20.8.22

A Gaffe faz um intervalo


A Gaffe decide, no tempo que lhe é permitido repousar das inúmeras tarefas que uma rapariga esperta sempre tem nos braços, retornar à sua cidade e fazer de conta que de lá nunca saiu, retomando as velhas e fiéis amizades doidivanas e percorrendo os caminhos de Montmartre à procura das partículas de alegria que rolaram pelas escadas gastas por vidas e prazeres tão juvenis.

Promete passar por aqui para vos ver, mas vai guardar todos os mimos para quando regressar se poder deliciar com tudo ao mesmo tempo.

Parte triste, porque tem já imensas saudades deste cantinho onde as palavras tontas permanecem por ler - custe o que custar ao seu narcisismo quase pueril -, mas volta num instante com força renovada e Dom Pérignon para festejar convosco.

Hoje é dia de partir.

É dia de embalar palavras, de as embrulhar, de as guardar em caixas de papel amarrotado ou de as soltar no ar como se fossem pássaros.
Hoje há um até já pousado no meu ombro a espreitar o fim do que eu escrevo e no entanto suspeito que estou tão habituada a não chegar a nada que parto a toda a hora.

Até já!


19.8.22

A Gaffe intimada

Celia Calle
A Gaffe acaba de ser cilindrada.

Entra-lhe no gabinete - depois de lhe ter sido anunciado um senhor que lhe quer falar com urgência - um rapagão com cerca de dois metros espadaúdos, de barba rasa, olhos de amêndoa amarga e doce, meu tropel de ternura, minha casa, meu jardim de carência, minha asa, pestanas do tamanho da Torre Eiffel, vozeirão tonitruante e T-shirt vermelha justíssima para fazer jus aos peitorais morenos.

Saca do bolso traseiro - e que traseiro, Deus meu, porque padeço eu assim? - de um rectângulo em couro que faz abrir. Cai a tampa àquilo e a Gaffe fica com a identificação do mocetão colada aos olhos.

PJ

Pronto e à paisana porque esse é o uniforme.
A Gaffe imagina-se algemada, torturada por aqueles músculos todos, de joelhos macerados, pérolas rolando nas pedras frias das masmorras, Chanel esbardalhado, sem batom, descalça, sem um refresco que a salve a não ser o das lágrimas que tombam, despida de preconceitos, ali nua, verdadeira, honesta, pura e divinal, angélica criatura arrastada pela infâmia. Sem redenção. Uma condenada à chibata certa.

Depois dos salamaleques do costume, o rapagão pede-lhe informação de registos de carácter não nominal relativos a outra que não ela - não necessitando sequer, para os obter, de se dirigir a uma Gaffe agora envolvida pela desilusão.

Já não se pode sonhar em condições.

17.8.22

A Gaffe "cuética"


Ninguém escreve bem sobre sexo e é horripilante quando o tentam fazer, descrevendo minuciosamente cada posição, cada gemido, cada movimento, cada alçar de perna, cada mamilo, cada coisa que arrepia, cada poema escrito com a pila, cada melodia erguida com as mamocas, cada sinfonia a quatro mãos, a quatro pés e ao que depois vier, ou o foguetório do orgasmo. O caso agudiza-se quando recorrem ao vernáculo e a expressões mais duras e cruas, convencidos que dali lhes virá força.

Mais se diria, mas o que importa agora é verificar que o dito carece de exemplo. 
A Gaffe, saltitando de blog em blog, esbardalhou-se contra aquilo a que se pode chamar uma cuesia de uma senhora que dedicava uma ode à pila do suposto companheiro de alcova - a Gaffe quer acreditar que aquilo não é um cântico ao Soldado Desconhecido.
Distanciada anos-luz de Maria Teresa Horta, a cuetisa vai descrevendo a textura, o formato, a espessura, a rigidez, o tamanho, as manipulações, as manobras e - pasme-se - o cheiro da piloca que idolatra, em rimas de primária escolha e de fácil encontro.
Ficamos com um vislumbre da pila do senhor, um esquiço trôpego, mas elucidativo, desta particular peça anatómica do com certeza envergonhado cavalheiro.
Um nojo, sobretudo quando o olfacto da senhora a leva divagar sobre as delícias proporcionadas pelo vibrar dos pêlos das cavidades nasais.
Uma imagem repelente de uma mulher obcecada por uma pila que segundo a descrição não é lavada há meses.

Estes escritos de índole sexual, esta cuesia pretensamente erótica, nada mais faz do que erguer, hirta e firme como uma barra de ferro, a prova do que a Gaffe afirma. Ninguém escreve bem sobre sexo. Se não se é Maria Teresa Horta ou David Mourão-Ferreira, se não passamos de criaturinhas sexualmente excitadas em súplicas de falo, devemos a todo o custo evitar a cuesia que nos transforma em patéticas obreiras de pornochanchadas convencidas que são o Bob Dylan.

A Gaffe, nestes casos, prefere ler a Maria.

12.8.22

A Gaffe lavradora


Devo dizer que sou uma pessoa de fé, esperarei sempre que chova e esperarei sempre que a chuva nos minimize alguns destes danos. Como é evidente, quanto mais depressa vier, mais minimiza, quanto mais tarde, menos minimiza. Se não vier de todo, não perderei a minha fé mas teremos obviamente de actuar em conformidade.

  Assunção Cristas -  Ministra do Ambiente, do Mar, da Agricultura e do Ordenamento do Território - 2012

Uma década depois:

É melhor perguntar porque é que durante a campanha eleitoral a própria CAP aconselhou os eleitores a não votar no Partido Socialista.

Maria do Céu Antunes – Ministra da Agricultura - 2022 (sobre as críticas dirigidas pelo secretário-geral da CAP que declarou “inexistente” a resposta do governo para mitigar o impacto da seca no sector da produção animal)

A verdace é que, tal como a Gaffe, as senhoras que sabem estar tratam da lavoura como as vacas olham para o palácio.

11.8.22

A Gaffe de um berlinde


A minha liberdade era um berlinde.

Um dos berlindes que o meu avô guardava num saco de estopa na despensa. De vidro, com cores enclausuradas, que os de plástico vieram só depois.
O meu avô dizia que havia ratos na despensa. Todos tinham medo dos ratos na despensa, menos eu que gostava dos berlindes.
Gostava do berlinde azul com caracóis cor de ferrugem dentro, como os insectos presos nas pérolas de âmbar do colar da minha avó.
A minha liberdade era, portanto, um berlinde fechado na despensa onde havia ratos.

Agora que não há despensa e os ratos já morreram, a minha liberdade continua a ser um berlinde que também eu escondo numa
despensa onde digo que vivem os netos dos ratos da despensa do meu avô.

A Gaffe coleccionadora

No início das nossas adolescências, o meu avô perguntava-nos que colecção queríamos fazer.Não se colocava a hipótese de não coleccionarmos o que quer que seja.

Sentava-se no cadeirão favorito, virado a Norte para ouvir o vento frio que uivava arrastado pelos socalcos, e tamborilando no braço de couro com os dedos finos e longuíssimos - um ruído seco, curto e confortável que nunca deixei de recordar -, inspeccionava as nossas escolhas, alterando alguns detalhes, aconselhando, guiando, e exaltando o coleccionismo como contributo para a selecção, estudo, organização, método, rigor, persistência e capacidade de preservação e mesmo de sobrevivência que, segundo o meu avô, deveriam pautar as nossas vidas futuras.  

Uma vez por mês, o meu avô fiscalizava o nosso trabalho. Ralhava-nos ou elogiava-nos, conforme o cuidado ou o desleixo do que tínhamos cuidado do obtido e fornecia-nos instrumentos que sustentavam e permitiam proteger o que tantas vezes nos desinteressava.  À medida que o tempo caminhava, estas vistorias iam rareando, até desaparecerem por completo, quando nos tornávamos maiorzinhos.  

A minha irmã escolheu coleccionar insectos.

Havia-os no jardim e foi fácil encontrar alguém que por ela os recolhia.

O meu avô sempre soube da pequena vigarice, mas, mesmo assim, tornava obrigatória a catalogação respectiva do espécime. Ofereceu-lhe a caixa de vidro onde era possível cravar os pobres bichos ainda vivos.

A minha irmã não se tornou uma entomóloga, mas adquiriu uma extraordinária mestria em alfinetar os outros.

O meu irmão, chegada a sua vez, escolheu coleccionar minerais.

A distinção entre estes e as rochas era difusa e muitas vezes complicada. O meu avô guiou-o e com a paciência dos sábios foi descobrindo com ele o sector onde, na biblioteca, morriam de tédio os volumes dedicados à mineralogia. A classificação e a catalogação eram igualmente obrigatórias e as caixas das amostras amontoam-se algures no sotão da casa.

O meu irmão não se tornou geólogo. É engenheiro físico o que significa que não sei o que faz. Suponho que é uma profissão que o obriga a viajar imenso e a apaixonar-se amiúde por nórdicas altíssimas, magras e ondulantes, sem qualquer rigidez ou característica mais rochosa do que as já esperadas.

Eu morria de medo.

Não sabia o que escolher. Não podia - e os deuses testemunham que não queria - repetir as preferências dos meus antecessores e nada havia que, ainda que vagamente, me interessasse, ou que estivesse logo ali à mão de semear.

O meu avô, tamborilando no braço de couro do cadeirão virado a Norte, na sala do vento Norte, com o Norte a uivar ameaças, declarou aberta a minha escolha e esperou quieto, atento, curioso, matreiro.

E eu escolhi.

Escolhi o que me pareceu tão fácil.

Palavras.

Escolhi coleccionar palavras.

Todas os meses - uma vez por mês -, o caderno grosso de capa preta que me ofereceu, era revisto.

Todos os dias dos meses guardava as palavras que nunca tinha ouvido antes, que nunca tinha lido antes, mas que me soavam a respirar, a sabores, a cheiros, a gente a chorar, a risos de gente, a sinos, a borboletas, a azul e a cor-de-laranja, a rosas bravias, a tristeza, a árvores de Outono, a folhas, a cães a ladrar, a cancelas a abrir, a veludo, a vidro, a estradas, a grutas, a linho, a trigo, a chuva, a saudade, a pombas, a rio, a mãe, a mel e todas as outras que desciam lentas para o meu coração.

O meu avô nunca me ajudou a decifrar o que cada uma tinha dentro. Sorria, fechava o caderno e segredava-me, muito perto do ouvido para que nada fugisse, que eu tinha a colecção mais difícil de todas.

Nunca preenchi o caderno grosso de capa preta.

Sempre soube que não valia a pena tentar.

10.8.22

A Gaffe no tempo deles


Ultimamente a Gaffe não tem andado com muita paciência para ouvir uma das frases características dos mais entradotes elementos masculinos do seu reino:

- Quando era mais novo, era muito bonito. havias de me ter conhecido na altura!

A verdade é que nos casos em que ouve a frase só conta com o presente e na maior parte das vezes o presente não deixa de ser agradável à vista. A Gaffe nunca foi atraída por os putos ranhosos e troca facilmente a inocência dos vinte e tais pela maturidade de qualquer charmoso de quarenta ou mais.

O que estraga tudo é a Gaffe ter de levar com essa espécie de nostalgia rançosa. Os homens que a usam, perdem uma das vantagens que conservam sobre a carneirada juvenil. Assumem que foi lá atrás, no passado, que tinham a capacidade de seduzir - que perderam agora - e acabam por diminuir as hipóteses de alguém os achar atraentes. É uma mazela insegura muito limitadora, sabendo nós, as grandes pensadoras, que o talento para a conquista está, numa primeira linha, na certeza de a conseguirmos. Faz deles uns totós saudosistas e já ninguém tem paciência para se sentar a ver fotografias antigas.

É habitual considerar um homem com mais de quarenta anos fora de prazo. Não há como negar. As raparigas são caprichosas e melindram-se no que diz respeito a questões de idade. Trocam sempre que podem o charme dos mais vividos por um par de leguminosas no vigor da idade.
No entanto, há que manter a auto-estima e sobretudo não desmotivar a parceira com frases que recordam o passado deslumbrante dos quarentões.

É que nós, raparigas espertas, acabamos por acreditar naquilo que é dito e, já que assim é, ou ficamos à espera que o tempo regrida ou passamos ao lado e fotografamos nós o nosso presente.

9.8.22

A Gaffe lunar


Não falo dela. O que disser vai roçagar o que é banal.

No entanto, há outras noites entrou nua no meu quarto, como de pés descalços. Não me afagou o cabelo, não me contou histórias de ninar, não me sussurrou cantilenas, não me embalou em murmúrios. Sentou-se à minha cabeceira a ignorar-me.

A única luz que se deixa olhar sem confidências, a não ser a da geometria dos objectos. A luz maior do que as feridas das janelas. A luz que permite os gritos do estilhaçar de um vidro, se ousarmos a ilusão de lhe poder tocar a pele opalina com os dedos. A luz límpida que jorra e escorre nos dedos do anjo do lago e que torna nítidos os círculos na água quando a boca da carpa tenta morder a superfície onde a prata se dilui, se liquefaz. A luz que amansa a copa das árvores como o vento sul nas velas que se fecham, que adelgaça e guarda o corpo dos teixos como bainha de espadas. A luz que vem medonha da lua grande, cheia, à minha frente, e que no encantatório soar do seu silêncio me entrega a lucidez, tornando o encanto a minha mais lúcida consciência da paisagem.

A encantatória lucidez da lua no meu quarto, como dois pés descalços.

A Gaffe num instantinho


Um homem, por muito que nos custe admitir,  quando é solicitado para tarefas que normalmente lhe são adversas, conhece apenas três frases:

 

Vou já.


Só um minuto.


Espera aí.


Se não somos geólogas, não vamos perceber que os rochedos na banca da cozinha resultaram da mineralização dos restos de pizza do jantar do rapaz que nos prometeu que vinha enfiar a louça na máquina. Se não somos arqueólogas jamais daremos valor ao fóssil que encontramos no fundo da gaveta masculina que data do tempo em que lhe pedimos para se descartar da conchinha - linda, linda, linda -, que encontrou nas Caraíbas há milénios e que seria corrida porta fora num minuto. Se não somos a Madre Teresa acabamos com o seu glamour se esperarmos aqui que o Sporting vença o desafio que só dura mais um minuto. Se estamos num dia mais chuvoso - e todas temos os nossos dias difíceis, menos Christine Lagarde que tem os dos outros -, é aconselhável criarmos o hábito de fazer repousar a nossa paciência nos lençóis encharcados que o rapagão estenderia ao sol se esperássemos uns instantinhos. Se temos tendência para uma reserva compostinha, vagamente puritana e não queremos insinuar que uma orgia é sempre bem acolhida no aconchego do lar, é conveniente furarmos os olhos às tias velhas que nos visitam, porque o rapaz continua de cuecas, perna alçada e meias arco-íris, enquanto esperamos aí um minuto que vá já trocar de preparos, que as velhas prometeram na véspera uma visitinha de cortesia.

Estas manigâncias não são forçosamente desvantagens.

Enquanto o rapagão nos brinda com o vou já, o só um minuto ou o espera aí, podemos perfeitamente vestir a nossa lingerie mais etérea, retocar a nossa imagem de diva esvoaçante e sair ao encontro do nosso amante furtivo que nos proporcionará o chamado sexo mágico - fazemos e desaparecemos.

Voltamos já, demoramos só um minuto e ele espera ali.

A louça do jantar que fossilize.

8.8.22

A Gaffe corajosa

Tomasz Jedruszek
Estava a Gaffe esbardalhada no sofá, depois de ter visto o último episódio da sua série favorita, quando decidiu recolher a languidez nos lençóis fresquinhos dos seus aposentos.

Segurou Afonso Cruz - não propriamente o rapagão, mas apenas uma das obras, infelizmente -, fechou as janelas, as luzes e, depois dos rituais do costume, entra no quarto almejado.

Subitamente sente o coração estilhaçar-se aos pés.

Pelo ar esvoaça um bicho!

Um pássaro, um avião, o super-homem?!

Um pássaro não é certamente que o pássaro não bate assim nas persianas fechadas, um avião seria politicamente incorrecto e a Gaffe não costuma ter a visita nocturna do super-homem – mais uma vez, para infelicidade sua.  

De luz ligada percebe, para seu horror, que o monstro não sendo o Batman - a Gaffe decididamente é infeliz! - é uma miniatura sem qualquer nocturna ambição super heróica.  

Um morcego!

A Gaffe tem pavor dos morcegos desde que lhe disseram que os mostrengos tocando nos cabelos de alguém neles se ensarilham, não sendo possível retirar estas abominações sem ajuda de profissionais. Tendo em conta que a profissão de extractor de morcegos dos cabelo das pessoas não é muito vulgar, a Gaffe prefere entrar em pânico.

Uma rapariga sozinha com um Bruce Wayne de pacotilha no quarto, ou desata aos gritos provocando, àquela hora, interpretações maldosas e muito pouco dignificantes dos vizinhos ou lembra-se de Afonso Cruz que lhe sussurra que um herói é o que não teve tempo de fugir.

A Gaffe não tem sequer forças para se descolar da esquina do quarto, logo atrás da porta, ficando desta forma muito limitada e com o tempo de fuga demasiado apertado, sem muitas hipóteses de continuar a ser cobarde - aquele que teve a coragem de fugir.

Resoluta, decide escapar-se e assumir que uma rapariga é sempre wagneriana quando quer.

Corre para a sala, embrulha-se na manta de Verão estatelada no sofá e quase de gatas entra no quarto, dirige-se à janela e abre as persianas que sendo eléctricas não a obrigam a permanecer de pé e volta em mísero estado a escapulir-se.

Espreita segundos depois.

O mostro continua a apavorá-la, a esvoaçar de lado para lado, de lado para lado, de lado para lado!

A Gaffe, concentradíssima naquele heroísmo todo, tinha-se esquecido de subir a porcaria do blackout.

Volta a embrulhar-se na manta, volta a empurrar a porta, volta a gatinhar, volta a provar que uma rapariga sozinha é uma catástrofe com um morcego no quarto e finalmente assume e prova, para gáudio dos seus comentadores anónimos, que lhe falta um homem.

Tudo no ar, tudo subido, a Gaffe quase a morrer de medo, volta à base, ou seja, à sala onde tudo está tão iluminado como os dentes de Paulo Portas e só não desata a comer gelados para disfarçar o nervoso e fazer pendant com o cérebro, porque se sente a petrificar e receia que lhe salte outro Batman de treta de dentro do frigorífico.   

Minutos depois, e depois de ter finalmente compreendido a relação espaço/tempo e toda a Teoria da Relatividade, a Gaffe decide espreitar o antro conspurcado.

Não há lodo no cais. O bicharoco tinha desaparecido.

A Gaffe procura dentro dos armários – da casa toda! – mais ratos com asas e, depois de inspeccionar todas as sanitas, decide finalmente deitar-se e passar a noite em claro, só para contrastar com o acontecido.


5.8.22

A Gaffe em A4


A Gaffe sabe que meninas de bom-tom não devem publicar fotografias destas - com coisas velhas -, mas chama a atenção para o móvel que parece pertencer a um conjunto genuinamente Queen Anne e afirma que não encontrou melhor cartaz para ilustrar o que pensa acerca do assunto que a traz aqui.

Os avisos que as gentes feias penduram por toda a parte.

A Gaffe deu de caras num dos WC que servem de apoio aos gabinetes do 5º piso com um papel onde alguém tinha riscado:

Fecha a torneira antes de abandonar o local

Soa de modo tão dramático aquele abandonar o local! Parece uma exortação de um rapper à coragem de não lacrimejarmos ao dizer adeus a um espaço de um por dois metros, mas onde eventualmente se foi feliz.

Há uma insuspeita e profundíssima visão do universo nestes pequenos nadas rabiscados em papel e colados à parede com fita adesiva e não são aqueles em que nenhuma mola funciona, como o maravilhoso:

Vendensse cochãos altopédicos

ou aquele mais gastronómico preso a uma das estantes do hipermercado:

Todos os produtos contêm glúteos na sua composição

que nos devem fazer parar e meditar. São os A4 da inocência informativa Os que revelam as suas raízes nas mais complexas correntes filosóficas. Os que trazem dentro narrativas quase esotéricas. Aqueles que nos rasgam horizontes e nos deixam perplexos perante a encriptação da vida.

Se eu não estiver isto está fechado 

Não tocar à campainha porque faz barulho

Se voltares aqui dou-te um tiro

Frango bovino 3.99€

Volto daqui a uma hora se tiver gente à espera


BASTA! Não somos estrupáveis


A Gaffe utilitária


Embora concorde com a esmagadora maioria e assuma que é proveitosa a aliança entre o útil e o agradável, há excepções que convém sublinhar.


Nem sempre esta união se torna eficaz e prazenteira. No amor, o útil e o agradável podem não coexistir, sem que disso venha grande mal ao mundo. Apaixonamo-nos com frequência por gente que não nos fornece grande coisa, a não ser um palmo de cara, e muitos palmos de outras coisas, para exibir nas feiras das nossas mais raquíticas vaidades. Entregam-nos os agradáveis momentos em que nos vingamos da amiga que nos roubava os atletas mais invejados da turma e um bando de horas em que perdemos o tino, olhos em bico, boca a babar, a amarfanhar lençóis e a gritar desalmadamente por Deus, Nosso Senhor - embora saibamos que este tipo de uivo não é considerado oração por Sua Santidade.
É evidente que a utilidade desta paixão está implícita, mas é daquelas que nos fazem corar na presença da nossa avó e, confessemos, encontramos o mesmo produto numa esquina qualquer, sem que para isso tenhamos de admitir sentimentos muito elaborados. É agradável, mas não é relevante, nem contribui para a sensação de vida preenchida - embora nos pareça que recheia uma pequena parte dela. A utilidade é passageira e não deixa rasto quando o homem adormece.

Talvez por isso seja de considerar a máxima que nos repete que deve ser bom amar um homem feio.

Apaixonarmo-nos por um homem desagradável à vista desarmada, possibilita a aparente vingança da amiga a quem roubávamos os atletas mais invejados da turma e em relação ao amarfanhar dos lençóis e aos gritos desalmados pela calada dos corpos, crescem as possibilidades de controlo do som, porque com um homem feio temos sempre mais botões.
A paixão sentida por um homem que não é bonito de morrer - de grandes mortes - assenta numa espécie de oportunismo - ou mesmo de vampirismo - nosso. Acabamos por amar o conteúdo, tentando não desfazer a embalagem, cuidando do laço e conservando o nó. Cravamos-lhe os caninos na alma e sorvemos, fazendo nosso aquilo que nos fez perder de amor. Aprendemos que é idiota o ditado que repisa que quem ama feio, bonito lhe parece, porque quem se apaixona por um homem destes, percebe rapidamente que tem, para além do aumento exponencial da possibilidade de não ser se traída, a acentuada certeza de ficar ao lado do homem que se escolheu à revelia da inconsciência de Cupido e isso não tem nada a ver com o que nos parece.

4.8.22

A Gaffe dos deuses e dos bichos

Aurelio Monge
O papel de José António Saraiva não me assenta bem, no entanto é aberta esta excepção, pois que é admissível que estas nuances escuras aqui sejam visíveis por nobre causa e por força de argumento.

É curioso verificar como somos capazes de idolatrar os autores de obras-de-arte ao ponto de quase os aproximarmos dos deuses, rendendo-lhes homenagens pirosas expressas em rectângulos floridos onde cintilam frases descontextualizadas, ou imagens fenomenais cortadas onde nos convém, muito ao nosso contento e ao nosso intento.

Muitas vezes rendemo-nos de joelhos.

A adoração que lhes entregamos não é de todo, ou totalmente, descabida. São singulares criadores. Criaturas de excepção.

Há no entanto, o esquecimento, provavelmente deslumbrado, da existência do homem - e da mulher - para lá da obra que produz e nem sempre o que se nos depara é digno de respeito.
Retiremos ao acaso, saraivadamente, de forma caótica e sem qualquer lógica, da caixinha desta Pandora de subúrbio:

Caravaggio, um assassino e um celerado;

Michelangelo, um ladrão e um defraudador;

Ezra Pound, um anti-semita convicto e perigoso;

Proust pagava a rapazinhos para se masturbarem enquanto roía os lençóis, enfiado até aos dentes na cama que raramente abandonava;

Virgínia Woolf considerava que as criadas estavam num patamar inferior ao dos seus cães de companhia;

Céline, um nazi;

Enid Blyton desprezava e ignorava os filhos, maltratando-os;

Bukowski, um misógino asqueroso;

Elia Kazan traiu companheiros denunciando-os ao governo americano anti-comunista;

Vargas Llosa escreveu que o assassinato de jornalistas mexicanos é da responsabilidade da liberdade de imprensa e - caso me considerem digna de perdão por incluir uma minhoca nesta minúscula listagem - Cat Stevens assinou a fatwa contra Salman Rushide.

A obra, quando fenomenal, assemelha-se à morte no processo de reabilitação daquele que a produz.
Iliba, explica ou apaga as chagas que se foram abrindo nos outros por aqueles que explodiram em talento, honrando e alargando, inovando e dignificando, áreas diversas de forma irrepetível.

É evidente que as privadas posições de Proust - um desconforto! -, as canalhices de Michaelangelo ou a presunção imbecil de Virgínia Woolf, são absolutamente independentes das obras que os imortalizaram.
Caravaggio continua a ser um dos mais fascinantes manipuladores da luz, provavelmente igualado - se tais ousadias comparativas nos fossem permitidas - apenas por Renoir e provavelmente superado por Monet; Virgínia Woolf mantém Mrs. Dalloway como um dos mais impressionantes romances da literatura universal e as crónicas de Vargas Llosa continuam a siderar leitores.
A criatura térrea que produz a obra-prima não parece interferir na construção dessa galáxia. E no entanto, existe e é capaz de assassinar, de condescender com o massacre de judeus, de justificar o homicídio de jornalistas, de olhar alguns como criaturas de segunda mão ou de perverter, sinistro, adolescentes.
Se estes dados interferem com a leitura que se faz da obra, é duvidoso, apesar de eu - pobre de mim que não conto -, não conseguir tocar num livro de Luiz Pacheco, porque o penso porco, pedófilo, rufia e asqueroso, nauseabundo, manipulador e nojento. Desconheço se no acto de nos apoderarmos de determinada obra, estes factores que - é imprescindível sublinhar - pertencem exclusivamente à esfera do privado do homem ou da mulher que a produziu, atingem e trespassam a apreciação que dela, da obra, se faz, adquirindo peso suficiente para tornar difícil a extracção das vivências escolhidas pelo autor - sobretudo as que nos são repulsivas -, da qualidade quase sobrenatural do que nos é entregue.

Seja como for, reconhecer o barro nos pés de cada deus é sempre uma forma de partilhar com eles a mortalidade.

3.8.22

A Gaffe tertuliana


A Gaffe esteve presente numa tertúlia literária a pedido encarecido da sua boa amiga que, mesmo sabendo que esta rapariga fica deprimida com este tipo de manifestações, a convenceu a acompanhar o sacrifício.

As tertúlias literárias são reuniões estranhíssimas de gente que diz gostar de poesia e que a declama como se estivéssemos todos presos no wc e com prisão de ventre. Geme ao dizer Espanca, prolonga as últimas vogais de cada verso como se de eco se tratasse ao recitar Eugénio de Andrade, ronca e rosna revoltada com Ary e treme e trina perante a inquebrável palavra de Cesariny, atestando a incompetência escandalosa de Mário Viegas, lançando peçonha na cantante pronúncia de Villaret e danando as pausas tristes de Germana Tânger.

Vestem-se todos pessimamente e provam que apenas se preocupam com a alma, já que o corpo há muito foi esquecido e abandonado no sedentário gordo da preguiça.

Há senhores de barba mal tratada a tombar na barriga de proeminências vastas, de negrume vestidos, calças largas a tombar na cinta e de trapo inevitável ao pescoço. Há senhoras com matizes tribais presos às coxas de embondeiro fazendo adivinhar as suas preferências pelo versejar africano. Há pretensas divas solitárias que encontram nos tules tísicos e na tosse rendilhada de Nobre a doçura acidulada de uma parca companhia. Há catraios esquálidos que sonham encontrar lençóis de carne na exuberância dos rasgos de Natália e há meninas vagas, vagas de vida, mortiças e meladas, melaço e abatimento a murmurar Camões.

A poesia é tida como maldição suprema e desejada. O poeta é sempre a alma amargurada, condenada e sofredora, anquilosada pela dor que a destrói, de corpo arrasado pelo vício escondido na palavra que arde como ferida aberta ou que revolta e ergue as crostas da verdade.

Como será de esperar, estas doses cavalares de trágicos destinos não são compatíveis com a elegância e sofisticação de Sophia, de David Mourão-Ferreira ou mesmo de Graça Moura ou de Natália cujas imagens são preteridas em favor da de Luiz Pacheco, protótipo do poeta português porco, devasso, lúbrico e maldito.

Agudiza-se a tragédia quando decidem ganir a sua própria cuesia. É ver então desfilar pingados amores a rimar com dores, voar a rimar com sonhar, passarinhos a rimar com ninhos e molhados Verões e encharcadas paixões que não rimam com nada porque a maré está sempre baixa nestas ocasiões.

A Gaffe detesta tertúlias literárias.
Também odeia por razões similares a apresentação do livro

Sai sempre com os ouvidos a zoar, a zunir, a zarguear e repleta de perdigotos que lhe mancham indeléveis o vestido.

2.8.22

A Gaffe no jardim


E na voragem endoidecida do aroma das tílias, na fome dos fetos e das heras, nas rajadas dos teixos que fazem pender as sombras sobre os lagos, abdicam das cores as hortênsias como no fim de um baile uma orquestra se despe e nua de sons expira sozinha.

A Gaffe e as sete condenações


Uma ruiva no meio de um grupo de veraneantes bronzeados produz o mesmo efeito que as marcas dos fatos de banho no corpo dos ditos. Torna-se facilmente o alvo de todos os olhares. Bastante maçador.

É mais do que sabido que as ruivas não se bronzeiam, mas este minúsculo senão tem as suas vantagens. Uma ruiva não precisa de se esbardalhar ao sol, braços estendidos, pernas abertas e boca escancarada até que a melanina cumpra o seu dever ou se entre em coma, aproximando o cérebro da vítima do sargaço apanhado por ancinhos nas praias do Norte, para que se cumpra a promessa dúbia de um corpo tisnado.

Uma ruiva é capaz de se manter alerta do cimo das suas esplanadas, de óculos de sol muito Jackie O., de capelina de palha finíssima ou lenços Vuitton e de esvoaçante vestido de seda estampada de fazer inveja a Delaunay.
Se está aborrecida com as páginas que vira ao sabor da brisa e do voo das gaivotas, pode observar o povo de cuecas e de lingerie fabricadas propositadamente para a saison.


Nestas suas panorâmicas incursões pelo areal, a ruiva é capaz de reconhecer aquilo a que chamará os sete pecados banais que os rapazes cometem sem se aperceberem que cada um deles pode ser letal ou arruinar o Verão inteiro deixando-os com a sombra da debilidade mental agarrada à imagem.

 I

Não biquineis a mulher do próximo nem a rapariga que vem ali ao longe - Um biquíni que vos entra para o olho, rapazes, é milhares de vezes mais perigoso que um grão de areia. Normalmente infecta e muitas vezes só se consegue retirar enterrando na córnea a pá do baldinho do petiz que nos queima o sossego mesmo ali ao lado, antes, claro, de vos ser enfiado o balde nas trombas.

 II

Abanar a toalha a favor do vento e contra o nosso corpinho tocado pela brisa é tão perigoso como tentar sacudir as velas do Sagres no meio da borrasca.
Acreditem rapazes, não apreciamos um marinheiro de fraldas areadas que receia sentir picada a mimosa pele ou que com a mania das limpezas nos trata como candidatas a panados. Princesas-ervilhas só as ruivas de boas famílias.

 III

São letais os salpicos de água com que tentais provocar-nos um choque térmico, quando procuramos entrar devagarinho no frio do mar com o corpo saído debaixo dos raios que abrasam.
Não é engraçado, meninos. Só nos apetece bater-vos com uma piranha até que o animal fique com os dentes do Paulo Portas.

 IV

Similar ao anterior, mas ainda mais grave. Consiste em suspender o corpo encharcado, saído do banho ainda a tremelicar, sobre o nosso, quase adormecido à sombra das palmeiras.
Meus queridos, se quiséssemos ter alguém a pingar o que quer que seja nos nossos corpos calientes escolhíamos o George Clooney.

 V

Ficar de boca aberta, babada, de barriga para o ar, de pernas escancaradas e bermudas a dar-a-dar ao vento, não é de todo charmoso. Se a posição for acompanhada por um ressono beatífico que confundimos com o ronco do farol, é caso para vos espetar com o primeiro casco de navio naufragado que der à costa ou cravar na vossa testa o primeiro mastro valente que passar - e na praia sempre vão passando alguns.

 VI

Arrastar-nos pelos pés ou levar-nos ao colo para dentro do mar. É deselegante. No primeiro caso ficamos com areia enfiada em sítios inconvenientes e com vontade de vos arrancar o fígado com a pá do miúdo que já foi útil em ocasiões anteriores - a pá, porque o miúdo só serve como porta-armas. No segundo caso, ficais com as pernas arqueadas, esbaforidos e a arfar, e nunca, mas nunca, conseguireis recriar uma cena do E tudo o Vento Levou sem que a Scarlett que transportais não sinta que vai ao colo do Woody Allen.

 VII

Dizerem-nos que o guarda-sol está bem fixo para, passados instantes, o ver cravado nas maminhas da senhora a cem conservadores e pudicos metros de distância, é irritante. É claro que sabemos como o cravar convenientemente na areia. O salva-vidas deslumbrante passou todo o dia anterior a ensinar-nos o modo mais eficaz de o segurar, mas deixamos para vós as tarefas que exigem um pouco mais de esforço. Se não conseguis seduzir-nos com um sombreado seguro, é certo que nos abrigaremos à sombra dos músculos do professor da véspera.


O conhecimento destes sete pecados banais é imprescindível para que não vos torneis, rapazes, um daqueles bonecos insufláveis que o miúdo da pá costuma usar para apoiar o banhinho.

Vá. Decorem.

1.8.22

A Gaffe com uma saudade pequenina


Temos, normalmente, grandes saudades de pequenas coisas. As grandes coisas acarretam um sentir diferente que, englobando a saudade, não se confina apenas a este sentimento.

Creio que a mistura de emoções que advém da perda ou da falha de um lugar ou de uma pessoa – necessárias à presença da saudade – atinge-nos de modos diferentes e o pesar é mais aguçado quando a dimensão do perdido é mais comezinha, porque, neste caso, ficamos frente a um precipício bem delineado e nítido. Sabemos com exactidão aquilo que nos fere.

Nas grandes falhas ou perdas, o processo atinge proporções desmesuradas e abrem-se fissuras em todos os recantos das nossas vidas. Desconhecemos os locais exactos por onde se pode esvair a alma.

Tenho saudades de ver nevar em Paris, por exemplo. Dos flocos breves a tocar-me as pestanas quando olhava o céu de lantejoulas e de confetis brancos.

É uma saudade comezinha. Talvez por isso me deixe parada com um abismo na frente.

A Gaffe com futuro


Segundo Oscar Wilde, o ideal provém da simbiose de mulheres com passado e homens com futuro.

A Gaffe, embora inclinada a concordar, não pode deixar de anotar a incongruência. O futuro de ambos está sempre nas mãos de uma mulher com passado. Mulheres que oferecem apenas o presente, normalmente deixam que o futuro seja moldado por homens.