18/04/2019Traz o avental com flores garridas na bainha. Um avental de
peitilho branco, laçado nas costas de vestido negro. A luz sorrateira do
amanhecer infiltra-se nas frinchas das janelas largas e enchem-na de sombras,
prateando-lhe o cabelo preso num nó de trança enrolada.
A cozinha cheira a flores do avental garrido. A especiarias,
a condimentos, a ervas aromáticas a enchidos, a fumo, a madeira, a lume, a
forno quente, a pão e ao café que na cafeteira borbulha atingido pelo ferver da
água.
- Andam à procura dos caixilhos - matreira, a Jacinta.
Vai mordendo o pão e bebericando o escaldar da malga de café – aflitinhos com
os moldes do tapete de flores para o compasso. Dão cabo das plantas. Que
procurem. Primeiro a marinada, depois a consoada – vai roendo, birrenta.
- A menina não devia ter autorizado este desmando.
Perto da Jacinta há segurança. Há abrigo. Dentro da cozinha
da Jacinta há santuário.
- Ajude, menina, que já fez asneiras que chegassem.
A cebola a cortar em rodelas - grossas, menina, podem ser
grossas. Valha-me Deus, que isto não é no hospital -, os gomos intermináveis de
alho a picar, as folhas de louro a quebrar estalidos, o pimentão aberto prenhe
de perfume, a salsa - qual picar, qual quê! vai em rama que guarda o sabor -, o
alecrim aos molhos que choram os meus olhos, o colorau cor quente e os limões
cortados em meias-luas ácidas.
- A menina despeje o vinho no alguidar e deite-lhe um
bocadinho daquele espumante que sobrou. Amolece a carne. Dá-lhe mais sabor. Não
tanto, valha-me o Senhor dos Aflitos! Só um cheirinho! Agora deixe, que eu
misturo tudo e ponho o anho. Chegue-me o paninho dali do armário para tapar a
marinada. Vá, menina, que eu tenho de lhes dizer onde estão os moldes que ainda
me partem qualquer coisa.
Às vezes, tenho medo que me ralhe.
- Depois cortamos as tirinhas de toucinho e fazemos a grelha
com os paus do loureiro para a boca do alguidar, está bem?
Não estás zangada comigo, Jacinta?
- E como haveria eu de estar zangada? A culpa é da velhice
resmungona que aqui anda. Vamos por isto no fresquinho e toca a dar-lhe os
moldes para o tapete.
Os sacos de sarapilheira com as folhas e as folhas das
camélias, as camélias toldadas e escurecidas que ficam bem no meio que
disfarça, o jasmim, as campânulas amarelas, os lilases, as pétalas de rosas
coloridas, margaridas – serão os malmequeres? -, hortênsias imaturas, e outras
que não estão aqui que são precisas, o perfume das mãos que as separam em
geometrias prévias de molde de madeira. A seiva, o espargir da água que lhes
atrasa o apodrecer e a doçura curva das mulheres a espalhar no chão a Primavera.
- Não entendo porque não usam Kilins - sai a minha irmã
da nuvem de perfume e o seu espanto é genuíno e espanta. - Não escorregam. Os
nómadas fazem as cáfilas passar por cima deles, para os espalmar, suponho.
Aqui, é o mesmo.
Atira e traça a voluptuosidade de pronúncia francesa
carregada, arrasta e rola as sílabas que não consegue moldar em português,
prende a seda do cabelo com a fita Cartier, depois de proteger as pérolas dos
brincos, e descalça, que não tem calçado para pisar tapetes de folhas de camélias,
desliza e evapora-se.
- Ensinas-me a fazer o arroz, Jacinta?
- Na manhã da Páscoa, menina. Venha ter comigo muito cedo.
Depois vamos ajudar aquelas tolas.