31.12.25

A Gaffe de Ronaldo

 


A Gaffe, mesmo ultrapassada, não resiste e comenta.

Cristiano Ronaldo foi, no séquito do príncipe, seu dono e senhor, cumprimentar Trump.

Levantaram-se as armas, os barões e os brasões (e os varões) que se assinalam pelo erro cometido e pelo escândalo sentido, pois que Ronaldo representa Portugal!

Não pareceu grave e a Gaffe acredita que Ronaldo representa hoje o que muito bem entender e, neste caso específico, representa e apresenta-se apenas como um rapagão intumescido de dinheiro, capaz de o multiplicar até ao infinito se obedecer ao patrão e assinar contratos gigantes de publicidade e influência.     

Cristiano Ronaldo sempre foi um rapagão simpático, esforçado e bem-disposto que jogava, ou joga, de forma genial - a Gaffe não faz a mínima ideia do estado do rapaz e dos estádios por onde o rapaz joga -, mas que ainda não percebeu que os livrinhos de BD trazem balões com frases completas.

A Gaffe lembra-se que, quando Portugal criticou um atleta olímpico - que preferia estar na caminha na hora de competir -, viu à sua frente as façanhas dignas de nota que os severos críticos tinham nos seus currículos e concluiu que, apesar da idiotice do que foi dito, havia uma razoável vantagem do lado atlético.

Cristiano Ronaldo não é um intelectual, não é de todo um grande ativista e não se abespinha por causas aristocráticas, mas foi um extraordinário jogador de futebol que sempre obedeceu ao patronato. 

Não se pode ter tudo, embora seja nossa obrigação desejar obter o Universo.

Há homens que embora geniais naquilo que fazem com os membros, trazem apenas na cabeça um penteado novo e, feitas as contas, o de Cristiano Ronaldo consegue ser ainda mais parolo do que o de Musk.

Não vem mal ao mundo. 

30.12.25

A Gaffe criminosa



A Gaffe decidiu dar um fugida à FNAC para desatar a procurar o livro que o mano lhe tida dito que gostaria de ler. Encontrou um único exemplar ao mesmo tempo que descobriu que as fugas precipitadas dos locais onde se tem de permanecer obrigatoriamente deixam algumas mazelas na tranquilidade e fazem com que nos esqueçamos sempre de qualquer coisa essencial ao cumprimento do objectivo da transgressão.

A Gaffe não tinha levado a carteira.

Decidiu esconder Prosa Completa de Woody Allen na estante dedicada à Literatura Francesa, mesmo atrás dos cinco volumes da obra completa de Balzac. Um esconderijo impenetrável, como é bom de ver.

Admite que não foi educada e não mostrou uma pontinha de respeito pelos outros, coisas que deviam estar ao rubro nesta época, mas depois de ter visto uma senhora pronta a cravar as velinhas de Natal decoradas com azevinho e anjinhos ternurentos nas costas dos que faziam fila na caixa da Zara Home, relativiza imenso estas incandescências.

Com o crime cometido, a Gaffe saiu discretamente da loja e já pronta a acalmar o rubor da culpa que sentia, encontrou nos corredores um pequeno estaminé onde um senhor muito simpático prometia reproduções nossas em 3D. Existia num espaço onde um scanner nos lia e enviava a informação para uma aplicação informática. Uma semana depois tínhamos um boneco igualzinho a nós em três tamanhos à escolha.

Três orgasmos de diferentes dimensões para os narcisistas.

A Gaffe ficou a pensar se não seria mais simples encomendar a este senhor simpático uma miniatura de Cristiano Ronaldo. Se fossem reproduzidos milhares de exemplares, todos assinados pelo herói e comercializados pelas manas, os fãs teriam a possibilidade de o comprar e de sentir o orgulho de ter Ronaldo na mesinha de cabeceira com a velinha da senhora da Zara Home a iluminar o altar.

Sempre eram mais uns trocos.

A Gaffe considera que as poses dos heróis facilitam o trabalho do escultor.

Pensa mesmo que os artistas devem captar as atitudes de Ronaldo antes do livre, mas convém ter também em atenção o dever de apanhar a atitude do jogador perante Georgina, tendo em conta o que se esculpiu, na Madeira, no meio campo - a Gaffe sempre receou que a ilha se inclinasse com o peso no meio do rapaz e a parte que o sustenta mergulhasse, ainda mais do que o habitual, no oceano das tontices, fazendo com que o outro lado da ilha se erguesse e catapultasse o offshore madeirense, atingindo o ponto cego da visão dos senhores que naufragaram nos ajustes directos.

23.12.25

A Gaffe deseja-vos...

...o melhor.

19.12.25

A Gaffe infractora


Quando a minha irmã telefonou, com voz esganiçada, não entendi de imediato aquilo que se passava e, quando o fiz, espantou-me o seu pedido de socorro.
Não sou decididamente nada boa a socorrer quem quer que seja e no meio dos problemas alheios fico pasmada como um sapo no meio da estrada.

Com a ganância enfurecida, a minha irmã ao lutar por um lugar de estacionamento perto do idolatrado cabeleireiro, tinha raspado o carro no pequenino brinquedo conduzido por uma matulona que não se conformava com o risco digno da arquitecta, nem era seduzida pelo glamour da infractora que simulava arrependimento e desprotegida inocência.

Fui ver.

A minha irmã embaraçada, dava início à impaciência e à inevitável maçada que seria perder a tão marcada, tão apetecida, tão namorada, tão suspirada hora no seu cabeleireiro mais amado.
A senhora, de arreganhados dentes, tinha chamado a Óturidade e a Óturidade justificava todos os fetiches pelas fardas desgarradas e soltas neste vale de lágrimas.
De camisa azul que é quase céu, o boné com a pala rígida, pistola, cinturão, botas de cano, galões, divisas, cassetete duro e calças a alargar nas coxas e a arredondar o rabo, a afagá-lo, a desenhá-lo, a formatá-lo, a prometer prisões onde é bom morrer ou suspirar fechada.
Escanhoado a lâmina assassina, o maxilar quadrado e cinza de tão dura a barba. A boca desenhada com o lábio superior ligeiramente erguido e um sulco nasal onde é bom tombar e escorregar. Nariz direito, nervosas narinas e olhar castanho com pestanas negras e compridas.
Olhou para mim que a sorrir pateta não descolava os olhos do fardado. Sorriu também - os dentes tão perfeitos! - e com voz rouca anunciou:

- E eis que chega o sol poente disfarçado de mulher.

Olhei para os lados e olhei para trás. Não vi ninguém chegar e percebi, já lenta e apatetada pelo assombro, que se referia a mim o colossal exemplar de Óturidade.

De escaramuça resolvida, decido mártir assumir todas as culpas, desnudando a alma patética perante a Óturidade, pronta a rasgar as vestes, a obedecer, a perder a dignidade, a desmaiar deitada sobre nuvens.

Nenhuma rapariga resiste a um belo piropo bem fardado, sobretudo àqueles que são nitidamente proibidos.

18.12.25

A Gaffe e um presságio


Na minha Avenida a cigana desfralda panos negros e no mar, cigano ele também, o vento apura o som das ondas amarfanhando a minha voz que foge.

- Eu leio as tuas mãos.
Não quero.
A cigana esvoaça. Um corvo na Avenida e o mar a trucidar a minha fuga.
- Deixa-me ler as tuas mãos. Dá-me dinheiro.
À minha volta rodopia. Trava-me o caminho, como a sombra do mar a minha voz que nega. Rodopiam trapos pretos na Avenida. A cigana que não me tem nas mãos, deixa-me solta e, mal eu liberta tento abrir o peito e respirar, ouço o estalar da voz, o crocitar do corvo atrás de mim:
- Tu, cabelos de fogo, tu vais sofrer de amor.

As minhas mãos já lidas?

17.12.25

A Gaffe que passa


- Cala-te, minha vaca, que eu arranco-te a pedra dos dentes à chapada!

- Porca! atreve-te a tocar-me e até ficas sem a cabeça dos dedos!

É tão reconfortante, no início da manhã, ser brindada com a ternurenta oportunidade de me espantar com a vida! As duas pequenas que ainda há instantes jogavam à macaca são agora duas rapariguinhas feitas e mimosas.

Quem diria que namoram já?! Parece que com o mesmo, pelo desaguisado.

E basta vê-lo encostado à pedra para compreender as razões que assistem às duas donzelas: de braços cruzados e músculos morenos, de perna traçada e sorriso macho, encolhe os ombros e bufa entre dentes um fumo fininho, fumarando a cena como inevitável.

Como o tempo passa quando é apenas o tempo a passar!

16.12.25

A Gaffe num chuvisco


Chuvisca e gosto quando a cor do céu é a do mar cinzento. Gosto quando a chuva miudinha empurra os que passam para dentro das casas.
Nessas alturas, o Inverno prolonga a tarde deixando as ruas desertas.
Sento-me sozinha na esplanada abrigada do café, rente à marginal. Posso levantar as pernas e estendê-las na cadeira em frente. Deselegante e descuidada. Ninguém passa e o rapaz que me serve não diz nada, não olha sequer para mim reprovador. Pousa-me a água no tampo da mesa e desanda alagado em sonolência. Uma moleza gelatinosa que não se espanta por me ver ali sentada a ver chover.
É quase cedo demais e chuviscam cinzentos frios os minutos.

Na minha frente, a cem metros de mim, vejo surgir do declive de pedra, agora húmido e escorregadio, que nos faz chegar ao areal, um guarda-sol aberto, laranja, com franjas brancas. Absurdo gigante. O homem que o traz vem embrulhado numa toalha azul-marinho e usa chinelos amarelos. Não lhe consigo ver a cabeça.
Fica parado a olhar o mar.
Chove no guarda-sol laranja aberto com franjas brancas do homem coberto pela toalha azul-marinho, de chinelos amarelos, parado contra o céu de chumbo a olhar o mar cinzento.

Apetece-me ficar pela eternidade dentro, naquele silêncio colorido, sentada na esplanada que dá para à marginal, como que a olhar uma canção a cem metros de mim.

13.12.25

A Gaffe em rodopio


Fazes da minha água o amanhecer.
Agora consigo vislumbrar a tua pele.
Agora entendo a migração das águas.
Tenho o teu corpo azul e prateado, a transformar-me em onda nesta manhã de areias esmagadas.
Estás adormecido e o espanto de tu estares assim, nu e quieto, prolonga a luz nas sombras e acidula os objectos.
Não sei mesmo se sonho ou se acordada te vejo a dormir.
Os lugares onde me perco estão toldados e misturo as vozes de tempos diferentes. A minha realidade é um mar aberto. Separadas as metades, deixo de saber em que lugar fico.
Não sei se em ti me afogo ou se deixei de ter lugar em mim.

12.12.25

A Gaffe anoitecendo


Ao anoitecer, todos os ruídos abrandam e sente-se uma ligeiríssima vontade de chorar, embora não se saiba se é mesmo nossa ou se pertence a outro.

Sento-me no cadeirão de couro castanho, novo e com laço apenso, dedicatória doce do meu pai, cruzo as mãos no regaço, com os pés nus inclinados para dentro e as séries televisivas que deslizam, iguais umas às outras, que trespassam o silêncio com os estampidos dos tiros.

Espero pela hora de me levantar e sair devagar como uma visita e vou percebendo que os espaços que habitamos são aglomerados de memórias; que sem a fusão da nossa mão com aquilo que tocamos; que sem a cumplicidade construída pelo tempo que une - como fio de teia de pequena aranha -, a nossa vida ao pó que fica nas memórias dos móveis e dos objectos, ficamos suspensos e frágeis, sentados nos cadeirões que não sentimos nossos, perto da solidão que nos faz crer que é uma velha amiga.

11.12.25

A Gafe e a mutação das algemas

Na minha família, as mulheres gostam de pérolas. Usam-nas com frequência. Transformaram-se, as pérolas, numa marca de pertença de grupo. Oferecem-lhas quando nascem ou quando se torna inevitável a aprovação de um elemento feminino exterior à tribo claramente matriarcal. Usam-nas como elemento identificativo que lhes permite vaguear de forma mais liberta pelos corredores apertados e sempre vigiados, construídos pelos mais elevados e cerrados interesses do conjunto. Há sempre pérolas nas mulheres da minha família. Herdadas ou seleccionadas meticulosamente pelas minhas avós que se tornaram hábeis e doutas nesta escolha, porque aprenderam com gerações antigas. São fáceis de encontrar por todo o lado, presas aos corpos das mulheres, como inevitável marca a ferro e fogo.

Aos rapazes, aos mais jovens, que os velhos homens da família não precisam, decidiram também oferecer pérolas. São botões de punho.

Há que algemar também os transgressores.

10.12.25

A Gaffe ajuíza


Os tímidos são a mais encantadora forma de uma mulher sentir que domina. Pode não ser real este controlo, mas a nudez de um tímido fá-lo sentir um réu e nada há de mais assustador do que ver julgada a nudez tendo como juízes os olhos de uma mulher.

A Gaffe de noite

A noite é uma árvore.

É chegado o tempo em que as raízes petrificam de cansadas. A seiva em escultura.

A noite é outra coisa que não eu? Não há razão para não o ser, mas as razões são o acaso que invade o território sem qualquer pudor. Chegam como se tivessem uma história onde não entramos. Uma história que pode ser contada sem nós. Uma história exclusivamente delas, onde a nossa mudez está na garganta, definitivamente na garganta, e não no lugar onde nós somos. Eu e noite temos secretos recantos onde a minha voz se ouve claramente. Os olhos da noite rastejam dentro da minha voz. Um pacto em que a noite deixa mortas as palavras corrompidas e eu aceito esse abandono como uma oferta inevitável.

9.12.25

A Gaffe e uma moeda


As raparigas estão sentadas lado a lado.
A diferença de idades é irrisória.
Possuem o mesmo tipo físico. Os genes aproximaram-nas, fornecendo a ambas a estatura alta e corpulenta, cabelos longos e aloirados, mãos de gigante, maciças, quase brutas e a amplitude dos rostos, claros e serenos.
Comportam-se da mesma forma, indiferentes a tudo o que não passa pelos aparelhos que ligaram aos ouvidos e barraram as hipóteses de comunicar, a não ser quando sentem o vibrar curto dos telemóveis caros. Nessas alturas, retiram os fios que as ligam ao som dos aparelhos e substituem-nos pelo objecto preto por onde vagamente se faz notar a voz que as quer ouvir.

Uma delas não tem história.

Usa, ao contrário da outra, que a prendeu com um gancho banal no cimo da cabeça, uma repa que lhe esconde os olhos. Os lábios carnudos, apagados, e a lentidão do gesto que torna nítido o peso de cada movimento. Baça, passa despercebida.

A outra, de madeixa presa por um gancho no cimo da cabeça, mostra as insolentes sobrancelhas em arco definidas e nos olhos percebem-se desafios ainda desbravados, incipientes ou por aceitar. Tem a boca ligeiramente maior e mais desenhada. É fácil mostrar desdém com bocas assim recortadas. Basta uma inclinação ou um breve empurrar dos lábios que de súbito se fecham com mais força e dispara o desprezo.

As duas, lado a lado, são idênticas e, no entanto, se a vida as ferir ao mesmo tempo, sei que apenas uma delas se tornará maior do que a chaga. A dor acabrunhará apenas uma. Cuidará da ferida aberta com desvelo e haverá lamentos e choro interminável. A outra, a de insolentes sobrancelhas, agarrará os cornos do que vem e a cicatriz que depois ficar do embate será adicionada a uma história imperceptível que produz o indizível fascínio das mulheres que subitamente domaram o que na dor restou.

Talvez seja este um dos mais intrigantes mistérios da Beleza. Se quando em nós a Dor sentida se traduz em história que desbrava histórias nos que subitamente a olham, então no bicho pardo, lamacento e nulo em que se abriu a ferida, cresce a estranheza de o reconhecermos Belo.

7.12.25

A Gaffe amadurecida



O charme brutal de um homem maduro passa sem hesitação pela capacidade de tornar evidente a inteligência que possui. Nestes casos, torna-se uma ocorrência séria uma rapariga esperta encontrar a imensa capacidade de sedução que reside no extravasar nítido do que é eminentemente claro: o charme é a inteligência que transborda como se fosse um dos melhores unguentos para manter a pele em forma.

A capacidade inconsciente de tornar perceptível toda a sua experiência de saber feita, alquebra todas as nossas resistências e faz-nos perceber que conhecer um homem, não é apenas saber-lhe o nome quando acordamos com ele ao lado. 

6.12.25

A Gaffe troiana


Quando o invasor - mesmo troiano e de disfarce equino - é alheio a nós, basta que haja, ali ao nosso alcance, a tecla da matança, que o vencemos. Mas quando é de nós que chega o invasor e é por nós - e em nós - que é disposto o cerco, não nos basta conhecer o exército que somos, é necessário saber montar cavalos de madeira e ter ao mesmo tempo nas nossas mãos que os erguem, o fogo para os queimar.

5.12.25

A Gaffe das coisas pequenas


Creio que se perdeu a leveza da sinceridade amável, inofensiva e espontânea, aquela que surge solta sem querermos, involuntária. Acabou por se tornar apenas a garra com que se raspa o chão que ainda dá uvas. Chega premeditada. Seleccionamos o que de simpático devemos dizer com a lupa e a pinça do interesse e de uma eventual contrapartida. Somos amavelmente interesseiros. Elogiamos a capacidade de trabalho do colega, a assertividade da secretária, a iniciativa inteligente do amigo ou a predisposição para o sucesso do parceiro, sobretudo quando nos dão, ainda que vaga, a possibilidade de nos deitarmos à sombra, sabendo que o sol do meio-dia de um Verão tórrido é para os que elevamos aos píncaros.
Perdemos aos poucos a fragilidade do encanto mais banal. Vamos ignorando o que vemos pequenino. Deixamos de ser deuses das pequenas coisas. Esquecemos as pestanas longas, pretas e densas do homem que passa. Ignoramos as mãos esguias que se movem como pombas da rapariga da confeitaria. Não vemos a timidez de diamante do rapaz que nos entrega a revista que pedimos. Perdemos a oportunidade de tocar nas asas da mulher que passa com elas fechadas. Nunca dizemos a alguém que tem as clavículas como baloiços de estrelas. Somos senhores apenas dos grandes elogios.

Talvez seja por isto que é ignorado que há sorrisos banais que unem galáxias.

4.12.25

A Gaffe cumplíce



Talvez se nos deitarmos na terra e no chão cavarmos uma cova com os lábios
como quem beija amantes ou estios.
Talvez se tombarmos lá dentro a nossa casa.
Talvez se lavarmos com terra as nossas mãos até a saudade se abrir na lama.
Talvez se mergulharmos no tempo de dentro dos olhos, como um lanho na água.
Talvez então acorde o minúsculo coração que respira o vento Norte.
Só depois.

Espalhar metáforas de gosto e qualidade duvidosos por estas avenidas fora, é de uma confrangedora inutilidade. Ninguém decifra o que dentro vive - se viver - e arriscamos-nos a coleccionar subjectividades ilegíveis.
Um blogue é uma das mais interessantes formas de se dizer a verdade. Raros são os que acreditam e a catarse assim despenalizada inscrita na escrita é compensação.
O lê-me o que escreves dir-te-ei como és não é de todo descabido na sucessão de publicações e, mesmo não querendo, a criatura que os vai mostrando acaba não só por revelar alguns dos lugares que lhe povoam os dias, como também imprimir em quem a lê uma imagem que se aproxima com relativa segurança da dona das palavras se a clareza incluída na objectividade for ponto assente.

A metáfora é portanto um entrave a essa compreensão. Na vida acontece o mesmo.

As ligações que se estabelecem entre quem escreve e quem lê incluem muitas vezes uma cumplicidade oriunda da empatia que se vai criando ao longo do tempo das duas acções. Escrever e ler é dessa forma uma troca profícua de cumplicidades, sobretudo tendo em conta que a leitura é já uma reescrita.
Esta afinidade torna-se no entanto demasiado exigente.
Se a amizade pode ter mais direitos do que o amor, visto não ter as mesmas compensações, a que se estabelece na forma citada impõe condições e regras de difícil manutenção. Não sendo detentores de toda a informação, somos levados a perceber o outro que lê ou que é lido como entidades impolutas e desprovidas de mácula.
É a imprevisibilidade do erro, do pequeno lapso, do minúsculo deslize, da mais ínfima e desculpável aleivosia cometidos por um dos interlocutores que adquirem proporções de catástrofe. O absolutamente inócuo acto falhado torna-se bisturi e separa a unha da carne.
Após a tragédia é inútil abrir covas com os lábios. Não resulta, deve ser doloroso e desfaz-nos o batom.
Acreditávamos ter encontrado a água mais fresca da terra e descobrimos que afinal não é aquela que nos mata a sede.

O vento Norte talvez nos traga um outro coração.

3.12.25

A Gaffe nas árvores


Às vezes no caminho cai uma árvore. Impede-nos a passagem. Ficamos deste lado. O corpo morto não deixa que avancemos e caminhar ao longo do gigante derrubado é a ilusão que temos de avançar.
A árvore caída continua a crescer. De raízes soltas e libertas da terra, cravadas no ar, e copa escurecida de folhas perenes, sem ninhos que os ninhos requerem as alturas do sossego. Por isso, nunca chegamos a descrever a recta da passagem. Não conseguimos sequer olhar para o outro lado, o lado que devia ser o prolongar do avanço, porque o tronco se agiganta, como se fosse vivo e latejasse. Então andamos ao longo desse corpo impeditivo e acreditamos que é assim que a nossa vida vai fazer caminho.
Quando cai a árvore e se atravessa morta no caminho, creio que deixamos de crescer. Deixamos de crescer e a suavidade, a calma, o amadurecer que se torna visível e palpável, não são mais do que o som das folhas secas dos nossos passos na linha paralela à árvore morta.

Não amadurecemos quando no meio do caminho as árvores tombam decepando o trilho por onde seria de esperar que avançássemos. Mudamos a direcção do caminhar. Agora o em frente é paralelo aos mortos.
Aprendemos depois a redefinir o caminhar. Alteramos o sentir, o sentido, da palavra como alteramos a bússola redesenhando o Norte, mas deixamos de crer que é ponto certo. Sabemos, lá nos confins da alma, que mentimos e que o nosso caminho foi cortado, que os passos que damos podem ser os de outro. Acreditamos às vezes que apesar de tudo prosseguimos e que o novo traçado no solo que pisamos nos vai levar à vida que afinal é uma, mas a cada passo mais ténue, a cada passo mais frágil, tropeçamos com a sombra do que está tombado.
Não amadurecemos ao lado das árvores que um dia quisemos ainda mais que à vida e que desataram a morrer no chão, matando o que em nos seria em frente.
Andamos ao lado.

A Gaffe da nobreza


A aristocracia é de uma estupidez e incultura total. Mas tem bons perfumes, as suas mulheres são muito bonitas e sabem rir no tom adequado. E isso é muito importante.

 António Lobo Antunes 

27.11.25

A Gaffe das papoilas


Gosto dos instantes em que há papoilas desgrenhadas pelo vento do voo dos insectos e das pequenas gotas de chuva, brevíssimas, que se desprendem dos caules e vão pousar na terra, lentamente, como se houvesse tempo para tudo.  

26.11.25

A Gaffe no centro de outro lado



A urgência que sinto de lonjura, de distanciamento mesclado com a mais diferente paisagem que agora existe em mim, obriga-me quase de modo inconsciente a anuir e a afundar-me nas ruas estreitas e nos canais de sombra de Veneza.

Somos imperceptivelmente alterados pelos lugares por onde passamos, nada em nós permanece igual ao que cuidávamos ser perene. Tentamos apenas agarrar o que vai ficando no dentro ovalado em cor.

Há lugares, assim como há palavras, que se forem omitidos nos rasgam a alma com a brutalidade dos monstros quando finalmente revelados e nos forçam a morrer e a matar no mesmo instante.

Vamos, porque sabemos que envelhecemos no meio de lugares e de palavras que não nos foram ditos. A nossa velhice é um cadáver adiado que, sem viagens, se torna visível e procria na tristeza. A consciência da nossa imobilidade arromba todas as portas e rompe arrolando todos os instantes.

25.11.25

A Gaffe no tempo à espera


 Não há esperas inúteis até ao momento em que as transformamos, mesmo sem saber, num vazio incómodo.

A espera continua a vida, mistura-se com ela até ser viva. Integra a nossa alma até ser pedaço dela, indivisível, inalienável. Não adia o tempo de viver, porque é já ele.

Gostava de me atravessar na porta por onde o tempo passa. Impedir que se escoe, que desapareça. Talvez então eu conseguisse fazer a morte parar, ficar à espera. Talvez então encontrasse um modo de entregar a alguém o tempo que é meu e de que mais me orgulho. As horas empapadas em que eu esperei. Esse tempo exacto. Esse intervalo nítido que finda no instante em que me levanto porque sento a minha espera desistir, abandonar-me a vida.

Nada como o fio ténue de uma espera para nos segurar ao lugar de onde partimos.

24.11.25

A Gaffe artesanal


Na mão dele havia o traço negro das gôndolas e um abandono, ao frio, de estandartes.

Na mão dela ficava o mapa do corpo que era o dele, reencontrado, e o lento arrasto da euforia dos trajectos.

Na mão dele havia um peregrino. Outrora as mãos peregrinavam e no encontro com as mãos dela ouviam-se rezas pagãs nas catedrais.

As mãos dele, divinas.

As mãos dela comédias, saltimbancos súbitos que assustavam prendendo pássaros aos dedos.

A mão dele agora no flanco dela, como o esboço morto de um poeta, deixou de ser tudo.

São mortas as baladas que ecoavam por entre os dedos brandos da mão dele.

Talvez a noite aquática das praças tenha desfeito o que ele entrançava na varanda dos seus dedos, ou talvez seja ela a ir-se embora.

Porque o fim do amor é artesanal.

 

21.11.25

A Gaffe irrequieta

 



I’m restless. Things are calling me away. My hair is being pulled by the stars again.

Anaïs Nin

20.11.25

A Gaffe imóvel


Fico parada no átrio gigantesco. É já manhã, mas esta luz ainda não tem sombra. Vem azular as coisas, recortar no espaço as silhuetas das árvores, dos anjos do lago, dos corrimões de pedra. Apontar os caminhos abrindo os labirintos de sebes e de arbustos. Introduzir os dedos nas frestas dos ramos escuros dos pinheiros mansos e deixar lâminas de prata nos degraus cinzentos que tenho de descer.

O frio chega em gotículas minúsculas. Pousa na pele e rebenta como bola de sabão. Espero quieta dentro da quietude e descubro o peso assombroso da paz que cheia de silêncio, oprime. A imobilidade de tudo o que é visto impregna a mais opressiva das serenidades, absorve a imensidão da casa e faz aluir a coragem que existe em enfrentar a luz que surge sem remorsos.

Espero sozinha no centro do maior sossego. No centro da mais aguda e dolorosa imutabilidade do tempo e a ausência de sons, a mais absurda inexistência de sons, aperta a minha espera, torna-a gotícula de frio na pele de bola sabão do meu sentir que preso fica nos fios do temor que cresce na manhã que chega lenta, a azular o dia.

19.11.25

A Gaffe no último tango


Quando se abrirem os currais do tango, espera pelo ganir da concertina. Não deixes de prender os olhos no brilho desta sombra. Se o fizeres e se fechares o olhar, apunhalo-te e mancharás de sangue o teu peitilho branco.

Fica-te bem o smoking deste tango.

Homem agora preso a mim, a começar.

Crava-me os dedos nos rins e aperta a palma da minha mão estendida. A tua boca a roçar a minha. O teu arfar enclausurado nos meus lábios. Escaldam os meus lábios. A minha perna abrasa por entre as tuas, abertas, a suportar doridas o inclinar do tronco que o teu curva. Podes lamber a gota de suor que desce no meu queixo e esperar a agonia do sussurro que perto de ti, no pavilhão da orelha, no pavilhão da casa, vou espetando no corpo dos violinos.

Este tango tem a história de um homem e de uma espera. Amou a amante morta num tempo que é já morto, marcado nas paredes com navalhas e no espaço que durava o amor, não respirou. Dançou sozinho um tango desgraçado.

Afasta a tua perna. Empurra os flancos contra a minha carne de modo a que eu te sinta. Rodopia seguro pelas garras que cravo nos teus ombros até sentires a dor que vem de mim, como o gemer do tango, a doer, por entre as tábuas.

Queria ser amado, o homem desse tango. Amado como amou num tempo morto em que sem respirar amou amando a amante que morreu e que não vinha dançar nas concertinas das paredes.

Faz-me gemer erguendo-me nos braços. Faz-me rodar presa na boca. Escolhe uma palavra que traga o escarlate do obsceno e prende-ma nos olhos e sorri de dor quando esmagar o peito contra o teu nas voltas que tu sabes controlar.

Quando beijou outra mulher tinha passado o tempo do homem desse tango que não danço.

Não morras já. Há mais suor em mim para te encharcar os braços e tenho mais saliva a arder e dentes para cerrar. Abre a boca, respira compassado. Há mais para dançar dentro de mim.

Quando beijou outra mulher, o homem que não dança, quis que ela fosse o amor que tinha à espera. Marcou-lhe o mesmo tempo. O tempo em que ela tinha de gravar um tempo nas paredes com navalhas impolutas como as dele. O mesmo tempo em que ele amou a morta até beijar aquele novo tango.

Se ela dançasse da mesma forma o mesmo tango mudo!

Se ela na espera erguesse esse silêncio entre o latir dos tacões nas tábuas do soalho e o chiar das cordas do violino!

Aperta-me. Faz-me doer. Esmaga-me no espaço em que o contrabaixo morde a minha saia e a minha perna que serpenteia a tua. Não morras já. Espera só que eu vire a minha cabeça para dentro do teu corpo. Há mais na tua mão colada à minha palma e nos meus rins vergados pelo teu braço.

A outra não o amou como ele queria e no tempo que ele tinha para lhe dar de espera, tangos diferentes cortaram-lhe o espaço e dentro desses tangos ela dançou com outros.

O tempo acaba. Podes morrer agora nos meus braços.

18.11.25

A Gaffe sem forças



Sento-me na cadeira de plástico. Ao meu lado uma velha branca platinada protege a carteira. Um miúdo esfrega-se no chão agarrado ao carro azul e verde, fazendo-o voltear com os ruídos de um avião ambicionado. Um homem examina-me com olhos esfaimados, de cachimbo na boca e trejeitos nas ancas. A rapariga passa de saia travada, verde. Verde como maçãs. Maças redondas a saltar da blusa. Verde ela também, a blusa e a menina verde bandeira. O telemóvel do homem aos gritinhos. 

Passarinhos a saltar, as asinhas a bater piu-piu-piu-piu.

O gongo da espera. As persianas negras do quadro que eu olho, minuto a minuto.
As gentes soltam-se quando as portas deslizam. Arrastam malas feias, atadas a trelas rígidas, com rodinhas irritantes que me riscam os nervos. Trazem os olhos das chegadas presunçosas. Atiram o olhar aos que as esperam e nesse arremesso há a maldadezinha de saber que viram no estrangeiro aquilo que os que ficaram só sabem das revistas.
Há demasiado tempo que espero. Sou impaciente. Levanto-me e procuro colar-me as barras de metal. Estou cansada e quero-me ir embora. Daqui parto para o Douro com a nunca esperada permissão de o levar comigo.

(A noite madrugou numa toalha de sardinheiras derramadas.
Encosto o corpo às pedras. A casa é fria e branca de fantasma.
Se eu tivesse mãos e olhos transparentes. Se eu tivesse um barco a resvalar na terra ou uma trepadeira de maresia e espuma.)
Se eu tivesse força.

- Venha, menina, ele já chegou.

Vou. Desço a minha vida.

A madrugada ergueu-se de dentro do meu sono e dentro dos meus braços há cansaço.
Reconheço a minha frágil capacidade de olhar para a Vida sem os olhos de alguém maior do que eu para velar o que vejo. Reconheço que sou indigente. Uma mendiga dos outros.

A porta divide-se ao meio. Afasta as guelras.
Vejo-o ao longe e esse instante estanca o Universo todo, como se ele chegasse em gala principesca. Nada mais se move a não ser ele e por entre as gentes que petrificaram, caminha a mansidão de uns olhos de paisagens retiradas dos rios, mas com faíscas de fúria e crueldade; o escuro das pestanas de praças sombreadas; o sorriso meigo, meigo, meigo, meigo; os abismos da alma que surgem subitamente e subitamente aos nossos pés se abrem e nos dão a sensação angustiante de queda e perdição e o estupendo bater de um coração que é meu.

Há gôndolas e palácios, mas o escuro afunda os alicerces.

17.11.25

A Gaffe num retorno


O Tempo inclina-se. Descubro que o Tempo retorna à terra retomando os nossos gestos a uma luz que no amanhecer se espalha sobre as pedras e nesta cor de um sossego em lume. Tudo parece calmo e previsível, porque é contínuo. Os passos que pararam recomeçam e tudo existe a retomar o rumo, como se a vida numa sombra, na planura dos sentidos, recomeçasse no ponto em que tudo se quedou.

1.3.25

A Gaffe numa canseira


28.2.25

A Gaffe em obras

A imagem do blogue que uso é absolutamente esgotante. Suspeito que já nem existe no rol do exíguo bom gosto adolescente. Há que descobrir imagem mais madura, mesmo que isso signifique que envelheci.
A verdade é que uma rapariga arejada se sente um bocadinho apertada neste desenho antigo. Deveria actualizar estas Avenidas, abrindo-as à modernidade, qual Napoleão, qual Pombal, qual governo português em remodelação.

Tenho, contudo, de confessar que quase sofri um AVC quando decidi costumizar estes passeios. Acertar com as riscas e com a escolha do fundo e com as medidas do cabeçalho, foi um trabalho descomunal que me fez sair daqui a parecer a protagonista do Exorcista nos seus momentos mais esverdeados. Acabei por me contentar com o aspecto que tem, mas confesso que sinto as portas a bater sempre que respiro.

Vivo neste blogue como num T0. Levanto uma perna e abro uma janela, espirro e soltam-se as sanefas, afasto as cortinas e desaba o fogareiro - sou uma rapariga campestre -, estico os braços e tomba a caixilharia da marquise, bato as pestanas com mais força e escaco a louça do WC.

Uma maçada. Não se apanha sol e fica-se com sardas assanhadas mesmo assim.

Não entendo rigorosamente nada da personalização avançada que nesta plataforma é um foguetão e o mais próximo que estive do CSS foi durante os episódios do CSI Las Vegas que suspeito não terem nada a ver com este assunto, apesar de não me importar nada de ser costumizada por Gary Dourdan.

Vou às apalpadelas, embora de olhinhos mais ou menos abertos.

Não sou apologista do tuning, mas às vezes apetece-me muito olhar e ver uma macacada infinita pendurada aqui. Receio ter dentro uma miúda pronta a fazer saltar os faróis, a desatar o colorido do para-choques, a sobrecarregar os laterais com desordenados slogans, a iluminar o tejadilho e a enfiar apetrechos aerodinâmicos no carburador, tudo ao som de uma batida bem sonora e bem pedrada.

Depois controlo-me. Lembro-me que, na única vez que fumei um charro, senti que a todo o momento me iam saltar os olhos e rebentar as maminhas. Não foi uma experiência agradável e dei comigo com a cabeça, enfiada no lavatório, a levar com jactos de água como se fossem meteoritos. Deixo, portanto, os charros para os profissionais e interrompo estes passeios até os calcetar de novo.

Até perceber o que me aconteceu e em que medida é que me tornei caquética, fico-me por aqui, sentadita no meu calhambeque a ver passar os bólides.

6.2.25

A Gaffe "trolhadeira"


A Gaffe abre uma página web e apanha com uma janela noticiosa que a avisa que há um rapazinho que mais uma vez entrou em coma.
Esta rapariga distraída não sabia que o homem tinha entrado antes.

Deve avisar que nunca no seu despido quotidiano viu o petiz. A Gaffe não sabe quem é. Não faz ideia se canta ou se tosse, se dança ou se baila, mas não faz questão nenhuma em saber a que se dedica o comatoso.

Então, pergunta-se com parcimónia, esta rapariga está aqui a referir o rapazinho, porquê?!

Há duas grandes razões.
A primeira é porque lhe apetece.
A segunda é mais simples: o rapazinho tem cara de atenuado cerebral estereotipado - o termo aplicado não é dos mais elaborados, mas é mais ilustrativo do que imbecil.
Então, ronhosa como é, a Gaffe procura mais cavacos para a fogueira – não serve o genro de Cavaco Silva pois que já está queimado. A Gaffe tem de tirar a coisa a limpo. Não pode deixar de ver se se confirma a sua primeira impressão. Lá andou ela a espreitar o homem pela net fora.

Mas que trolhadeira é aquela?!

Temos um jogador de futebol que fez quarenta aninhos, mas que continua o melhor do mundo, embora pense que Kant é uma penalização em campo - Nã fô fôra de jogue, fô cante; temos apitos e as pitas rasteiras com mamas de silicone do tamanho de melões de Almeirim pousados nas bancas para quem quiser ver se estão maduros, enfiadas nos globos de ouro; temos o caso do Sr. Marquês que vai perder brasões não tarda nada; temos ainda em órbita o presidente mais trauliteiro do sistema solar e almirantes a emergir sem pé, mas com muletas; temos uma cientista que inventou um transístor de papel - não, ninguém com imensos estudos quer saber o que é - e que assumiu um papel miserável no governo; temos concursos com a Catarina Furtado a fazer aos concorrentes o que o Nuno Baltasar lhe faz a ela quando lhe aperta os vestidos; temos um deputado a depositar nos gabinetes da Assembleia da República as alheias bagagens vinted dos aeroportos; temos vereadores a engatar putos e a afirmar a pés juntos - se os desunisse, tombava, porque dir-se-ia pedrado - que a Lei é demasiado exigente em relação à idade de quem vende por vinte euros o que não nasceu virado para a lua; temos despedimentos de colaboradoras de partidos que se exibem defensores dos trabalhadores; temos tanta gente a desatar a fugir do país por todo o lado que o primeiro-ministro perde a saúde e o SNS, tentando esconder a calvície do governo dos que ainda vão ficando; temos a hipótese de, depois da demissão dos chefes de serviço, directores e administrações, alargar o encerramento - das urgência - a todo o Hospital; temos vontade de oferecer um pavilhão multiuso ao Mundial de Futebol, criando ao mesmo tempo através do PRR uns SPA com fisioterapia incorporada para desfrute da nossa Selecção.

Não podemos fechar a Assembleia da República e oferecer os nossos políticos aos crocodilos do Nilo, mas temos isto tudo e muito, mas muito mais. Temos até o rapaz com cara de grunho - confirma-se - e músculos que resplandecem cheios de solário e de testosterona, vestido de índio patacha-turupi-tupinangá a puxar a tanga para baixo para mostrar às fãs que tem tudo rapadinho e que comas é com ele.

A trolhadeirice elevada a estrela.
Somos um País de alto contraste e pleno de diversidade.

Ah, que gande país que somos! qu'a gande e cagande.

27.1.25

A Gaffe sempre a tempo


Ausenta-se uma rapariga por um tempo considerável e quando regressa encontra a desolação de não ter desejado um ano novo feliz a tudo o que mexe.
A Gaffe lamenta ter de o fazer com longos dias de atrasos oportunistas, dificultando a vida aos seus inocentes e bem intencionados visitantes.
Não é ocorência que a incomode ou lhe tire o sono. É tudo uma questão de rodeo. Basta lançar-se na arena e dominar os touros do blogue. A Gaffe está bastante treinada a fazer o mesmo com os homens que se parecem com spam e que invadem a vida com referências a matérias que só inclinam o dedo para a tecla que os apaga.
Que 2025 não nos obrigue a tocar muito no delete