31.10.24

A Gaffe coulrofóbica


Para além do escuro das esquinas nocturnas do meu quarto, tenho um medo indizível de palhaços.

Afirmam os que sabem que este bichinho sedento tem origem nos meandros mais obscuros das nossas infâncias em que, nas tardes ensolaradas, nos levavam ao Circo, onde um palhaço nos arrastava para a arena, mimando o cómico dos nossos bibes e humilhando as nossas dignas poses de infantas sem reinos, mas nunca a minha infância me levou ao Circo. Adivinhava ela o medo atroz que sentiria ao ser destronada.
Arrasto este medo, quase meninice, e sou capaz de rodar avenidas só para não cruzar com homens pintados, vestidos de cor e de trapos largos, que oferecem balões à gente que passa. Não ouso sequer olhar mesmo ao longe.

No entanto, a todo o instante brigo, sem ter sombra, com outros palhaços do Circo idiota que chegou à vida e que nela ergueu a tenda maior. Dizem que essa luta se vence também a brincar com valentia. Talvez seja assim, mas eu sou uma menina de bibe mimado e a minha coragem não usa o trapézio.

30.10.24

A Gaffe de borracha


O rapazinho brinca com uma bola de borracha presa por um fio a uma tábua de madeira.Manobra o brinquedo improvisado com perícia e a pequena bola é impulsionada nas direcções mais díspares, para voltar a bater, sistematicamente, na pequena tábua de madeira e de novo projectada e de novo de regresso e de novo batida para voltar atrás.

A consciência da bola é a minha.

A Gaffe gestual


1º gesto

O perfume das gardénias nas varandas perfura-lhe os dedos.

Tem gardénias nos dedos das varandas, enjoativas, a provocar a náusea, a arrastar o vómito. Pesam-lhe os dedos como o calor que se abre nos botões das flores.
Os seus dedos são gardénias quentes de perfume e de besouros. Ouve os zumbidos dos bichos debaixo das unhas. O calor estala os botões de mansidão sinistra. Abrem-se como dedos de criança tenros e opalinos.
Nas suas mãos há dedos de gardénias opalinas e debaixo das unhas os besouros zumbem, zoando de perfume. Zunem os seus dedos de besouros bêbados e de gardénias abertas como feridas.

2º gesto

Outrora as mãos peregrinavam e no encontro das mãos ouvia-se rezar nas catedrais.

Nas mãos há peregrinos.
As suas mãos são como um pequeno mosteiro de portas abertas numa estrada por onde não passam peregrinos. A terra do caminho que vai a essas súplicas não é abrandada pelos passos de ninguém.

3º gesto

São ágeis os seus dedos e brancos e angulosos. Se os mover devagar vemos as ondulações meigas dos ramos das árvores de tronco quieto quando chega o vento sem qualquer barulho. Se os mover com fúria parecem insectos presos na angústia das teias de aranha.

4º gesto

As mãos são éguas brancas.

Perto dos juncos, a água dos olhos queda-se a ver ou a rezar lá dentro, a pedir coisas.

5º gesto


Se nos dedos zumbisse o lume a atravessar as sombras dos seus lábios - ou a mão na sua boca - então as gardénias seriam peregrinos a cavalgar o espaço.

Na foto - Paul Éluard


29.10.24

A Gaffe silenciosa


Foi o silêncio absoluto da sala que me fez ouvir o imperceptível movimento.

Tinham-no descrito algures, num livro que falava de uma rosa branca que, partida, tomava sobre a mesa, mas o episódio lido passou impune, misturado com outros a que atribuí maior importância. Pensava que uma rosa branca que se solta do caule e cai sobre uma toalha, tem esperada beleza e que por isso é de inevitável comoção. Mas o silêncio da sala reproduziu, de modo fiel se ousarmos substituir a rosa por uma flor qualquer de que não sei o nome, mas que é marfinada, o momento descrito em que também o silêncio foi cúmplice.
A flor partiu com um timbre no formato de uma faca, desceu e depois de um rodopio curto estancou de cálice invertido sobre a mesa.
Foi um movimento de tal forma claro, de nitidez tão fria, que me senti a ouvir o instante em que a flor quebrou, o estalido breve que me fez lembrar a forma de um bisturi, o ruído impossível da queda e o da chegada ao tampo da mesa em que rolou devagar como quem toca em algodão e ouve o rosnar da fricção por entre os dedos.
O som deste movimento incluído no silêncio, desarranjou-o, alterando-lhe o breve sabor a morte que todos os silêncios trazem dentro.

Dentro do silêncio que voltou depois, percebi então que talvez todas as vidas não sejam mais do que a procura do som do movimento em direcção à morte.

A Gaffe despropositada


Tédio despropositado.

Os meus lençóis agarram o meu cheiro e a minha nudez espalhada é indiferente ao espelho.
A minha cama sempre pareceu um ninho de um bicho espalhafatoso e exuberante. Nunca consegui dormir de forma calma. Envolvo-me e rebolo no sono e no sonho e destruo a primorosa obra das manhãs tardias em que os lençóis se dobram, se alisam, se amaciam, se distendem, se prendem e engomados dispersam o perfume lavado dos amanheceres mais claros.

Mas hoje acordei e tudo era perfeito. Como se ninguém tivesse dormido na véspera. Como se fosse dia de amante noutro lugar amado. Nenhum vestígio de inferno, nenhum cataclismo surdo e mudo e inconsciente. Nenhum tumulto, nenhuma multidão amorfa de panos misturados e confusos.

Em mim o tédio invade até as noites e faz morrer as ondas do meu sono. Durmo na planura da indiferença e na quietude apática dos tristes.

27.10.24

A Gaffe do Armindo


A colisão entre o urbano, cosmopolita e sofisticado e o Douro mais íntimo e desbravado, tem os seus momentos divertidos.

A minha irmã de Manolo Blahnik, agulhas mais altas dois centímetros do que o habitual, abusa da sorte. As pedras gigantes do chão da entrada da casa, apesar de polidas pelo tempo, não estão niveladas e é fácil tropeçarmos quando nos pés usamos os Himalaias transformados em sapatos. No entanto, a minha irmã está convencida de que quem se deve vergar, obedecer e moldar os caprichos, é obrigatoriamente o outro. Não admite a mínima adaptação ao que a rodeia, mesmo que o contrário signifique o seu equilíbrio.

Chegamos ao Douro no fim da tarde de ontem.

A maninha pousou a urbanidade na pedra, pronta a tentar manter o piso seguro debaixo dos tacões. É tarefa que lhe exige concentração e lhe entope todos os sensores. Foi por causa dos sensores apontados para os desníveis do solo que a rapariga desprevenida sofreu o ataque.

Há, aqui, livre e feroz, uma espécie de galo bonsai - o Armindo -,um frango com peneiras, uma coisa chamada garnizé três vezes mais pequeno do que um galo normal, mas seguramente mais agressivo do que toda a capoeira. Odeia tudo e todos e, sobranceiro e orgulhoso, desata a correr atrás de tudo o que se move pronto a bicar e a esfrangalhar os calcanhares ao maior dos invasores.
A Kelly bag da minha irmã, transformada em arma assassina, serviu de arremesso, mas há que reconhecer que foi um prazer desmedido ver uma das mais poderosas mulheres que conheço desgrenhada e esgaivotada, esbugalhada e esgrouviada, a tentar afugentar o psicopata.
Já protegidas de ataques furibundos, depois do copo com água da praxe, vimos o meu irmão chegar empapado em suor.

O homem alagado abraçou-nos.
A minha irmã empalideceu quando o abraço se desfez e a blusa de seda acusou a mancha da empatia a desenhar um mapa acinzentado e húmido. O rasto de Gucci que a segue foi literalmente abafado pelo cheiro a terra molhada e a erva fresca que o rapaz parece usar agora.
Pálida, com a tensão arterial em queda abrupta, rígida e já sem qualquer tipo de fleuma, incluindo a britânica, a minha irmã enerva-se:

- Vamos embora amanhã! Tu vens connosco. Não penses que te deixo sozinho com uma galinha psicótica e a suar para cima das pessoas.

E em crescendo, até ao esganiçar e estoirar cristais:

 - Não contradigas uma mulher paciente, calma, elegante, magra, alta, inteligente e culta. A fúria de mulheres assim é devastadora.

O Porto é já ali, mas com a minha irmã naquele estado à frente das tropas, ainda acabamos, os três, no sul do Líbano a perguntar onde raio se meteu a torre dos Clérigos.

Que os deuses nos protejam.

26.10.24

A Gaffe viciada


Há homens que nos consomem.

Ocupam-nos à revelia da nossa vontade e mesmo reconhecendo a toxicidade dos patifes somos incapazes de os substituir por uma qualquer panaceia transformada em jóia.

São como vícios.
Esquecemos com demasiada frequência que deles dependemos apenas porque recusamos assumir que se nos matam com o fumo dos seus encantos sacanas, somos nós que a cada momento lhes avivamos a chama.


Evelyn Tripp - Foto de Lillian Bassman (1954)

25.10.24

A Gaffe sem encanto


Vou tomando consciência do facto de existirem por todas estas avenidas parelhas de bagatelas - Imagem, palavra-, que, se separadas, ficam sem nexo, sem sentido, sem qualquer ponta por onde se lhes pegar.
Esta ligação ou simbiose, como se lhes queira chamar, é uma miserável metáfora para outras uniões que grassam por todo o lado e que são incomparavelmente mais dignas e mais importantes do que as que vou fazendo levianamente por aqui.

Há alianças que fustigam os dias com os brilhos de promessas encantadas, uniões que afiançam a eternidade de uma fábula, elos que trazem a garantia do encanto e da magia de uma história de fadas, laços de seda, de veludo e de cetim que adornam a solidez do reino onde se pode ser feliz para todo o sempre, que, de modo subtil, se vão esfumando ou estilhaçando em silêncio de encontro ao tempo que passa.
Subitamente, percebemos que atingimos o limite concedido para alojar pedaços que supomos ser os que nos são mais queridos, que esgotamos a nossa capacidade de acumular sentimentos ou imagens de um sentir que não é nosso, que todos os retalhos de felicidade que fomos reunindo são substituídos pela cinza de um aviso breve e cru.

Não nos é permitido mais.

As adornadas vedações que nos impediam de ver o que chegava lento e sem ruído para minar a nossa etérea ilusão de felicidade, acabam por fazer desaparecer o que retínhamos na alma e que nos fazia acreditar que éramos heróis e heroínas de contos infantis.

Ficamos com os abismos da desilusão nos braços.

É claro que há remédio!

Levantamos o rabinho da rocha magmática, enegrecida e bruta, em que se transformou a vida e vamos substituindo, com a coragem dos que se sentem sós, pedaço a pedaço, as imagens perdidas, retocando sempre que podermos o ilusório acumulado outrora com a consciência, exacta como um bisturi, de que nem sempre os sapos trazem príncipes dentro.

A Gaffe dos irmãos


O meu irmão aninhou-se em mim. Pousou a cabeça no meu colo e, baixinho, desfiou a mais fantástica das teorias:

- Ela nasceu sem alma. Não é grave. Podia ser pior. Podia ter nascido com lábio leporino ou com problemas de visão. Pertence a uma “elite de monstros” que não se consegue projectar nos outros. Não reconhece a vítima e, em consequência, não assume nunca esse papel. Não se consegue rever na dor que provoca. Não sente nunca as vítimas que faz. É um papel que não decora. Esta incapacidade produz assassinos em série, violadores, carrascos, torturadores e, no melhor dos casos, mulheres como ela. Predadoras que esperam. É das que ficam sempre e inevitavelmente com o que os outros querem. Pertence à "elite" dos que nasceram sem alma e dentro dessa "elite" ela ronda e espera, mesmo sem o saber, o momento exacto em que a presa vem desprotegida. Tem o poder todo, porque simplesmente está mais perto dele. Só por isso.

As elites são sempre canalhas
. - Termina e beija-me a boca, incestuosamente.

24.10.24

A Gaffe dos invisíveis



É patética a existência de uma espécie de indigentes cujo único objectivo na vida é alcançar um pedaço, mesmo irrisório, de atenção. Esmolam sem qualquer tipo de pudor e sem dignidade, desavergonhadamente, deploravelmente, arranjam formas ínvias de acreditar que são capazes de desviar um olhar alheio para os trapos encharcados que batem uns nos outros acossados pelo vento e que produzem o som das palavras que tentam juntar.

Insistem e são cansativos, aborrecidos, entediantes, previsíveis e de uma inutilidade confrangedora.

Dir-se-ia que possuem um dispositivo no cérebro que é accionado demasiadas vezes sugando toda e qualquer capacidade de raciocínio. Absorve a massa encefálica como se de um buraco negro se tratasse. Fica o vácuo, o inexistente, o espaço oco onde a miserável súplica, o deplorável rogo, a coitada crença na possibilidade de se tornarem visíveis, bate contra as paredes ósseas do lugar onde se escapou a vida, como uma bolita de um ping-pong jogado por ninguém.

Quando se acredita que o Além é logo ali ao lado, acaba-se por indução a evocar fantasmas.

23.10.24

A Gaffe fantasmagórica


O amor é o único lugar onde é permitido roubar ou mesmo violar quase todos os outros Mandamentos. Daí haver sempre a possibilidade de vencer o rival ou a rival - para simplificar vamos chamar-lhes o Outro - desde que saibamos que, em última instância, é permitido arrancar olhos e pontapear miudezas.
É lamentável e deprimente que uma mulher, chorando baba e ranho, possa perder sem dar luta renhida o que pensa ser o Amor da sua vida, mesmo quando o rapaz em causa se inclina para lugares nunca dantes navegados, mesmo quando o Outro é um matulão de bigode e barba rija ou uma loira luxuriante saída de um panfleto das Marés Vivas.

Há, contudo uma excepção: o que perdemos, está morto.

A morte transforma a vida em destino e lava todas as máculas, todas as nódoas, todas as ofensas, todas as manipulações malditas que por amor e em vida foram existindo. Contra isso todas as armas tombam num Alcácer-Quibir mais que previsto.
Fica apenas a memória do que foi divino, perfeito e demasiado grandioso para ser tocado ou alterado e, mesmo essa memória, lapidada pela morte, ampliada na luz que irradia, faz do nosso amor perdido a Eternidade.
Não há saída. Perdemos mesmo antes de pegar em armas, somos vencidos mesmo antes de começar a luta. Iniciamos o que não pode ter início. A morte tem sequestrado o coração que desejamos nosso.

Tenho uma fotografia de um destes mortos.
Um manipulador de almas, perigoso e implacável que desaparece substituído por um anjo branco, esguio, descalço, de olhar esverdeado, frágil e belíssimo que, dizem as vozes em surdina, surge, alma penada, na humidade da cisterna à procura do amor que destruiu.

Sabemo-lo da morte, mas sentimos também que nos assombra a vida.

A Gaffe esforçada


Um homem devia ter de empurrar um barco através de uma montanha, pelo menos uma vez na vida.

Uma mulher também, embora nestes casos metafóricos nos seja mais conveniente ir de avião.


Imagem - Zulkarnain Ismail 

22.10.24

A Gaffe e os insubmissos


A tentativa de um homem se demarcar e imprimir na multidão uma representação memorável, não está, na maior parte das vezes, no uso indiscriminado de exuberantes, coloridas, invulgares ou excêntricas imagens que procuram, com algum desespero patético, suprir uma espécie de carência de atenção necessária, embora enganadora, à solidificação da segurança e da autoestima.

A garantia de solidez e de estabelecida personalidade, obtidas pelo uso de fanfarronices, mesmo as que trazem apensas as griffes mais sonoras, é franzina, quebradiça ou mesmo nula, perto do homem, como o da imagem, que parece escolher o que sempre obedeceu ao seu inabalável modo de se mostrar à vida, acomodando o que escolhe ao que o define.

Todas as constantes, e sobretudo cegas, adaptações, ajustamentos e submissões aos ditames dos folhetos de revista assinados pelos mais conceituados impulsionadores do consumo, reproduzem apenas a debilidade e a instabilidade dos que caninamente seguem um dono.

21.10.24

A Gaffe com Néstum e mel


Inês - Os passarinhos foram feitas pelo Pai Natal para mostrar como seriam as flores se voassem.

Branca - Mas se as flores voassem ia ser uma confusão para as borboletas!

Inês e Branca (6 e 5 anos)

A Gaffe de soslaio


Uma das situações mais constrangedoras vividas pela Gaffe é aquela que a enfia no elevador com um rapagão desconhecido, mas de fazer pecar a Madre enclausurada das Serviçais Ceguetas do Imaculado. A Gaffe fica com os nervos arrepanhados quando o homenzarrão olha de soslaio e a apanha a fazer o mesmo. Este catrapiscar quando se repete de forma suspeita faz com que a Gaffe se eleve até ao décimo andar, mesmo tendo de sair no terceiro.
É uma situação tenebrosa, mas mais frequente do que se imagina e pode acontecer em qualquer lugar onde somos obrigados a ficar paradas. Normalmente acaba num sorriso amarelo e simpático, mas há ocasiões em que nos apetece atacar e estraçalhar a roupa, como se fossemos cães raivosos, daqueles que se babam enquanto arreganham os dentes ou que têm blogs que se resumem a comentar o que se diz por aí, por ali e por aqui.
Estes olhares de soslaio são intrigantes e fazem a Gaffe desesperar de hesitação. Nunca sabe se o rapagão ao seu lado está tão inibido como ela ou se, pelo contrário, o que ele quer, já ela sabe, porque quer o mesmo que ele, só que nenhum sabe se coincidem na oportunidade do desejo.

Às vezes a Gaffe pensa que se não seria melhor termos uma sirene encastrada – UUUUIIIIIIIIIIIIIII ... ... - que disparasse quando nos cheirasse a flirt. A Gaffe suspeita que andaria a apitar por tudo quanto era canto, mas, pelo menos, evitavam-se estas trocas de olhares embaraçosos que dão com a Gaffe em doida toda corada e constrangida, à espera que se rasguem as vestes no primeiro solavanco do elevador.

18.10.24

A Gaffe no sobe e desce


Não temos tempo. Corremos desatadas para os elevadores de forma a chegar mais depressa onde nem sempre queremos.

Odeio elevadores.

Há-os de variadíssimos feitios, mas aqueles que me irritam e destemperam os nervos são os mais antigos que trazem geralmente apenso um velho antipático e mal fardado, de unhaca afiada presa no mindinho, de cigarro nauseabundo seguro nas gengivas e que nos pergunta enojado para que andar queremos ir, como se dessa informação dependesse a segurança do edifício ou nos achasse demasiado burras para carregar no botão certo. Uma rapariga entra nestas coisas de ânimo leve e é apanhada por grades suspeitas que se fecham claustrofobicamente encerrando-a numa espécie de cela que abana por todo o lado, fazendo-a recear o encontro desagradável com poços de ar ou o desabar da geringonça com cabos partidos e ferros empenados.

O horror.

Os que se seguem na escala do meu ódio são os demasiado modernos, de aço e velocidade supersónica. Entramos, encostamos levemente o dedinho ao botão e somos impulsionadas em milésimos de segundo e de uma forma absolutamente esmagadora para o local que quase sempre nunca é o desejado, porque nos enganamos ao aflorar o tão sensível indicador do piso.

Enquanto que os primeiros nos rejuvenescem, porque são de época e ser-se de época é meio caminho andado para o encarquilhamento, os segundos envelhecem.
A velocidade com que se movem, quando subimos, permite que a lei da gravidade opere maldades atrozes numa rapariga. A força com que somos projectadas para cima coloca-nos o umbigo no meio das maminhas, deixa-nos o cabelo oleoso e arranca-nos as cuecas - no caso de as usarmos. É uma canseira a recuperação e nem sempre os resultados são eficazes, porque nunca ficamos com tempo para retocar a maquilhagem.
Quando descemos, a velocidade é tamanha que acabamos por concluir que o século XVIII foi penalizado por não ter elevadores desta espécie que esculpiriam as cabeleiras das senhoras em menos de um segundo. É também uma inconveniência o facto de ficarmos cegas por causa do pano da saia que se levanta e não apanharmos, quando o foguetão se abre, as caras de surpresa dos que o esperam ao depararem com uma rapariga esperta com um penteado de época - meio caminho andado para o encarquilhamento, - de saia levantada a todo o vapor e com as cuequinhas - caso as usarmos - transformadas num imenso fio dental.
Apesar de tudo, estes foguetões, na descida, oferecem uma vantagem sobre os primeiros: entregam-nos a esperança vã, mas deliciosa, de ficarmos altas e de pernas longas com um cabelo vasto e volumoso, leoas sem cuecas prontas para matar.
O meu problema é igual ao de todas as raparigas que - de saia travada e sem mais nada que lhe asfixie a força da sua natureza feminina - não se querem maçar subindo escadas sem que nenhum rapaz de fazer erguer um morto de tão giro, as siga logo atrás.

Nós, raparigas espertas, devemos usar apenas estas máquinas quando nos transportam ao céu ou nos fazem chamuscar as asinhas num inferno. O resto é mais andar, menos andar.

17.10.24

A Gaffe rapariguita


Cresço tão devagar que há uma pequena rapariguinha sempre à minha porta, como se me viesse pedir qualquer coisa.

Já não me lembro como era. Já não me sei miúda e no entanto basta olhar para a rapariguita que à minha porta olha para dentro das coisas. Dentro dos olhos da menina eu apanho-me a crescer tão devagar que me sinto a pedir que me levem ao colo ou que me tragam doces de amora ou de cereja.
Às vezes não cresço nada. Fico igual à pequena rapariguita que vejo. Apetece-me jogar à cabra-cega pela vida fora. Deixar que me atem os olhos com um lenço branco - tem de ser branco - e continuar cega a tactear o escuro que vem dentro das caixas dos presentes de Natal até se desatarem os laços. Até que eu e a criança que me vem pedir coisas os desembrulhemos para soltar a luz cá dentro.
Às vezes cresço mais que a menina que me olha. Não gosto de crescer mais do que ela. Fico minúscula e assim minúscula não jogo à cabra-cega, porque o lenço branco que me tapa os olhos escorrega e deixa-me ver o chão onde pousaram os presentes de Natal ainda nus, sem laços, sem escuros dentro.
Já não sei se nós, eu e a pequena rapariga que fica sempre à minha porta, gostamos de crescer. Olhamos uma para a outra muitas vezes. Ela pergunta-me por mim, como se me viesse pedir qualquer coisa. Nunca lhe respondo. Não sei se cresci para lhe dizer que nunca me encontro, que não sei de mim, que talvez ela me traga no bolso, junto das nódoas de cereja e de fitas de cetim com que juntas atávamos as prendas de Natal.

Às vezes fica à minha porta, como se viesse pedir para não crescer.

16.10.24

A Gaffe dos velhos amantes


Vivem como quem pisa uma alameda de vinhas trucidadas, sem esperar o mosto, sem esperar beber, porque o vinho está nas suas bocas. Cresceu como um corpo, ocupando tudo.
As suas terras estão marcadas. Jamais suportarão outros vestígios a não ser os deles.
Só ele sabe dela e só ela sabe que nele as montanhas olham os abismos e espreitam as vertigens sem fazer vibrar o ar que as rodeia.
Têm secretos recantos onde as suas vozes ecoam claramente e os seus olhos volteiam dentro delas.
Sabem ao sabor do pólen espalhado nos lençóis.

São velhos como só os amantes sabem ser.

15.10.24

A Gaffe dos amantes


A rapariga procura aconchegar-se no ombro dele, sentados na esplanada friorenta, enquanto ele folheia sem interesse um livro.
O rapaz sente-lhe o perfume do cabelo e a textura suave do casaco que a protege das breves rajadas de vento.

Amam-se quando o silêncio é suportado a dois sem sobressaltos.

São duas criaturas estranhas aos olhos de quem passa. Estão, como se procurassem encontrar ali o que lhes fugiu da alma sem lhes ter deixado a consciência de existir de tão fugaz e fugidio. Andam pelas ruas como os pássaros que pousam indiferentes nas abas dos canais, nos troncos corroídos das marés ou nos lanhos de luz abertos nas vielas. Passam como perfume nas linhas desenhadas pelo que fica. Depois de passarem, fica a moribunda esperança de colheremos aquilo que não chega a ser matéria de alma por ser mais indizível, ainda mais raro, intoleravelmente mais difuso.

Na esplanada, ele folheia um livro enquanto ela repousa no seu ombro.

14.10.24

A Gaffe marca o lugar


Sempre disse não ser uma grande fã do desporto. O máximo que consigo é observar com prudência a movimentação dos corpos e, de vez em quando, saltar de entusiasmo moderado no sofá onde me estatelo, quando encontro um ou outro atleta mais absorvente.

No entanto, sou fã dos balneários. Não pelas razões óbvias e marotas - que, não nego, também contribuem para esta minha malandra inclinação -, mas porque penso que todas nós, raparigas, antes de qualquer modalidade ter início, com alguns minutos que antecedem a entrada dos rapazes, devíamos espargir pelos cantos do reservado e masculino recinto algumas gotas do nosso perfume.

A nossa marca indelével agiria, subliminar, inconsciente e freudianamente, na concentração dos deuses dos estádios e, quando fossemos, displicentes, com o papelinho na mão, pedir-lhes um inútil e descartável autógrafo, seria mais fácil despertar a memória insidiosa que soubemos esconder nas horas vagas e vazias dos másculos balneários e acabaríamos com toda aquela testosterona aos nossos pés.  

Nesta operação, eventualmente proibida pelas Sociedades de Psiquiatria, é aconselhável que nós, raparigas leigas, distingamos com extremo cuidado as instalações onde cometemos o crime. De contrário, corremos o risco de - porque confundimos, aquando do borrifar do nosso pecado, a estrebaria com o balneário - em vez do garboso atleta, termos de lidar com o cavalo inconvenientemente apaixonado.

A Gaffe ajardinada


Apareçam floridos, rapazes!

A Primavera surge a cada passo que é dado e mesmo sabendo que o Outono foi queimando o verde, não se esqueçam do Poeta e acreditem que há que colher todas as flores em cada jardim que se atravessa, para chegar junto de nós de mãos vazias.

11.10.24

A Gaffe amanhecida


I
O dia amanhece frio e azul, devagar, no pássaro pousado no parapeito da janela.

Do quarto virado para Norte vejo ainda floridas as sardinheiras espanholas, vermelhas a morrer como um tango já dançado.

A mistura dos perfumes do Douro e da luz calada do dia que começa enlaça os cortinados, como amiga sentada a ler com os sons de um piano ao lado.

Tenho a obrigação de ser feliz.
II
O vento impede o voo das gaivotas. Planam paradas no ar que cheira a maresia ainda mais salgada do que a que chega à varanda do meu quarto.

Da linha em que o mar encontra o céu há uma barra cor de salmão, pálida, e depois o azul claro, tão claro que é quase transparente sobre a folha de platina da água mansa.

A mesa que escolhi é da cor das laranjas sem sabor. A luz agarra os gomos das cadeiras.

Há uma mulher feia de castanho a rabiscar papéis com tinta verde. Duas adolescentes amarelas a pipocar segredos e o rapaz de avental branco e dentes aramados que me serviu o café negro e espesso, encostado ao balcão a olhar as rochas cheias de luz cinza.
Estendo as pernas, cruzo os braços e a cabeça tomba para trás.

Fecho os olhos e deixo que a rapariga de sorriso cor-de-rosa me foque finalmente e faça clique no telemóvel vermelho e ansioso.

Estou vertiginosamente só. Não tenho medo.

A manhã pousada e fria, cor de opala e luz, vem pentear-me.

10.10.24

A Gaffe na urgência


Dizem os monges que o nascimento de uma criança prova que Buda continua a acreditar em nós.

Festejemos pois cada instante que vivemos.

Na dor, se for completa, germina a sobrevivência. Às tempestades resiste o sopro ténue dos que recomeçam. O confronto com os desertos acorda-nos a força de uma gota de água e o cyclamen, a violeta brava, a árvore das camélias, florescem em pleno Inverno.

É urgente emudecer os que como macacos enjaulados atiram colheradas de dejectos, de azedume, de secura e de amargura, de desapontamento torpe e derrotista, da janela de um segundo andar escuro e incontornável aos transeuntes a quem ganharam rancor.
É urgente calar os velhos que não são o do Restelo, porque o do Restelo é muito mais do que as amarras que o fizeram, mas os velhos que nos cospem a acidez do ressentimento gratuito e sem motivo que não resida apenas na derrota, que corrói até o sonho de nos vermos a sonhar.
É urgente desacreditar a moralidade de cabelo emproado e laca na bondadezinha que esconde dentro do missal estampas pornográficas e exibe nos dedos pios a solidariedade da indiferença denunciada por um discurso cliché.
É urgente festejar a mais ínfima alegria, a mais banal das pequenas coisas, a mais despercebida forma de se ser feliz, mesmo com lágrimas.
É urgente festejar cada minuto, cada instante, cada pedaço de tempo que vivemos.
É urgente agarrar a vida sem a inevitabilidade fadista dos profetas da derrota.
É urgente cobrir a alma com as cores que quisermos e fazer dela bandeira desfraldada para os outros.
É urgente festejar os dias.
É urgente celebrar todas as datas.
É urgente acreditar que a cada instante nascemos e que cada minuto que chega é a prova que merecemos que alguém acredite em nós.

É urgente ser optimista. Há tanto tempo para se morrer depois!

9.10.24

A Gaffe atravessada


Chego vinte minutos antes da hora marcada. Procuro lugar para estacionar e quando o encontro encaixo o carro ao som de Gene Kelly.
Chove desalmadamente. No vidro as gotas parecem gordura transparente ou vermes rápidos demais em fuga vítrea.
A minha irmã surgirá dentro de instantes. Saída do cabeleireiro, de trench-coat preto de couro e saia travada, gigantesca carteira onde chocalham universos improváveis e ar de Hepbrun com sabor a Tiffany. Vejo-a misturada com sinais.

Que me aproxime! Que dê a volta e a agarre, metálico cavaleiro a roncar à chuva.

Aceno-lhe. Não consigo dar a volta ali. Basta atravessar, correndo ou a voar usando as abas do casaco.

Recua. Entra no salão e dali sai com um guarda-chuva verde. Uns passos a tentar abrir o monstro, protegida ainda pelas caleiras. Não abre! Volta atrás e sai de novo. Na mão agora um guarda-chuva azul, minúsculo e encolhido, dos que dobram as varas e a paciência do que da guerra sairá molhado. Luta outra vez e mais uma vez vencida, volta de novo atrás já irritada. Sai com um mostrengo preto, guarda-sol, toldo de festa vip-carpideira.

Agora vai! Agora tem de ser.

Espera pelo verde do semáforo e quando surge a luz no alto do poleiro, dá um passo em frente e com a força e o vigor de uma valquíria empurra o trinco do cabo do colosso de modo a que ele mostre a copa agigantada.

Surpresa!
Eis o desastre.

O monstro abriu com um ruído ainda por molhar.

No meio da Avenida a minha irmã parada, estarrecida. Segura uma bengala grossa erguida a prumo e tenta em desespero soltar-se das varetas e varetas, mais varetas, mais varetas e pano a adejar rasgado e preto, esburacado, roto, espatifado.

- Uma palavra tua, uma que seja e faço de ti boneca de voodoo. As varetas já tenho.

Arranco no som já encharcado de Gene Kelly.

Basta um aguaceiro para entregar magia negra a uma sílfide.

A Gaffe chuvosa


Dentro da chuva há gente. Um cão que ladra e uma folha de papel sem mais nem menos.

Ninguém se vê. Ninguém confunde ou olha ou pasma, deslumbra ou desfalece. Passo por gente que rompe pela chuva já sem tempo de olhar e de sorrir, de se voltar para trás para tornar a ver.

Nos dias de tempos idos, mesmo rasando a luz do entardecer, sentava-me no banco do jardim da avenida e havia apenas névoa e cães e folhas de papel presas ao chão e sempre me sentia alguém que eu não sabia, diferente e igual a mim, mas nunca eu.

Agora há chuva e sinto-me cansada de me sentir sentida. Sinto-me e penso que o sentido chega daquela que é pensada por mim, que não sou eu. Sinto-me a pensar e estou cansada.

Há chuva e sinto-a como um cão que ladra dentro do que penso.

8.10.24

A Gaffe chalada


Raparigas!
Saibam que mesmo ocupadas até aos dentes; mesmo perdidas no meio do mato correndo o risco de ser comidas pelo lobo mau - Deus nos ouça!; mesmo sem o tailleur Chanel rosa pálido que destrói as pindéricas que ousam passar por nós desocupadíssimas a bambolear a Zara; mesmo com os Prada com as solas barradas com a pista que o cão polícia deixou enquanto farejava o nosso perfume à nossa procura; mesmo sem o cadeirão Luís XV forrado a seda floral para acomodar o nosso glamour; mesmo sem o cenário em talha dourada conveniente e apropriado a todas as raparigas que se prezam, jamais se esqueçam que a hora do chá - tea time para as amigas, - é sagrada, mesmo que a infusão não venha acoplada a um berço.

Descurar este momento é sacrilégio e se o cometermos, devíamos ser repreendidas por um senhor vestido de Zorro, musculado e com um bigode à Errol Flynn - apesar do erro, uma rapariga deve ser sempre admoestada por gente gira.

A Gaffe medricas


Confesso que tenho um medo pueril do escuro.

É uma confissão penosa, visto ser uma rapariga com força suficiente para espancar fantasmas e papões e ter lido um dia que não havia coisas do outro mundo a infestar as deste.
Mas o certo é que tenho medo do escuro.
Sempre que me levanto a meio da noite, porque esqueci a água ou porque comigo se levantam outras incómodas tarefas, encosto-me às paredes e arrepio-me a pensar que, a qualquer momento, posso ter a agarrar-me a garganta e a esfacelar-me a jugular um monstro decrépito e apodrecido, de olhos sangrentos e sanguinários dentes.

Não ligo as luzes. Deslizo, eriçada de pavor, com gelo na espinha e olhos de soslaio, pronta a debater-me contra os bichos, mas não faço luz por onde passo. Não posso humilhar-me mais do que suporto e lá arranco forças para enfrentar o monstro que se esconde para saltar à minha tenra carne desprotegida e nua.
Regresso à cama com uma vexatória velocidade e só me sei segura quando cubro as minhas pernas com tudo quanto é fronha, almofada ou lençol.

- Foste depressa!
- Pois fui. Não quero que nenhum monstro te apanhe aqui sozinho.
- A única monstrinha aqui és tu.

... ...
... ...
... ...
O problema é que estes pequenos medos fazem parecer que a inteligência sofreu um AVC.

7.10.24

A Gaffe manual


A Gaffe vai à manicure.

Sempre que tem de entregar a alguém pedaços de si, a Gaffe bisbilhota dias antes alguns exemplares do retalho disponíveis no mercado. Se, por exemplo, quer comprar um rímel, esta rapariga esperta debruça-se nas pestanas alheias até ficar cansada de tanto olhar e se decidir a escolher o próprio destino.
Com a manicure o mesmo se passa.

A Gaffe acredita que dar a mão a alguém é não a ter de volta nunca mais, é jamais aquele membro gestuar do mesmo modo, com o mesmo rumor subtil da identidade aprisionada.

Reconhecemo-nos ao dar a mão, ao dar verdadeiramente a mão, como quem vai, indiferente à multidão, desabotoando o coração.
Dar a mão a alguém é como ver com os seus olhos. É raro mostrarmos a alguém como vemos com os nossos olhos. Dar a mão a alguém é portanto um risco eterno.

- Ainda quer a minha mão? – pergunta a Gaffe à rapariga dos frascos e unguentos e percebe numa espécie de culpa que a pergunta deveria ser outra.

- Como se vê com os seus olhos?

Esperemos sempre que a mão que é dada ou acolhida faça com que as borboletas cresçam como espuma nos dias e acreditamos. Acreditamos até a dolorosa morte de sabermos que afinal as mãos já não se mexam, nunca mexeram, porque foram apenas cisnes imóveis com pescoços de espada e nós, decepados.

Talvez então o silêncio que nos resta nas palmas seja Deus a chorar.

4.10.24

A Gaffe criticada


Acabo de viver uma experiência que jamais sonhei poder vivenciar!

Os meus primeiros quinze minutos da manhã são passados num pequeno e agradável café, com imensa gente sossegada espalhada pelas mesas ainda sonolentas. Leio as notícias e consulto a minha agenda, atrasando o acordar.
Normalmente as mesas estão todas ocupadas e há pouco espaço, mas é um lugarzinho acolhedor e muito pouco ruidoso apesar disso.
A única mesa disponível era a que se encontra quase colada à minha. Um par de belíssimas velhotas simpáticas e matinais tinha-a desocupado depois de ter beberricado um chá e mordiscado uma torrada.

O jovem casal entrou e sentou-se. Ficaram de costas para mim. Ele, um yuppie vagamente ultrapassado, de fato apertado, azul nocturno, gravata regimental e sapatos bicudos. Ela, loiríssima, a arrastar a asa para o platinado, bonita, barulhenta. A proximidade fez com que visse o monitor do rectângulo digital preso nas unhas nacaradas da rapariga. Tocava no ecrã com a perícia de um indicador treinado e de mindinho erguido.

Foi inevitável ver o que o que ela via.

A Gaffe e as Avenidas ocupava o ecrã e o dedo atentíssimo da menina.

Os brincos, dois mochos de pechisbeque, baloiçavam escandalizados perante a desfaçatez que era lida e a irritação provocada pelos posts ruivos disparou no momento da cotovelada nos rins do rapazinho.

- Não entendo como gostas desta tipa!

O homem encolheu os ombros, olhou de soslaio as Avenidas que a companheira de infortúnio percorria e sem qualquer entusiasmo espalhou na mesa:

 - Não gosto. Acho piada.

- O que ela precisa sei eu. – Roncou a candidata a platinada.

- Se calhar é do que tu tens a mais – insinua o yuppie mal disposto, afagando a testa com os dedos.

Atrás deles, à distância de um voltar de cabeça, está a tipa que merece o desdém irritado daquela mulher e que desperta um vago interesse no homem que não morre de amor pelo que lê. Perdi-me por completo a saborear a delícia extraordinária de me sentir olhada sem que o observador desse disso conta. Experimentei, naquele instante, o sabor que a Gaffe tem e dei conta da possibilidade que, embora irrelevante e muito ténue, um blogue tonto tem de irritar projectos de platinadas que sabem, com a certeza que é construída pela experiência, que aquilo que preciso é o que esbanjam à toa e em todo o lado e de provocar um qualquer sorriso pouco empático num homem de sapatos bicudos, vítima dos dispersos exageros que a companheira pensa que me faltam.

Foi uma delícia sentir a Gaffe manuseada por estranhos.

Nota - Aproveito a oportunidade, pois decerto me lerá, para lhe sugerir, minha cara, que troque de brincos. Os mochos de pechisbeque abanavam demasiado e ameaçavam soltar-se do poleiro e a si, querido leitor que me acha piada, devo aconselhar o abandono definitivo das peúgas camufladas em tons de verde tropa.

Gaffe - 04/10/2022

3.10.24

A Gaffe no evento


Realizou-se, por aqui perto, uma espécie de dinamização cultural toda moderna.

Não a podemos confundir com uma acção de produção cultural. É louvável e acredito que evoluirá de forma considerável, expandindo o seu alcance, libertando-se, se caso for esse o seu objectivo, da habitual feirinha de artesanato urbano, banal em qualquer estação e apeadeiro de inícios do Outono.

Há, no entanto, uma condição comum a um dinamizador cultural e a um produtor de cultura. Ambas as situações terão de obedecer a um parâmetro implícito na própria definição, noção ou em qualquer conceito de Cultura que seleccionemos. Se o que se realizou reivindica um destes estatutos e se pretende afirmar como elemento activo na projecção e enriquecimento de uma determinada comunidade, por muito restrita que seja, terá sempre de orientar as suas acções sob a alçada de um denominador comum: o respeito pelo outro.

A capacidade daquilo que foi dinamizado por um grupo de jovens de alterar, tornando mais dinâmica e evolutiva a pacatez possivelmente exagerada de determinada rua, provocando ou apenas possibilitando uma faceta lúdica até aqui inactiva, obrigando-a, dentro das limitações compreensíveis, a ouvir, ver e sentir o que até ao momento ignorava ou esquecia, quebra-se e torna-se medíocre e estreita, quando este objectivo se confunde com uma demonstração de irresponsabilidade cultural, consequência dos actos de desrespeito pelo outro, consubstanciados no abandono desleixado e porco de final de festa adolescente que ignora por completo que um indivíduo pode ser até completamente indiferente ao que se passa no local onde habita - isto sou eu, dizem eles, - não perdendo por isso o direito a ser respeitado, a emitir opinião ou a reivindicar sossego, civismo, silêncio e a não ser insultado com uma data imensa de lixo que não foi recolhido pelos catraios que o produziram.

A dinamização cultural, esta e qualquer outra, tem obrigação de se preocupar com a porcaria que larga no fim da sua actividade, incorrendo, se não o fizer, naquela espécie de iniciativas que visam apenas fazer sorrir a sobranceria muito pouco cultural dos miúdos que se divertem numa ilusão de cultura e que acreditam, de forma enganadoramente ousada e bastante adolescente, que trazem ao povo o Santo Graal, entregando as consequências menos dignas ou nocivas desta iluminação a outras entidades.

Não há, em nenhuma circunstância, qualquer justificação para o desrespeito. Dinamizar determinado espaço não iliba o actor da acção de cuidar da pegada que fica posteriormente ao acto.

O lixo abandonado no final desta treta com sabor a hippie é, sem sombra de dúvida, o menosprezo por aqueles que, em princípio, são os destinatários deste mesmo evento e torna uma atitude cultural numa medíocre demonstração de uma espécie de estreita consciência cívica, de eufórico caos adolescente que, em nome de uma pretensa dinamização cultural, escondem um deleite egoísta e exibicionista que incorre no erro de se considerar ilibado das responsabilidades geradas pelas suas manifestações.

O lixo, desconsideração, desatenção, desdém e desprezo que ficam depois do palco encerrar, apodrece mesmo em cima deste tipo de iniciativa.

Resumindo:

Todo este lixo me faz apetecer desatar à estalada a qualquer coisa que dinamize desta forma seja o que for.

2.10.24

A Gaffe e o esquecimento


Uma mulher elegante, disseram, é aquela que se esquece do colar de pérolas debaixo da camisola de gola alta e do anel de diamantes sob a luva.

Os adereços são fulcrais neste julgamento e classificação. Há uma nítida supremacia do indivíduo sobre o objecto e uma desqualificação da coisa usada, em prol de quem a usa. Supera-se a importância atribuída à matéria - consumível - e o olhar é desviado para outros círculos onde é mais sólida a permanência da individualidade.

Uma rapariga esperta jamais esquece que por muito glamour que exista nos adereços que usa, será sempre o modo de os esquecer que lhe fornece a elegância.

A Gaffe e Lavoisier


Estranha-se, sabendo que depois se entranha, o sabor antigo de uma silhueta feminina repleta de um glamour reservado oriundo de paragens onde os mitos se seguiam ao tempo das sombras ou do aniquilamento.A imagem decalcada de um espaço temporal abandonado, não é obra original ou jamais vista. A hábil recuperação do que é já perdido é uma constante transversal a toda a imagética existente.

Nada é perdido e tudo se transforma – diz o velho Senhor do século XVIII.

Acreditemos pois no que há-de vir, se aquilo que vier nos devolver o que não soubemos nunca amar a tempo.

1.10.24

A Gaffe na caravela


Como adormecem os sonhos quando não há histórias de embalar para lhes domar a vigília?

Será que pousam a cabeça no meu colo e se deixam tocar pelos meus dedos, ou, com o meu sono nos braços, mordiscam o cansaço de se ser eterno e cabeceiam a eternidade que é apenas a avenida lançada sobre mim, que acabo sempre no começo da espera?

Adormecer com sonhos é como ter o mar dentro da cama. Não basta ter navios. É preciso que saibamos onde estão os portos e os exactos lugares onde chorar é forma de prender amarras.
Depois, é só unir a bússola às estrelas e transformar as lágrimas em velas.

A Gaffe na guerra


É fraqueza ser lobo entre as ovelhas.

Camões - Os Lusíadas