30.6.23

A Gaffe explosiva

Jang Yong Oh
 A senhora de meia-idade é irrepreensível.

De tailleur aprumado, laço na blusinha e passarinho ao peito, unhas pintadas de verde para recordar a diferença entre nails mails, dedinho rechonchudos de anelar estrangulado por um fiozinho de ouro com brilhante encastrado, sapatito de meio tacão, de polido couro, permanente riça de caracóis rígidos e tingidos, batom de discreta pincelada e traço no olho feito pelo Zorro.
Um mimo de gente.
Reservada. Conservadora. Discreta.
Perto dela, os cães minúsculos arrastam a cauda para trás dos móveis e a água sai turva dos canos que tremem.

Um pilar da sociedade.

Encontro-a no compartimento do WC logo a seguir ao meu, onde entro sorrateira para não perturbar.
Subitamente, no meio do que é habitual fazer-se nos WC, a cabine do lado oscila ameaçando derrubar paredes.
A senhora faz ribombar a fanfarra das Forças Armadas, o bando de bombos do Alto Minho a tocar ao desafio.

Trovadas e sismos.

Em pânico receio ser esmagada pelo desabar dos muros ou projectada com a deslocação do ar para longe do meu humilde xixizito. Temo que tenham sem aviso prévio ordenado a implosão do edifício. Receio que haja um estourar de aneurisma, um AVC, uma ruptura intestinal, uma explosão de entranhas e que no tremendo tremor eu não sobreviva, soterrada.

Que faço eu?
Tusso!
Tusso com a discrição das imbecis apanhadas pela borrasca e procuro despachar com a maior brevidade que me é possível o que foi humilhado pela grandiosidade eloquente do que rebentou ao lado.

Saímos ao mesmo tempo para delicadamente molharmos as mãos e espargirmos gotículas suaves de água no azulejo imaculado.
Sorrimos diplomatas e afastamo-nos.

Desanimada reconheço o lamentável que é verificar de forma tão sonora que até mesmo os pilares da sociedade estão minados até aos alicerces.

A Gaffe homofóbica


A história é breve.

O meu amigo gigante foi processado por ter agredido um amigo que no meio da discussão se descontrolou e o mimou com o que se segue:

- Tu, para além de gostares de homens, és um alienado. Uma coisa deve ser consequência da outra.

Os 1.97m de músculos olímpicos desabaram sobre o pobre que ficou com a cana do nariz partido e sem um dente incisivo.
Apresso-me a telefonar ao agressor, toda solidária e muito indignada, prontificando-me a estar presente na defesa do alvo de tamanha desfaçatez e preconceito. O apoio de uma rapariga francamente civilizada é sempre uma mais-valia, sobretudo para o seu ego que se vê dessa forma todo desempoeirado.

Esbardalho-me contra o muro da minha imbecilidade.

O gigante declara assumir todas as culpas, lamentando o seu mau feitio que tantas vezes o faz pisar os limites do bom senso e atropelar as mais básicas noções de interacção social e os mais intuitivos comportamentos ditos civilizados.

O nariz partido e o dente perdido resultaram apenas de uma bravíssima e gravíssima discordância. O meu gigante - mau humor eterno! -, defendia a marca indelével da escultura na obra pictórica de Miguel Ângelo, acreditando na influência de Platão na produção artística do Mestre, enquanto que o adversário defendia Rafael que ao renegar os mil metros quadrados do tecto da Capela abjura ao mesmo tempo a parafernália de conceitos caducos dos Clássico que encharcaram a obra do pintor de tectos.

Todo um horror inenarrável. 

- Então não foi pelo comentário homofóbico? - consigo ser idiota muito mais do que uma vez no espaço de meia hora.

Qual comentário homofóbico?! - aposto que, do outro lado da linha, franziu as sobrancelhas até ficar apenas com dois lanhos no lugar dos olhos. – O tipo já foi duas ou três vezes "alienado" por mim . Só o esmurrei porque não admito que alguém inteligente se recuse a dar o braço a torcer e finalize uma discussão de uma forma desconexa.

Descubro muito lentamente que a homofobia - se existiu - acabou por ser a minha estúpida disponibilidade solidária.

- Talvez não haja verdadeiramente o comentário homofóbico. Existem, em vez disso, paspalhos obcecados que acreditam na existência dos seus umbigos e eu não esmurro ilusões.

Desligo e vou enfiar papel higiénico na boca.

29.6.23

A Gaffe de uma Mulher

Vinicius Pereira

Creio que sempre tive receio de falar de Maria Bethânia.

Mas fui ontem vê-la e ouvi-la ao Pavilhão Rosa Mota que não respeita voz nenhuma.

Se Caetano Veloso usasse uma peruca desmesurada e branca, que é bonita, é bonita e é bonita, se usasse a longura longa e larga presa com sereias na cinta, seria Bethânia numa versão provavelmente mais bonita e, não neguemos, Caetano parece ser do tempo em que os homens construíam pirâmides.

No entanto, mal esta mulher pisou o palco, a brutalidade do talento, a madura elegância esguia, o desenho de cada gesto feito, o balanço quase frágil, quase duro, do corpo que acompanha numa subtileza intacta e inata as palavras ditas e cantadas, fazem de Bethânia uma das mulheres mais belas que eu já vi.

Bethânia é belíssima.

Bethânia é absurdamente d'oiro.

Ao longo do desenrolar desta voz percebo lenta e morna a barbaridade que foi a acusação de anti-feminismo que demasiado jovem sofreu por cantar a dor de corno de mulheres abandonadas. Creio que as imbecis imputações chegaram de criaturas iguais àquelas que da mesma forma condenaram Brel por cantar uma das mais perfeitas canções que foram escritas, Ne Me Quitte Pas, porque o poema revelava implicitamente ser anti-feminista.

A idiotice encontra campos impensáveis para desovar.

Bethânia está para além da mulher. É um arquétipo. É a Voz eterna da Amazónia, é a Voz inteira das mulheres. A Voz do corpo do que é humanidade.
Aproxima-se do nervo, da corda que acorda e que faz tanger o coração e dentro de uma voz madura e sapiente, é capaz de encarnar a ilusão e a ausência dela ao mesmo tempo.
Aproxima-se do essencial, do chão, do céu, e estende-nos com a voz que ocupa aquilo que é humano, o que dói, alegra ou faz sarar.

É dentro da voz de Bethânia que a total beleza se inscreve e é da mulher que surge, presa à voz, o pasmo de a sentir urgente.  


28.6.23

A Gaffe azul salmão


O meu vestido era de linho, de meia manga, trapézio, cor de salmão com pequenas pintas brancas e um folho grande na bainha. Apertava atrás com minúsculos botões de madrepérola.

Nunca mais tive um vestido tão bonito.

Tinha deixado que me prendessem os cabelos no interior da copa do chapéu de palhinha de abas largas, porque dessa forma podia deambular no orgulho de ter pela primeira vez nas orelhas as pérolas miúdas que substituíam definitivamente as bolinhas de ouro disparadas há um mês.

A maré mansa e o vento dócil permitiam que brincássemos perto do mar.

A minha avó de vestido de linho, largo azul de onda, de chapéu de abas largas e brincos de pérolas, ficava a olhar-nos. Tinha um lenço de seda no pescoço. Um lenço que parecia uma asa tocado pelo vento. Uma maré a esvoaçar.

A minha irmã quis trepar às rochas.

- Brincar na areia é uma alternativa que deves considerar – aconselhou a vigilante.

Levou o meu irmão. Galgar as rochas era muito mais aventureiro.

Fiquei ao lado da minha avó. Queria muito ser igual a ela. De vestido de linho, chapéu de abas largas e brincos de pérolas.

O meu irmão caiu e arrastou a companheira. A minha avó viu-os chegar, choramingando, da desfeita e magoada façanha montanhista. Levou-nos para casa.
As escoriações não eram graves. Arranhões na perna e numa das mãos do rapaz e um pequeno corte no joelho e no orgulho da rapariga a não carecer de sutura. A minha mãe tratou do jovem, ao mesmo tempo que o mimava com o sorriso do embalo.
A minha avó trouxe de dentro o conjunto que a acompanhou a vida toda. Um frasco de água oxigenada, outro de soro fisiológico, um pacotinho de gaze e Betadine. Entregou-o à minha irmã.

- Eu sento-me aqui enquanto tu limpas e desinfectas esse golpezinho.
- Tu não me tratas?!
- A decisão de escalar às rochas foi tua. Foi a melhor decisão, admito. Construir castelos parvos de areia é bem menos interessante que trepar a um barco de piratas. Mas tu caíste. A tua decisão fez-te cair. Tens de parar de choramingar e tratar esse lanho. É tão teu como a tua decisão
.
- Tu deixaste!
- Não. Não interferi. Lembrei apenas que tinhas outra forma de brincar. Tu escolheste a que melhor te pareceu. Decidiste subir às rochas. Foi uma bela determinação, mas caíste. Agora deves tratar das feridas que a tua decisão provocou. Não te magoaste muito, não vai custar. Convém que não choramingues. É desagradável ouvir alguém lamentar a dor causada por uma decisão que tomou.
- Ele também foi e a mãe está a ajudar – sofria a minha irmã.
- Tu convenceste-o. Aqui está uma coisa que não precisas que te ensinem: convencer os outros. Depois, minha querida, é um rapaz. Os rapazes quando se magoam, não se sabem comportar. Têm de ser socorridos.

Foi neste dia de maré mansa e de vestido salmão com pintas brancas que descobri que quando crescesse queria ajudar a cuidar dos outros e que comecei a ter medo de tomar decisões.

27.6.23

A Gaffe bifocal

Luis Quiles
São cansativos, porque de inutilidade extrema, os debates que versam a rivalidade entre o livro impresso e o ebook.
Cheiram a suor e têm mau hálito.
A Gaffe sempre considerou que a existência destas duas variantes da leitura se aproxima, sem que ninguém dê grande importância, ou se desunhe em defesa de uma das damas, com a presença do sexo nas nossas viditas.

Salvo raríssimas excepções, toda a gente reconhece que existe o sexo virtual e aquele que fazemos no aconchego do lar - convém, neste caso, entregar a lar um perfume polissémico. A Gaffe suspeita que apenas uma minoria do planeta se dedica em exclusivo à primeira modalidade - por norma gentes assustadores que usam óculos bifocais -, mas admite que a maioria do mesmo globo já espreitou, pelo menos, as maminhas - ou a pilita - do manequim apanhado por um paparazzi a praticar com alguém o que os eremitas costumam fazer sozinhos. A Gaffe, por exemplo, admite que já espiou a piloca do David Gandy. O argumento da falta de qualidade virtual, não dá dividendos. A imagem do David Gandy nu é abençoada.
Coexistem as modalidades, sem que por isso venha mal - ou bem -, ao mundo, embora o verbo vir adquira também neste caso um valor polissémico. Há quem goste de snifar as páginas dos livros, há quem aprecie lamber o monitor. Como diria o isabelino, tudo está bem, quando acaba bem.

A discussão ebook versus livro impresso, não vale mais do que isto.

Já escrever em qualquer destas duas modalidades - digamos que de modo lúdico - sobre sexo é um problema gravíssimo.

Ninguém escreve bem sobre sexo, seja onde for, de que forma for e no suporte que se quiser.

É horripilante quando o tentam fazer, descrevendo minuciosamente cada posição, cada gemido, cada movimento, cada alçar de perna, cada mamilo, cada coisa que arrepia, cada poema escrito com a pila, cada melodia erguida com as mamocas, cada sinfonia a quatro mãos, a quatro pés e ao que depois vier, ou o foguetório do orgasmo. O caso agudiza-se quando recorrem ao vernáculo e a expressões mais duras e cruas, convencidos que dali lhes virá força.

Ninguém.

Se Maria Teresa Horta ou David Mourão-Ferreira correm belíssimos riscos, a esmagadora maioria dos escritores de eleição evita descrever o que sabe que resvala com uma facilidade inacreditável para o patético - Lídia Jorge chamou à piloca espingarda de carne...-, ou mesmo com um rasto de pornografia disfarçada. Quando é o comum dos mortais, quase analfabeto, a tentar escalar este Everest, é-nos oferecido um rato morto em avançado estado de decomposição.

A Gaffe suspeita que, em matéria de escritas e de sexo, o ideal é manter tudo no lugar devido e cuidadosamente separado, até porque a época de incêndios, sobretudo nas redes sociais, é permanente e quem está habituado a roer couves não consegue perceber a existência dos tomates - a Gaffe suspeita que tem de rever esta última frase.

G. Haderer
Tudo piora quando é feminina a escrita sobre sexo. Neste caso, pensa o povo, feminina equivale a prostituta. As línguas de fogo purificador contaminam todas as plataformas e não raras vezes as faúlhas que tombam nos descampados são tomadas por ameaças de devastação inflamada e catastrófica, oriundas de manifestações escandalizadas que já se previam e que incluem mesmo acusações de se ter escrito, seja em que suporte for, um ensaio ou manifesto anti-feminista, ou apelos sublimados à violência doméstica.

Tolices.

Se nos braços incandescentes de um homem a Gaffe ondular, de olhos revirados e língua de fora, suplicando numa voz cava saída das entranhas mais recônditas:

- Rasga-me as vestes e chama-me tola!

Não está, seja de que perspectiva for, a defender a violência doméstica. Está a precisar de um exorcista, de alguém que a ensine que não se estragam numa noite as peças YSL e que não se deve tratar por tu uma pessoa que não conhecemos bem.

Se a Gaffe vê sofregamente beijado o seu rabinho, não acusa o beijoqueiro de tentar esconder a sua homossexualidade, disfarçando no seu rabiosque um desejo grego antigo, atentando dessa forma contra os direitos da comunidade gay.

Se sugerem à Gaffe pela calada da noite e ruídos dos lençóis, acrobacias inspiradas - embora comedidas - em tratados velhos e marotos, esta rapariga é incapaz de concluir que foi para a cama como o Cirque du Soleil.

Se a Gaffe vê o pindérico do Diogo Morgado de barba rala e vestido de Dulce Pontes a pedir para que deixem vir a Ele as criancinhas, não é capaz de lhe esbardalhar o nome na montra da mercearia a avisar que anda pedófilo no parque.

Controlem-se, vá.

Se continuam a bacorinhar que escrever sobre sexo - num ebook, numa pedra, nas pirâmides, em coisas pontiagudas, ou afins -, revela um apoio a formas patológicas de agir, um forma descarada de não se saber estar - quando aquilo tudo está apenas e sempre mal escrito -, a Gaffe espera que quando forem pela primeira vez à praia não desatem num gritedo, a cantar hinos de louvor a Deus pelo milagre a que assistem quando deparam com um homem a deslizar sobre as águas.

Na esmagadora maioria das vezes é só o McNamara. No ebook do costume no mosteiro. 

A Gaffe rente ao chão

Alison Turnbull Hopkins - Casa Branca, 1917

São um casal maduro.

Ele, com uma barriga imponente e empinada de alemão grande, robusto e ruivo, de cabeça erguida e desdenhosa, com mãos moles a abanar ao longo do corpo que se move compassado e marcial.
Ela, sempre atrás, miudinha, franzininha, de passinho saltitante e latino, de cabelito grisalho, vai debicando quem passa ou fica enternecida ao ver o pincher da senhora gorda e oxigenada que se esquece do bicho e quase o esgana quando levanta o braço num arranjo distraído do cabelo e lhe puxa a trela segura no pulso.

Nunca os vi lado a lado. Nunca trocam uma palavra.

Passa bamboleante o gordo alemão com a latina pela trela todas as tardes por mim.
Perco-me a segui-los com os olhos até os ver desaparecer sempre na mesma loja de bugigangas. Observo-os, porque preciso de sentir o que quer que seja e a avidez com que me repugna a visão dos dois ocupa-me algum tempo.

Ela, magrinha pela trela, sorriu-me hoje. Abanou a cabecinha como se tivesse pousada nela a cabeleira da Fawcett e sorriu-me. Assustadiça, a olhar de esguelha para o mastodonte que marchava mole à sua frente.

Apeteceu-me tanto erguer a mão e de punho fechado espetar o dedo médio, enfiar-lho dentro daquele peito para por dentro e com ele cravado ali, a levantar do chão.

A Gaffe relativa


Diz o sábio que o tempo é relativo.

A Gaffe simpatiza imenso com o alegado autor da máxima e embora jamais possa entender a sua Teoria, percebe a simplória sentença que lhe é atribuída.

A consciência das alterações operadas nesta rapariga ao longo destes últimos anos, sobreveio num curtíssimo espaço de tempo. Dois meses foram suficientes para que as metamorfoses ocorridas em silêncio subterrâneo, se revelassem de forma evidente e provassem que o povo tem razão, de quando em vez.

Quem sai aos seus, não degenera.

A Gaffe apercebeu-se que saía aos seus. Provavelmente aos piores, se pautarmos a nossa avaliação pelas listagens e parâmetros de quem vai pastando unicórnios.

O optimismo ledo e brando, a tolerância suave, a maleabilidade, a paciência, a solidariedade, a compreensão e todas as outras características que são apanágios das boas pessoas, foram sendo assoberbadas, foram tendo acidentes - atropelamento e fuga - e foram assolapadas, devagarinho aniquiladas, pois que devagar se vai ao longe. A grande metrópole do real acabou de vez com a ilusão de que todo isto era impressão, uma fitinha de nada para compor o ramalhete.

A Gaffe é uma cabra, cumprindo a tradição dos seus - das suas, sobretudo. Agrada-lhe perceber que orgulha a família.
Como seria de esperar, não a incomoda balir desta forma. Tem o mesmo som da Inocência ou da infância - nem sempre coincidem -, pois que nos convencem que os extremos se tocam.

Apesar do dito, a Gaffe observa o mundo como outrora. A diferença está no facto de sentir que no antigamente das estrelas, pese embora os brilhozinhos, usar o capuchinho das pessoas certas podia facilmente ser sinónimo de perigo, enquanto que agora esta rapariga sabe que os lobos estão em extinção. Os pobrezinhos.

26.6.23

A Gaffe comentadeira


Depois de hesitar muito em falar nisto, a Gaffe pensou que se se preocupa com o material com que faz estes posts, acaba desinteressada e a alterar o objectivo com que esta coisa foi criada.
Sendo assim, vai voltar à carga e a dizer tralha sem qualquer intuito sério, para vergonha dos intelectos brilhantes e indignação geral.

Comecemos pelo cor-de-rosa.

A Gaffe tem de dar o braço a torcer:
a Princesa de Gales saiu melhor do que a encomenda e do que era previsto.
Verdade.
A mulher usa tudo o que aprendeu enquanto novinha e tornou-se exemplar. A rapariga é realmente muito elegante. Tem bom gosto, é muito bem aconselhada e agrada à maioria dos ingleses que já sentem saudades da Rainha.
Compreende-se perfeitamente que se considerem bem representados por uma mulher que se pode aproximar com facilidade, pelo porte e pela elegância, de Grace Kelly ou rivalizar com a princesa que foi contra um poste aqui há uns bons anitos. Escolhe suficientemente bem os criadores que veste e mostra-se muito reservada.

Se a Sua Alteza aguentar a pressão e a pose, se não forçar os espartilhos até as fitas começarem a doer com o tempo, ainda a vamos ver deslumbrar a inglesada toda e a reposicionar a monarquia. Até os republicanos se deixam influenciar por imagens deste calibre e não se conseguem separar totalmente duma mulher que devagarinho vai encarnando as mais inconscientes fantasias reais: elegância, discrição, charme e sedução.

Morde Meghan que foste cilindrada.    

Voilà! A Gaffe acaba finalmente por comentar a coroação de Carlos III.

A Gaffe sacrificada

Sérgio Martinez

De forma a aproveitarmos a presença breve da minha prima por terras lusas, fomos as três muito unidas rumo à confeitaria/leitaria Quinta do Paço onde uma pequena esplanadita nos faculta uns éclairs recheados - chantilly ou chocolate - de morrer ali todas diabéticas.

As duas mulheres desprevenidas atiram-se à doçaria, farejando todas as pistas, transformando-se em índias Cheroqueques, muito felizes.
A perfeição da minha irmã recusou o allure, porque tinha um objectivo único. Já que ali estava - e suspeito que estávamos ali por isso - tinha marcado encontro com o arquitecto italiano que a substituirá durante uns dias. Queria que o homem visse in loco uns detalhes nos edifícios em frente. Os pormenores estudados seriam reproduzidos aquando da recuperação de um mamarracho qualquer, algures de onde o homem veio.

Vimos o rapaz chegar de sorriso aberto.

Muito agradável à vista desarmada, em excelente forma física, moreno e luminoso, de olhos pretos e negra madeixa ao vento, o descontraído rapaz trazia vestida uma t-shirt arrepiada, um casaco desleixado de linho e umas calças de malha que são um cruzamento entre um fato de treino e umas ceroulas, mas que parecem ser consideradas um must pelos musculados concorrentes do Big Brother guna – ouvi na Ribeira e não sei o que significa, mas acho que fica bem aqui - e pelos artistas mais boémios que citam Sartre e entendem Miró até ao âmago - o que une extremos consideráveis.

Apercebemo-nos, talvez devido à luz da tarde que esmorcia devagar, que havia qualquer coisa estranha no andar do moço, mas, como se diz no velho Douro, nem fun nem fanforreira partilhamos, guardando cada uma a estranheza no mais íntimo da alma.

A minha irmã levanta-se, o homem sorri-nos – ciao! - e desatam os dois a apontar as pedras e as varandas, com a anfitriã a rabiscar explicativos riscos no bloco que tinha tirado da carteira.

As duas índias Cheroqueques, sentadas, quietas, caladas como ratas, de éclair parado e perplexo, tinham avistado a razão da anomalia no andar do homem.

As calças largas de malha fina tinham-se colado, tinham-se grudado, à pila do moço.

Aquilo ou era electricidade estática ou então tinha chovido na véspera e encharcado uma anaconda. Contornos, desenhos, protuberâncias, trilhos, volumes, escavações, bossas, saliências e arredores, tudo ali mesmo à mão de semear tempestades e colher a ventania que deve aquilo fazer ao abanar.

Se tivesse aparecido nu da cinta para baixo, seria mais discreto, valha-nos Deus!

O homem pousava o peso na perna esquerda e a piloca acompanhava toda elegante o movimento, o homem pousava o peso na perna direita e o monstro lá estava, pronto para se aninhar noutras paragens.

Olhei de soslaio para a minha prima.
A rapariga estava com o nariz franzido, com os cantos da boca repuxados e os olhos transformados em frestas orvalhadas por onde se escapava um riso contido. O queixo termia um bocadinho, mas nada que indicasse epilepsia.
Bastava que o meu joelho tocasse o dela, avisando que também testemunhava os movimentos de Loch Ness, para termos foguetório.
A minha irmã pousou o bloco na mesa e desembainhou as armas brancas dos olhos. Percebemos que bastava um nosso inocente e simples risinho parvo e totó para sermos atingidas na jugular pela lapiseira encharcada em cicuta.

Quietinhas. Caladinhas. A tentar não nos esbardalharmos, nem fazer ruir os edifícios.

A minha prima olhava para os transeuntes, evitando cruzar manigâncias comigo e com o que oscilava ali na frente. Ouviam-se uns ruídos surdos que soltava pelo nariz, acompanhados por esquivos e ligeiros solavancos nos ombros e no peito. Eu, muitíssimo mais controlada nestas ocasiões - é nestas e nos terramotos. Foi ver-me no de 1755! -, procurava encontrar forma de lhe causar a perdição completa.

Peguei no bloco e escrevi:
O homem não traz cuecas!!!
Estendi o bloco e a lapiseira. A minha prima leu e com os queixos a tremer, com as maminhas a saltar e os ombros a abanar, conseguiu os riscos:
Ou traz o fio dental ao contrário.
Voltei à carga:
Não é italiano. Está a mentir.

A minha prima ficou curiosa. Beberricou o chá e mordeu o éclair numa pontinha, para acalmar, franziu as sobrancelhas e já muito séria inquiriu - com os olhos, porque qualquer palavra dita, por imbecil que fosse e a ano-luz de ter piada, provocaria o descalabro.

É de Mirandela. Traz o fumeiro dentro das calças.

Desastre absoluto. É bastante primário associar uma piloca aos fumados, defumados e enchidos. Nunca resulta em grande demosntração de originalidade ou perspicácia.

A mulher esbardalha-se sem dó nem piedade e até pelo nariz. O chá disparado num borrifo imenso atinge a prima Cheroqueque que fica com o cabelo como se tivesse atravessado o furacão Maria e sofrido em seguida uma tempestade tropical, pois que até das pestanas pingava.

Já nada nos trava. Depois de chorar desalmadamente, ensopando as gargalhadas, e depois de sentir o ar a fugir, o riso abrandou.
Olhamos as duas para a morte que se perfilava.
A minha irmã tinha na mão o bloco e tentava salvar e limpar os gatafunhos. Tinha lido as nossas angelicais considerações.
Havia explicações a dar.
Vira-se devagar para o homem atónito e sussurra com um perfeito sotaque spaghettiano.

- Questionaram a tua nacionalidade. Uma tolice, já que trazes a Torre de Pisa enfiada na porcaria das calças.

Apesar de, pela primeira vez, a minha irmã ter conseguido ser brejeira - há inesperados que abanam pesados no meio das mais sólidas convicções -, estas duas primas Cheroqueques vão morrer em breve, quiçá abrasadas pelo rubor incandescente que assolou o pobre do rapaz, quiçá vítimas de facas embebidas em curare, atiradas pela grande sacerdotisa - cuja mira é falaciosa -, quiçá sacrificadas em rituais tribais onde são trespassadas por alheiras do tamanho de anacondas.

A minha prima admite que a última hipótese é a que prefere.

23.6.23

A Gaffe depravada


Pelos espelhos baços de Julho acabado, vinham buscar-nos.

Tínhamo-nos despedido na véspera dos areais e do mar e numa algazarra de adolescentes esbaforidos e irrequietos, atulhávamos o carro com gargalhadas e ensolarados gestos de alegria. Havia sempre luta para se conquistar o lugar da frente e havia a estalada do riso da minha irmã que nunca se mantinha quieta, erguendo as pernas para as fazer repousar no colo dos outros, e os beliscões idiotas do irmão que nos faziam rir sem qualquer motivo.
Havia no entanto, uma altura em que os adolescentes se mantinham fechados, macambúzios e em que o silêncio guinava ao lado.

Quando era ele que nos vinha buscar.

Não tenho fixos os traços do motorista. Nunca o olhei com atenção. Com cerca de quarenta anos magros, rigorosos, agrestes e grosseiros, o homem reprovava as brincadeiras tontas daqueles passageiros que lhe tolhiam o couro dos assentos e bastava o seu olhar fuinha para os calar ou fazer morder risinhos patetas. Nenhum gostava dele e nenhum lutava pelo lugar da frente quando era ele a conduzir.

No fim de um dos julhos, vieram buscar-nos.
O meu atraso valeu-me o lugar do morto.

Lembro-me de me ver descalça e de trazer vestidos uns calções brancos curtos, pequenos, com bolsos laterais, de tecido fino, alinhado, parecidos com os usados pelos tenistas no antigamente das estrelas. Gostava deles, dos calções brancos, masculinos e antiquados, que me permitiam guardar minúsculos segredos colhidos quando a maré baixava nas gavetas velhas e esquecidas.

Ao sentar-me junto do sorumbático senhor, as minhas pernas nuas e longas, melodiosos brilhos doirados com o aveludado de pêssegos solares de adolescente esguia, encaixaram-se perfeitas no lugar.

Lembra-me que o sol queimava e que eu tocava na pele das coxas para tentar apaziguar o calor que sentia. O homem olhou distraído a mão na perna e nesse instante percebi a maléfica e insidiosa vontade que se agarrava a alma. Quis que me tocasse. A minha vontade era absolutamente consciente. Nada tinha de inocente ou casta ou pura ou desprevenida. Naquele instante sabia que era uma demoníaca mulher que queria ser tocada, pervertida e perversa. Nunca aquela urgência tinha sido minha. Nunca na alma tinha apanhado aquela faca, mas agora que a via, a brilhar ao sol, a vontade de a usar era obsessiva.

- Toca-me! Tu não resistes. Toca-me. Tu não consegues ficar sem me tocar a pele - mastigava em silêncio, sem pudor nenhum.

Tocou-me. A mão do homem deslizou sobre as coxas devagar e senti o despertar do medo no tremor despudorado daqueles dedos.

Compreendi, depois de ter transformando com um sorriso limpo o apalpar lascivo das minhas coxas num gesto de ternura, que sabia onde encontrar este mistério que me acompanhava. Aprendi a lapidar, a apurar, a cultivar, a aprimorar, a cinzelar e a polir a capacidade impudica e vertiginosa, que foi sempre minha, de convocar e domar Belzebu, acicatar, a subjugar o poderoso príncipe, mascarando-o depois com véus de luciferina inocência.

Agora, a domar demónios, sou bem melhor do que era na minha adolescência que findava, naquele Julho de calções de ténis.

22.6.23

A Gaffe matadora

Ruven Afanador
Não sou uma predadora inconsciente, capaz de lacerar a carne de cordeiros plácidos com uma ingenuidade a raiar o doentio apenas pelo prazer de sentir o cheiro a sangue e a morte próxima de mim sem me tocar, mas recuso-se a suportar a falsa inocência dos silêncios e o medíocre álibi daqueles que procuram o impoluto e a virginal auréola das vítimas sempre que se jorram no chão que sabem ser só meu.

Dos que enredo, caço, mordo e dilacero, nunca guardei uma escusa. Nunca armadilhei vontades. Nunca foram eles incautos, castos, lançados numa arena ou precipício.
Nunca violei. Sempre obtive uma espécie de consentimento informado quase tacitamente burocrático.

Nunca apedrejei consciências. Trato-as como iguais no seu desejo.

Aqueles que não morrem no meu reino - e é tão pequena a morte que lhes dou -, expressam a vontade de viver em códigos legíveis e não lhes toco nunca.

Os que sucumbem angélicos?
Ninguém sucumbe sem sombras na consciência ao âmago do maior desejo. Cumprem-no, mascarando-o primeiro de indesejo, de subtil ou de externa violência, de culpa que é das feras imperiais, para que depois do já cumprido soltem as asas de pomba maculada.

Entre o predador e a vítima há sempre um pacto, paradoxo fatal e labiríntico, um elo mítico que faz de um soberano o súbdito que obedece ao que lhe exigem e daquele que se imola no chão de terra quente o imperador escuso daquilo que deseja. Iguais, de força igual, no assassino confronto ou no embate mais benevolente.

Nas pequenas mortes das savanas dos corpos, ou nas arenas da minha vida, não há uma hierarquia de consciências.

A Gaffe paisagista

Ashley Hicks

Somos por vezes criaturas em que a altivez se foi metamorfoseando, eclodindo e revelando o que de mais escuro existe em nós, sobretudo quando, à nossa frente, temos os que por nós dariam tudo, sabendo que por eles nada trocaríamos.
Desembainhamos a crueldade e tornamos fácil agredir aqueles que nos querem, quando sabemos que esse desejo não tem reflexo em nós.
Impomos a sela de Pégaso como condição para aceitarmos que nos transportem as pérolas com que adornamos o pescoço da soberba e obrigamos a que todos os aromas que nos chegam do quotidiano mais comum, sejam submissos reflexos das nossas escolhas autistas.

As janelas do amor que os outros nos dedicam, abrem-se tantas vezes para as nossas vielas putrefactas.

Dizemos depois que somos demasiado exigentes, urbanas, sofisticadas e cosmopolitas e que não temos tempo para dedicar à banalidade dos que passam olhando para dentro de nós à procura de chão.

Temos apenas céu.

Falamos da indiferença racional e da polida e culta e livre forma de viver e de sentir de mulheres que ultrapassaram as margens da timidez vagarosa que flutua no olhar dos que nos querem, porque a ousadia e a fúria do arrojo dos heróis e dos guerreiros condiz melhor com a velocidade a que nos movemos.

Tantas vezes somos mulheres a jacto.

Neste percurso de tocadas pelos deuses das avenidas largas e infinitas, de aço, de acrílico, de brilho de navalha, apenas amarfanhamos, comprimimos, sufocamos, o desejo de numa tarde banal e corriqueira, numa rua, numa qualquer ruela abandonada, termos o tempo lento a soprar na cara enquanto alguém nos leva para longe, de mansinho.

21.6.23

A Gaffe variegada


É um facto incontornável. A mistura de padrões e de texturas instalou-se há muito tempo nos actos favoritos da Gaffe e, desde que não provoque um efeito trompe-l’oeil, é considerada sempre uma aposta absolutamente fascinante, dinâmica e muito apelativa.

Não acreditando que o quotidiano mais banal consiga uma conjugação de excelência, imediatamente reconhecida como certa e inteligente, a Gaffe sugere, para uma aproximação de sucesso, que se escolha o fabuloso Alan Cumming que em Instinct usa e abusa de modo exemplar da panóplia de efeitos que se vão aliando e sobrepondo.

O resultado é divino!


Cummings sempre foi exímio em provocar uma sensação de maior descontracção, desconstrução e acolhimento morno e confortável, características que estão normalmente ausentes nos gelados cinzentos e azuis monocromáticos dos tecnocratas actuais.

Aliada à conjugação de vários padrões, surge, vinda de diferentes áreas do saber vestir, a mistura de peças que, na origem, configuram ou complementam uma imagem bem definida e facilmente decifrável.
As fronteiras entre o que se apelida clássico e o casual são esbatidas, não só por esta miscelânea inteligente e ordenada, mas também pelas cores que se escolhem queimadas ou propositadamente contrastantes e, num primeiro lance, de aliança paradoxal.
A nobreza clássica dos tecidos e o rigor de acessórios tradicionais - as gravatas são magníficas -, acompanha na perfeição o renovado e actualizado sobretudo, próximo do tradicional, que usado pelo actor cumpre o papel de subtil transgressor aliado a pormenores oriundos de outras paragens com sabor nómada e mais irreverente.


A coordenação de padrões aparentemente incompatíveis, ou no mínimo a mistura aleatória dos mesmos, é quase proibida nos conservadores cavalheiros que pululam nos gabinetes onde os destinos de um incontável número de gente se padronizam. A proposta de Cummings é atraente, sedutora, inteligente e convincente. Não há nada mais sensual como ter a oportunidade de enlaçar o melhor de dois mundos.

Há, quase inconsciente, a regra que indica aos citados cavalheiros que a cor menos nítida nos padrões usados, é aquela que deve ser usada nas peças que se vangloriam da cor única que ostentam. O subtil vermelho do conceituado Burberry é, sob a alçada desta orientação, a cor escolhida pelas peças que coadjuvam o restante conjunto.
Esta perspectiva limita a possibilidade de se ser divertido. São fechadas portas à criatividade e à ostentação discreta de inteligência que torna a junção de padrões eventualmente distintos e incompatíveis, num processo claro de demonstração de personalidade e de vínculo a uma das mais extraordinárias capacidades que temos: a de criar regras, para depois as transgredirmos.

Os ensaios múltiplos são essenciais ao bom resultado, não há nada como começar devagar, timidamente, para se atingir um orgasmo absolutamente sobrenatural.

Rapazes, usem e abusem, de forma inteligente, da harmonia que resulta da construção do caos. Lembrem-se que é do Caos que geralmente a Ordem se afirma e que sempre foi uma maçada para uma rapariga esperta ter perto dela a monotonia cinzenta de um homem sem qualquer infractora e atrevida nuance.

A Gaffe machista

Julian Totino Tedesco

A Gaffe admira todas mulheres que quando sorriem para os homens conseguem simultaneamente repercutir esse sorriso nas braguilhas dos contemplados e aquelas que, como diria Collette, quando levantam as pálpebras é como se se despissem por completo.
Mulheres assim, sobem muito mais depressa na carreira de erro em erro do que de esforço em esforço.

A Gaffe acaba por concluir que é muito mais proveitoso, se somos lideradas por homens maduros e ligeiramente apatetados, deixar a renda do soutien espreitar pela frincha da blusa do que apresentar o dossier completo. Este é um dos factos que nos prova que uma verdadeira senhora nunca mostra a lingerie sem um propósito.

Temos de admitir que mulheres banais, despenteadas, com eyeliner mal traçado, pessimamente relaxadas, desgraçadamente desleixadas, repletas de preocupações e dedicadas até à exaustão a carreiras que só evoluem à força de intelecto, têm o sexo no cérebro que não é de todo um lugar conveniente para o ter e não ajuda em nada as promoções.

20.6.23

A Gaffe com um cheirinho

Um cheirinho a David Gandy por Mario Testino

Publicar ao Deus dará uma quantidade ensandecida de rapagões, desconhecendo-se as casas de chegada, não é matéria susceptível de causar a uma rapariga simpática qualquer rubor. Uma pila com destino incerto, vai parar sempre a um pôr-do-sol distante, mas acolhedor, sem ricochete de grande monta.

No entanto, saber que pela calada de um e-mail enviamos a esplendorosa nudez de alguém, partilhando assim com um grupo restrito a masculinidade seja de quem for, não é tarefa tão simples como promete. Diz-nos o juízo que facilmente poderemos passar por impositivas sabujas a atirar à cara de quem mal conhecemos - mas que identificamos, mas que particularizamos -, a pila de um estranho que nos encheu os olhos - suspeito que esta frase terá de ser revista. Como é de prever, não é de todo educado e de bom-tom esbardalhar miudezas destas contra a incauta face de uma inocente criatura que conta pelo menos com um paninho esvoaçante na frente da agressora.
É estranho o facto de nos tornarmos capazes das maiores barbaridades quando os espectadores são anónimos, inócuos, distantes, amorfos e com uma opinião que não nos afecta ou nos deixa indiferentes, mas somos comedidos e cautelosos quando esses mesmo espectadores se tornam mais próximos e ganham uma importância capaz de refrear os nosso desmandos.

Creio que esta é uma das desvantagens da amizade, mesmo aquela que se constrói aqui nestas Avenidas: a nossa mais jocosa irresponsabilidade, a nossa mais tonta infantilidade, dá lugar a uma espécie de respeitoso pudor, de civilizada empatia, que nos fica bem, mas que nos coíbe de mostrar a pila.

A Gaffe estrangeirada

Élisabeth de Riquet de Caraman-Chimay, Condessa Greffulhe, e a filha. Foto de Otto Wegener, 1908

- Mas tu tens o olhar de uma estrangeirada - conclui o meu pai enquanto corta a carne em pequenos pedacinhos. Abandonará a faca e, com o garfo na mão direita, debicará a refeição sem jamais a usar. Este hábito, quase um ritual, é mantido desde sempre e precede o desfazer do origami do guardanapo branco e do rodar do cristal do copo batido contra a luz.

A minha indignação absoluta e absoluto nojo frente ao voo falconado e abusador de um político do meu país governado pela equipa dos Metralha, irritaram o almoço que deveria ser pacífico e, por exigência da minha mãe, apenas com fait-divers tontos e leves sobre os pratos.

- Exactamente, minha filha. A menina usa um olhar treinado pelo Cavaleiro de Oliveira - finaliza a minha mãe, molhando os lábios rosa pálido Dior em água fresca, enquanto faz rodar a aliança grossa com o polegar e deixa escapar o mais maroto dos sorrisos.

Sempre usou este modo vaporoso e inteligente de alterar o rumo das conversas que considera inoportunas ou perturbadoras.
Faz esvoaçar nos olhos azuis uma personagem e solta-a na já desperta curiosidade dos que a ouvem, fazendo com que a procuremos situar nas páginas da obra donde foram subtraídas.
Resulta sempre.

A minha irmã desconhece a personagem.
Esconde a impaciência com o borboletear das pestanas e repentina sede. Não sabe donde surge o Cavaleiro! Se o soubesse, tinha erguido a sobrancelha e num desafio esperto de quem tem a chave do armário do triunfo, tinha disparado a pedra da funda do olhar sobre esta pobre ruiva ao seu lado sentada.

Mas eu sei!

Procuro na memória todos os cavaleiros que por mim passaram, todos os cavalos, todas as mulas e potros suados. Levará seu tempo, pois que cavaleiros já tenho de sobra e de cavalariças o Inferno está cheio - o meu, pelo menos, que cavalgo imenso.

- Dramático é que O Judeu partilhe igual destino, ontem como hoje – tinha acertado.

A minha mãe sorri, pousa a mão sobre a minha e, numa carícia cúmplice, remata:
- Sossegue. Haverá sempre Santarenos.

Almoçar com a minha mãe é sempre uma obra-prima.

18.6.23

A Gaffe com amigos

A Gaffe não é uma rapariga implicativa. Tem é manias suspeitas. Não consegue, por exemplo, ver livros colocados nas estantes sem critério nenhum, nem quadros tortos nas paredes, nem objectos colocados de forma simétrica nos móveis, nem os vestidos da Dulce Pontes, sem lhe tremerem as pálpebras e começar a espumar de raiva e de indignação.

Em consequência torna-se difícil e acaba sempre a resmungar sozinha, sentada à mesa onde antes havia um grupo de gente alegre e risonha.

Gente alegre e risinha dá cabo dos nervos.

A Gaffe prefere os deprimidos, os pessimistas e os exilados da vida. Pelo menos estes não contam anedotas foleiras que a deixam sempre a procurar debaixo dos móveis a piada que trazem e que tanto faz rir meia dúzia de patetas.

No entanto, apesar dos factos, os amigos que a Gaffe conserva desde a infância são gente feliz.
Esta rapariga pensa que a banalidade tem ligações secretas com a felicidade, porque são gente banal também. Gostam de bagatelas básicas e de camisolas de gola alta que compram na Zara; discutem que se desunham assuntos que deixariam os intelectuais da praça completamente revoltados com a inutilidade do debate; falam de gatos e de cães como se deve falar de gatos e de cães, ou seja, sem os tratar como se fossem miúdos mimados, ranhosos e cheios de folhos que aprenderam um ou outro malabarismo engraçado - como usar os caixotes com areia -; gostam de dar gargalhadas alarves quando apanham alguém a dar um trambolhão; arranjam problemas sentimentais que fazem a tragédia de Inês parecer a do Capuchinho e desancam os idiotas que tentam conspurcar as vidinhas alheias; não lhes interessa um pirolito a orientação sexual de cada um e, quando a descobrem, andam uma dúzia de horas a procurar os queixos que perderam ao descobrir que o parceiro de jogging - fazem jogging, porque faz bem à saúde, mas também porque é chic correrem, feitos doidos, de toalha aos ombros, pelos bosques e relvados -, gosta de conhecer, biblicamente falando, apenas os tipos que com ele se cruzam, deixando de fora as corredoras boazonas.

São gente inteligente, mas sem a arrogância e a insolência que a inteligência desperta nos que lidam mal com o confronto ou com o embate com a inteligência dos outros.
Apesar das brutas discussões que engendram, acabam por parecer todos muito zen, quando comparados com as fúrias tresloucadas desta rapariga.

São gente saudável.

São os seus amigos. Gente feliz que transforma a infelicidade numa partilha cúmplice, numa partilha gerida com a consciência de quem sabe que o humor é uma das pouquíssimas armas que atinge certeira a mofina - a Gaffe andava ansiosa por escrever mofina!

São muito poucos, mas esta rapariga agarro-os e fecho-os na palma da mão, como se não houvesse amanhã ou se o amanhã fosse só de noite.

17.6.23

A Gaffe "naperon"


A Gaffe fica bastante surpreendida com o chinfrim ligeiramente tolo contra blogues que se dedicam a publicitar de forma clara ou encapotada determinados produtos recebendo em troca benesses simpáticas.

Não entende também a indignação motivada pela descoberta da existência de uma equipa que orienta e administra um blogue que abandonou o conceito tradicional destes recantos para se transformar numa página onde é possível alugar espaço para publicidade.

Não é de todo condenável que determinadas marcas considerem proveitoso usar um espaço com visibilidade como veículo publicitário - mesmo que seja a vapor -, assim como não é aceitável originar uma revolta cibernética por haver gente que aceita a proposta e que se preocupa em cumprir o que lhe é exigido com o apoio de outros profissionais. Sem mais, que se faz tarde.

Esta, chamemos-lhe assim para não maçar, flexibilidade funcional, é de louvar.

É tão maleável como a interminável espera que comece o Isto é gozar com quem trabalha, do querido Ricardo Araújo Pereira - que apesar de tudo não nos imobiliza o dedinho que controla o comando da TV -, ou até mesmo como o desconhecimento astral revelado por Miguel Frasquilho de que a academia de futebol Bsports - que o tinha como embaixador -, possivelmente dinamizava o tráfico de seres humanos. A Bsports Academy tinha acertado na escolha do embaixador, pois que Miguel Frasquilho quando aceitou a embaixada já estava todo embrulhado na TAP. Faz sempre jeito umas viagens de rotina por entre o tráfico aéreo.

A Gaffe confessa que assiste pacificamente à proliferação e ao sucesso deste tipo de estratégias empresariais que têm em conta o valor de um toque pessoal, de um leve sabor a intimidade e desconhecimento partilhados, de uma boa dose de empatia sem passaporte, e de uma cumplicidade bastante interactiva com o consumidor, para nos fazer esbardalhar contra os produtos que quer vender.   

Não são ofensivos e não são de sujeitar ao tribunal da inquisição que trazemos sempre dentro.

São os blogues - e gente - naperon.  

Alguns até são giros!

Os donos colocam em cima o que acham por bem - traficado ou não - e nós só olhamos para eles se quisermos.

16.6.23

A Gaffe com dúvidas

Ana Julia Gobbi

Duvida. Duvida sempre. Muito.

Faz da tua noite um abandono ardente. A aguda solidão dos deserdados. O surpreendente deserto do sagrado. Faz da tua estrada uma miséria por onde passam mendigos e indigentes ou a recta perfeita tangente à eternidade, mas duvida. Duvida sempre do solar espirro do divino.
A tua dúvida, se duvidares em silêncio obediente, exalta as mais inconfessáveis noites de calor. Supera o que é de deus.
Duvida! A tua dúvida faz crescer as asas e no voar que hesita ser mais longe, a tua alma toca no fracasso e deixa que tu sejas só para ti.

A Gaffe sem Alma


Subiam e desciam a ladeira lentos e lassos, de manhã e ao entardecer. Ele vinha sempre à frente, porque era mais novo, porque tinha mais força. Ambos velhos como o tempo que demorava a galgar o esforço.
Durante cinco anos vi-os passar da minha janela. Quatro vezes por dia. Nunca quis saber se tinham dono. Estavam bem nutridos e bem tratados, embora a cadela mostrasse por vezes sinais de maleita, raspando o dorso nas pedras dos muros até à ferida. Nunca lhes soube os nomes. Nunca quis saber.

- Ela é "arraçada d’alma". Ele é um pastor.

Bastava. Ter um pedaço d’alma guiado por um pastor, é muito mais do que por vezes temos.


Não creio que fossem corajosos. Eram assustadiços. Tímidos, ensimesmados, de uma fragilidade comovedora que afastava os homens por respeito.

Quando a Alma se atrasava, o Pastor – dei-lhes eu os nomes -, voltava-se para trás e ladrava. Ela ouvia e vinha. Os dois caminhavam. Cambaleavam. Nunca os vi isolados. Amavam-se com uma simplicidade digna, com uma inevitabilidade eterna.

Há dias, o Pastor ladrou de modo inusual. Um ladrar insistente. Forçado, zangado.
Fui ver.

Estava sozinho.

Não completou o passeio habitual. Voltou para trás.

Voltei a vê-lo, depois e várias vezes. Sozinho. Não tinha Alma.

Passava devagar. Sozinho. Não ladrava. Gania baixinho.

Deixei de o ver.
Não sei se me sentiu chorar.

15.6.23

A Gaffe inabitada

Aykut Aydoğdu 

Olho-a por entre as vidraças.
Traz uns óculos pretos masculinos, dois pequenos rectângulos seguros por hastes quase invisíveis. O cabelo preso como a avó lhe ensinou e um brilho caro nos lábios. A blusa de decote em barco azul-marinho, alonga-lhe a nua indolência dos braços e as calças largas de linho branco, marinheiras, deixam ver os pés descalços. Preso na blusa, perto do ombro, a marca das mulheres da minha casa, as pérolas, desta vez encastoadas num minúsculo insecto Lalique.

Beberrica água com gelo e limão triturados e gotas de vodka enquanto fuma devagar. Não vai esmagar o cigarro. Nunca o apaga. Vai atirá-lo como sempre para o cinzeiro e olhá-lo a consumir-se em brasa inútil.

É uma das mulheres mais perfeitas que eu já vi e, no entanto, percebo-lhe a doença.
Temo sofrer da mesma maleita.
Receio que acabe em mim por atingir o patamar de gravidade que na minha irmã é já evidente.

A Arrogância.

A minha irmã despreza o Universo todo. A náusea de viver. O desumano nojo. A repulsa que se imiscui com a desilusão mais crua. O asco solitário dos inabitados.

Levanta-se e sai, descalça e de oiro, imune, inabordável.
Olha-me indiferente.

Às vezes a Arrogância vem antes do Desprezo.

A Gaffe e o olhar de quem ama


Gosto de olhar os olhos de quem amo.
Amo pouca gente, por isso não olho muitos olhares, mas quando vejo a textura secreta de uma íris amada, vejo galáxias inteiras de novos Universos.

A minha irmã tem os olhos grandes e rasgados, com uma cor indistinta, entre le chien et le loup diriam os franceses. Olha de soslaio quando está alerta e nos seus olhos há sempre uma chispa de lume atento e fulminante. São olhos luminosos, esperto e manhosos. Olhos de felino que ensaia o ataque. São olhos de traição que a conseguem trair inevitavelmente.

O meu irmão tem o olhar quase negro de tão azul profundo. Às vezes tenho dificuldade em distinguir a doçura de todos os contornos dos seus olhos cheios de ternura. São olhos tímidos e muitas vezes baixos. São olhos tão pacíficos que nos podemos banhar nus, lá dentro, sem qualquer receio. São olhos que se fecham, porque receiam brilhar demais e ofuscar quem entra. São olhos de alguém que se apaixona.

Os olhos do meu pai são de amêndoa. Amêndoa amarga. Gostam de ficar fechados a ouvir Brahams e detestam ser interrompidos. Olham bem de frente os inimigos, embora, às vezes, confundam as trincheiras. São olhos altivos e orgulhosos. São olhos mandões, rufiões e desordeiros. Olhos que pensam que me enganam. São olhos de iceberg já derretido, pronto a chocar com o Titanic dos nossos.

Os olhos da minha avó eram olhos tristes e arrastavam um azul de cinza tão cansado! Eram olhos que se perdiam se nos distraíssemos. Exigiam atenção. Eram olhos de perder e de encontrar. Nunca entendi aquele olhar que partia facilmente para outro lugar onde não cabemos, onde não somos recebidos nunca. Às vezes eram cruéis de tão distantes. Às vezes havia uma implacável distância dentro deles. A minha avó estava inteira no olhar que tinha.

Os olhos do meu avô eram ninhos. Sabíamos dos pássaros que os habitavam, mas apenas conhecíamos os seus voos.

A minha mãe tem os olhos azuis claros.
Os olhos azuis claros.
Olhos azuis claros.

Azuis claros.

14.6.23

A Gaffe dos anónimos

Se toda a gente tratasse do lixo que tem à sua porta, todas as avenidas ficariam mais limpas.

Um anónimo pode ser como o gato que o menino atira do segundo andar. Esbardalha-se-nos na cabeça quando deslizamos breves e leves pela brisa da tarde. Pode também ser a timidez que encontra no anonimato um romantismo seboso, mas esta última variante é menos vulgar.
A Gaffe não acredita que a ausência de referências que caracteriza um anónimo seja devida a uma falta de coragem. Apesar de tudo, tem de se ser corajoso até para se ser um energúmeno.

Esta energumunice tem, entre outras, dois ou três tipos, se assim quisermos, que interessa reter.

Há os anónimos que surgem do nada e que de dentes arreganhados, nos rosnam impropérios. Podem usar um petit nom para sossego das suas inseguranças e aparecem como o Príncipe das Trevas ou a Maluquinha de Arroios, muito literários, ou Manuel das Iscas, popular, ou ainda José Dias Aguiar, quotidiano. São os anónimos ligeiramente conservadores cujos insultos trazem um travo de moralidade azeda e de inflamações purulentas que cheiram a mofo e a catequese.
Por estanho que pareça, para além de imbuídos de um patriotismo rançoso, abanam os panos de ideologias e de causas até os rasgarem nos pregos que trazem na língua. Esquecem que para vencer uma batalha é preciso que reconheçamos que somos parte do inimigo. Não há tão grande perdedor como aquele que chega ao campo de guerra a acreditar que é o antónimo do adversário.

A Gaffe fica siderada com estes anónimos. Perante os seus comentários, fica catatônica. Jamais entenderá esta forma de se ser patético.

Há depois os anónimos com vago sabor a Pessoa.

São apanágio daqueles que comentam os seus próprios escritos. O inglês vê o elogio ou a exortação – geralmente não ultrapassam estas fronteiras - e finge acreditar que o que lê é alheio ao comentado. São os mais tristes e patéticos, porque revelam uma solidão desesperada. A inutilidade deles é como que privada, transformada numa ilusória companhia, num desejo doentio de se ser ouvido e de se ter alguém a quem responder.

São os que comovem.

A Gaffe conheceu, ao longo destas passeatas, pelo menos três tipos de comentadores anónimos que se distinguem de forma clara uns dos outros. Haverá outras modalidades. A Gaffe não tem microscópio para as analisar.

É evidente que o primeiro grupo não pode ser considerado danoso – muito pelo contrário. É constituído por pessoas que não subscrevem qualquer rede social e que não tutelam qualquer blog, mas que consideram interessante fazer o favor de acompanhar esta rapariga desequilibrada e opinar acerca das tolices que vai escrevinhando, usando um petit nom, ou deixando em branco, por defeito, a sua assinatura. São anónimos de uma amabilidade, gentileza, educação e absoluto bom gosto que - concordando, ou discordando -, contribuem para a elevação do espaço - tarefa a todos os níveis hercúlea. São acolhidos comme il faut, pois que as suas características, como é bom de ver, não são - nem de longe, nem de perto -, aquelas que são apanágio dos grupos que se seguem.

A eventual inconveniência dos dois últimos é directamente proporcional à facilidade com que insultam e cospem para o chão esquecendo que o piso conspurcado não é este, é o deles.

O segundo bouquet tem como expoente máximo os anónimos que passam por estas avenidas deixando invariavelmente um rasto de baba nauseabundo. Não chegam a ser insultuosos, porque não chegam a ser visíveis. Há que lhes atar ao cachaço um osso qualquer, para que pelo menos o cão brinque com eles. As suas hemorragias verbais não são completamente imundas, não estão na base da degradação moral, não são abominavelmente degeneradas. O raquitismo mental destas criaturas torna-as invisíveis. Não incomodam.

O terceiro grupo é de mais difícil trato. É impudente e infame. É um nicho com olhos de um porco que nunca olham para cima; com o focinho de um porco que gosta de esterco; com o cérebro de um porco que só conhece a sua pocilga e com o grunhir de um porco, que só grita quando dói. Estas criaturas abrem a boca de porco, colmilhosa e horrível, e deixam sair tudo o que pode encher de nódoas a roupa lavada.
Não têm forma, não têm cara, arrastam uma estrutura cartilaginosa, sem ossos, inconsequente e viciosa, mal equipada e insegura. Tornam-se protótipos de gente pequena.

São circuncisados mentais e deitaram fora a parte errada.

Foi precisamente por a Gaffe ter sido assediada por um representante desta última tribuneca - que parece saber tudo acerca da sua vida sexual - da Gaffe e não a do representante pois que não a tem - e com ela fantasiar no escuro da toca onde se masturba -, que a Gaffe opta por evitar comentários, mesmo correndo o risco lamentável de excluir aqueles que lhe seriam queridos, ou enriquecedores.

É que escreverem que esta rapariga é uma puta mal cheirosa (...) que tem uma obsessão por pilas (...), é uma terrível mentira.
Toda a gente sabe que a Gaffe usa Narciso Rodriguez.


A Gaffe recebeu uma inusitada visita de anónimos que acharam por bem deixar por estas Avenidas palavras sábias de aconselhamento.

Destaca dois, porque os pseudónimos que escolheram albergam um je ne sais quoi de poético, remetendo-nos para impérios bizantinos ou recambiando-nos para a decadência de Leste.   

Teodoro, comentador esporádico de alto gabarito, declarou saber o que nós - A Gaffe supõe que o plural é majestático - precisamos. A necessidade apontada poderia claramente ser suprida pelo Teodoro - que deve já ter o que sabe que nós precisamos cravado no rabinho há algum tempo - não fossem as nossas exigências de qualidade, a nossa capacidade de resistir à náusea, o prazo de validade e a urgência de microscópio para avaliarmos o estado de conservação.

Caríssimo Teodoro, o menino jamais conseguirá vislumbrar aquilo que uma mulher precisa. Há homenzinhos, elegantíssimo Teodoro, mui nobre e valente comentador, que nem com o advento do sonoro são capazes de participar no filme de uma mulher. A impotência torna-se ainda mais amolecida quando supõe que aos outros faz falta o que não se consegue dar.

Ivana afirma que os portugueses não estão interessados na verborreia da Gaffe.

Uma verdade. Uma cósmica verdade.

Ivana considera interessante vir dizer à Gaffe que os portugueses não têm interesse no que a Gaffe diz. A Ivana, como anteriormente se insinuou, nasceu no estrangeiro.
Aconselha, a Ivana, como paliativo, que a Gaffe arranje uma vida, já que não tem que fazer.
A Gaffe sempre sentiu que o verbo arranjar lhe soa a trabalho, a suor e a lágrimas. Prefere continuar a não ter que fazer e sugere à Ivana que siga este trilho. Deve ser desgastante, sábia seleccionadora, ter de pensar todo o instante em dizer apenas o que os portugueses estão interessados em ouvir, como patrioticamente provou que faz.

A Gaffe previne os seus comentadores incógnitos que comprou um cãozinho. Não é propriamente uma fera a temer, mas adequa-se à conjuntura presente, aos interesses de Portugal - dos pequeninos -  e a estatura dos interlocutores anónimos desta rapariga necessitada e sem nada para fazer.

A Gaffe retocada

Skanda Gautam
A partir de agora, rapazes, não se atrevam a presentear-nos com um sorrisinho jocoso ou um olharzinho galhofeiro quando dizemos que precisamos de retocar a maquilhagem.

13.6.23

A Gaffe Passeriforme


O ex-presidente norte-americano Donald Trump comparece hoje num tribunal federal em Miami para uma audiência histórica, após ter sido formalmente acusado de 37 crimes relacionados com o desvio de documentos classificados.

Trump foi um manancial de boas piadas e de trocadilhos bem-humorados, a delícia dos comediantes e uma fonte copiosa de notícias engraçadas que a comunicação social não se cansou de explorar atirando holofotes e lupas às facetas caricatas do outrora presidente da maior potência do planeta.
O serão era bem mais pândego quando, no aconchego do lar, passávamos em revista as peripécias que protagonizava e que iam desde as sapatadas de Melania na manápula do homem, ao empurrão no senhor de gravata em riste que se via de repente ultrapassado e impingido para um segundo plano da fotografia, até se chegar ao maravilhoso covfefe que se foi tornando um clássico da imbecilidade. Pelo caminho o rasto de tolice a raiar a imaturidade patológica era visível a olho nu e a gargalhada solta. 

Olhávamos Trump com uma certa complacência, como uma espécie de sábios observadores da arena da idiotice, pois que nos divertia em simultâneo nos elevava, porque aquele que é imbecil e age como tal, deixa-nos na boca um certo travo de superioridade intelectual, fazendo parecer que pertencemos àquela elite culta e democrática capaz de denunciar e ridicularizar o que por si já é ridículo, de mostrar ao mundo o que jamais se faz numa Democracia e que é maravilhoso compreender as implicações do Acordo de Paris.

Neste arraial de foguetes mal lançados, as ínvias e mais perigosas - porque não noticiadas - alterações à legislação americana, eram vomitadas em surdina por uma administração composta por sinistros, bem preparados - maldosos, gananciosos, implacáveis, racistas, silenciosos e tudo o que se quiser que tudo serve -, magnatas da desumanidade. Não eram notícia. Não consubstanciavam alertas. Não mereciam o rodapé das televisões. Não nos diziam respeito. Não eram susceptíveis de nos fazer rir. Não nos faziam sentir mais inteligentes, mais diplomatas, mais honestos, mais cultos, mais bonitos, mais respeitáveis, mais humanos - e tudo o que se quiser que sabe bem -, que aquele homem, na altura o mais poderoso do planeta.

A comunicação social viciou-se nos pequenos truques e malabarismos, nos minúsculos incidentes patetas, nas manigâncias tolas de um egocêntrico cravado num tweet, apostada em nos fazer ver a tragicomédia em que se tinha tornado um país que fez vencedor um irresponsável mal preparado, populista, homofóbico, preconceituoso, misógino, com tiques de ditador de circo e tudo o que se quiser que Trump alinha.

A comunicação social é ainda largamente responsável por este amortecer do conhecimento daquilo que os manipuladores dos espantalhos vão urdindo pela calada da noite, à luz do dia. Prefere noticiar os solavancos e as torções que os fios manipulados vão imprimindo ao corpo do boneco, enquanto os donos do títere vão devorando o milho.
Há um jornalismo de plástico que asfixia a comunicação, transformando-a numa espécie de circuito de circo. Uma espécie de feira onde se exibem domadores de aberrações lutando por protagonismo ou gesticulando de modo a se fazerem notar.
O jornalismo, uma grande parte dele, tornou-se exibicionista. A notícia é uma selfie do repórter ao lado do acidente ou macaquice mostrada como de importância capital.
Obtemos o breve e o tolo, como se o breve e o tolo, o nada, o fait-diver, fossem suficientes e esclarecedores.

Foi este jornalismo de plástico que promoveu, por exemplo, a dolorosa exposição da outrora primeira-dama e que apenas provou que não vale a pena casar por alguns tostões. Embora sejam o aborrecimento e o dinheiro que mais casamentos fazem depois do amor, não é de todo aconselhada a via das finanças. Pedir emprestado sai sempre mais barato. Provou em simultâneo que as mulheres possuem uma vantagem sobre os homens: se não conseguem uma coisa sendo íntegras, conseguem-na sendo tolas.

Mas foi injusto chibatar a senhora apenas porque percebeu que se tinha a possibilidade de viajar em primeira não podia permitir que outra o fizesse, e foi altamente penalizador esmagar-lhe a eventual distinção por não parecer acompanhada por alguns neurónios. Melania Trump possui uma espécie menor de elegância - a forçada. É uma mulher elegante à força. Desde que se mantenha calada, sem se mover muito, de perninhas juntas e mãos cruzadas, disfarça a total ausência de carisma e de charme - característica essencial à elegância genuína - e é palerma rasgar-lhe o maravilhoso D&G que usou para pedir ao Papa que lhe benzesse o terço.

Melania não causou, nem causa dano. Não sabe. É bonita e basta.

Depois disto, é assustador pensar que quando olharmos finalmente para o campo, depois da passarada que somos ter deixado de ter medo do espantalho tolo e aparentemente derrubado, reste apenas um ninho de corvos, a terra espetada pelos bicos que a sorvem e o provável regresso da imbecilidade e da boçalidade psicopatas ao poder.