23.6.22

A Gaffe da Laurindinha

Lutgardo Fernandez

A Gaffe leu, algures no tempo, uma entrevista em que Laurinda Alves declara que quando se dirige a Deus, fá-lo - e não falo, é de bom-tom sublinhar -, sempre em inglês, pois que sente que Deus a ouve e a entende melhor nessa língua.

A Gaffe considera que esta afirmação é suicidária. Laurinda Alves deixou de ser credível, pois que toda a gente sabe que Deus é francês - Il n’aime rien, iI est parisien. Não vale a pena ler a senhora se não se nos dirigir na língua de Molière.

A Gaffe é avessa a provincianismo parolos, a preconceitos galheteiros, a racismos bem intencionados, a incompetência emocional e a tudo o que se diz, mas que acaba mal interpretado, sobretudo quando o que se diz é demasiado bem lido e impossível de torcer – a língua não é infinitamente flexível – a de Camões e não a de Laurinda Alves, essa sim, bastante contorcionista.
É uma maçada quando somos apanhados por palavras, expressões ou fragmentos descontextualizados e não era bem aquilo o que se queria dizer.

Quando a Gaffe ouviu sem o mapa todo que Isabel Jonet tinha mencionado os profissionais da pobreza, pensou que a senhora se estava a referir a ela, Jonet profissional.

Existem os profissionais do lixo, os homens do gás ou o senhor do Círculo dos Leitores, porquê renegar a tarefa desempenhada pela querida?!
A Gaffe considerou muito digno Isabel Jonet ter chamado os bois pelo nome.
Depois percebeu, já na posse do cartaz inteiro, que Isabel Jonet falava dos profissionais da pobreza na mesma linha dos que falam das profissionais do sexo.

Faz todo o sentido, embora no último caso, o proxeneta não tenha direito a incensarias.

A Gaffe suspeita que Jonet e Laurinda Alves se uniram no famoso fui mal interpretada.

A senhora vereadora dos Direitos Humanos e Socias da Câmara Municipal de Lisboa - a Sôdona Laurindinha -, impediu a organização do Rock in Rio de avançar com a extensão a pessoas em situação de sem-abrigo do convite a jovens refugiados para participarem no festival.

Porquê?

Porque - a Gaffe vai citar - ficava complicado, nomeadamente porque há situações de consumos e que poderíamos estar a potenciar e há que ter cuidado e preservar muito estas pessoas e protegê-las muito.

Por outro lado - embora a Gaffe tenha decidido encerrar cortinas relativamente a este assunto, pois que provavelmente a senhora vereadora não se apercebeu que também tem de fazer uma forcinha para deslindar o nó -, Laurinda Alves assume que existem encalhados, no Centro de Acolhimento de emergência de Lisboa, 60 jovens refugiados que fugiram da Ucrânia que, não sendo ucranianos, estudavam no país invadido Medicina, Finanças, Gestão, Arquitectura, Design, que ninguém quer por não serem brancos. Chegaram cá e, porque não são brancos, estão lá, ninguém os quer.

A senhora vereadora dos Direitos Humanos e Socias da Câmara Municipal de Lisboa acrescenta que se nós dissermos um marroquino, um argelino, um rapaz que vem da Costa do Marfim, um muçulmano, as pessoas nem sempre sabem como é que hão-de acolher.

Se Laurinda Alves, alapada no pelouro que lhe deram, não consegue deslaçar ainda que de forma baça o evidente racismo pacóvio que vai descobrindo enquanto visita os educadíssimos rapazes, a Gaffe suspeita que a cegueira social avança a galope num cavalo branco por entre as fileiras da Assembleia lisboeta.

No caso que faz a Gaffe aqui marcar presença e que se reporta aos sem-abrigo que ficaram camarariamente excluídos da oferta Rock in Rio, Laurinda Alves revela-se de uma clareza incontornável e indisfarçável.

A forma paternalista, estereotipada, estigmatizante e desprezível com que a vereadora trata os sem-abrigo - aparentemente todos alcoólicos e toxicodependentes e em consequência sem direito a qualquer tipo de cultura, não vá a consumirem na arena - para além de lhes continuar a minar a vida, é de um preconceituoso e provincianismo azeiteiros que os crava sem apelo nem agravo às ruas da mais destrutiva das solidões e misérias.

Felizmente que a sôdona vereadora tem muito cuidado com a língua em que se expressa.

22.6.22

A Gaffe cumprimenta devagarinho

A Gaffe tem observado com algum cuidado e muito ao longe, não vá arranjar problemas, os jovens das periferias, os habitantes das margens das redomas urbanas, os delinquentes que riscam as paredes, os meninos que trazem o cinto das calças nos joelhos, os que assustam imenso quando nos aparecem de surpresa saídos não se sabe bem de que buraco, os muito arrumadinhos que nas portas dos colégios caros arrastam bonés grifados e batidas que lhes fazem mirrar o cérebro e todos os que desatam a pegar fogo às coisinhas que nos dão um estatuto burguês que fica sempre bem ostentar e sobretudo conservar.

A Gaffe espanta-se com a forma destes rapazes se cumprimentarem.

Encontram-se, levantam a mão, erguem um dedo, batem com os cotovelos um no outro, dão uma volta, voltam a erguer a mão agora fechada, batem com o punho no peito, regressam à mão aberta e tocam com a palma na palma do parceiro, cospem nas unhas e limpam aos boxers, estalam os dedos, agarram no polegar do interlocutor e torcem-no e antes de dar por findo o aparato já se esqueceram do que tinham para dizer. Roncam e despedem-se agora percorrendo o bailado inverso. Um autêntico ritual de acasalamento que supera e humilha a dança do carrapiço da Amazónia.

A Gaffe na sua imensa ignorância e preconceito acreditava que este comportamento era apanágio dos mais pobrezinhos - parafraseando Jonet -, até alargar os seus horizontes e dar de caras com alguns cerimoniais de gente de bem, bem colocada, gira e de sucesso.

O tempo que os altos dignitários de uma nação levam a largar pós-Covid a mão uns dos outros dá para tricotarmos um cachecol e jantarmos à luz da vela com um marginal atraente - sonho de uma noite de Verão desta rapariga esperta. As três ou quatro beijocas das senhoras e dos senhores - os que trazem vestido o guarda-roupa da Dulce Pontes -, é uma belíssima invasão de ternura no protocolo e na formalidade e existe mesmo quem deixe o palco mediático de mãos dadas numa bela evocação do amor grego.

A descoberta leva a concluir que ritualizar também é chique.

Compreende-se desta forma o meu queridíssimo primeiro-ministro. O menino tem toda a razão em declarar que devemos salvar vidas ucranianas, mas - vá la ver - não a qualquer preço europeu e muito devagarinho. Não podemos parecer que nos esbardalhamos no Bolhão no meio de uma disputa que pouco se recomenda ou que nos enfiamos nas chinelas e desatamos a regatear uns trocos sem um pingo de diplomacia e de elegância, clamando urgência por haver gente a morrer - ainda por cima gente que se pôs a jeito.

Convém reunir, negociar, jantar ou almoçar, discutir muito civilizadamente o modo como se poderá, com desconto, implementar – sublinha-se a distinção da palavra - algumas manigâncias humanitárias e não desabar em cima dos invasores com a artilharia muito pouco cortês dos Direitos Humanos.

Depois é desagradável tornarmo-nos histriónicos quando a morte se aproxima. Perdemos toda a compostura ou transformamo-nos em alunos do Chapitô aos pinchos e de nariz vermelho.

Relembramos a necessidade de se morrer com algum juízo. É que não vale tudo! É incómodo ter uma criatura a bradar que vai morrer se não lhe derem uma aspirina quando estamos ocupados em apresentar as condolências aos familiares dos que já se foram por não terem sabido esperar pelo fim das negociações.

Há que ter discernimento, valha-nos Deus!

A Gaffe compreende finalmente alguns dos protagonistas daquilo que observa e percebe que no imenso palco dos outros, viver ou morrer é apenas uma questão de preço.

A Gaffe sacana

Dusan Susnjar
O bom sacana!

Suspira-se quando se atravessa - mordendo o lábio com que nos mente -, na vida que trazemos engolida pela multidão dos bons rapazes. A inconsciência dos estragos que provoca é encantadora e o sorriso quase infantil que espalha nos corações destroçados, acreditando que a culpa dos estilhaços nos pertence por inteiro, é cativante.

Não adianta irritarmo-nos. O bom sacana desarma qualquer indignação com intenções mais bélicas e acaba a mendigar perdão apenas porque acredita mesmo que é nesse aparente arrependimento que reside a placidez do mundo.  Neste malandro um pedido de desculpa é sempre um acto de altruísmo e a alegria com que o realiza torna-se comovente aos nossos olhos.

É irresistível!

Irresistível, porque nenhuma mulher consegue por tempo indefinido asfixiar o instinto maternal que este sacana desperta. Salta-nos a enfermeira cá para fora, para fazer companhia a babysitter que entretanto já tinha chegado.  

O que fazer então quando no recreio o nosso colinho é implorado por este bom malandro?

O mais aconselhado é apalpar-lhe o rabinho, verificar no corpinho todo, com muita vontade e afincadamente, se não tem dói-dói e depois mandá-lo para casa da mãe, já muito habituada a mudar-lhe a fralda.


21.6.22

A Gaffe num espelho

Vivian Maier

No quarto há um espelho envelhecido com garças de asas abertas pintadas há dois séculos. Há nódoas escuras na superfície do cristal, pequenas corrosões, manchas esfaceladas nas margens, pequenos círculos onde nos vemos negros ou nem sequer nos vemos.
Se nos cruzamos com aquele espelho temos de procurar que os nossos braços se afastem dos corpos das aves e que os olhos mergulhem nos escuros das falhas. O nosso reflexo fica desta forma sem asas e o lugar do olhar são dois buracos.
É o único reflexo que nos aceita por se aproximar de nós como um espectro. É o único reflexo onde a verdade sem olhos, olha para nós e sem olhar, nos vê de corpo inteiro. Ali, somos vistos cegos e olhamo-nos por dentro da cegueira.

Na superfície do espelho as garças debicam os buracos e dentro dos nossos olhos.

A Gaffe carnavalesca

Gaston Paris - Folies Bergère, Paris, 1930
- Quando ele te cumprimentar, sorri. Sê uma ruiva amorosa, inútil e apatetada. É muito importante para nós.

- O homem parece uma lula velha. Não vou conseguir.

- És minha irmã. Finge.

mana

20.6.22

A Gaffe ordenada


No pátio aberto ao sol um pássaro preto traz no bico uma cereja. Salta no granito a arder com uma cereja no bico e faz estalar as penas no ar quente quando vê brilhar a superfície do lago que treme com o movimento da carpa.
No meio do lago a carpa agora parada abre a boca. Fecha a boca. Asfixiada. Abre e fecha a boca. Abre e fecha a boca. Sem interromper a quietude aquática, a transparência das guelras move-se como um fino lanho em prata. Tem olhos vítreos, avermelhados. Como cerejas imóveis nos bicos dos pássaros.

A casa resguarda-se do sol, cerrando as portadas. A luz azul plana e paira dentro. Dedos finos de luz azul por entre as frinchas das portadas, pousam na toalha branca sobre a mesa, arranjam um desalinho invisível das hortênsias cortadas pela manhã, abrem uma vereda esguia na madeira do soalho e tocam os arabescos quase florais dos tapetes rasos.

A casa sossegada, arrefece.

No pátio escalda a cereja no bico de um pássaro, como a minha indiferença no frio da casa. Uma carpa move a boca inútil como a mulher com frutos vermelhos no regaço que sentada me asfixia com a sua tristeza daninha.

Tudo é exacto. A ordem do universo é apenas isto.

18.6.22

A Gaffe e a Henriqueta do VIII

A señora de Delicado de Imaz - Vicente López.

A Gaffe é uma rapariga sofisticada, cosmopolita e com um allure absolutamente internacional, embora - pequenas idiossincrasias de uma rapariga modernérrima -, nunca tenha perdido a saudade do embaraçante sabor fronteiriço da alheira e do chouriço.

Lembrou-se dos enchidos, porque acabou de concluir com alguma apreensão que nas suas avenidas a Henriqueta do oitavo continua a ser a catequista.
Neste momento tornam-se necessários esclarecimentos sem os quais esta estonteante rapariga deixa de se fazer entender e é abandonada à sorte madrasta com uma mão atrás e outra nem por isso.
A Henriqueta era - e a Gaffe arrepia-se ao pensar que continua -, uma mulher pequenina, já entradota com buço e sobrancelha a condizer, a lembrar vagamente Frida Kahlo, mas sem talento e sem aquele je ne sais quoi tão atraente. Anafadinha, rechonchuda, redondinha de cara e papudinha de mãos, de narizito arrebitado e cabeleira empolada com laca.
Chamavam-lhe a Henriqueta do oitavo, não porque morasse nesse andar, mas para a relacionar com o monarca Inglês que deu conta de seis mulheres, fora as que a história não fez nota. A Henriqueta, diziam às más-línguas, já tinha aviado um número maior de rapazolas e tinha sido o oitavo a tirar-lhe o apetite de carne demasiado fresca e de hortaliça pouco madura, confessando ao pároco a interpretação bastante ousada que a catequista fazia do livrinho santo.

A Gaffe assusta-se ao pensar que existe a hipótese de ter crianças saudáveis e libertas a tropeçar nos sapatos de tacão pequenino, fechadinhos e discretos, de uma Henriqueta qualquer pronta a saltar da caixa de esmolas dos escuros anódinos das sacristias.

A Gaffe conheceu esta, a do oitavo, que lhe chamava coisa boa e que a beliscava sem ninguém dar conta acoitada em catecismos, em morais, em bons costumes, em parolas pagelas decoradas e que do esconso riscado das sacristias ia roendo a vida dos paroquianos.

A Henriqueta ainda arrasta os sapatinhos cambados pelo salão paroquial, mas não lhe causa dano.
Nós, raparigas espertas, aprendemos depressa que uma Henriqueta destas não desaparece com facilidade. Pode nem sequer ser a do oitavo, mas continua a tentar catequizar as nossas vidas e ser, sem surpresa, the girl next door.


17.6.22

A Gaffe vê passar a procissão


No Douro há, de dois em dois anos, uma romaria em honra de uma Santa.

Senhora do Amparo, se me lembro, que das Angústias também podia ser, pois que vai ao encontro do Filho já despido.

Vários homens a sustentam, que o andor é pesado de velhice. Doze, ficando mais um de reserva para revezar o que vacile debaixo do maciço madeirame. A Santa sai oscilando da capela, como obeso pêndulo lento, de cachos negros e pastosos, manto de seda a oiro e de Menino ao colo, que não basta o sacrifício de carregar o peso da Senhora a fazer lembrar ao longe a Sevilhana ou a de Paris de Saint Eugène - mais pobre, muito mais pobre pois então, que o Douro não tem bolsa que sustente o luxo.

No ano em que fui ver, a procissão saiu organizada pela Didi, beata oficial e quase anã, que ali a desgraça vem aos pares.

De túnica branca, com uma concha ao peito, a imaculada mulher, no ano da Senhora, levantava suspeitas pelo adro, fazia cochichar o mulherio, com a ameaça de prometida inovação.

Suspeitas infundadas já se vê.

A Didi respeitava a tradição, contradizendo a túnica que usava ainda a cheirar a patchouli - que a Didi fez o Liceu no Porto -, embora o incenso lhe vá cobrindo agora a desvergonha.

A inovação anunciada não era portanto de maior ofensa à dignidade exigida pela Santa e pelo senhor pároco que rezava missa descampada no altar de renda e margaridas sobre madeira tosca e pregos fundos, construção dos mesmos homens que carregam aos ombros o andor, que o peso no Douro vem aos pares.

A modernidade consistia num mecânico funil que ao sinal beato da Didi e finda a missa, de padre a abençoar o povo, asas abertas e misericordiosas, disparava milhares de quadradinhos de papel, brancos e doirados, brancos e dourados, milhões deles pelo ar do adro, milhões de papelinhos a voar no pasmo dos fiéis que se benziam em incensados êxtases.

Fiquei à espera que o padre erguesse os braços e nos mandasse embora com Deus por companhia, para ver os quadradinhos de papel jorrar como um milagre.

O padre abriu os braços – Ide em Paz e que o Senhor vos acompanhe - e o rectângulo de brocado doirado que formou, avantajado mais do que o costume, que era dia santo e a Santa o merecia, tapou a Didi e o sinal combinado para o disparo.

O rapaz do funil mecânico, aflitos, ele e o funil, porque se completa o par com a aflição do moço e a da pança cheia da máquina que espera, esbugalha os olhos e no desespero de quem se vê à toa quando se espera o cumprir de um plano, agarra as rédeas do destino e carrega no botão já com o pároco a olhar de esguelha.

Dispara a inovação.

O povo tremeu com os quadradinhos de papel a vibrar no ar e houve quem se comovesse até às lágrimas.

Tão lindo! Ai, que é tão bonito, Deus nos valha!

Via milhares de papelinhos a voar e pensei trocar cada um que voa pela palavra amo-te.

Amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, até à eternidade do papel.

Humedeci os lábios e fiquei quieta. O quadradinho que me tocasse a boca, ficaria preso. Seria então a única palavra verdadeira, a derradeira sendo também primeira. Um amo-te branco ou doirado, que o amor, se chega, tanto faz.

Nenhum tocou.

Percebi que guardamos a palavra com o pudor dos mansos e da espera e que esta espera tem o pudor dos tímidos. Não a dizemos à toa de papel, nos adros disparados pelas aldeias de toda a nossa vida, nas romarias das almas sem Didi, ou pelos ares à solta como pássaros. Afunilamos a palavra e temos medo, enchendo panças tristes de funis, na esperança de um sinal que faça o tempo certo e tempo de disparo. Não percebemos que não há nas nossas missas descampadas nenhum aceno que nos faça saber que o momento acaba de chegar.

Calamo-nos e vamos em paz com um deus qualquer por companhia.

8.6.22

A Gaffe em fuga


A Gaffe abandona toda a sua gelada sofisticação e fleumática indiferença quando depara com aquilo a que decidiu chamar solidariedade do pechisbeque.

Nessas alturas apetece-lhe apenas agarrar numa tábua com um prego na ponta e desancar as senhoras com ar de freiras à paisana que nos átrios das instituições públicas montam uma mesinha, cobrem o tampo com um paninho engomado e espalham em cima uma caterva de pechisbeques que tentam impingir em nome de uma associação de solidariedade social que ninguém conhece, com um nome habitualmente irritante – a Lacinhos, a Brinquinhos, a Miminhos, ou os Cominhos.

São porta-chaves, pingentes, bolinhas, postais, esferográficas, caixinhas, livrinhos, bonequinhos, pins, mascotes e tudo o que for pequenino, irritante, inútil, feio e de plástico.

Arregaçam um sorriso que não faz franzir os olhos e desabam sobre nós com a insistência do mosquito nocturno que nos enferma o sono, agindo em nome dos desfavorecidos - que aparentemente lhes passaram uma procuração de plenos poderes -, ou do planeta das crianças disléxicas, cada mais povoado por miúdos que tropeçam três vezes na bola no mesmo jogo ou que, para além de dizerem treuze, o escrevem - se os Estados Unidos produzem crianças obesas a um ritmo alucinante, o sistema de ensino português vomita com a mesma velocidade crianças disléxicas. É o seu new black.

A Gaffe desconhece o circuito, posterior à mesinha dos pechisbeques, do parco pecúlio que esta espécie de catequista anzoneira e onzeneira consegue angariar. Ninguém a informa. Pode ser perfeitamente usado na compra de santinhos para oferecer durante a procissão de beneficência ou na aquisição de um vibrador para beneficio da acólita, mas, tendo em conta o ar de coruja com que a senhora fica quando vê a Gaffe esconder a carteira, descalçar os sapatos, arregaçar a saia e desatar a fugir, desconfia que é usado na compra de adubo para abastecer os obesos mentais que continuam a engolir esta dislexia social.

7.6.22

A Gaffe no fio das palavras


As palavras deviam ser como instrumentos cirúrgicos prontos a dissecar a alma.

As minhas não passam de rombos grosseiros na pele da penumbra. O que dizem, escolhidas à toa, não chega sequer para sonhar entender os mecanismos mais simples dos universos interiores de quem por mim passa. Às vezes, a frustração de não poder dizer a alma dos outros, atinge-me e reduz-me à mais ínfima partícula de nada. Nesses instantes, a percepção da minha impotência diminui-me e transforma a minha mais ténue luminosidade num minúsculo e insignificante ponto de luz, tímido fósforo fraco, a ameaçar o bosque inacabado e inacabável dos sentidos, a tentar aflorar brevemente as tábuas das almas.
Misturado com as resplandecentes clareiras e desenhos do sol no solo, é desprezível o fio que vou tecendo, como se de um fio de aranha se tratasse, sem qualquer capacidade de formar a teia e sem aranha e sem insecto e sem lugar onde prender o início e sem qualquer gota de sol que nele se rebata.

Nestes momentos de mísera incapaz, as palavras ficam sem abrigo. Nesses instantes eu odeio os livros.


6.6.22

A Gaffe de Judite de Sousa

Isabel II na I Grande Guerra à procura do míssel - foto de Shirley Baker
A Gaffe pensa que é maravilhoso a comunicação social ter assistido ao Jubileu de Sua Majestade a Rainha, o único membro da realeza destes últimos dois séculos que nunca deslizou um milímetro pela ribanceira bastante encardida do mundanismo pindérico, linguareiro e onzeneiro - tem descendência que se encarrega do escorrega.

Foi deslumbrante ver de verde alface a extraordinária Senhora.

Judite de Sousa que o diga.

É embaraçoso assistir à azelhice galopante da jornalista.

Os directos, minha querida Judite, são desgraçados para si.

Judite de Sousa declara sem peias, nem remorsos, sem qualquer decoro e sem a mínima consciência do ridículo do que diz, que Isabel II foi uma mulher que marcou todo o século XX, atravessando, vivenciando e sofrendo, entre outros dramas, a I Grande Guerra e a II Grande Guerra mais o Churchill.

Uma coisa impressionante e um bocadinho de vergonha alheia.

Sua Alteza a Velhota está lindamente! Muito bem conservada para quem nasceu em 1926 e teve apesar disso de ter a maçada de aturar a I Grande Guerra.

Não existe qualquer justificação – mesmo uma não válida, mas que lhe faz o jeitinho! – para a asneira da jornalista e o já passou por muito que a tem acompanhado e ilibando demasiadas vezes começa a esgotar a faculdade que tinha de nos fechar o olho às calinadas sucessivas da experiente pivot da CNN – que se vai revelando também desta forma a CMTV com mais dinheiro.

Judite de Sousa é um emplastro e que já passou por muito e que merece o nosso respeito.

Respeitemo-la pois no aconchego da sua reforma. Merece, tendo em conta que foi rapariga que ao lado da rainha atravessou também a I Grande Guerra e que marcou todo o século XX.


A Gaffe perplexa


É inacreditável a quantidade de rapazes que, com o telemóvel topo de gama que traz GPS incorporado, alta definição, ligações à NASA, compadrios com a NATO e, suponho, dispara mísseis rumo aos invasores, se fotografa em tronco nu - sou uma rapariga moderada - na frente de um espelho!
Mais inacreditável ainda é o facto de não perceberem que se tornam patéticos, com os seus abdominais poderosos, peitorais distendidos e boxers descaídos, de braço estendido e sobrolho carregado, posando, Valentinos de pacotilha, para um fotógrafo que coincide com o fotografado.
Suponho que as imagens fazem prova da sua excelente forma física - diria a Caras -, e do orgulho revelado por estes espécimes que exibem, garbosos, os únicos dotes que parecem possuir, mas acabam por coadjuvar a convicção que temos da imbecilidade dos modelos.

Nenhuma rapariga esperta se deslumbra com um narcísico reflexo de um rapaz que supõe que uma imagem sua captada com uma luz miserável e onde, numa significativa percentagem dos casos, se vislumbram rolos de papel higiénico, um gel de banho com um ar ranhoso e plásticos com mistelas para o cabelo, é absorvente, sensual e capaz de despertar a fera do desejo.

Acreditem, rapazes, que o cenário é de extrema importância. Fotografarem-se, semi-nus, com a sanita ao fundo, ou com o papel higiénico em primeiro plano, é o mesmo que nos tentarem seduzir, num paraíso solar, passando por nós de fio dental todinho enfiado nos dentes de trás.

1.6.22

A Gaffe de M&M

Marilyn Monroe (01/06/1926 - 04/08/1962)
Uma mulher pode parecer escandalosamente ingénua e sensual ao mesmo tempo, basta que também pareça que acabou de sair de uma batalha. Então, como diria Mae West - uma rapariga esperta e experiente -, será excessivamente boa e ser-se boa em demasia é maravilhoso.