18.8.23

A Gaffe de férias

NY, 1958 - Paul Slade
A Gaffe, rapariga bem comportada, ajuizada, esforçada e trabalhadora, decide tirar férias.

Durante os próximos dias ruma ao infinito, zarpa para parte incerta, perde-se no horizonte, sem Ipod, sem Iphone, sem Ipad, sem ais de qualquer espécie, levando apenas o seu e atrevidíssimo guarda-roupa de veraneio, os óculos de sol Prada, o protector solar, os dóceis e macios lenços Hermès, azuis tempestade, e a exígua e provocante lingerie que usa para disfarçar a nudez.

Volta logo no início de Setembro com significativas novidades, prometendo respeitar sempre o leitmotiv do blog, ou seja, voltando às inutulidades corriqueiras. 

Agora, a Gaffe vai retocar o bâton, apurar o blush e retirar um pedacinho de saudade que lhe pousou nas pestanas.
Até já!

17.8.23

A Gaffe questionável

Não é de esfacelar os nervos, mas é maçadora a pergunta que fazem quando apanham a Gaffe pela frente:

- Então estás aqui?

Há questões, mesmo as retóricas, que mais valia não serem colocadas e embora esta pergunta tenha o seu quê de pessoano, faz uma pessoa parecer idiota se a fizer com cara de espanto e com um sorriso de madona florentina a acompanhar.
O que havemos nós de responder, a não ser com um sim, a questões deste calibre? É que há milhionésimas delas!

- Cortaste o cabelo?
- Já vais andando?
- Estás sentada aí?

São perguntas que só os portugueses sabem fazer com a maior seriedade e que só os portugueses esperam realmente ver respondidas. Não há francês nenhum que as formule e mesmo quando atacado por um qualquer vírus que lhe domina o cérebro obrigando-o a formular idiotices, não fica a aguardar a resposta. Não há inglês que não desande logo que as faz, mesmo que o inquirido tenha a resposta na ponta da língua e vontade de a fornecer. Não há alemão que espere ouvir o que há para discorrer acerca do assunto. Nenhum italiano tem pachorra para se sentar a ouvir o que se pode dissertar sobre estas questões filosóficas.

Não há!

Os portugueses gostam de arranjar uns minutinhos para surpreender com estas perguntinhas todas primaveris e arranjam sempre um tempito para debater as respostas que esperam ansiosos.

A Gaffe fica sempre com a sensação de que não estão completas, que lhes falta qualquer coisa que acabou colada ao sorriso aparvalhado com que as fazem.

- Então estás aqui, sua idiota que pensa que é finória e vem calcar bosta à terra com cara de enjoada?
- Cortaste o cabelo, sua lingrinhas de treta que agora parece um frango com aquela coisa da gripe?

- Estás sentada aí, em vez de mexeres o rabo e tratares dos bichos?

Mas talvez seja apenas impressão da Gaffe e os portugueses gostem apenas de passar por parvos disfarçados de Pessoa.


16.8.23

A Gaffe facebookiana


A principal razão que levou a Gaffe, já lá vão anos, a abandonar o facebook - para além do Tino de Rans lhe estar sempre a pedir uma cabra para o Farmville -, foi a quantidade de dramas e de pagelas que por lá se noticiavam em publicações repletas de hematomas de palavras.

Só voltaria se os que sofrem as tragédias que ali se anunciavam e publicavam – sobretudo as fotografias em férias e das férias - lhe prometessem que dariam notícia quando tudo regressasse à normalidade benfazeja. De contrário, como é bom de ver, a Gaffe ficaria eternamente preocupada, aflita, angustiada e muito deprimida com todo aquele sofrimento e boas-vontades publicados. Não dormiria nunca.

A outra razão, bem mais prosaica, era a ausência de um botão que lhe fazia imensa falta.

O who cares?! era imprescindível.

A Gaffe sentia a falta dele, quer para tocar as publicações atrás referidas, quer para assinalar as publicações das paisagens destruídas pela mira do fotógrafo, das vacances ou do churrasco na praia, quer ainda para marcar os santinhos luminosos com as frases lapidares de uma espécie de cristandade budista que acompanham as orações e os bons-dias da praxe.

A Gaffe ficava esgotada por não poder accionar este botão sobretudo naquelas doridas publicações de gente que sofre com o abandono da paixão e que ainda não percebeu que a melhor forma de prender o grande amor da nossa vida é enfiar-lhe 2 kg de cocaína na mala e chamar a polícia.

Sobram as clientes do mesmo botão contidas na invulgar colecção de frases passíveis de figurar em lugar de honra, pagelas floridas ou palco principal. A Gaffe considera que se deve exemplificar com pelo menos duas – uma velha e uma mais recente - que se destacam pelo seu mavioso conteúdo e pelo erro na atribuição do autor.

Um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para o ajudar a levantar-se.

A frase é atribuída erradamente a Gabriel García Márquez, mas pertence na verdade a Johnny Welch.

Já Oswald Spengler é realmente o dono de uma das pagelas favoritas desta rapariga tonta que a transcreve em francês por ser muitíssimo francês o conceito que contém.

L’honneur est une question de sang, non de raison. On ne réfléchit pas – sinon, on a déjà perdu l’honneur.

A Gaffe encontrou esta atribuída a Bonaparte. Benza-o Deus.

13.8.23

A Gaffe carnívora


Gosto de comer, mas sou carnívora.

Gosto de sentir os dentes a afundar em carne tenra e suculenta, de sentir os molhos aromatizados a banhar-me a boca.
Gosto de lamber nacos de carne para lhes sentir o sabor das ervas que lhes deram alma.
Gosto de lamber a alma da carne.
Gosto de sentir os ossos a estalar, quebrados pelos dentes, de sucos de carnes frescas assadas com ramos de alecrim.
Gosto de morder enchidos até espalhar todos os sabores por toda a boca, misturando-os em orgias de saliva.
Gosto de trincar, morder, dilacerar, esmagar, cortar, ferrar, mascar e misturar em carnavais de sabor e baba as carnes suculentas que afago com a língua até me enfurecer.
Gosto de sentir correr pelo queixo os fios de saliva e molho e de lamber os dedos.

Com as sobremesas sou mais sofisticada.

A Gaffe das liberdades


Todos os clichés, frases feitas, máximas arrancadas a contextos, são, diz o meu sábio amigo, brevíssimos resumos de raciocínios complexos, sínteses ou sinopses mais ou menos enviesadas do pensamento, ou breves lantejoulas arrancadas de um tecido vasto onde por acaso cintilaram.

São insuficientes, normalmente erradas, muitas vezes fomentam preconceitos, embora não deixam de ser representações enfezadas do raciocínio que as originou.

Uma das mais patetas frases feitas que giram e rolam pelos cantos todos deste circo, é a famosa a minha liberdade termina quando começa a do outro. É citada, repetida, transformada em paradigma da mais sentida humanidade e tida como monumento representativo do mais elevado sentido cívico das gentes.

No entanto, a minha liberdade acaba quando começa a do outro não é frase digna de ser repescada ou capaz de entronizar o autor.

Implica uma noção e um conceito medíocres de liberdade. Circunscreve-a. Divide-a, reparte-a em bocados enclasurados em compartimentos distintos uns dos outros. Insinua a existência de um possível limite, de uma fronteira que não é possível atravessar, porque embate com o terreno que lhe é alheio e - o que acaba por se tornar mais grave -, inclui, embora sublimada, a possibilidade de acção ou atitude menos pacíficas, porque é uso tentarmos aniquilar o que nos limita ou castra. Se a liberdade do outro destrói a nossa, é espectável que a tentemos reduzir ou, igualmente violento, que sejamos obrigados a diminuir a nossa.

O encontro com a liberdade do outro não é, não pode ser, sinónimo do fim ou da redução daquela que é nossa, porque é exactamente deste embate que surge o local de cruzamento - mesmo de opostos -, de ligação e de crescimento. Não diminui o que quer que seja. Multiplica.
O que é nosso entrança com o que do alheio e é nesse cruzar de liberdade - ou de liberdades, como se queira -, que advém a nossa estrondosa capacidade de ampliar a vida.

Quando a minha liberdade acaba quando começa a do outro, estamos seguramente a falar de dois pechisbeques que não fazem conjuntinho.


12.8.23

A Gaffe angélica


No pátio principal da casa existe um lago onde as manhãs de Inverno deixam películas de gelo enganadoras.

No centro desse lago existe um anjo de pedra.
Um dos joelhos mergulha na água enquanto o outro apoia o braço que leva a mão ao lugar onde devia haver um coração. Curvado, a asa esquerda está quase submersa enquanto a outra fechada o envolve em penas de pedra. A mão sem coração toca estendida a pele da água onde as carpas em dias de nevoeiro parecem faíscas vermelhas ou serpentes anfíbias como os deuses.

As árvores desgrenhadas desfazem, como em pecado, a ordem do jardim, a meticulosa descrição da dor da seiva, a geometria vegetal, reflectidas no espelho onde o anjo as inverte tocando-lhes as copas.
Cúmplice de todos os murmúrios. Senhor do petrificar da nódoa no silêncio que é encharcado com o perfume imenso da asfixia.

Enreda-se o frio nas asas do anjo e no corpo da água.

Sempre senti que a mão que lhe toca o peito encontra um ninho abandonado pelo coração que aprendeu o voo. Talvez ainda sinta o calor do corpo e do dormir do que perdeu, mas tem de procurar o bater de asas nas faíscas vermelhas das carpas que deslizam.

O divino delapida. Anjos e humanos são vítimas dos deuses.

11.8.23

A Gaffe subtil


Há pequenos toques, de frágil subtileza, que transformam o jogo duro no mais suave dos encontros.

A Gaffe do início


Levanto-me cedo.
À alameda deste silêncio, chegam as primeiras sombras das tílias rendilhadas.
A luz é uma torre de marfim erguida nos socalcos do início da manhã.
Erguem-se as vagas brancas deste início plano e o brilho leitoso dos começos sobrevoa a mão do anjo de pedra que toca a superfície do lago.

O silêncio tem cor. Este azul de palidez de mortos que trepa as escadas como um cão ferido.
Não quero que a manhã suba aos meus dedos e abra crisântemos no meu corpo.
Gostava que tudo fosse azul-escuro e que pelo silêncio ainda calado, viessem falar-me da neve.

Ainda é tão cedo.

Senta-te aqui, na pedra, junto a mim. Vieste para me ver, não foi mulher? Conta-me então histórias, como sempre fazes. Habituei-me a ti e já não tremo quando sinto no cabelo as facas dos teus dedos.

Conta-me histórias.
Vamos, velha doida!

Primeiro aquela em que eu sonhava ser menina grande e ter um Norte. Depois a do vadio que apanhava conchas no areal para fazer delas barcos no chafariz da Praça ou mesmo aquela em que um bêbado por desejar a lua se afogou no mar na noite em que ela veio flutuar na água.

Se me contares histórias, velha Tristeza, prometo que adormeço nos teus braços. Prometo que abrando a frequência com que pouso a vida nas tábuas do meu quarto. Prometo deixar que o teu cabelo se misture com os veios da madeira. Prometo parar de ferir os lanhos das manhãs de poalha adormecida da memória. Prometo não tropeçar mais no teu corpo quando avanço pela sala distraída. Prometo deixar-te partir. Deixar-te numa esquina da morte, num sítio qualquer.
Os dias passarão a ser dias de soalho encerado, de madeira impoluta. Dias a passar. Dias inúteis que colarei a estes dias que vivo no lugar daqui e ficarei à espera, sem tempo para mecânicas de qualquer fluído, de olhos sem lágrimas ou palavras que enferrujem as grades que me apetece derrubar.

Dizem que nesta casa se chora pouco, mas há apenas duas maneiras de transportar a dor. Por dentro ou por fora.
Ensinaram-me que a dor não é um derrame de rimas choramingas. Não uiva. Não se arremessa em lamentos de míngua. Não pincha em cemitérios floreados. Não ergue as caravanas de circos saudosos em enxurrada de lágrimas contadas.
Ensinaram-me que a dor é cuidar sozinha das sardinheiras de Espanha e das hortênsias, dos príncipes de pedra com asas que afloram a superfície das águas, do fio da cisterna e deste rio, relâmpago deitado.

A manhã começa. É o início.
Fechar os olhos é olhar depois.

Sinto-me cansada.
Sinto-me tão cansada e este silêncio pesa como chaga.

10.8.23

A Gaffe ouvinte


Os meus dias mais perfeitos são aqueles em que ouço devagar contar histórias velhas e perdidas de pedaços dispersos de lugares onde a roseira sobe à doçura longa das janelas.


Ouço e no meu ouvir há o pasmo descoberto enquanto as palavras se enrolam na placidez do que é contado, como as rosas na doçura longilínea da janela.

A Gaffe simbiótica

J. Stanford

Sei que a minha vida depende da agenda dos outros.
Trata-se de uma relação mais simbiótica do que parasitária. Forneço a possibilidade de me controlarem a banalidade e, em troca, oferecem-me a capacidade de os manipular devagarinho, quando as questões me parecem vitais para o meu equilíbrio interior naturalmente instável.

Pode parecer cínico, mas é muito cómodo.

É-me indiferente o facto de, ontem ao fim da tarde, me terem arrancado do sossego, com um desordenada e aborrecida sugestão, pois que seria benéfico passar uns repousantes dias no Porto, antes de férias.

- Desta vez não haverá a desculpa das florinhas para regar aqui. A priminha garantirá que restarão apenas as flores da tua cabeça.

Aprendi que se torna muito mais saudável se me deixar levar em vez de espernear e me debater em nome de causas que não afectam o que realmente desejo.

A maior parte das vezes, o controlo que pensamos exercer sobre a vida dos outros, não passa de uma forma subtil de sermos manipulados por eles.

Acordei hoje  com o chilrear de umas coisas com penas e com bicos, a minha Josefa trouxe-me o pequeno-almoço e na bandeja havia beijos e ternura para barrar o pão quente e a minha prima, futura agente dupla, está no jardim a cantar desenfreada Singing in the rain.

Tudo está correcto. Tenho apenas de verificar a consistência dos fios dos fantoches.

A Gaffe das manhãs do avô


Todas as manhãs, antes de eu sair, o meu avô, de roupão felpudo e de pantufas fofas, sugava-me com dois beijos nas bochechas.

Perdi aqueles beijos e sem aqueles beijos nunca mais tive uma manhã de sair à rua a sentir-me a Dietrich.

9.8.23

A Gaffe e o Príncipe Sapo


No regresso aos dias nostálgicos e entristecidos, a Gaffe retorna ao seu quotidiano mais banal e insípido, continuando a sonhar ver surgir a famigerada luz ao fundo do túnel.

Nós, raparigas espertas, alteramos significativamente este conceito de luminosidade. O reluzir do pavio acesso, na negrura do caminho, pode significar, não raras vezes, o reflexo de um raio de sol que se distrai no metal polido da armadura de um príncipe.

Todas as mulheres o esperam. Todas as mulheres aguardam, mesmo que secretamente, que surja o cavaleiro que as tomará nos braços de Cantigas de Amigo e as arrebatará, transformando em veludo e rosas as pedrinhas nos Louboutin, nos Jimmy Choo, ou nas miseráveis sabrinas que os substituem nos tempos que correm.
O sonhado cavaleiro, para além de garboso, de divinal beleza, servo submisso, valente protector e de galante fraseado, deverá amar-nos desmesuradamente, com consciência da precária certeza de nos ter. Para nos seduzir, será obrigado a rasgar a alma nos espinhos que nos rodeiam e afogar a montada nos fossos que cercam o castelo onde adormecemos frágeis, mas com um olho aberto.

Embora nem todos os sapos tragam príncipes dentro, acredito que todos os homens trazem príncipes. Alguns, com o tempo, tornam-se sapos e essa metamorfose é irreversível.
Sabemos, por instinto, que os sapos só nos seduzem se nos obedecerem, mimarem, bajularem, atormentarem com presentes, venerarem, acariciarem o malfadado gato que adoramos, glorificarem as nossas pequenas idiossincrasias, canonizarem as nossas exigências, incensarem as nossas compras mais idiotas, afagarem os nossos desânimos e as nossas frustrações e correrem atrás do táxi quando decidimos ir embora.

Só o acatar destas condições permite a um sapo aspirar a seduzir-nos.

Temos tendência para revelar o lado mais negro, mais mesquinho, mais medíocre e mais torpe das nossas almas, quando o sapo não é o nosso príncipe, porque sabemos que, se para nos seduzir, ele terá de cumprir na perfeição todas as situações enumeradas - e muitas mais de que não se fala por pudor -, enquanto que nós, para o arrebatar, temos apenas de lhe aparecer todas nuas.

A Gaffe num T1


A Gaffe, nos seus tempos de estudante, viveu num T1 amoroso, lindamente situado, com uma estupenda vista para o mar e dois vizinhos exemplares - um senhor encanecido e alquebrado, simpático, terno e paternal que lhe regava as plantas esquecidas por completo e que acabavam ressequidas ou anoréticas e um outro, jovem matulão musculado e moreno, com um QI tão ressequido como as plantas, mas com muita vontade de apoiar uma rapariga ruiva pouco exigente em capacidade cerebral depois de um pavoroso dia de estudo e de canseiras livrescas.

O T1 era perfeito, mas a Gaffe receava abrir a porta do armário e ser empurrada e projectada pela janela fora e entrar de supetão no quarto do vizinho atraente. O espaço não sobrava tendo em conta que só o guarda-roupa da Gaffe poderia ocupar todo o edifício.

Esta rapariga outrora apertada fica logicamente seduzida pela solução encontrada por Till Könneker - ou até pelos heróis IKEA - e lamenta que as propostas tenham sido apresentada quando a Gaffe já conseguia respirar num espaço largo e - em segredo suspeita - com demasiados metros quadrados e sobretudo quando o vizinho bonzão que não se cansava de a apoiar tenha decido frequentar um curso pós laboral que lhe ocupava a noite toda.

8.8.23

A Gaffe o os blogues de gajas


Estou desgostosa.
Vi-me retratada num dos meus blogues favoritos, daqueles que me dão um enorme prazer visitar, de uma forma muito pouco agradável.
Passo a citar:

(…)Os blogues de gajas são aqueles blogues escritos por tipas que se assumem como tal e, pior, falam de coisas que elas acham ser coisas de gajas: sapatos, vestidos, gajos, graus de eficácia de técnicas depilatórias, aulas de pilates e claro, como mulheres modernas que são, sexo. Não percebem, pobres gajas, que a modernidade é uma chatice. Procuram, volta e meia, derramar um bocadinho de erudição, que é para a gente não pensar que são umas gajas burras. Um bocadinho de jazz aqui, um nadinha de grego clássico acolá, muito sentido de humor à mistura, que é para dar a sensação que são felizes e devidamente fodidas. As gajas, quando falam de sexo, procuram fazê-lo da mesma forma que os gajos. E, então, são tristemente patéticas: escrevem como se estivessem possuídas pelas personagens do sexo e a cidade ou, então, como se lhes tivessem crescido testículos, bolas, tomates, colhões, enfim, uns enormes badalos nas partes baixas. As gajas, em regra, não são interessantes. São simplesmente ordinárias.(…)

Retirando uns quantos apontamentos - não falo grego; não faço pilates; não sou grande apreciadora de jazz; sexo e felicidade tenho o que mereço e o que conquisto e o Senhor me valha se escrevo como se me tivessem crescido os apêndices descritos - o retrato está fiel e enfio o barrete até às orelhas.

Ficamos embaraçadas, coramos e tentamos encontrar um cantinho para esconder a nossa vergonha.
Com tamanha estalada pensei, muito seriamente, fazer desaparecer deste mapa a minha miséria tão bem caracterizada ali. Assumi que se uma mulher admirável escreve desta forma sobre o blogue desta gaja, o que a pobre deverá fazer é sumir e deixar vozes mais nobres à solta, limpando-se assim mais um pedaço de lixo cibernético que tão bem analisado foi.

Estava a sentença dada. Morrer já aqui, sem mais nem dó.

Depois pensei que aquela mulher que admiro pelo que dela leio afincadamente, deve ter um cu grande, um gigantesco, colossal, titânico, desmesurado rabo e que o atira de vez em quando às gajas que descreve, só porque sim, só porque é grande.

Revogo a sentença e resolvo continuar a ter um blogue de gaja. Afinal é tão ordinário como ter um blogue de grande dama, não é?

A Gaffe ucraniana


 

O bombeiro é ucraniano.

Tem cerca de 1.90 m e corpo de nadador olímpico. Usa o cabelo cortado rente e um sorriso largo e gentil. Veste overall azul -  fato-de-macaco para os amigos -, enfiado numas botas pretas de atacadores, colete almofadado, enorme, vermelho vivo com reflectores de prata e boina presa num ombro. Veio verificar o sistema de alarme de incêndio.

- Onde fica o cabineta da sinhôra? – pergunta e mostra uma fiada de dentes brancos e perfeitos. O cabineta da Gaffe é mesmo ali e o seu último desejo, a sua derradeira ambição, passou a ser ouvir todos os esclarecimentos acerca de alarmes, de mangueiras e de incêndios sejam eles onde forem, desde que sejam fornecidos pela boca daquele perfeito exemplar de masculinidade.

Durante cerca de meia hora prestou toda, rigorosamente toda, a atenção a um semideus vestido de bombeiro, absolutamente delicado, educado, amável, simpático, disponível, másculo e - pasme-se! - indiferente à sua atenção, um bocadinho suspeita, ao sotaque escaldante e tonitruante do colosso.

Nada de ilusões: a Gaffe é uma perita, uma autêntica especialista no que diz respeito a reconhecer e a distinguir a indiferença total, acima de qualquer suspeita e sem sombra de pecado, da inocência absoluta e da ingenuidade pura perante as suas atenções desonestas
O caso do impávido bombeiro pertence, sem a menor hesitação, ao segundo grupo: Pura inocência, aliada a um elevado profissionalismo e irrepreensível educação.

Deste episódio surgem algumas questões importantes:

1 - Os uniformes são realmente elementos de atracção irresistível e é então comprovada a teoria de que a passividade das vítimas se deve, também, ao poder paralisante do uniforme do carrasco?

2 - Haverá latente em nós uma insuspeita necessidade de nos deixarmos dominar, mesmo que de forma sublimada, por elementos claramente identificados por sinais externos e simbólicos de poder ou de força?

3 - A inocência completa, equilibrada e cristalina terá ainda a capacidade de resistir, aniquilar e desarmar os matizes tentadores da sinhôras deste mundo por muito agradáveis e subtis que estes se revelem?

4 - Será que de Leste nos chega também uma noção de dever e profissionalismo muito mais vertical e muito mais inabalável do que a existente aqui até agora?

5 - Será que a Corporação dos Bombeiros lhe empresta por dois ou três dias um uniforme completo, reflectores incluídos, com um número que sirva ao português menos desmedido, mas mesmo assim interessante, que vem consertar o ar condicionado?

7.8.23

A Gaffe das lesmas

Varun Aditya

- A menina janta arroz de pato?
– a Josefa pergunta à minha irmã que tinha desabado na poltrona no início tarde de preguiça e de calor em brasa.

A minha irmã ergueu a sobrancelha.
Procurava na pergunta um laivo de troça escondida, um rasto de gozo miúdo, que as mulheres do Douro usam de modo tão discretamente certeiro. Nada! A Josefa queria mesmo saber as preferências culinárias da menina.
- Oh! Josefa! – espanta-se a minha irmã, depois de ter vazado a alma da miulher com os punhais desconfiados do olhar –, ninguém come essas coisas com este calor! Eu só quero uma salada. Daquelas que a Josefa sabe fazer, muito ecológicas e verdes, com alface de folha lisa. Mas, por favor, retire-lhe aquilo dos caracóis.

- Diga, menina? – insiste, mas já de sorriso discreto à tiracolo.
- As coisas sem casca. As fêmeas dos caracóis – explica sobranceira.
- As lesmas – procura esclarecer com uma paciência não isenta de brevíssimo desdém.
- Não me faça isso, Josefa! Eu não quero saber como se chamam as senhoras.

É do calor. Esgana-nos o cérebro.

Depois há a ausência de piscinas.
Em todos os cantos onde fico, há uma escandalosa falta de piscinas.
Há repuxos, copos, tanques, esguichos, torneiras, lavatórios, bidés, lagos, bicas, fontes, poças, garrafas e alguidares, mas piscinas nem pingo.
Há aqui, é bem verdade, a gigantesca cisterna, mas ninguém em condições psicológicas ditas razoáveis se atreveria a mergulhar no desmedido e medonho espelho de água gélida, capaz, tenho a certeza, de sinistramente sorver o mais incauto puxando-o para as profundezas negras muito Stephen King.
Contentemo-nos com o chuveiro improvisado de água fria, tomado lá fora, na sombra do início do jardim, de rendas brancas, aos gritinhos e à vista dos homens suados e bravos e fortes e duros que começam a chegar ao fim da tarde.

São uma apetitosa salada, estes rapazes, depois de despejadas as mais atrevidas esposas dos caracóis.

A Gaffe sozinha

É assustador sentir que os objectos nos olham indiferentes sem aqueles que os amaram.

6.8.23

A Gaffe de Genghis Khan

Huang Yang Chih

O almoço tagarela decorre num barulhento restaurante que serve comida caseira e que visito pela primeira vez a convite de duas amigas que se cansaram de manobras groumet.


As palavras à deriva não cativam e procuro distracções nas mesas ocupadas.
Na minha frente um homenzarrão de costas gesticula animado e galhofeiro. Um dos interlocutores está tapado pelo corpanzil da discussão que parece estar relacionada, mais uma vez, com as comendas de um comendador a quem permitiram ser um trapaceiro. 

Ao lado, ainda mais risonho, um homem de pouco menos de quarenta anos torna-se o foco de toda a minha atenção.
É magro, seco, relativamente baixo, sem indícios de ginásios tresloucados, de mão pequenas - um homem não pode ter mãos pequenas! -, com um cabelo desmanchado, castanho, com madeixas soltas claras, quase ondulado, de barba de três ou quatro dias desleixados, sem plano e sem controlo e um sorriso deslumbrante. Traz um pólo azul com um logo branco, de trabalho, desconcertado e bambo, aberto, permitindo breves aparições das clavículas bonitas. Um homem banal, muito bonito, mas aparentemente sem nota capaz de me atrair.

No entanto, vejo-me incapaz de não olhar para ele, de me sentir presa, de me sentir cativada, de me sentir seduzida e de considerar que aquele trintão desleixado à minha frente é um dos mais sensuais rapagões da história das minhas histórias.
Espreito-lhe os gestos, masculinos e sinceros. Observo-lhe a atenção divertida com que ouve os companheiros. Vejo-o responder, sorrindo sempre luminoso e franco, sempre atento e irrequieto e nem as mãos pequenas e brandas são capazes de me desviar o olhar.

Não entendo.

O homem não tem qualquer uma das características que me levam a cometer indiscrições ou que me atraem de forma tão física. Esta constatação obriga - ainda mais - a que o observe, o espie e o deseje. O homem apetece-me e eu não sei porquê.

Depois de acabar de beber o copo com vinho, levanta-se. Traz umas miseráveis calças de ganga largas e desbotadas, velhas e coçadas. Vira-se, de repente, e volta a sorrir à laia de despedida.

Descubro então.

Os olhos, que fazem lembrar mogóis, estepes, tundras e guerreiros - Genghis Khan a cavalgar pelas mesas de um restaurante caseirinho -, quase se fecham quando ele sorri.
Foi esse extraordinário pormenor que me atraiu, que o tornou atraente, que fez com que eu o desejasse, que subitamente o tornou único.

A beleza, a mais subtil, imperceptível e tímida beleza, é como um guerreiro escondido nas frestas ou ameias da nossa desatenção. Dispara, mesmo já vencido. Podemos conquistar todos os campos de batalha, que tombamos perdedores se esquecermos que há lâminas que demoram tempo e silêncio a chegar ao coração.


5.8.23

A Gaffe dos figurantes


A Gaffe há muito que deixou de ouvir os seus políticos.
No início, retirava o som dos aparelhos, mas depressa percebeu que apenas se divertia com os mimos mais histriónicos, com gestos tonitruantes de André Ventura, mas que não se notava diferença quando era retirado o ruído a Rui Tavares.

Passou a distrair-se com os cenários.
Enquanto o discurso se ia escoando, a Gaffe observava os adereços, o mobiliário, a loiça, os quadros, os cortinados ou a paisagem que da janela se compunha.

Depressa se cansou. Pouco ou nada se alterava de lugar para lugar.

Tentou aproximar os oradores das personagens de livros ou de filmes de que tinha memória, mas o único que se encaixava nos parâmetros exigidos era o Papa Francisco numa moderna versão de Fernandel. Ficou muito incomodada, porque o actor francês sempre a apavorou.

Decidiu perscrutar a moldura humana.

Sempre que se discursava, a Gaffe passava os olhos pelos senhores que atrás do discurso ou da intervenção pública, criavam raízes em terreno infértil.
Tem de admitir que se divertia.
Não são emplastros. São muito mais engraçados do que o portuense telegénico.

Há todas as versões da patetice. Os que acenam com a cabeça ao som do sim e não do pregador, olhos fechados e cantos da boca descaídos, compenetrados, de modo a revelar tino e sisudez; os de olhos esbugalhados e fixos, cravados no público que pensam existir, a reprovar com a sua austeridade vincada a distracção do alheio; os que fazem desabar o olhar longínquo e superior sobrevoando a turba; os que espreitam o ombro do discurso de modo a aparecerem discretamente lá em casa e que só não tiram selfies porque lhes falha o stick; os que permanecem empalhados e que têm de ser recolhidos no fim, à força de braços ou de picaretas; os que sorriem e disfarçam querendo parecer que estão ali por acaso e nada querem em troca e os que apresentam uma cara de pasmo por terem sido arrebanhados só para fazer número.
Existem de todas as cores.
No entanto, acabamos por repetir os cromos! Apesar de tudo, as cadernetas não são complexas e as variantes esgotam-se depressa.

A Gaffe, desiludida, resolveu, recentemente, despi-los.

Vai resultando.

Imaginar Pedro Nuno Santos de pilita a dar-a-dar, enquanto se vai demitindo; Galamba de rabinho voltado para a lua, a inaugurar uma mostra de carruagens apodrecidas – amostra, como se diz no Norte -; António Costa de mamocas ao léu escondido atrás de um carro pronto a afugentar os jornalistas; Paulo Raimundo de bandeira em riste a marchar ao sol nascente ou mesmo Ana Abrunhosa com as virilhas supostamente por depilar e com o mesmo penteado que traz na cabeça, apesar de ser tudo ligeiramente repugnante, é o único sentir que ainda conseguem despertar e, por muito infeliz que pareça, a única forma que resta de se fazerem notar.

Pelo menos Biden entra sempre aos saltos no palco onde vai discursar.

4.8.23

A Gaffe a escaldar

Shiori Matsuura (Japão, 1993)

Este calor imenso torna a minha vida verde e vegetal.
Não faço literalmente nada e o tempo passa por mim a arrastar-se como ancião empobrecido.
Sem interesse, vazia, deslavada, miserável, quente, a minha vidinha deambula entre as cadeiras do jardim a arder e as poltronas das salas incendiadas.

Está calor aqui! Demasiado quente e começo a trincar o ar que respiro. Salvo-me recorrendo à sombra das árvores e ao ar condicionado que suado trabalha todo o dia.

Morro de tédio.
Nada me motiva.

Comi coisas verdes e saudáveis, bebi da mais fresca fonte laboratorialmente analisada, tentei uma subtil aproximação à gata assassina que aqui governa e que me desprezou soberanamente, ignorando a minha proposta de tréguas, arrastei dois livros das estantes para os esquecer sem abrir e adormeci alarve deitada na relva.

Tudo cenários deprimentes.

Sinto-me uma alarve inútil, alagada em tédio e asfixiada pelo calor.
Penso brevemente entrar em coma.

A Gaffe barbarotinocada


A Gaffe detesta sonsas quase tanto como odeia sardinhas. Sobretudo aquelas não se detectam de imediato, parecendo-nos apenas fofinhas.

Se a Gaffe perder algum tempo com a imagem que se apensa, verifica que a doçura da petiza é falsificação. A pequena pestaneja com a velocidade da retoma económica. As sonsas difíceis de sinalizar revelam-se apenas porque baloiçam as pestanas para cima e para baixo quando lhes aparece na frente o que desejam e sabem ser nosso. Normalmente é um homem que nos custou couro e cabelo conquistar e que acaba a comparar o nosso mau feitio com a afabilidade tímida da sonsa. É evidente que ficamos a perder, porque acabamos a rabujar impropérios e a disparar obuses contra a dulcíssima figura. A sonsa reconhece que uma das suas armas é a facilidade que possui de nos transformar no Incrivel Hulk e, é evidente, nenhum rapaz ambiciona ter verde tropa na cama - enfim, há excepções, mas mesmo essas ficam em desvantagem perante um ataque da sonsa.

As sonsas nunca exigem nada. Contentam-se, penduradas num sorriso ameno, com o que é sorteado e lhes cabe em sorte. Nunca reclamam a não ser através de uma ladainha morna, fanhosa e cadenciada, que chega acompanhada de um sorriso terno, infantil e tímido que manobra de modo eficaz o ouvinte que se baba e que acaba por engolir o sapo que não lhe era destinado.

A sonsa não critica nada. Faz reparos. Anotações. É quase pudica, quase catequista de paróquia perdida no alto da serra, quando nos aponta, como quem não o quer e com a brancura da surpresa, o nosso decote que revela um soutien minimal e sem história comparado com a obscenidade de renda vermelha debruada a penas pretas que usa nas suas romarias.

A sonsa parece casta e inacessível. Acaba por cumprir este desiderato, corando mal se pronuncia a palavra xixi, porque lhe lembra a anatomia masculina, mas apenas em relação ao homem que é seu noivo - a sonsa não tem namorado, tem noivo. Descobrimos depois com alguma facilidade que seria compreensível que fosse a domina de um bordel sadomasoquista em Bragança completamente desconhecido das donas de casa lá da terra que acreditaram que toda aquela parafernália era oferta da Ordem Sacra dos Santos Cilícios.

A sonsa envia ao chefe, por engano, os nossos ficheiros esbardalhados e ensebados que lhe pedimos para rever e acrescentar o que é da sua competência, informando o monarca, muito prestáveis, que fomos nós que arcamos com o trabalho todo. Quando o chefe nos aparece com cara de leão-marinho após o degelo, prontifica-se a assumir o erro quase a choramingar no ombro do paquiderme sem sequer se interessar em saber se realmente o leão-marinho é um paquiderme ou nem por isso - este pequeno lapso zoológico é comum a todas, sonsas ou não.

As mentiras da sonsa não chegam a ser mentiras. São amostras de falta de verdade ou omissões. Mente aos bocadinhos pequeninos. Mente como quem oferece chupa-chupas esperando que o açúcar provoque a diabetes fatal. A junção das suas mentirinhas permite-lhe construir umas ruelas por onde faz deslizar a sua ambição acolchoada.

A sonsa é boa pessoa. Uma Madre Teresa em miniatura. Comove-se imenso com os pobrezinhos, com os cães abandonados e não é contra o casamento gay - tem apenas uma opinião desfavorável -, conseguindo embrulhar as três comoções com o mesmo papel, dando por finda a sua solidariedade ao fazer deslizar uma lágrima piedosa que limpa com o dedinho atravessado para não esboroar o rímel.

A expressão favorita da sonsa é o derivado a seguida das justificações que encontra para a sua ausência de raciocínio.

- Ainda não li, derivado à pandemiua com que fico derivado ao peso do livro.

- Não avisei que a casa estava a arder, derivado ao saldo de meu telemóvel.

- Não avisei que havia reunião, derivado à falta de esferográficas no gabinete derivado ao papa.


A sonsa, para além de tudo o que se diz por ser verdade, é também um problema dermatológico. Pode não parecer importante, mas com o tempo e a comichão alastra e torna-se a mancha que envelhece cancerígena.

A Gaffe decididamente prefere engolir sardinhas cruas. 

3.8.23

A Gaffe a sussurar

In memoriam


Nas minhas memórias arrasto o passado sem olhares de ânsia inútil ou sem qualquer amarfanhar de alma que vem do desejo de recuo. Olho para mim e acredito que tudo o que vivi não agarra e não contém o germe capaz de fazer rebentar flores carnívoras.

Lembro, por exemplo, da primeira vez que vi a Jacinta, mas tal recordação não me leva a nenhum sentir doloroso. Sei que a vi à entrada da casa, junto ao portão de ferro forjado. Havia ainda a alameda de vinhas despidas e um caminho de terra calcada que teria de percorrer até me chegar. Ao longe, a Jacinta parecia ainda mais pequena do que realmente era. De vestido cinzento, comprido e tubular, de avental gigantesco, imaculado, e um lenço enrolado no pescoço. Um lenço amarelo tostado, liso e limpo, emergindo do antracite do conjunto. Permaneceu quieta por momentos e depois arrancou com passinhos decididos. Através da janela, via-a aproximar-se. Primeiro foram os olhos. Negros, minúsculos e aguçados, pareciam andar mais depressa do que a dona. Chegaram de repente e apanharam-me desprevenida. O seu olhar cheirava a perigo. Era predador e eu julguei ser a caça. Antes da mulher ter chegado completa, já me tinha escondido dentro do colo da minha avó.

O seu amor absoluto foi-me entregue todo e exactamente por isso acabei presa inevitável. A sua ternura sempre contida, sempre doseada nas relações com os outros, tornava-se comigo uma vigilância doce e protectora.

Amava-me, mas nunca o deu a perceber de forma clara. Como se o seu sentir fosse dado adquirido ou facto a ignorar porque revelador de falhas. Sentava-se a uns metros de mim e ficava ali, quieta e em silêncio, de mãos pousadas no avental, a provar que era amor aquilo que eu via. Com o tempo percebi que nesses momentos a Jacinta vigiava. De olhos aguçados, cheirando o ar, atenta ao mais irrisório movimento, afastava-me da vida sem perceber que essa protecção tornava predador o amor que me entregava.

No início das tardes, depois do almoço, a Jacinta alisava com as mãos o tecido branco da toalha. Preparava o jogo, perante a impaciência da minha avó, que adiava, de braços cruzados e murmúrios entre dentes, a ordem de se limpar a mesa. Fazia depois minúsculas bolas com o miolo do pão. Colocava-as alinhadas e marcava a meta, largos palmos longe delas, com um traço de unha sobre o pano.

Tínhamos, eu e o meu irmão, de soprar as bolas de pão ao mesmo tempo, com força e de forma contínua, até que uma tocasse no risco da meta. A vitória era levada por uma colher ao boião de mel, embebida nele e oferecida como guloseima. O jogo foi adquirindo algumas variantes e, com o tempo, para além do sopro, deveríamos ser capazes de ciciar, de fazer escapar as sibilantes, encontrando o sinónimo da palavra que a minha avó, que se rendia sempre, tinha escolhido e que inevitavelmente seria solta com sons de assobio.

À espera de um rumor, as duas cravavam os olhos na minha boca e na do meu irmão à espera que um de nós articulasse os sons desejados. Mas as bolas de pão que o rapaz soprava eram sempre mais rápidas e chegavam à meta antes de se soltar qualquer soído de serpente. Dia após dia, mês após mês, colheres mergulhadas em mel passaram inúteis pela minha esperança que teimava em jogar e que eu sabia, tão bem como minha avó, ser absurda.

Nunca ganhei.

A minha absoluta fragilidade de alma, a minha indomada e dolorosa insegurança nasceram ali e cresceram soltas, perto dos olhos vigilantes da Jacinta, uma das mais fenomenais mulheres da minha casa.

Um dia perguntei-lhe qual era o seu maior sonho. Disse que me iria rir se o soubesse.

Jurei que não.

Queria muito ver os macacos no Jardim Zoológico.

Nunca chegou a ver os macacos enjaulados e eu nunca ganhei o jogo das toalhas brancas.

Só quando morreu entendi o que significava aquele sussurar.

2.8.23

A Gaffe escreve ao Zé Manel


Meu querido Zé Manel,

Antes de tudo quero que saiba que, aconteça o que acontecer, estarei sempre a seu lado e ao lado de Joana Gonçalves de quem sou fã. É evidente que esta promessa não abrange o portão da União Europeia em Bruxelas, porque o menino passou a ter de entrar pela porta das traseiras e uma rapariga esperta não prescinde dos serviçais que a acolhem, a mimam, lhe abrem a porta do Jaguar e lhe seguram o guarda-chuva - numa alusão literária a Afonso Cruz -, mal pisa a passadeira vermelha. Tirando este pormenor, conte comigo.

Sei que é uma criatura superior a estas manigâncias. Do Pantone, o vermelho sempre foi uma cor que o traiu ou que por si foi desfavorecida. Lembro, seu maroto, que na juventude o menino não foi de todo simpático com este tom, misturando-o com o amarelo. Encare esta imprópria interdição como uma torpe manifestação de ressentimento colorido ou como uma crise de ciúmes de Vitor Constâncio por não ter descoberto a tinta que o menino usa na sua impecável cabeleira.

Falo, meu corajoso Zé Manel, de injustiça europeia. Uma desavergonhada injustiça cometida contra si, que se limita a inverter o fluxo constante entre o Goldman Sachs e Bruxelas. Dir-se-ia ter cometido um crime ao aceitar o cargo de Director não Executivo desta impoluta Instituição depois de ter presidido ao Parlamento Europeu! Escandaloso é o facto de sermos testemunhas da deselegância histérica dos membros da União - receio que no seu caso que inverte o que é banal, tenhamos mesmo de suportar o mooning da tão elegante Von der Leyen - sobretudo quando a comparamos com a discrição, o silêncio e a mais irrepreensível distinção com que são encaradas pelo Goldman Sachs as transferências dos seus quadros para ao Parlamento Europeu. Não assistimos a um arrancar das tapeçarias e a um rasgar de vestes quando, por exemplo, Mario Draghi assumiu o cargo no Banco Central que tão irrepreensivelmente exerceu - e que faz sombra à actual Maria Antonieta, a fabulosa Lagarde que tão bem ilustra o que nos avisa que em terra de cegos quem tem um olho também é rainha.

Não acredito, Zé Manel, que tenha ficado melindrado por o considerarem lobista. O menino sabe que se tivessem de puxar a passadeira vermelha aos lobistas parlamentares, a entrada de Bruxelas seria uma performance de Spencer Tunik. Depois, meu caro, sei que, com um savoir-faire invejável, se foi transformando no peixe que outrora o simbolizou e tal como ele, meu querido, segue apenas o instinto.

Devo dizer, meu caro, que fico estupefacta com a sua postura de homem condescendente e compreensivo, capaz de desvalorizar estes histerismos.

Sei que não lamentará jamais a reforma que obterá dentro de alguns anos, mesmo reconhecendo que a miserável mal chega para as despesas correntes. Sei que, mesmo a um canto da sala da Europa, se manterá firme e com o mesmo porte com que recebeu Bush e Blair – o Aznar tinha um bigode parolo, por isso recuso referi-lo -, numa cimeira que produziu tão bons resultados na área das demolições.
Sei que as sombras sinistras relacionadas com a aquisição do castelo de São João do Arade onde deu o nó - ou o laço que gente de boas famílias não dá ponto, nem costura -, por um dos seus melhores amigos, o amoroso Vasco Pereira Coutinho, da AutoEuropa - agora concentrando nos seus interesses na gestão de fundos imobiliários -, não o incomodam, pois que gente rica é outra coisa bem mais ensolarada e o menino nem quer saber de negociata alheia.

Não se amofine. Mantenha-se sempre de pé, como as árvores, mesmo que sejam gritantes os seus problemas de coluna.

É admirável como a sua consciência deixou de ser a sua juíza para se transformar em cúmplice.

A Gaffe equilibrada


Uma rapariga esperta depressa verifica que um grande número de verbos que são usados quando falamos de amor são os mesmo que povoam a guerra. Cercar, conquistar, fugir, entregar, render, morrer, roubar, ceder, cair, perder, vencer, são disso exemplo.
Esta proximidade, que também atinge os adjectivos, entre o que é bélico e o que deverá ser o seu contrário, é bem ilustrada pelo ancestral duo Eros e Thanatos, Amor e Morte intrinsecamente ligados para toda a eternidade.
O contacto entre estes dois universos, o do amor e o do ódio, não se limita a um conjunto lexical ou mitológico. A mistura é muito mais subtil e atinge o coração dos dois estados, tornando possível encontrar as sombras naquilo que deveria apenas conter a luz e a luminosidade no fundo de um poço.

A Literatura e a narrativa mitológica - sobretudo estas duas - fornecem exemplos fascinantes - Otelo assassina a amada apenas porque o amor lhe injectou o ciúme nas veias e Perséfone volta ciclicamente para o odiado raptor, desenvolvendo o que se poderia chamar, com alguma leviandade, síndrome de Estocolmo, mas o mais corriqueiro do quotidiano está pejado desta aliança inevitável.

Não existe apenas uma limpidez idealizada e angélica, uma cristalina água a correr sobre o sentir mais claro, assim como não há unicamente o charco pútrido no sentimento mais horrendo.

Amor e ódio são como uma pulseira. Se a fecharmos em redor do punho, teremos as extremidades unidas e acabaremos por deixar de saber com nitidez qual das duas possui o mosquetão.

Não são opostos, o amor e o ódio. Suspeito que nem sequer são sentires separados ou distintos. Fazem parte de uma mesma entidade, de uma mesma emoção, de um sentimento único, de uma mesma moeda. Equilibram-se ou desequilibram-se as faces, mas nunca se aniquilam e, não sendo passíveis de separar, porque enformam um corpo único, não podem ser contrários.

Daí que tenham um oposto comum: a indiferença.
 

1.8.23

A Gaffe doadora


Sinto sempre uma certa tristeza quando olho para aquilo que outrora foi acarinhado por mim como relíquia a conservar pela vida fora e que agora, embalado ou atado, é apenas importante porque o foi no passado.

Vou entregar à pequena biblioteca deste canto da vida os livros de histórias menores, com capa de couro, lombadas com letras douradas e rebuscadas, folhas carcomidas e cheiro a muito velho.

Pertenciam à minha gente. Gente que nunca poderia conhecer. Pessoas que morreram antes do meu avô ter nascido.
Há uma imensidão deles, colocados nos pesados armários do sótão, ou empilhados nas salas favoritas dos meus avós, exactamente onde os tinha guardado quando os descobri, já lá vão dez anos. Na altura, pensei que tinha encontrado, não um acervo valioso, mas belíssimos pedaços de memórias que se inscreviam nas margens das folhas pelos donos destes livros. Lembro-me das anotações a tinta, numa letra tombada e toda floreada, num livro de receitas de alguém que me parece ter dominado a cozinha em tempos idos.
Esse não vai.
Não vão também os que trazem pequenas anotações acerca de Voltaire, de Diderot, de Balzac e um ou outro de autores menores, mas que mereceram apontamentos extraordinários, mais outro que sublinha e comenta os soneto de Camões - tão mal amado e tão mal interpretado por Voltaire.

Isto de ter de escolher pedaços de memória é doloroso.

Sei que os livros, se ficarem, se vão deteriorar irreversivelmente. Custa-me entregar os volumes que foram importantes e acarinhados por alguém, um dia, no passado. Parece-me que os desrespeito, aos livros e aos antigos donos, mas há memórias que devemos embalar e levar connosco e outras que, por muito que lamentemos, devemos deixar fugir por ente os dedos.

Até nestas decisões derradeiras as bibliotecas são parecidas com a vida.

A Gaffe blindada


Há alguns anos a Gaffe afirmava que os produtos genuínos podiam ser mais rudes, mas mais atractivos do que as anteriores ofertas muito mais completas, com o kit embalado de forma mais potente - porque a experiência aguça o engenho e afina outras verdades que aqui não se dizem por ruborização.

Mas Francisco leva a Gaffe a corrigir o segundo pedacinho de tão leviana afirmação.

É cansativo ter uma imitação do pobre Santo Pobre à varanda do Vaticano, mas a verdade é que Francisco embala o kit muitíssimo melhor - sobretudo decidindo abandonar a linha haute couture de Bento XVI.

O líder supremo da Igreja Católica, visita o bairro social da Serafina - o Centro Social e Paroquial de São Vicente de Paulo -, onde tudo está preparadinho, valha-nos o senhor cónego, qu’inda há gente boa no meio dos drogados.

Sua Santidade não vai de todo usar aquela cabina telefónica motorizada, porque vai chegar num carro blindado a um dos bairros com habitação mais precária da capital e onde alguns moradores trocariam de bom grado o Papa por água canalizada e saneamento básico.

Ser o primeiro imperador a usar santas sandálias de tiras, é por si só a prova mais completa de que se tem dois olhos nos reinos dos cegos e zarolhos, mas é também e definitivamente testemunho de coragem, pois que há aglomerações de bactérias muito resistentes nestes bairros e um Papa de tão boas famílias arrisca-se a ficar doente. Pelo sim, pelo não, Francisco procura agasalhar-se o mais possível, dentro de um blindado, tendo em consideração que esta gente espirra e tosse sem sequer ter o cuidado de colocar a mão à frente da boca. Apesar de tudo um blindado a servir de barreira entre nós e a porcaria, é bastante aconselhável. Podemos ser muito humanos sem receios.

É claríssimo que não é de todo conveniente ter o They don’t give a fuck about you dos anos sessenta cravado numa mitra trash-chic Prada, mesmo quando também se vai rezar pelos pobres mais jovens que agora decidiram atravessar o Saara sem protector solar, ou o Atlântico sem boias - provavelmente para se reunirem à Jornada.

É uma alegria ver que a juventude se une à simplicidade e despojamento desta expedição celestial, mas é certo que no bairro da Serafina, pelo não e pelo sim, é conveniente blindar a indumentária.