Altice ao telemóvel -, o IRS sorve o saldo para manutenção do cartão.

É também similar ao anunciado para as escolas que subitamente e ao abrigo do PRR, ficam a saber que o ano lectivo contará com uma sala absolutamente equipada com o melhor que há em tecnologia de modo a que os alunos, duas vezes por semana, tragam os seus computadores portáteis – também eles fornecidos pelo PRR – e tenham aulas - duas vezes por semana, sublinha-se -, em que a componente digital é avassaladora. Tão avassaladora que esgota a capacidade dos equipamentos, a capacidade e a velocidade da ligação e faz com que nos apercebamos da ausência de estruturas, da inexistente adaptação e renovação do mais básico e da anquilosada, obsoleta e degradada oferta da esmagadora maioria do parque escolar. Concluímos que a sala servirá com certeza para se fazer a manutenção do cartão das empresas que já se prontificaram a apoiar a ideia de ponta tecnológica.  

Fica no ar apenas a vaga ideia da pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

É interessante apurar, por exemplo, que a Altice se comporta como as Câmaras cravadas nas zonas em agonia, destruídas por incêndios, que distribuíram a grupos de jovens voluntários - que se revezavam mês após mês, chegados de várias zonas do país às terras assoladas -, carvalhos, pinheiros e sobreiros, cuja aquisição foi subsidiada, e que não as regavam, que não as cuidavam, que não as protegiam depois de plantadas, tornando imbecil e patético o voluntariado que se deparou, mês após mês, com a morte das árvores pequeninas. Voltavam para recolher outras. A Câmara - logo que recuperada a casa de férias do amigo - fornecia-as subsidiadas, porque há que fazer a manutenção do cartão.

Fica novamente no ar apenas a vaga ideia da pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

É simpático atestar, por exemplo, que a Altice se comporta como aqueles que vão provando que o jornalismo desapareceu do quotidiano das gentes. Restam resíduos avulsos que cospem fast-food servidos em embalagens de plástico descartável que referem a grande reportagem, ou a investigação jornalística, antes de se agarrar o guardanapo que limpa aberturas de noticiários com telefonemas populistas de presidentes narcísicos, pois que é necessário fazer a manutenção do cartão.  

Fica outra vez no ar apenas a vaga ideia da pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

É estimulante confirmar, por estes poucos exemplos - e por outros que se calam, pois que iriam deprimir esta chamada -, que o país é apenas e cada vez mais uma rede de comunicações - privadas ou públicas - com uma razoável equipa de marketing e que no fundo tudo se resume à manutenção do cartão e a uma pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

Por isso a Gaffe decidiu - enquanto pode -, mal receba uma chamada de uma operadora que lhe quer anunciar a Boa-Nova, sussurrar num tom arrastado e rouco, mafioso, mesmo antes de ouvir o que quer que seja:

Já está. Manutenção feita… Mas há sangue por todo o lado.


23.9.21

A Gaffe no vosso reino

Toquem os sinos a rebate! Anunciem a boa nova! Rejubilem! 

A Gaffe emergiu resplandecente depois de se ter retirado para acrescentar valores à sua biblioteca - versão Portugal dos pequeninos.

Durante este retiro espiritual, a Gaffe foi adicionando cromos à sua colecção de citações, saltaricando de Citador em Citador até considerar que o reunido continha a aura de intelecto capaz de impressionar o mais valente literato.


A Gaffe acredita de forma pia que acumular frases assinadas por consideráveis vultos de valoroso estatuto intelectual - mesmo que os pobres não as tenham escrito, ou que o tenham feito apenas para as desconstruir nas páginas seguintes -, equivale a conhecer de modo profundo o pensamento do suposto autor. Um processo de equivalências muito em uso em algumas faculdades privadas do país.

Citar, por exemplo, Sartre - O inferno são os outros - é suficiente para atestar a nossa intimidade com O Ser e o Nada e traz implícito o nosso convívio com Camus, Kierkegaard e até, com algum esforço, com T.S. Eliot.

A Gaffe considera de utilidade pública o processo que nos leva a resumir milhares de páginas a uma frase gira, colhida algures no meio delas, que em certas circunstâncias nos ajuda a levar a água ao nosso moinho - esta rapariga passou uma temporada muito bucólica, como se depreende - e é sempre agradável para o leitor ficar arrepiado com a grandeza que escorre dali - embora descontextualizada, raquítica, enfadonha, decepada e isolada -, porque supostamente alicerça, justifica, iliba e glorifica as mais miseráveis fraquezas e impotências, para além de se ficar com imenso tempo para a atirar às chamas do inferno que são os outros.  

Este maravilhoso processo de pechisbequice literária tornou-se banal e está acessível a todo o género de criaturas cultas. Basta abrir um site de quotes e cotizar as que nos são úteis, publicá-las e esperar que nos coloquem na cabeça o esplendor dos avisados que sabem, por interposta pessoa, castigar os infernais.

Não é de todo obrigatório ler a obra onde é pescada a cintilante citação. Basta que se veja o que se quer no meio do que se não vê.

A Gaffe é apologista - podologista, como diria a Mélinha – da pechisbequice literária, porque para tratar de uma cortada unha do pé da literatura universal não é necessário estudar o Harrison e congratula-se ao perceber que os senhores responsáveis pela selecção do obras a incluir no Plano Nacional de Leitura e os papás que o seguem pensam o mesmo. 

É cansativo perder tempo com valter hugo mãe - e a Gaffe não morre de amores pela sua escrita nem se deleitou com a obra causadora de tanto disparate - sabendo-se que o rapaz já ganhou o prémio Saramago. Um vislumbre pela sinopse de um livrito é suficiente para o encaixar algures.

É inútil ler a obra inteira, embutida desta forma num Plano atrapalhado com tanto cavalo à solta - minha alegria, minha amargura minha coragem de correr contra a ternura - se conseguimos fazer pairar, desamarrada, a piscar sexo, uma frase arrancada a uma personagem que sem ela ficaria de certa forma incompleta e por caracterizar como o autor requer. 

pechisbequice literária - companheira de tantas outras que pululam por todos os cantos, facilitadas e facilitadoras -, é a única causa desta espécie de polémica que assolou outrora - salvaguardando-se contextos e distâncias - a Ilha dos Amores nos Lusíadas e o Evangelho segundo Saramago e Jesus Cristo.

A Gaffe leu o pedacinho mísero que consubstancia o móbil da condenação e que obriga a obra a desviar-se de leitores com menos de quinze anos - impresso até nos fazer desejar enviar os citadores para o lado da senhora que a frase menciona -, e como por encantamento - o tão glorificado e sobrevalorizado poder de um livro não é de menosprezar até mesmo aqui! - foi levada em viagem até ao quarto das donzelas vitorianas cujo dormir era vigiado por amas acordadas que travavam, com solavancos de pudor traduzidos em beliscões bem dados, os gemidos suspeitos dos sonhos das meninas; aos conventos oitocentistas onde se esmagavam as maminhas às monjas com tiras de pano de modo a que não sofressem as sevícias dos desejos carnais, tocando nos mamilos umas das outras, e à sala dos encarregados de educação do petiz que ficou sem a Playboy de Janeiro, porque é bem mais favorável a um parental relaxamento que o puto continue a guardar vídeos pornográficos no telemóvel que lhe foi dado pelo Natal.

Num adaptar muito original de uma citação já muito picotada, estas deslocações sem se sair do sítio encetadas pela Gaffe trazem apenso a certeza de um facto. A pechisbequice - seja em que área for - faz apenas com que fiquemos a olhar para o rato que foi encontrado nos sopés do Evereste.


A Gaffe com um dói-dói


A Gaffe d
esconheço a origem da sábia expressão, tida actualizada no Douro, os homens são uns paridos, mas confessa que neste caso o empirismo é convincente, dispensando em consequência comprovação científica.

Os homens são o que na gíria se chama mimelos e que na realidade é apenas uma característica da espécie e do género.

Esta particularidade adquirida pelos rapagões há tempos imemoriais, é vastas vezes usada como ardil de sedução. Nos confins do inconsciente mais oculto, os homens perceberam que um queixume, um ai, um arquear infeliz de sobrancelhas, um chorito, uma lágrima furtiva, um tombar sem forças, ou um golpezito de sorte, faz eclodir a enfermeira que todas temos cá dentro.

É evidente que nem todas obedecem de forma literal a este impulso. Perante um gemido masculino não é certo que uma mulher envergue de imediato a bata branca e o chapelinho com a cruz vermelha, despidas outras formas de se ser tarada, e se desatilhe em manobras de reanimação seja do que for.

Não!

Apesar de tudo, resta-nos o senso e a vontade de enfiar o termómetro nos sítios e com os fins a ele originalmente destinados. No entanto, a descoberta desta nossa debilidade, o reconhecimento da nossa propensão maldita, entrega aos meninos choramingões a possibilidade de se servirem da extraordinária disponibilidade feminina, da nossa abnegação, da nossa compaixão, da Madre Teresa que em nós lateja, para fins muito poucos lícitos.

Não adianta muito afirmarmos, empoladas pela soberba, com o nariz arrebitado de estoicismos, orgulhosas da nossa capacidade de sofrer em silêncio e com a vertigem da superioridade de quem aguenta - de pé, hirta e fixa -, os tacões agulha na presidência do conselho de administração da nossa vida, que os homens são uns paridos. É inútil, como toda a verdade encanecida e ultrapassada. Ao primeiro choro do nosso menino, espetamo-nos na net a ver se dói, doridas de pesar.

Somos compassivas, somos caridosas, somos empáticas, somos caritativas, somos misericordiosas e bondosas. Está dentro de nós estes destinos - embora todos muito selectivos.

Sabemos que os homens são uns paridos, mas, se valerem a pena, é sabido que corremos a tratar-lhes do dói-dói.

22.9.21

A Gaffe a abanar

Antes e agora, as mais elegantes princesas europeias foram actrizes.

A Sussex por Roland Mouret

A elegância sem erro e sem margens para dúvida ou hesitação, parece ter como aliada imprescindível uma lapidada capacidade de fingir, que, como toda a gente sabe, é um maravilhoso dom que amadurece, mas não envelhece ou apodrece com a idade.

No entanto, meus amores, o resto engorda.

... E a duquesa está a gorda! Uma grande gorda. 

... ... ...

Mais cedo ou mais tarde, minhas queridas, sucumbimos à idade, à doçura e à gravidade.

Que ninguém aponte o dedo, ou atire biblicamente a primeira pedra.  



Se numa praia paradisíaca levantamos a mão para protegermos os olhos e existe uma brisa que nos refresca a tez, a idade faz com que o nosso braço pareça a bandeira vermelha desfraldada ao vento.

Se decidirmos escolher uma posição sexual diferente da do missionário, a idade faz com que os preocupemos em seleccionar aquela em que o parceiro nunca fica num ângulo inferior ao nosso, porque arriscamos a que o pobre nos veja tudo a cair.

A encorpada e gloriosa águia que tatuamos na coxa da nossa juventude, parece agora um frango encarquilhado pelas estrias e depenado pela casca de laranja que nos resta depois de sugado o sumo e mesmo os gomos aparentam desidratação.

Já não cruzamos a perna com a desenvoltura de outrora, chicoteando o ar e matando de inveja as acrobatas do Cirque du Soleil. A idade permite apenas que encostemos uma coxa à outra, a perninha esquerda a sustentar a amiga periclitante, com o rabo enfiado na poltrona e o joelho que tentamos levantar encostado às mamas.

Já não flutuamos pelas avenidas, de vestido Dior, com muito sucesso, a fazer esvoaçar a nossa silhueta. A idade faz-nos abanar por todo o lado. Faz com que pensemos que estamos cravadas numa daquelas cadeiras vibratórias ligadas a uma velocidade relaxada ou que temos incrustado e avariado o único sexo que ainda vamos tendo e que funciona a pilhas.     

Por muito que afirmemos que é mentira, a idade transforma, quer o nosso lazer, quer a nossa vida sexual, em preocupação.

As preocupações envelhecem e não raro engordam.

Raparigas entradotas, ergam-se e libertem-se!

Retirem do baú os vossos biquínis exíguos, repletos de lantejoulas e, mesmo que desapareçam metidos nas estrias, ousem enfrentar as ondas com eles encaixados, porque o Verão, até o nosso, não vai parar de se repetir.

Desfilem de Vichy pelas avenidas. Afinal é vossa a glória de ter feito do padrão a coqueluche e ninguém como vos sabe vesti-lo.

Arrasem guarda-fatos e usem o que de mais estranho lá se encontra. A vossa vida é uma extraordinária colecção de cores, um inacreditável jogo de texturas, um impressionante acervo de formatos. A história de quem sóis conta-se toda assim, ao mesmo tempo.

Seduzi todos os homens que quiserdes! Afinal, a vossa experiência é uma mais-valia e sabeis perfeitamente que é uma monumental perda de tempo esperar que seja o romance a estender-nos na cama. Os percalços que porventura encontrará a vossa sedução podem ser minimizados se escolherdes um seminarista de província, ingénuo e angelical. Mrs. Robinson sempre foi uma das mulheres mais desejadas por todos os adolescentes espigados.

Podemos abanar no fim da refeição, mas é na mesa do jantar que foi servido que devemos saborear comme il faut a sobremesa.

Viva a Sussex!

A Gaffe nas avenidas

 


O meu apartamento estava voltado para o mar.  

A porta do meu apartamento tinha um olho de vidro através do qual eu encontrava ou desencontrava o mundo e permitia ou impedia a entrada dos outros.  
Da varanda do meu apartamento voltado para o mar via, de vez em quando, uma mulher de calças de fato de treino e t-shirt azul-turquesa a passear um doberman. Quando o cão se afastava, a mulher chamava-o. Não gostava do nome do cão e penso que o cão também não gostava do nome que tinha.  

Às vezes descia, atravessava a Avenida e sentava-me no banco de pedra do passeio público voltado para o mar.  
Um dia uma peixeira de Matosinhos sentou-se ao meu lado, no banco voltado para o mar. Ensinou-me a amanhar uma pescada. Não queria saber, mas mesmo assim ouvi atenta. É difícil amanhar uma pescada quando sabemos que não voltaremos a ver a peixeira de Matosinhos sentada ao nosso lado, que nos vemos a ver.

Às vezes descia de manhã para comprar pão à padaria antiga, pintada de amarelo pálido a cheirar a trigo. O senhor da padaria conhecia-me. Gostava de mim. Perguntava-me pelo meu pai e pela saúde da minha avó. Gostava do pão que ele fabricava e vendia. Ao sair, na rua, desembrulhava e mordia o pequenino pão que ele me oferecia sempre, enquanto passava pelas mulheres que vendiam fruta no mercado da Foz e que trabalhavam palavrões ceifados por sorrisos.

Às vezes voltava para o meu apartamento onde escondia os livros que não queria emprestar e onde, às vezes, não me sentia sozinha, privada dos outros.  


Longe do meu apartamento, havia uma senhora que escrevia romances em folhas A4, sem lhes deixar margens, sem lhes deixar cabeçalho ou rodapé, com uma letra negra, densa e inclinada, quase sem espaço entre palavras. As folhas ficavam preenchidas por completo - às vezes penso que não há margem nem para os erros. Os romances que a senhora escrevia são os que escondo no meu apartamento, porque não os quero emprestar. São meus, quase privados.

Longe do meu apartamento, tenho um amigo de quem tenho saudades. É professor numa Universidade antiga e crítico literário. A ele chegam aqueles que escrevem em folhas A4 romances cerrados. Contribui para a transformação do ali escrito, até ali privado, em capas espalhadas pelas montras das livrarias que esperam que se lhes entregue o génio.

Depois tenho um apartamento voltado para mim, onde me vejo a ser vista.

Tem uma porta no meu apartamento voltado para mim, mas é através de mim que deixo ou impeço que os outros me vejam.  

Há uma senhora que escreve romances no apartamento voltado para mim, que me sorri sempre e me afasta o cabelo quando me sento a ouvir, na sala velha com cadeiras de mogno e uma árvore torcida e negra no quintal. Gosto de ficar com ela só para mim. Tê-la em privado.  
Tenho também, neste apartamento, um amigo que lê romances cerrados no que deixo que me olhe, aqui, nos cafés da minha sala, onde a rua, a outra rua que não atravesso quando saio e desço para me sentar ao lado da peixeira de Matosinhos, vem alterada sem nexo ou finalidade funda.

Vejo-me a olhar e penso que é tudo tão privada em mim, como os cafés da minha sala ou os romances que eu comprei e que eu escondo, porque são meus e não gosto de emprestar livros a público nenhum.

A mulher de calças de fato de treino e t-shirt azul-turquesa que passeia o cão no passeio público, olha para mim, de vez em quando. Depois é esbatida pelos outros. Vai desaparecer um dia. Vai deixar de passear o cão pela minha sala. O cão que sabe amanhar pescadas em Matosinhos, que lê romances em folhas cerrados, que os revê depois no anfiteatro e que tem um nome de que eu não gosto.

 
Os meus apartamentos são só meus, erguidos nas bermas das minhas avenidas.

21.9.21

A Gaffe dos homens tristes


No Douro, os homens amadurecem a dor. Amadurecem a tristeza.
No Douro, a tristeza dos homens - daqueles que conheço -, vai envelhecendo com eles. Pacifica-os. Entrega-lhes uma benevolência calma e uma tranquilidade benévola, que são metamorfoses da indiferença.

Ao contrário dos homens, as mulheres do Douro param na tristeza. Urdem casulos pretos onde escolhem esconder a vida que estancou. Fechadas dentro da alma, espiam de negro amargo o voltear das estações, assistem enlutadas ao inexorável oxidar do tempo, detêm-se hirtas na demora da morte da memória.

Ficam só elas.

A tristeza dos homens, aqui no Douro, é um corpo a envelhecer ao lado deles, com o sossego do inevitável, com a delicadeza do silêncio que acompanha o paradoxo que é ter, ao mesmo tempo, uma espécie de cortesia oriental, dócil, delicada, emudecida, translúcida, submissa, e a combatividade dos retorcidos troncos das videiras.
A tristeza dos homens do Douro, usa mantos tatuados com dragões coloridos, sobreposições de sedas e de cores. Faixas pacientes. Tem cabelos lisos, pretos, presos por travessas de jade trabalhado, olhos de pálpebras fechadas, pés impalpáveis com passos delgados e mãos de chá puro de ritual antigo.

O rosto de alabastro.

A tristeza dos homens tristes, aqui no Douro, vem e vai, sempre atrás deles.

Acorda-os com o som do Shamisen. Vê-os brutais comer, despedaçando a carne ensanguentada, e toca os alimentos com a brandura dócil da deferência. Canta-lhes como cantavam as Goze, enquanto suam curvos pelas vinhas.

A tristeza dorme sempre aos pés dos homens tristes ou fica acordada a guiar o vento para lhes amainar os corpos destroçados.

Ao contrário das mulheres, aqui no Douro, os homens tristes nunca ficam sós.

A Gaffe a meditar

A Gaffe detesta gente que medita.

Detesta gente que se enfia numa sala, crava o rabo no chão, cruza as pernas, coloca as mãos nos joelhos com as palmas viradas para cima, começa a respirar de modo suspeito como se estivesse a bufar em balões e que lhe diz que medita.

Medita em quê?!

Geralmente respondem que esvaziam a mente. Este processo é improvável dado o estado de sítio deserto das mentes que meditam desta forma. Outros referem a paz que atingem na comunhão com o seu Eu interior e no extravasar desse Eu para o envolvente - a Gaffe jura que tiveram a lata de lhe espetar isto na frente.

As pessoas que meditam desta forma geralmente decoram os apartamentos com tralha que se quer exótica, mas que se pode comprar por tuta e meia numa loja indiana, vestem-se como o Kadafi e cheiram a coisas que podem levar à prisão ou a ficar com vontade de vomitar para toda a vida. Também os há minimalistas, mas esses meditam apenas em cima de tapetes brancos ou de colchões fofinhos e gostam de se exercitar em câmara lenta - ou câmera, como queiram, desde que sempre lenta. Não há paciência para o sexo tântrico.

Apesar de não ser o mesmo - a Gaffe não é tão estúpida ao ponto de confundir as coisas -, esta rapariga foi a uma aula de iniciação ao yoga a convite de um amigo - que entretanto deixou de o ser também por causa disso - e descobriu que também se medita muito nas aulas de yoga. O professor era um rapagão magro, seco e todo propenso à meditação, capaz de se equilibrar com o dedo mindinho espetado no chão e o resto do corpo no ar, todo torcido.

Sublinha-se que era uma aula de iniciação. No entanto, a Gaffe observava em pasmo absoluto o homem a contorcer-se feito macaco articulado com a corda toda e a dizer, ao mesmo tempo que levantava a perna direita para a enfiar por detrás do braço esquerdo que já se tinha enfiado na bochecha direita do rabo que por sua vez se tinha cravado no olho esquerdo, que o essencial era a apreensão da respiração e o caminho de meditação que conduz à aquisição deste controlo inspirado.

A Gaffe sentiu que o senhor se estava descaradamente a exibir.

Muito sentadinha no chão, com os joelhos a doer e os pés todos torcidos, mirrada de humilhação, decidiu mandar o tipo apanhar florinhas e desandou dali para fora. Nunca mais confiou em tipos que usam fralda, meditam muito, respiram melhor ainda e se contorcem até dizer chega com as miudezas todas comprimidas.

A Gaffe passou a desconfiar de gente que medita.

Pensar já basta.

20.9.21

A Gaffe nos fins de Setembro


Sentávamo-nos nos fins das tardes dos meses antigos de Outono nas escadas da casa dos meus avós.

Havia um búzio nacarado que encostava ao ouvido. A minha irmã traduzia a voz do mar, o rugido do mar, o bramir do mar e eu acreditava, porque Setembro tinha aberto a cor aos olhos pardos da minha irmã e eu via, nítidas, as escamas verdes e cinzentas que mudavam de lugar todos os dias.

Acreditava nos peixes minúsculos que se moviam naquelas águas e sabia que uma criatura com escamas de brilho verde e cinzento nos olhos tinha misteriosas e inacessíveis intimidades com os oceanos.

Ouvia a voz do mar saída da boca do búzio. A minha irmã, depois de mo tirar devagarinho, encostava-o ao ouvido e traduzia o enigmático sopro daquelas cordas vocais. O que diziam variava de acordo com a disposição da minha cúmplice, mas eu acreditava nas tragédias e nas ondas de promessa de bonança de que dali vinham.

Sideravam-me.

Agora encosto a cara ao vidro duplo da janela. Não consigo ouvir a voz do mar, o rugido do mar, o bramir do mar. Ouço apenas o ruído do mar sem tradução.

19.9.21

A Gaffe das camélias


As camélias começam a tombar.

Floresceram mordidas pela morte. Um rebordo decomposto, uma unha pisada podre em cada pétala, a cor de carne viva amortecida pelo quarto crescente da mordida.

A minha avó ao longe. Ao fundo da alameda. Ao longe branca nas ondas onduladas do cabelo. As camélias soltavam pétalas vermelhas no vestido preto da senhora.  

O meu avô ao lado.

Às vezes o braço pousava no vestido negro da senhora e havia pétalas vermelhas a tombar no gesto. A camélia no peito do meu avô não tinha rebordo morto. Floresceu num ápice, antes do voo do vento e do estancar da seiva.

Às vezes a minha avó sorria. Às vezes pousava a cabeça na camélia que o meu avô tinha pousada no ombro. Igual a que trazia no peito. Vermelha como um coração sem rebordo.

- Ah, menina! Gostavam tanto um do outro como se não tivessem as almas para salvar.  

As camélias mortas.

Às vezes a minha avó debruçada na alma que não tinha de salvar por amar tanto a dele que não tinha de ser salva.

Às vezes o gesto que corrigia a assimetria das pérolas no pescoço. Os dedos a aflorar o curvo das pérolas e as pétalas no chão, sem simetrias.

Às vezes o silêncio.

A alameda coberta de camélias e os meus avós ao longe de mãos dadas e o medo de não poderem morrer juntos.  

As camélias começaram a tombar.  

18.9.21

A Gaffe quieta

Varun Aditya


O primeiro nevoeiro entrançado nas rendas dos ramos das árvores, azula o amanhecer. As folhas movem-se no colo do primeiro vento. O som das folhas é como o bater das asas dos anjos de encontro às grades da eternidade, ou como a descida dos vermes ao útero da terra.

O berro do pavão estilhaça o vidro da água. Um peixe torce o rumo do silêncio. As pedras respiram as horas demoradas de dourado e o azevinho move os dedos recortados numa agonia de súplica verde escura como um grito.

Os homens vão chegando para pisar as uvas. De bocas nuas, chegam cobertos de azul maduro. Calados. Trazem pão nos olhos. Vinho aos pés. Migalhas de palavras. Toalhas de tristeza.

O tempo no lagar escorre.

Fecundada pelas primeiras mortes, a terra estanca.

17.9.21

A Gaffe sentencia


Yannick Corboz

O preconceito, sendo a mais básica forma de raciocínio, tem, não raro, como afluentes foleiros, aforismos, tantas vezes ditados populares, frases feitas e expressões várias que trazem dentro a maleita mais ou menos disfarçada.

Embora do preconceito sofrido pelo feminino reze a história - sobretudo a bíblica - não é agradável, nem muito esperto, desfraldar revoltas, rasgar vestes ou criar plataformas digitais - onde no primeiro intervalo da indignação se vendem cosméticos e
se apela ao consumo de valor acrescentado. É francamente tonto reagir queimando em praça pública - ou seja, no facebook - o infractor que revela ao mundo a sua imbecilidade. Há preconceitos que são uns queridos e apoiam a mulher como nunca a falta deles o fez. Basta que os saibamos manipular e usar conforme as nossas conveniências.

A Gaffe, por exemplo, está habituadíssima a ser, como ruiva que é, classificada como predadora sexual, exigente e insaciável. Um mimo que se reporta ao conluio com Satanás, pacto assinado durante os picos da Idade Média e que actualmente tem uma variante - a assanhada.

É evidente que não é simpático ter a maçada de sabermos que a nossa cabeleira ruiva tem conotações sexuais, mas, por outro lado, o preconceito que a despenteia é ao mesmo tempo um repelente de pilas pindéricas. Nenhum homenzinho se atreve a assediar uma ruiva. Sabe que sai da liça completamente esfarrapado, humilhado, com o enxoval em pantanas e a chamar pela mãe. Neste caso, o preconceito é útil e acaba mesmo por nos assegurar uns valentes machos alpha que, desde que se mantenham calados, passam incólumes.


Convém não esquecer que o preconceito é na esmagadora maioria das vezes manipulável.


Uma rapariga esperta sabe que sendo o preconceito um raciocínio esmagado, espalmado e plano, tem sempre um vértice, uma pontinha, um biquinho, uma arestazinha, capaz de nos entregar a possibilidade de infringir ao detentor do dito uns cortes parecidos com os do papel.

Raras são as situações que cortam tanto um menino como aquelas em que o ouvimos declarar, por exemplo, que a cozinha é o lugar das mulheres, ou que a mulher quer-se como a sardinha – este é francamente uma porcaria! Imaginamo-la de imediato. Apetece fazer com que estes rapazinhos cuspam os dentes num prato vazio e tentem mastigar depois os que vão caindo, com uma espinha enfiada no rabo só para mostrar que são capazes de grandes ousadias e de brutas aventuras todas masculinas. Apetece imenso pedir ao petiz do preconceito que vá num instantinho à pesca do peixito que se quer como a mulher. Sabemos que só assim, de cana de pesca ou rede de arrasto, surgirão hipóteses do pobre ter um encontro amoroso, com promessa de envolvimento sexual. Terá de se apressar - pois que é dito que se vai proibir em breve a apanha das suas eventuais namoradas -, e nessa pressa, uma rapariga vai nadando livre de aromas são-joaninos.

É evidente que nem todos os preconceitos são fáceis de manobrar. Existem os que se disfarçam de Velhos Testamentos, de sentenças bíblicas ou mesmo de leis anquilosadas que se aproximam imenso da vida dos que as proclamam hoje. São preconceitos que simulam o raciocínio, mas que se transformam em crime.


Os preconceitos dos pequenos homens dão imensa vontade de citar as mulheres do Douro e com elas murmurar à moda antiga que homem pequenino - ou velhaco, ou assassino.