19.9.22

A Gaffe dos troncossexuais


De acordo com a pesquisa efectuada pela Gaffe, existe um grupo de homens que ainda não foi devidamente caracterizado.

Os troncossexuais.

É um nicho abrangente e nele estão representadas todas as camadas sociais.

Para que se possa considerar pertença desta tribo, um homem deverá possuir alguns traços muito básicos que a Gaffe tem todo o prazer em referir.

Aparece de singlet e de cuecas brancas com abertura frontal em Y invertido - que podem ser bastante atractivas se usadas pelo homem certo -, quando tomamos chá com a amiga que nos veio visitar. Justifica a assombração apelando à noção tradicional de família, ou seja, cravando o já és cá de casa, embora lá em casa não seja habitual tomar chá como se estivéssemos nos balneários do Benfica;

Ignora o sorriso Charlene de Mónaco, no intervalo do parto dos gémeos, que se estampa no rosto da rapariga e senta-se no sofá munido do comando enquanto vai aumentando o volume do televisor. Acelera o zapping porque acha muito engraçado o idioma que se ouve dessa forma;

Coça o peito e afaga os pêlos das axilas enquanto se baba com os reality shows onde membros do seu grupo se digladiam transformados em garnizés musculados e onde as membras lhe fazem comichão. Se arranhar outras manigâncias é porque está a ver um filme com Sylvester Stallone e se quer certificar que também tem coisas para coçar;

Discute ao telemóvel com o amigo do peito – coçando-o outra vez – a superioridade de Ronaldo. Se o amigo o contradiz e prefere Messi, deixa de ser necessário o aparelho, porque o volume da voz torna a ligação directa e transforma-a num chat onde podem participar os vizinhos;

O único elogia que consegue fazer a uma mulher passa invariavelmente pelo sexo, porque é freudiano e 90% daquilo que pensa é transformado cedo ou tarde em sexo. O restante é sexo que transforma em ideia;

Quando desprevenido é de uma ternura inesperada e é capaz das maiores atrocidades, como a de desatar num pranto embaraçoso perante a tragédia do ET ou com o idílio da Lagoa Azul que não chegou a ver na altura devida;

É capaz de fazer desabar um rato morto na mesa do jantar com as mais inconvenientes das tiradas:
- Então quem era a boazona que vinha toda encaixada em si, no autocarro?! Com essa idade pensava que o bilhete era só de ida.
- Foi ele que me disse que eras uma cabra! Se anda contigo é por causa das mamas.
- Tens razão. A tua tia é como a Dulce Pontes. Também parece que traz um saco de batatas vestido.

Lambe as tampas do iogurte, enrola-as e faz delas colher. Depois da embalagem rapada, transforma-a em cinzeiro. A sua preocupação não é a reciclagem, mas o medo de perder o resumo do episódio anterior da sua série favorita que habitualmente tem mortos-vivos a sugar o cérebro aos telespectadores;

Elege Quintino Aires o absoluto da Psicologia. Não considera as suas intervenções um atentado a todas as normas e regras da sua profissão, um acto terrorista consubstanciado numa desavergonhada falta de ética, e não o acha nada mariquinhas pé-de-salsa;

É fã do Portugal em Festa e do Canal Parlamento sem perceber que são coisas muito parecidas.

Ao contrário das outras categorias que é engraçado encontrar – e nada mais do que isso – em que é exigido que um homem possua a esmagadora maioria dos requisitos que as distinguem para se tornar membro de pleno direito, ao troncossexual só é imposto que cumpra apenas uma das que foram referidas. Daí ser um grupo abrangente e muito povoado, possibilitando ao candidato acumular presença em dois grupos diferentes.

Uma rapariga esperta sabe que estes rapagões não são criaturas para ter aos pés, mas reconhece, marota, que normalmente dão óptimas fogueiras.

A Gaffe Real

 Isabelle Boyer - modelo escolhido por Frédéric Auguste Bartholdi para a estátua da Liberdade
A Gaffe, como está provado, não é especialmente católica. No entanto, não deixa de se espantar com o modo como Deus encara miseravelmente as monarquias, tendo em consideração as cabeças que escolhe para coroar.
Os outros regimes não escapam ao desprezo divino, mas os diferentes escolhidos que os encabeçam, dizem-se eleitos por outras artes.

Há no entanto, algumas - raras -, excepções a esta indiferença divina.

Há mulheres que são ocultas, latentes infantas, herdeiras dos reinos mais íntimos das almas dos homens e, mesmo sem diadema repleto de jóias solares, são capazes de urdir a mais imponente das insígnias reais: as coroas que ostentam são entrançadas com as próprias fibras.

16.9.22

A Gaffe sonhadora

Gjon Mili  -Time, 1954
Quando era menina de bibe e totós, se me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, respondia de imediato:
reformada e chinesa
Perdi a justificação para estas minhas ambições.

Fui aprendendo a reformular os sonhos, a adaptá-los e a modificar a luz do irrealizável, ocultando-lhe o brilho com véus opacos de modo a que apenas se iluminasse o círculo possível do chão que vou pisando.
Quando crescemos - e se crescemos - apenas as tocadas pelos deuses conseguem a façanha almejada de possuírem a eternidade com um perfil semelhante ao de Nefertiti. As outras, as mais quotidianas, deixam de sonhar com o glamour imperecível que as transforma em réplicas da belíssima rainha de Aquenáton. Descobrem lentamente que há sonhos que se vão esfarrapando à medida que a vida vai tentando coser os trapos com que procura esconder a nudez mais crua e que a réplica é apenas de carvão sobre papel.

Que sonhos podem ser diluídos e quais os que devem permanecer connosco até ao fim do tempo?
Se não podemos ser aquilo que queremos, valerá a pena ser outra coisa?

É sempre a desilusão que nos responde devagar. Não precisamos de varar a noite do nosso desassossego a procurar respostas. Chegam e reconhecemo-las como nossas, vindas com a poeira dos estilhaços que ficam depois da imperceptível derrocada das cintilantes bolas de sabão que nos rodearam a vida.
O esbater dos sonhos é um dos mais subtis processos de que há notícia. Crescemos quase sem sentir este esfumar. Deparamo-nos um dia a enfrentar a vida sem a nuvem do impulso do que já foi sonhado e surpreendemo-nos a pensar que a vida é assim.
Não há resignação na desistência, ou se ela existe, mascara-se com o convencimento de que o que acontece não é mais do que a realidade que nos bate à porta, mesmo sabendo que o real é pouco e mau vizinho.
Sobrevivemos depois do sonho tentando acreditar que tudo vale a pena, mesmo quando a alma não ficou grande coisa. Agarramo-nos à fantasia que cresce sem limite e acreditamos que ainda temos tempo para querer seja o que for e que não seja tudo, acomodando em nós as sombras do sonhado.

Não tenho nos cabelos a seda negra das lendas do oriente, mas ainda sonho com a reforma, muito mais enrugada e resmungona, numa ilha qualquer onde se tenha tudo e não uma outra coisa.

14.9.22

A Gaffe gasolineira


É irritante e provoca-me taquicardia ver, nas filas de abastecimento de gasolina, um homem que antes de pegar na mangueira e enfiar o manípulo no depósito, vai meticulosamente retirar um toalhete para protecção da mão que embala o berço.

Na esmagadora maioria dos casos, não é necessário e faz-me pensar naqueles que depois do chichi - ou do xixi, conforme os casos, que há gente para tudo - esfregam meticulosa e quase compulsivamente todo o que vai das unhas até ao cotovelo, como se o que acabaram de segurar fosse o repositório de toda a gama de bactérias e de outros bichos maiores, visíveis a olho nu – em 80% dos casos não se vislumbram bichos grandes e horríveis e nos restantes é fácil perceber o padecimento do rapaz pela cor anil ou esverdeada do sorriso confrangido.   

Não sou, de todo, contra esta social, higiénica e polidíssima regra - muitíssimo pelo contrário -, mas um homem que se preza agarra na mangueira com a mão nua - e não a cheira depois de colocar o manípulo no lugar - e esquece, de vez em quando, de lavar as mãos antes de sair do WC sem que notemos diferenças palpáveis e sem que disso venha mal ao mundo.

Há minúsculos gestos masculinos que são tão maçadores, tão obsessivos, tão obcecados e tão enervantes como aquele, feminino, que consiste em arrastar, puxar, repuxar, esticar, retesar e tentar alongar, como se não houvesse amanhã e o Senhor estivesse a chegar para chicotear os pecadores, a exígua mini-saia que tenta estrangular a dona sempre que a rapariga se levanta.

O ideal é a bicicleta. Não é poluente, não implica a mangueira e, quando o faz, o ar gelado do Inverno encarrega-se de aniquilar qualquer sinal de vida mais matreiro.

A Gaffe fleumática


A Gaffe não é uma rapariga nervosa. Aprendeu com a avó a fleuma da Rainha e apenas espirra quando lhe sobe a mostarda ao narizito.
Há no entanto umas quantas situações que fazem com que lhe apeteça escaqueirar os dentes aos que as provocam.
A Gaffe vai aceitar o desafio de referir dez.

1 - Gente que ao sentar-se a seu lado - num lugar onde há pouquíssimo espaço, como as cadeiras de salas de cinema antigas -, o faz como quem se espapaça na poltrona de casa a ver novelas. Tudo é ocupado pelo mastodonte que nos vai tocando com os cotovelos e afins até ficarmos anorécticas;

2 - Gente que se aproxima demais do nariz da Gaffe, a vai picando com um dedo em riste enquanto lhe atira confidências escabrosas e um hálito do mesmo calibre;

3 - Gente que aperta a mão da Gaffe como se lhe entregasse um bicho morto há já algum tempo e que espera que seja esta rapariga a fazer-lhe o funeral;

4 - Gente que larga o lixo que faz por todo o lado e que perante a chamada de atenção responde:
- Ainda cá estou, não é?
A Gaffe suspeita que esta gente está sempre no lado errado ou nunca esteve num lado que possa ser referido;

5 - Gente que usa unhas de gel multicolores, com desenhos fofinhos, pintinhas e bolinhas, quadradinhos e rodinhas, que fazem pendant com as chancas com plataformas que podem perfeitamente servir de pilares das pontes portuguesas e com a mola de plástico que prende a oleosidade do cabelo;

6 - Gente que dobrando os doze, diz treuze;

7 - Gente que se torna acérrima defensora dos direitos das mulheres e que se esbardalha aos gritos a reivindicar a morte daquelas que ousam ter tantos namorados como noites mal dormidas – as depravadas promíscuas! Normalmente é gente que tem desalmadamente menos sexo do que as visadas e o que vai havendo é de pior qualidade que o daquelas que condenam;

8 - Gente que escreve com orgulho e peito cheio aquilo a que o meu querido Amigo chama cuesia e que desanca todos os que não conseguem macerar a verborreia e lho vão dizendo muito devagarinho para não vomitar o tédio e o sono que sentem;

9 - Gente que desdenha dos rabiosques dos rapazes da Brigada de Trânsito e dos novos GNR. A Gaffe não entende como é que se consegue depreciar matéria que deveria ser classificada como património da humanidade;

10 - Gente que não percebe que a beleza é sucedâneo da inteligência e que continua a separar estas divindades acreditando que até um burro pode fingir ser um alazão se pavonear uma albarda YSL.

São dez pequenos nadas que apesar de causarem algum atrito, não impedem o deslizar da Gaffe por entre todas as gotas de chuva.

O que realmente lhe causa dano são as pequenas vigarices, as mesquinhas trafulhices, os furtivos arranjinhos e as manobras raquíticas de bastidores empobrecidos. Mirram os useiros e vezeiros nestas manigâncias ao ponto de fazer com que a Gaffe pense que não passam de vítimas de alguma tribo esconsa e tenebrosa que acredita que reduzir as cabeças dos transeuntes lhe enriquece a vida.

13.9.22

A Gaffe reinante

Tão novinho e tão promissor!

12.9.22

A Gaffe solidária

Em Paris é difícil uma rapariga ser atendida condignamente nas lojas em que é preciso ter estampado na testa o cartão de crédito gold. Somos normalmente tratadas com o desplante, o desprezo e a repugnância que a monarquia, anquilosada ou não, dedica a gente sem berço.
Existe sempre, a Gaffe reconhece, a possibilidade de se entrar num provador e desatar aos gritos a perguntar onde está o papel higiénico, mas corre-se o risco de à saída nos apresentarem a conta do que não usamos ou de nos passarem a espreitar através de um postigo, avaliando-nos, como na Joalharia Cartier, perto do Ritz.

A Gaffe decidiu partilhar um segredo.

Seremos tratadas como diamantes se coleccionarmos sacos grifados! Os com mais sucesso são os da Chanel, mas os Cartier ou Balenciaga resultam com eficácia similar.
Escolhemos dois ou três e enfiamos dentro uma ou duas camisolinhas da Zara ou um ou dois jornais amarrotados e com um ar de quem comeu caviar estragado, entramos com eles no braço sempre de modo a que as asas fiquem presas entre a junção do braço com o antebraço e a nossa pequenina e sofisticada mão se mantenha erguida e de dedos esticados, mas tombados. Podemos aparecer esbardalhadas, porque vão pensar que somos apenas modernas e descontraídas.
Convém mexericarmos com um nojo cuidadoso nas peças expostas como se todas tivessem sido contaminadas pelo ébola - ou por Covid, caso a Casa não for especialmente requintada - e jamais solicitar a ajuda das meninas que nesta altura já devem estar prontas para se dissolverem em amabilidade.

Resulta na esmagadora maioria das vezes. Nas que falham é porque precisamos mesmo do papel higiénico.

A Gaffe na Men's Health


Calma, rapazes!

Nós, raparigas espertas, reconhecemos que o uso do vosso corpo em campanhas publicitárias, não apoiaria muito a vossa auto-estima, nem contribuiria para o aumento do número ou qualidade dos vossos engates de Verão.

Sensações que nós, raparigas habituadíssimas a rivais photoshopadas, já conhecemos de outras eras.

As imagens masculinas que explodem nos cartazes e nas capas de revistas, fornecem-nos a possibilidade quase instantânea de imaginarmos universos pouco compatíveis com o peso das vossas barriguitas, o escanzelado das vossas perninhas, os vossos bíceps miudinhos e fazem com que acreditemos que há qualquer coisa raquítica perdida pelo meio.

Chegou a nossa vez, meus queridos, de nos vingarmos de terdes tido a ousadia frustrante de comparar as pernas de Gisele Bündchen com os nossos cotos, as pestanas de Karolina Kurkova com os nossos apêndices rimelados, as maminhas lunares de Doutzen Kroes com as duas coisitas que se agarraram ao nosso soutien, o umbigo de Candice Swanepoel com a buraquito infantilóide que caiu na nossa barriguinha, o rabo de Izabel Goulart com os alforges que temos dos lados ou mesmo a cabeleira da delambida Alessandra Ambrósio com os fios de estopa que trazemos agarrados à cabeça.

O que nós sofremos!

Rapazes, acontece que andam soltos por aí, todos em cuecas e prontos para vos cilindrar, Marlon Teixeira, Evandro Soldati, Rodrigo Calazans, Francisco Lachowski, Simon Nessman, Diego Miguel, Toni B. ou Mário Loncarski entre tantos outros que é uma dor de alma ter de os escolher.

Pois, meus queridos, a partir de agora se não quereis passar esmagadoramente despercebidos ou despercebidamente esmagados e a somar derrotas nos campos de batalha onde estes guerreiros se digladiam, convém encontrar alternativas que nos chamem a atenção.

A mais fácil é sem dúvida fazer inchar o corpo, ou usar aplicações.

Não choraminguem! Foi o que muitas raparigas fizeram às mamas.

11.9.22

A Gaffe anoitecida


O anoitecer fica-lhe bem. Confunde o seu perfume. Deixamos de saber se foram os nossos olhos que lhe tocaram a pele das avenidas ou se quebrou o aroma dos vidros indefinidos do voo das luzes.

Quando Paris anoitece afastam-se os pássaros, porque nenhuma alada história se sobrepõe à da cidade.

Ama-se Paris soberanamente, como se a Cidade fosse um guerreiro antigo, porque a sua fragilidade dissimula a guerra.

10.9.22

A Gaffe nas esplanadas


A minha irmã bebe champagne numa das esplanadas de Paris.

A imagem é quase cinematográfica e a mulher consciente do facto apura os detalhes e cuida dos pormenores.
As calças afuniladas, pretas e vincadas, aumentam-lhe as pernas que vai descruzando num exercício de esgrima e a camisa branca de homem, de colarinhos rígidos, é manchada pelo cabelo quase em fúria.
Tem as mãos grandes, dedos finos e unhas ovaladas e perfeitas. Move-as com vagar de modo a que a pulseira de pérolas acompanhe a dança dolente dos gestos compassados. Tem os olhos dourados com pestanas grossas, lânguidos, pausados. Não há relances neste olhar. Olha devagar e o langor do olhar é já matreiro. Espreita, espia, espera como o leopardo.

Reuniu o grupo de Paris, ou que dele resta, e permitiu a entrada no círculo quebrado dos iniciados de alguns noviços que mede sem dó nem piedade.
Olho-os e não sei se o tempo é tempo de esplanadas de mulheres e de vadios destes. Não sei se Paris suporta ainda este ruivo bando de palavras, solto no ar, inútil, desenhado no sol entardecido da cidade.

Nas esplanadas de Paris as flores trazem Champagne e há néon nas almas, brilhantina e riso e o allure de uma mulher que passa sem perceber que passa sobre vidro.

Paris das esplanadas depois de finda a festa. Nas ruas que são rios e savanas, pradarias, tundras, gelo, vulcânicas passagens para outros lados, cheira a luz e a carne de perfumes raros. Manadas de indefesos animais, restos da humana desventura de viver em grupo em que o deslumbre mata, porque cega.
Rapazes que ficaram pelo caminho nas tardes em que Paris quis usar outros. Manada que atravessa este meu rio na lentidão que desconhece o tigre.
Incautos e imaturos príncipes grifados.
Grandiosa idiotice. Esplendorosa idiotice. Magnífica idiotice que nos traz à boca, sem um mover de um músculo, sem emboscar a vida, a presa que quisermos.

O menino de olhos de gazela e boca a prometer um fruto. Tem um pequeno alfinete preso na braguilha. Brilha a braguilha com o alfinete preso na prega do tecido que lhe molda o sexo. Cintilam os olhos do menino de braguilha alfinetada e borboleteia até pousar na mesa à minha frente.
Purpurina na íris, asa de pólen, menino tonto preso pelos meus olhos.

Pode ser este. Podia ser aquele ali, aqui, além. Mais este e aquele, o outro e toda a gente.
Que seja a minha noite uma alvorada, que eles sabem perder-se e eu encontrar.

Dentro de mim existe outra esplanada. Deserta, sombria, sem pérolas, sem luzes, sem tectos, sem Dior e mesmo sem Laurent, o rapaz de alfinete na barguilha.

Dentro de mim Paris não tem palavras.

9.9.22

A Gaffe nos rios

Anders Hingel

Em Paris, almofado-me nos olhos dos que passam pelas pontes e lanço as penas ao Sena, tão diferente do rio que passa pela minha terra.
O rio que passa pela minha terra não tem as barcas dos risos dos que lá navegam. O rio que passa pela minha terra é um rio que embarca na minha alma e de longe acena com um lenço de prata aos que passam pelas pontes onde há gente com penas no olhar de tanto olhar quem parte com os remos da saudade a ondular o peito.

A Gaffe com velhos amigos

Telhados de Paris -  Kenny Harris, 2022

É curioso como o reencontro com os nossos mais queridos amigos depois de uma ausência repleta de saudades e troca de memórias por cabo e por wireless, nos pode fazer descobrir que a distância que nos separou no espaço se pode transformar numa distância interior, calcetada sem o termos percebido, mas agora demasiado evidente para podermos encetar a conversa que ficou incompleta no tempo de partir.

O meu revisitado círculo de amizades, outrora renhidamente fechado e avesso a intromissões, contrário a qualquer tipo de parolo deslumbre que incute a ânsia do aparecer, porque quem não é visto não existe, revolucionariamente livre, rebelde e incorruptível, a fazer sonhar com a Resistência à ocupação Nazi, enforma e dá corpo agora ao Tout Paris.
Domado e assimilado por completo, reproduz com exactidão comportamentos chave do sucesso, lugares-comuns que a vida empresta aos tontos seduzidos pelo deslumbre dos camarins do brilho de brilhantes, bolas de sabonete da Ach Brito, desfiles e vernissages de pavões.

No centro do glamour não sou o corpo estranho. O meu exílio foi propositado; o meu afastamento, racional; no meu desterro havia um objectivo e a coragem coroa-se de louros e é tida como heróica pelos que não percebem que, na esmagadora maioria das vezes, os heróis não são mais do que o cagaço com armas na mão.