31.7.23

A Gaffe assim-assim


A Gaffe ficou a tomar conta da casota de uma amiga.

Rega plantas, recolhe o correio e trata do peixe preto com olhos esbugalhados que tem passado os últimos dois dias, muito quieto, a boiar e com fastio. Deve ser do calor. Como não há muito que fazer e o casarão - que não fica perto -, está ao dispor, trazendo apenso o faz o que bem entenderes, a Gaffe decidiu pernoitar no buraquinho e usar o exército de cremes que a amiga recrutou para cuidar da beleza.

Uma máscara facial esverdeada que lhe calcificou as pálpebras e um banhinho de espuma relaxante com óleos miraculosos. A Gaffe suspeita que atirou uma quantidade exagerada para a banheira, porque o rabo escorregava sempre que se mexia e viu-se grega para se levantar sem deslizar e dar um tombo. Depois disto, comeu esparguete à la carbonara que comprou na esquina - nunca comprem nada nas esquinas. Tem sempre um péssimo gosto -, e decidiu ver um desfile de moda na televisão.


Deu consigo então a pensar que deve ser maçador ser-se considerada bonita por uma multidão de gente.
Estas coisas são infernais, mas mais importantes do que se pode pensar, sobretudo quando falamos no feminino. Os homens arranjam, apesar de tudo, quase sempre escapatória.

Estas coisas são infernais, mas mais importantes do que se pode pensar.

Ora vejamos exemplos concretos, ultrapassados, para não ferir o respeito que devemos ao presente. Podemos escolher Carla Bruni como exemplar mais favorecido e a Gaffe deixa livre a escolha da representante do lado menos apadrinhado pela beleza. Há um leque vastíssimo de potenciais candidatas e basta que se dê um varridela no cá dentro para encontrar a eleita.

O facto não se possuir uma beleza paparazziável, permite uma data de caricaturas desgraçadas que muitas vezes se baseiam nesse dado. É facílimo aborrecer a nossa eleita menos atraente - mesmo que não exista razão para isso -, porque não marcha como Carla Bruni. A infeliz escolhida por não contribuir para o deleite dos sentidos é arrasada também por isso. Somos implacáveis. Disfarçamos e arranjamos meia dúzia de outras razões - válidas, a Gaffe até pode concordar - para a massacrar, mas a verdade é que também lhe batemos, mesmo inconscientemente, porque não é Vénus a sair da espuma dos dias.


Um estudo sério, feito há uns anos numa universidade americana, revelou que os seus estudantes de direito atribuíam penas severas a moçoilos normais, que vemos a torto e a direito passar na rua, e atenuavam de forma escandalosa as penas que imputavam a manequins escolhidinhos a dedo. O crime era o mesmo.
À beleza é permitido uma série de asneiras. Estamos programados para perdoar mais depressa a uma criatura que obedece aos padrões de beleza vigentes - a Gaffe andava mortinha por dizer isto - e somos muito mais rigorosos e exigentes perante os trambolhos que cruzam as nossas vidinhas.

A verdade é que se perdoa muita incorrecção àquelas que tiveram a sorte ou o azar de nascer com a lua virada para o rabinho. O luar a banhar o dito é sempre considerado muito gracioso.

Claro que há desvantagens em se ser bonita. Lembremo-nos do episódio da Bruni a trepar pelas escadas do avião carcomida pelo medo do tiro que se ouviu no aeroporto. Se tivesse acontecido à sua antítese não exigíamos que a senhora desatasse a fugir aos saltinhos, toda elegante, a trocar os pés e a cruzar as pernas em X, como a Bruni fez. Bem podia descambar, largar as sabrinas no ar e até ir de gatas com a carteirinha nos dentes. Ninguém se espantava. Aquilo a que os especialistas chamam expectativa comportamental é muito mais elevada nas que são consideradas bonitas. Atinge-as com mais força e de forma imediata. Se resvalam, perdem o cheirinho a deusa de que tanto gostamos e fazem com que nos tornemos mauzinhos. Vingamo-nos da nossa condição de mais-ou-menos e não descansamos enquanto não esgotamos as imagens do deslize. Depois, temos a tendência para pensar que a beleza tem de provar que é mais do que apenas isso e é tão fácil, perante a primeira falha mais banal, vomitar o eu não te disse?

A tão falada expectativa comportamental está contra elas e com a fasquia elevada.

Comportamo-nos como maioria que somos. Nem bonitos, nem feios, mais assim-assim, e tratamos os outros, os realmente bonitos e os verdadeiramente feios, como a minoria que são.


A Gaffe propõe para finalizar que se lute mais uma vez pelas minorias criando os dias:

Internacional da Brasa

Internacional do Trambolho


Agora, enquanto pensam no assunto, a Gaffe vai tirar da cara a porcaria verde regeneradora da cútis que não conseguiu arrancar por completo ontem à noite.

29.7.23

A Gaffe de Clark Kent


Não há nada de errado com o Super-Homem, mas uma rapariga esperta sabe que a imagem depurada de Clark Kent é muitíssimo mais agradável do que a reveladora Lycra do super-herói.


Ter poderes desmesurados não significa de todo ter garantida a sedução.


São os homens mais comuns aqueles que revelam resistir a kryptonites e que, quando se rasgam, ficam realmente nus e não de cuecas vermelhas vestidas por cima de um fato de mergulho inibidor de qualquer excitação.


Lois Lane sempre foi uma menina pateta.

28.7.23

A Gaffe anónima


Estava eu muito descansadinha a mordiscar o meu croissant da manhã quando uma rapariga esperta que outrora trabalhava comigo, de quem sou muito amiga e que me pediu para manter o anonimato logo que lhe disse que ia esbardalhar tudo aqui - ai! não digas que sou eu. Parece que fico nua! -, me confidenciou que não andava nada, mas mesmo nada, virada para o sexo

Fiquei intrigada. Então a mulher tinha alguma vez andado virada para ali?! Se sim, compreendia-se as dores no pescoço que diz que a atormentam.

- Francamente! Eu quero dizer que não ando com disposição para ter sexo todos os dias. É só.

Ainda mais intrigada fiquei. Então a rapariga tem tido sexo todos, repito, TODOS os dias?! Mas isso é possível sem a gente ficar com umas olheiras sinistras e com uma canseira descomunal?

- Às vezes, são três...
- Três?!
- Três da manhã e o homem não larga! Mas também serve para referir o que pensaste. Juro-te que já ando fartinha. Às vezes só me apetece tomar um banhinho e adormecer descansadinha. Ainda por cima não tenho coragem para lhe dizer que só tive orgasmos nestes meses todos com muito esforço meu.

- Devias.
- Devia o quê?
- Dizer-lhe. Se voltas a confidenciar-me coisas dessas, digo-lhe eu.
- E fazias-me esse favor?
- Não! ‘tás parva?!
- Não custou nada tentar.
- Devias procurar chegar a um consenso. Fazias sexo às segundas, quartas e sextas e ele às terças e quintas e sábados. Ao domingo faziam os dois.
- Olha! Não é má ideia. Achas que ele vai nessa treta?
- Se for inteligente, vai ficar muito espantado contigo e com a tua proposta e tu ficas logo livre dele.
- Enfim, não é totó de todo, mas também não é nada brilhante.
- Então vai aceitar.
- Sabes que mais? Ainda um dia te enfio o sarcasmo pela garganta abaixo.


Porquê? Pergunto eu. Então não é uma proposta a considerar? Um homem que faz sexo TODOS os dias, várias vezes ao dia, e que ainda não percebeu que a pobre da mulher só teve orgasmos com esforço próprio, não merece que o tratem como gente.

A Gaffe agulha


De acordo com alguns peritos na matéria, uma criança nasce com todas as potencialidades de se tornar matemático, arquitecto, músico, pintor, bailarino, físico atómico, escultor, escritor, investigador e toda a panóplia de variantes que quisemos, porque o cérebro contém todas as sinapses certas que favorecem todas as hipóteses. São os primeiros dias de vida que as vão destruindo, restando na maioria dos casos uma normalidade acabrunhante. A teoria sucumbiu rapidamente, embora reconheça que aplicada a mim tem algum fundamento, tendo em conta que o meu desenho, já de adulta, de um cão, foi encaixilhado pelo meu pai que achou maravilhoso ter retratado o extraterrestre que um dos provadores do vinho novo tinha avistado depois de ter permanecido demasiado tempo perto do lagar a fermentar. As ligações que me permitiriam aceder ao universo da expressão gráfica foram decepadas algures na minha mais tenra meninice.

As sinapses que ajudam uma mulher a usar tacões agulha como se tivesse com eles nascido, é uma das primeiras a partir. São raríssimas as que sobrevivem à adolescência titubeante e de plataforma de cortiça com tiras enroladas aos tornozelos e, na morte, levam consigo a consciência do deprimente que é parecer que sofremos de gravíssimos problemas ortopédicos ou de dolorosos achaques reumatismais quando nos atrevemos a dar um salto maior que a perna.
Os tacões, sobretudo os agulha, os que não suportam o suporte da cunha compensadora, devem ser usados apenas por mulheres que parecem ter sempre caminhado em bicos de pés, que são sempre uma prima ballerina assoluta eternamente pronta para iluminar o Lago dos Cisnes e que sabe que os gémeos - os músculos da barriguinha da perna e não os parvos dos Guedes -, não vão, jamais, sugerir que necessitam de soutien.

Uma das mais eficazes provas da elegância genética de uma mulher é a naturalidade com que usa tacões agulha.
Se o Everest parecer que foi encastrado invertido na base dos seus calcanhares e que a montanha chega sempre perfeita a qualquer Maomet, então a mulher conservou todas as sinapses que permitem escalar o que quer que seja, mesmo que a temperatura não lhe permita um decote Chanel vertiginoso.

É evidente que, perdidas estas ligações, uma mulher pode, mesmo assim, ousar encavalitar-se.
Com uma sorte extraordinária, um treino intensivo e aulas no Chapitô, pode eventualmente chegar a ficar apta, se existirem factores muito palpáveis, a parecer um belo rapagão em desequilíbrio.

O povo diz que os olhos também comem e, mesmo quando a carne é mal apresentada, somos mais benevolentes quando há bons legumes.

A Gaffe em silêncio


A hora em que não ouço este meu porto.

Próxima do alvorecer, a hora do deserto interrompe as terras e passa como um vadio com o silêncio nos bolsos. Nessa hora, o rio não tem queixume e dele apenas sinto as mudas ondulações do desbotado ondular. É a hora das palavras por dizer. Chegam nos bolsos do vadio que passa, junto aos silêncios, e ficam presas nos frouxos candeeiros como frutos ou pedaços de gente bêbada, escura, que adormece.

Invento o meu ruído nessa hora. O que me faz ouvir o que nas outras horas emudece. Abro a porta da varanda e debruço-me nos bolsos dos vadios, dos que usam o silêncio como frutos ou travos de gente pendurada nos vagos candeeiros, e deixo que as palavras sigam deslumbradas como se tivessem nascido há pouco tempo e pasmadas se infiltrassem nos rochedos.

A minha hora muda é o silêncio dentro dos vadios e uma mulher com cabelos soltos, nua, a flutuar no rio.

27.7.23

A Gaffe da mulherzinha


Há tempos que já lá vão, em blogue que já lá vai esquecido, recebi um recado de uma mulher banal que, numa entrada de mamute, se reportava à alegada homossexualidade do meu irmão. Nada de importante, quer para ele, quer para quem o rodeia, mesmo que a alusão espelhasse uma verdade, o que não é o caso.

A mulher era, fazia crer com insistência e bandeiras desfraldadas, uma inflamada defensora dos direitos de tudo o que se mexe - incluindo o sistema neurológico das plantas -, uma abnegada e inabalável paladina das diferenças, uma quixotesca matrona imbecil de utopias parolas, uma cuetisa de pechisbeque capaz de urdir trivialidades usando as rimas que encontrava em saldo.

O facto de me ter considerado uma infeliz que até tem um irmão gay, é extraordinário.

Habituamo-nos a espreitar pelo buraco das fechaduras precárias das redes sociais. Viciamo-nos nesse nauseabundo encharcar de pretensa vida alheia, acreditamos que detemos o poder medíocre - como todo o poder que é ilusório -, facultado pelo falseado conhecimento do que ao outro pertence, indignamo-nos quando nos falha a mesquinhice filtrada por likes, por twitters, ou por instagrams, e ficamos esfaimados, salivamos e esfregamos o rabo com as patas de trás, quando suspeitamos que de tudo sabemos, posto que é tudo o que ali está.

Somos patéticos consumidores de ilusionismos. Somos, em simultâneo, artistas de um circo onde a arena é o vácuo e o próprio piso onde periclitamos. De tal me convenci, mas estou ainda em processo de adaptação.

O desejado insulto da lamentável e iludida mulherzinha, que alia infelicidade a uma eventual ligação familiar com um homossexual, revela não só a sua incapacidade de discernir o que consubstancia as mais evidentes e as mais lógicas premissas que originam as mais simples e as mais comuns das felicidades, mas também nos dá como provado que se tentamos espreitar o que não se pode ver - valha-nos Saint-Exupéry -, acreditando que o intuído no circo é atestado de certezas e portanto passível de ser arremessado como uma pedra, denunciamos demasiadas vezes pedaços alarves da nossa verdadeira índole, deixando que os visados pela nossa torpe espreitadela olhem a descoberto o que queremos a todo o custo filtrar com cor-de-rosa.

Neste amontoado de blogues, por mais estranho que possa parecer, revelamo-nos naquilo em que acreditamos, somos o que espreitamos sem ninguém saber e somos sobretudo os ossitos que arremessamos à vida dos outros e que judiciamos ter recolhido durante as incursões que fazemos ao nada que vemos.

Somos como o emplastro. Espreitamo-nos, mas não nos vemos. Espreitamos e somos vistos. 

 

Tetsu

A mulherzinha é minúscula e usa casacos de malhinha e saias de fazenda grossa e bugigangas nos dedos. Tem medalhinhas presas na lapela e brincos de pérolas falsas agarrados as orelhinhas pontiagudas.

Reza muito.

Tem olhinhos maldosos e insignificantes que se espetam nas costas de quem passa como alfinetes-de-ama, de dama da rua, e sorrisos mesquinhos e sinuosos de velha cínica ou de mentirosa. Tem mãos papudas, mas os nós dos dedos parecem berlindes. Os gatafunhos das rugas são traidores e mentem nos rabiscos que parecem mansos.

A mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, é uma assassina. A sua alma foi a vítima mais tenra quando a apanhou numa curva mole da mama descaída.

A mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina,  odeia. Desde o primeiro instante em que nos vê. Desde o primeiro segundo. Baba-nos as mãos com sorrisos castos e lambe-nos os dedos com línguas de doçura, mas rói no escuro do palato as nossas vidas salivadas de rancor.

A mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, crava as gengivas nos tornozelos daqueles que, incautos, se atravessam nos caminhos podres que são dela e que ela defende rosnando mel envenenado.

A mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, espera chegar ao céu, inventado pelo marido que lhe fugiu, através de sacras estampas que cospe nas mãos dos que por ela passam. Oferece-nos santinhos para se proteger das tentações.

A mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, usa nos dias de chuva um tacho  na cabeça e vai gritar para a rua Heil Hitler!, sempre que soam umas botas de macho no pavimento da sala-de-estar-na-vida-sem-nada e só porque o homem que ressonava com ela na cama era a sombra do cadáver do ditador e marchava ao som das gaitas dos peitos de galinhas.

A mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, rouba-nos - mimética, copiona, imitadeira. Reclama pela calada da imagem, faz queixinha rancorosa e por isso fácil de se revelar perlo ranger dos dentes no silêncio, lamuriando-se depois, também ela pretensa vítima de crime, mas diz que aceita o fado pois que é abnenegada e vem da terra dura.

Há sempre chuva nos dias desta mulherzinha.

A moral da mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, é um quadro de revista e tem coxas flácidas. Tem mamas grandes onde se esconde a caspa da indignação de cinta elástica que amarfanha as banhas das ideais.

A moral da mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, que nos dá um santinho para nos proteger de toda a tentação, é uma gorda e empanturrada perua. Vai à cabeleireira e pede-lhe que lhe cuide das unhas com que rasga as costas ao sonhado amante, milhões de anos mais novo. Suplica que lhe contem novidades acerca da outra que na noite anterior se partiu contra um camião. Só para ter pena.

A moral da mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, velha macaquinha arrepiada, franze as sobrancelhas depiladas e torce o nariz com mil cuidados - o estuque na cara! - quando fala do mundo. Viúva da sua vida a tomar chá com morcegos e a olhar para nós, provocando-nos o vómito.

O rabo da moral da mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, que nos oferece santinhos, não sabe sequer onde desaba, que não vale sequer as pedras e os bancos onde tomba, mas que é sagrado e meticulosamente tapado, porque não sabe que os Nus são os raros e a Nudez é o lugar onde violentos nos amarfanhamos, fazemos amor e adormecemos.

A mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, pactuou com a morte e enquanto o tempo passa, faz o trabalho dela, no interior das vidas.

A morte enojada assiste.

A mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, não sabe, nem sonha, como se consegue matar e lacrar o que é medíocre e deixar depois que as reais linhagens de honras e de armas empunhem a bandeira desse abate.  


A Gaffe nas escadas


Se eu sair à rua, dá-me os momentos em que as escadas estiveram dentro de mim. Os instantes em que as desci, dentro, e à porta havia o teu rosto iluminado, como um candeeiro antigo a desenhar um círculo branco no chão, e a rua era o passeio onde um homem passava com um cão atrás e uma mulher sentada a vê-los. Dá-me depois o teu rosto que é o candeeiro e deixa-me ficar encostada a ti, como se fosse tarde e houvesse hora para ficar ali, encostada a ti, à espera.

Não me faças subir de novo para mim.

Aqui é triste. É escuro.

26.7.23

A Gaffe blasfema

B. Yoshii

Ao contrário do apartamento da minha irmã, isento de qualquer tipo de memória, aqui todos os objectos são seleccionados pela carga emocional que transportam.

Gosto especialmente da cigarreira antiga de prata com um medalhão romântico na tampa onde deveria estar gravado o monograma do dono.
É um objecto lindíssimo, pousado na mesa, sozinho.
Quando o toquei pela primeira vez senti o sobressalto da minha irmã, mas não o entendi.

- Pousa-a.
Não pousei.

A minha irmã levantou-se, abriu uma gaveta e cravou-me nos olhos uma fotografia envelhecida.
Na mão direita do homem fotografado brilhava a cigarreira de prata antiga com um medalhão romântico na tampa.
Então entendi que naquela caixa sem monograma e sem dono agora, a morte também tinha deixado as impressões.

As casas também guardam os seus intocáveis e há objectos que quando ficam sem dono se tornam os donos da gente que fica.

A Gaffe com visitas

Josephine Standford

Chegou ontem ao fim do dia a melhor amiga da minha irmã.

Deparo-me a observar com minúcia as duas mulheres e percebo que o abrandamento dos gestos da anfitriã é propositado. Mistura-os com o silêncio cúmplice que se imiscuiu entre as duas e fá-los pesar sobre os outros.

São dois animais atentos. Vigiam-nos através desta espécie de mutismo claramente controlado pela minha irmã que domina a relação. Basta a lentidão do movimento com que enrola nos dedos as fiadas de pérolas que contrastam como um insulto com o azul-cobalto do vestido, ou o modo como aceita que a visita lhe abrase o cigarro como se aceitasse uma oferta pagã, para que se perceba o jugo.
Há uma decadência subtil imersa em luxo que me fascina e me neutraliza, como se na minha frente um inviolável mistério me confrontasse com a nudez quase agressiva mas impossível de decifrar das duas mulheres.
Uma nudez coberta de gestos lentos e de cigarros iluminados. Uma nudez esguia e loira que se move nas torções de um colar de pérolas com que estrangula a mutabilidade das cumplicidades.
Uma outra nudez que traz toda a Renascença nos cabelos. Andamos de gôndola branca sob colchas escarlate das varandas sempre que nos olha agudizando a densidade da beleza com a eterna suspeita de incesto a pairar sobre ela.

Chegou ontem ao fim do dia a melhor amiga da minha irmã.

Exilada em Florença, branca, gelo branco, recolhe as mais dolorosas rosas das mãos dos homens morenos que despreza enquanto na cama antiga de lençóis com rendas o esguio e pálido irmão, nu, longe adormece.

Há segredos pousados no pescoço dos deuses que fazem da vida um perfeito romance.

25.7.23

A Gaffe mui caliente


Nós, raparigas espertas, sabemos que vós, rapazes marotos, meninos do Rio, calores que provocam arrepios, aumentaram já a carga horária dispensada ao ginásio e que suam desmesuradamente para corrigir os pecados do Inverno e acelerar a definição dos abdominais.

Antecipamo-nos e damos uma ajudinha preciosa para que não destruam por completo o esforço dispendido.

Recusem liminarmente aquelas coisas tenebrosas, atadas à cinta por um fio de algodão, espampanantemente estampadas - motivos florais gigantescos, papagaios coloridíssimos, riscas assimétricas fluorescentes, NY fora de horas ou um luminoso paraíso tropical -, que vos tocam os tornozelos e vos deixam estranhamente bronzeados. Pertencem aos petizes, ultrapassados pelas ondas da actualidade veraneante.

Sejam homenzinhos. Sejam nobres.

Assumam a vossa perdida libido e façam-nos pasmar com as sempre insinuantes propostas de D&G ou com uma das sugestões bastante retrossexuais de Louis Vuitton.


Sejam másculos, sejam machos, sejam sedutores. Passem num doce balanço a caminho do mar, com abdominais definidos com empenho e, mesmo depilados, ousem enfrentar as ondas dos nossos olhares com a magnitude de um corpo aberto no espaço, de um coração de eterno flirt, que na nossa tensão flutuante, o nosso desejo será tudo o que sonhardes.

No caso de subsistirem dúvidas, e desapertando o primeiro botão da vida e o cordão dos calções, sejam escaldantemente retro.

Tim Lambert

A temperatura é implacável e os nossos heróis precisam de ajuda para escolher os calções que mais nos atraem e que podem desfilar perante o olhar atento das restantes raparigas sem as fazer girar os olhos de monotonia e de enfado.

Neste Verão, rapazes, procurem ser homens. Esqueçam as ceroulas largas e coloridas que se atrevem, cortadas pelos tornozelos, a esbanjar uma cansativa e exausta e estafada imagem de surfista incompetente, de havaiano deslocado, e assumam o charme indiscreto de uma burguesia deliciosa e máscula. Esqueçam os reveladores calções minúsculos que nos fazem adivinhar toda a vossa vida sexual e desejar nunca nos termos cruzado com tamanhas limitações.

Os calções são peças tão importantes como o mais distinto fato de cerimónia. Nunca se enfie na areia como lhe apetece, nunca chegue ao mergulho como lhe aprouver, nunca apareça como se sentir mais à vontade. Venha sempre melhor!


 A praia, o mar, o calor e a areia não o ilibam. Os calções são o primeiro indício do bom gosto e da elegância, e jamais revelarão, se escolhidos erradamente, a capacidade de quem os usa de, após o sal o sol e o bronzeador, nos deslumbrar irremediavelmente.

Sejam comedidos e escolham os de medida certa.

Caso tenham o allure de aventureiro másculo e maduro, caso aguentem ser um flaneur agreste, com aroma a perigo e a vertigem, caso possuam a estrutura salgada de um indiferente e sensual vadio de romance e nó de marinheiro, caso resistam a uma imagem de vagabundo distante ao que é mais medíocre no pensar de alheios bronzes, então, rapazes, mostrem-nos como se faz uma canoa com linhos e padrões de seda pura e murmurem-nos ao ouvido o som dos búzios.

Se for de todo impossível cumprir as exigência da praxe e da Gaffe, é bem melhor chegarem nus. Sempre se poupa na renda. 

A Gaffe a cavalo


Paul Freeman
 
Despedi-me ontem de manhã muito cedo do rapagão.

Partiu para Manaus numa visita que demorará três semanas que lhe proporcionarão um mais aprofundado conhecimento não sei exactamente do quê, mas que me pareceu entusiasmante, pelo nervosinho demonstrado pelo homenzarrão.
Tendo em conta que chegar a Manaus, partir depois para o Parque Nacional de Jau e passado algum tempo seguir para o Parque Nacional da Neblina, lhe arranca mais do que oito dias de viagens, o homem não vai ter grande tempo para andar atrás do gado, embora - pelo sim, pelo não -, o tenha ameaçado com todas as sevícias que encontrei - as desviantes e anómalas que consegui descobrir em Sade -, caso o rapagão ceda ao fascínio das vacas que por lá mugem e se ponha a cavalgar em lombo alheio.

Insistiu muito na minha companhia, mas só a perspectiva de me ver a evaporar ou coberta de lume tropical; no meio de caminhos repletos de bichos estranhos e rastejantes que nos picam imenso e têm dentes maiores que a cabeça; envenenada por uma serpente ou ali morta por um jacaré – que nem sequer é Lacoste; aos solavancos por trilhos estreitos, cheios de ervas do tamanho de embondeiros; com as mamocas a desintegrar-se com o calor e sem poder voltar para casa no primeiro avião que aterrar na selva, foi desmotivadora. Não quis ir.

Suspeito que foi apenas para se vingar do meu abandono que, pronto para subir para a sela do avião e rumar ao pôr-do-sol Amazónico, me disse com um ar muito descontraído, como quem não liga à coisa, que quer visitar a região onde os homens tratam das manadas de gado - bichos de grande porte, quase mamutes -, completamente nus ou apenas com uma tira de tecido a embrulhar - mal - as zonas mais expostas às crinas dos cavalos.

Fiquei perplexa.
Espero sinceramente que o homem não tente a façanha, porque com o galope do cavalo e a piloca a dar-a-dar ainda volta para casa com o nariz partido.
O certo é que o rapagão é de uma lisura, de um rigor e de uma correcção exasperantes quando se trata da verdade, mas a nudez daqueles cowboys deixou-me confundida.

Então há um recanto neste planeta onde os tipos andam todos suados, todos musculados, todos morenos, todos tisnados, todos másculos, todo, todos, todos, todos a abarrotar de adrenalina e de testosterona, atrás das vacas, de pila ao léu, a dar-a-dar no cavalo?! Nunca tinha ouvido, lido ou sido informada acerca o assunto!

Não acredito.

Mentiroso!

A verdade é que me arrependi, logo ali, mal o maldito levantou voo, de não ter ido com ele.

Alguém sabe onde fica esta porcaria?

É que uma rapariga como deve ser tem o dever de acompanhar o seu homem, dê por onde der e seja para onde for, e sobretudo tem a obrigação moral de impor alguns princípios civilizacionais à barbárie e de vistoriar a fardamenta dos profissionais em nome da segurança e da alegria no trabalho.

Nota de rodapé
- A minha irmã afirma que o rapagão provavelmente se referia aos índios - que também só vivem de subsídios, diz o Chega -, e que só lhe apetece dar-me com uma coisa nos dentes por eu ser tão crédula. Assim se mata uma ilusão.

24.7.23

A Gaffe "apalonçada"


O palonço é um tipo de homem que facilmente encontramos na praia, ao Deus dará, de speedo e de speed pela areia fora, óculos espelhados e músculos em fase de construção - um work in progress infindável, - posando para as garinas que pasmam quando ele passa a caminho do mar convencido que tritões como ele, inconformados, revoltos e rebeldes, são o mais profundo desejo das sereias da polícia.

É por norma o bronze de eleição, a medalha dos que ficam sempre atrás dos campeões, mas acredita no karma e desconfia que foi tramado pelos pecadilhos marotos que comete, ou sonha cometer, sempre que por ele passa no seu balançado que é mais que um poema a garota mais linda que vem e que passa e o enche de graça a caminho do mar.


palonços magrinhos, enfezados, mas não sabem cantar e permanecem colados às toalhas de praia, em poses artísticas que procuram dar ênfase ao que apertado pelos calções se torna óbvio sem nos preencher sequer um soslaio de olhar, mas desses, a história é tão parca como o que guardam para nos dizer ou declamar.

Comum aos dois é o cruzar dos braços frente ao mar e o lançar dos olhos na pesca do horizonte. Reconhecemos os palonços, nestes casos, porque os seus perfis, em contraluz cinematográfica, empurram, com o único jogo de cintura que possuem, o centro dos seus mundos para a frente. Identificámos a fita.

Os musculados estão tatuados. Tolices tribais e triviais, dragões que lhes queimaram os pêlos das pernas, carpas sem marés ou lugares-comuns de uma literatura naufragada.
Os raquíticos parecem tatuagens.

Não representam qualquer perigo. São como as marés. Sobem e descem ao sabor das nossas luas.

O único palonço que uma rapariga deve evitar é o que pertence ao terceiro tipo deste grupo popular.


Não tem tatuagens; gosta do calor; não posa nem pesa nos nossos temores; sabe de cor, mesmo não sabendo, palavras de poetas; quer fazer connosco o que a Primavera faz às cerejeiras, porque leu Neruda grafitado; esbardalha-se nas nossas toalhas e preenche-nos cadeiras que nenhuma faculdade nos credita e ronca e é grosseiro e lambe o dedo para virar a página do livro que somos sempre nós, de capa fina e ilustrações magníficas e gosta de fazer uns buraquinhos.

É o palonço que se não se encontra sempre à luz do sol. Às vezes aprecia as nossas sombras.

21.7.23

A Gaffe fatal


Grande parte do poder de sedução, das ciladas que uma mulher ergue em redor da vítima, do irreversível precipício no seu corpo, não está na importância - coisa pouca -, mas exactamente na pouca importância que atribui às coisas.

Um zoólogo que por aqui passou e que deixou tenazes e animalescas recordações falou-me - não sei se me mentiu, mas se o fez foi por causa forte - no erro genético que produziu as panteras de cor negra.
Não são de modo nenhum uniformes, da cor da noite por inteiro, e as manchas, essas mais negras ainda do que resto, são visíveis nos seus corpos maleáveis e esguios, se lhe dedicarmos atenção e lhe respeitarmos o perigo.

A genética apagou-lhes erradamente a cor ocre fez do animal um dos mais perigosos do reino.

Suspeito que a mesma genética que apagou o ouro, tende a dissolver nas mulheres fatais a capacidade de atribuir demasiada importância aos que a desejam ou àquilo que querem caçar, transformando-as em gatinhas mornas e preguiçosas, que aguardam que a presa fique ao alcance das garras e que esperam que seja impossível deixar de acariciar.

E como gatas dão pouca importância à brevidade das coisas.

17.7.23

A Gafe não aceita


Um dos verbos que devia ser abolido do dicionário da alma de alguns é o aceitar.

Torna-se obsceno quando é usado na primeira pessoa quando a pessoa é a primeira a usar o que aceitou como arma de arremesso.
 
É vulgar - nunca deixando de ser repugnante -, ouvirmos a tentativa de cuspir um insulto com o que horas antes se jurou aceitar com a pia benevolência dos que são caritativos e olham a humanidade com a brandura dos mansos que deles é o reino dos céus.
É nojenta a facilidade com que aceitar o outro se funde a crença na ilusória, com a mentirosa, certeza de que somos bons e que jamais nos imiscuiremos, ou combateremos, o que no outro é diferente.

Aceitar o outro, tem por vezes implícito um minúsculo julgamento feito nos confins da alma de quem aceita.
Quando aceitam não estão a reorganizar o pensamento de forma a que este se adapte ao que não consegue ou que revela dificuldade em compreender ou reconhecer como forma de consciência independente e diversa daquela que possui.

Sentam-se nos seus pequeninos tronos e, magnanimamente, aceitam o outro.
Não o entendem segundo diferentes arquitecturas interiores e recusam ou subtilmente condenam cada acto cometido, porque não é assimilado pelas suas organizações internas, mas, e como são criaturas superiores, aceitam.
O seu irrisório tribunal interno não arrisca declaradamente o perdão, por beata modéstia, mas inclui no aceitar uma parcela de indulgência, envernizada, mascarada de respeito pelo outro.
Aceitar, dentro deles, traz no bolso um calado e escanzelado sentimento de superioridade, uma velada e inconsciente vontade de domínio, uma escondida certeza de que, o que são, se torna a regra mais conveniente para o equilíbrio planetário.
Julgam o outro quando o aceitam e não abdicam dessa miserável e ínfima sensação de superioridade. Ao aceitar, recusam, recuam e, em última análise, assinam no esconso da alma a moção de censura ou a negação.
Ao aceitar as formas externas ao traçado arquitectónico que reconhecem como seu, são como as anafadas senhoras, de agenda apopléctica e reservado lugar em todas as comissões de avaliação e em todos os plenários ou jurados. Depilam as sobrancelhas para as desenhar depois com traços negros, escondem estampas pornográficas nas páginas batidas do missal e aceitam, soberanamente, superiormente, o outro que também tem direito à vida.

- Não consigo compreender estes gauleses... mas aceito-os - diz o Imperador, olhando de soslaio o Obélix.

14.7.23

A Gaffe quase de férias


Aproximam-se as minhas férias. Três semanas mais e parto.

Esta rapariga tem de admitir que atingiu o nível de exaustão que faz com que acordar lhe dê vontade de chorar. Não se espantaria se arrastada pelos corredores largasse o cérebro transformado em baba ou se caminhasse como um macaco drogado apenas porque já não aguenta levantar os braços.

Três semanas me separam das férias. Dolorosos dias em que corro o risco de desabar em lágrimas no meio de uma irritação e impaciência injustificadas. Três medonhas semanas em que terei de encontrar forças para articular palavras de modo a que ninguém perceba que não foi ouvida.

Vou para onde me levar o coração, dizem os parvos. O cérebro da minha irmã é muito mais eficaz. Nunca é boa ideia gerirmo-nos pelas batidas de corações alheios e, apesar de arrasada, consegui engendrar forma de evitar o roteiro do rapagão.

Recuso-me terminantemente a ser enfiada no meio da selva, toda caqui e de chapéu de lona, à procura da tribo Tiruné-tupiraná* para estudar os métodos de cultivo do tribibiré ou em busca da raiz do fungagueiré, mesmo que tenha propriedades alucinogénicas. Geralmente estas tribos têm um cabeleireiro miserável e desactualizado, os SPA resumem-se a umas terrinas repletas de argilas alaranjadas que vão secando durante a semana e a maquilhagem é sempre igual à das meninas dos festivais de Verão na Caparica. Depois, as mulheres têm todas as mamas caídas, trazem gente pequena às costas e usam fio dental de folhas de árvores que arranham imenso. Os homens são todos baixinhos, andam aos saltos, têm sempre umas pilas grandes, pintadas ou enfiadas num corno e disparam setas impregnadas em curare. Curare por curare, prefiro o parisiense que é injectado em pequenas doses produzindo imunidade e já ninguém tem pachorra para discutir as vantagens e as desvantagens do tamanho das pilas. Cansada com estou, é-me indiferente que haja espaço para reproduzir Guerra e Paz ou apenas para rubricar o apelido do autor sem riscar os outros papiros.

Não adianta argumentarem com a explosão orgíaca de cores. Em Madrid, no La Chueca, toda a gente é arco-íris e ninguém me assusta com as coisas que se enfiam na boca.

Na bagagem incluo uma brutal e insuspeita alergia ao tirimbimdum e à dança tupiraué, e, decida quem decidir, exige-se apenas uma passagem por Paris e alojamento no Ritz-Carlton no quarto de onde a Princesa saiu para se esbardalhar contra o muro.

Haja respeito!

Apesar de ter deixado há já algum tempo o exercício daquilo que pensei ir ocupar toda a mina vida, é assombrosa a quantidade de trabalho que tenho de deixar em ordem. Planear a minha ausência deixa-me nervosa, porque não sei entregar tudo o que é da minha responsabilidade à pobre criatura que me vai substituir.

Não sei para onde vou e suspeito que não sei se não vou por aí.
Os planos de férias foram sempre entregues à minha irmã que sempre cuidou dos pormenores com a minúcia dos obcecados. Saberei o destino apenas no instante de partida.

Não tem a mínima importância. É-me indiferente o local para onde me levam. Estou demasiado cansada para implicar com destinos e revoltar-me contra o destino. Aceito pacificamente os traçados de viagem e as inevitáveis exigências da mulher que é capaz de alterar o dispositivo de funcionamento do serviço de quartos de um hotel apenas porque não lhe agradou a forma como lhe foi servido o pequeno-almoço.

Enfurecia-me, há alguns anos, a prepotência quase infantil com que esta criatura se movia e fazia com que os outros se movessem. Irritava-me a sua forma de se sentir em casa, fosse onde fosse, e o modo como agia em consonância, alfinetando ordens, apontando direcções ou aguilhoando críticas com ácido. Invejava a capacidade de se manter ilesa a todas as variações do tempo, como se fosse transportada numa redoma invisível capaz de tornar constante uma determinada temperatura. Temia as suas reacções soberbas, as farpas subtis e as queimaduras infligidas aos incautos que se atreviam a tocar a superfície das escolhas desta mulher, contrariando, levemente, os seus desígnios ou as suas mais incipientes decisões.

Agora não.

Adapto-me. Talvez tenha aprendido a ser indiferente. Já não me agoniza de vergonha a forma quase desumana com que esta mulher vislumbra o mundo. Já não me choca o facto de parecer que os outros - todos - são para ela elos de um colar que vai crescendo e que é relaxante enrolar nos dedos.
O meu cansaço atenua a minha culpa. Acomodo-me e entorpeço. Narcotizo a necessidade que sentia de voltar para trás e abraçar as vítimas. Compensar de qualquer modo os danos que foram causados. Anular as distâncias.
Já não quero saber e sinto-me calma. Destrutivamente calma, como se tivesse perdido um órgão e percebesse que não há dor, que não era vital, que sem ele sobrevivo embora mutilada.
Desisti. Creio que desisti. Sei que por indução, por errada conclusão de similitude, não me vão tocar estranhos e que os mais próximos vão descobrindo que pode ser letal sobrevoar rasando as garras que se estendem ao sopro mais subtil.

A sugestão funciona.

Não sei por onde vou e não sei sequer se não vou por aí.
Sei apenas que seja onde for, é mais fácil viver quando ao nosso lado está deitado um tigre.

*As  referências "amazónicas" são completamente inventadas. 

13.7.23

A Gaffe lendária

Quando começa o Inverno, na hora parda que alastra a cor acidulada reflectida nos espelhos da água da cisterna mais pequena, na face Norte da casa, no lugar mais frio, há uma brisa que sentimos quase verde.

Desce as escadas de pedra e percorre todo o labirinto esguedelhado do jardim, entra pelas portas e janelas, corre corredores, afaga os móveis e as louças, sacode a poeira breve dos tapetes, confunde a ordem dos ponteiros dos relógios, despenteia jarras, inclina quadros na parede, desfaz a simetria das cortinas, obriga as mulheres a compor os lenços que usam traçados no peito, desarranja todos os recantos e canteiros, para depois voltar ao lugar onde nasceu, no lado Norte da casa, perto da cisterna mais pequena, e desaparecer por entre a imperceptível ondulação da água.

Dizem os homens que não é brisa sorrateira e branda a nascer ali, que não é o vento a estender um braço de sono e a recolhê-lo depois de o espreguiçar.

Dizem as mulheres que todos os Invernos vem do fim da água um anjo condenado por se atrever a amar aquela que guardava e que em brando desespero procura o que, por tanto desejar, deixou desamparada.

Ao fim da tarde, depois, volta a morrer, porque se perde constantemente a vida quando sabemos que o nosso amor, de tanto, desnuda e aniquila os que desmesuradamente nós amamos.

12.7.23

A Gaffe inquisitorial

Nikalaus Eth

Este é o calor de Espanha Inquisitorial.
Brota do chão o sol como das ânforas. Erguido a pique trepa sequioso à fronteira da água, ao bordo das paredes, para sulcar no curvar do espaço a mais pequena folha do loureiro.

A poeira extenuada quieta abrasa. A cal escalda branca só de sede e aos degraus das horas trepam cães perdidos.
O lacrau na cal. A carne em carne-viva dos morangos. O lanho das laranjas labaredas.
As agulhas do sol picam os pássaros parados na água extenuada, quente, com peixes apunhalados pela luz de ferro que se espetou no corpo em cicatriz de espera.

O sol de Espanha dos inquisidores uiva à meia-noite.

Calor que arrasta mulheres antigas por pátios de laranja quente. Mulheres de Espanha e de veludos negros, veladas por mantilhas, tapadas pelo ouro dos massacres. Mulheres de rendas pretas e pesadas de olhos atados a incêndios. Cegas, lume a lume, lança a lança, atravessadas pela adaga das cruzes de marfim. Mulheres de sevilhana nas asas do cabelo a arder de seda contra a sombra, a entrançar nos dedos orações. Dedos fechados nas crinas do erotismo do sol erguido a prumo.

Mulheres deitadas na pele do Cristo nu. De punhos cerrados e almas sem penumbra a espiar a sombra dos sussurros.
 
Voy a cerrar los ojos y tapear los oidos
Y verter outro mar sobre mis redes
Y enderezar un pino imaginário
Y desatar un viento que me arrastre

O Calor é sempre inquisitorial.

11.7.23

A Gaffe ferroviária


Creio que os únicos homens que entendem vagamente o que as mulheres pensam, são os gays e o meu cabeleireiro.

Não é de todo desprestigiante, humilhante ou redutor, quer para o masculino orgulho, quer para os fabulosos e divertidos tontos que conheço e que acabo por considerar amigos do peito - ou dos peitos - mesmo sabendo que tendem a apreciar os objectos de desejo que são meus. Não é sequer desagradável para aquele fantástico e famoso cabeleireiro que consegue perceber e descodificar o tom do meu cabelo, tocando-lhe e depois lambendo, de forma um bocadinho nojenta, admito, a ponta dos dedos.
 
Os homens desconhecem por completo o que realmente atravessa o cérebro das mulheres.

Por muito que jocosamente joguem com alvitres brejeiros, não fazem sequer a mínima ideia da razão que leva as raparigas à casa de banho sempre aos pares e desconhecem em absoluto o motivo que transforma, em segundos, a nossa maior amiga numa ameaça biológica ou porque nos apaixonamos pelo cinquentão professor de Linguística, quando à nossa porta bate o recordista olímpico -100 metros barreiras - ou um nadador de alta competição.

Somos um mistério.

Um enigma perene que gostamos de manter com a indiferença que nos caracteriza em relação às mais rebuscadas explicações masculinas. Mantemos esse poder de uma forma eficiente e eficaz, porque não pensamos em como o alimentar ou conservar vivo. Sabemos que os homens, façam o que fizerem, não entenderão jamais as nossas mais ínvias e esconsas, simples e banais das reacções.

Esta perversa incapacidade masculina não é susceptível de despertar em nós qualquer motivação para a colmatar ou remediar. Usamo-la em nosso proveito, com um maquiavélico prazer quase inconsciente. Somos uma espécie de locomotiva que em alta velocidade passa e provoca a incredulidade e a perplexidade no homem que espera apenas ver surgir o comboio regional, aquele que encalha em todas as estações e apeadeiros previsíveis, envolto em vapores do XIX, espartilhado e depois laçado por mimosas e delicadas fitas.

Se a máquina parar e abrir as portas, pode permitir que o homem entre, atraído pela força que provoca, mas, mesmo assim, ficará sem perceber o porquê desta paragem inopinada e a desconhecer completamente as manivelas, os sinais, os manípulos, os símbolos, os trilhos, as marcas e os botões que são accionados e que a fazem retomar a sua marcha.

A Gaffe dos super-heróis


A Gaffe considera um exercício interessante o que a faz tentar reconhecer nos seus políticos caseiros as maravilhosas figuras oriundas da banda desenhada que os queridos tanto tentam encarnar em época de eleições.

É evidente que existem regras neste jogo que dificultam a tarefa:

- A Gaffe tem de se cingir aos super-heróis da Marvel. Não pode escapar-se para universos mitológicos que facilitariam imenso a atribuição de papéis e que identificaria de imediato Ana Gomes com a Corneta do Apocalipse ou o Partido Comunista com Medusa, por questões cerebrais e porque o partido se vai transformando ele próprio num mito.

- A Gaffe não pode recorrer aos vilões das histórias. Seria óptimo poder atribuir a função do Pinguim a Marques Mendes ou a de Joker a Marcelo Rebelo de Sousa, mas o desafio tornar-se-ia menos motivador, porque mais fácil.

- A Gaffe não pode avocar super-heróis de segunda linha. Se tal acontecesse teríamos preenchido o elenco com demasiada rapidez. A Ventura seria entregue o papel de Incrível Hulk, porque não necessita de grande caracterização e porque o verde lhe fica bem. O papel de Homem Invisível seria como se espera para todos os Ministros da Cultura - ou das Pescas -, sejam eles quem forem. Iron Man iria directo para Pedro Nuno Santos e Catwoman para Ana Abrunhosa, rentabilizando a sua experiência em telhado de zinco quente, escaldão por onde passa sempre que abre a comovida boquita. Flash seria interpretado pelo juiz Carlos Alexandre - que não é político, mas que disso é acusado - dada a rapidez com que se move entre processos e o Homem Elástico por António Costa, tendo em consideração a flexibilidade que lhe vai ser exigida para contornar as derrocadas de situações embaraçosas que é maçador referir aqui, até porque fazem esquecer as outras, mais que tantas, que terá de manobrar depois das eleições. Seria tentador, em consequência, atribuir-lhe o papel de Mandrake, com coelhos a enfiar na cartola e passes de mágica a fluir da capa, mas o ilusionista nem sequer tem super-poderes!

A atribuição de um papel a Galamba não é tão simples como a primeira braçada faz supor.
Seria previsível, mas desprestigiante, entregar-lhe o de Aquaman ou, com maior subtileza, o de Surfista Prateado. Não são dignos do arcaboiço do actor. Galamba é sem dúvida o Homem Aranha. Ninguém como este ministro dá piruetas agarrado às teias que vai esguichando.

A Gaffe gosta no entanto de lidar com os super-heróis de primeira linha. Os mais celebrados e os mais activos. Os hiper.

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 (Não vale estragar a imagem, porque a Gaffe quer colori-la depois de a imprimir)

É evidente que o Super-Homem iria directo para Sócrates. Existe imenso em comum entre estes heróis. Clark Kent usa uma cabine telefónica para se transformar, Sócrates usava um apartamento em Paris. Nem a cabine nem o apartamento são propriedade dos usufrutuários. O Super-Homem usa as cuecas por cima do fato, Sócrates parece que as vestiu também assim – pelo menos, a Gaffe, em tempo idos, mas não olvidados, viu bastante roupa suja. Quer o super-herói, quer Sócrates, usam a mesma inicial no peito. Clark Kent rasga a camisa para a vermos refulgir, Sócrates rasgava os embrulhos que não eram recusados pelos mauzões dos carrascos durante a sua fugaz passagem por Évora, para escrever aos jornais, mostrando o logo.
É lógico que o cenário em que o colocaríamos seria o de uma hecatombe. Uma paisagem bombardeada por kryptonite. Mas a Gaffe suspeita que, arrefecido o vigor do nefasto mineral e com o aflitivo apoio de uma justiça obesa, viscosa e arrastada, a praça pública ver-se-á ainda obrigada a pagar para que o super-herói abandone definitivamente o disfarce de Kent e sobrevoe o povo com o S liberto de culpa ou vergonha.

Resta o super-herói favorito da Gaffe. O seu querido Batman.
Convém nesta altura referir que Batman já foi interpretado por Ben Affleck.

A Gaffe já viu Ben Affleck nu. A Gaffe tem a imagem de Ben Affleck nu cravada na retina. A Gaffe tem imensa dificuldade em substituir Ben Affleck, porque a Gaffe viu Ben Affleck todo nu e Ben Affleck todo nu é uma imagem muito grande. A Gaffe depois de ter visto Ben Affleck todo nu ficou muito limitada e bastante atordoada. A Gaffe identifica irremediavelmente Ben Affleck com Batman, porque dessa forma acredita ter visto o que todas as raparigas desejam: O Batman todo nu.

Após este pequeno apontamento é de concluir que o papel de Batman não pode ser atribuído a não ser a Ben Affleck todo nu.

Seria no entanto empobrecedor se deixássemos Marcelo fora do elenco, sobretudo sabendo que o Presidente gosta tanto dos palcos.

Há solução!

Tendo em conta a presença de Marcelo sempre que se avista o perigo, a sua dedicação abnegada ao cargo que exerce, o sacrifício que faz em nome do país, colocando-o à frente da sua saúde, atribuindo primazia, não à luta pelo voto que essa já ganhou, mas a valores que mais alto se levantam, a Gaffe consegue atribuir-lhe o papel, não do Morcegão, mas do morceguinho que colado aos focos se imola em nome de Gotham.

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A Gaffe fica com o papel de Super-Mulher por atribuir e com um político sem papel a interpretar!

Nada encontra a não ser Joana Vasconcelos para viver a super-heroína.

As duas rodopiam com uma força descomunal e embora Joana Vasconcelos o faça mais na cozinha – esporadicamente no WC - causando um pandemónio nos tachos, azulejos, colheres de plástico e garrafas, ambas estão ao serviço da tradição, da moral e dos bons costumes, como provou a artista ao acatar submissa a proibição de expor em Versailles o seu lustre de tampões. Não é política, mas imita bem.

Infelizmente a Gaffe não encontra um papel para Cavaco Silva!

Pensou no Fantasma da Ópera bufa - ou na bufa do Fantasma da Ópera -, mas Cavaco não frequenta lugares que desconhece e onde há gente que substituiu o diálogo sereno por um gritedo desalmado.

A Gaffe, para que o ex-Presidente não seja excluído, atribui-lhe o papel de balão. O balão desenhado para simular as falas ou o balão em nuvem a indicar que se pensa.

Um balão. Sem nada escrito dentro.

Et voilà!


7.7.23

A Gaffe reaberta


A Gaffe alarga - ad aeternum - a sua permanência no Douro.

Há uns socalcos de tarefas a cumprir e é uma maçada não ter confiança nas empregadas que lhe partem imensas coisas, não as envolvendo nas páginas da Vogue. Toda a pessoa de boas famílias sabe que embrulhar copos da Boémia - ou jarretas Ming -, nas páginas do Correio da Manhã resulta sempre caco.

A Gaffe não compreende mesmo a existência de gente que ainda não lê o exclusivamente digital. O resto deixa os dedos tão conspurcados! O digital tem a vantagem de só deixar embrutecido o cérebro e nós sabemos que isso é coisa que não se vê ou se disfarça com alguma facilidade comentando, em modo anónimo, em caixa alheia. Ninguém fica a par da física rugosidade ressabiada do comentador e os dedinhos que teclam podem perfeitamente distar anos-luz do mais incipiente vestígio de pensamento.

Como é sabido, esta rapariga recebeu pequenos mimos de alguém que lê imenso coisas em papel de jornal. Há que admitir que não são brilhantes e pecam pelo refrão. Pertencem na esmagadora maioria à mesma criatura – reconhecível pelos erros de sintaxe recorrentes -, e abordam pequenos recantos e mínimas ruelas por onde esta rapariga vai passeando o olhar.

São atentos. São comentários que revelam um estado de alerta permanente ao que, ainda que de forma vaga e incerta, vai tocando a fímbria do vestido Valentino que a Gaffe ousou usar neste degredo com imensas silvas e picos e bichos e fungos repugnantes que trepam às árvores e àquelas plantas que dão vinho.

Todos os comentários destas coisas eram dignos de figurar na cartilha da imbecilidade humana.

A Gaffe - pese embora o dito -, chegou mesmo a admitir que a sua paupérrima existência era escandalosa, reconhecendo uma inadmissível e negra sombra de suspeita a pairar sobre os seus fulvos caracóis.
Sendo assim - e estando a Gaffe ligeiramente ocupada a tentar que a criadagem não partisse cristais -, optou por barrar e por deixar de ouvir os cacos dos vidros dos anónimos.

É impressionante ver a quantidade de gente que se empolga e se descabela tantas vezes de uma forma patética com os mais pequenos acontecimentos ocorridos neste recanto!
A Gaffe deu por si a apreciar a avalanche de tolices que foram escritas por estas Avenidas e não é credível que esta rapariga as tenha escrito - as tolices -, com o intuito de provocar uma catástrofe, tendo em conta que todas são mimosas e emitem apenas uma opinião de carácter pessoal, limitando-se certamente a falar das experiências vividas pela própria.
Não é de todo justificado o terramoto de comentários de faca na liga, alguns tenebrosos e insultuosos, que foram surgindo e reduzindo a ruiva responsável pelo crime – que não é brilhante - à condição de demente.
É evidente que as ameaças anónimas trazem coladas um manancial de insultos que vão desde os mais simplórios e totós – é uma tia -, até aos mais elaborados que não urge, por indizíveis, exemplificar ou vistoriar, pois que sabemos o quanto é fácil atirar a pedrinha e esconder a mão cibernética.

A Gaffe não acredita na vacuidade histérica dos que dolosamente incensam os actos que restringem a capacidade e liberdade da frase, erguendo a bandeira imensa da indignação e da mais sofrida solidariedade com os amordaçados, mas que no aconchego do teclado vão espancando ou promovendo o linchamento dos que vão dizendo coisas.

Mas a verdade é uma!

A Gaffe tem realmente com uma mãozinha yakuzada e outra na Cosa Nostra; uma participação obscura e obscena nas duas organizações que, como se sabe, são imensamente paritárias. É unha com soja com o Padrinho e adora psicopatas obsessivos que chefiaram em tempos idos o assalto ao arranha-céus e pertencem agora à Opus Dei. 

Assumindo o destino e o fado, esta rapariga já liberta considera que a melhor opção, no meio das balbúrdias, é a de abrir a caixinha do pó - de arroz -, retocar a maquilhagem e deixar que as personagens atrás dos dichotes possam de novo saltitar pelo charco fora.
A ver vamos.

1.7.23

A Gaffe amputada

Alex Minsky, 24 anos, fotografado por Michael Stokes 


Continua tenebroso para mim o escuro da frase que declara assassino o homem que mata um outro, mas que transforma em herói o que no centro da guerra e em nome de uma pátria aniquila milhares.

As malhas que os Impérios tecem não me são inteligíveis.

Creio, que heróis ou assassinos, todos se tornam amputados. Decepados no instante em que fazem parar o bater de um coração. O premir do gatilho é a perda irremediável de um pedaço de nós.

A proximidade entre, por exemplo, Oscar Pistorius, acusado de assassinar Reeva SteenKamp e Alex Minsky, veterano da guerra no Afeganistão, cujo número de mortes que eventualmente provocou não é contabilizado, está na trágica amputação interior de que foram vítimas ao matar e não na superação da catástrofe física que os atinge. Deceparam a alma.

Os dois absorveram a calamitosa beleza do que é trágico, superaram o corpo incompleto com proezas laureadas nos estádios ou hiperbolizaram o que resta, marcando-o com cifras e sinais irreparáveis, como se reivindicassem o domínio total do que ficou, mas não creio que consigam sublimar, metamorfosear ou reinventar o que na alma não admite próteses.

São agora trágicos guerreiros em batalhas com derrota anunciada.