31.3.22

A Gaffe sem Pessoa



Admito que uma das razões que me afasta irremediavelmente de um blog - já não menciono uma página do facebook, porque neste caso fico com rinite aguda e urticária - é a proficuidade com que sou bombardeada por saudações ao mês que se inicia, pela quantidade de santinhos que nos abençoam, pelas máximas atribuídas a gente morta - há imensas que são creditadas erradamente -, por passarinhos e gatinhos que pretendem motivar-nos e pelo sol poente encimado por uma qualquer patacoada relacionada com o mindfulness.

Desisto de imediato e viro a página.

Há no entanto uma pequena beliscadura que me deixa a sangrar de irritação nestas paisagens.

Como quem arranca um dente sem anestesia, há gente que estrafega uma frase alheia, isolando-a, torcendo-a e distorcendo-a de modo a que sirva os seus intentos. Normalmente bondosos. Se por estas bandas largas nos é fácil amortecer a dor, ou mesmo evitá-la, usando um clique milagroso, na vida, na
real, não nos é permitido tal façanha. Somos de boas famílias e nadas em berço de oiro, portanto noblesse oblige.

É particularmente penoso ter de arriscar a minha saúde em nome da polidez e da civilidade com que é ouvido um amontoado de lugares comuns, de tolices hipócritas, de lantejoulas literárias coladas com saliva a pretensas boas intenções.
Nunca tive coragem para pulverizar conversetas deste teor e passo horrores a tentar entrar em piloto automático.

Esta deficiência arrasta consigo outras anomalias. A inveja, por exemplo.

Tenho imensa inveja da capacidade detida pela minha irmã de fazer explodir no meio de uma colecção de violinos, uma daquelas bombas que só deixam vivas as ervinhas - e os sapatos dos interlocutores para memória futura.
Morro de inveja quando no encadear de um discurso pio, doce, amoroso, terno, de bandeira branca desfraldada e empunhada pela senhora pia, doce, amorosa e terna, se ouve, fechando-o com chave doirada, a desgraçada e arrancada a ferros:

- O melhor do mundo são as crianças.

Com uma seriedade assustadora, com um sinistro brilhozinho nos olhos, com uma quietude muito pouco cristã e com lâminas nos dentes, a minha irmã fustiga:

- E o melhor das crianças são aqueles pespontos perfeitos nas carteiras Hermès.

Pode não ser bonito ouvir, mas aniquila instantaneamente o cor-de-rosa bebé.

30.3.22

A Gaffe compenetrada



Quando dou comigo a pensar nas criançolas que fingem que nos governam, percebo que é impossível alterar a médio prazo o desconhecimento escandaloso do Pensamento e, em consequência, o estado demente em que mergulhou a mais básica noção de humanidade.

Sempre ouvi o meu avô dizer que é imprescindível o estudo de Sócrates, Aristóteles, Sófocles, Platão e de outros tantos pensadores cravados para sempre no arrojar do Tempo, para uma iniciação à Dúvida Humana, mas vejo apenas olhares displicentes, quase irónicos, como tal se tratasse de um qualquer brinquedo de plástico com que se recria o adro onde existe a possibilidade de um entretenimento irresponsável.

Esta ausência trágica deste conhecimento contribui para a solidificação de uma nova tirania, a mais ínvia, a mais sinistra e mais manipuladora de todas as tiranias já vividas.

A inexistência actual de qualquer ideologia, de qualquer bloco fluído de pensamento social e político, de qualquer projecto dinâmico de construção de ideias, de qualquer edifício estrutural baseado no Pensamento, é consequência evidente do estabelecimento perfeito e avassalador desta tenebrosa forma de domínio, desta subversão e aniquilação do Ideal. Deixou de existir, por ter deixado de fazer sentido, a expressão da voz comunista, socialista, anarquista ou outra qualquer com raiz histórica que se queira ouvir. São dinâmicas obsoletas e ridículas. A tirania foi construída através da alteração de noções básicas de sobrevivência, oferendo como engodo e factor pacificador uma ilusão rasca de democracia que acaba por se reduzir à máxima empobrecida e estafada, mas sempre cómoda e convenientemente convincente, o voto é uma arma.

Nenhum indivíduo é capaz de assumir que pode viver sem o que lhe é dito como imprescindível, usando os mecanismos de produção que tem ao alcance, que permitem a sobrevivência quase sem limites, e que as únicas armas eficazes, as únicas peças imprescindíveis, na construção, afirmação e desenvolvimento de um povo, são a História, a Cultura, o Saber e o Pensamento.

Somos programados para obedecer e calar sem perceber que o fazemos. Cegam-nos de modo a que não vislumbremos que o tirano é agora um conceito, uma noção abstracta, uma inexistência física, o mercado soberano, longínquo e vagamente inteligível para os eleitos, capaz de calcar, desfazer, esfacelar, esfolar e submeter sem os métodos tradicionais da opressão. Basta entranhar-se no vácuo e no vago criado na alma das gentes para albergar a obsessiva necessidade de possuir, o confronto inútil com o desejo de ter, a convicção de não sobrevivência se não conseguirmos, a promessa de realização se alcançarmos e a mais completa destruição da individualidade autónoma e auto-suficiente.

Estabeleceu-se o mais sofisticado método de escravidão de todos os tempos.

Esta perversão mental que traz consigo desvios comportamentais de ordem quase patológica, provoca uma ganância implacável e sem limite e uma total indiferença pelo explorado visto apenas como um maquinismo que alimenta, sem qualquer espécie de direitos, a voracidade do explorador que origina no espoliado o desejo de meter o dedo na bandeja que vai preenchendo e abastecendo, tentando lamber as migalhas que vão sobrando durante o festim ou provar do que lhe é mostrado como inevitabilidade social.

As reacções são pobres e dos pobres, como é previsível.

Os países desfeitos e os povos esmagados podem ocupar praças e ruas, morrer em barcos de borracha, pasmar de idiotismo perante as offshore ou eleger Trump e Bolsonaro. As manifestações embatem contra gigantescos muros de corrupção e a manipulação de todo o tipo de informação torna ineficaz o que poderia resultar. A vontade de ter, a constantemente desperta necessidade de possuir, o medo de morrer sem um tostão, a certeza de abandono daquilo e daquele que se tornou inútil ao sistema e mais um gigantesco amontoado de patacoadas difundidas ao serviço de uma entidade sem corpo, corroem a vontade de vontades renovadas e exigências básicas, transformando, dez minutos depois do seu início, uma manifestação num arraial de tapas e cerveja que não provoca dano na estabelecida e solidificada estrutura de poder.

Começa cedo esta espécie de injecção forçada de mediocridade e submissão humana. Convencem os petizes, mal se apercebem que os putos são capazes de os ouvir através do bloco televisivo respectivo, com uma miserável programação, onde o que se diz, se vê e ouve é uma descarada propaganda a este pântano, fornecendo-lhe o estatuto de inevitabilidade.

A alteração mental do indivíduo - dinâmica exclusiva de cada um de nós -, que passa necessariamente pela recuperação da capacidade de produção de ideias, poderá ser a única e derradeira opção.

E o entanto:


É deprimente que na Carta do Direitos Humanos não esteja inscrito o direito que todos temos de nos contradizermos.


Acabo a pensar que a contradição é uma belíssima forma que encontramos para nos podermos envergonhar com uma certa dignidade daquilo que dissemos, mas que não fizemos.

Assumo que pode ser preocupante o facto de se começar a aliar a todos os medonhos e peçonhentos passos que o mundo vai inexoravelmente dando a caminho de uma situação de catástrofe social - que por norma desemboca numa carnificina -, à ideia da necessidade de se preencher o topo decisor de intelectuais, de homens provenientes de uma elite culta e cerebral. Embarcamos neste navio e esquecemo-me de olhar com atenção para o bilhete.

Em defesa desta tese, alguns governos europeus acolhem um manancial de jovens cérebros, não só para suprir as suas carências em determinadas áreas do saber e do conhecimento, mas com a sublimada convicção de que é necessário encher o próprio ninho também à custa dos ovos dos outros.

Soube, há algumas semanas, que na Universidade do Porto, dispensaram-se os Professores Assistentes de disciplinas cruciais, que aceitaram convites para leccionar ou fazer investigação no tão lambido lá fora e que deixaram como substitutos jovens inexperientes, acabados de formar, coleguinhas dos infelizes que se matricularam um ou dois anos depois. A Academia doadora passa a sofrer de debilidade, de anorexia, intelectual.

Critíco a miséria cultural dos líderes, acusando-os de tecnocracia galopante e de gabinetice burocrática aguda, que desconhecem os clássicos e que ignoram os ensinamentos dos mestres fundadores do Pensamento, sobretudo Humanista. Reivindico um governo de cérebros, de intelectuais, como contributo máximo e incontornável à reformulação do pensamento político e reestruturação social harmoniosa. Aponto - embora com cuidado -, de quando em vez os países nórdicos como exemplo de sucesso fundado na liderança do Saber e na promoção do desenvolvimento cultural, mas esqueço que este alastrar civilizacional da cultura tem de atingir toda a população, não se circunscrevendo à elite que governa.

Ouvem-se, também em Portugal, os cada vez mais irritados guinchos dos intelectuais que revelam a pobreza cultural dos governos, levantando, com os dedos enojados e nariz torcido, os panos nauseabundos que cobrem as eminências parvas, as evidências pardas, de Relvas por aparar, reivindicando uma hegemonia de intelectuais capaz de livrar a Europa de uma espécie de cortina de chumbo que separa aqueles que decidem do Pensamento.

Começo a cansar-me de me ouvir e de os ouvir.

Neste momento há, por entre tanta calamidade, gregos que compram mais barato alimentos fora de prazo e que entregam os filhos a organizações neo-nazis que tratam e cuidam dos petizes da forma habitual. Conhecemos a perícia com que estes sábios conhecedores de Nietzsche conseguem manipular o Pensamento, mas considera-se mais conveniente omitir o facto de ter sido, na Alemanha, a elite, a nata, o crème de la crème intelectual, os detentores máximos do Saber e do Conhecimento, a engendrar uma das maiores atrocidades da humanidade, com uma eficiência, um plano, uma eficácia e uma durabilidade horripilantes que, pese embora a idolatria entregue à Resistência, teve uma França, não só a do populacho, mas também a culta, como uma das suas principais aliadas, colaborando nesta chacina de uma forma que excedeu largamente as expectativas nazis.

Não é certo o êxito humanista da ascensão do Intelecto ao Poder, embora tal facto não exclua a necessidade de o ter presente.

A Arte, a Ciência, a Música, a Literatura, a Filosofia e mais do Saber e do Conhecimento que não se diz por não caber aqui, apesar de vitais ao exercício do Poder, não são sinónimos de Humanismo no Poder.

Assumo, bato com a mão no peito e canto mea culpa.

Esqueci-me que existe, para além da cultura, outras Verdades e que a culpa de as ignorarmos não está nas estrelas, mas em nós, como nos diz Shakespeare, esse patife.

A Gaffe aristocrata


Não me espanta a existência simultânea de duas obras sobre Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre - prazer, minha senhora -, Marquesa de Alorna e mais que se não diz por ser verdade.

É bom sinal.

As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta, levou mais de dez anos a vir a lume e é um extraordinário estudo sobre o Iluminismo Português e as origens do Romantismo oitocentista em Portugal, levado a cabo por uma mulher que, como curiosidade, descende da Marquesa e que, por mérito, é uma das mais importantes e incontornáveis escritoras da actualidade.

Marquesa de Alorna, de Maria João Lopo de Carvalho, é um romance histórico que tem a vantagem de poder ser facilmente fotografado - o romance também - ao lado de Marcelo Rebelo de Sousa.

Nada se retira à eventual qualidade que o romance fotogénico eventualmente terá. Não o li e sou uma preconceituosa que parte do princípio que ter uma Margarida Rebelo Pinto que vai estudando o que escreve, não vai contribuir significativamente para o acervo cultural de um país.

Ajuda este preconceito as declarações da autora, numa festa pontuada por caras conhecidas em excelente forma física, a uma revista que publicita o livro:

- Escrever faz parte de mim como respirar e é algo que me dá prazer.

Escolho Maria Teresa Horta. É mais seguro.
Chega-se a uma idade em que não se pode perder tempo com gente que confunde, ainda que metaforicamente, funções fisiológicas com o ofício da escrita.    

A Gaffe num futuro composto


Depois de ter verificado, nos instantes anteriores à piscadela de olho de José Rodrigues dos Santos, se estou compostinha, com um pijama inócuo, de perninhas fechadas e botão apertadito, sem qualquer expressão que permita supor intenções mais marotas e ter confirmado que não estava prostrada no sofá numa pose susceptível de despertar a libido do cavalheiro, ou parecer que no fim do telejornal nos encontramos para ardentes trocas de informações de carácter mais manual, deparo-me com uma certeza que me deixa perplexa.

A comunicação social vai procedendo à substituição do alegadamente pelo uso do futuro composto, abolindo o presente, o passado, ou mesmo o imperfeito, dos tempos verbais que se esperam numa notícia dada depois de confirmada até à exaustão.

A baleia que terá dado à costa e que vemos esbardalhada no areal, poderá não ser a baleia que terá dado à costa, mas poderá dar-se o caso de ser o senhor ex-deputado Carlos Abreu Amorim que terá decidido passar uns dias na praia. O assassino ensanguentado, com a cabeça da vítima debaixo do braço e a reivindicar a autoria do crime como um desalmado do Daesh, poderá ter sido o mesmo que a Patrícia Vanessa terá filmado a esquartejar o cadáver - que terá sido morto antes de ser supostamente cadáver -, alegadamente com o telemóvel, da suposta varanda que terá vista privilegiada para o ocorrido. O senhor com o equipamento que poderá estar em uso na GNR - chama-se especial atenção para o modo como a farda lhe assenta lindamente -, banhado em lágrimas a jurar que o carro esfrangalhado que ali está foi o que se estampou contra um poste - num alegado acidente que poderá ter causado uma vítima supostamente sem gravidade que pode ter sido levada para o Hospital -, poderá ser a Princesa Diana que terá muita experiência nestas ocorrências.

Esta feira de probabilidades entregues ao público que as consome sem apelo nem agravo, este arraial noticioso pejado de incertezas e de hesitações, comprovativo da incompetência - e do medinho do processo em cima -, dos jornalistas que escolhem o balancé do poderá ser assim, mas poderá ser que não, é transversal a toda a comunicação social e faz pairar sobre a cabeça do alegado profissional que oscila desta forma o halo dos inocentes sem compromisso assumido, sem certezas incontestáveis, isentando-o da responsabilidade e da obrigação de se confirmar o que é noticiado, revelando ao mundo que poderá ter estado ali, mas que poderá não ter estado. Nestes casos, é a mesma coisa.

Seguindo esta linha de prática jornalística tão em voga, surge o digamos assim que alegadamente poderia ter sido dito de outra maneira, cozinhado e cosido de forma diferente. Poderia, digamos assim, ter sido por não se encontrar alternativa viável, poderá ser por supostamente ter havido um desencontro com a mais adequada e poderá ser que não, digamos assim, podendo ter sido por se considerar que piscar um olho no final deste fraseado, o que se escreve se torne confirmado.

29.3.22

A Gaffe voadora

Andrzej Malinowski

Em tempo que já lá vão, era eu menina e moça, levada de casa de meus pais, introduziu-se-me na cabeça a ideia peregrina de abandonar tudo o que tinha iniciado e planeado levar a cabo e a bom porto e me transformar em comissária de bordo.

Com altura suficiente para esmagar rivais prováveis, magríssima, porque o choque alimentar e o jat lag gastronómico - tinha chegado de Paris há pouco tempo... -, me tinham arrancado o apetite voraz que sempre me caracterizou, e ruiva até à mais ínfima sarda, acreditei ter hipóteses de ser seleccionada pela Emirates Airlines num processo que decorria num dos hotéis mais famosos do Porto.

Do alto dos meus vinte e pouquíssimos anos, entrei sozinha e segura, de calças e de caracóis soltos na sensação de futilidade do acto, que se vinha tornando a cada passo que dava na alcatifa fofa uma tolice monumental a que não era indiferente um piquinho de desafio em relação à opinião – desfavorável, como se esperava - que não se tinham cansado de me ceder sem gastos.

Fui seleccionada.

Não foi grande vitória. Num rio de Barbies bastava nadar até à margem e não chocar com os Kens.

Deveria estar presente dois dias depois, manhã cedo, no mesmo hotel, mas desta vez com o cabelo apanhado, saia travada e tacões dispostos a humilhar o Evereste. Esta pose estereotipada que assumi com prazer, prova que muitas vezes a submissão ao imaginário provavelmente machista não significa um abdicar da dignidade feminina, desde que cumpra os objectivos a que uma mulher se propõe.

A noção de vanidade e de vacuidade da minha candidatura foi crescendo ao lado da minha vontade de vencer o que se tinha tornado apenas um desafio sem consequências práticas.

Na manhã aprazada, a minha irmã aceitou adereçar-me. Condescendente, elaborou o uniforme, cumprindo as exigências descritas, e prendeu no meu pescoço o colar que me permitiria comprar o avião.

- Usa-o - refilou, quando protestei - tens de os convencer que ser … aquilo que queres ser é a tua verdadeira vocação e não um emprego mal pago que te permite andar de cabeça no ar.

Muito Grace Kelly, anui à vontade da minha irmã.

Seria transportada por ela que não queria perder uma pitada da minha provável humilhação.

Lembro-me que o trânsito - naquela manhã como em todas as outras -, nos obrigou a sair com uma antecedência significativa que foi perdendo vantagem à medida que nos aproximávamos do destino que nos fez parar à porta do hotel sem qualquer respeito pelo fado.

Foi nesse instantinho que acordaram em mim a pirosa, a ranhosa, a pateta e a totó, sem que fossem travadas pela sobranceria da mana que olhava de soslaio pelo retrovisor o condutor que se tinha atrevido a buzinar e a barafustar contra o impedimento loiro e altivo que se tinha assestado no caminho e que agora empunhava o rímel pronto a perfurar os olhos ao condutor irritado.

O casaquinho?! Levo ou não levo? Ai, que levo. Ai, deixa-mo vestir. Ai, que me fica mal. Ai, que tenho de o tirar. Ai, que não me parece bem. Ai, que levo? Ai, que não levo? Ai, que dizes? Ai, que pareço uma catequista! Ai, e se não o levasse? Ai, que pareço uma ninfomaníaca sem ele! Ai, que vou mesmo assim. Ai, tu não achas que o devia levar vestido? Ai, levá-lo no braço é suburbano!

- Não vás. Estás com um atraso de um minuto. Manda o casaco.

Mas fui.

Desatei a correr esgaivotada, de tacões a tentar escapar dos interstícios das pedras e a tropeçar depois no pelinho do soalho, de saia a apertar-me a correria, de colar a dar-a-dar e com o soutien a saltar-me pela boca.

Cheguei três miseráveis minutos depois da hora estabelecida e a minha fulgurante carreira de comissária de bordo terminou ali, porque - disseram eles - tinha atrasado a partida do avião.

Passados anos sobre esta minha leviandade aeronáutica, se não continuo a atrasar os aviões com paroladas imbecis, é porque vou de barco.

A Gaffe de lady Chatterley

23/02/2015


O conflito de gerações pode parecer nulo quando a proximidade e a cumplicidade parecem fazer dele um ligeiro atrito que surge quando se percebe que existem opiniões que não são convergentes acerca dos óscares.

Para evitar este gotejar de inutilidade, a Gaffe e a sua estimada avó decidiram substituir a célebre noite de gala de transmissão em directo, por uma fita com peso e medida capaz de originar um debate acalorado acerca da fidelidade ou da infidelidade do que se vê ao que se leu.

Escolheram O Amante de Lady Chatterley desencantado na estante de um dos rapazes da casa.

Sentadas no sofá, de mantas da Covilhã nos joelhos, bolachinhas com pepitas de chocolate ao dispor, um bule com chá quente, preto e comme il faut, as duas raparigas preparam-se para comparar D.H. Lawrence com a adaptação de quem não lhes interessou saber o nome.

A primeira cena mostra uma loira Constance com um bâton demasiado carmim que se despe ao som de uma musiquita bastante ranhosa e ronhosa. Renda a renda, colchete a colchete, liga a liga, lacinho a lacinho, a rapariga demora tanto tempo a tirar as calcinhas que a Gaffe começa a suspeitar que não vai tão cedo sair daquele quarto. Nada que as embarace. Estóicas, aguentam a nudez da moça até ao momento em que a rapariga começa a acariciar-se e desata a gemer.

A Gaffe suspende as mordidas na bolachinha.

Sente os olhos da avó, de soslaio, a mirar o ruborizar da neta que tenta manter a postura descontraída que começa a escapar pelas paredes. Beberricam o chazinho.

O constrangimento agrava-se quando por ali dento entra um compassado Oliver Mellors todo nu e, prolongando o gritedo da moçoila, reduz o Kama-Sutra ao programa da Grécia, ou seja, a um conto de fadas.

A Gaffe espreita a avó preocupada. Receia que a senhora esteja roxa, igual a si, de língua inchada e olhos desorbitados.

A Senhora, impávida, comenta os cortinados do aposento onde o forrobodó é mais do que o previsto.

A Gaffe concorda e refere a beleza do móvel do fundo.

A avó gosta do castiçal.

A luz das velas do castiçal elogiado continuam a iluminar nádegas ali, pernas acolá, maminhas soltas e espalhadas por demasiado grandes planos e a Gaffe está segura que por instantes a clarear mesmo a pilinha do acrobático actor.

A Avó refere a nouvelle vague e questiona a origem do filme.

A Gaffe não sabe, porque apesar de meia hora ter passado ainda não se ouviu ninguém falar.

O grande plano do rabiosque de Mellors encaixado algures nas pernas da rapariga que não parava de gritar e de esfacelar as costas do vigoroso rapagão, encontrou a Gaffe enregelada, a suar constrangimento, incapaz de balbuciar fosse o que fosse e a desejar ardentemente que a avó tivesse desmaiado. Por sua vez, sentiu a senhora petrificada, de chávena de chá suspensa a olhar de lado sem pestanejar para o embaraço desta rapariga, só comparável ao que sofreu quando tropeçou na cauda do vestido e se esbardanhou escada abaixo na noite em que tinha decidido conquistar o homem que a apanhou estatelada aos pés ou quando ofereceu no Natal a caixa de jóias horripilante à pessoa que lha tinha oferecido no ano anterior.

Foi a entrada em cena de Clifford e a sua disponibilidade nua, muito nua, e crua para se juntar àquilo que se via, que levou a concluir que a obra não estava de todo bem adaptada.

- Valha-me Deus, querida! O seu irmão andou a ler a obra errada.

 

Não tenhamos dúvidas. O choque geracional, por muito ténue que seja, deve sobretudo ser evitado numa noite de óscares.  

28.3.22

A Gaffe desgostosíssima


A Gaffe esqueceu-se por completo da noite dos Óscares!


Consola-a apenas o facto de saber que se repete para o ano e que, comme toujours, tudo não passará de uma anedota careca de má que deixa de o ser, porque é sempre bem contada para ser fácil de esbofetear...

E, minhas queridas, agora que já comentaram todos os vestidos dos Óscares, não se esqueçam no trabalho do vosso casaquinho dos saldos da Zara.

À noite arrefece imenso.

A Gaffe muito adulta

Para onde olham as mulheres quando na frente têm um rapagão digno de figurar na capa do catálogo do MET, um nadador olímpico, um colosso que rivaliza com a estatuária grega ou um tritão capaz de surfar as nossas mais recônditas fantasias eróticas?

A Gaffe ouve dizer com frequência, que a nossa atenção se crava nos olhos, justificando esta fixação com o dado como certo os olhos são o espelho da alma, embora todas saibamos que a alma usa óculos escuros, o espelho é baço e o nitrato de prata foi comprado no chinês.
Mentimos, porque uma resposta vagamente relacionada com o impalpável, funciona melhor do que a realidade muito pouco pudica e propensa a apalpões desavergonhados.

A verdade, não adianta disfarçar - até porque o esforço que fazemos para não revelar a direcção do nosso olhar é já canseira que baste -, é que não perdemos uma oportunidade de dar uma vista de olhos à braguilha.

Este mover de olhos brando e piadoso tem-se revelado de utilidade extrema, revelando, por exemplo, que Nelson Évora teria o ouro de muitíssimas mais medalhas se trocasse a modalidade que pratica pelo salto à vara.


A Gaffe, após cuidada análise estatística, exaustiva prospecção de mercado, estudo apurado dos hábitos da consumidora, cálculo de probabilidades e empírica experiência, está apta a definir os dois grandes grupos de braguilhas que vão incluir dezenas de pequenas variantes que cabe a cada uma reagrupar, subclassificar, com o cuidado que a matéria exige.


Embalagem plebe


O conteúdo é apertado pelo tecido que enruga nas virilhas e desenha de forma mais ou menos evidente o que permite verificar se nos ficamos por uma reprodução fiel da totalidade de um atleta grego que em mármore não promete grande desempenho ou se temos catapultas romanas prontas para a batalha. Podemos não adivinhar de imediato os contornos do esculpido, mas vale sempre a pena quando a alma observada não é pequena. Dentro desta classe, é importante referir aquela que fica presa nos jeans - sobretudo Levi’s 501 -, puídos e gastos onde os nossos olhos adivinham as direcções que a vida toma quando o caminho é longo. Nesta classe, não podemos contabilizar no entanto os desengonçados pares de calças, presas nas ancas e de gancho nos joelhos, com que os imaturos nos brindam e que dificultam as nossas tentativas de orientação científica.


Embalagem  brasão


Presas em tecidos nobres. Geralmente menos interessantes, porque mais discretas. São, no entanto, deveras atraentes quando o dono se levanta de repente, sem ter tido tempo de fazer descer o tecido das pernas das calças que, ao sentar-se, levantou ligeiramente para não deformar nos joelhos. Aí, mostra o que vale, desenhando num aglomerado de tecido onde é fácil detectar o que lhe vai na alma, o sonho embalado, o paraíso fechado e comprimido em fazenda autoritária e, se o vislumbre for certeiro, permitindo adivinhar também outros recantos ou outros assuntos mais pendentes, mais prementes.

Claro que dentro destas duas grandes classes, há que referir as subclasses, variadas e cheias de interesse, fáceis e sempre susceptíveis de uma avaliação pormenorizada. Estas são descriminadas, nomeadas, encaixadas e arquivadas de acordo, por exemplo, com a existência e colocação dos bolsos ou com o modo como apertam.

Raparigas! É uma tolice omitir que uma braguilha apensa a um homem lindo de morrer é o foco da nossa primeira atenção. Uma mulher – dizia a avó - deve sempre baixar os olhos na presença de um homem. É a forma mais rápida de avaliar o local onde lhe pode dar um pontapé.

27.3.22

A Gaffe sem tapete


18/04/2019

Traz o avental com flores garridas na bainha. Um avental de peitilho branco, laçado nas costas de vestido negro. A luz sorrateira do amanhecer infiltra-se nas frinchas das janelas largas e enchem-na de sombras, prateando-lhe o cabelo preso num nó de trança enrolada.

A cozinha cheira a flores do avental garrido. A especiarias, a condimentos, a ervas aromáticas a enchidos, a fumo, a madeira, a lume, a forno quente, a pão e ao café que na cafeteira borbulha atingido pelo ferver da água. 

 - Andam à procura dos caixilhos - matreira, a Jacinta. Vai mordendo o pão e bebericando o escaldar da malga de café – aflitinhos com os moldes do tapete de flores para o compasso. Dão cabo das plantas. Que procurem. Primeiro a marinada, depois a consoada – vai roendo, birrenta. - A menina não devia ter autorizado este desmando.

Perto da Jacinta há segurança. Há abrigo. Dentro da cozinha da Jacinta há santuário.

- Ajude, menina, que já fez asneiras que chegassem.

A cebola a cortar em rodelas - grossas, menina, podem ser grossas. Valha-me Deus, que isto não é no hospital -, os gomos intermináveis de alho a picar, as folhas de louro a quebrar estalidos, o pimentão aberto prenhe de perfume, a salsa - qual picar, qual quê! vai em rama que guarda o sabor -, o alecrim aos molhos que choram os meus olhos, o colorau cor quente e os limões cortados em meias-luas ácidas.

- A menina despeje o vinho no alguidar e deite-lhe um bocadinho daquele espumante que sobrou. Amolece a carne. Dá-lhe mais sabor. Não tanto, valha-me o Senhor dos Aflitos! Só um cheirinho! Agora deixe, que eu misturo tudo e ponho o anho. Chegue-me o paninho dali do armário para tapar a marinada. Vá, menina, que eu tenho de lhes dizer onde estão os moldes que ainda me partem qualquer coisa.

Às vezes, tenho medo que me ralhe.

- Depois cortamos as tirinhas de toucinho e fazemos a grelha com os paus do loureiro para a boca do alguidar, está bem?                    

Não estás zangada comigo, Jacinta?

- E como haveria eu de estar zangada? A culpa é da velhice resmungona que aqui anda. Vamos por isto no fresquinho e toca a dar-lhe os moldes para o tapete.

Os sacos de sarapilheira com as folhas e as folhas das camélias, as camélias toldadas e escurecidas que ficam bem no meio que disfarça, o jasmim, as campânulas amarelas, os lilases, as pétalas de rosas coloridas, margaridas – serão os malmequeres? -, hortênsias imaturas, e outras que não estão aqui que são precisas, o perfume das mãos que as separam em geometrias prévias de molde de madeira. A seiva, o espargir da água que lhes atrasa o apodrecer e a doçura curva das mulheres a espalhar no chão a Primavera.

 - Não entendo porque não usam Kilins - sai a minha irmã da nuvem de perfume e o seu espanto é genuíno e espanta. - Não escorregam. Os nómadas fazem as cáfilas passar por cima deles, para os espalmar, suponho. Aqui, é o mesmo.

Atira e traça a voluptuosidade de pronúncia francesa carregada, arrasta e rola as sílabas que não consegue moldar em português, prende a seda do cabelo com a fita Cartier, depois de proteger as pérolas dos brincos, e descalça, que não tem calçado para pisar tapetes de folhas de camélias, desliza e evapora-se.

- Ensinas-me a fazer o arroz, Jacinta?

- Na manhã da Páscoa, menina. Venha ter comigo muito cedo. Depois vamos ajudar aquelas tolas.  


26.3.22

A Gaffe no hipermercado


A Gaffe odeia hipermercados, mas admite que se pode preencher lindamente a despensa na secção dos frescos do Continente.

Acredita que na Madeira e nos Açores os carrinhos podem comportar produtos idênticos, mas, segundo dizem, são mais resistentes e mais duros – mais insulados -, embora uma rapariga esperta saiba que é tudo uma questão de se introduzir a moedinha na ranhura certa.    


25.3.22

A Gaffe e um conforto

Joe Coffey
Às vezes penso no que será o conforto aquecido por um travo antigo preso no elástico lasso de um velho moleskine onde se riscam pedaços curtos de nada, porque há cadernos onde o nada é quase toda a vida.

Não encontro este conforto separado de uma maturidade ganha com a força dos punhos e da consciência da simplicidade e da segurança de uma cor de nevoeiro, unidas a texturas macias de fazendas de lã que forram as almas.
Há gente que nos povoa a ambição de termos um lugar de abrigo, um santuário quase medievo, onde podemos desfolhar as páginas de um velho moleskine e percebermos que é nosso, inteiramente nosso, os riscos lá traçados.

Rara esta gente. Geralmente imperceptível, porque simples. Traz no rosto a invisibilidade daquilo que é, só para nós, o essencial.

A Gaffe atapetada


A vida é assim:

Os tapetes de Arraiolos são lindíssimos, até veres um do Irão.

24.3.22

A Gaffe com sabor a Primavera


O Inverno passou tão depressa!

A Gaffe quase não teve tempo de sentir e de saborear os dias repletos de chuva e de vento que fazem voar memórias e guarda-chuvas, nem de se deliciar com livros lidos à lareira, guardada por almofadas e mantas de lã da Serra da Estrela.
Entra com passinhos meigos e suaves a subtil Primavera, tímida e insegura, mas com os dedos repletos de brisas diferentes e de sol mais preguiçoso no deitar.
É tempo de metamorfoses. Tempo de fazer sorrir, ainda que seja breve este sorriso, esboços de projectos e de asas. Tempo de borboletas no cabelo e de pequenos sonhos que vão abrindo os braços, prontos a abraçar tudo o que cresce.

É tempo de raparigas em flor.

A Gaffe enjoada


Por favor, rapazes, larguem a imagem que já se transformou em fardamento!

Basta de fatinhos justos com calcinhas pelos tornozelos, camisinhas limpas, às risquinhas ou pintinhas, agarradas aos esqueletos, chapeuzinhos raquíticos e pastinhas de proporções exageradas!

Uma rapariga deixa de vos reconhecer quando apareceis sem o uniforme. Sois entediantes, monótonos, cansativos, maçadores, enfadonhos, aborrecidos, fastidiosos, enjoativos e maçudos saídos da mesma linha de produção e do mesmo departamento que abre logo pela manhã cedinho para vos tornar reproduções sem qualquer réstia de originalidade.

BASTA!
Sejam homenzinhos e deixem de parecer uma manada de gnus enfezados no encalço dos cascos uns dos outros e enfrentem os crocodilos com a ousadia, a coragem e o ímpeto que são esperados por qualquer rapariga mais esperta.

23.3.22

A Gaffe receosa

Domenico Marchetti
Estranho bicho, o Medo.

Estranhas as entranhas - que lhe são externas - onde decompõe a alma que agarrou.

Só uma vez agride, acidulando o exterior a si, corrompendo a luminosidade e devassando a lucidez. Depois espera que o exercício da corrupção na alma única e isolada em que injectou peçonha alastre e contamine as almas em redor.

Uma só vez o Medo actua. Numa só alma. Depois descansa.

O que tritura o resto é o receio, apenas o receio, basta o receio de sentir sobre aquela que é a nossa vida a reprodução daquilo que conspurcou a outra.

22.3.22

A Gaffe na aldeia


Minhas queridas, nunca, mas nunca, se atrevam a visitar uma aldeia pitoresca que nunca vos viu mais novas, com os pés vertiginosamente enfiados no vosso glamour Louboutin.

O descalabro espera-vos.

Esqueçam a sofisticação do equilíbrio treinado nas ruas das capitais europeias; ignorem a delícia que é ver o pasmo das burguesas pequeninas e adocicadas, que saltitam excitadas na hora da catequese; procurem evitar o orgasmo que é sentir que, perto de nós, a princesa lendária que se espetou contra o poste, é cilindrada pelo nosso merecido cintilar.

Tudo o que é deslumbre, sedução e requinte se eclipsa no segundo em que o nosso pé Louboutin surge à porta do Jaguar para pisar as pedras da calçada.

A partir desse momento, tudo é trágico.

Se a sola rubra do sapato não pisar pistas biológicas deixadas pelas cabras - e não me refiro às catequistas - e por bois que quase nos enfiam o focinho húmido nas axilas, corremos o sério risco de nos estatelarmos no centro da aldeia, com o tacão cravado num interstício manhoso, numa fenda traiçoeira, nas pedras da calçada, sem termos sequer um garboso matulão Armani para nos amparar a queda. Se não formos mordidas pelas galinhas - falo também das catequistas - e sentirmos o nosso jovial conjunto, Valentino Verão 2022, esventrado pelas garras de gatos psicopatas, acabamos a enfardar chouriços de sangue suspeitando que o interior está recheado com uma das nossas incautas antecessoras.

O campo, minhas caras, é um lugar perigoso para uma rapariga pedante, pretensiosa, afectada e snob como eu. Engana-se quem pensa que as cidades sobrelotadas são ninho de armadilhas, incubadoras de crimes. São as perdidas aldeias no perdido interior de Portugal o Dexter Morgan desta história.

Nunca, mas nunca, se esqueçam, na rota das aldeias esquecidas, de incluir nas vossas Louis Vuitton um parzito de chinelos que não vos descalce a dignidade e um rosário. Há que pedir a Deus para que, pelo menos, não se nos estale o verniz.

A Gaffe daquilo


- És uma querida e chegas-me aquilo?


Espero sem mover um músculo. A informação será com toda a certeza complementada.

- Por favor, isso está mesmo em cima daquela coisa! Mesmo aí tão perto!

Noto uma ligeira alteração na voz. Começa a irritar-se porque não lhe chego aquilo que está em cima daquela coisa mesmo aqui tão perto.

Tudo o que tenho, que obedece a estas coordenadas e que pode eventualmente ser incluído no espaço agora recortado pelo indicador do meu irmão que volteia enervado - o indicador, que o mano não tem volta a dar -, é um pisa-papéis ridículo de metal pesado.

Porque sou uma querida, levanto-me e entrego-lho, embora nas sombras sinistras dos desejos da minha alma bárbara lho tenha atirado directo à cabeça.

- Deuses! Que tu és como o governo! Queremos uma coisa, dá-nos outra.

Não é verdade. Quando se trata de uma coisa bem descrita e definida, acerto sempre e, como uma querida que sou, não esqueço sequer os ornamentos, atavios e adereços que possam constar presos àquilo.

21.3.22

A Gaffe num beijo


Há beijos fáceis de periodizar. São como livros. Nos primeiros parágrafos encontramos a época que os produziu e percebemos quase no imediato o pulsar do tempo em que tiveram as suas primeiras edições.

Há beijos medievais, de torneio colorido, de cantiga de amigo ou de inventar de amor, de maldizer o escárnio. São beijos de armadura, lances de espada e escada de torre sem ameias. São quase amor cortês, quase que trazem presos na língua os lenços de donzelas coroadas e cascos de cavalos brasonados.

Há beijos renascença, descoberta. De cachos de uvas de ouro nos vestidos e janelas voltadas para Florença. Beijos cinzelados, erguidos numa praça em que a boca é catedral pagã onde o poder é humano e onde há poetas e pincéis ensandecidos a parir deslumbre. São beijos de murais e de reboco fresco. São beijos dos Infernos ou portas vaticanas.

Há beijos que se arrastam nos salões da carne. Beijos partitura para cravo. Brocados e decotes rebuscados. Beijos que brincam nos jardins simétricos dos lábios e usam laços para prender as pombas. São beijos com sinais no rosto e cabeleiras. Beijos com leques e rendas no púlpito dos anjos.

Há beijos dolorosos. Desejam a ardência do ficar dentro de nós e ter ao mesmo tempo a plenitude dos universos longínquos que se perdem na boca dos beijados. Ardem no peito, amenos ou horrendos, paisagens desgrenhadas ou abismos onde se tomba de alma toda inteira, irremissível pecado e salvação. São beijos luminárias.

Há beijos só em carne viva. Beijos que esquadrinham sem pudor. Observam e revelam. São quase descritivos, quase a vida toda dissecada. São beijos bisturi.

Há beijos trepidantes, quase exaustos. Cruzam paisagens. Recortam-se no espaço atravessados por velas de navios e tabaco. Farrapos de outros lados exauridos. São beijos desunidos.

Há beijos opiáceos, Oriente e luxo. Volúpia e decadência e exotismo onde os sentidos se amarfanham como as rodilhas brancas de um piano ou os voos coloridos, doloridos, de dandy que se esgota em absinto e morte.

Há beijos que se querem.

Outros não.

E há depois o teu.

A Gaffe no zoo

Ricardo Martinez

No Arizona uma rapariga foi atacada por um jaguar.
Sofreu terríveis golpes num braço e sangrou imenso deixando o chão do espaço gradeado - por onde passeava o belíssimo animal -, bastante conspurcado.

A vítima tinha decidido tirar uma selfie ao lado da fera e transpôs a grade de segurança que a separava do ataque mais que evidente.
O jaguar, não sendo presidente do zoo, recusou aparecer nas redes sociais ao lado de imbecis que se ferram todos por uma selfie assanhada e que desconhecem por completo que só nos devemos aproximar de bichos muito, muito maus quando estão mortos e os podemos vestir, ou calçar, ou guiar.

Felizmente o jaguar não vai ser abatido.

Infelizmente a Gaffe não sabe se o Presidente Marcelo irá condecorar o animal, com selfie apensa. O resort luxuoso que foi inaugurar é em Moçambique e só tem girafas, elefantes e passaritos que não ferram.  


18.3.22

A Gaffe pilosa


Quando Yves Saint Laurent lançou Opium, um sedutor perfume de Inverno para homem cuja versão feminina é claramente suicida, usou um rapazinho nu estirado em veludo cereja, numa pose muito Monroe, e, pasme-se, totalmente depilado. Fez o entusiasmado furor que se desejava, tendo em conta que os machos da época se mediam pelo comprimento dos pêlos do peito.

Quando o mesmíssimo perfume volta ao mercado, anos largos depois, o criador usa exactamente o mesmo querido, espapaçado no mesmo veludo cereja, MAS com toda a sua fulgurante pilosidade intacta.

Não resultou. O mal estava instalado, qual Dark Vader dos aromas depilados.

Os homens, muito para além dos nadadores e dos ciclistas, tinham passado a destruir aquilo que causa o mais inofensivo dos atritos. Uma guerra total à pilosidade masculina que fez a loucura das esteticistas que se viram de súbito com as mãos de unhacas postiças cravadas nas coxas e nos peitorais dos musculados jovens metrossexuais, depostos mais tarde pelos urbersexuais - iguais aos antecessores, só que ainda mais tontos.

A obsessão pela ausência de pêlo no corpo masculino generalizou-se. Os rapazinhos esqueceram que por muito que esta falta de suave atrito seja sintoma de modernidade, de cosmopolitismo, há em todas as mulheres, mesmo naquelas Barbies tansas que desatam aos guinchos quando vislumbram por entre o nevoeiro um Ken Malibu, o desejo sublimado de sentir no corpo banhado e oleado por cremes e loções - Nivea ou Shiseido, neste caso tanto faz -, a máscula fricção das pernas de um homem ou aprazível roçagar ligeiramente áspero de peitorais brandamente cobertos de pelagem.

O preocupante e o que me deixa perplexa é a informação da minha excelsa esteticista que me segreda que há muito que foi declarada guerra até aos… inocentes!
É o triunfo do império de plástico, a apoteose do plastificado, a coroação do Ken.

Não se iludam, rapazes, a depilação total dos vossos corpos só nos aproxima da Grécia Antiga apenas se o vosso mármore for o de Carrara.

A Gaffe de granito


Hoje não chove.
Há frio como granito.

Levanto a gola do casaco – longe do mar, marinheiro, de um azul grosso de fazenda em terra – e sento-me na pedra do banco que foi do meu avô, naquelas tardes de gelo em que apenas ficava a ouvir os passos dos fantasmas que o Domingos dizia haver nas pedras.

- Ninguém morre aqui. Fica-se nas pedras. Sentimos latejar quando as tocamos.

Esta condescendência da morte alonga o tempo da memória e entrega ao inamovível a nitidez da presença do passado.

Olho, ao abrigo de um casaco sem moldura ou tempo, os rostos que vivem nas pedras e acredito no Domingos que é velho, velhíssimo, criança de tão sábio, e me diz que o tiritar das árvores é o som das palavras das pedras que trepam às copas, porque ninguém morre aqui. Fica-se nas pedras e são as pedras que tecem o meu casaco azul de terra audível.

17.3.22

A Gaffe do não

Paiul Strand

Não era um bom vento. Tresandava a podre e a doença. Dos casamentos não chegava nota, que a morte tinha arrastado os noivos, empurrando os corpos para o rio.
O tifo galgava os penedos, depois de tombar nas margens putrefactas e desatado em fúria abria terreno nos corpos dos novos, que os velhos caíam de choro e de fome.

Morria-se.

A gente do Douro usava panos amarrados na boca, com algodão em rama dentro. Para a proteger do febre, que nos socalcos e nas margens do rio a maleita é masculina, já que às mulheres foram entregues os dons curativos.

- Tombaram como os espanhóis. A morte é diferentemente igual em todo o lado.

A memória da Guerra Civil espanhola assombra o meu velho Domingos, tão tenro na altura que dessa tragédia apenas retém o terror do febre, o nauseabundo correr da água encharcada em corpos e o burburinho das rezas envolvidas em lenços pretos, em raízes e terços lacrimejantes. Pesada e seca memória, como trovoada em mês de Julho.

- P’ra lá do Marão, mandam os que lá estão, mas no Douro manda o não.

O não como matador da esperança. Para lá do não caído sobre a terra, já nada é fértil. O não como o fim do tempo, como se nada existisse depois do muro erguido pelo amontoar de corpos já negados.
As mulheres carpiam este não isento de revolta.
Urdiam um não confrangido, de lamento, de desilusão irreversível, de perda, de ausência de espera no contínuo de vida ainda por viver.

Ainda existe este não aqui no Douro. Solene de incenso e de tragédia, de final profundo, de sinal da cruz, mas ficou aguacento e já de poucas lágrimas, para fazer de conta que é talvez, esse estrondoso lugar de redenção da esperança.

De Espanha corria o não dizível. Veio no Douro a tremular na água e a terra o abrasou, comeu, tornou raiz.
Regurgitou-o depois para mal do homens.

A Gaffe dos combustíveis

Abid Mian Lal Mian Syed

Perante o galope dos preços dos combustíveis, seria absolutamente genial que alguns portugueses descobrissem que podiam, para além de jerricans, de jerricãs, de bidons e de bidões, encher também a caixa craniana.

Afinal, para que é que servem as narinas?

16.3.22

A Gaffe solitária


Quant à moi, maintenant, j’ai fermé mon âme. Je ne dis plus à personne ce que je crois, ce que je pense et ce que j’aime. Me sachant condamné à l’horrible solitude, je regarde les choses, sans jamais émettre mon avis. Que m’importent les opinions, les querelles, les plaisirs, les croyances! Ne pouvant rien partager avec personne, je me suis désintéressé de tout. Ma pensée, invisible, demeure inexplorée. J’ai des phrases banales pour répondre aux interrogations de chaque jour, et un sourire qui dit : « oui », quand je ne veux même pas prendre la peine de parler.


Guy de Maupassant - Monsieur Parent (Solitude)

Às vezes, tantas vezes, a solidão torna-se uma antiga conhecida, quase uma amiga de infância, que caminha connosco pelas ruas, embrulhada em mantas de caxemira de cor suavizada pelo modo como lhe vamos segredando os nossos mais tristonhos pensamentos ou as nossas mais pequenas ambições.

A solidão não é propensa a grandes confidências. É avessa a grandes planos ou projectos megalómanos. Prefere dar-nos o braço e, em surdina, ouvir-nos falar de pequenas coisas, da passagem lenta do tempo sobre as pedras, dos chuviscos da véspera, das janelas acesas ainda na manhã, ou já iluminadas pela manhã, do carro que curva derrapando, do homem velho com a vida num saco de plástico que espera o autocarro sentado num murmúrio incessante, do cão que fareja as árvores do parque que me assusta quando escurece, do cartaz feio colado repetido nas paredes ou da ilusão de um olhar que nunca chega a nós.

A solidão é boa observadora e ao lado dela ficamos sempre a saber do paradeiro dos pássaros que emigraram quando o primeiro frio lhes rasou o voo.

Ficamos também à espera de os voltar a ver.

Depois, olhamo-nos e continuamos a trespassar com os dedos os corpos uns dos outros e a fingir que é amor a dor dessa vertigem.
De olhos sem sentidos, a disparar palavras sobre a carne.

É trágico quando o que faz falta ao nosso silêncio, para que o silêncio do outro seja completo, é que até a solidão se torne muda.

14.3.22

A Gaffe materna


À tua volta cresce a pele das folhas recém-nascidas e a tépida candura das cortinas por onde se filtra a luz que vem de fora.
A minha vida lateja porque trago o teu coração dentro do peito, intacto, por romper, sem dano ou prejuízo. O meu coração impune em vez do teu, a bater no teu corpo, sem temor.
Abraço-te de joelhos os joelhos. Pouso a minha cabeça no teu colo e deixo-me aquietar, que o teu coração tenho-o no peito trocado pelo meu, na tua mão, e não há perigo.
Inclina-te para mim. Diz-me em murmúrio que na vida apenas valem os instantes, que Morte e Amor são coisas bem pequenas.

Que a tua mão sossegue o meu cabelo.

Que a tua mão aquiete a luz que vem de fora, nervosa, por entre as rendas das cortinas.

Que a tua mão sossegue a minha vida inteira.

Vou respirar em ti, prometo.

Minha mãe de pele de luz e folhas a nascer.

11.3.22

A Gaffe inconsciente



- Tu não tens absolutamente nenhuma consciência social, nem vestígios da política!

A bala foi disparada pela boca armada em idiota de uma versão masculina da Ana Drago, mais volumosa, mais carnal e bem mais alta e musculada.

Discutia-se com resoluto calor a decisão de se erguer de novo uma outra guerra para parar uma guerra em trânsito e, insurgia-se o povo, nas reunidas mesas do pequeno-almoço, contra o domínio pardo dos Senhores da Morte, matilha de um novo czar, nos reposteiros do poder.

Embora tenha soado a mofo, muito portas-que-Abril-abriu, muito CGTP Intersindical, muito período azul de Picasso, o chavão disparado contra a Gaffe encontrou eco nos meandros e nos corredores da sua alma.

A Gaffe não tem Consciência Social.

Trinta segundos depois do início do debate tinha já deixado de ouvir e desviado a sua atenção para os peitorais do garboso interlocutor que, na sua frente, se adivinhavam na alvura da camisa e tinha dado início a especulações de carácter muito pouco político.

Concede. A indiferença da Gaffe é escandalosa.

Norte e Sul, Israel e Palestina, Cristão e Muçulmano, África e América Latina, Biden e Putin, Zelensky e o leste ucraniano, Le Pen e Macron, Ghandi e os Impérios, hemisférios tortos, subvertidos climas, extinções previstas, catástrofes erguidas no terror da cinza, furacões e ondas de miséria abjecta, canhões e cogumelos venenosos, sarampo e malária, o SARS-CoV-2 chinês, Amazónia em ferida, favelas e cabanas transalpinas e mesmo as mais perigosas das antenas de telemóveis ou de senhores de fato, são coisas de somenos para ela. Não pensa nelas. Não lhe dilaceram o dormir.

Culpada! Refugo da humanidade em chaga! Pária! Escória!

Humilde e indiferente insecto renegado, oriental bichinho acanhado e inútil, apanha o lixo breve que à sua entrada tomba, limpa o umbral da sua dócil porta e vagarosamente cuida das roseiras.


8.3.22

A Gaffe a voar

Hiro (Getty Museum)

Todas as mulheres são pássaros.

Nem todas capazes de voos profundos ou de longo curso, mas todas com capacidade para escapar abrindo as asas.

O ditado que refere que mais vale um pássaro na mão do que dois em pleno voo, esquece, por ser apertado pelas margens do estereótipo, que há mulheres que voam parecendo estar presas nas mãos de quem as aperta.

Nem todos os homens sabem disso.

A Gaffe no seu dia

Biel Capllonch


A Gaffe tinha decidido deixar passar incólume o Dia da Mulher.

As características, as capacidades, as potencialidades e as qualidades que particularmente neste dia são atribuídas às mulheres e publicitadas em parangonas que fazem o Correio da Manhã parecer um jornal discreto ou um panfleto do Vaticano, dão imenso trabalho a manter e são, se bem aprofundarmos o assunto, uma maçada monumental que permite aos parceiros uma vidinha abençoada.

Mas a Gaffe considera lamentável que por entre os quase santificados elogios, óbolos, laudas e sinfonias que hoje são depostos no altar do feminino, se deixe escapar três dos mais importantes dotes que são apanágio da mulher:

O decote
As pernas
O beicinho

A transformação vulgar que ocorre nas auréolas que nos entregam equiparam-nos muitas vezes a guerreiras. São armas de heroísmo que empunhamos e somos mais do que nós, porque enfrentamos de peito aberto e soutien à vista desarmada a insensatez humana.

Tolices.

Tudo o que é dito e é hoje apenso a nós, pertence aos mais básicos deveres, obrigações e direitos de todos e não é agradável ou justo confinar esta parafernália de heroísmos apenas a um sexo. Não é exclusiva do feminino.

Há no entanto, o decote, as pernas e o beicinho.

A Gaffe continua a usar a metáfora bélica e considera que estas três armas fizeram mais pela humanidade e por uma carreira de merecido sucesso do que muitas palavras de Beauvoir.

É uma tontice condenar o uso destas três jóias como desviante, indecente, indigno, abjecto, grosseiro e mercantil ou adjectivá-lo com a colecção de mimos usados por moralistas de pacotilha. Um decote, um erguer de sobrancelhas tristes a companhar um mimado trejeito de boquinha e duas pernas bem usados, apenas manipulam a idiotice do poder, apenas usam em proveito próprio a mediocridade do homem. Se coadjuvam a nossa ambição e nos permitem agarrar o que nos é negado, mesmo sendo nosso por direito, é porque a vítima não merecia sequer ser confrontada com os mais simples argumentos da inteligência.

Recusar o uso de três armas únicas e decididamente femininas em nome de um feminismo musculado, é pateta, constitui um erro de estratégia e é abdicar de uma das mais eficazes formas de controlar, dominar e vencer a patetice dos machos.

Se Deus nos deu voz, foi para cantar, mas se nos deu um decote, umas pernas perfeitas e a capacidade de convencer através do beicinho, não foi proprimente para regozijo mais ou menos lúbrico dos homens. Foi para anexar ao outro equipamento e usar quando nos convém.

Minhas queridas, recusar o uso das armas que são exclusivamente nossas, é acabar como Frida Kahlo: de bigode, de sobrancelha única, paralíticas e, para desgraça nossa, tudo isto sem o seu talento.

Comemoremos pois o Dia da Mulher juntando as amigas.

Vamos todas saltar como sempre para as oscilações da vida, mas, pelo menos desta vez, que sejam os homens a empurrar o baloiço para cima.

Para trás desce sozinho.



7.3.22

A Gaffe vietnamita

Horst Faas - 18 de junho de 1965

Esta é uma das fotografias que trazem pronto o que querem que se sinta ou pense ou mesmo como querem que eu reaja. Podemos portanto divagar à vontade que o rastilho é sempre o mesmo. Por mais inesperada, ocasional e imprevista que tenha sido a captura, a foto tem inscrita a história que quer contar.

No entanto, esta tem colado um elemento particular bastante interessante.

No capacete está escrita a frase de William Tecumseh Sherman e, exactamente por isso, permite-nos uma intertextualidade importante que, se não me custasse muito, daria um post muito comprido e a armar ao fino. Como sou uma rapariga apagada e cheia de frio, começo a não ter paciência para estas teclas. Reporto-me apenas a dois ou três grãos para moer enquanto isto passa.

Lembro, em consequência do exposto, e assim sem mais nem menos, que se faz tarde e a vida é curta, Voltaire a atribuir a César a extraordinária deixa: Com dinheiro tem-se soldados e com soldados rouba-se dinheiro; dou um voltinha por Agustina Bessa-Luís e a identificação de guerra com orgia - ainda que macabra e negada em consciência - e apanho, trocado numa esquina, Sartre e o inferno somos nós.

Juntos, estes conceitos dão uma data de coisas fenomenais e do tamanho do post que devia ter escrito.

Como sou uma rapariga preguiçosa, fico-me a olhar para o rapazito e a sentir exactamente aquilo que a foto quer que eu sinta e que não deixa de ser semelhante àquilo que sente qualquer um que a apanhe por acaso.