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| Annie Leibovitz |
Ao contrário de Portugal que tem bem definida e calendarizada a sua época de incêndios - Primavera, Verão, Época de Incêndios, Outono e Inverno -, as redes sociais e universos afins, permanecem em constante labareda.
Tudo é cavaco – e silvas? - para a eterna fogueira.
A Gaffe fica siderada, bestificada, estarrecida, russa - oxigenada, vá! -, com a ardência das redes sociais perante estas normalidades.
A Gaffe já viu de tudo.
A Gaffe já viu Messi enfiado numas cuecas Dolce & Gabanna e pensou ser muitíssimo mais discreto se Messi as tivesse presas nos dentes.
A Gaffe já viu Ronaldo de cuecas panorâmicas.
A Gaffe já viu Roanldo nu - embora com a pilinha tapada pela outrora, mas sempre oportuna, Shayk -, e já o viu de speedo tão apertado como o soutien de Catarina Furtado.
A Gaffe já viu Marchisio com as ditas quase transparentes - abençoado rapaz e abençoadas cuecas que o trazem dentro.
Ver cuecas perfeitas, ver a grande área, o meio campo, o canto, o travessão ou linha de fundo de um jogador internacional sem em simultâneo contribuir para a desflorestação do planeta Zuckerberg, é portanto uma questão de iluminação e de qualidade do grão e do ruído da fotografia e da grife na pose da Georgina.
A Gaffe confessa que de futebol as únicas coisinhas que entende e admira são as pernas e os abdominais dos jogadores. É-lhe portanto indiferente que seja o Ronaldo ou o Messi a ganhar o que quer que seja, ou que se tenham enfrentado - ou não - em cordial e risonha meditação no tabuleiro de Annie Leibovitz.
Há no entanto uma nuance nesta disputa de bolas que a Gaffe não gosta de deixar de fora.
A rivalidade, ou pacífica e supostamente civilizada inimizade, entre os dois jogadores em causa é essencial e é um erro da Louis Vuitton pensar que Leibovitz é concórdia certa. Em última análise, os inimigos são aqueles que buscam a harmonia. Podem matar para a obter, mas a demanda circunscreve-se a um estabelecer de tréguas, custe o que custar. Findam todas as quezílias quando um dos rivais sucumbe dominado. Há batalhas onde nunca existe empate. Um vence e decreta a ausência de conflito.
Há que ter de permanecer em estado de alerta ou de discordar de modo pleno, incessante e irreversível. Exige-se mesmo que haja discórdia em tempo útil, pois que tal é sempre capaz de despertar o ímpeto de crescer. A Ucrânia que o diga, se não estiver muito ocupada em se defender.
É provável que os inimigos, de acordo com a inteligentíssima teoria supra, são aqueles que, sem o percebermos, se tornam a água do poço do deserto que nos apaga a sede de viagem ou de dunas por cumprir temos de admitir que nos grandes desertos qualquer camelo é bonito. Messi, na frente de Ronaldo, não sendo um oásis parece uma água que refresca bastante.
A verdade, por muito que nos continue a surpreender, é que a cabeça do eterno rapazinho da Madeira parece ser uma imensa ilha desolada inundada sem cessar por uma chuva cerrada de notas e não altera o facto de parecer ser conveniente dizer o contrário, erguendo-se estátuas madeirenses que pretendem homenagear o seu génio futebolístico ao mesmo tempo que salientam os seus talentos de alcova.
O jogador é visto com magnificência. É o eterno menino pobre que conseguiu a auréola dos deuses à custa de trabalho árduo, repleto, abnegado, afincado, persistente, hercúleo. O rapazinho será sempre um rapazinho. Será para todo o sempre o humilde madeirense, bondoso, contido, benemérito, digno e consciente. A vítima estoica do ciúme dos rivais, o exemplo vivo de desportivismo olímpico. O moço que saiu da ilha para cumprir Portugal.
Qualquer grão de areia que se introduza nestes pressupostos origina reacções infectadas, acompanhadas de insultos e de acusações de falta de patriotismo. Há, no entanto, a necessidade de se referir que algumas destes grãos são uma delícia - a Gaffe não quer deixar passar em branco o que aconselha o crítico a esfregar os cotovelos numa parede de granito. É tão visual! É maravilhoso!
Esta inflexível postura dos prosélitos não tem em conta o facto de que, ao contrário do que se afirma, o dinheiro não transforma os homens. O dinheiro revela-os e Cristiano Ronaldo deixou há muito tempo de ser menino pobre.
Os povos adulam as criaturas que simbolizam o triunfo e, por muito efémero e diverso que este seja, acreditam piamente que - ao lado das razões que levam à glória -, existe a convicção intocável da eterna perfeição do idolatrado. Declaram a sua devoção a determinada criatura, não admitindo qualquer reparo ou crítica menos agradável, opinião discordante ou desavença que atinja o alvo dos seus extremosos cuidados e inabalável dedicação. São extremistas. O profeta está para o Islão terrorista como a deificada criatura está para os seus adoradores
Se quisermos mudar o campo onde se joga este equívoco, podemos sempre relembrar um ex-primeiro-ministro que foi preso e observar como ainda existe quem o clame inocente, vítima de cabalas tenebrosas, com amigos que são amigos do seu amigo, e não perceba que muito mais inquietante do que ter um ex-primeiro-ministro preso é ter o actual à rédea solta.
Cristiano Ronaldo surge como um imaculado milagre revelado aos povos e ignora-se que os pés dos deuses são de barro - para o bem e para o mal -, e que isso não se altera mesmo quando calçam Prada ou chuteiras CR7.
Não está em causa o talento do jogador unido a um trabalho infinito, mas a Gaffe teme que todo o treino a que Ronaldo se sujeita seja sempre da cabeça para baixo. No que diz respeito à parte que sobra, basta que decore uma ou outra frase inócua que lhe ensinam e a enfie seja onde for.
- O que está neste momento a ler, Cristiano Ronaldo?
- Eu costumo ler tudo o que contribui para eu ser o melhor do mundo. Posso não ser o melhor do mundo, mas acredito que sou o melhor do mundo. Se não sou eu a acreditar que sou o melhor do mundo, não sou o melhor do mundo. Posso não ser o melhor do mundo, mas acredito que sou. Vou continuar a trabalhar para ser o melhor do mundo.
- Qual a sua opinião acerca da Barbie, Cristiano Ronaldo?
- Eu não falo da minha vida pessoal. O que interessa é que acredito que sou o melhor do mundo. Se não sou eu a acreditar que sou o melhor do mundo, não sou o melhor do mundo. Posso não ser o melhor do mundo, mas acredito que sou. Vou continuar a trabalhar para ser o melhor do mundo.
A revelação dos gastos escandalosos de Ronaldo, a facilidade com que se lhe escorrega a cordialidade perante os admiradores, os seus pontapés no fair play durante um jogo que não lhe corre bem, o seu vagaroso derribamento, ou a sua aparente candura e réstia ressentida e ressequida de ingenuidade, não inflamam a Gaffe que se mostra completamente indiferente e não a atiram ao chão com a surpresa.
Posto tudo isto, convém sublinhar que a Gaffe não sofre nenhuma reacção vagal nem lhe passa pela frente a ideia de, com estas faúlas, lançar fogo às redes sociais e universos afins, pois que está preocupada em apagá-lo noutros sítios e ansiosa por ver Marcelo Rebelo de Sousa, todo ele zangado, a despenhar-se pelos estádios catari, de tronco nu, envolto em chamas, de bandeira ucraniana em riste, aos gritos furibundos em nome e em defesa dos Direitos Humanos.
Diante destas desproporções, é fácil concluir que a Gaffe decididamente não é pirómana.













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