31.5.23

A Gaffe envelhecida

Para a Paula Vasconcelos

Aiden Shaw

Ao deparar com meninas telegénicas e as suas constantes preocupações em publicitar a cor do cabelo patrocinado por uma marca de tinta, trepam-me à memória, espalhando-se e contaminando o meu dia, as cabeças de Fernando Ruas e de Victor Constâncio e permito-me concluir que se às mulheres é reconhecido o direito de mudar a cor da juba, já aos homens o caso adquire tons mais complicados.

As cabeças de Fernando Ruas e de Victor Constâncio, por exemplo, parecem ter sido dominadas por uma aranha negra, velha e outrora peluda ou, em alternativa, terem um rato morto a servir de cabeleira.

Admitamos que aquilo é deprimente.

Desenhar o penteado com um marcador preto produziria o mesmo efeito. A tinta tinge o couro cabeludo e, no caso do primeiro, apeçonhenta o bigode. Ficamos perante dois casos de toucas de banho incorporadas, negras, funestas e retintas e nitidamente falsificadas, como se os chineses tivessem plagiado a estrutura capilar e a pilosidade de um jovem latino e tivessem colocado o produto à venda nos mercados e nos átrios dos municípios.

É um erro crasso confiar num homem que pinta o cabelo daquela forma e acredita, patético, que consegue convencer os pares e os parceiros com o negro daquilo que outrora foi cabeça. É tão idiota como acreditar nos que arrastam de forma confrangedoramente dolorosa - uma dor de alma - os fios da nuca para a frente da testa, criando uma estranha e assustadora arquitectura pilosa que lembra um ovo de extraterrestre num filme qualquer de ficção científica de terceira categoria ou pornográfico, onde não há categoria nenhuma.

As meninas podem tingir-se com a cor cereja, porque há sempre a possibilidade de nos distrairmos com os decotes e com os vestidos dois números abaixo do que seria necessário para não ficarem comprimidas, mas um homem não podem usar a porcaria que as raparigas publicitam sem correr o risco de passar por idiota, desonesto, inseguro e incompetente.

Aiden Shaw

Há incomparavelmente mais probabilidades do cabelo grisalho, ou mesmo totalmente branco, poder ser o mais deslumbrante e fascinante convite à aventura e ao embarque naquilo que é o transatlântico mais poderoso do universo: a maturidade consciente e assumida do homem por quem perdemos bússolas e astrolábios - não convém contudo generalizar, porque nos lembramos de repente do engenheiro Sócrates.

Aiden Shaw prova de forma inequívoca a tese defendida. Embora, diga-se, tenha um passado conturbado e controverso, muito dedicado a fitas pouco recomendáveis, é uma espantosa criatura susceptível de povoar os sonhos menos brancos de uma rapariga com a cabeleira cor de cenoura, ou de um rapaz mesmo careca e apesar deste portento não passar por nós ao virar da esquina, não é o único unicórnio a passar por aqui. As meninas façam o favor de atentar em:

Patrick Petitjean por Joe Lai

Patrick Petitjean

ou em Philippe Dumas

Philippe Dumas

A Gaffe acha muito bonito dizer-se que cada ruga que nos surge é uma história contada.

É evidente que este lugar-comum não se pode aplicar a gente que já nasce velha, a seres com idade para gostar de marcar presença nos festivais de Verão e cara de quem já passou por todos, nem a criaturas com uma pele de rabinho de bebé, mas que fazem de Manoel de Oliveira - no estado presente - uma criança de cueiros.

A velhice é como o dinheiro. Enriquecer e envelhecer exigem estratégias precoces que permitem atingir o estatuto fornecido por rugas e fortuna com o poder de quem tem histórias para contar, mas que prefere autorizar que sejam narradas ou fotografadas pelos outros.
As histórias de cada um são narradas pelos mais ínfimos actos, pensamentos, ditos, acções, posições e atitudes. As rugas são apenas inexoráveis narrativas celulares.

O tempo, dizem, é uma criatura implacável. Pensar contrariá-lo envelhece-nos imenso para além de nos poder transformar em mutantes de silicone.
O único modo de contradizer o passar dos anos é sentir que temos demasiadas rugas para fazer determinada coisa e agarrar no bom senso e fazê-la.
É uma perfeita tolice declarar que a vida começa aos 30, aos 40 ou aos 50!

A vida começa quando decidimos e conseguimos ignorar a plateia.

30.5.23

A Gaffe nos anos sessenta

Vic Seipke
Mais de várias - enfim, algumas -, décadas antes de eu nascer, a fotografia de Vic Seipke cumpriu o seu destino, provavelmente similar ao traçado para aquelas que hoje, sessenta e alguns anos depois, povoam as fantasias menos exigentes de públicos que uma rapariga de boas famílias não está autorizada a referir sem se benzer.

O ginasticado rapagão terá sido um menino de sua mãe - tão jovem! que jovem era! - capaz de ostentar provas de insistente, consistente e reveladora actividade física que, acreditamos ao observar pormenores, não se confinava apenas às quatro paredes de um ginásio, estirando-se com certeza pelo chão, elevando ao tecto apensas manigâncias e passando num ápice para o uso de toda a mobília.

É indefinida a idade do retratado. Embora sendo eu uma criatura incapaz de atribuir idades ainda que aproximadas a potentados destes e dos outros, provavelmente o rapagão não terá mais de trinta anos. Se usarmos o conselho do querido Guterres, Vic Seipke é agora um nonagenário.

É evidente que não tenho intenções de me tornar tenebrosa, sinistra, ameaçadora, lúgubre e absolutamente parva, arabizando considerações acerca da crueldade do passar do tempo, da impotência da beleza perante a decadência, da fatalidade da queda, da vacuidade da vida, da irresponsabilidade do culto do efémero, ou da desagradável e maçadora homogeneização do destino do universo perante o fim. Gosto imenso do efémero, do irresponsável, do que é inutilmente belo, do vácuo existencial, da queda bem almofadada - também gosto de dinheiro, mas suponho que esta informação é despropositada neste contexto -, e faço tenções de gozar todas estas sumptuosidades sem as conspurcar com as piolhices que o mais tinhoso romântico literário se encarregou de glorificar.

É claro que se neste momento Vic Seipke fosse convidado a posar nos preparos do seu passado, o resultado não seria o melhor, por muitos pesos que o rapaz continue a levantar, e suponho que mesmo num calendário solidário, despido de bombeiro, não acenderia um fósforo. Seria apenas um fofo muito querido, com imensa coragem e genica, que foi capaz de se despir de preconceitos em nome de uma causa e ó que linda que a velhice pode ser.

Mas, meus amores, a velhice é deprimente. Acho que é uma coisa que devia acontecer apenas aos inimigos. O assunto ficava arrumado e havia mais paz no mundo.

Este magnífico exemplar de testosterona solidificada, mesmo que não a tivesse direccionado como nos apraz, é agora um velho, muito velho, muito velho, muito podre - se tivermos em consideração que o que aos trinta fazemos, aos noventa o pagamos. No entanto, no auge da sua envergadura, o rapagão depilava-se como se o amanhã fosse ali já – nunca de Alijó, onde os homens ainda fazem questão de manter todos os pêlos -, usava sem constrangimentos ou receios uns calções que certamente se fartava de despir, muito apertados e bastante interessantes na óptica da observadora e sabia moldar o seu bronzeado para que o seu perfil proeminente fosse passível de ser bem avaliado e apreciado.

Os anos sessenta de Vic Seipke fazem mais sentido que uma vida inteira a carpir a implacabilidade do tempo que passa, passado no culto da morte que está com certeza em cada esquina e nos torna iguais, despidos de tudo. O pó, a cinza e o nada chegam antes do tempo neste carpir doente, neste choro mórbido, que entope o nariz, que impede até mesmo uma fotografia parva, mas que glorifica os instantes solares em que somos agora.

Envelhecer é inevitável, mas a inevitabilidade não atenua a aversão. É exactamente por isto que fico irritada quando ouço, ou leio, gente a ameaçar a vida com promessas e certezas de morte. Dir-se-ia que não conseguem ter uns instantes de felicidade sem os macularem com a morbidez da certeza da morte. A ladainha é sempre a mesma: Que importa a beleza, que importa a Viagem, que importa a felicidade aparente ou não, que importa viver de forma solar, se acabamos todos desfeitos em pó.

É absolutamente lúgubre, altamente inibidor e perfeitamente estático.

Quero viver todos os instantes de modo fabuloso. Quero lá saber do medo de viver implícito nas criaturas que ameaçam a vida abanando espantalhos fúnebres.

A Gaffe invejada

Kathy Ager

Uma das características das mulheres pouco espertas é a inveja.

Isto, simplificado e tornado raquítico, é mais ou menos assim: os rapazes gostam de futebol, os gays de ver montras e o mulherio é invejoso.
Não há forma de contornar o assunto e de negar a evidência. Uma rapariga tem entranhada no DNA a capacidade de invejar a outra e é capaz do piorio só para arrasar a parceira. Eleva a inveja ao estatuto de obra-prima. Pode disfarçar com meia dúzias de coisinhas mansas e palratórios amorosos, mas está sempre pronta a picar, a venenosa.

Quando a Gaffe lhes apresentou o qualquer-coisa, as mulheres que conhecia ficaram muito contentes. Porque o qualquer-coisa era um tipo correcto; porque era mais velho do que ela uma data de anos e isso era uma vantagem; porque ficavam radiantes por a ver finalmente estável; porque o amor é lindo; porque - isto era importante - o homem era bem posicionado - embora a Gaffe nunca o tenha achado grande coisa na cama; porque assim arranjava entradas para todo o lado e até porque conhecia o tout Paris.

Uma alegria.

A Gaffe chegou a temer que lhe caísse na cabeça, qual piano tresloucado e solto, aquela felicidade toda. Andou por ali, mas nunca convencida.
Acabou por descobrir facilmente que o mulherio se roía todinho de inveja e ciúme. Aquilo era noites sem dormir a matutar na forma de espantar o homem. A Gaffe percebeu também que os limites para o ataque eram bastante alargados quando o homem começou a receber SMS das ex-namoradas - grande lista que o paspalho tinha -, a declarar que estavam tão felizes que até lhe queriam dar os parabéns pessoalmente e de preferência as duas da manhã atrás das escadas.
Nunca deu grande importância àquilo. Não estava a morrer de amor. Sempre soube defender o que lhe diz respeito e é dela, e, enquanto forem, aqueles que dormem consigo na cama.

Amélia dos olhos doces,
Quem é que te trouxe grávida de esperança?
Um gosto de flor na boca,
Na pele e na roupa, perfumes de França

Quando o qualquer-coisa levou um chuto, as amigas entristeceram todas.
Para trocar de lágrimas organizaram uma festinha com vinhos de todos os lados - as mais pindéricas beberam Coca-Cola - e uma porcaria de queijos franceses ressequidos na casa dum amigo comum, com o qualquer-coisa como convidado de honra, para o rapaz mais facilmente esquecer o desaire.

As cabras.

Pouco tempo depois, a Gaffe conheceu um rapazinho engraçado, com mais ou menos a sua idade. Nada de grave. Tornaram-se grandes amigos. Tudo muito casto e muito recatado. Nada que uma freire não fizesse no escuro da cela, qual Mariana Alcoforado.

Ora o que é que acontece?

Pois é verdade. O mulherio que sim; que agora é que é; que o moço é mais novo; que estão tão felizes que até desatam a disparar orgasmos nas tábuas do povo.
A Gaffe deixou andar. Que se danassem.
Não passaram muitos dias para que o rapaz principiasse a receber em casa convites manhosos para festinhas e para bailaricos e mesmo para os desfiles da saison. A Gaffe nunca os recebeu. Não era extensivo.

Por isso a Gaffe pensa que é melhor começar a ir ao futebol ou a lamber montras. Lamber só, que isto está tudo tão caro como os queijos franceses servidos por cabras invejosas.

A Gaffe num cais


Há homens que de tão habituados a esperar deixam de chegar seja onde for.
Outros há que de tão habituados a partir a cada instante nunca chegam a lado nenhum.

São os homens que sabem escolher o cais perfeito e que conhecem a hora exacta da partida e da chegada que, mesmo esperando, sabem que a viagem termina sempre ao nosso lado.

29.5.23

A Gaffe frutada


Um septo arrogante. A cor da carne, carmim e luzidia. Uma humidade polida. Uma rigidez que cede, branda, tocada pelos meus dentes. Uma polposa, bojuda, carnuda superfície limpa, deslizante. Um fulgor. Uma meninice erguida em desafio. Um suco, um sulco, uma rajada, um sumo, um jacto, um ímpeto.

Ou nádegas minúsculas por onde roça a língua.

Ah, Como eu gosto de cerejas!

A Gaffe sem regressos


Deitava-me no chão de madeira encerada e permanecia horas inteiras a aflorar as tábuas do soalho com a polpa dos dedos.
Com a cabeça tombada num dos braços que me servia de almofada, pousava o insecto de uma das minhas mãos na pele do chão e traçava labirintos de jardins inventados.
Tudo era simples, como o silêncio que me apaziguava. Ficava pousada no chão como um inevitável facto e entre o soalho e o meu corpo havia um lençol de plumas estendido que impedia a mácula, atenuando o encontro agressivo com o chão.

Estas minhas ausências despertaram a indignação da minha avó que me proibiu aquelas imobilidades suspeitas, evocando vestidos que se sujam - o meu vestido de linho azul com miosótis bordados a cheio pela Jacinta -, ou entraves à contradança das empregadas.
As tardes de mapas no soalho tornaram-se mais espaçadas e de certo modo diferentes. Deixou de existir um manso toque para passar a haver um risco rígido, um raspar nas frinchas deixadas pelas uniões das tábuas ou nos lanhos que a madeira antiga deixava irremediavelmente por curar. Tentava escavacar o chão, procurando lancetar ou aprofundar as feridas da madeira. A cera quinzenal colocava compressas nestes rasgos, mas nas tardes distraídas da minha avó voltava a abrir aquela solidão de madeira. Quando o sol deixava as sombras soltas pelo chão, acabava pertença do soalho. Os reflexos de luz toldavam-me os olhos, sentia a pele misturada com brilhos dourados e os fios do meu cabelo enganavam os veios da madeira.

A memória dessas tardes chega hoje como lenços a acenar, isenta de som, com se a mudez daqueles momentos contaminasse as recordações que deles tenho. Talvez a responsabilidade desta ausência de ruído não seja minha. Talvez o silêncio fosse um erro exterior a mim.

Agora o soalho não é encerado de quinze em quinze dias e mesmo o ranger das tábuas parece diluído.
Pesa de perfume o ar que não respiro agora, mas que me entra baço nas narinas e há escuro desperto nas rajadas de luz que entram pelas janelas. Não há vento e sinto as folhas esbaforidas a rodopiar lá fora. Estou aqui e sinto frio, como se tivessem aberto as portas todas e as correntes do ar enfurecidas viessem galopar o meu espaço.

Onde fiquei? É mesmo aqui que existo ou estou perdida nas folhas do meu álbum?
Vou pairar, tenho a certeza, voar ou levitar e chegar ali, à minha infância, e, contudo, calco o chão agora como se dele nunca tivesse erguido os pés.
Atravesso a sala. Desvio-me dos móveis. Sei-os de cor. Os meus dedos esbarram nas esquinas e escorregam depois na pele de vidro da jarra onde matavam as mimosas. Não tenho medo. Agora não há perigo. Posso quebrar tudo o que quiser sem temer que escondam o meu erro. Já não fico com segredos repartidos e com o medonho medo dos meus cúmplices que ganhavam o poder de me moldar ou arrastar para culpas divididas.

Como se soubesse agora do que tenho a culpa.

Toco nas paredes, encosto-me de manso, de modo que os meus ombros se misturem com a surpresa de me ver aqui, com esta espécie de ondular que sinto e que é memória ainda do berço que baloiçava nos braços da minha avó.

Caminho devagar.

É grande, a sala, mas tudo é tão pequeno. O modo de eu a olhar é tão diferente! Mesmo a poeira batida pela luz não tem doirados e não fica presa nas patas do tempo. Tomba como uma sonâmbula no soalho e nada resta para esvoaçar depois. A minha escala é outra. Já cresci. Os meus olhos antigos não os uso agora e não consigo inventar estradas para deixar passar as tribos que inventava, entre a porta grande - grande, grande, imensa, enorme, que se abria para a minha avó entrar em contraluz - e o esconderijo do meu peito.

Nada tem a dimensão da infância.

Nada fica igual, quando da porta ao quarto se cavam pesadelos e as distâncias se traçam no interior da vida. Nada permanece, a não ser o ido.

Não há regressos. Não há normalidade.

Deito-me no chão. Ergo os braços, estendo as mãos para o tecto. Deixo-as tombar depois vazias e adormeço.

27.5.23

A Gaffe nas batalhas


Sabendo-se que esta família caça em conjunto, fácil se torna concluir que nessa operação ela é por norma o isco, a manobra de diversão e o engodo.

A verdade é que nunca esse papel a incomodou, chegando mesmo a ser um deleite participar na montagem das armadilhas. Admite que não é de todo distinto ou elegante ser usada para que se atingirem objectivos que lhe são alheios, mas considera sempre divertido verificar que em todos existe uma etiqueta com um preço, que ela faz acreditar que é elevado, embora suspeite que - cada vez mais -, toda a gente é um saldo.

É angélica, suave, pestaneja, aparenta ser inofensiva e não tem nas patinhas as garras visíveis. É fácil fazer com que inclinem a jugular desprevenida. Depois é com os outros.

A minha prima não gosta de vencidos.

Nunca ousou forçar uma queda, nunca se atreveu a desferir o golpe, mas não tem ilusões. Ninguém foge ao escrutínio. Todo o passageiro é revistado, mesmo que o bilhete seja apenas de ida. Tem o agradável defeito de, sempre que por si passam mortais, os pesar e repesar na balança do jogo da guerra.

Não é sangrenta, talvez seja apenas má pessoa.

Aprendeu a sobreviver neste vale de feras, consciente disto, com um rapaz de veludo que lhe foi apresentado demasiado cedo. Foi analisado ao pormenor e concluiu-se que o rapagão pertencia ao plano estratégico de caça familiar e que nos pratos da balança pesava mais do que seria de esperar. Foi insinuado que alguém devia distrair a vítima enquanto os bastidores se movimentavam. Aceitou contente. Falar de Genet, comentar Monet, criticar Stravinsky ou acarinhar Fellini, nunca foi complexo - Se não sabe, inventa.
Acrescentou a estes prazeres, o facto do rapaz respirar e se sentir o mundo a tremer. Sobretudo o hemisfério sul.

No entanto, sofreu um revés. O padecente confidenciou-lhe, logo ali na esquina de Darwin, a sua inabalável fidelidade ao espapaçado Amor da sua vida que ignorava o sofrido.
Tornou-se intocável a alma do petiz.
O amor sempre lhe inspirou um desmesurado respeito e jamais se tornaria cúmplice do espoliar de alguém apaixonado.

Soube, pouco tempo depois da sua recusa em fazer de conta que seduzia o triste, que aquele amor eterno e inabalável se tinha escapado por minutos e que, com os melhores cumprimentos da eternidade, tinha tentado pousar no meu irmão. Apanhou-o deitado no chão, de pés levantados e pousados no peitoril da janela e, não tão subtilmente como seria de desejar, enfiou-lhe a mão dentro das calças. Abalado, o meu pobre irmão nunca foi o mesmo, recusando aproximar os pés seja do que for. Stress pós-traumático, dizem os sábios.

A partir desse instante, a minha prima descobriu - para além de ficar a saber que a fidelidade é uma bicha muito subjectiva -, que nada, mesmo nada, a impediria de jogar. Gosta de jogar, o que não a torna excelsa companhia.
Enfraquece resistências, afrouxa cérebros, distrai argúcias, impede análises e faz tombar as paliçadas. Pérolas e perfumes são armas que conhece em demasia. Usa-as com perícia e destemor. Depois dos muros derrubados, perde o interesse.

O resto é dos abutres.

Não se comove. Nunca se comoveu com a chacina. Os que tombam são sempre os mais idiotas, os que acreditam no Poder e desconhecem que é exactamente nele que se encontra esconsa a mais potente ameaça de derrota. Estão vencidos, porque não sabem que se trava uma batalha, porque cegaram com o brilho das próprias armaduras, ou porque não entendem que às vezes - muitas vezes -, a maior vitória não exige luta.
Agrada-lhe sentir que pertence aqui, ao grupo dos carrascos, daqueles que executam imbecis.

Não é aconselhável aceitar o seu convite para o chá.

25.5.23

A Gaffe de pernas e espadas

É de importância capital o que nós raparigas fazemos com as pernas.
Esquecemos frequentemente que são, por muito incompreensível que para nós seja, uma das armas que dispomos para reforçar vitórias.

São punhais, são serpentes e são rios por onde poetas e flaneurs fazem desfilar todas as palavras, traçando todas as rotas, deixando-se ferir por doces lâminas de carne e envenenar pelo néctar suave que desliza invisível rumo aos tornozelos.
As nossas pernas, minhas caras, são muito mais do que dois instrumentos que nos levam simples e directamente do ponto A para o ponto B. Neste percurso, cabem labirintos e o erro de os ignorar ou desbravar pode atingir-nos de forma fatal fazendo-nos perder dois magníficos trunfos.

No jogo, os homens conquistam usando artimanhas tontas, acreditando que o poder simbólico de uma gravata Gucci ou de um Armani perfeito, os torna eficazes. A guerra pelo poder no masculino é feita sobretudo com homens vestidos. A nudez masculina, quando usada na guerrilha, jamais acorrentará uma vitória ao tempo. Os homens lutam vestidos e nem sempre é segura a almejada conquista. As mulheres podem - devem - usar todos os recursos que um machismo idiota lhe entregou de mão beijada.

As pernas de Tina Turner - mesmo quando vagamente cobertas por redes de seda - eram, nos campos das batalhas que se tornam palcos, dois dos mais possantes e incompreensíveis mísseis de que há memória. Sempre detectados pelos radares, mas nunca recusados por amigo ou inimigo.

A voz era o som destas espadas. Magnífico. 
 

A Gaffe descodifica

Jon Whitcomb
Quando um homem nos coloca ao pescoço uma gargantilha de esmeraldas e brilhantes, pode apenas querer provar que usa um cartão de crédito de dimantes ou que gosta de coleiras que cintilam.

Quando nos serve uma salada com três tipos de alface fazendo questão de nos explicar como cultivou cada um deles e nos garante que se for ele a preparar a lampreia à moda do Minho que jaz em postas num alguidar de barro, mergulhada em alho, louro, salsa e dois vinhos, NÃO disparamos cozinha fora todas arrepiadas, de olhos esbugalhados, desgrenhadas de medo do monstro necrófago, escorregadio e com umas ventosas alienígenas no terror de uma das extremidades, ficamos a saber que o nosso caso estar a tornar-se uma coisa muito séria.

24.5.23

A Gaffe no tempo dos colégios



Era uma menina doce no tempo dos colégios. Uma menina que ainda não tinha descoberto o tigre que solto caça e rasga a presa com veludo e garras de cetim e harpa. Tinha a quietude dos meigos que é a mais segura casa dos que tímidos afloram a superfície das coisas com cautela. Tinha a compostura das senhoras e a mais frágil solidez de alma que me lembre.

No início dos dias dos colégios, havia recital.

Havia um menino e um piano, uma rapariguinha triste no som de um violino, uma bailarina branca como cal, uma canção de ninar que entardecia e um pombo perdido a esvoaçar na sala.
Eu recitava:

E veio o Outono com passos de doente
E dedos de penumbra e suavidade
Pôr sobre a Natureza, lentamente,
Pétalas, espargir de uma saudade.

E a triste se ficou, serenamente,
Como quem vê perdida a mocidade.
Mas tão linda se fez à luz poente
Que se tornou menina sem idade.

E triste me ficava a ver-me ao longe no poema tonto que não compreendia.

Longe, os dias dos colégios são a memória desse Outono que vinha adoentado. Não os tenho a não ser no que me vejo ao longe, a recitar. Pequena como pétala ou como a penumbra que se encosta às portas do que agora sou, a ver-me ao longe.
Dentro desse tempo dos colégios e dentro dos Outonos que vieram, os olhos do meu avô eram luz poente. Faziam com que a menina não tivesse idade.
Dentro dos Outonos que vieram, nos outros recitais que eu não entendo, o meu avô debruça ainda o olhar sobre um poema e, mesmo por dizer, di-lo comigo.

A Gaffe numa caçada

Mirko Hanák

A Gaffe considera o amor abnegado uma coisa do outro mundo.

Uma criatura engole as lâminas, se o seu grande amor quiser deixar crescer a barba. Uma criatura rasteja toda depenada, se o seu grande amor tiver decidido colar umas penas nas costas e fazer de conta que voa.

É bonito.
Não há grilhetas.

A alforria do amor da nossa vida é coisa dele e há que não quebrar os cristais da autonomia. Não ocupamos o espaço que é do outro, porque estamos cientes da total independência e da santa liberdade que não podemos conspurcar com pieguices nossas, com a mania que temos de arrancar com os dentes o coração de quem amamos e deixar o infeliz ali descarnado, com um buraco no peito, bem visível, para que toda a gente perceba que dali já não leva um pirolito.

Uma criatura deve ser abnegada, pois que as coisas boas são todas muito principescas, muito Saint-Exupéry.

É difícil contra-argumentar, a não ser se formos nobres inglesas numa caçada à raposa. É provável que se dispare. 


23.5.23

A Gaffe imperiosa

Billie Holiday  canta “Strange Fruit"  no primeiro Clube integrado de NY, 1939 - Gjon Milli

Todas as mulheres possuem um desenvolvidíssimo espírito científico, pese embora apenas algumas o usem para tentar dissecar a alma alheia. Por norma os instrumentos usados não incluem a inteligência, posto que para a operação fica aquém do esperado e, no máximo, o que se obtém é a pele do observado, que fica sempre bem no soalho de madeira.

Há no entanto casos em que é possível tentar chegar a resultados interessantes, se o analisado for um conceito.
As mulheres são peritas em elaborar pareceres, a formular noções e a construir máximas que os homens gostam de usar depois. São piçarras e tonys carreiras das nossas melodias e chegam aos festivais já vencedores. Deixamos, porque não importa o resultado do júri. O que nos dá gozo é a certeza do engano dos jurados que se revelam ainda mais tontos do que na realidade são.

Os conceitos que nós, mulheres, fazemos florir são como papoilas. Surgem às centenas, em campos magníficos e dão ramalhetes perfeitos, porque efémeros. É lógico que cada uma de nós escolhe a papoila que mais condiz com o seu tom de pele, com a cor do blush, com a cor do dia do decote, ou com a forma que lhe parece próxima da perfeição sonhada.

Malgré tout, é sempre uma papoila que é escolhida.

Esta inteligentíssima - apesar de modesta que sou, devo assumir -, introdução, chega a propósito dos conceitos de elegância feminina que provocaram um olhar bucólico sobre este campo plano e tão singelo onde pulula, aqui e ali, o escarlate das florinhas.

Há que pegar no bisturi.

A elegância - a Elegância -, pode ser analisada com objectividade científica. É possível arrancá-la do somatório dos distintos conceitos que são construídos por cada uma de nós e tornados de certo modo distintos uns dos outros. Há a elegância da mulher magra e alta, esguia como a haste de um lírio. Há a elegância da que veste sem ser vestida por Valentino. Há a elegância construída pela fleuma gélida perante incêndios de barracão. Há a elegância da maturidade que constrói castelos de reserva e discrição e há outras que não se dizem por exaustão.
Por norma, alia-se, mesmo inconscientemente, a elegância de uma mulher à sua biografia. No entanto, a Elegância pode ser isolada, pode ser objectivada, pode ser detectada sem as interferências usuais e sem as premissas que habitualmente nos levam a resultados viciados.
Uma mulher pode ser Elegante independentemente do mundo que a olha, para além de si, para além da sua história ou da sua voz. Neste pressuposto, pode ser Elegante uma psicopata, uma assassina, uma inócua dona de casa, uma apaixonada pelo funk, uma vendedora do Bolhão - estas são quase todas Elegantes, quando calmas! -, ou uma candidata a Prémio Nobel da Paz.

A Elegância é um palimpsesto. Talvez exista uma facilidade relativa em separar camadas, desagregar substratos, definindo-os como eleitos na subjectivização do conceito, mas no final - e afinal -, o somatório torna-se indistinto, quase invisível, quase mistério, porque, diz o aviador, o que realmente importa não se vê.
A Elegância não é portanto uma projecção do olhar do Outro. É o reconhecimento do Outro da existência imperiosa e única de alguém.
Sentimos a Elegância, somos Elegantes, porque somos, nós também, palimpsestos, mas nesse aglomerar, nesse sedimentar de histórias que são nossas - apenas nossas e sem domínio algum sobre o olhar dos outros - existe um elemento essencial que atravessa cada substrato, solidificando o todo.

A inteligência.

Nenhuma mulher é Elegante se não for inteligente e logicamente madura - aos dezoito anos escolhemos sempre o perfume incerto ou cantamos sempre a canção errada.

A Gaffe sem partida

o fotógrafo Charles Ebbets fotografado por desconhecido -1932

Viajar é sempre olhar o Outro e esse olhar que lhe entregamos comporta sempre uma leitura subjectiva. Contaminamos o visto com a nossa muito própria e desavergonhada semiótica, com a nossa semântica, com o nosso alfabeto, com o nosso vocabulário, com o nosso passado - com os nossos julgamentos -,com todas as histórias e com todos os sedimentos das histórias de que somos feitos. Estar consciente dessa ocorrência que permite uma leitura, uma descodificação, uma decifração do Outro, eivadas de anomalias causadas mesmo involuntariamente, através pela projecção do que somos naquilo que olhamos, é muitas vezes termos a possibilidade de nos olharmos.
Vemo-nos no modo como interpretamos o que nos é desconhecido.

Viajar é portanto, e também, um não sair de nós.

Talvez por isso me recuse a fotografar. É sempre constrangedor captar um instante em que nos revelamos, em que somos, em que ficamos passíveis de ser reconhecidos nos mais ínfimos pormenores que escolhemos fixar através de uma câmera.
Reconheço a fotografia como uma espécie de duplo emocional. Captamos as nossas particularidades, as nossas emoções, os nossos recantos mais claros e aqueles mais escuros, na escolha que fazemos dos alvos a reter e simultaneamente fixamos o que acreditamos ter sido interpretado, aquilo que pensamos ou sentimos que o Outro pensa, sente, ou vivencia. Não saímos de nós.

Uma fotografia é, sob esta perspectiva, apenas um testemunho do que somos naquilo que escolhemos fixar. Uma leitura do Outro que é desapossado dos seus variadíssimos vocabulários, da sua intrínseca e única forma de se expressar. Aplicamos o nosso muito particular sistema de descodificação do real à realidade alheia, acreditando que o que testemunhamos é a reprodução sem dano, impoluta, límpida e certa, da realidade do Outro. É este processo que explica o reconhecimento e aclamação de determinada fotografia pelos que usam os mesmos códigos de resolução, de interpretação e de descodificação - por projecção do que se poderá chamar emoções comungadas por colectividades específicas - e a completa indiferença pelos que possuem semióticas díspares e que, não raras vezes, são os que na fotografia figuram.

Temos a certeza que conseguimos fixar o instante alheio, não contaminado pelo que a ele é alheio, esquecendo que quando temos a certeza de uma coisa, é porque pensamos nela apenas uma vez.

Talvez exista esta espécie de desrespeito pelo Outro em Henri-Cartier Bresson, Capa, Doisneau, Imogen Cunningham, Vivian Maier, Walter Evans, Annie Leibovitz, Dorothea Lange, Steve McCurry, Jan Saudek ou Sebastião Salgado, entre tantos outros magníficos - um desrespeito parecido com o patente nas nossas medíocres películas de férias que não vão deixar história. Uma talentosa ou mesmo genial desconsideração pelo Outro, salva, aplaudida e ilibada por se conseguir, nos casos dos fotógrafos nomeados, por exemplo, projecções, não apenas do autor, mas também de todos os que com ele partilham, identificam e reconhecem determinadas emoções, as comuns, as autenticadas por determinada colectividade. A genialidade de cada um destes prodígios reside exactamente na capacidade de tornar emocionalmente comum um reflexo da sua própria emoção ao capturar uma realidade que por ser do Outro apesar de tudo desconhecem.

Viajar é sempre o reflexo do nosso olhar no Outro. Provavelmente nunca partimos, embora encontremos sempre lugares de chegada.

A fotografia é apenas uma viagem parada.

22.5.23

A Gaffe de Kitty Cat








Pascal Campion


A Gaffe não faz ideia

Rummy Rumfelt - foto de R. J. Pila

Mais irritante ainda do que a sacramental pergunta masculina que abre o frigorífico disparada:

- Sabes onde puseram o queijo?! - quando o queijo está ao lado da manteiga, a enfiar-se nos olhos do homem que conseguiu encontrar os mais inesperados microrganismos, mas que é cego quando se trata da mais banal das bolas vermelhas limianas sossegadinha a faiscar como um alarme dos bombeiros, é a toalha de banho molhada pousada no chão ou, pior, em cima da cama.

A primeira situação resolve-se com a resposta que pode ser usada em todas as dúvidas existências que o rapaz decide partilhar connosco:

- Não faço a mínima ideia.

A segunda torna-se ligeiramente mais complicada.
A tolha, por muitas voltas que demos, permanecerá atirada a um canto ou a encharcar o colchão.
Há naturalmente que arquitectar modos de solucionar o problema.
O mais simples é deixar apodrecer o caso. O cheiro a mofo terá repercussões no nariz do rapazinho e, cedo ou tarde, seremos confrontadas com a pergunta habitual:

- Sabes onde puseram aquelas coisinhas que se queimam para perfumar o ambiente?

- Não faço a mínima ideia.

Caso as coisinhas nos tenham enjoado da primeira vez que foram queimadas e as tenhamos assassinado e escondido os cadáveres, é aconselhável optar por um método mais rápido. Assim, basta que deixemos a toalha ao abandono até percebermos que o criminoso se prepara para o banhinho seguinte.
Retiramos e escondemos a de rosto e enfiamos na máquina de lavar a negligenciada. Deve permanecer a do bidé, caso exista.
Afastamo-nos até ouvirmos tremelicar:

- Sabes onde puseram a toalha de banho?

- Não faço a mínima ideia.

Aguardamos pacientemente até surgir à nossa frente um pintainho com as peninhas todas molhadas, a tremer de frio, com um paninho exíguo a tentar proteger o sobrenome do fotógrafo que captou a imagem que escolhi para encabeçar o post.

É evidente que, se escolhermos esta solução, corremos o risco de termos de lidar com a demissão da senhora que nos vem ajudar a ligar a máquina onde vai rodar o que faz falta ao prevaricador, de traumatizar as amiguinhas da nossa sobrinha fofinha que vieram para a festinha do pijama ou, nos casos menos graver, de ficarmos bastante agradadas quando nos apercebemos como a toalha do bidé é bastante grande.

Repetimos a façanha as vezes que forem necessárias e teremos no final uma pausa repleta de tranquilidade. Pelo menos até ao momento em que despertamos a ouvir das profundezas cavas da sanita:

- Sabes onde puseram os rolos de papel higiénico?

A Gaffe fantasiosa


Sou uma rapariga saudável, logo, também eu tenho materializado imensas fantasias eróticas. O meu problema é que, mal realizo uma, surgem dez do nada e para tanto sonho é tão curta a vida.

Confesso que continuo a imaginar o meu poderosíssimo Marlon Brando, nos seus tempos áureos, com uma coisa enorme no meio das pernas – a moto. Assumo que me perco em fantasias muito pouco asseadas – graças ao Senhor, ou aos senhores, como me aprouver – com esse belíssimo animal, mas estou mais controlada e já não acordo a gemer como uma gata em telhado de zinco quente - sim! o Newman participa.

No entanto, não consigo deixar de pensar que há dois locais onde toda a fantasia tem o seu Nirvana:
Não há nada como o Vaticano, pejado de seminaristas virgens de batina negra e prontos a aprender o catecismo que nós lhes quisermos ensinar ou o alto mar, repleto de testosterona marinheira intacta e reprimida, pronta a soltar-se no primeiro porto feminino.

Creio ser natural raparigas espertas como eu desejarem unir as duas longitudes, numas jornadas mundiais da juventude molhada. Se o conseguirmos, ficamos com um homem de joelhos, enquanto nos sentimos encharcadas pelas bravas ondas das marés.


19.5.23

A Gaffe olímpica

Maria Umiewska
Quando os deuses decidiram que era chegada a hora de distribuir benesses, a Gaffe estava sentada na fila da frente, de perna traçada, com os sapatos Manolo Blahnik da irmã, caracóis fulvos a reflectir os relâmpagos divinos, de tailleur Chanel a preto e branco, carteira de crocodilo com ferragem Prada e o colar de pérolas da praxe.Um luxo.
É evidente que os deuses se renderam.


- A piquena é o máximo!

A piquena teve então direito a tudo. É evidente que não tem nada a declarar a não ser os dois irmãos desesperantemente perfeitos que lhe foram doados.

Seguindo as passadas do Espírito Santo, a Gaffe considera uma maçada ter o seu nome misturado com números de somenos importância ou a titular contas que só devem ser manuseadas pelos economistas e por aquelas criaturas que marcam uma cruzinha na ausência de rendimentos quando lhe preenchem o boletim do IRS.

MAS:

- A Gaffe sabe que nos tempos que correm é socialmente mais correcto choramingar desgraças de plástico do que usar as pérolas da avó.

- A Gaffe sabe que é mais bonito e mais fofo esgadanharmo-nos pelo panda ou pelo tigre da Malásia, tão fotogénicos, do que defender a carriça da Nova Zelândia ou o morcego do Uzbequistão que parecem os amuletos horríveis daquela tribo que seca e mirra as cabeças dos inimigos para as usar ao pescoço.

- A Gaffe sabe que não é conveniente esbardalhar um vison, mesmo uma excelente imitação, porque nos arriscamos a ser acusadas de ter assassinado o Topo Gigio e de sermos facínoras ambientais.

- A Gaffe reconhece que chorar é mandamento neste mundo e que quem não chora não mama ou já está morto e que, posto assim, é bem melhor optar por nos desfazermos em lágrimas com make-up à prova de água, dentro de um Rolls.

- A Gaffe descobre cedo que é mais inspirador ser-se falido igual aos outros que faliram e teórico abespinhado com as tragédias pequerruchas de mundos pequeninos, do que entregar ao que pede uma sardinha piedosa uma rede de pesca unida a dois tabefes nas bocas descaídas dos falidos que nós somos.

- A Gaffe percebe que um sofá caseiro e amanteigado é o lugar mais conveniente para nos insurgirmos contra a guerra na Ucrânia e caçarmos russos à la carte.

É evidente que apesar das dádivas dos deuses, a Gaffe às vezes sente um buraco negro dentro do peito para onde é perigosíssimo espreitar.

Enche-o de reprovações beatificadas, de hipócritas revoltazitas, de condenações popularuchas, de indignações bolorentas e de mesquinhos beliscões moralistas, manda que o tapem com cimento armado em chique e vai afogar o sentimentozinho de culpa que lhe entregam no SPA do Olimpo.

18.5.23

A Gaffe selada


A Gaffe ficou estampada e espantada com o cheiro a bafio do selo comemorativo da Jornada Mundial da Juventude 2023.

Não se importou grande coisa com a verdade daquilo tresandar a Estado Novo. Tinha um certo apelo vintage a não deszelar e a condizer com as interacções do SIS com adjuntos demitidos a soco telefónico.

Stefano Morri acreditou que um bacalhau basta a uma turba de famintos deslumbrados de joelhos perante alegados lucros futuros, muito pios e com pouco pio, e descurou o estudo prévio imprescindível a este tipo de produto.

A Gaffe absolutamente pro bono descobre agora a sua proposta bem menos padronizada.

Então vá. 

A Gaffe com hortênsias


Foram as hortênsias que abafaram a alameda de vinhas que ia do portão de ferro forjado até à soleira da porta. Mortas, as ramadas surgiam como dedos pretos e enrugados, a furar o que se tornara opaco pelas invasoras, apontando a incúria da minha avó, que as deixara acabar porque quando vivas, no tempo das vindimas, obrigavam a esforços redobrados ao fazer chegar homens que manchavam tudo.

As hortênsias depressa adquiriram a coragem para sem pudor dominarem tudo. A alameda estreitou e escureceu. Quando as hortênsias começavam a florir os ramos tombavam de pesados e os mais altos curvavam. O caminho assemelhava-se nessas alturas a um túnel. A ordem e mesmo a simetria exigidas pela minha avó a tudo o que vivia, foi dispensada ali. Era a sua excepção. Todas as recomendações e todos os sustos das mulheres que adivinhavam ao entardecer bandoleiros e rafeiros e barulhos errantes irrompendo do caos, foram ignorados. As hortênsias tiveram permissão para assolar aquela parte da casa.

Eu voltava quase sempre com braçadas enormes de hortênsias que a avó arremessava para jarras sem água. Sucumbiam secas.

Da alameda sobrou a minha memória de ramos nos braços que de tão grandes me resguardavam o tronco. Hortênsias com braços e pernas a caminhar junto do murmúrio da minha avó.

As hortênsias crescem furiosas e obcecadas. Invadem as esquinas e os interstícios da memória. Empurram e furam, rebentam e cavam. Surgem de súbito e tornam-se raivosas, alastrando com medo de morrer.

Iguais às que fotografo agora, tornam curvo o tempo que é uma hortênsia numa jarra sem água.

17.5.23

A Gafe apaziguada

Gucci
O calor iniciou o seu massacre.

Há duas semanas que sentia que poderia se me calasse passar despercebida e escapar às labaredas.
Sentava-se num dos bancos de pedra que rodeiam a cisterna e ficava quieta a ouvir a sombra a trepar pelas árvores frias. Começava a erguer-se do chão, tingindo-o de cinzento. Alastrava até encher a água de chumbo picotado pelo vermelho das carpas asfixiadas que vinham abrir a boca à superfície. Depois, como bicho insidioso, a sombra enlaçava os troncos dos teixos. Sentia o barulho rumorejante desse trepar irreversível.

As mãos da sombra são frias. Tocavam-me nos pés, nas mãos, na boca, e imobilizavam as palavras e os gestos e mesmo o toque ínfimo do fio de água que alimenta a cisterna se estilhaçava na pele líquida com a invisibilidade da finitude. Mergulhava nesta descoloração com a beatitude dos que desistem, com a aceitação dos suicidas e deixava que a consciência da minha morte crescesse indolor.

Dentro de mim, a morte vai crescendo igual à sombra da cisterna e a placidez deste facto tranquiliza-me, como me apazigua a sombra a crescer nos teixos frios.   

Agora o calor desabou e um pavão destrói a obscuridade com o grito de jóias estridentes.  


A Gaffe no dia do avô


Vou procurar em todos os olhos das ruas o que te quero dizer e hoje, exactamente hoje, no dia dos teus anos, a nudez das coisas será completa e nos tecidos destas pontes vou procurar o que queria ter para te entregar.

Gostava tanto!

Durante a minha vida toda aproximei-me daqueles a quem bastava o amor para se entregarem e como se fossem lagos, nas vidas que se cruzam com a minha, mergulho as mãos dos olhos.
Então a minha vida deixou-se aquietar, mas na quietude arde-me o teu olhar de ver a vida, afogueando os ninhos dos meus braços, deixando os outros a morar em mim, que me inquieto se não acreditar ter à minha volta, à espera, os teus abraços.
Tenho restos de velas e de lenços e de capas e de mantos e de trapos que roubei, rompi e que não sei vestir, que não são meus. Sou carteirista, ladra, vadia e vagabunda de almas. Também sou peregrina dentro delas.
Pensava não ter gente. Pensava só ter olhos.
Nunca me senti capaz ou merecedora de recolher nos braços a impossível claridade de me sentir amada sem motivo ou corpo.

Hoje vou procurar por todo o lado uma palavra que não sei sequer pronunciar por dentro. Queria-a amarrada a mim, para ta entregar comigo atada, e ao descer em mim, que não a vejo fora, encontro-te inteiro num abraço.

Gostava tanto!

Descubro assombrada que te quero sempre aqui, assim, em mim, cá dentro.

Se eu chorar agora é de mansinho por descobrir que tenho os braços habitados por ti e que se a vida me deu olhos foi só para te olhar o coração.

16.5.23

Agaffe numa despedida

Bruno V. Roels
Encostou o punho esquerdo fechado ao peito, com a palma da outra mão a pr
otegê-lo, e inclinou a cabeça levemente. Depois, e quase a medo, baixou o punho resguardado e desfez o laço. Vi-o afastar-se e repetir o gesto quando do vidro eu sabia que o deixaria de ver logo a seguir.
Depois o meu japonês partiu.
Soube - a minha irmã informa de sobrancelha erguida -, que a delicada elegância do oriental gesto que foi feito, tem um poema dentro:

Em vez do coração, leva apenas no peito o que lhe dei. O coração fica comigo.

A Gaffe no banco de trás

Bozena Jelcic
Até à autoestrada o caminho é de buracos e curvas apertadas e estreitas.

A mulher ao lado do condutor acomoda-se no banco de forma a minorar o transtorno dos solavancos. Usa o cabelo apanhado por um lenço de seda. Na terra havia apenas um cabeleireiro, um hair stylist, chamado Vitinho, que levava quatro euros e meio por lavar e pentear. Jamais a indignada cabeleira seria entregue a manápulas que, segundo lhe reza a história dos outros, de tão baratas não podem ser perfeitas.

Está em silêncio. O condutor olha-a de soslaio. Vê-a retirar da carteira a cigarrilha.

- Não podes fumar aqui - diz o rapaz.

- Vamos ultrapassar a Sharon Stone e abrir a janela do teu lado.

Acende o cigarro e espalha o fumo do primeiro travo como se fosse urgente o nevoeiro para disfarçar imperfeições que não existem.

- A tua agressividade é de uma inutilidade confrangedora.

A mulher permanece calada. O fumo do cigarro a esvair-se.

- Que foi agora?

- Estou a imaginar a tua frase dita pela Eunice Munoz vestida de freira, encenada pelo Diogo Infante.

- Viste a peça? Sempre achei que fosses mais Ionesco.

- No máximo Brecht.

Calam-se.

São cúmplices há demasiado tempo e o silêncio é permito sem constrangimentos entre os dois. Ambos reconhecem o que é inútil e o rapaz percebeu há muito tempo que a mulher manipula as decisões do clã de forma insuspeita, mas irrepreensivelmente eficaz. Ela sabe que o homem que agora tossica de forma irritante repleto de fumo, resiste às investidas do touro que é solto quando nas arenas o público o exige.

Seduzem os dois da mesma forma. Espiando a vítima. Preparando o lugar da emboscada e conseguem suportar a espera, aninhados contra o vento, rasteiros, rasando o traiçoeiro, atentos a mais ínfima distracção daqueles que desejam e, na altura certa, escolhem o lugar exacto, o desacautelado movimento, o mais desprevenido gesto, o sítio, a veia, a artéria, o órgão onde cravar as garras.

Usam, os dois, um egoísmo exacerbado como arma, incontrolável e indomado.

É a força que provém desse egoísmo que os torna insensíveis à dor dos seduzidos e lhes apaga, anula e incapacita a urgência que é sentir o padecer dos outros como se deles fosse e os tocasse. São dois animais unidos pela única vontade de possuir por inteiro o que desejam. Esta é razão da indiferença absurda com que olham as vidas dos que não lhes acicatam apetites.

Nenhuma bandeira, pendão ou insígnia, nenhuma causa, partido ou revolta os irá motivar. São criaturas ímpias, sem nada que os force a erguer barricadas e a içar a voz, em forma de espada, em nome de alguém.

O rapaz entra na derradeira curva.

Vê o mar.

- Devíamos ser amantes.

A mulher hesita. Desvia o olhar e acende outro cigarro.

- Seria incesto, creio eu.

- Eu gosto do pecado. Até a palavra me seduz.

- Eu gosto de pecar, mas é mais sedutor ficar a desejar-te.

Ao longe, no banco de trás, assim narrados, os meus irmãos são bem mais fáceis de entender.


15.5.23

A Gaffe sem regresso


Falta-me o que juntas já tivemos.
A sombra dos teixos a crescer nas pedras e as tranças de água dos olhos e da lua aberta.
A claridade a crescer nos dias.
As penas brancas do estilhaçar das nuvens.
Um fio de pérolas no pescoço das tardes, inevitável como os enxames de abelhas no regaço do tempo.
O teu amor de sossegos mútuos ou de terra ou da mais íntima placidez da seiva.
A espera dormindo.
O sossego.

Só tu sabias.

Só tu sabias que as palavras olham os abismos e espreitam as vertigens sem fazer vibrar o ar que rodeavas, porque trazias secretos recantos onde a tua voz se ouvia claramente e os teus olhos volteavam dentro deles.
Sabias do sabor de terra a florescer e de pólen espalhado nas toalhas.

Dos meus olhos escorrem papoilas descerradas e no abandono dos dias dormem as deslumbradas e ácidas manhãs das luzes e das casas que tu agora desabitas.
Vou, como quem anda numa alameda de árvores decepadas, sem esperar voltar, porque o regresso era a tua mão.

Fazes-me falta, avó.

A Gaffe diz adeus


Na estrada que ainda me leva à infância, há uma estranha árvore que nunca perde folhas embora pertença, dizem, ao grupo das caducas.
Fica ruiva.
Adquire tons solares que rasgam a cobertura sombria, esverdeada e húmida, enevoada, dos caminhos.
Nunca parei para lhe tocar ou tentar decifrar aquela teimosia. Creio mesmo que sempre evitei olhar de frente para os ramos frágeis, quase quebradiços, onde pingavam minúsculas e ovaladas folhas luminosas. Às vezes percebia-a a ondular, a curvar ao vento, de copa rala a roçar e a riscar o chão. Outras era o choro a escorrer na fina desolação de se ver sozinha.

Soube, na manhã a jorrar sol nos braços, que a árvore será em breve derrubada para que se alarguem os caminhos.
Ontem percorri todas as distâncias que me separam da infância. Parei o carro e fui, ao entardecer, dizer-lhe adeus.

13.5.23

A Gaffe oriental

Douro
Deixaram-no comigo. A missão seria cuidar dos seus mais pequenos anseios e vontades.

Tem o maxilar quadrado, viril. Olhos de amêndoa oblíquos e negros. Nariz estreito, fino, longo. Duas covas na face quando sorri e o cabelo liso e pesado, nocturno.
 
Aprendo a reconhecer os traços japoneses e a espantar-me perante a negação do estereótipo que eu guardava para definir as orientais figuras.

Mais novo do que eu dois anos, de musculatura seca e definida e delicados gestos, repensados modos e discretos timbres, o japonês descobre o que lhe mostro e é deslumbrado pelas relíquias do Vale Abraão erguido em pedra, terra em socalcos, luz e rio.

As noites são reservadas aos mais prosaicos serões culinários, construídos como obras-de-arte pela extraordinária da Josefa - herdeira da minha querida Jacinta -, mulher corpulenta nos temperos que ainda não domina de forma consensual.

Foi contido quando provou o ervilhoto guisado, mas quando chegou a vez da carne de caça do Douro Superior - perdiz estufada com presunto, embebida em picantes especiarias e suspeitos molhos -, quase chorou incendiado. A extrema delicadeza impediu-o de gritar ou de correr em busca de extintor. O embaraço torna-se risível e burlesco quando é sufocado por razões externas às que conhecemos. No instante em que desatei a rir a minha mão destravada e viperina foi pousar na coxa - da oriental figura e não da perdiz quase diluída de tão suculenta - perto da virilha.

Silêncio.

A perna hesitou, fechou e retraiu, mas foi no instante em que eu recuava que senti o lasso, o descontrair do músculo retesado no segundo antes, e o calar dos olhos fixos na minha boca aberta pelo riso.
Se me aproximasse e se nesse encontro não houvesse o prolongamento da estrada que encetava, teria o Oriente imediato, a descoberto e nu, pronto a tocar outras culturas.
A minha mão ergueu-se despudorada.

O que me torna feliz é este magnífico estado de fascinação quase física, este pairar num espaço fictício de paixão rasante, esta sumptuosa e cintilante condição que me torna refém, que me absorve, consome, esgota e avassala.

Tenho-o subjugado e o pensar aborrece quando não penso naquele oriente indescritivelmente macio, incalculável no veludo, intraduzível na doçura e no gemido.
Gosto de saber que todas as horas são gastas, corrompidas, absorvidas numa espera inútil da minha nudez impossível.
Gosto de ficar, de pairar algemando a espera, apesar de saber que não vai durar por muito tempo esta prisão oblíqua.

Apanham-me a sorrir no meio das tormentas e é embaraçoso pensar apenas nas cordas e nos pavios, nas âncoras e nas traves, nas velas e nos mastros mais erguidos, mas enquanto for tempo de orientais navios, de brisas de veludo e de cetim e seda, não vou remar sequer.

Depois eu sei nadar. Nestas piscinas sou olímpica.

12.5.23

A Gaffe sem sensualidade

Gerhard Haderer
Espapaçada no sofá, a Gaffe debica Sete Pecados Mortais, catrapiscando Brad Pitt, e conclui que o rapagão seria um sério candidato à capa do catálogo se os deuses decidissem criar um dedicado à sensualidade. Rubén Cortada ocuparia as páginas centrais, quer do catálogo, quer da nossa cama, e a Gaffe admira-se perante a discrepância que existe entre o número desmesurado de condições que se devem verificar para que um homem seja considerado sensual e a miséria que basta para que não o seja.

Tendo em conta o título da fita que lhe permite a visão de um dos animais mais interessantes do planeta, que alçou a Gaffe à mesma condição de Angelina Jolie - a de solteira -, a Gaffe decide escolher sete pecados que aniquilam de vez a sensualidade masculina.
 

 I

Pensar que é cosmopolita se usar um fato muito justo porque o comprou dois números abaixo do correcto, encharcado em Hugo Boss e sapatos aguçados que terminam em bico. Faz com que pareça que saiu da fábrica sem passar pelo controlo de qualidade e corre o risco de levar com o against terrorism nas ventas, porque Hugo Boss é nitidamente uma arma química.

 II 

Ficar com farpas de bacalhau nos dentes. Carne, ainda vá que não vá, porque se pode desculpar declarando que macho que é macho costuma mascar tabaco. Bacalhau nunca. Um dos maiores pesadelos das mulheres é ficar com alface colada aos dentes enquanto sorriem desprevenidas à nobreza. Podemos sempre afirmar que é de cultura biológica, mas a nossa imagem fica comprometida. Farpas de bacalhau enfiadas nos dentes de um homem, são a alface da desgraça da mulher.

III

Persistir com demasiado entusiasmo no estudo que refere que a pilinha mede afinal em média 13,2 cm. O sorriso alarve com que ilustra a insistência, leva uma rapariga a reconhecer que a alegria que demonstra o deixa muito diminuído. Todo o resquício de sensualidade fica mirrado sobretudo quando estamos a almoçar em Mirandela e a sobremesa é banane flambée.

IV

Não fazer descontos para a ADSE e atabalhoar as declarações do IRS, arrasa a sensualidade de um homem, porque o obriga, quando o vento lhe descobre a careca, a declarar que se esqueceu e a choramingar porque os outros meninos são maus. Nem sequer é sexy e faz com que nos apeteça imenso não lhe pagar o ordenado e afirmar a pés juntos que o fizemos, mas que mais uma vez o homem se esqueceu.

V

Jurar com todos os dentes - com imensas farpas - que não passa de um pindérico a armar aos cucus e que o apartamento onde vive à grande e à francesa numa luxuosa capital europeia é afinal emprestado por um amigo com muito mau aspecto. Os amigos feios devem apenas servir para fazer contraste e lhe inflacionarem o charme que acaba assim por ser maior se o apartamento for roubado e se aproxima a prescrição do caso.

VI

Achar que é sedutor colar o hálito à nossa cara quando nos querem sussurrar um elogio sem que a mulher - a legítima -, perceba. Faz com que acreditemos que até mesmo Ricardo Salgado - um homem com tão fraca memória! - se recordaria da imagem dos pontos negros infectados no nariz do infractor.    

VII

Dizer treuze e escrever um romance com o título Madrugada Suja. Não é sensual insultar toxicodependentes nas capas dos livros.

 


Não é preciso que estes sete pecados se detectem em simultâneo. Basta que se cumpra apenas um para sentirmos que estamos tão longe da sensualidade masculina como a rainha de Inglaterra de um bela mini-saia.