31.12.21

A Gaffe deseja





No Japão velhíssimo diziam que quando não conseguíamos adormecer à noite, era apenas porque estávamos acordados num belíssimo sonho de alguém.

Que 2022 não vos deixe adormecer! 


30.12.21

A Gaffe de consoada


O dia de Natal foi ligeiramente mais santo do que o habitual. O tio-avô da Gaffe, irmão velhíssimo da mãe da sua mãe, franciscano, antiquíssimo, consultor de cardeais, teólogo, filósofo, Provincial da Ordem durante décadas e um dos maiores latinistas da Península, veio de Salamanca, duzentos anos depois de ter partido, visitar a família.
O sábio ancião é a personificação da bondade, da paz, da suavidade e da tolerância.

Chegou de hábito vestido, sem o mínimo vestígio de desconforto, apesar daquelas dobras e pregas de tecido castanho rude.
Para o almoço mudou-se e apareceu de fato preto gasto e roído nos punhos, mas inexplicavelmente elegante.
Foi adorável durante todo a refeição, mas somos sempre obrigadas a confessar que discussões acerca de traduções de clássicos latinos não são o forte desta rapariga.

Decidiu passear-se e arrastar consigo o irmão.
 
Entrou, para abrir todas as portadas, no quarto de hóspedes - com a melhor varanda da casa -, destinado ao douto senhor, no andar de cima.
Sobre a cama, impecavelmente estendido, o hábito repousava. Pregas rigorosamente dobradas, escapulário ao comprido, cordas cruzadas, capuz rígido ao lado.
Não resistiu. Obrigou o irmão a vesti-lo e teve na frente o mais sensual, o mais atraente, o mais excitante e o mais pecaminoso dos frades franciscanos de toda a história da Igreja.

O hábito pode não fazer o monge, mas há homens que dentro dele fazem o convento parecer um opiário.

A Gaffe sem grilhetas


Escravo é o que espera que alguém o liberte.

29.12.21

A Gaffe na fotografia


Um dos grandes desgostos da Gaffe - para além do facto de não ter a pose das raparigas que desfilam pelos corredores das Casas de alta-costura, com um ar de indiferença abismal e de distância quase transcendente ou como se tivessem injectado botox no cérebro -, consiste em não saber fotografar.

As fotografias que tira aos amigos fazem-nos parecidos com aquelas que figuram no Cartão do Cidadão ou, em alternativa, que foram possuídos pelo Demo e que a qualquer momento vão rodar a cabeça e cuspir-nos coisas esverdeadas - o que não dista muito das do Cartão referido.

Também não tem sorte a fixar paisagens. A única que captou em condições foi a de umas ruínas e, mesmo assim, depois de ter corrido esbaforida de orgulho exibindo a obra, foi cilindrada com a pergunta:

- Mas o que era isto antes de o teres fotografado?

A Gaffe tem uma Nikon D200. Um objecto assustador. Repleto de luzinhas que se acendem à mínima pressão, com um monitor enxameado de símbolos, botões e manivelas, rebentos, borbulhas, verrugas, manípulos, sinais, filtros, objectivas monstruosas e pesadas que fazem a Gaffe tombar desequilibrada e um flash automático que se ergue subitamente com um click fazendo pensar que foi accionado um qualquer dispositivo atómico e que vamos morrer todos ali.

A Gaffe tem de madrugar se quer captar um pôr-do-sol.

A verdade é que esta rapariga esperta consegue ultrapassar a sua tragédia fotográfica rodeando-se de gente - bom dia, Christophe! bom dia, Pyotr! -, que é capaz de obter uma boa fotografia mesmo tendo o Cláudio Ramos por modelo. Fica com as mãos livres para pressionar outras coisas, fixar outras paisagens e captar outros movimentos.

Esta procura, muitas vezes obsessiva, do para mais tarde recordar é portanto a causadora de urticária numa rapariga propensa a maleitas psicossomáticas.
A Gaffe decidiu há muito tempo abandonar este desgosto fotogénico e recorrer a virtuosos do click que vão fixando em condições aquilo que a apaixona ou a deslumbra.

A exibição da obra produzida pela nossa incipiente experiência e debilitado saber tem demasiadas vezes tendência a ser sobrevalorizada. Acreditamos, ingénuos, que somos geniais ou que pelo menos conseguimos fazer equiparar o que executamos, com confrangedora incapacidade, à mais poderosa obra de um perito na matéria.
O erro desta valorização está, por exemplo, esbardalhado em qualquer página do Facebook onde milhões de fotos clamam a nossa atenção para as maminhas que se mostram ou que se insinuam descontraídas em férias com amigos e que, por muito que custe à portadora, parecem dois - há casos em que mais - melões de Almeirim ou duas azeitonas perdidas por uma mirrada oliveira onde nem a Senhora pousaria, mesmo correndo o risco de não comparecer à reunião agendada com os pastorinhos.

Somos Sebastião Salgado dos gatinhos fofinhos, das festas em família com a velha tia centenária, dos trilhos de viagem com vacas a sorrir, das colunas de mosteiros com rosáceas, das bases dos fontanários de uma aldeia, do primeiro dente do bebé, dos folhos repolhudos da noiva que é a prima, do prato com salada contaminada no campo, do mergulho na piscina de plástico, da unhaca envernizada, depilação já feita, do enfrascar até ao coma do grupo de Sexta-feira à noite e das poses de matadores playboys pindéricos e de patéticas playmates de pacotilha.

Tudo o que existe para mais tarde recordar sorri no facebook e é exibido como susceptível de ser partilhado com o mundo circular de uma qualquer rede social.

A Gaffe é limitada. Não faz a mínima ideia de como se capta uma fotografia capaz de se aproximar do pasmo que sente pelas coisas da vida. Deixa que os mestres fixem o deslumbre que não sabe reter na memória da Nikon.

A Gaffe faz click com o coração.

A Gaffe pouco criativa

 


A criatividade é a inteligência a divertir-se. 

28.12.21

A Gaffe ensurdecida


Fico parada a vê-lo mexer os lábios, a gesticular, a inclinar a cabeça, a esticar o pescoço, como uma galinha ao surpreender um verme, e observo-lhe as sobrancelhas espessas, subindo e descendo, neste vale de lágrimas; os olhos pequenos, que se semicerram quando há coisas transcendentes a dizer - o que implica um quase fixo arregalar do globo ocular; as mãos serigaitando na secretária sempre à procura de um objecto qualquer, para o fazer rodar por entre os dedos e surpreendo-me com o estranho silêncio que ouço. Um silêncio que me faz falta quando a rua vem rasgada introduzir-se nos meus dias.
Não penso em nada. Por vezes, aceno com a cabeça, por misericórdia, fazendo-o acreditar que estou rendida, mas a indiferença já me ensurdeceu.
A ausência total de som faz perdurar a sensação dolorosa de perda constante.

- A consciência da perda irremediável deverá acompanhar os processos posteriores aos factos evitando sequelas futuras. O luto é, portanto, essencial vivência, insubstituível processo de adaptação a novas condições de existência - diz de cátedra o velho catedrático.

Fala debruçado sobre a secretária, fazendo girar uma caneta entre os dedos, enquanto me distraio com as bolinhas e pintinhas na gravata.
É de seda preta, de nó largo e perfeito. Estampados no corpo, surgem, espaçados, pequenos sóis amarelos e laranja, rodeados de pintas vagas com as mesmas cores. É uma gravata obsessiva, porque as marcas de fogo tornavam-se nos pontos para onde tudo naquela sala converge. A partir dos focos espirala-se o resto. Percebi então que, daquele modo, todas as palavras que diz, umas atrás das outras, aceleradas pela força que as puxa para o centro, largam uma cauda vaga e cintilante, de cometa, que as torna de certo modo galácticas, susceptíveis mesmo de, pelo fascínio, arrebanhar a minha credulidade.
No entanto, ele não gosta de amarelo. Estas considerações cósmicas não são portanto frequentes e tudo tem o sabor desolado que fica em quem mastiga pó ou terra seca.
O homem acomoda sempre a barriga no tampo da secretária. A gravata, a alameda entre o pescoço e o cinto, fica deste modo lancetada. Por vezes perco-me a tentar adivinhar se o padrão escondido é a reprodução daquele que vejo ou se muda de ideias e difere. Há gravatas que, ao terminar, alteram o constante até ali e, num rasgo original, apresentam motivos contrastantes. As dele raramente sobressaltam. Fiéis até à morte, repetem os motivos.

Não são os meus lutos que filtram a luz numa demência de afogados, que fazem a casa absorver os entardeceres, que prolongam sombras, que acidulam objectos.
Como pode o homem que fala explicar-me a luz absorvida? Como pode ele entender a contaminação das vozes? Como pode ele olhar para os perfis das gentes que eu amei e que partiram, em sépia e em dourado, e que se transformam em pólen nas tardes laranjas esmagadas? Como posso falar-lhe daquele espaço dentro desse espaço, a flutuar?

Não sei contar-lhe.

Não sei mesmo se é memória deles o que trago dentro ou se os lugares onde me perco estão toldados e misturo as vozes de tempos diferentes.
A minha realidade é um fruto aberto. Separadas as metades, deixo de saber em que lugar fico. É no meio de espaços distintos que me perco e deixo de saber onde sou eu. Em que lugar se ouviu o tombar da água na cisterna? Rolará neste chão, ou arrasto-o como uma cauda onírica e medonha? É este o silêncio agarrado à memória que dela tenho ou é apenas uma dor que emudece?
A memória calca pisos ásperos e no entanto é doce o perfume que, de tão forte, escorre para a boca, transformado em viscoso lago de sabor que tentamos expulsar roçando a língua contra o palato e cuspindo os grãos pequenos de aroma já com corpo.

- O luto é, portanto, essencial vivência, insubstituível processo de adaptação a novas condições de existência.

E eu ouço sussurros e murmúrios ondulando no sopro produzido pelos dedos da memória que proíbe a voz de seda preta, de nó apertado e perfeito na garganta.

27.12.21

A Gaffe mensageira


A Gaffe não sabe se Marcelo desejou a todos os portugueses e a todas as portuguesas - ou vice-versa -, um bom Natal, mas mesmo que o tivesse feito, a Gaffe não se focaria na belíssima mensagem - pois com certeza-, de Natal do Presidente da República por duas razões de peso:

- Porque sempre lhe disseram que tocar num osso enquanto a matilha o vai roendo, aumenta as probabilidades de se ser mordido;

- Porque o Halloween é um festejo irlandês que se americanizou em demasia.

A verdade é que as mensagens de Natal presidenciais nunca foram momentos cintilantes. Abre-se uma excepção para a doçura e alegria das da família Clinton que incluíam sorrisos, cães, petizes, relva, saltinhos e estrelinhas, mas desde que Clinton insinuou o encetar de relações com Cuba mostrando o charuto, a coisa descambou. Obama aparecia sisudo com a cabeça de Michelle a ocupar todo o cenário, Melania Trump era um como uma incauta aventureira jurássica que não se apercebia que tinha mesmo ao lado um Tiranossauro Rex e Biden corre quando aparece e não dá memso tempo para ouvir a primeira dama.   


As mensagens de Natal monárquicas são mais comedidas.

A hereditária experiência mostra aos coroados que basta um membro do casal real para imitar a Miss Universo e desejar paz no mundo. Filipe de Espanha e Isabel de Inglaterra, por exemplo, para além dos alfinetes ao peito - cada um no seu género - revelam ter em comum a noção de parcimónia que impede que os cônjuges façam mais uma vez figura de parvos, sobretudo quando um deles já morreu.

Por norma as soluções encontradas pelos assessores de imagem dos Presidentes não são, de todo, satisfatórias e não são aceitáveis quando se tem de ajudar a convencer os povos que as suas vidas não foram criogenadas.  

Tornaria tudo incomparavelmente mais dinâmico se se juntassem todos os presidentes e restantes cabeças coroadas num estúdio a entoar We Wish You a Merry Christmas. Seria interessante tentar distinguir os mortos dos vivos e talvez em polifonia passasse despercebido o facto de todos nos cantarem a mesma coisa em todos os natais da nossa história.  

    

A Gaffe vitrinista


O meu casaco é azul-escuro, um marinheiro genuíno, de trespasse, com botões dourados envelhecidos com âncoras gravadas. Visto-o e empurro os rebuços de modo a que me protejam a nuca das navalhas do frio e desço para vaguear pela Avenida deserta. Do lado do mar, que do outro as montras titilam e tilintam com luzinhas frouxas de Natal e neve em spray a desenhar felicitações aos passageiros.

Do lado do mar faz frio. Gela-nos o nariz. Faz-nos parecer eternos constipados.
Uma mulher de cabelo solto e grisalho apanha pedras na praia e guarda-as num saco. Pedras ou conchas, que daqui não vejo.
Um homem novo corre pelo trilho das bicicletas de calções de Lycra pretos e t-shirt molhada, medindo o tempo no cronómetro.

A praça em frente ao Porto Doce é pequena, quase nua e circular, cinzenta e bege, com bancos pintados de vermelho. Gosto da Praça, mas não gosto do café que fica em frente com aquele nome adocicado. Gosto de ficar ali, parada e sem pensar em nada, a ver os trolhas velhos que descarregam vidros e os seguram com as palmas das mãos abertas e gritos de aviso. Gosto da rapariga que passa por mim e me sorri com os olhos, aconchegando os rebuços do casaco que não é marinheiro genuíno, mas que vem do mar e é azul também. Tem dois livros na mão e luvas de malha cor-de-rosa. Gosto dos cães que o senhor de bombazina traz pela trela e que urinam nos pneus dos carros depois de os seleccionar criteriosamente. Gosto do meu casaco com rebuços que me recolhem os olhos.

No ano anterior, no oculista caro, o cenário era atroz. Na montra tinham recriado um sem-abrigo usando um boneco deteriorado, com uma barba miserável, pintada a marcador e um gorro na cabeça. Deitado num banco, coberto com uma manta escura com riscas vermelhas, a olhar, morto, para nada, com cascatas de luzinhas e estrelas em redor. No chão os espampanantes Just Cavalli e mais neve em spray.

No ano anterior, na época alta da solidariedade, a olhar esta montra, reconheci a existência de criaturas que amesquinham a própria infelicidade e o desmesurado rancor despeitado com que atacam o sorriso dos outros. Como pietás de pechisbeque, agarram com metáforas e elegias piedosas os sem-abrigo, os míseros, os abandonados à demência, os velhos em farrapos, os mendigos, os exilados, os párias e todos os que encontram nas esquinas mais sombrias da tragédia e como viúvas beatas de Ebenezer Scrooge transformam-nos em macacos, em bonecos atrozes, expostos nas montras das vidas de quem passa, como esconsa vingança infectada por um doentio ciúme das luzes nos olhos dos outros, como se a miséria que macaqueiam desta forma tivesse uma época alta onde a obrigatoriedade de tomarmos consciência da morte e da desumanidade fosse sazonal e, como na época dos saldos, fosse imperiosa a correria desenfreada, de terço ao pescoço e cilício na alma, às catacumbas da infelicidade empática. Só porque é Natal.

Fazem da miséria humana um macaco de montra de oculista.

Visto o meu casaco, um marinheiro genuíno, azul-escuro, de trespasse, com botões dourado envelhecido e volto à minha Praça, nua e quase circular.
Já não existe a mulher de cabelo solto e grisalho. Já apanhou todas as pedras. Pedras ou conchas, que daqui não vejo bem e os sem-abrigo ficaram sem dois abrigos por falta de condições de habitabilidade. 

Sinto um orgulho desavergonhado em ser feliz.

24.12.21

A Gaffe apressada

Norman Rockwell

Tenho de passar por aqui numa fugida!
Ando divertidíssima numa azáfama absurda a fazer compras de Natal.
Adoro, adoro, adoro fazer compras.

Uma rapariga esperta gosta tanto de fazer - compras -, como de ter orgasmos múltiplos. Como são raríssimos os rapazes que os conseguem provocar sem acabar por desmaiar em serviço, uma menina tem de desatar a gemer de prazer, com a alma no clítoris, no centro da Gucci ou ao balcão da Dior.

Feliz Natal a todos, nem que seja apenas um Natal desfeito em compras, já que de orgasmos divinais e em cadeia, nós raparigas exigentes, estamos conversadas.

A Gaffe do Aniversariante


A Gaffe e o Presépio

24/12/2013
(ao meu avô)

Levou três anos a ser recuperado.

A minha avó, com luvas brancas de feltro, retira dos invólucros as pequenas figuras. Escolheu o móvel japonês lacado com incrustações de madre-pérola, para pousar as relíquias.

Despojou-o. A superfície negra, lustrosa, polida, acolhe as texturas resgatadas das imagens.

Quase três séculos depois, as três figuras abrem-se no esplendor do início.

Queres ajuda, avó? – Tenho tanto medo de tocar no tempo!

- Quero que retires da caixa mais pequena os querubins.

Os querubins adormecidos. De asas fechadas a ouro folheadas. Um e outro. Medo a medo. Nas minhas mãos o tempo adormentado, entregue devagar a outro tempo.

Inamovível, intocável, imperecível a Senhora inclina o rosto de marfim para a criança que sustém ao colo. Senhora de marfim e talha de ouro. Senhora de José, ao lado, no lado que os protege.

Eu fico muda.

Pousa-os, minha querida. Pousa os teus anjos aos pés de quem quiseres.

 

Aos teus pés, avô.

O dormir do Tempo e o dormir da Morte aos pés do meu avô fecharam asas.

A Gaffe e o dress code

A camisola de malha grossa de Natal do meu avô era vermelha com uma barra larga branca no peito por onde saltitavam renas cor de camurça de guizos minúsculos ao pescoço, bonecos de neve com sorrisos de lã perto de dezenas de árvores de Natal repletas de pequenos pompons coloridos e de estrelas verdes que emolduravam o friso. Tinha flocos de neve espalhados por todo o lado.

O meu avô usou-a durante décadas na véspera e no dia de Natal, perante a discreta reprovação da minha avó negada pelo olhar e sorriso doce com que o brindava mal o sentia distraído.

A camisola era inevitável como o presépio, como as velas, as coroas de azevinho ou o pinheiro que coroávamos sempre à meia-noite.

A camisola do meu avô fez parte do Natal da minha família durante toda a minha vida. Era tão inevitável como um cântico ou como os laços nos presentes. Era tão esperada como a visita do Pai Natal ou como o fogo na lareira ou como aquela noite sempre gelada no Douro ou como a imensurável felicidade do desembrulhar dos presentes.

Sentado à cabeceira da mesa natalícia o me avô tornava-se o maestro do Natal e nada, absolutamente nada, me oferecia tanta segurança, tanta certeza, tanta amenidade e bonomia, tanta felicidade e paz do que ver as renas a engordarem à medida que os Natais passavam.

Este Natal o meu avô não vai poder usar a sua camisola.

Sou a neta mais nova.

Neste Natal o meu mais querido presente, chegado nas mãos da minha avó, vai ser a velha camisola vermelha de lã grossa com uma barra branca e enfeitada.

Neste Natal vou usar a camisola do meu avô e todos os meus natais futuros terão a velha camisola a orquestrar a ceia. Serei a maestrina da saudade.

Queria tanto que neste Natal, por todas as avenidas deste mundo, passassem cachecóis de malha grossa, vermelhos com cristais de gelo, camisolas e gorros com pompons e estrelas e flocos espalhados, luvas vermelhas com pelinho branco, casacos com renas estampadas e árvores de Natal em todas as bainhas e brilhos verdes de azevinho entretecidos nos fios e nos laços que prendem os cabelos!

Nenhuma guerra teria continuidade, nenhuma batalha se iniciaria, nenhuma questiúncula poderia resistir se as ruas se enchessem de camisolas de Natal como a do meu avô.  

23.12.21

A Gaffe nas comprinhas de Natal


Rapazes!

Não são, de todo, recomendáveis as vossas críticas mordazes e humilhantes às escolhas femininas, por mais ridículas que estas sejam.

É que há sempre a hipótese de serdes uma delas.    

 

A Gaffe com um Natal antigo

Para fazer esvoaçar por todo o lado o espírito de Natal é essencial ter em conta alguns pormenores indispensáveis ao voo da fantasia e ao trenó que atravessa as nossas mais queridas memórias de lareiras e de laços, de neve e de presépios.

1 - Comece por ouvir de imediato as extraordinárias músicas que adornaram já milhões de árvores natalícias. Não deixe que o espírito do Natal seja mais rápido do que a música. Ouça os clássicos. Faça coro!

Eis alguns dos meus favoritos:

- White Christmas - Bing Crosby
- The Christmas Song - Nat King Cole
- Holly Jolly Christmas - Burl Ives
-  It’s Beginning to Look a Lot Like Christmas - Bing Crosby
- Sleigh Ride - Johnny Mathis
- The Most Wonderful Time of the Year - Andy Williams 

Merry Christmas - Johnny Mathis
The Spirit of Christmas - Ray Charles
The Best of Christmas Cocktails - UltraLounge (com uma maravilhosa versão de Sleigh Ride);
Christmas Portraits - The Carpenters 

2 - Assista a alguns desenhos animados de Natais antigos! Quando a Gaffe era criança perdia-se enlevada com:

 Christmas Comes But Once a Year 

Rudolph the red nosed reindeer 

que o avó guardava, entre tantos outros, numa velhíssima cassete VHS;

3 - Os menus natalícios são parte integrante da felicidade. Saboreie um pouco de chocolate quente ou de gemada (no Douro a gemada de Natal é tão perfeita!). Arranje tempo para confeccionar e saborear as pequenas maravilhas culinárias desta época. Acenda uma lareira, desfolhe o encanto de um bom livro e saboreie o Natal feito de biscoitos em forma de árvore ou de duende (ou procure na net a receita de gemada de George Washington);

4 - Assista a um filme de Natal. Já os viu um milhão de vezes, mas nunca deixam de lhe atar fitas de cetim e de cristal ao coração. Aqui estão alguns que lhe oferecem uma belíssima dose de espírito natalício:

 -  It’s a Wonderful Life de Frank Capra

-  A Christmas Story de Bob Clark
-  A White Christmas de Michael Curtiz
-  National Lampoon’s Christmas Vacation de Jeremiah S. Chechik
-  A Miracle on 34th Street de George Seaton
-  Elf de Favreau
-  Peanuts’ Christmas Special com o maravilhoso Charlie Brown;

5 - Leia alguns dos clássicos livros de Natal. Toda a família se reunia (a Gaffe era minúscula) na noite de Natal para ouvir o avó ler. Mesmo agora a Gaffe não perde uma oportunidade de folhear o encanto perto da sobrinha pequerruchíssima (adora A noite antes do Natal - Twa the night before Christmas - de Clement Clake Moore, mesmo sem entender uma palavra!);

6 - Olhe para as luzes de Natal. Seja absoluta e desmesuradamente deslumbrado e não tenha o mínimo pudor em ser piroso;

7 - Construa uma árvore com luzes e brilhos e cores e cheiros de Natal e partilhe-a com alguém. Não se esqueça de desenhar com giz branco na parede, no passeio ou numa rua, um trenó ou um cavalo ou uma rena e afirmar com toda a convicção dos brilhos das estrelas que será através do que riscou que o Natal chegará a quem está ao seu lado.

8 - A ideia moderna de Natal pode ter tido início com A Christmas Carol de Dickens, mas não importa muito, porque há sempre um teatro perto de si que leva à cena uma história que não envelhece nunca, porque se enlaça e se prende nos contos de Natal. Nenhuma história destas pode ficar sem palco;

9 - Tente ser feliz e sobretudo tente que este Natal se transforme numa belíssima memória de alguém que encontrou por acaso. 

A Gaffe com arroz-doce

Árvore de Natal artificial ou natural?

Enfim, faz-se o que se deve. Quem não tem cão, caça com o gato.

Natal com neve ou sol?

Já só peço um frio de fazer congelar o Pai Natal sobre a minha chaminé.

Esperar pela manhã ou abrir os presentes à meia-noite?

Abrir presentes à meia-noite. É uma meia-noite absolutamente mágica que faz com que qualquer presente brilhe nos olhos de quem o ofereceu.

Qual o filme que adoras ver nesta altura?

Mas há televisão nesta noite?! 

Cânticos de Natal no Shopping. Sim ou não?

Se falamos do coro de Santo Amaro de Oeiras, nem nos elevadores.

Qual o uniforme que usas no dia de Natal? Pijama ou vestes-te toda bonita?

Visto-me muito melhor porque uso a tradicional camisola de Natal que herdei do meu avô. Sou uma menina de uma família muito conservadora que não aprecia fatos de fibra e pêlos artificiais à mesa da consoada.  

Qual a tua comida de Natal favorita?

Batatas cozidas com bacalhau, ovo, cenouras, couves e alho esmagado, tudo regado com uma dose descomunal de azeite, comme il faut!

O que queres receber este Natal?

O que está dentro do coração de quem tenho dentro do meu e a notícia de que não é o meu irmão a decorar a árvore.

Planeias antecipadamente os presentes de Natal ou é à última hora?

Deixo tudo nas mãos do espírito de Natal e convenço-me sempre que vou encontrar o presente ideal para toda a gente mesmo ouvindo já os guizos do trenó natalício.  

Qual a tua música favorita de Natal?

Frank Sinatra e I’ll be home for Christmas e todas as outras que me lembram um Natal antigo, ou todas as que cintilam em todos os natais das ruas de todas as vilas e cidades.

Onde vais passar o Natal este ano?

No Douro, como sempre, ao lado de mais de duas dezenas de paixões espalhadas pela família.

A Gaffe sem brilhos

Segundo os especialistas em neuromarketing - eu sei, há profissões sinistras -, com a concordância de neurocientistas de renome e muito sumariamente dito pela Gaffe, os diamantes são realmente os melhores amigos das mulheres.

Não é necessária a parangona publicitária dos primeiros, nem a comprovação científica dos segundos. Uma rapariga que prefere um deslumbrante ramos de flores a uma gargantilha de brilhos preciosos, ou não é, de todo, esperta, ou está definitiva e irremediavelmente apaixonada - o que em muitos casos é redundância.

O brilho desperta regiões cerebrais que impulsionam o consumo.

Subornamos, traímos, mordemos, sacrificamos e lancetamos o coração de quem quer que se aproxime dos brilhos afiados e ofuscantes que vemos, quase cegas, a cegar-nos.
Compramos mais, se encandeadas.

Creio que o mesmo acontece com os masculinos carros a que a testosterona junta uma parafernália de luzes.

Por isso, seguida devidamente pelo neuromarketing e pela neurociência - sou um rapariga de boas companhias -, declaro oficialmente de uma pobreza incomensurável e sério contributo para o agravamento da crise, as ruas do Natal 2016, paupérrimas de brilhos de milhares de luzinhas pirosas e pindéricas a tremeluzir, a cintilar e a luciluzir, em cima da nossa apagada esperança já sem fio nem tomada.   

22.12.21

A Gaffe seis ano depois

A Gaffe sem palco

22/12/2015


Tens de sair da vida a agradecer os aplausos.

Se ainda não os ouves, ensaia mais ou então veste-te melhor.  

Avó


Dentro dos olhos fechados ardem luzes.
As luzes que as mulheres de luto teimam em pendurar na árvore, porque é Natal fora dos seus olhos.
É Natal nas árvores, nas balaustradas, nas coroas de azevinho que cresceu desenfreado e tem de ser cortado para que sem freio cresça uma outra vez e uma outra vez se enfeite em coroa com as luzes que as mulheres de luto teimam em suspender nos olhos abertos mesmo quando há sono.


Ficam sempre atentas às luzes dentro das pálpebras que fecham.

Deixai o escuro cerrar pelos olhos dentro, deixai a noite inteira e negra e negra e negra, porque é despudorada a luz cá fora e não sei adormecer com sono e não se apagam dentro as labaredas.

21.12.21

A Gaffe acalentada



Ainda com estilhaços brancos e gelados de Natal presos aos dedos, é forçoso que nos aproximemos das lareiras, próximas ou longínquas, ainda que ignoremos as direcções das chegadas, ou o modo mais dócil de derreter o gelo.

O importante é perceber que nem todas as partidas implicam um destino certo e arquitectado, mas que todas devem ter a noção de que nenhuma lareira se acercará de nós. É o rumo que tomarmos que tem de passar pela nossa deliberada aproximação ao calor que delas surge.

A Gaffe a postos

21/12/2025

Niilas Nordenswan

Está tudo pronto.

Sinto-me finalmente tranquila e capaz de me deliciar com o único rasgo de talento publicitário que me seduziu. Longe de historietas de ratazanas, longe de narrativas de famílias felizes e de duendes de pacotilha, deixo-me seduzir pelo anúncio de um carro. Um Mercedes escarlate que segue na cauda de um leque de tantos outros prateados, guiado pelo Pai Natal que trava a comitiva para que um dos presentes, um cachorrinho, possa pudicamente levantar a patita atrás de uma árvore. Uma ternura narrada de forma excelente e capaz de tocar todos os públicos.

Finalmente sou capaz de serenar.  

Está tudo pronto.

As decorações de Natal restringiram-se ao máximo. Nas jarras há troncos belíssimos de azevinho cortados da árvore que endoideceu e se agigantou encostada à parede da casa. O presépio pousado de novo no móvel de laca preta e a coroa de Natal, poderosa, a pesar toneladas, a encabeçar a lareira da sala onde se jantará. Foi necessário usar o prego fortíssimo que sustinha o espelho. É uma coroa maciça de porcelana branca, enorme, construída de pinhas e de folhas de carvalho entrelaçadas. Disseram-me que os dois elementos representavam as Boas-vindas e a Fidelidade. Nem sempre estão unidos. A parede nacarada atenua-lhe o impacto, mas sei que o fogo, mais tarde, lhe entregará reflexos dourados, ruivos e azulados.

A ementa preparou-a a Jacinta. Ninguém - jamais - se atreve a invadir-lhe as decisões culinárias.

Na minha frente, o meu Amigo lê.

Tem pousado no braço do cadeirão um volume grosso que vai consultando à medida que o livro que vai folheando origina dúvidas.
Mancha sempre o soalho de madeira com as botas sujas de jardim. Deixei de lhe pedir para ter cuidado. Ouço-o sempre pedir desculpa e arrancar a esfregona das mãos de quem limpa para envergonhado suprimir a falha. Vai voltar a sujar tudo de novo e vai voltar a suplicar perdão agarrado àquilo. Comporta-se como o Natal. Entra e macula com as botas o soalho da casa, senta-se depois na minha frente e entrega-me a mais surpreendente das serenidades, apaziguando o espaço preso nas folhas. Nas folhas de uma coroa de porcelana branca.

Começaram a chegar desde ontem.

A casa está em sossego, apesar de tudo.

A minha irmã chegará mais tarde. Minutos antes da ceia.

Travará o carro, abrirá a porta e deixará o perfume sair para alçar a pata na árvore endoidecida de azevinho. 

A Gaffe e a árvore de Natal


São amorosas as propostas de árvores de Natal que surgem por tudo quanto é lado!

Elas são de tábuas, de vidros, de canudos de papel higiénico, de novelos de lã, de garrafas vazias de whisky - neste caso é compreensível o desarranjo -, de papelinhos, de luzinhas suspensas, de retratos de família, de rolhas, de espuma, de embalagens de gel de banho, de livros coloridos, de cestos de fruta, de pauzinhos secos, de peluches e de tudo o que nos queiramos lembrar.

Um universo de criatividade sempre disponível no Natal.

Normalmente é um aborrecimento reproduzir na sala estas propostas. Nunca ficam tão radiosas como as das fotografias e enchemos os dedos de cola que custa imenso a sair e dificulta o trabalho à manicure. Quem não for talhado para a bricolage é brindado com um pesadelo natalício.

Meus caros, aquilo que nos mata de trabalho deve vir já feito. É por alguma razão que os chineses vendem árvores de plástico já decoradas.

É uma maçada desatarmos a recolher coisinhas para construir o que se pode perfeitamente comprar já completo num armazém qualquer. Poupamos imenso tempo que depois podemos gastar a escolher os presentes.

As árvores de Natal originais, muito recicladas, muito in, que a nossa vontade de inovação apanha fotografadas, são como os cigarros que se preparam a uma esquina deprimente da vida. Existem já prontos, empacotados, matam da mesma forma, só que são mais baratos.

Uma árvore de Natal tem de ser o tradicional e gigantesco trambolho verde vestido de luzinhas, bolinhas, fitinhas, estrelinhas, anjinhos e tralha a brilhar, capaz de fazer tropeçar a travessa das rabanadas que se esqueceu que o gigantone se tinha erguido há uns dias pelas mãos calejadas do Natal das nossas memórias.      

A árvore de Natal tem de ser verde, gorda, farfalhuda, grande, maternal, profusamente enfeitada com insignificâncias que cintilam, quente, refulgente, envelhecida e ficar espapaçada na sala a ocupar o lugar da poltrona da avó.

O resto é mariquice, mas se não concordam comigo, meus queridos, podem sempre experimentar a proposta que vos deixo.


A Gaffe a planear o Natal


- Recordo-te que a tralha natalícia é como o Jeffrey Epstein. Não se dependura sozinha.

Mana

20.12.21

A Gaffe dos quatro andamentos

20/12/2015

Primeira neta


Quando os netos atingiram os dezoito anos, a avó ofereceu-lhes a mesma coisa:

Às raparigas uns brincos. Ao rapaz uns botões de punho.

Os brincos variam no formato. Os da minha irmã, por exemplo,são um rectângulo de brilhantes que suportam uma belíssima pérola.

A minha irmã perdeu um.
Gemeu, ginchou, berrou, ganiu, chorou... e finalmente, para aplacar a consciência, declarou que tinha sido roubada. Quando quer, consegue ser uma psicopata obcecada, maníaca e compulsiva. É mais simples assim e nada de inusual nesta família.
O brinco, um e não o par, só podia ter sido furtado evidentemente por Van Gogh. A avó, dias depois, encontrou-o abandonado e declarou que o iria colocar num dos lugares mais inacessíveis deste Universo, à prova de toda a tentativa de roubo, perda ou desvio.

A Bórgia pertencia à minha avó e era a mais medonha doberman do planeta. Assassina em série, feroz, voraz e aterrorizante, babava ódio por tudo o que se mexia dentro do seu larguíssimo território. Premiada, Miss, Campeã e com mais pedigree do que toda a minha família junta, Bórgia apenas obedecia à voz da minha avó e dilacerava tudo e todos que por incauto lhe roçavam levemente o corpo.

Era inevitavelmente presa quando havia visitas, mesmo aquelas que a cadela devia considerar habituais. Ninguém se atrevia a arriscar.

Bórgia era uma assassina nata.

Tínhamos o vício de a irritar, mal chegávamos. Sabíamos que as grades nos separavam dela e que a fúria aterrorizadora da cadela mordia apenas o ferro.
Na nossa última visita, a surpresa emudeceu-nos.
Nada nos fez provocar a cadela que nos desprezou com olhos papais.
O nosso espanto, a nossa mais desmesurada surpresa, a nossa mais paralisante estupefacção, foi ver numa das orelhas demoníacas de Bórgia, cintilar um dos mais belos brincos de Cartier, um rectângulo de brilhantes a guardar a pérola. Bórgia pavoneava-se indiferente e sobranceira.

A minha avó tinha pedido ao veterinário que colocasse com segurança acrescida o brinco na orelha do demo.

- Como vês, minha querida - murmura a avó ao ouvido da minha irmã paralisada -, mesmo sabendo que lhe falta um brinco, a cadela porta-se como uma senhora.

Segundo neto 

Convenceu o meu irmão, manipulando os meandros do mundo e do submundo desta família, a passar aquele Natal connosco.

- É evidente que sair nesta altura não faz sentido nenhum, meu querido. Gosto sempre do seu presente e é sempre um prazer ver que não gosta do meu. – Informa a minha avó, ratando bolachinhas minúsculas de chocolate e noz que vai abandonando quase inteiras no pires de porcelana branca.

- Mas eu gosto sempre do que me ofereces, avó! – embaraça-se ao recordar o álbum pesado com fotos ternurentas da meninice onde houve a preocupação de recolher aquelas em que aparece SEMPRE nu. A mais trágica é a que o foca no jardim ao lado da minha avó de tesoura de jardinagem em punho, pronto a destruir todas as ramagens, e onde, minúsculo, tenta ocultar as mais íntimas promessas de futuro com uma camélia branca.

- Ah!, meu querido, esse álbum! Não imagina o prazer que me deu a recolha que fiz. Pena é que tenha deixado de ter material a partir dos seus dez anos.

É chegada a altura de se fazer silêncio.

- Embora, é claro, a minha provecta idade me dê acesso a várias gavetas que outros pensam fechadas para sempre.

- Avó!

- Sim, meu querido?

- Avó!

- Confesso-lhe: nunca deixei de o seguir com toda a atenção e mesmo desalmado orgulho.

Começa a afligir-se.

- E já que mencionou a foto da camélia oportuna, devo dizer-lhe, meu rapaz, que, pelo que me foi dado ver, vai precisar agora da japoneira toda para reproduzir a pose.

Nesse ano o meu irmão decidiu orientar as limpezas de Natal. Começou pelas gavetas e acabou no telemóvel.

- Avó - sussurro-lhe ao ouvido - não acredito que haja fotografias… dessas.

- Há sempre, minha querida. Os rapazes não resistem a fotografar porcarias e é sempre agradável ver o seu irmão preocupado a arrumar o quarto.

Terceira neta  

Era já velho quando, ainda adolescentes, passávamos o Natal em casa da minha avó e o desafiávamos com uma crueldade sem perdão.

Na altura o jardim gradeado ainda não tinha as sebes adultas que depois protegeram o interior e o Volante parava sempre, esfarrapado e sujo, quase nauseabundo, para espreitar as raparigas ou para receber às escondidas os pequenos cabazes de fruta, pão, carne e enchidos que lhe entregavam com o cúmplice desconhecimento da minha avó.

Enfurecia-se aquele homem, desbravado, eriçado e tresloucado quando, por distracção ou propósito, lhe chamavam Volante.

- Oh! Volante! Chega aqui, homem! – e o velho sacava de uma faca romba e esgadanhava-se transformado em insultos, guinchos e gritos e pinchos de estarrecer o demo. Capaz era ele de arrancar e espezinhar a alma a uma qualquer criatura que lhe ouvisse aos brados.

Tínhamos sido proibidas de lhe acicatar o ódio. Obedecíamos. O Volante passava pacífico recolhendo os cabazes escondidos, até a minha prima ter engendrado um modo mais cruel ainda de lhe morder a miséria. Mal o via ao longe, a rapariga corria à maior janela que dava para o jardim, abria as portadas e de dentro imitava o ruído de um carro, guiando-o de braços estendidos e mãos presas e fincadas num volante inventado.

- brrrrrummmm, brrrrrrrummmmm ….hummmmmm… – roncava o motor que não havia.

O homem estarrecia. Olhava e via-lhe as mãos rodando um aro de nada e percebia. Desmanchava-se na fúria habitual. Cuspia insultos. Parava a estraçalhar palavras e impropérios. A minha prima parava, agarrada a um travão de mão do carro na janela.

- hiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!...

O homem aquietava-se e sem cabaz lá ia. E recomeçava o roncar do carro:

- brrrruuuuummmmmmmmm….

De novo mais insultos, mais gritos e peçonha.

- hiiiiiiiiiiii….

Até perder de vista.

A crueldade parou quando a minha avó encontrou a terceira neta, à janela, empoleirada numa cadeira a gesticular e a roncar já como um calhambeque.

Foi a primeira e a única vez que vi a minha avó esbofetear alguém.

Nunca mais o vi. Das poucas vezes que perguntei por ele, recebia parco troco. Que estava bem, que tinha conseguido comprar uma casita com um terreno fértil, talvez herança que veio sem contar, que passava por vezes por ali a cumprimentar. Mais nada e eu esquecia.

Volante morreu.

Dei a notícia à minha prima por telefone, logo de manhã, poucas horas depois do acontecido. Manteve-se em silêncio durante um curto tempo e depois confessou o mais inesperado:

- O Sr. Jorge escrevia-me todas as semanas. Eu sabia que estava a morrer. Diz à avó que cumpri durante todos estes anos o que lhe prometi naquele dia.

Desatou a chorar e desligou.

Soube depois, pela minha avó, que todos os meses o Banco transferia de forma automática da conta da minha prima uma soma considerável para uma outra conta titulada por um Jorge Ferreira, o Volante que morreu. 

Quarta neta

As sardinheiras de Espanha no jardim e o colar de pérolas pousado sobre o livro, no banco de madeira e de almofadas.

- Não lês, avó?

Não lê. Sente a saudade a confundir palavras e as sardinheiras soltas a morrer de velhas.

- Eu vou tratar das flores, avó. Eu vou cortar os canos que não servem.

Mas ela sabe. Sorri e pousa as mãos no livro, enrola os dedos no colar de pérolas.

- Primeiro dá-me um beijo, minha querida.

Beijo-lhe as mãos.

- Sempre foste a minha neta preferida. Sempre foste. Que Deus me perdoe, sempre foste.

Estou de joelhos e tenho um punhal cravado na garganta.

- Vou ler para ti, avó.

- Não, minha menina. Tu és a única palavra que eu quero ouvir agora.

As sardinheiras de Espanha no jardim e um colar de pérolas na alma.

A Gaffe num quinto andar

George Tooker

No passado dia 17 de Dezembro um homem de 59 anos tentou matar a mãe, de 96, com um cocktail de medicamento, depois à facada e por fim por estrangulamento. A senhora tinha-se recusado a passar o Natal em casa de um outro filho surgido do nada.

Quando pensava que a idosa já estava morte, subiu ao terraço do prédio onde ambos residiam, na Maia, e atirou-se de um quinto andar.

O filho morreu, a nonagenária sobreviveu e está livre de perigo.

Viviam ambos num andar do rés-do chão. A senhora necessitava de auxílio permanente do filho desempregado que lhe garantia as refeições, os medicamentos, a higiene pessoa e tudo o mais que não se sabe dizer por ser tão trágico, durante anos e anos e anos a fio, sem descanso, sem férias, sem intervalos, sem esperança, sozinho e sem qualquer apoio das entidades oficiais, institucionais, governamentais a que recorreu insistentemente durante dez anos.

O homem permaneceu no telhado durante uma hora – durante uma hora. Deuses! durante um hora sozinho com a morte num telhado de um quinto andar! - antes de se atirar e morrer no embate com o solo. A mãe que nunca quis realmente matar – se o quisesse, os 96 anos e a grave dependência facilitariam o crime – sobreviveu.

A vice-presidente da Associação Nacional de Cuidadores Informais – quem ocupa o trono da presidência não se pronunciou -, ironicamente chamada Maria dos Anjos, Maria do Anjos Catapirra, defende que a pandemia – a tão oportuna e ilibadora pandemia - agravou os problemas e a falta de apoio estatal torna-os fatais, empurrando os cuidadores para o burnout e para os telhados de um qualquer quinto andar.

A Catapirra não se demite, não pega na voz e não desata a denunciar publicamente tudo o que não a faz levantar o cu da cadeira, como é uso dizer-se pelas bandas dos velhos.

É evidente que nem a Catapirra, nem o Estado, podem ser acusados de homicídio por negligência, ou mesmo por incitamento ao suicídio. Seria desagradavelmente inútil e talvez penosamente injusto, mas tenho de confessar que não me importava que esta tragédia em carne viva, assombrasse e destruísse o Natal da Catapirra e que o cadáver deste homem ruísse de cinco em cinco minutos na mesa de consoada dos senhores que legislam e zelam pelo bem-estar dos cuidadores informais.

Na minha mesa vai tombar. Tenho a certeza. 


19.12.21

A Gaffe do Pai Natal

19/12/2015

A chaminé da lareira principal, a da sala grande, onde por decisão superior - e ao contrário do habitual -, se realizará a ceia de Natal, começou a tossir.

Uma tosse seca, mas muito discreta, quase imperceptível se não fosse o fumo que, coitada, não consegue expelir e que assombra a sala como um fantasminha cinzento e suave.

O rapaz foi chamado – por insistência minha -, que a do quarto desta frágil menina é secundária e o funil - o filtro, a chaminé, o tubo, a canalização... Oh!, mas quem se interessa?! - está ligado a esta e como se acende pouco, quando se acende faz tossir a velha.

Como são previsíveis os braseiros jovens!


Vergou o tronco para trás e de pilha acesa mergulhou a cabeça no escuro. Virado para mim ficou um corpo arqueado, sem cabeça, de braços erguidos e um dos umbigos mais perfeitos da minha vida inteira.

- A menina quer ver como está tudo bem por aqui?

Estava tudo tão muitíssimo bem por ali!

Há instantes para tudo. Se deixamos escapar um, seja ele qual for, alteramos o rumo às histórias que vivemos e apesar de ser opção do momento espreitar o abismo confirmando que estava tudo tão bem, escolhi debruçar-me sobre o espírito, deixando a carne de lado e concluí, após meditação em larga escala, que todas as raparigas espertas deviam ter a possibilidade de ver descer pelos tubos um Pai Natal que preenchesse os requisitos exigidos pelas suas quadras mais privadas.

É aborrecidíssimo ter sempre um velhote obeso e bonacheirão, pontilhado por suspeitas de pedofilia, a tentar oferecer-nos coisinhas embrulhadas com papéis fofos, com laçarotes e velinhas. Não é empolgante ter a descer pelos tubos um enregelado ancião gorducho, de sorriso largo e barba longa e crespa, agarrado a caixinhas coloridas que trazem tantas vezes dentro a desilusão encharcada de espírito natalício.

Todas as raparigas espertas - as outras ficam felizes com a oferta de uns gorros, de uns arranjos, de uns pechisbeques, de umas peúgas, de uns cachecóis cheios de carinho e amor, compreensão e ternura, dedicação e simbolismo, doçura e simplicidade e todas essas coisas lindas, muito lindas, muito lindas -, deviam ter o direito de seleccionar o Pai Natal que as visitaria nesta quadra repleta de paz e de gente da família.

O rapaz da chaminé de justo macacão vermelho e golinha de zibelina, de botifarras lenhadoras, músculos santificados, um dos melhores umbigos que vi em todos os meus parcos natais e carradas de testosterona no saco das prendinhas, estando já enfiado no lugar devido, podia facilmente alegrar a consoada, mesmo descendo de mãos a abanar.

Nós, raparigas espertas, sabemos que o que conta sempre são as intenções.

18.12.21

A Gaffe e os sons de Natal

Fernando Vicente 

Gosto do Natal!
Não sou uma consumista do tipo obsessivo-compulsivo, mas acabo nesta época por dar sempre um passo maior que a perna - o que será difícil, tendo em conta a altura das ditas e o foguete com que sempre me desloco.Mas o que me faz tiritar de contente são as melodias que acompanham esta quadra e até me arrepio ao trautear os Wham e o seu idiota:

Last Christmas, I gave you my heart
But the very next day, You gave it away
This year, to save me from tears
I'll give it to someone special



Um facto que não engrandece, não prestigia e não abona a favor de uma rapariga esperta.

O que me irrita é o hipotético bon chic, bon genre que consiste na escolha para animar as consoadas de canções tradicionais cantadas pelo meu dilecto Sinatra ou pelo meu elegantíssimo Bing Crosby. Sei que não há nada que se compare ao charme discreto destes queridos, mas estes senhores melam-me a quadra e provocam-me uma tristeza pouco compatível com o meu temperamento. Ao ouvi-los fico extenuada e a pensar que não mereço presentes porque me portei como uma menina má, péssima, horrenda e capaz de fazer com que o Pai Natal entre em coma ao ver o rol dos meus pecadilhos.

No Natal quero poder ser ridícula, dançar ao som de idiotices e cantarolar as mais destravadas e pirosas cançonetas disponíveis no mercado, apenas vestida com um baby-doll de veludo encarnado debruado a arminho, meias grossas de lã branca maciérrima, com um gorro que termine em dois metafóricos pompons traquinas e com flocos de neve a tombar como pano de fundo.

17.12.21

A Gaffe mais papisa que o Papa

Tim Flach

Sua Santidade faz hoje anos. Uma data deles.

A Gaffe recorda com imensa ternura o dia em que o Cardeal foi escolhido.

Lembra-se que correu desenfreada quando anunciaram que já tinha sido eleito o Papa. É sempre uma ocasião em que uma rapariga pode correr e esbardanhar-se sem contudo perder a dignidade.

Confessa que pensou, tal a quantidade de fumaça branca expelida, que os senhores velhinhos tinham vestido o eleito e, já confusos, o tinham enfiado no incinerador. Mais um bocadinho e tínhamos a Praça inteira a tossir e a ser levada em maca.

Depois, foi uma desilusão constrangedora.

O Papa aparece à varanda franciscanamente despojado.

Maçamo-nos até à exaustão com críticas mordazes e malditas, muito pouco beatificáveis e nada abençoadas, relativas à opulência, ao luxo e ao fausto do representante de Pedro. Se a estola é desenhada por Armani e se os sapatinhos, não sendo os de Oz, são Prada, desabamos de indignação e saltamos de revolta pia e de hipócrita repulsa com um sabor ligeiramente populista, mas entristecemos quando nos aparece de braços caídos e barriguita empinada, um papa sem capinha debruada a arminho e sem estola cravejada de joias e bordada a oiro pelos operários explorados de um costureiro charmoso, caro e consagrado.

Creio que Francisco de Assis ou Xavier - cada um arrasta a sardinha para a sua brasa - e uma ou outro fashion adviser de reconhecida sapiência na área da trapalhada, mesmo a dos trapos santos, aprovam a sobriedade minimal do Pontífice que é o máximo, mas a Gaffe, que é imbecil, pecadora e deslumbrada, esperava um Francisco de tipo arquiduque, com capinha de veludo vermelho, encarnado, carmim ou cardinal - cada um escolhe a cor da cereja que remata o bolo -, bainhas de arminho assassinado - a Gaffe sai à sua santa avó, pouco ecológica quando há Papas pelo bosque -, estola magnífica a curvar-lhe o pescoço com o peso do poder dos ornamentos e báculo de nobre metal na mão que suporta o anel divino.

Resmas de doçaria conventual para se expor e saiu-nos uma espécie de jesuíta.

16.12.21

A Gaffe e um monge


Esta é uma das imagens que durante esta quadra se torna das mais triviais por estas bandas.

Normalmente inicia a época de posts natalícios e faz subentender que debaixo de um rude, quase ameaçador e duro rapagão, pânico de beatas e de monjas, se oculta toda a doçura, que permanece intacta, de um imaginário infantil nunca apagado.

Agrada-me pensar que este é também o retrato de um abandono protegido e temporário do chamado espírito do Natal, o fim de festa de uma fantasia sazonal e que constitui uma certa recusa insinuada do irritante O hábito faz o monge.

Por muitos hábitos que se tenha ou que se use, há sempre resguardado, no fundo de cada um de nós, aquele que foi nosso, para o bem ou para o mal, durante o tempo em que a maioria das nossas histórias começava por era uma vez e tinha sempre um final feliz.

A Gaffe confirma


Sempre me habituaram a amar o Douro. Os socalcos e as vinhas, a gente valorosa e sofrida e as cores maduras que inebriam a paisagem quando se aproxima um pleno Inverno e a terra sorve e absorve e respira as cores tintas e quase sombrias que apoiarão o surgir da Primavera.

São tonalidades que encontro na sensação de robustez, vigor e temerária sobriedade das terras de um rio portentoso e belíssimo.

Encontro desta forma a confirmação do que sempre considerei verdade insofismável: Uma terra é como um homem. Se um homem apenas for bonito, basta, como um facto.

As terras e os homens que nos trazem histórias, que nos entregam a lugares de memórias de esplendor cativo ou ignorado, apenas porque existem ou porque nós esperam no despertar de imaginários latentes e subtis, subitamente são belos e perfeitos.

15.12.21

A Gaffe à espera do Natal

15/12/2013

Norman Rockwell

O quartel-general é, este ano, em casa da minha avó onde chegamos ontem à noite.

O Natal já escacou o sentido estético da minha prima colocando nas portas deprimentes coroas de bolas de plástico vermelho e laçarotes escarlates que prendem azevinho falso.
A rapariga chegou ao início da manhã de ontem, no seu melhor estilo hollywoodesco, juntamente com a mãe que ganhou o privilégio de reconhecer apenas o Natal que bem entende e se recusa a olhar para os arranjos.
O restante exército depois, pela calada da tarde.

O meu querido irmão, o meu reforço principal, tarda a aparecer!
De Paris aqui há um penoso e tortuoso caminho a palmilhar, aviões comboios, autocarros, triciclos, carrinhos de choque, bicicletas, tartarugas, trotinetes, camiões, patins e sabem os deuses o que mais terá de ser apanhado para aqui chegar, sobretudo para quem se recusa a conduzir.
Encaixo a minha mais ingénua, cândida, amável e pacífica figura, mas sinto-me como se tivesse encarnado uma das mais psicóticas figuras de Almodóvar e começo a ficar com a alma assustadoramente parecida com o realizador.

E eles começam a chegar.
Toda a tarde de ontem se ouviu bater portas de carros e como um bando de pardais à solta se viu esvoaçar a mais diversificada comandita de exemplares que se vão reunindo para o debicar das iguarias do Natal no Douro.
E há de tudo.
Yuppies ressequidos e recessos, damas de copas com espada à cinta, dois adolescentes que resplandecem ruivos, boémios a tresandar a whisky e a tabaco, artistas plásticos de plástico e vinil, cantoras de ópera de barrocos palcos, velhos tão velhos que a velhice é velha, doentes de Molière e saudáveis que tossem mesmo as lágrimas, arrastados sotaques e pronúncias, meninas tontas a espirrar hormonas, lunáticos repletos de luar nos olhos, um Chihuahua  à beira de um ataque de nervos, soutiens de farpas, barbatanas de baleia, um homem que ri que ninguém conhece, uma dona Elvira e um calhambeque, um frade, um mendigo e dois magnatas e mais o que não digo porque já me perco.


E a minha prima a acordar as hostes com um estrondoso e rodopiado karaoke. Mariah Carey de pijama à solta esbaforido e uma jarra minúscula de cristal por microfone:

 ... And all I want for X-mas is...YOU!

O Natal é também esta espera que faz tilintar todos os sininhos que de súbito se descobre haver no coração e em cada um deles perceber que existe no Natal que chega a magnífica hipótese de voltarmos a nascer e a certeza límpida e impoluta de que podemos em cada renascer encontrar por todo o lado aqueles pedacinhos frágeis de Felicidade que se unem e que se chamam Vida.