30.4.22

A Gaffe violenta

colaboracionistas - por Constance Stuart Larrabee
Não existem escalas ou patamares para que possamos classificar a barbárie.

É desumano ousar dizer que determinado acto é passível de se considerar dentro da normalidade quando está imbuído de violência.

Encontrar espaços onde a selvajaria é susceptível de ser aceite como regular, por considerarmos ser menor do que aquela que observamos ou imaginamos um dia, é permitir a existência de um apodrecido sedimento de maldade sob os nossos pés e aceitar que desse chão se possa fazer caminho e que desse movediço solo se erga uma destruição maior, para só então condenar aquela a que assistimos.

Quando da queda dos nazis, a França rejubilou liberta.

A barbárie tinha sido vencida.

No entanto, os franceses precisaram de um período de crueldade imensa para travarem a destruição das almas e dos corpos a que tinham assistido, como se o avanço do horror os tivesse contagiado, beneficiando de um tempo de travagem gigantesco, e que nesse estancar lento do medonho fosse tido como normal, aceitável, a continuação do inferno.

 Depois da Guerra, os franceses torturaram franceses. Traíram franceses. Denunciaram franceses. Enforcaram franceses. Fuzilaram franceses. Aqueles que foram considerados, justamente ou não, colaboracionistas foram alvo da fúria ensandecida e vingativa dos que foram vítimas. 

Montelimar, França - civis franceses castigam uma mulher por envolvimento com um alemão
Interessam-me as mulheres, só as mulheres, neste momento. Não todas. Ignoro, por exemplo, Chanel que se ficou pelas mãos dadas a altas patentes nazis e, mesmo assim, alegadamente, que Chanel continuou a ser cara.

Olho apenas as que nas ruas e nos ermos franceses ocupados tentavam sobreviver, ou aquelas que amaram homens errados, militares rasos inimigos, camponeses e operários transformados em raça armada e eleita, sem sequer entenderem o sentido da morte que os convenceram a carregar e a entranhar e que os transformou em assassinos.

Olho as que foram despidas e humilhadas publicamente. Espancadas por túneis de gente por onde eram obrigadas a passar. Raparam-lhes a cabeça. Foram proscritas. Amaldiçoadas.

 A brutalidade desumana exercida sobre estas francesas, por franceses, não pode ser nunca ser minimizada por ter sido consequência de outra. Não é menor e também não é maior, não é igual, nem diferente, que a perpetrada anteriormente ou a que nos permitimos imaginar no futuro. Não tem - nunca teve, nem terá -, termo de comparação. Ergue-se sozinha no meio das gentes e é absolutamente ímpar em cada instante, exclusiva e excepcional na destruição que provoca.

Não há uma violência dentro do normal e se existem acórdãos, leis, julgados, julgamentos, recursos e sentenças que contrariam este postulado, é porque quem os escreve, fideliza ou a eles se vincula, é também gente capaz de rapar o cabelo a mulheres, de as despir, de as humilhar publicamente e de as fazer espancar em túneis de ódio, justificando esta barbárie com a mentira que lhe diz que há sempre outra maior.  

29.4.22

A Gaffe oportunista

Imperatriz Dowager Cixi, 1835–1908
Fui fazer compras com a minha irmã.

A minha companheira destes folguedos presentes compra de forma compulsiva, mas absolutamente ordenada.
Sabe com rigor o que deseja, mas exige que lhe mostrem o stock completo e nas sapatarias só não experimenta os sapatos do empregado.

Sempre desejei entrar numa loja qualquer agarrada a uma gigantesca faca de trinchar e, com olhos esbugalhados e cabelo esgrouviado, abeirar-me de alguém e com voz cava perguntar onde se situa a secção dos anti-depressivos.
Também me seduz a ideia de entrar num provador e passados uns minutos desatar aos gritos a perguntar onde está o papel higiénico.
Li algures que resulta em qualquer lado e que em qualquer lado somos de imediato atendidos, mas limito-me sempre a suspirar com ar de enfado enquanto enfio no saco das compras tudo o que a mana. encontra e aquilo que penso que me serve.
Depois angelicamente espero que o brilho do cartão de crédito da rapariga me ofusque o olhar.

Agora só não entendo muito bem para que quero eu agora um par de luvas brancas até ao cotovelo e umas cuecas pretas com um dragão chinês estampado no rabo.

A Gaffe tolerante

Yrrah (Harry Lammertink)

Foi-me ensinado que a melhor forma de ficarmos cientes dos movimentos que alteram o mundo - sobretudo aqueles que resultam na desumanizam -, é usar o bisturi esterilizado do raciocínio e nunca empapar as mãos abrindo à toa os órgãos que tornam material determinado acontecimento.

Nem sempre consigo.

Tento demasiadas vezes encontrar o lugar-comum, o ponto de contacto, a marca subtil, despercebida, que lateja em todas as ocorrências originárias de sismos sociais, de atrocidades, de inimagináveis barbáries ou de ilimitados terrores, de parafernálias societais ou de desvios globais e tenebrosos ao que sabemos ser humano.
Ouço cuspir discursos com uma facilidade que me assusta. Ouço palavras que jorram ininterruptas sobre fundamentalismo, integralismo, nazismo, fascismo, totalitarismo, homofobia, xenofobia, racismo e tantas outras sobre outras tantas que não dou conta, porque de tão estranhas a mim, distam abismos, embora em todas elas eu encontre o elo que as une, a marca que as irmana ou ata ou aproxima.

Acredito que a Intolerância é a chave-mestra. Aquela intolerância que é quase biológica, a que impele o bicho a demarcar território, a primordial, a pulsão, o instinto que nos faz negar ou repelir o que nos ameaça a tribo, o espaço de sobrevivência, a ancestralidade, a velhice eterna, os teoremas que regem determinada grupo, herdados de modo quase físico.

Nenhuma doutrina que sustenta o terrível sobrevive sem ser apoiada por esta pulsão.

Mein Kampf é derrubado facilmente por todos os argumentos lúcidos e racionais que desejarmos, e no entanto o anti-semitismo pseudo-científico nazi torna-se prática industrial do genocídio, porque existe antes, vindo de tempos imemoriais, um ódio, uma desconfiança, uma aversão, populares e entranhados, ao judaísmo.

A intolerância selvagem tem matriz e raiz obscuras e velhas como o tempo. Não é produto imediato - ou secundário -, da doutrinação operada por nichos específicos, localizados ou definidos que se apropriam dos imemoriais sedimentos para cavar as trincheiras do terror. Talvez seja por este facto que a teorização da intolerância seja sempre operada pelas elites, sendo posta em prática pelos miseráveis, pelos menos favorecidos, pelos pobres que são, em breve análise, simultaneamente as suas vítimas. Os poderosos limitam-se a produzir as doutrinas da diferença. São os mais fracos que as põem em prática.
A intolerância selvagem, a Grande Intolerância, matriz de todos os holocaustos que ainda ardem, é a da iniciação, chega como característica do Homem. Deverá ser controlada desde o início, como se aprende a controlar os esfíncteres, a dar os primeiros passos, a balbuciar as primeiras palavras.

É tarde demais quando a debatemos ou quando a escrevemos. Nessas alturas já se tornou demasiado espessa, dura e impenetrável.

28.4.22

A Gaffe anelar


Acredito que os usos e costumes ancestrais, os rituais sem memória dos começos, os cultos, as tradições, os ritos e as cerimónias, quando circunscritas a um grupo específico colocado no interior de um outro de largo espectro e de vasta abrangência, fornecem, ao grupo minoritário, uma coesão inusual, solidificam a sensação de pertença, colmatam ou atenuam de modo que me transcende a ausência de um dos seus membros, fomentam a solidariedade entre pares, atenuam a sensação de desenraizamento que assola os mais isolados e criam identificações essenciais ao crescimento de cada um dos indivíduos.

Por acreditar piamente nestes seus factores preventivos, curativos e catárticos, cumpro sem qualquer indecisão, todos os rituais, todos os ritos e cerimónias, obedeço a todos os usos e a todos os costumes que se foram solidificando através do tempo e que a mim chegam inalterados e sei, num saber sem experiência feito, que o equilíbrio do universo - do meu universo -, deles depende.

Esta minha gente tem no acervo da memória gestos antigos que traduzem de forma ritualizada - muitas vezes sacralizada e tantas vezes demasiado orgulhosa - a importância vital de pertença e a noção de raiz, essencial quer à construção do presente, quer à do futuro. Por norma, esta memória é encarnada num objecto, ou num conjunto de procedimentos, atitudes, comportamentos ou inevitabilidades - porventura anacrónicos - construídos pelo tempo da ilógica, que se vão repetindo depois de aprendidos de modo inconsciente, ou por imitação.

No conjunto dos objectos cujo capital simbólico é incomensurável, existe um anel.

Um grosso, pesado e grande aro de ouro limpo, boleado como uma aliança sem a ser, porque adelgaça e estreita no correr da curvatura para que não seja perdida a ergonomia.

Não é, de modo algum, um símbolo de poder, embora seja doado a quem o tem por direito. É a união de várias uniões.
Pertence naturalmente à matriarca que o usa ao lado da aliança matrimonial.

Usa-o até à morte.

Findo o seu tempo, o anel e a aliança onde está gravado o nome do consorte, são retirados e entregues a um velho ourives de Gondomar - ou ao filho, ao neto, ao bisneto, ou ao neto do bisneto, escolhido pela inabalável fidelidade à honra, prestigio e lisura que impedem a fácil vigarice, serpente e maçã neste caso -, que os fundem numa perplexidade sempre renovada, para produzir no mesmo molde uma peça em tudo igual à destruída, mas que tem dentro agora a aliança com um nome masculino no interior. O anel não atinge dimensões incomportáveis, porque é dele retirada a mesma proporção de ouro que lhe foi acrescentada, produzindo-se com ela uma gota de um colar.
Este proceder honra os homens que pertenceram à história da minha família, torna inolvidáveis as uniões havidas e representa, não o poder absoluto da matriarca, mas de certa forma as emoções contidas no passado, o amor que trespassou uma família inteira e o seu capital simbólico é desmesurado.

Pertencia, como não podia deixar de ser, à minha irmã.

Ofereceu-mo no dia do meu aniversário com uma dedicatória manuscrita à pressa:

Porque tu és a guardiã das emoções.

No meu anelar direito trago agora o peso de vários corações.

27.4.22

A Gaffe de aniversário

Gosto tanto de receber presentes!

Mesmo os mais pequeninos e simbólicos são acarinhados por mim.

Este ano o meu aniversário deu-me um banho de coisas boas e o meu querido amigo primou e foi de uma elegância a toda a prova oferecendo-me um lenço Valentino daqueles que nos fazem matar se for preciso. Uso-o como um troféu e embora não tenha o exagerado pescoço de cisne, aquela seda toda causa inveja a todas as parrecas.

A inveja é coisa que nós, as raparigas más, gostamos imenso de causar. Podemos negar e torcer o nariz, afirmando que somos uns doces de pessoas, incapazes de provocar nos outros - sobretudo nas outras -, sentimentos menos dignos, mas é mentira. Causar inveja nas rivais  - e para uma rapariga que se preza, toda a mulher é uma rival em potência -, é um dos objectivos que se traçam mal aprendemos a olhar devidamente para aquelas que nos rodeiam com maior assiduidade. Faz parte dos nossos genes. Está no sangue. Adoramos. Faz-nos sentir seguras e potentes. Podemos conter este instinto muitas vezes matador, mas não podemos ignorar que somos invadidas por uma felicidade muito pouco limpa quando apanhamos nos olhos da nossa companheira de caminho uma chispa de inveja disfarçada por uma indiferença pouco convincente.

Somos umas criaturinhas maldosas com capacidades insuspeitas na área da mesquinhez e descobrimos que conseguimos ficar vergonhosamente alegres quando despertamos umas sensações condenadas pela Santa Madre Igreja nas nossas beatas de estimação.

Somos assim. Descaradas na provocação e desavergonhadas na felicidade que nos causa o rubor que assome ao rosto das nossas rivais quando encontram - finalmente! -, um motivo para nos estrangular pela calada da noite com um lenço de seda Valentino.

A Gaffe acorda mais velha

Fernando Vicente
Não adianta muito disfarçar e fazer de conta que não se importa rigorosamente nada que se esqueçam, com ar apressado, preocupado e inútil, que hoje é dia do seu aniversário.

Hoje a Gaffe acordou com a mãe que a olhou e a preencheu de azul; com o pai que lhe beijou a mão e ficou com os olhos a brilhar com água; com a irmã que a sobrevoou com sabor a fruta – o sabor do novíssimo bâton YSL; com o irmão que se ajoelhou e lhe tocou a fímbria do vestido; com a memória da avó que lhe contava lendas tontas, com pronúncia estranha, e com a memória do avô apertada num abraço forte como uma árvore gigante.

A Gaffe, que fica com dor de garganta só por tentar esmagar as lágrimas de alegria, encolhe os ombros e diz baixinho:

- Hoje faço anos! – depois fica quieta.

26.4.22

A Gaffe de escarlate


Os nossos olhos são tantas vezes olhos de olhar a véspera das coisas. Como se houvesse a espera das coisas que não vão chegar pregadas nos olhos, como se os nossos olhos fossem crucifixos.

Às vezes olhamos a alma vestida de trapos vermelhos a boiar no lago, mas os nossos olhos apenas conseguem ver a mancha escarlate das águas paradas à espera da nossa alma que nunca caiu vestida de trapos nas águas dos lagos.
Podemos entregar as conchas dos olhos àqueles que falam do amor que sentiram, mas quase nunca nos vemos amados, talvez porque na véspera do amor nunca fomos inteiros ou, se inteiros somos, nunca nos abarcam.
Às vezes, temos os dias quebrados, como os ramos das árvores perto das águas onde os bichos trepam. Temos bichos que trepam os nossos dias quebrados nas árvores pelas águas e nunca foi inteira a hora aquática onde se fecha a terra sobre os ramos da raiz e sentimos que nunca o nosso amor teve raiz.

Às vezes somos barcos, nus como os archotes.

Nunca temos nada e tudo se resume a ter. Na união recôndita dos escusos vidros que se tocam em ângulos partidos nas manhãs das vésperas, as esperas são laminadas, inúteis como os trapos que não vemos flutuar nos lagos de escarlate.
A nossa alma pesa como velha de vermelho, afogada na véspera dos olhos e na mais ínfima das horas dispersas, na raiz das águas, as ausências são pedras que se atiram, como se a superfície dos lagos planos e parados oferecesse o rosto a uma criança.

Dizemos depois que não nos enganamos, que tudo está certo, que já nada nos toca de modo a fazer doer, que da memória temos apenas uma ténue linha que não chega para nos laçar as mãos, que a mordaça que nos rasgou a boca já se perdeu na ferida que fechou.

Depois de dizer tudo o que dizemos, sentimos dentro de nós vidros quebrados.

No entanto, algures somos unidos, definidos, definitivos. Algures não há razão que nos separe. Podemos amanhecer em tons de branco ou transparente.

A Gaffe possuída


Por muito que aprecie o guarda-roupa com que este maravilhoso exemplar da espécie nos cega, escolho definitivamente vê-lo desta forma.
Esplendoroso, prodigioso, fabuloso e divino, David Gandy é seguramente muito mais atraente nu do que vestido por todas as griffes que não compreendem que basta colocar uma insinuação das suas etiquetas no dedinho mindinho deste portento, para que desatemos a correr apaixonadas pela marca.

A Gaffe de "pois"



Atentemos pois na imagem da mulher sentada que outra não conheço, ou conheci denunciando o que é no que se vê.

Antes de o fazermos, é de conveniência considerar a luz temerosa que na janela de guilhotina fechada desce o parapeito, encosta-se ao soalho, procura o tampo da secretária em mogno, ilumina a lâmpada do candeeiro apagado em abat-jour de sombra, distrai uma caneta, dois livros, a escultura de um mocho grande e negro e segue a ferocidade do rododendro na jarra gigante em colossais canos cortados da árvore que por imprevidência se deixou desumana na terra encostada a um muro da casa. Como um detalhe, um pormenor discreto ou amedrontado, vai tocar em risco o lóbulo da orelha da mulher, o brinco de pérola, o cabelo loiro de palidez imóvel, para se perder depois, pois que já não conta.

É de conveniência, o digo pois, atentar na luz, pois que a mulher é isenta de detalhes e é nosso desejo encontrar alguns na figura esguia sentada na poltrona. A luz é pois o pormenor em falta na camisola canelada e de malha fina, gola alta, em que a cor de ferrugem se abre no riscado luminoso que alaranja o tom e que amansa ao mesmo tempo a densidade anil das calças tubulares e atenua o desenho picotado dos conservadores sapatos masculinos.

Ignoremos, na parede atrás desta mulher sentada, o retrato antigo de outra mulher sentada, loira ela também, quieta no interior do bulício do vestido de seda pesada de azul de saia ampla de metros de tecido, que toca enluvada um colar de pérolas que quase flutua no seu pescoço afunilado para desaguar no colo descoberto branco e manso onde pousou sem desvelo uma mantilha de renda que abre sombras perfuradas nos laços do espartilho.

Atentemos pois na mulher sentada quieta, atenta, de mãos esguias e unhas ovaladas que atravessam a folha do que lê, com detalhes de luz por sobre o corpo magro, nu de pormenores, isento de desvios e não na mulher do quadro detalhada, pois se atentarmos na mulher sentada na poltrona, intuímos a outra, a do retrato.

Unem espaços.

A mulher sentada na poltrona é a lapidação do corpo dos lugares, a abolição do tempo que nos mata. O corolário de uma permanência que só os raros conseguem entender, pois que o entendimento dos símbolos escapa pelas fendas do agora e do presente.

A luz que risca o brinco da mulher sentada, é a mesma luz que toca as pérolas do quadro. A luz é a mesma, derrogaram-se apenas os detalhes.

É deste entendimento que o depois é feito, pois que o depois se existe, tem passado.

25.4.22

A Gaffe em Abril


René MagritteA casa encoberta enche-se de navalhas de luz por esta altura.Lanhos luminosos que se estilhaçam nos ladrilhos, que surpreendem as esquinas dos móveis e se estiram devagar prolongando o brilho dos tampos das mesas e dos corrimãos.
No Douro há esta casa oculta que permite a luz, que deixa que os clarões do sol invadam o sossego e que consente a enganosa sensação de ser habitada pela claridade mais límpida, pela imaculada cor do sol que se mistura nela.
No Douro, esta casa medonha enclausurou a melancolia dos distúrbios do sol no chão e nas paredes e as infantilidades luminosas que trepam os degraus e se dependuram nos umbrais das portas e janelas.
A casa trespassada pela luz, como se a luz não fosse mais do que um punhal.
Gosto da luz desta casa encoberta que me redime e deixa extenuada, porque se derrama e propaga como nenhuma outra claridade o faz dentro de nós que a autorizamos a entrar, porque me lava e limpa e me deixa dentro dissipada, por ser a única, a última, que dentro das paredes da clausura me permite, dentro da cegueira, olhar e ver a escuridão passada.

A Gaffe num instante
Laura Makabresku

Contaram-me  depois de tantos anos:

 Abril de 1975

A empregada veio de mansinho para provocar menos estragos no tempo de descanso da minha avó. Entrou, almofadada, embrulhando as mãos no avental florido.
A minha avó olhou-a e levantou-se.
Agarrou-lhe a blusa e afastou-a. Murmuraram na sombra, junto da janela, escondidas por portadas de madeira. As duas cinzentas. As duas vibrantes. Subitamente em redor delas o estremecer do ar, a subtil presença do alerta, o espasmo das presas que detectam o odor do predador de focinho a vibrar.
A rapariga desatou a chorar. De mãos erguidas, como um lenço sujo. A minha avó prendeu-lhe os braços, sacudiu-a e deu-lhe as ordens secas, pesadas como chumbo ou perfumes tombados da janela. A ameaça erguia-se. Escorria pelo soalho a pressa suada da partida. Por isso havia a urgência. Por isso seguravam nas adolescentes. Encaixavam-nas no fundo do carro.

A minha avó fechava as mãos da mulher mais velha sobre as chaves, no meio do barulho de malas atiradas.
Depois as portas e as janelas encerradas. O carro a trabalhar. A minha avó a descer o vidro e a assinar as ordens derradeiras.

Ninguém entra. Que tudo se mantenha como está. Defende-me esta casa com a vida. Lembra-te sempre do que é bem mais forte do que qualquer tiro: a menina volta. Se não for esta, será a depois desta. Custe o que custar, uma menina volta.

Abril 2016

Abres-me a porta agora?


A Gaffe de Abril

Às vezes, de tão cegos com o pó que se levanta pelo caminho, ficamos presos ao lugar de onde pensamos ter saído há muito tempo.

 

A manhã gelada.

Há uma névoa escura a subir escadas que vai toldar a luz que mal nasceu.

Ouvem-se os ruídos comuns a todas as partidas.

Que tudo está em ordem, que não se fecharam as janelas de cima; que não se esqueçam do guardar os livros que foram preteridos aquando da remessa dos objectos; que os quartos maiores devem ser todos os dias bem arejados; que os jardins ninguém lhes toque que cuidará deles o João; que lhe obedeçam; que aos relógios é sempre de dar corda.
Os carros já chegaram. A minha irmã levará os pais e eu terei o meu irmão só para mim.

Procuram apressar o meu lentíssimo adeus que repisa o olhar por todo o canto.
- Tens frio? - digo que sim e subo para trazer o xaile antigo e regravar memória.

Perfilam-se os homens e as mulheres ao fundo da alameda onde curvamos encaminhando o carro para a saída que nunca ninguém viu até agora como um portal de adeus.

O carro já na curva está parado. Os homens cegam as mãos. As mulheres de mãos em cruz sobre os regaços. Abraço os velhos e chama-os pelos nomes. Domingos. Àlvaro. José. António. Joaquim. Como se os abraços fossem baptizados.

Outros. Mais quatro ou cinco que me dói ouvir.

As mulheres são poucas que elas choramingam e neste adeus não há lugar para o choro.
Por entre as saias e lenços sobre os ombros, a minha velha, velha, velha amiga, a que ficou para mim, sempre à minha espera, espera de mãos guardadas nas grutas do avental. Tem pedras na garganta.

É a última da fila.

- A menina volta?

Eu parada, de olhos líquidos. Um vento frio deu-me lágrimas.

Ela insiste:

- A menina volta?

Tiro-lhe as mãos dos bolsos do avental, inclino-me e beija uma. E depois outra. Eu sei que não e digo :

-  A tua menina nunca sai daqui.

E ao entrar no carro olho-a e repito o que talvez só eu agora entenda e mais ninguém:

- Há um adeus, minha querida, que faz da nudez da alma uma caverna. Outro há que dela faz um céu aberto, mas é o nosso último adeus o que tem o rosto da inocência. É o único que não se dissipa no escuro.

 A Gaffe em Abril


  Desconfia sempre de um orador que traz a fúria escrita num papel.

Avô

Rafael Ochoa

A taça escorrendo os riscos de Abril e as flores roubadas de fragilidade e doçura quebradiças.

São do povo, as flores. Um chão que não tenho aqui, mas que existe nas mãos de vidro fosco que pousou na macia madeira antiga do meu quarto.

O dia rola inútil próximo da luz que entra pela janela e a mansa inocência das hastes do florido oscila subtilmente.

Tudo é simples:

O dia vai passar sem o peso de um longínquo Abril sobre os seus ombros.


A Gaffe num slogan

25/04/2018


Há slogans que são manifestos perfeitos e que resumem de forma exemplar a indignação de quem os assume e os transforma em bandeira. 

Não falo no Yes, we can, tornado pela desilusão em Yes! weekend! ou pela necessidade  de afirmação e resistência, no Yes, we camp, ou ainda pelo ameaçador America First.  

Falo, por exemplo, daqueles que funcionaram quase como previsão sinistra do que, não sei se apenas metaforicamente, veio a acontecer, como o on mangera les riches, ouvido durante Maio de 1789 e Novembro de 1799, em Paris.

Refiro-me aos mais poéticos, inscritos nas ruas de Maio de 68, como o ouvido e inscrito nos muros parisienses je suis comme un oiseau mort quand toi tu dors, que apelava de forma belíssima à consciencialização política dos estudantes que hesitavam.

Nunca gostei de ouvir slogans que não fossem susceptíveis de se transformar em lança espetada num determinado tempo ou acção específica, resumindo e revelando um sentir determinado.

Por isso me apaixonei pelo que li, inscrito num cartaz que vi passar nas mãos de um velho, na brevíssima e contida reportagem sobre a desilusão portuguesa que cavalga ainda, mintam o que quiserem.

 DE CRAVOS A ESCRAVOS 

24.4.22

A Gaffe zoológica


A Gaffe lê distraída que existe algures um pequeno chimpanzé que espalha compulsivamente o lixo à volta da gaiola. De acordo com a notícia, o macaquinho da jaula ao lado vai inspeccionando os detritos que consegue apanhar e, não encontrando coisa que deseje, volta a atirar o que recolhe para dentro do espaço do amigo que tem assim o stock assegurado.

A Gaffe conhece gente assim.

23.4.22

A Gaffe leiloada

É constrangedor o modo como algumas raparigas espertas conseguem unir a desfaçatez com que nos tentam impingir uma quantidade imensa de produtos que lhes oferecem umas amostras ou lhes pagam uns trocados ao facto de acreditarem que somos todas parvas e crédulas até à imbecilidade ou à idiotice catatónica.

A Gaffe não é de todo contra as artimanhas que ajudam uma pequena a safar o orçamento à custa da papalvos que estão convictos que a honestidade e o desinteresse são notas vivas nas pautas dos seus blogs e, embora suspeite que é crime leiloar a descendência, não lhe parece mal emprestar os miúdos amados até ao infinito a uma cadeia de supermercados ou a uma boutique trendy em troca de um babygrow. Uma rapariga tem de fazer pela vida e os miúdos podem contribuir para o sustento da casa, da ADIDAS e do made in Indonésia.
A cavalo dado não se olha o dente, que normalmente nos putos leiloados ainda não eclodiu.

O que a intriga, para além do facto de suspeitar que estas moçoilas estão convencidas que mais do que meia dúzia de tolas, existe uma multidão imensa que ainda não percebeu o esquema montado e que se vai enrolando na pureza e na inocência das suas tão simpáticas intenções, é a completa devassa da intimidade a que se predispõem.

Vai tudo a eito. Nada escapa desde que traga uns trocaditos. Colocam-se bebés nas montras, etiquetados e identificados; colam-se fotografias de WC com o marido dentro, sentado na sanita, muito contente porque o papel higiénico tem macaquinhos desenhados e veio às resmas; come-se na varanda, decorada com tralha oferecida pela IKEA, o frango dado pelo restaurante da Baixa na caçarola que chegou da CASA AO LADO, decorado com as folhas de ervas aromáticas com sabor a plástico enviadas pela ERVANÁRIA DO MONTE ou remodela-se o quarto do casal com paspalhos coloridos fornecidos pelo ERNESTO & FILHOS - móveis e iluminação -, enquanto ao espelho há o espalhar em lingerie recebida na véspera do bronzeador que a Perfumaria ESTRELA D’ALVA pagou para que se fizesse de conta que se está a usar. Tudo é exposto, comentado e publicitado e a Gaffe até nem se importa de visitar a mostra de quando em vez.
Há milhares de olhos estranhos que conhecem de cor a cor da pele das crianças e a dos tarecos que se apregoam através daquilo a que Miguel Esteves Cardoso chamou lambecusice interesseira e é intrigante perceber como estas raparigas felizes despejam na rua sem qualquer pudor e se lhes pagarem o que se deveria manter privado a todo o custo.

A diluição de fronteiras entre o que deve ser nosso e o que pode ser de todos, nunca deu resultados animadores. A promiscuidade entre o público e o privado foi uma das responsáveis pelo trambolhão de Impérios e contribuiu grandemente para a derrocada da Idade Média.
Convenhamos que é exagerada e possivelmente descabida a alusão histórica, mas o certo é que os nossos impérios mais íntimos carecem de muralhas intransponíveis e, em média, já temos idade para perceber que quanto mais nos curvamos para apanhar as moedas ou polir os metais à clientela, mais o cu mostramos e que acabamos por ficar com ele sempre ao dispor.

A Gaffe pipoqueira


Já lá vão alguns anos que troquei o cinema por outro qualquer espectáculo onde não seja permitido comer pipocas.

Asfixio com o cheiro a pipocas. Longos metros ao longe sinto-as e longos metros ao longe começo a ter sérios problemas existenciais. Jamais assisti em CinemaScope, envolta numa nuvem de bem-estar cinematográfico, ao pranto de Scarlett O’Hara ou ao adeus da Bergman a Marrocos, porque temo esbardalhar-me ao lado de algum triturador sonoro de pipocas e morrer sufocada e surda.

A importação do costume americano de trincar alto e bom som coisas açucaradas no negrume de salas povoadas, destrói qualquer vislumbre de prazer, a não ser que tenhamos entrado num daqueles aposentos muito marotos cheios de gente muito dada.

Comer pipocas no cinema não é, de todo, BCBJ.

É tão charmoso como comer bolo-rei de boca aberta disparando migalhas pelos pobrezinhos; é tão elegante como as selfies, sobretudo os que se tiram à porta das cadeias; é tão inteligente como um um concorrente do Big Brother; é tão civilizado como o discurso de Ventura; é tão inocente como um político português que subitamente fala putinesco; é tão sofisticado como um tailleur de Mariana Vieira da Silva; é tão criativo como o penteado do Nuno Melo e tão próximo de ser promovido como um trolha ou um soldador de Joana Vasconcelos.

Comer pipocas no cinema equivale a usar meias brancas e chinelos no meio de uma recepção na embaixada russa. Mesmo pensando que não se nota muito, corremos sempre o risco de sermos envenenados.

22.4.22

A Gafe enchouriçada

G. Haderer

Cabrito à moda da Serra de Montezinho, carne de porco estufada com castanhas, leitão assado à transmontana, alheiras de Valpaços, feijoada à transmontana, rancho à moda do Minho, bola de carne do Alto Barroso, tripas à moda do Porto, arroz de pato à moda de Braga, cabrito assado com arroz à moda de Monção, rojões à moda do Minho ou cozido minhoto, são algumas das iguarias portuguesas - viva o Norte! -, tocadas directa ou indirectamente pelo alerta da Organização Mundial de Saúde.

É reconfortante verificar que a OMS se encontra preocupada, tentando cumprir pelo menos um terço da sua missão, avisando o mundo do perigo - real, absolutamente real -, do consumo excessivo de carnes processadas, assim como se torna desconcertante ouvir dizer que a realidade se encarrega de apoiar as conclusões relativas a estes produtos, demonstrando que nos países subdesenvolvidos existe uma menor incidência de cancros do sistema digestivo, deixando mais ou menos esquecido o facto de ali não haver nada para digerir. É imbecil ignorar que nos confins do mundo, onde o demo perdeu as botas, os rastreios sistemáticos são praticamente inexistentes.

Travemos o bólide antes de nos espetarmos contra as agulhas da Covid-19.

No entanto, não é nos chouriços que a Gaffe quer cravar o garfo.

A Definição de Saúde que rege a OMS engloba a física, a mental e a social. Nada é completamente saudável se uma das premissas estiver em desequilíbrio.

É de utilidade extrema que a OMS nos dê a conhecer os demónios de um Alcácer-Quibir alimentar, mas é espantoso que esqueça os restantes domínios que deveria por missão abarcar. Nunca a OMS alertou, fornecendo apenas uns pobres exemplos, para danos que o consumo dos globalizados reality shows provoca nos cérebros das populações expostas, nunca se ouviu um alerta para o perigo de se ler Margarida Rebelo Pinto ou Pedro Chagas Freitas - mordendo apenas os chouriços portugueses -, e não parece que a Organização se preocupe muito com o facto de a Gaffe ter de pagar ao Estado uma Certidão de Registo Criminal que lhe é exigida para complemento do processo de fuga que está a organizar, sem que o recibo ou a fatura do Acordo Ortográfico de 1990 seja emitida com o número de contribuinte, apesar do espanto da requerente e a troça da funcionária que a atendeu.

Estas miudezas causam prejuízos no sistema nervoso das pessoas e o consumo excessivo de imbecilidade, de indiferença social, de prepotência e de abusos vários de poder e de confiança, provocam maleitas que levam directamente ao consumo desenfreado dos enchidos processados e degradados em que somos enfiados.

A Gaffe recusa-se a ouvir que a OMS tem horizontes que não são vislumbrados pelo mísero quotidiano de cada um de nós, que a OMS paira para além do mais banal problemazito da Gaffe indignada por se ver a todo o desprevenido instante exposta a Casamentos à Primeira Vista, encharcada por números de telefone de valor acrescentado e vigarizada pelo Estado. Se uma alheira de Valpaços é, para a OMS, tão condenável como um cigarro, a Organização devia prevenir a população do perigo para a saúde mental que constitui uma exposição excessiva à Cristina Ferreira ou ao Cláudio Ramos - continuando nos chouriços da casa -, e denunciar o Estado como agressor da saúde social da Gaffe, portando-se como um trafulha.

Não vai adiantar dizer que outros valores mais altos e globais se levantam, mesmo sabendo que os rabos da OMS continuam sentados a observar a deriva dos Continentes, porque se - como diz o senhor Donne -, nenhum homem é uma ilha, convém que no mapa se localize o rapaz usando todas as coordenadas.


A Gaffe a blogar

Ladislav Roller - 1939

O universo dos blogs - falo de blogs e não de páginas publicitárias - é de tal forma capaz de absorver, ignorando de igual forma, quer os que de vácuo se preenchem, quer os que procuram ter um rumo um bocadinho menos vazio.

Blogar não é mais do que atirar pedrinhas ao lago e vê-las saltitar depois durante uns segundos. As ondas de impacto são de curtíssima duração e há que ter consciência do facto. É antes de mais uma espécie de acto narcísico de terceira categoria, destinado a apenas a ser uma montra mais ou menos exibicionista de quem considera que tem na mão aquilo que interessa realmente a uma razoável quantidade de gente. Perdemos a noção do quanto somos insignificantes e deixamos de perceber que, se temos coisas para dizer que consideramos razoavelmente importantes, mas restritas e destinadas a um público específico e bem estudado, o deveremos fazer tendo esse mesmo público, motivado e vocacionado, na nossa frente e disposto a transformar-se no receptor do que é dito ou, em alternância, um público que sabe de antemão aquilo que vai encontrar nos nossos escritos e deles espera complementos. De outra forma, acabaremos a pardalar, ou seja, a falar para os bonecos que colamos na barra lateral.

Os blogs são apenas poeiras, porque demasiado soltos e temporalmente irrisórios, porque depósitos de palavras efémeras com o tempo de vida igual ao de um post.

É estranho, tendo estes pressupostos bem visíveis, verificar que há criaturas que transportam a vida inteira para dentro do blog que fizeram nascer e que criam com desvelo maternal, encarando-o com a maior das seriedades, fornecendo-lhe uma importância desmesurada, capaz de transformar um balir inocente num rugido de leão, defendendo - à custa tantas vezes da decência, da elegância ou da inteligência -, as mais disparatadas teorias ou as mais absurdas das obsessões, disparando mísseis de defesa contra as investidas dos comentários menos amáveis que surgem a macular aquilo que é tido como a vida toda incendiada num ramalhete de frases.

A ideia que me surge, para contrabalançar, é desatar aqui a falar de sapatos de tacão agulha,
 jamais será efémeros. Pertencerão sempre, junto das jóias Chaumet, ao guarda-roupa essencial daquelas mulheres que opostas a mim não têm blog.
Arrisco apenas ser contactada pelo Louboutin.

21.4.22

A Gaffe das nails


A Gaffe observa com pasmo dantesco a menina da recepção que toca as teclas do seu PC com a polpa dos dedinhos encimados por uma espécie de floretes esmaltados.
A Gaffe fica fascinada com a perícia com que os dedos erguidos apontando o céu conseguem tocar as vítimas, enquanto as unhas, as nails, o gel, vão riscando o monitor em arrepio de giz.

Ao lado, uma loira ripada e explosiva, atira os dedos e faz deslizar outros punhais de gel no telemóvel, arriscando lancetar a jugular da companheira com um mover das armas mais violento.
A Gaffe fica encantada, enquanto se introduz nas suas envergonhadas e tímidas unhas por prolongar até à curvatura do espaço, a suspeita da maldição que as donas das nails carregam pelas suas vidas íntimas envernizadas em todas as suas extensões e prolongamentos.

É evidente que estas duas mulheres não sentem, por exemplo, a fricção que é, postas perante um rapagão perito em física atómica - e demasiado atraente para que o ouçamos narrar as aventuras dos electrões, dos iões, dos protões e dos positrões, despido pela nosso imaginário mais maroto que deseja apenas que lhe acelerem as partículas -, pousar o nosso dedinho indicador nos lábios carnudos do potentado intelectual e fazer com que os nosso olhos deslizem pelo deslize que vamos desenhando, impedindo-o de continuar a perder tempo.

Com certeza que, no caso em que o gesto é protagonizado pelas duas portadoras de nails, o pobre rapaz acaba com um olho vazado, ou pronto a ser embalsamado à boa maneira egípcia que arrancava o cérebro pelas narinas.

Por razões similares, as coleccionadoras de nails arriscam ser excisadas durante os seus devaneios e solilóquios, transformando ocasiões propícias a alegrias várias - relembremos que saber estar só revela saúde mental -, em trágicas subtracções de capacidades autonómicas. Torna-se também evidente que quando a alegria é partilhada, o lamentável parceiro de folguedos tem grandes hipóteses de ficar sem as bolinhas, mesmo que sejam de Berlim e fáceis de azedar, reconhecendo-se também que a piloca corre grandes riscos de ser aberta a todo o comprimento como uma sardinha sanjoanina ou como uma salsicha de feira popular - de preferência alemã.

A Gaffe não vai por decência - atributo que muito a caracteriza -, reportar-se às idas ao WC destas portadoras de armas brancas, sobretudo porque acredita que as criaturas não usam as sanitas. São provavelmente como Isabel II - parabéns, rapariga! -, que a Gaffe em criança acreditava piamente não ter intestinos, por razões que excedem o âmbito deste pequeno rabisco. Em consequência, os resíduos alojam-se no cérebro.

Posto assim, há que admitir que existem algumas das mais importantes intimidades gravemente abaladas pelo uso de nails cuja única vantagem é apenas a possibilidade de se usarem como chaves de fendas, pese embora o problema referido atrás.

Antes de colar nos dedos os parolos punhais da mais rafeira das escolhas estéticas, pensem, minhas queridas, que cravar as unhas naquele físico atómico lindo de se morrer repleta de descargas - sendo bem-vindo tudo o for que se dispare - não implica um entendimento literal da acção enunciada. Basta, meus, amores, um dedinho nosso, de garras recolhidas, a contornar os lábios com silêncios.


A Gaffe majestática

Cate Blanchett em Elizabeth
Na verdade, o que realmente hoje importa é apenas perceber que existem dois pontos comuns entre mim e Isabel I.

Somos ambas ruivas e - como diria Sua Majestade -, ambas secas e estéreis como cepos.

O resto é para inglês ver.

A Gaffe contrária


- Os opostos atraem-se -
 diz o povo que nem sempre tem razão.

A polaridade que na física faz todo o sentido, declarando por lei, entre outras coisas, o fascínio incontrolável que o positivo tem pelo negativo - e vice-versa - e que, com o seu sabor oriental, o yin-yang ilustra filosoficamente, não é generalizável quando nos aproximamos dos pobres mortais.

A naturalidade com que nos apaixonamos por uma criatura adversa e contrária a tudo o que somos e a tudo aquilo que nos constrói, parece ser tão constante que se torna suspeita.

Somos atraídas por homens que encarnam o nosso oposto e os homens tombam mortos de amor por mulheres que jamais partilharão uma das suas mais raquíticas ideias ou certezas. O facto é corrente e aceite quase como norma ou inevitabilidade.

Creio que esta oposição fatalmente magnética é, no entanto, delimitada no tempo e sofrerá um desgaste inevitável.
Ninguém consegue aguentar a eternidade que nos é emprestada ao lado de uma pessoa cuja vivência é contrária à nossa. Torna-se uma maçada e uma canseira, aguentar contradições constantes, controlar, adaptar, silenciar, encaixar, reconduzir, moldar, reconstruir, contornar, acomodar ou ajustar todas as nossas acções ou pensamentos aos pensamentos e acções de quem tenta fazer o mesmo. É confuso.
Existe uma espécie agressividade latente e quase sensual no início de uma relação entre opostos cujas características se vão atenuando ao longo do tempo, até restar apenas a vontade de estraçalhar, atiçando um rottweiller, as canelas da oposição.

A durabilidade do amor que amadurece tranquilo e aconchegante, é maior quando estão envolvidas duas vidas que partilham rumos idênticos, caminhos similares, traçados com ferramentas encontradas em comum.

Vejo-me, neste seguimento, num futuro que espero longínquo, deserta destes morenos encorpados, com ar sacana, patifes sedutores de barba rija, aventureiros retesados e audazes, marinheiros e piratas crestados pelo sol dos meus sonhos mais inconfessáveis, dispostos a uma escravidão sexual muito pouco digna, embarcados em naus de tíbias traçadas na bandeira.

Terei por companheiro, por esta ordem de ideias, um suave e inocente tom de ferrugem que, pousado no meu colo, me vai lendo pedaços de Brontë no vendaval que é já um sopro de um sonho entardecido de uma noite de Verão enluarada.

Uma maçada. 

20.4.22

A Gaffe platinada

Marilyn Monroe e Arthur Miller por Jeffrey Yarber
Demora-se imenso tempo à procura de uma imagem fulgurante desta inacreditável e quase impossível mulher, mas todas, sem qualquer excepção, nos deixam deslumbrados. É impraticável escolher uma única fotografia de Monroe, porque todas elas irradiam o magnetismo dos deuses.

Acabei por me render à evidência. Há muito pouca coisa mais saborosa do que um elogio de uma rival. 
Do que dela disseram, escolhi a opinião de outro deslumbre no feminino:

She sure registered on that screen. The minute the camera turned on her she became this incredible creature, and she was absolutely dazzling. She was-there’s no question about that. During our scenes she’d look at my forehead instead of my eyes. At the end of a take, she’d look to her coach for approval. If the headshake was no, she’d insist on another take. A scene often went to fifteen or more takes. Despite this I couldn’t dislike Marilyn. She had no meanness in her - no bitchery. She just had to concentrate on herself and the people who were there only for her… Fifty years on, we’re still watching her movies and talking about her. That’s not a dumb woman - trust me. - Lauren Bacall

Dizem que Bert Stern esperou por MM durante cerca de uma hora, para a fotografar. Desistiu. Meteu-se no elevador e nem sequer sorriu para a mulher que ali se encontrava de lenço na cabeça e casaco grosso de Inverno. A mulher pediu-lhe desculpa por se ter atrasado. Tinha ficado presa no trânsito. Era MM.

Esta ruptura entre a imagem e a pessoa parece recorrente em MM. Arthur Miller conta que passeava com MM sem que a reconhecessem. Isso intrigava o senhor, embora existissem cópias da mulher em todas as esquinas. MM um dia explicou o mistério. Perguntou-lhe se a queria ver reconhecida. Afastou-se dele e subitamente começou a mover-se como só MM sabia. A multidão acorreu aos gritos.

Só uma mulher muito inteligente consegue ser infeliz desta forma

Só uma mulher muito inteligente se permite, porque perto de inteligência que acredita superior - e que esbate a sua, tornando-a quase desnecessária -, abdicar da aura mítica que a rodeia, de uma espécie de inacessibilidade entregue pela insinuação que nunca é evidência, para finalmente assumir a carne como acto de liberdade pensada, aliando-a ao brutal erotismo do instinto dos bichos.

Creio ser esta fotografia de MM uma das mais poderosas do seu historial. Nela o erotismo - raramente ligado a imagens estereotipadas -, é também, e sobretudo, uma inteligente insinuação do que no inconsciente nos é comum. O estereótipo é uma das mais básicas formas de comunicação e apenas exige a inteligência da síntese mais básica e a abrangência do banal. Para que exista erotismo, é preciso que o pensamento esteja presente, não como força redutora ou generalizante, mas como elemento capaz de tornar único e individual, mesmo subjectivo, aquilo que existe numa imagem arquetípica.

Só uma mulher muito inteligente consegue ser carnal desta forma.

ACTUALIZAÇÃO - Recebo, entretanto, de um muito querido compagnon de route a prova de que Monroe era, entre todos os seus belíssimos universos, uma decoradora miserável, abominável e assustadora. Admira que não tenham classificado este facto como contributo significativo para a sua morte.  

É sempre delicioso descobrir que nem tudo são rosas nos jardins suspensos da perfeição. Também há cocó de cão. 

19.4.22

A Gaffe no quarto do "bebé"


A Gaffe compreende que seja necessário um tempo substancial para que as meninas descolem os olhos do rabiosque deste rapagão.
A Gaffe demorou mais do que o previsto na Lei e solidariamente espera que lhe arranquem as pupilas esbugalhadas pelo descuido.

Posto isto, minhas queridas, urge fazer algumas considerações.

Por muito empobrecedor que seja, não são les petites choses mais badaladas ou mais edificantes que, incensadas por nós, definem um homem.

Por muito que desgoste as mais puristas, as mais moralizadoras ou as mais velhas, não são as árvores que plantaram, os livros que escreveram ou o Bugatti que conduzem o que permite o desvendar de um homem.

É o seu quarto.

Evidentemente que os decoradores minimalistas nos confundem. Um inteligente despojamento – sobretudo o que custa os olhos que finalmente conseguimos desencravar do rabo da imagem - é sempre uma ocultação de planos de intimidade mais subterrâneos, apesar de não ser de todo inócuo, por fazer pressentir no dono um desapego caro, uma quase indiferença pela memória, um despido alerta de possível solidão futura.
Podemos fazer o que quisermos do rabo minimalista, tendo sempre a porta de saída como ponto de foco.

São os quartos mais povoados que nos falam do seu habitante.

A Gaffe exemplifica aproveitando o cubículo onde se encontra o rabinho do rapaz.
Observemos apenas cinco pormenores que próximos estão do que nos distrai:

I
Um urso de peluche.

Fujam de homens que dormem com bonecos – sobretudo bonecos que se barbeiam e que não descem a tampa da sanita. São homens que usam diminutivos parvos que substituem os nossos nomes. Num instante passamos a ser Gabi, Liluzinha, pipoquinha ou, na pior das hipóteses, morzinho.
Um peluche na cama de um homem, é uma ordem de fuga. Convém que a acatemos antes do rapaz telefonar a mãe a relatar-lhe o dia.
II

A colecção de fotografias colada à cabeceira da cama.

Se não apreciamos o espírito de missão – sejamos subtis – que nestes casos nos permitiria olhar para o tecto -, acabamos a comparar as nossas maminhas com os opulentos melões esbardalhados no estuque. Temos de admitir que não é de todo excitante ter um bando de senhoras nuas, muito dadas, a mirar-nos sorridentes, enquanto fazemos de conta que pertencemos ao Cirque du Soleil.
Não é seguro acreditar que se as fotos forem do John Wayne ou de Stephen Hawking altera o desconforto. Para quem é fã do ménage à trois ou em multidão, as fotos das meninas, apesar de tudo, são mais produtivas. Um homem que é capaz de nos mostrar a cabeceira povoada por cartazes mamalhudos, tem debaixo da cama revistas pornográficas e espreita a vizinha pelo telescópio.

III
Os crocs!

Sendo a mais foleiras das criações da humanidade, os crocs - ou croques, depende muito do enjoo -,  são o fundo do poço. Ninguém, rigorosamente ninguém – incluindo cães pequenos e gatos anafados - deve ir para a cama com um homem capaz de usar aberrações nos pés. Se certo é que vários estudos referem que um rapagão que mantém as peúgas calçadas enquanto nos mostra do que é capaz, é mais bafejado – não há bons amantes de pés frios -, e se a bem da Nação nos conformamos com esta ciência, não podemos relevar uns crocs no chão.
Um homem que é capaz de usar crocs, aparece de bermudas e T-shirt no jantar da Cruz Vermelha, só para justificar o sorriso de Charlene.

IV
Um Instrumento musical.

É certo que aquela guitarra eléctrica vai guinchar e ganir, mais cedo ou mais tarde. É certo que vamos ter de ouvir o mix a cover ou o remake de coisas estranhas enquanto esperamos que seja outra a versão a fazer-nos vibrar. Os homens que nos forçam a testemunhar o talento que não têm, merecem que tentemos despejar as garrafinhas de água na tomada onde ligaram o instrumento - que não é exactamente aquele que as meninas nestas alturas se limitam a esperar.

V
A ausência de livros.

Só devemos ir para a cama com um homem que está a ler um bom livro ou que o acabou de fazer.

Cinco pormenores decisivos para o disparar do alerta vermelho. Se não fugirmos depois de os conhecer, é porque o rapagão é o da imagem e, apesar de tudo, vale sempre mais um rabo daqueles na mão do que um quarto decorado pelo Querido mudei a Casa.

A Gaffe doentinha


Estou doentinha!

Apesar do único termómetro existente nesta casa - um anti-ecológico termómetro de mercúrio, velho, ultrapassado e mentiroso - acusar 37.7º de temperatura, tenho a certeza que no mínimo escaldo com febre superior a 40º!
Dói-me a garganta. Engulo folhas de lixa sempre que tento sorver devagarinho o chá que me abandonaram em cima da mesa. Tenho os músculos das coxas doridos e os braços inertes. Sofro atrozmente, depositada na cama, sem ninguém comigo.

Os insensíveis que ouço no andar inferior deixaram-me exilada com o meu destino enfermo, declarando que, se sofro, é só porque ando toda a noite em pijama, no meio de uma casa onde as correntes de ar são tão vulgares e banais que mesmo no pino do Verão temos de andar de sobretudo.
Pedi à minha irmã para ficar comigo, mas a sofisticada senhora recusa ver-me esparramada na cama, suada e dorida e quase morta. Tenho de sucumbir sozinha envolta em Gucci.
Supliquei ao meu irmão para me fazer companhia, mas o rapaz declinou o meu amável convite com um pretexto torpe, trocando o meu sofrimento e agonia por um quintal qualquer onde crescem árvores que ninguém conhece - teixos, diz-me aos gritos.

Vou desalentar-me neste degredo sem ninguém para me segurar a mão quando partir.

Apenas a minha querida Josefa me acode.
Traz no tabuleiro, enfeitado por um paninho bordado, o bule o chá quente de limão com mel. Uma chávena de porcelana com minúsculas flores inglesas e um friso de oiro esmaecido no rebordo. No pires, uma colher pousada com um pequeno cabo trabalhado. Um guardanapo branco com um monograma lavrado na mesma cor do pano. Uma manteigueira de vidro com tampa de prata e, num prato ao lado, o pão pequeno a fumegar ainda.
- Chegou agora mesmo para a minha doentinha - pousa-me no colo a bandeja, acomoda e dispõe as almofadas no espaldar da cama e arrasta a luz para dentro do meu quarto.
- Vá, menina! Tem de ganhar cor – de mãos na cinta a Joseja - tão igual à Jacinta! - espera que o perfume do chá aqueça a ruiva.
A menina é ruiva e langue e fita o céu perdida como se fosse cega. Caiu-lhe a alma ao chão e jaz ali com febre.
- Vamos lá, menina!
Trepa a claridade à cama da menina, malhas que a luz tece.

A Josefa espera que volte a cor e o bem ao rosto da menina.
No bule, chá de limão e mel, no prato o pão a fumegar que já chegou - agora mesmo - e a minha solidão em prece que apodrece.


... ...Que idade terá o médico daqui?...

18.4.22

A Gaffe depois da Páscoa


 Vivian Maier
Ao fundo da alameda de mimosas fecharam-se os portões.
A manhã declina o encadear das sombras. Inclina-se devagar sobre a água do lago e num tocar escurecido trepa aos olhos do anjo de pedra. Venda-lhe os sussurros das árvores que oscilam pesando as horas ternas da indiferença do vento.
O azul da luz esgueira-se por entre as sebes como um lagarto que tem frio e um pássaro treme, como o peixe vermelho assustado pelo toque da minha mão na água.
Há sardinheiras a abrir. Novelos de hortênsias no anil de uma promessa e a relva cresce lenta como um gesto que se faz inútil por estar sozinho.

Se avançar, piso as pétalas que espalharam nas pedras para que o som das campainhas se misture com o perfume enjoativo que libertam esmagadas. Um corredor de pétalas com as geometrias traçadas por moldes de madeira. Um corredor de pétalas pisadas que não foi limpo, porque o Dia Santo é dia de descanso e há tempo nesta manhã em que se fecham os portões ao fundo da alameda de mimosas para cuidar dos restos da tarde da véspera.

Fecharam-se os portões.

O som das campainhas ecoa na copa das árvores. É esmagado pelo perfume da luz que se inclina para decifrar a cor das sardinheiras.
Ao longe, as tílias sacodem a poeira deixada pelo adejar das opas brancas e um teixo ergue-se para o céu como um crucifixo.

A manhã devolve-lhes o silêncio depois do Dia Santo.