No Japão velhíssimo diziam que quando não conseguíamos adormecer à noite, era apenas porque estávamos acordados num belíssimo sonho de alguém.
Que 2022 não vos
deixe adormecer!
Niilas Nordenswan |
Está tudo pronto.
Sinto-me finalmente tranquila e capaz de me deliciar com o único rasgo de talento publicitário que me seduziu. Longe de historietas de ratazanas, longe de narrativas de famílias felizes e de duendes de pacotilha, deixo-me seduzir pelo anúncio de um carro. Um Mercedes escarlate que segue na cauda de um leque de tantos outros prateados, guiado pelo Pai Natal que trava a comitiva para que um dos presentes, um cachorrinho, possa pudicamente levantar a patita atrás de uma árvore. Uma ternura narrada de forma excelente e capaz de tocar todos os públicos.
Finalmente sou capaz de serenar.
Está tudo pronto.
As decorações de Natal restringiram-se ao máximo. Nas jarras há troncos belíssimos de azevinho cortados da árvore que endoideceu e se agigantou encostada à parede da casa. O presépio pousado de novo no móvel de laca preta e a coroa de Natal, poderosa, a pesar toneladas, a encabeçar a lareira da sala onde se jantará. Foi necessário usar o prego fortíssimo que sustinha o espelho. É uma coroa maciça de porcelana branca, enorme, construída de pinhas e de folhas de carvalho entrelaçadas. Disseram-me que os dois elementos representavam as Boas-vindas e a Fidelidade. Nem sempre estão unidos. A parede nacarada atenua-lhe o impacto, mas sei que o fogo, mais tarde, lhe entregará reflexos dourados, ruivos e azulados.
A ementa preparou-a a Jacinta. Ninguém - jamais - se atreve a invadir-lhe as decisões culinárias.
Na minha frente, o meu Amigo lê.
Tem pousado no braço do cadeirão um volume grosso que vai
consultando à medida que o livro que vai folheando origina dúvidas.
Mancha sempre o soalho de madeira com as botas sujas de jardim. Deixei de lhe
pedir para ter cuidado. Ouço-o sempre pedir desculpa e arrancar a esfregona das
mãos de quem limpa para envergonhado suprimir a falha. Vai voltar a sujar tudo
de novo e vai voltar a suplicar perdão agarrado àquilo. Comporta-se como o
Natal. Entra e macula com as botas o soalho da casa, senta-se depois na minha
frente e entrega-me a mais surpreendente das serenidades, apaziguando o espaço
preso nas folhas. Nas folhas de uma coroa de porcelana branca.
Começaram a chegar desde ontem.
A casa está em sossego, apesar de tudo.
A minha irmã chegará mais tarde. Minutos antes da ceia.
Travará o carro, abrirá a porta e deixará o perfume sair para alçar a pata na árvore endoidecida de azevinho.
A Gaffe e a árvore de Natal
Elas são de tábuas, de vidros, de canudos de papel
higiénico, de novelos de lã, de garrafas vazias de whisky - neste caso é
compreensível o desarranjo -, de papelinhos, de luzinhas suspensas, de retratos
de família, de rolhas, de espuma, de embalagens de gel de banho, de livros
coloridos, de cestos de fruta, de pauzinhos secos, de peluches e de tudo o que
nos queiramos lembrar.
Um universo de criatividade sempre disponível no Natal.
Normalmente é um aborrecimento reproduzir na sala estas
propostas. Nunca ficam tão radiosas como as das fotografias e enchemos os dedos
de cola que custa imenso a sair e dificulta o trabalho à manicure. Quem
não for talhado para a bricolage é brindado com um pesadelo
natalício.
Meus caros, aquilo que nos mata de trabalho deve vir já
feito. É por alguma razão que os chineses vendem árvores de plástico já
decoradas.
É uma maçada desatarmos a recolher coisinhas para construir
o que se pode perfeitamente comprar já completo num armazém qualquer. Poupamos
imenso tempo que depois podemos gastar a escolher os presentes.
As árvores de Natal originais, muito recicladas,
muito in, que a nossa vontade de inovação apanha fotografadas, são como os
cigarros que se preparam a uma esquina deprimente da vida. Existem já prontos,
empacotados, matam da mesma forma, só que são mais baratos.
Uma árvore de Natal tem de ser o tradicional e gigantesco
trambolho verde vestido de luzinhas, bolinhas, fitinhas, estrelinhas, anjinhos
e tralha a brilhar, capaz de fazer tropeçar a travessa das rabanadas que se
esqueceu que o gigantone se tinha erguido há uns dias pelas mãos calejadas do
Natal das nossas memórias.
A árvore de Natal tem de ser verde, gorda, farfalhuda,
grande, maternal, profusamente enfeitada com insignificâncias que cintilam,
quente, refulgente, envelhecida e ficar espapaçada na sala a ocupar o lugar da
poltrona da avó.
O resto é mariquice, mas se não concordam comigo, meus
queridos, podem sempre experimentar a proposta que vos deixo.
A Gaffe a planear o Natal
- Recordo-te que a tralha natalícia é como o Jeffrey Epstein.
Não se dependura sozinha.
Mana
20/12/2015
Primeira neta
Os brincos variam no formato. Os da minha irmã, por
exemplo,são um rectângulo de brilhantes que suportam uma belíssima pérola.
A minha irmã perdeu um.
Gemeu, ginchou, berrou, ganiu, chorou... e finalmente, para aplacar a
consciência, declarou que tinha sido roubada. Quando quer, consegue ser uma
psicopata obcecada, maníaca e compulsiva. É mais simples assim e nada de
inusual nesta família.
O brinco, um e não o par, só podia ter sido furtado evidentemente por Van Gogh. A avó, dias depois, encontrou-o abandonado e declarou que o
iria colocar num dos lugares mais inacessíveis deste Universo, à prova de toda
a tentativa de roubo, perda ou desvio.
A Bórgia pertencia à minha avó e era a mais medonha doberman do planeta. Assassina em série, feroz, voraz e aterrorizante, babava ódio por tudo o que se mexia dentro do seu larguíssimo território. Premiada, Miss, Campeã e com mais pedigree do que toda a minha família junta, Bórgia apenas obedecia à voz da minha avó e dilacerava tudo e todos que por incauto lhe roçavam levemente o corpo.
Era inevitavelmente presa quando havia visitas, mesmo aquelas que a cadela devia considerar habituais. Ninguém se atrevia a arriscar.
Bórgia era uma assassina nata.
Tínhamos o vício de a irritar, mal chegávamos. Sabíamos que as grades nos
separavam dela e que a fúria aterrorizadora da cadela mordia apenas o ferro.
Na nossa última visita, a surpresa emudeceu-nos.
Nada nos fez provocar a cadela que nos desprezou com olhos papais.
O nosso espanto, a nossa mais desmesurada surpresa, a nossa mais paralisante
estupefacção, foi ver numa das orelhas demoníacas de Bórgia, cintilar um dos
mais belos brincos de Cartier, um rectângulo de brilhantes a guardar a pérola.
Bórgia pavoneava-se indiferente e sobranceira.
A minha avó tinha pedido ao veterinário que colocasse com
segurança acrescida o brinco na orelha do demo.
- Como vês, minha querida - murmura a avó ao ouvido da minha irmã paralisada -, mesmo sabendo que lhe falta um brinco, a cadela porta-se como uma senhora.
Convenceu o meu irmão, manipulando os meandros do mundo e do
submundo desta família, a passar aquele Natal connosco.
- É evidente que sair nesta altura não faz sentido nenhum,
meu querido. Gosto sempre do seu presente e é sempre um prazer ver que não
gosta do meu. – Informa a minha avó, ratando bolachinhas minúsculas
de chocolate e noz que vai abandonando quase inteiras no pires de porcelana
branca.
- Mas eu gosto sempre do que me ofereces, avó! – embaraça-se ao recordar o álbum pesado com fotos ternurentas da meninice onde
houve a preocupação de recolher aquelas em que aparece SEMPRE nu. A mais
trágica é a que o foca no jardim ao lado da minha avó de tesoura de jardinagem
em punho, pronto a destruir todas as ramagens, e onde, minúsculo, tenta ocultar
as mais íntimas promessas de futuro com uma camélia branca.
- Ah!, meu querido, esse álbum! Não imagina o prazer que me
deu a recolha que fiz. Pena é que tenha deixado de ter material a partir dos
seus dez anos.
É chegada a altura de se fazer silêncio.
- Embora, é claro, a minha provecta idade me dê acesso a
várias gavetas que outros pensam fechadas para sempre.
- Avó!
- Sim, meu querido?
- Avó!
- Confesso-lhe: nunca deixei de o seguir com toda a atenção
e mesmo desalmado orgulho.
Começa a afligir-se.
- E já que mencionou a foto da camélia oportuna, devo
dizer-lhe, meu rapaz, que, pelo que me foi dado ver, vai precisar agora da
japoneira toda para reproduzir a pose.
Nesse ano o meu irmão decidiu orientar as limpezas de Natal.
Começou pelas gavetas e acabou no telemóvel.
- Avó - sussurro-lhe ao ouvido - não acredito que haja
fotografias… dessas.
- Há sempre, minha querida. Os rapazes não resistem a fotografar porcarias e é sempre agradável ver o seu irmão preocupado a arrumar o quarto.
Terceira neta
Era já velho quando, ainda adolescentes, passávamos o Natal
em casa da minha avó e o desafiávamos com uma crueldade sem perdão.
Na altura o jardim gradeado ainda não tinha as sebes adultas
que depois protegeram o interior e o Volante parava sempre,
esfarrapado e sujo, quase nauseabundo, para espreitar as raparigas ou para
receber às escondidas os pequenos cabazes de fruta, pão, carne e enchidos que
lhe entregavam com o cúmplice desconhecimento da minha avó.
Enfurecia-se aquele homem, desbravado, eriçado e tresloucado
quando, por distracção ou propósito, lhe chamavam Volante.
- Oh! Volante! Chega aqui, homem! – e o velho sacava de uma
faca romba e esgadanhava-se transformado em insultos, guinchos e gritos e
pinchos de estarrecer o demo. Capaz era ele de arrancar e espezinhar a alma a
uma qualquer criatura que lhe ouvisse aos brados.
Tínhamos sido proibidas de lhe acicatar o ódio. Obedecíamos.
O Volante passava pacífico recolhendo os cabazes escondidos, até
a minha prima ter engendrado um modo mais cruel ainda de lhe morder a
miséria. Mal o via ao longe, a rapariga corria à maior janela que
dava para o jardim, abria as portadas e de dentro imitava o ruído de um carro,
guiando-o de braços estendidos e mãos presas e fincadas num volante inventado.
- brrrrrummmm, brrrrrrrummmmm ….hummmmmm… – roncava o motor
que não havia.
O homem estarrecia. Olhava e via-lhe as mãos rodando um aro
de nada e percebia. Desmanchava-se na fúria habitual. Cuspia insultos. Parava a
estraçalhar palavras e impropérios. A minha prima parava, agarrada a
um travão de mão do carro na janela.
- hiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!...
O homem aquietava-se e sem cabaz lá ia. E recomeçava o
roncar do carro:
- brrrruuuuummmmmmmmm….
De novo mais insultos, mais gritos e peçonha.
- hiiiiiiiiiiii….
Até perder de vista.
A crueldade parou quando a minha avó encontrou a terceira neta, à janela, empoleirada numa cadeira a gesticular e a roncar já como um calhambeque.
Foi a primeira e a única vez que vi a minha avó esbofetear alguém.
Nunca mais o vi. Das poucas vezes que perguntei por ele,
recebia parco troco. Que estava bem, que tinha conseguido comprar uma casita
com um terreno fértil, talvez herança que veio sem contar, que passava por
vezes por ali a cumprimentar. Mais nada e eu esquecia.
O Volante morreu.
Dei a notícia à minha prima por telefone, logo de
manhã, poucas horas depois do acontecido. Manteve-se em silêncio durante um
curto tempo e depois confessou o mais inesperado:
- O Sr. Jorge escrevia-me todas as semanas. Eu
sabia que estava a morrer. Diz à avó que cumpri durante todos estes anos o
que lhe prometi naquele dia.
Desatou a chorar e desligou.
Soube depois, pela minha avó, que todos os meses o Banco transferia de forma automática da conta da minha prima uma soma considerável para uma outra conta titulada por um Jorge Ferreira, o Volante que morreu.
Quarta neta
As sardinheiras de Espanha no jardim e o colar de pérolas
pousado sobre o livro, no banco de madeira e de almofadas.
- Não lês, avó?
Não lê. Sente a saudade a confundir palavras e as
sardinheiras soltas a morrer de velhas.
- Eu vou tratar das flores, avó. Eu vou cortar os canos que
não servem.
Mas ela sabe. Sorri e pousa as mãos no livro, enrola os
dedos no colar de pérolas.
- Primeiro dá-me um beijo, minha querida.
Beijo-lhe as mãos.
- Sempre foste a minha neta preferida. Sempre foste. Que
Deus me perdoe, sempre foste.
Estou de joelhos e tenho um punhal cravado na garganta.
- Vou ler para ti, avó.
- Não, minha menina. Tu és a única palavra que eu quero ouvir agora.
As sardinheiras de Espanha no jardim e um colar de pérolas na alma.
| George Tooker |
A chaminé da lareira principal, a da sala grande, onde por
decisão superior - e ao contrário do habitual -, se realizará a ceia de Natal,
começou a tossir.
Uma tosse seca, mas muito discreta, quase imperceptível se
não fosse o fumo que, coitada, não consegue expelir e que assombra a sala como
um fantasminha cinzento e suave.
O rapaz foi chamado – por insistência minha -, que a do quarto desta frágil menina é secundária e o funil - o filtro, a chaminé, o tubo, a canalização... Oh!, mas quem se interessa?! - está ligado a esta e como se acende pouco, quando se acende faz tossir a velha.
Como são previsíveis os braseiros jovens!
Vergou o tronco para trás e de pilha acesa mergulhou a
cabeça no escuro. Virado para mim ficou um corpo arqueado, sem cabeça, de
braços erguidos e um dos umbigos mais perfeitos da minha vida inteira.
- A menina quer ver como está tudo bem por aqui?
Estava tudo tão muitíssimo bem por ali!
Há instantes para tudo. Se deixamos escapar um, seja ele qual for, alteramos o rumo às histórias que vivemos e apesar de ser opção do momento espreitar o abismo confirmando que estava tudo tão bem, escolhi debruçar-me sobre o espírito, deixando a carne de lado e concluí, após meditação em larga escala, que todas as raparigas espertas deviam ter a possibilidade de ver descer pelos tubos um Pai Natal que preenchesse os requisitos exigidos pelas suas quadras mais privadas.
É aborrecidíssimo ter sempre um velhote obeso e bonacheirão, pontilhado por suspeitas de pedofilia, a tentar oferecer-nos coisinhas embrulhadas com papéis fofos, com laçarotes e velinhas. Não é empolgante ter a descer pelos tubos um enregelado ancião gorducho, de sorriso largo e barba longa e crespa, agarrado a caixinhas coloridas que trazem tantas vezes dentro a desilusão encharcada de espírito natalício.
Todas as raparigas espertas - as outras ficam felizes com a
oferta de uns gorros, de uns arranjos, de uns pechisbeques, de umas peúgas, de
uns cachecóis cheios de carinho e amor, compreensão e ternura, dedicação e
simbolismo, doçura e simplicidade e todas essas coisas lindas, muito lindas,
muito lindas -, deviam ter o direito de seleccionar o Pai Natal que as
visitaria nesta quadra repleta de paz e de gente da família.
O rapaz da chaminé de justo macacão vermelho e golinha de zibelina, de botifarras lenhadoras, músculos santificados, um dos melhores umbigos que vi em todos os meus parcos natais e carradas de testosterona no saco das prendinhas, estando já enfiado no lugar devido, podia facilmente alegrar a consoada, mesmo descendo de mãos a abanar.
Nós, raparigas espertas, sabemos que o que conta sempre são
as intenções.
| Fernando Vicente |
| Norman Rockwell |
O quartel-general é, este ano, em casa da minha avó
onde chegamos ontem à noite.
... And all I want for X-mas is...YOU!
O Natal é também esta espera que faz tilintar todos os
sininhos que de súbito se descobre haver no coração e em cada um deles perceber
que existe no Natal que chega a magnífica hipótese de voltarmos a nascer e a
certeza límpida e impoluta de que podemos em cada renascer encontrar por todo o
lado aqueles pedacinhos frágeis de Felicidade que se unem e que se chamam Vida.